Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo primeiro episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo primeiro episódio é “Mário Filho, jornalismo e romance”. Com apresentação de Mattheus Reis e Fausto Amaro, gravamos remotamente com João Paulo Teixeira, jornalista, graduado pela Universidade Federal de Juiz de Fora, e Ronaldo George Helal, professor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e coordenador geral do LEME.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo primeiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Maracanã”. A canção foi composta e interpretada por Francis Hime.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

O Negro no Futebol Brasileiro – Mário Filho [livro]

A invenção do país do futebol – Antonio Jorge Soares, Hugo Lovisolo e Ronaldo Helal [livro]

Pelé [documentário da Netflix]

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros, Carol Fontenelle e Fausto Amaro
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Fausto Amaro
Convidados: João Paulo Teixeira e Ronaldo Helal

Artigos

Meu nome é M-Á-R-I-O F-I-L-H-O

No dia três de fevereiro deste ano, fui pego de surpresa: queriam mudar meu nome. Logo eu! Mundialmente conhecido. Cartão postal do Rio. Meu nome é minha identidade! Ele está estampado nos jornais, livros, músicas… meu nome está nos jantares de família. Na memória dos torcedores. Eu sou a saudade de muitos dos meus frequentadores e o desejo daqueles que ainda não me conhecem. Meu nome é a interseção entre flamenguistas e tricolores. Já abrigou botafoguenses, vascaínos, corintianos, santistas… meu nome é a interseção entre a terra e o céu, com as saudosas presenças de Sobrenatural de Almeida, Nossa Senhora dos Gols Perdidos, Gravatinha, Santo dos Gols Impossíveis, Nelson e Mário.

Eu sou setentão… ano passado não me faltaram homenagens… e agora, justo nesse momento em que eu vivo uma solidão sem tamanho, me aparecem com mais essa. Eu figuro no coração de milhões de torcedores. No sonho de milhares de jogadores. Eu sou parte daquelas histórias de “primeira vez” que ninguém esquece.

Não querem me apagar totalmente! Ufa! A ideia, pelo que fiquei sabendo, é colocar o meu nome no Complexo Esportivo. Mas eu não sou complexo. Eu sou simples. Tão simples quanto os pulos de alegria que as torcidas dão quando comemoram um gol. E, toda vez que uma torcida vibra, eu vibro junto. Porque essa é a minha essência.

Aliás, vocês conhecem a minha história? Eu nasci no dia dezesseis de junho de 1950. Waldir Pereira, mas conhecido como Didi, meio-campo da Seleção Carioca foi o primeiro a ter a honra de fazer um gol em aqui. Mas não pensem que foi fácil me erguerem. E é justamente aqui que a história fica mais interessante.

A intenção do pessoal daquela época era construir um grande estádio para a Copa de 50. E assim começaram a pensar no projeto que daria origem a mim. Uma parte dos idealizadores e apoiadores queriam me colocar láaaa em Jacarepaguá. Quem defendeu com unhas e dentes que eu fosse erguido perto do rio Maracanã foi Mário Filho. Ele queria que eu ficasse em um lugar acessível para todos. Já imaginaram se eu tivesse parado lá em Jacarepaguá? Nem Mário Filho e nem Maracanã…. sabe-se lá como iam me chamar…

O papel de Mário não para por aí. Ele era um entusiasta do futebol! Vocês sabiam que foi ele quem criou o termo “Fla-Flu”? Pois é! Ele é o dono do apelido do clássico mais charmoso que é disputado em mim. Além disso, Mário fez parte de uma comissão que pensou na minha existência como um todo. Desde onde eu ficaria até o preço dos ingressos que seriam vendidos. E, por influência do meu criador, só uma conclusão era possível: eu tinha que ser um estádio do povo. O futebol, que começou como um esporte de elite, aos poucos se tornava mais popular. E Mário Filho teve um papel fundamental nisso, sobretudo no Rio. Aliás, Filho que nada! Filho sou eu! Ele é o Mário Pai!

Tanta História… tantas estórias… tantos afetos… e ainda querem mudar meu nome. Querem me dar nome de Rei. Uma ironia do destino, né? Eu vi esse menino crescer! Seu milésimo gol, esse que todos falam, foi marcado aqui. Para que criarem essa rivalidade entre nós agora? Eu nunca pedi para entrar para a realeza. Pelo contrário! Eu disse a vocês – fui criado para ser um estádio do povo. Assim fui imaginado. Assim permanecerei.

Então, meus caros, aqueles que quiserem mudar o meu nome que lutem! Mais do que processos burocráticos, eles terão que enfrentar a História. Eu sou palco de duas finais de Copa do Mundo. Eu já abriguei, em uma única partida, 178.850 amantes do futebol. Esse pessoal, que teve essa ideia desnecessária, pode até querer mudar o futuro. Mas eles não têm como mudar o passado. Eu sou a história. E eu nunca serei esquecido. A minha voz, que é a voz de milhares de torcedores, vai ecoar na eternidade. E então, quando perguntarem meu nome, eu direi: meu nome é Mário Filho.

Fonte: Wikipedia
Eventos

Acompanhe os próximos dias de programação do #Maraca70

O Seminário #Maraca70: Mídia, Memória e Patrimônio começou ontem, dia 05/10. Para facilitar a sua vida, disponibilizamos abaixo os cards com a programação de hoje e amanhã, bem como os links para acessar as lives no Youtube. Anota no caderno e marca na agenda! Basta clicar na imagem que você será redirecionado para o Youtube.

Eventos

Encontros LEME sobre o Maracanazo nesta sexta-feira

LEME reúne pesquisadores para discutir o Maracanazo

16 de julho de 1950 – diante de mais de 200 mil pessoas, o Brasil se calava com os gols de Shiaffino e Ghiggia, no Maracanã. A épica derrota para o Uruguai, que fez o Brasil amargar o vice-campeoanto da Copa do Mundo, ficou conhecida por Maracanazo. Para debatermos esse episódio e suas implicações, o LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, nesta sexta (31/07) às 19h, um encontro virtual.

Para esta edição especial dos Encontros LEME, contaremos com os pesquisadores Alvaro do Cabo, Gastón Laborido, Francisco Brinati e Sergio Souto, com mediação do também pesquisador Filipe Mostaro.

Aguardamos vocês no canal do LEME no Youtube.

Testeira Facebook - Especial 70 anos Maracanazo

 

 

Eventos

Encontros LEME discute os 70 anos do Maracanazo

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, no dia 31 de julho de 2020 às 19h, a sexta edição dos Encontros LEME em 2020. Dessa vez, faremos uma edição especial para lembrar os 70 anos do Maracanazo. Para discutir esse episódio histórico do futebol nacional, contaremos com a presença de Alvaro do Cabo, Gastón Laborido, Francisco Brinati e Sergio Souto.

Por conta da pandemia, os Encontros estão sendo realizados na modalidade virtual. Para essa edição, faremos uma transmissão ao vivo, em nosso canal no Youtube. Não será necessário se inscrever previamente, já que a transmissão será aberta.

Testeira Facebook - Especial 70 anos Maracanazo

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte.

Artigos

Carta para o amigo Ghiggia

Meu querido amigo Ghiggia,

Inicialmente, permita-me chamá-lo de amigo.

Você não me conhece, mas nas últimas sete décadas você esteve presente em quase todos os meus pensamentos sobre futebol, em muitos dos meus sonhos – e pesadelos –, em boa parte de meu imaginário saudoso sobre tempos que não necessariamente eu vivi.

Logo, você jamais será indiferente a mim.

Eu havia de escolher, pois, se você seria meu inimigo ou meu amigo.

E vejo-me obrigado a confessar que por anos eu não desejei menos do que a primeira das opções. Odiá-lo com ímpeto, com cegueira e dor, com fúria e tristeza, com a ignorância típica daqueles que odeiam, apenas pelo bel prazer de descontar em alguém toda a minha incompreensão sobre um dia que existiu justamente para ser incompreendido.

Mas tem uma força dentro da gente, que por falta de condições de nominá-la aqui chamarei de “maturidade”, que nos faz mudar de opiniões, compreender melhor a vida, olhá-la por outros ângulos.

De forma que o ódio virou admiração. A inimizade virou respeito. O pavor virou beleza. A dor virou amor. A tragédia? Bom, tragédia é tragédia. Continuará sendo para sempre. Mas já consigo enxergar aquele dia como um dos mais belos e indescritíveis da história do futebol.

E é justo por isso que estou aqui a te pedir para ser aceito como amigo.

Eu sei, precisou-se de todo este tempo de hiato para que eu admitisse a ti a beleza de tuas pernas, de teu gingado, de tua força, de tua habilidade, de tua velocidade, de teu gol.

Perdoe-me por isso, amigo. E que não seja tarde. Que do olimpo, da eternidade, do além onde os craques viram deuses, você não guarde mágoas de um tolo como eu.

Hoje já consigo assistir aquele gol sem chorar, ainda que o coração insista em acelerar, numa busca insana por mudar a direção da bola, por absolver o velho Barbosa, condenado para sempre por uma culpa que não deveria ser dele.

Desculpa o devaneio, Ghiggia, querido. Como te disse, e repito agora, já consigo ver todo o esplendor do lance, mas ele não deixa de ser trágico e asfixiante por causa disso.

Mas eis que estamos aqui a lembrar dos 70 anos daquele dia inexprimível.

Num 16 de julho como hoje, mas em 1950, no saudoso Estádio Municipal, o conceito de “instante” foi modificado para sempre.

Que dia impressionante de se resgatar, meu amigo. Parabéns por ele. Você, Obdúlio, Máspoli, Schiaffino e todos os seus companheiros merecem os louros.

A propósito, amigo, se me permitir mais uma indelicadeza neste momento, anseio em falar algo mais. Em compartilhar contigo algo que me assombra justamente sobre o dia de tua morte.

Porque, se há uma coincidência que me arrepia toda vez que a percebo é o fato de você ter morrido na exata mesma data do Maracanazo que tu foste protagonista. Pois hoje é dia de sentir em toda a sua profundidade não só os 70 anos da final da Copa de 1950 e do bicampeonato mundial do Uruguai, mas também os cinco anos da morte do homem que tornou aquele momento eterno.

Aliás, uma última questão.

Desculpe-me de verdade por nós brasileiros, que temos a péssima mania de preferir nos culpar a admitir a superioridade adversária. Mas hoje sei que, acima de tudo, foi uma conquista que a brava e heroica Celeste fez por merecer.

Beijos, querido.

Nem sei bem porque, mas obrigado por aquele dia.

Ele é mágico justamente por ser inexplicável.

Ghiggia morreu assistindo ao jogo do Inter na Libertadores, revela ...
Fonte: ESPN.

Artigos

70 anos do Maracanazo e entrevista de Ronaldo Helal

No dia 16 de julho de 1950, com a presença de mais de 200 mil pessoas, o Brasil se calava diante dos gols de Shiaffino e Ghiggia, no Maracanã, construído especialmente para a Copa do Mundo. O Brasil era então vice-campeão mundial, perdendo a partida final para o Uruguai.

A data emblemática para a história do nosso futebol foi relembrada pela agência de notícias France Presse – AFP.  Procurado pelo jornalista Pau Ramirez, o professor Ronaldo Helal, coordenador do Leme, foi entrevistado para a matéria. Helal explicou o que representa o Maracanazo para a nossa história e a notícia está em vários sites em Bangladesh, Brasil, EUA, Espanha, Croácia e França, dentre eles Dhaka Tribune, Yahoo Sports, EstadãoIsto é, France24, Glasistre e Le 360° Sport.

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Eventos

Seminário Internacional Maraca 70 tem seus primeiros palestrantes confirmados

Gisella de Araújo Moura, Bernardo Buarque de Hollanda, Luiz Antonio Simas, Vivian Fonseca, Juca Kfouri e Marcelo Barreto – é com este timaço que o LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte), sob a coordenação do professor Ronaldo Helal,  começa a contar para o seu Seminário Internacional Maraca 70.

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No dia 6 de outubro, às 16h, sob a mediação de Álvaro do Cabo, teremos na mesa virtual “O Maracanã na literatura e na arte” Gisella de Araújo Moura, professora e autora do livro O rio corre para o Maracanã. Ao seu lado, dois craques: o professor e historiador da FGV, especialista em estudos relacionados aos modos de torcer, Bernardo Buarque de Hollanda, e o também professor Luiz Antonio Simas, autor do livro Maracanã: uma biografia.

No dia seguinte, no mesmo horário, com moderação de Leda Costa, teremos a mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”, com a escalação confirmada de Vivian Fonseca, professora e pesquisadora plena do CPDOC – FGV e professora adjunta da UERJ.

Já às 18h30 é a chegada a hora da nossa mesa de encerramento. A tabelinha fica por conta do ex-editor da Revista Placar, Juca Kfouri, e do apresentador do Redação Sportv, Marcelo Barreto, sob a mediação do professor Ricardo Freitas, vice-diretor da Faculdade de Comunicação da UERJ.

Para acompanhar toda a nossa programação, siga o @lemeuerj nas redes sociais e se inscreva em nosso canal no Youtube. É por lá que iremos transmitir nosso seminário.

Lembramos que encontram-se abertas, até o dia 31 de julho, as chamadas de resumos expandidos para apresentação no evento. Mais informações na aba Maraca 70 aqui no blog.

 

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo oitavo episódio do Passes & Impasses

Acesse o décimo oitavo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo oitavo episódio é “Maracanã 70 anos”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos o professor, historiador, botafoguense e escritor Luiz Antônio Simas, vencedor do prêmio Jabuti 2016.

Dessa vez, além do episódio principal, gravamos também um complemento, o “Prorrogação”. Sabe quando aquele jogo tá tão bom que a gente não quer que acabe? Pensando nisso, tivemos a ideia de criar esse episódio extra. Agora, toda vez que um tema render novas análises, você poderá se aprofundar ouvindo o Prorrogação. Esperamos que gostem!

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o nosso décimo oitavo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi  “Peguei um ita no Norte” na voz do intérprete Quinho.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Ana Carolina Souza e Carol Fontenelle
Produção: Marina Mantuano e Fausto Amaro
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidado: Luiz Antônio Simas
Crédito da imagem da capa: Globoesporte.com

Artigos

O Maracanã e as histórias de sua história

O Estádio Mário Filho, um dos mais importantes palcos do esporte mundial, fez 70 anos. Sete décadas de história e de muitas histórias.

Se aqui chegasse um extraterrestre, vindo de outra galáxia, sem qualquer informação sobre o que é o futebol, será que conseguiríamos explicar a ele a importância daquela construção com um retângulo gramado e um monte de assentos em volta? Provavelmente sim. Mas e se tentássemos expor a ele a relevância emocional daquele gigante de concreto para milhões de pessoas que ali estiveram, munidos de camisas, bandeiras e paixões? Aí, certamente, a resposta teria que que ser negativa.

Não que uma coisa exclua a outra. Vários historiadores e jornalistas já se dedicaram a contar a história desse estádio inaugurado nos anos 1950, para ser a principal sede da quarta Copa do Mundo da FIFA e, de quebra, se tornar o maior do mundo.

Um dos trabalhos mais consistentes sobre toda a trajetória até a inauguração do Estádio Municipal é O Rio corre para o Maracanã, da historiadora Gisella de Araujo Moura[1]. O livro narra desde a aceitação do Brasil para sediar a Copa até o Maracanazo, a final trágica para os comandados de Flávio Costa e toda a torcida brasileira.

foto: reprodução da capa do livro de Gisella de Araujo Moura

Não foi um caminho tranquilo, como nos mostra Gisella. A localização, por exemplo, gerou uma briga político-midiática protagonizada pelo vereador Carlos Lacerda, que queria que o estádio fosse erguido no distante bairro de Jacarepaguá, e o jornalista Mário Filho, defensor do terreno do antigo Derby Club, ao lado da linha férrea e muito mais acessível à população. Aliás, Mário Filho e seu Jornal dos Sports encamparam totalmente a briga pela construção do “Gigante do Maracanã”, desde seu início. Nada mais justo, portanto, que o estádio ganhasse seu nome. Em uma crônica ufanista, o jornalista definiu o que significava, para ele e para o País, tal obra: “Hoje o estádio é o mais novo cartão-postal do Brasil. Um cartão-postal que vale mais do que o Pão de Açúcar, do que o Corcovado, do que a Baía de Guanabara, porque é obra do homem. Uma prova da capacidade de realização do brasileiro…”.

A importância de um livro assim é também trazer as histórias que a história não conta como, por exemplo, a do busto de bronze do General Mendes de Morais que o próprio, então prefeito da cidade, mandou instalar em frente ao Estádio Municipal (Ele sonhava que a construção ganhasse seu nome. Após a derrota para o Uruguai, torcedores revoltados trataram de fazer naufragar qualquer esperança do político. Seu busto foi derrubado pela multidão. Há quem diga que foi parar dentro do Rio Maracanã).

Busto do prefeito Mendes de Morais (foto: O Rio corre para o Maracanã)

A trajetória do Maracanã também pode ser contada através de seus eventos mais marcantes, jogos nos quais drama e êxtase se misturam, mas também por meio da trajetória dos grandes ídolos que ali fizeram seu maior palco. Sem esquecer dos personagens que tiveram seus parcos minutos de fama, como o pequeno Jacozinho, que entrou de penetra no jogo da despedida de Zico e fez até gol com passe de Maradona, em 1985, [2] ou do jovem Cocada, jogador vascaíno que saiu do banco para decidir o título carioca de 1988 contra o Flamengo e ser expulso minutos depois[3].

Jacozinho e Maradona no vestiário do Maracanã (foto: reprodução de TV)
Cocada e sua comemoração (foto: reprodução de TV

E não podemos também esquecer dos eventos que transcendem a esfera esportiva, como eventos religiosos (o Papa João Paulo II rezou missa no estádio) ou musicais. Foi no Maracanã que aconteceu o maior show da carreira de Frank Sinatra. Em sua única vinda ao Brasil, cantou para 170 mil pessoas.

Frank Sinatra no “maior do mundo” (foto: Editora Abril)

Na busca de contar a história do Estádio Mário Filho, através de suas partidas de futebol mais marcantes,  os jornalistas Roberto Assaf e Roger Garcia escreveram o livro Grandes jogos do Maracanã, 1950-2008 [4]. Foram selecionados 62 confrontos envolvendo a Seleção Brasileira, a Seleção Carioca, os principais clubes do Rio (América, Bangu, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) e o Santos, que ali conquistou dois títulos mundiais. Os critérios para a escolha dos jogos foram estabelecidos pelos próprios autores.

foto: reprodução da capa do livro Grandes Jogos do Maracanã

Só que um livro assim rapidamente fica desatualizado, afinal o estádio continua “vivo” e, de 2008 a 2020, muita coisa aconteceu por lá. Algumas partidas emblemáticas como as conquistas da Copa das Confederações, em 2013, e a do Ouro Olímpico, em 2016, certamente teriam que ser incluídas em uma nova edição.

Nenhum apaixonado por futebol pode negar que o Maracanã tem mística própria, mesmo depois de sua completa remodelação para a realização da Copa do Mundo de 2014. É uma espécie de segunda casa do torcedor e dos jogadores também. No prefácio do livro de Assaf e Garcia, intitulado “A casa de todos nós”, o tricampeão mundial Gérson de Oliveira Nunes, fala exatamente sobre isso:

O Maracanã está intimamente ligado à minha trajetória. Comecei a frequentá-lo aos nove anos de idade, quando meu pai me levou para ver o jogo em que o Brasil goleou a Espanha por 6 a 1, quatro gols de Ademir Menezes, na Copa do Mundo de 1950. Da arquibancada, e depois dentro do próprio campo, tive privilégio de acompanhar meus mestres do futebol, Jair da Rosa Pinto, Zizinho e Didi. Ali, ao longo da carreira, colecionei vitórias e títulos, por clubes e pela Seleção Brasileira, jogando contra e ao lado dos maiores craques da história…

Mas também há um outro enfoque para narrar a história do Maracanã: por meio da visão de seu público. Não há a menor dúvida de que cada um torcedor que tem uma  história do estádio toda própria, baseada em suas experiências, vivências e emoções. É o que se chama de micro-histórias.

De acordo com os pesquisadores italianos, Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, um fato histórico não pode estar restrito apenas a sua abordagem tradicional, com uma visão macro. As micro-histórias (microstorie) trazem um detalhamento que engrandece a compreensão dos acontecimentos. Por exemplo: o depoimento de um “pracinha” que esteve no front de batalha italiano durante a Segunda Guerra Mundial não apenas enriquece a história da ofensiva da Força Expedicionária Brasileira, como a humaniza.

No futebol, também é assim, em um mesmo jogo, milhares de micro-histórias podem ser contadas.  Algumas terão maior ou menor relevância na história de vida de cada um e às vezes até na do próprio espetáculo, como no caso da “fogueteira” Rosenery, que poderia ter tirado o Brasil de uma Copa do Mundo[5].

O sinalizador lançado pela torcedora e a farsa de rojas (foto: O Globo)

Em tempos de Internet, as lembranças de alguns jogos que nos marcaram podem ser revisitadas com áudio e vídeo, a qualquer momento. Gols que antes viviam só no imaginário podem ser revistos com uma breve busca no YouTube. E a discussão sobre lances polêmicos, não está mais restrita apenas a versões de testemunhas oculares da história, já que podem ser assistidos em diversos ângulos, com tira-teimas e até com o auxílio do VAR. Mas, antigamente, não era assim.

Há alguns meses recebi de presente de uma amiga uma herança muito especial deixada por seu irmão. Flávio César Borba Mascarenhas era botafoguense, mas também um apaixonado pelo bom futebol e a prova disso é a coleção de ingressos do Maracanã que guardava com carinho. Jogos de diversos clubes assistidos por ele. Guardar aqueles pequenos pedaços de papel foi a forma que Flávio encontrou de eternizar seus momentos especiais dentro daquele estádio. Gatilhos de memória e cada um deles com uma micro-história toda sua.

O acervo tem ingressos de vários formatos, de acordo com cada época, e nele constam algumas preciosidades como o da partida que garantiu a classificação das “Feras do Saldanha” para a Copa do México. Uma vitória suada sobre o Paraguai diante de 183.341 espectadores, maior público oficial da história do estádio (dizem que na final de 1950 havia mais de 200 mil pessoas, mas não há uma comprovação).

foto: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Outra pérola é o ingresso da partida entre Vasco e Santos, no dia 19 de novembro de 1969, quando Pelé, de pênalti, marcou seu milésimo gol. Por 4 cruzeiros novos, Flávio teve a honra de ver a história acontecer diante de seus olhos.

foto: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Alguns jogos, como o duelo entre a Seleção Carioca e a Seleção Paulista, em setembro de 1967, nada tinham de decisivos, mas eram oportunidades de ver grandes craques em campo. Naquela noite, do lado da Guanabara (a fusão só se deu em 1974) estavam nomes como Manga, Leônidas, Denilson, Gérson, Paulo Borges e Paulo Cézar. Já pelos paulistas, jogaram Carlos Alberto Torres, Rildo, Rivelino, Paraná e Babá. O “Rei”, contundido, assistiu ao jogo do banco de reservas.

fonte: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Ao mesmo tempo, há ingressos de jogos sem qualquer relevância, como um Botafogo e Bonsucesso, de março de 1970. Uma vitória de 1×0 com um gol marcado pelo meia Valtencir. Os registros da partida eram feitos atrás dos ingressos: placares, autores dos gols, resultados das preliminares e, às vezes, até pequenos comentários, como no caso da partida entre Botafogo e Fluminense, em 13 de agosto de 1969. No verso, está escrito: “Botafogo 1×0 Fluminense! Roberto. Até que enfim!”. Evidentemente fui pesquisar a razão do comentário e o que me pareceu foi que se tratava de um alívio pelo fato do centroavante ter voltado a marcar depois de quase dois meses.  Mas, se foi isso mesmo, só o próprio poderia nos contar.

foto: Acervo  Flávio César Borba Mascarenhas

Flávio Mascarenhas faleceu em 8 de janeiro de 2015, mas aqui estamos nós, mais de 5 anos depois, “ouvindo” suas micro-histórias. O que seria do Maracanã e do futebol se não provocassem em nós todas essas emoções?

Notas de Rodapé

[1] Moura, Gisella de Araujo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

[2] http://globoesporte.globo.com/al/noticia/2014/06/jacozinho-diz-ter-reencontrado-zico-19-anos-apos-o-polemico-jogo-idolo.html

[3] https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/5526625/cocada-o-ultimo-heroi-do-vasco-contra-o-flamengo-ofuscou-romario-na-final-do-campeonato-carioca

[4] ‘Assaf, Roberto e Garcia, Roger. Grandes jogos do Maracanã. Rio de Janeiro, 2008.

[5] https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2015/09/03/caso-fogueteira-que-tirou-chile-da-copa-e-baniu-goleiro-do-sp-faz-26-anos.htm