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O Maracanã como plataforma de marketing para marcas: case Reserva

Roberto Da Matta, na introdução do livro Universo do Futebol (1982), nos leva a refletir acerca da importância de compreendermos o futebol como um sistema, emoldurado pelo capitalismo, capaz de mobilizar dirigentes, jogadores, torcedores, mídia, entidades esportivas e muitos outros agentes. E é isso que buscamos realizar neste ensaio, considerando que, se o futebol foi e é capaz de servir de ferramenta para corroborar um projeto cultural brasileiro, atrelado a ideia de democracia racial, tem-se como palco deste jogo um dos espaços esportivos mais prestigiados em nosso país: o Maracanã.

A partir dos estudos de Mascarenhas (2013), compreendemos que os contextos históricos e culturais moldam a construção e a maneira com que a população brasileira dialoga com os estádios. De espaços com capacidades modestas, privilegiando as trocas sociais da aristocracia, passando por ambientes superdimensionados visando a popularização do esporte, até chegarmos às arenas esportivas do século XXI, onde a busca pela maximização de receitas dita as regras do jogo. Inúmeros desafios, histórias, memórias e momentos foram perpetuados diante destas fases, que se acumularam e construíram a vida simbólica destes espaços na memória de centenas de milhares de pessoas.

E refletir sobre esta rica trajetória nos impulsiona para analisar e compreender o cenário que se desenha no século XXI para o Maracanã. Onde, na vida material, os atores se reconfiguram e as dinâmicas sociais trazem novas camadas e desafios para todos nós. Neste caminho, vamos concentrar aqui nossos esforços para analisar o estádio como plataforma de marketing para marcas que buscam criar vínculos com seus consumidores. Isso será realizado a partir de uma ativação de marca que a Reserva realizou no estádio no ano de 2018.

Para tal, precisamos localizar o conceito de marketing de experiência, amplamente discutido no mercado corporativo como uma das principais estratégias do marketing para atrair os consumidores a partir da montagem de experiências em eventos de entretenimento. Dessa forma, é importante levarmos em consideração que, conforme estamos discutindo, não é um desafio trivial tornar o Maracanã uma plataforma atrativa para as marcas, levando em consideração, principalmente, os casos de corrupção e as polêmicas na administração que orbitam o estádio. Ainda que, por outro lado, haja uma extensa história e simbologia que contribui para que esse trabalho comercial dos executivos seja um pouco menos desafiador, afinal, estamos falando do estádio conhecido como “templo do futebol” e palco da última final de Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

O Rock in Rio é um exemplo de evento no Brasil que conseguiu se consolidar como uma plataforma de marketing e comercial de sucesso para as marcas conseguirem captar a atenção de seus espectadores e ampliar suas mensagens-chave. E, para compreendermos o feito deste festival, precisamos levar em consideração um mundo onde os comportamentos dos consumidores são influenciados por diversos fatores, como a política, a economia e conteúdos audiovisuais. E é justamente em virtude desse cenário que as marcas buscam estratégias para se tornarem cada vez mais relevantes a partir das experiências que podem proporcionar para os seus consumidores. Não é mais suficiente ser visto pelo consumidor, seja nas prateleiras dos supermercados ou nas propagandas da televisão. É necessário se fazer presente até mesmo onde o racional não está em jogo, onde suas emoções dão o tom (AZAMBUJA, C. P.; BICHUETI, R. S, 2016). Do ponto de vista da comunicação, esta é uma área que está sendo cada vez mais pesquisada e cujo objetivo é compreender os desafios, as estratégias e as consequências tanto para as marcas e os consumidores quanto para os eventos que pretendem se posicionar neste aspecto como plataformas de marketing e comunicação, como é o caso do Rock in Rio e, em um passado recente, do Maracanã.

Do ponto de vista teórico, podemos classificar esse movimento como marketing de experiência, cujo nome é um desdobramento do conceito de marketing. Segundo a American Marketing Association (AMA) (2013), o marketing pode ser definido como um conjunto de processos que cria, comunica, entrega e troca ofertas de valor para os clientes, os parceiros e a sociedade civil. Nesse sentido, o marketing vai além da propaganda que estamos comumente acostumados a assistir na televisão, por exemplo. O marketing é a busca incessante pela criação de desejo e valor a fim de atrair os consumidores.

E isso ocorre tendo como um guia, o que o meio corporativo denomina como “quatro P’s do marketing” (KOTLER; ARMSTRONG, 1998). São eles: produto, preço, praça e promoção. Este conjunto de iniciativas tradicionais do marketing ganha, portanto, mais uma camada: o marketing de experiência. Dessa forma, conseguimos compreender que o marketing de experiência é mais uma ferramenta para complementar os conceitos de comunicação e marketing visando aproximar a marca e o consumidor, fortalecendo vínculos emocionais (HOLBROOK; HIRSCHMANN, 1982). É o que conseguimos apreender com a foto abaixo da ativação da Reserva, marca de roupa carioca, no Maracanã. O que inicialmente era o tradicional lugar onde a comissão técnica, reservas, dentre outros funcionários do clube ficavam assistindo ao jogo, se tornou neste novo Maracanã uma propriedade comercial para conectar as marcas aos torcedores. Esta foto materializa todo o esforço empreendido neste artigo: o trabalho das marcas na busca de se conectar com o Maracanã e seus atributos simbólicos a fim de captarem reputação, cultura e estilo de vida que o estádio reverbera para a sociedade brasileira, em um aspecto amplo, e carioca, mais especificamente.

Jornal O Globo / 2018

Por fim, apesar de inúmeros processos comerciais que orbitam neste novo estádio, neste breve trabalho olhamos com maior atenção em como as marcas se posicionam a fim de se atrelar às emoções produzidas pelos torcedores dentro das arenas esportivas, cuja atividade fim é fortalecer vínculos emocionais, aumentar a reputação, atingir um maior índice de loving branding[1] do consumidor, dentre outros KPIs (Key Performance Indicator) possíveis de medir dentro desse cenário.

Na vida material, onde as relações se dão, não há esta divisão didática destes processos. Os movimentos convergem e divergem a todo o momento, com comportamentos, narrativas, acontecimentos que se colocam constantemente por meio dos jogos, dos ídolos, das marcas, dos dirigentes, da imprensa, dentre outros atores sociais.


[1] Referimo-nos à love brand quando as marcas conseguem construir um vínculo com os consumidores a ponto de se identificarem com a personalidade, a cultura e o estilo de vida que ela representa. Comumente, recebem apelidos como é o caso dos nubankers, que se refere aos apaixonados pelo banco Nubank.

Referências

AMERICAN MARKETING ASSOCIATION. Definition of Marketing. 2013. Disponível em: <www.ama.org/AboutAMA/Pages/Definitionof-Marketing.aspx>

AZAMBUJA, C. P.; BICHUETI, R. S. Marketing de Experiência: Estratégias para Impulsionar o Market Share e Fortalecer a Marca do Energético Energy. Revista de Administração da UFSM, v. 9, n. Ed. Especial, p. 88-106, 2016.

KOTLER, Philip; ARMSTRONG, Gary. Princípios de marketing. 7. ed. Rio de Janeiro: PrenticeHall, 1998. 527 p.

HOLBROOK, M. B.; HIRSCHMAN, E. C. The experiential aspects of consumption:Consumer fantasies, feelings, and fun. Journal of Consumer Research, v. 9, n. 2, p. 132-140, 1982.

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