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Jogos Olímpicos 2016: perspectivas

Aproxima-se o momento de o Rio de Janeiro receber os Jogos da XXXI Olimpíada. Pela primeira vez, os Jogos estarão na América do Sul. É um momento único para pesquisadores, jornalistas, cidadãos em geral refletirmos sobre o evento. Qual o seu legado? Qual a sua história? Qual o lugar do Brasil na história olímpica?

Pelo que tenho lido e visto ultimamente, o debate sobre o legado ainda não chegou as páginas dos principais veículos nacionais. Os gastos olímpicos foram vultosos e ao que tudo indica serão alvo de investigações. Seria maravilhoso que as construções e equipamentos olímpicos tivessem passado incólumes aos escandâlos envolvendo construtoras, dinheiro público e obras de infraestrutura. Não creio. E nos próximos meses provavelmente surgirão denúncias aqui e ali. O debate público sobre o legado tangível e intangível é em si uma herança benéfica dos Jogos. A opinião pública deve a todo momento refletir sobre como o dinheiro recolhido com impostos está sendo investido, e não somente em explosões efêmeras de consciência cidadã incitadas pelos megaeventos (obviamente que os custos envolvidos nesses eventos despertam por si sós a atenção, indignação e até mesmo a ira de todos nós). Vejamos, por exemplo, o Estado do Rio, devotado nos últimos anos a promover inúmeras benesses a empresas privadas, mas que nos últimos meses tem praticamente decretado falência, deixando à míngua áreas fundamentais, como educação e saúde, e áreas estratégias, como a pesquisa científica (vide o caso dos atrasos sistemáticos de bolsa na FAPERJ). Urge que tornemos as Olimpíadas, assim como fizemos com a Copa, como um momento para fiscalizar o emprego do dinheiro público; mas, repito, não momentaneamente – que o zelo com o bem público seja perene. Penso, utopicamente, que grandes eventos poderiam lançar as bases para a promoção de uma cidade mais igualitária, com amplo acesso à saúde de qualidade, lazer para todos e investimentos maciços em educação. Historicamente, no entanto, esse não é o padrão que vem sendo obedecido.

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Operação Lava-jato investiga práticas ilícitas na licitação e na execução do projeto “Porto Maravilha”, 2ª obra mais cara do “pacote olímpico” segundo reportagem do portal “UOL”.

Em relação à história dos Jogos e de seus esportes, não me parece (ainda) que a mídia e mesmo a Academia tenham devotado a devida atenção ao tema. Não sou um assíduo espectador de canais esportivos, porém leio com certa frequência notícias impressas e on-line sobre esportes. Justamente agora não deveria ser o momento de incutirmos uma educação olímpica na pauta fixa da imprensa? Do mesmo modo, não seria o momento de rompimento com a lógica do tema único (futebol) quando pesquisamos esportes no Brasil? Diante do declínio da Seleção Brasileira de futebol, me parece que esse é a hora de olharmos com carinho os demais esportes. Sendo ambiciosos, poderíamos desejar uma maior abertura das entidades acadêmicas à temática do esporte. Na última lista de trabalhos aprovados na COMPÓS (congresso dos programas de pós-graduação em comunicação nacionais), apenas 2 trabalhos, dentre 170, abordavam o esporte – menos de 1% do total. E, mesmo assim, falavam de futebol, nosso tema único. Isso porque estamos em ano olímpico. Obviamente, esses dados podem ter inúmeras causas: um número reduzido de trabalhos sobre esporte submetidos, a baixa qualidade dos mesmos ou, o caso mais grave, uma sistemática recusa ao tema.

Não se faz mais necessário desenvolver a discussão sobre a pertinência da relação entre mídia e esporte. Ela está dada desde o início do século XX. O historiador Victor Melo já deixou claro que a imprensa é causa e consequência da popularização do esporte no Brasil. Essa afirmação poderia ser expandida, com pequenas alterações, a um nível internacional; outros países provavelmente experimentaram processo semelhante. A mídia sempre caminhou lado a lado com o esporte. Coubertin, criador do modelo contemporâneo dos Jogos Olímpicos, talvez antevendo o papel da imprensa na divulgação de seu evento, elogiou o apoio dos jornalistas em seu discurso na Sorbonne em 1894 [“É verdade, cavalheiros; nós somos rebeldes e é por isso que a imprensa, que sempre apoiou as revoluções beneficentes, entendeu e nos ajudou – pelo que, aliás, agradeço de todo o meu coração” (OLYMPIC REVIEW, 1969, p. 394, tradução minha)]. Se é tão umbilical essa relação comunicação-esporte, o que falta para direcionarmos a atenção devida às pesquisas sociais sobre o tema?

É motivo de estranheza que não estejamos mais ávidos por entender os meandros de tão profícua associação. Raros são os congressos na área de ciências humanas e sociais que possuem um grupo de trabalho sobre esportes, ou que ao menos o mencionam em suas ementas, como parte do escopo possível. Há um tácito esquecimento do tema. A História, a meu ver, é a disciplina que mais avanços tem feito nas investigações sobre o esporte. As pesquisas conduzidas na área tem mostrado como as práticas esportivas, institucionalizadas ou não, estão presentes desde o século XVIII na história do Brasil, ocupando espaços no lazer, no trabalho, na saúde e em outras esferas da vida do cidadão. Os registros da imprensa atuam como fontes privilegiadas nessas investigações históricas.

Não sei ao certo como terminar este texto, talvez por ter adentrado em digressões e indagações de difícil resposta. Não possuo receitas de bolo ou prognósticos tanto para os Jogos Olímpicos no Rio quanto para o lugar das Olimpíadas (e do esporte) nas pesquisas acadêmicas. Guardo sinceras esperanças de que os Jogos deixem algum legado positivo, ao menos intangível, para a cidade do Rio. Na verdade, acho que já o estamos presenciando. A preocupação dos governantes quanto aos possíveis protestos nos mostra que a capacidade de mobilização do cidadão comum passa a ser cada vez mais respeitada e temida. Quanto à academia, aguardarei o próximo Intercom (congresso também da área de Comunicação) para observar se houve algum incremento, quanti e qualitativo, nos artigos “olímpicos”.

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