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Clássico é clássico e vice-versa?

Começa a temporada de disputa pelos campeonatos estaduais no Brasil e creio ser este um momento ainda mais oportuno para se falar das rivalidades clubísticas do nosso futebol e dos estereótipos que, entra ano e sai ano, seguem sustentando boa parte dos noticiários e transmissões esportivas de norte a sul do país. O velho embate figurativo entre time do povo x time de elite é um dos conflitos que me parece uma construção em certa medida estereotipada, sobre a qual pretendo me aprofundar em minha tese de doutorado, investigando as origens desse e de outros estereótipos que vigoram no imaginário do torcedor, dos jornalistas e até dos próprios dirigentes.

Para chegar a alguns apontamentos iniciais sobre o tema, me propus um breve exercício de pesquisa visando identificar, nas cinco regiões brasileiras, embates clubísticos em que um dos clubes é tido como “do povo” enquanto o rival, por sua vez, é caracterizado sob a pecha de elitista. Para tanto, me baseei em um ranking dos maiores clássicos estaduais brasileiros feito pelo globoesporte.com para selecionar alguns dos maiores duelos futebolísticos do país e debater sobre quais alcunhas são comumente atreladas aos rivais diretos: time do povo, time de elite, time de pobre, time de rico, time de negro, time de branco, time do centro, time do subúrbio, time do futebol-arte, time do futebol-força, entre outras alcunhas as quais considero construções estereotipadas.

A intenção é identificar, ao final do doutorado, quais aspectos contribuíram para a construção desses estereótipos, com base no histórico dos clubes e nas percepções de torcedores e jornalistas esportivos, compreendendo como e por que tais construções são frequentemente reforçadas tanto pela mídia quanto por torcedores para sustentar e dimensionar as rivalidades clubísticas do futebol brasileiro. Parto de um pressuposto que julgo ambicioso, relacionado à premissa de que todo estereótipo, embora seja uma construção moldada sob diversos aspectos, tem em si um fundo de verdade.

É claro que, para validar essas afirmações, será imprescindível expandir minha revisão bibliográfica a esse respeito e seguir um caminho metodológico específico. Por ora, como dito, restrinjo meus apontamentos a conclusões meramente iniciais, as quais me servem como um dos pontos de partida para uma pesquisa ainda em desenvolvimento. Sendo assim, dedico os próximos tópicos deste texto para debater alguns aspectos característicos de 11 rivalidades do nosso futebol, tendo como referências pesquisadores que já se debruçaram sobre o tema. Cada tópico a seguir contempla uma região do país, abordando rivalidades clubísticas dos seguintes estados: MG, SP, RJ, RS, PR, BA, AL, PE, CE, PA, GO.

Região Sudeste

Os trabalhos do pesquisador Marcelino Silva (2005, 2009) abordam os estereótipos comumente associados aos dois maiores clubes de futebol de Minas Gerais: Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro Esporte Clube. Em sua pesquisa de pós-doutorado, o autor analisa a construção discursiva da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro com base no imaginário do primeiro como time da massa e do segundo como clube-empresa. Segundo Silva (2005, s/p), a transformação do Atlético “em um ‘clube de massa’, alcunha que lhe é consensualmente atribuída pela mídia contemporânea, é ainda um mistério a se resolver”, tendo em vista que sua origem pode ser considerada elitista, já que o clube foi fundado por um grupo de jovens de famílias tradicionais belo-horizontinas.

O Cruzeiro, por sua vez, tem uma origem popular desde sua fundação, tendo sido criado por grupos de imigrantes italianos que haviam se estabelecido na capital mineira. Desse modo, enquanto a mística que cerca o Atlético (e sua torcida “Galoucura”) caracteriza a agremiação como “o clube do ‘povão, o clube da ‘massa’, dos pobres, dos negros e dos mestiços” (SILVA, 2005, s/p), o Cruzeiro se vale da organização e diligência típicas de sua “Máfia Azul”, definindo-se, sobretudo, “por aquilo que possibilitou aos italianos sua inserção na sociedade brasileira: o trabalho árduo e incansável, por meio do qual se pode construir lentamente um futuro bem sucedido” (SILVA, 2005, s/p).

Já para abordar aspectos da rivalidade entre o Sport Club Corinthians Paulista e a Sociedade Esportiva Palmeiras interessa o trabalho do pesquisador Roberto Louzada (2011), que analisa, do ponto de vista administrativo, as condições sociais que permitiram compreender como se constituíram as identidades dos três principais clubes da cidade de São Paulo, definidos sob os seguintes estereótipos: Corinthians, o clube do “povão”, fundado por operários; Palmeiras, o time da colônia italiana, fundado por operários imigrantes; e o São Paulo Futebol Clube, considerado representante da elite econômica da cidade.

Importante salientar que, nas conclusões apontadas por Louzada, os dois clubes fundados por operários são os que concentram os maiores percentuais de torcedores das classes A e B, enquanto o time identificado como da elite é o que possui os menores percentuais de públicos dessas duas classes – perspectiva esta que contribui para reforçar o viés mítico dos estereótipos que compõem o objeto de estudo da minha pesquisa. Também interessam à discussão os trabalhos científicos de Florenzano (2009), sobre a democracia corinthiana e as práticas de liberdade no futebol brasileiro; de Araújo (1996), que analisa as relações entre imigração e futebol a partir da fundação do Palmeiras; e de Malaia & Júnior (2017), que investigam as maneiras pelas quais o imaginário de “time do povo” contribui para a manutenção de uma identidade organizacional que, segundo os autores, confere certa vantagem competitiva ao Corinthians.

Quanto a alguns aspectos definidores da rivalidade entre o Clube de Regatas do Flamengo e o Club de Regatas Vasco da Gama interessam à discussão, principalmente, os trabalhos de Coutinho (2013), Ferreira (2013), Kowalski (2002) e Helal & Teixeira (2001). Em sua tese Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular, Coutinho (2013) investiga os fatores que contribuíram para a popularidade e para a abrangência nacional do clube rubro-negro a partir do período marcado pela implantação do regime profissional na agremiação, entre os anos de 1933 e 1955, demonstrando que o estereótipo de clube do povo somente se consolidou após a profissionalização da equipe, elitista à época de sua fundação: “O Flamengo, clube do povo, da paixão ensandecida, o mais querido do Brasil, era, até meados dos anos 1930, o clube da ‘fina flor’ carioca, o clube da força de vontade.” (COUTINHO, 2013, p. 31).

A popularização do Clube de Regatas do Flamengo não ocorreu antes de 1933. A popularização ocorreu somente a partir da profissionalização do clube. Sendo assim, o clube esquecido dos tempos do amadorismo em nada se diferenciava dos outros clubes elitistas da cidade. Dirigentes e associados eram tratados pela imprensa esportiva como símbolos de um sport promotor do espírito civilizado europeu. O Flamengo não carrega o gene da popularidade, como costumeiramente afirmam os estudiosos do clube. (COUTINHO, 2013, p. 36)

A dissertação de Ferreira (2013), “Flamengo, time de favelado!”: Representações sociais do Flamengo na mídia impressa dos anos 1930 aos 1960, analisa período semelhante ao abordado por Coutinho, investigando a construção das representações sociais sobre o clube por seus torcedores e de outros times a partir da instalação física de sua sede na década de 30, junto à comunidade da Praia do Pinto, o que, segundo o autor, contribuiu para a constituição do estereótipo de popularidade que o time carrega até os dias de hoje. A tese de Kowalski (2002), Por que Flamengo?, caminha no mesmo sentido, atribuindo o imaginário de popularidade do Flamengo a uma “construção mitológica”. A autora ainda caracteriza tal popularidade como um dos fatores potenciais para estimular a rivalidade com as demais equipes, tanto do Rio de Janeiro – a exemplo da disputa direta entre o status de popular do Flamengo e o rótulo “pó de arroz” do Fluminense – quanto de outros estados, tendo em vista que o rubro-negro é o clube de maior torcida do país.

FOTO: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

Ainda quanto aos estereótipos atrelados à rivalidade entre Flamengo e Vasco, também interessa o artigo O racismo no futebol carioca na década de 1920: Imprensa e invenção das tradições, de Helal e Teixeira (2011), no qual os autores mostram como foi narrada a inserção do negro no esporte mais popular do país, contestando versões que são recontadas como verdades até os dias atuais, a exemplo do pioneirismo do Vasco da Gama em tal inserção.

Região Sul

O foco da discussão sobre a rivalidade clubística no Rio Grande do Sul é o modo como o jornalismo esportivo representa a sociedade e o futebol gaúchos, apropriando-se do discurso da marginalidade para pautar os dois maiores clubes de futebol do estado: Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense e Sport Club Internacional. Nessa perspectiva da representação midiática, nota-se a demarcação de uma linha tênue que, de um lado, se guia pelo culto às tradições, mas, do outro, acaba reforçando estereótipos muitas vezes não condizentes com a realidade da federação, das agremiações e até do próprio jogo em si, inclusive sob o risco de fomentar aspectos não sadios da rivalidade clubística. A definição de um estilo gaúcho de jogar futebol é um exemplo clássico dessa estereotipação frequentemente encontrada no noticiário esportivo, muito embora ao longo da história centenária de Grêmio e Inter tenham surgido evidências contrárias a tal estereótipo, como pondera o jornalista Léo Gerchmann (2016):

Em uma comparação simples, o Flamengo tem aquele jogo cadenciado, lindo, tipicamente brasileiro. Parece que todo jogador, ao vestir a camisa rubro-negra do Flamengo, passa a dar toques macios e fazer gols de efeito. No Grêmio, sem abrir mão da técnica de um Valdo, temos a gana de um Dinho, algo não menos lindo. […] Vários ídolos eternos aliam a técnica à garra, mesclam os dois. E assim é o nosso Tricolor. A impressão é de que, assim como ocorre no antípoda carioca, todo jogador que veste o manto azul, preto e branco torna-se um guerreiro, o que não implica violência, mas sim muitíssima emoção. (GERCHMANN, 2016, p. 96)

O modelo dito característico de se jogar futebol também encontra raízes na geografia física do território, servindo como mais um elemento para cultuar as tradições de um estado considerado pelos sul-rio-grandenses como marginalizado e periférico, contornos estes que, nessa ótica regionalista, seriam responsáveis pela falta de representatividade do Rio Grande do Sul diante das decisões político-econômicas tomadas no centro do país. Exemplo disso é que, no futebol, as manifestações contra possíveis prejuízos diante dos clubes do eixo Rio-São Paulo – como erros de arbitragem e não convocações para a Seleção Brasileira – seguem contundentes desde a época do primeiro Torneio Roberto Gomes Pedrosa e da polêmica partida da Seleção Gaúcha x Seleção Brasileira na década de 1970, sempre no ideário da afirmação do futebol do estado. Contudo, é interessante ponderar que, de 2006 em diante, a Seleção Brasileira teve cinco treinadores gaúchos consecutivamente no comando: Dunga, Mano Menezes, Felipão, Dunga (em nova passagem) e Tite, atualmente.

Além dos estereótipos que caracterizam um estilo de jogo tipicamente gaúcho, também é fundamental à minha pesquisa a discussão envolvendo os imaginários de time do povo e time de elite atrelados a Inter e Grêmio, respectivamente. A questão racial, por exemplo, alicerçou a fundação Internacional, em contraposição à fundação do Grêmio que, nos primórdios de sua história, só aceitava membros de descendência alemã em seu grupo. O Inter, fundado pelos irmãos Poppe, que eram descendentes de italianos, teria nascido, então, para englobar aqueles que não eram aceitos no Grêmio, daí deriva-se inclusive o nome “Internacional”, versão esta que se encontra na obra A História dos Grenais (2009), organizada pelo jornalista David Coimbra.

No intuito de refutar essa versão, a obra Somos azuis, pretos e brancos (2015), escrita por Léo Gerchmann, reúne alguns documentos históricos que estariam por trás da fundação dos dois clubes e que desmontariam o mito da segregação racial atribuída ao Grêmio, apontando o racismo no futebol como um reflexo de toda a sociedade brasileira, atrelado às sequelas da escravidão: “Havia, sim, um processo de exclusão dos negros, mas ele nunca foi proposto pelo Grêmio, mas pela sociedade brasileira, profundamente hierárquica e preconceituosa” (GERCHMANN, 2015, p. 9-10).

FOTO: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Ainda no tocante ao futebol da região Sul do país, interessam à minha pesquisa trabalhos que abordam o futebol paranaense, considerando-se o rótulo de elitista que recai sobre os dois maiores clubes locais: o Club Athletico Paranaense e o Coritiba Foot Ball Club. Para abordar essa temática, serão úteis os trabalhos científicos de Campos (2006) e Capraro (2004). Segundo Campos, à época da fundação os dois clubes possuíam uma forte identidade com determinados setores da sociedade curitibana. O Coritiba, por exemplo, é conhecido pela alcunha de “coxa branca” por ter sido fundado por imigrantes alemães e descendentes. Inclusive, “a identificação com a comunidade alemã gerou diversas representações sociais de que o Coritiba não admitia negros entre seus atletas, que era um clube racista” (CAMPOS, 2006, p. 94). Já as representações sobre o Athetico recaem, segundo Capraro (2004), no paradigma da modernidade, tendo em vista o pioneirismo do clube na construção de um estádio considerado a grande referência no Brasil e que é tido como “espaço social da fina-flor curitibana”.

Região Nordeste

Embora a bibliografia sobre clubes e rivalidades do futebol nordestino não seja tão ampla, foi possível selecionar alguns trabalhos relevantes a esse respeito, a exemplo da obra Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924), do pesquisador Henrique Santos (2014), que discute as relações desse esporte com diversas camadas da sociedade soteropolitana, sobretudo quanto à inserção dos negros na modalidade e a caracterização de um “futebol tipicamente baiano”. Também interessa ao debate a tese do pesquisador Paulo Leandro (2011), Ba-Vi: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas, na qual o autor discute a instituição da torcida de futebol nos jornais de Salvador entre o longo período de 1932 a 2011, evidenciando, inclusive, dois perfis antagônicos: o Esporte Clube Vitória como um clube de origem “amadora” e o Esporte Clube Bahia como um clube de origem “profissional”.

FOTO: Felipe Oliveira/EC Bahia

Para abordar a rivalidade entre os clubes alagoanos Clube de Regatas Brasil (CRB) e Centro Sportivo Alagoano (CSA) serão úteis, sobretudo, os trabalhos preliminares dos pesquisadores Alexandrino et al. (2016), os quais discutem a violência em Maceió decorrente do clássico local e a influência midiática na rivalização das duas equipes. Segundo os autores, a imprensa esportiva alagoana é responsável por potencializar as manifestações de violência entre os torcedores, inclusive se utilizando de estereótipos para fomentar um clima de “guerra de classes” entre as torcidas.

Ao tratar o CSA como “o clube do Mutange” ou “do mangue”, e o CRB como o “galo da praia”, “da Pajuçara”, a mídia reforça dois estereótipos: o de que todos os torcedores azulinos são periféricos – a imagem dos catadores de sururu da lagoa Mundaú – e o de que todos os regatianos são da elite e moradores dos bairros litorâneos – o aristocrata branco que assiste ao jogo da tribuna de honra. Ocorre, portanto, a construção de um caráter de “guerra de classes”, ao se generalizar, erroneamente, duas torcidas que dividem em cores um estado de mais de 3 milhões de habitantes, das mais variadas esferas econômicas e sociais. Há patrões e proletários, trabalhadores informais e aristocratas, nas torcidas dos dois times, logo, a ideia de “povo versus elite”, na disputa entre CRB e CSA, é uma mitificação proposta pela mídia. (ALEXANDRINO ET AL., 2016, p. 6)

No tocante ao futebol pernambucano, interessam principalmente as pesquisas de Carvalho et al. (2017) e Ferreira et al. (2014). No artigo Símbolos e rituais do futebol espetáculo: uma análise das emoções no campo de jogo, Carvalho et al. (2017)  identificam e analisam os símbolos e rituais de torcedores das três principais equipes do estado: Sport Club do Recife, Santa Cruz Futebol Clube e Clube Náutico Capibaribe, evidenciando mascotes, cores, orações, superstições e consumo de álcool como alguns dos símbolos mais significativos no modo de torcer dos rivais. Já o estudo de Ferreira et al. (2014) investiga como os mecanismos de identificação e da diferença são utilizados para reforçar midiaticamente as supostas identidades dos torcedores dos clubes pernambucanos. Já sobre a rivalidade entre o Ceará Sporting Club e o Fortaleza Esporte Clube, um dos trabalhos mais significativos é do pesquisador Rodrigo Pinto (2007), que analisa a construção da história do futebol cearense e os conflitos sociais em torno da bola, considerando-se a origem elitista da prática e a formação operária de Ceará e Fortaleza.

Região Norte

A despeito do enfoque que as pautas do jornalismo esportivo dão ao futebol do eixo Rio-São Paulo, o clássico Remo x Paysandu (RePa ou Clássico Rei da Amazônia) vigora entre os duelos mais disputados e equilibrados do mundo, com mais de 700 partidas em 105 anos de confrontos. De 1914 a 2017 foram 737 clássicos disputados entre as equipes, sendo 256 vitórias do Clube do Remo contra 231 do Paysandu Sport Club, além de 250 empates. Os números contabilizados na dissertação da pesquisadora Aline Freitas (2017) demonstram que o Clássico Rei da Amazônia é o mais disputado do Brasil, ainda que não tenha essa mesma expressão em termos de cobertura midiática. Importante salientar que o fato de ser o clássico mais disputado do país, não significa dizer que Remo e Paysandu representam a maior rivalidade clubística brasileira, visto que essa afirmação pode variar conforme os critérios de análise e demandaria novas pesquisas para ser validada cientificamente.

Ainda assim, pode-se dizer que o equilíbrio entre os dois clubes, que é outra marca expressiva do duelo Re-Pa, também contribui para reforçar o teor desta rivalidade: das 103 edições do Campeonato Paraense, são 47 taças do Paysandu e 46 do Remo. Interessante ressaltar que, entre os campeões estaduais brasileiros, somente as equipes Avaí e Figueirense têm o mesmo equilíbrio de troféus – 17 e 18 taças respectivamente, nas 47 edições do Campeonato Catarinense. Nem mesmo os maiores vencedores dos campeonatos Carioca e Paulista contam com disputas tão acirradas, sendo 35 taças do Flamengo contra 31 do Fluminense e 30 taças do Corinthians contra 22 do Palmeiras – embora não se possa desconsiderar que nesses estados existem outros clubes de ponta no torneio. Porém, até na comparação com outros estados com apenas dois times em disputa, como Minas Gerais (44 títulos do Atlético e 38 do Cruzeiro) e Rio Grande do Sul (46 títulos do Internacional e 38 do Grêmio), o clássico Re-Pa se mantém como o confronto mais equilibrado do Brasil.

Quanto ao sentimento clubístico, o assunto é objeto de estudo na citada dissertação de Freitas (2017), intitulada Não É Só Futebol: uma análise dos laços de afetos que envolvem os torcedores do Clube do Remo, a partir de processos socioculturais comunicativos. A autora faz um estudo etnográfico para compreender como se dá a produção de sentido dos torcedores do Remo em uma dimensão afetiva e coletiva. Em seu estudo etnográfico, Freitas (2017, p. 78), ao perguntar a torcedores remistas o que é o amor pelo time do Remo, ressalta que diversas vezes eles “fizeram questão de lembrar que o sentimento dos torcedores rivais é payxão e isso é passageiro”, remetendo ao slogan utilizado pelo Paysandu para explicarem que, ao contrário do rival, eles sim lotam o estádio porque têm amor ao clube, e não somente paixão. Em perspectiva contrária, uma matéria no site oficial do Paysandu, escrita por Ronaldo Santos (2014) traz informações interessantes ao objeto de estudo da minha tese. Ao fazer um perfil de Seu Raimundo, “o torcedor mais antigo do Paysandu”, Santos destaca a fala final do entrevistado, suscitando o estereótipo de que este seria o “verdadeiro clube do povo”, ao contrário do rival Remo.

Seu Raimundo disse que o Paysandu é verdadeiramente o time do povo, e que por isso, tem a maior torcida do Estado e da Região Norte do País. “Para torcer pro Paysandu não precisava de nada, somente do amor pelo clube. No Remo era diferente, só entrava quem estivesse devidamente trajado com terno e gravata, quando no Paysandu não existia estes requisitos. O Paysandu é verdadeiramente o time do povo, e o time que deu as maiores glórias para o futebol paraense”. (SANTOS, 2014, s/p)

 

Como abordado no início do tópico, Paysandu e Remo representam o duelo mais disputado e equilibrado do Brasil. Uma única taça do Campeonato Paraense separam os dois rivais. Vale lembrar ainda que o Paysandu é o segundo clube brasileiro com mais taças estaduais: 47 contra 55 do ABC Futebol Clube, de Natal. O Remo aparece logo em terceiro lugar, com 46 troféus de campeão do Pará. Os títulos estaduais são, inclusive, o grande trunfo dos remistas na comparação com o rival. Além disso, em sua campanha como Campeão Brasileiro da Série C em 2005, o Remo bateu recordes de público entre todas as séries do campeonato, com uma média de 30 mil torcedores por jogo. O Paysandu, por sua vez, está melhor posicionado no ranking de clubes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com conquistas nacionais mais expressivas, como a extinta Copa dos Campeões que lhe rendeu o feito inédito de ser o único clube do norte do país a disputar uma edição da Copa Libertadores da América.

Fonte: bacana.news

Região Centro-Oeste

Em meio à restrita bibliografia sobre o futebol na região centro-oeste do país, interessam-me as pesquisas de Leão (2016), Nascimento (2007) e Gonçalves & Silva (2011). Em Futebol em Goiânia: sociabilidades e espaços, Leão faz um trabalho etnográfico para restituir a configuração social da memória coletiva que conecta a

cidade de Goiânia e o futebol. Em Futebol, sociabilidade e psicologia de massas: ritos, símbolos e violências nas ruas de Goiânia, Nascimento propõe uma análise etnográfica das práticas sociais de uma torcida organizada do Vila Nova Futebol Clube em dias de jogos contra o rival Goiás Esporte Clube. Já o trabalho de Gonçalves & Silva, O futebol na geografia: a difusão socioespacial do futebol em Goiânia, analisa o papel dos clubes de futebol profissional na configuração da cidade.

Segundo Gonçalves & Silva (2011, p. 166), “a construção da nova capital foi fundamental para a consolidação de um futebol ainda incipiente. Goiânia e o futebol nascem praticamente juntos, em um fenômeno diferenciado do restante do Brasil.”, considerando-se a Revolução de 1930 e o ideário nacionalista da “Marcha para o Oeste”. Os autores apontam a construção da Ferrovia Mogiana, ao sul do estado, como uma das primeiras políticas de integração de Goiás ao principal eixo econômico nacional, a cidade de São Paulo. Daí surgiram as primeiras agremiações esportivas do estado, os clubes ditos “ferroviários”, tendo a ferrovia como elemento simbólico. Goiás e Vila surgiram depois, no contexto de desenvolvimento de Goiânia, que passa então a ser a nova capital do estado, “engendrada e planejada para ser uma cidade moderna, que representaria um novo Estado de Goiás e que se integraria de fato no bojo da economia brasileira” (GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 168).

Em 6 de abril, um grupo de amigos se reuniu no centro da cidade e desse encontro resultou a criação do Goiás Esporte Clube. Todos os presentes eram paulistas descendentes de italianos e torciam para o extinto Palestra Itália (atualmente Sociedade Esportiva Palmeiras), da cidade de São Paulo. Desta forma, foram escolhidos o verde e o branco como as cores do uniforme, as mesmas que utiliza o clube paulista. Como a torcida paulista tinha o periquito como mascote, logo os fundadores do Goiás o incorporaram como mascote do novo clube que surgia. Tal adoção foi facilitada também pelo fato de o periquito ser uma ave bastante conhecida na região Centro-Oeste do Brasil. A ideia original era dar ao clube o nome de Palestra Itália; todavia, o contexto político brasileiro da época não permitiu que tal vontade fosse realizada.

Com esse trecho, os autores chamam atenção para a influência socioespacial exercida pelo eixo Rio-São Paulo na formação de diversos clubes do interior brasileiro, apontando a migração paulista dos descendentes de italianos como uma das principais vertentes do surgimento do futebol no Centro-Oeste. No mesmo ano em que é fundado o Goiás, surge o Vila Nova, embora este já desenhasse sua existência há alguns anos. “Desportistas entusiastas do então clube amador Associação Mariana aceitaram o desafio de fundar um clube para representar o bairro conhecido como a ‘vila mais famosa’, a Vila Nova” (GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 169). Desse modo, o clube surge como uma agremiação totalmente identificada com determinado lugar, no caso um bairro de classes sociais menos favorecidas, o que fornece pistas para abordar alguns dos estereótipos que dimensionam a rivalidade entre Goiás e Vila.

O Vila surgiu de gente humilde. O bairro da Vila Nova não passava de uma área invadida. A construção de Goiânia se deu graças à mão de obra de cidadãos de outros estados. Veio gente do Ceará, do Maranhão, de Minas Gerais, da Bahia, do Piauí, de Pernambuco e de Alagoas. Essas pessoas moravam em minúsculas casinhas de três cômodos, plantavam suas hortas no quintal e a comida era feita no fogão de lenha. Como não planejaram um espaço para os homens que ajudaram na edificação da nova cidade e a maioria não tinha dinheiro para comprar um lote em Campinas ou no Bairro Popular, o jeito foi invadir um pedacinho de chão lá pros lados do Córrego Botafogo. Local distante, sem asfalto e sem transporte. Lugar de gente simples: pedreiros, serventes, carpinteiros e operários. (SILVA apud GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 170)

FOTO: Divulgação/Jornal O Popular

Considerações finais

Considerando-se a abrangência geográfica dos apontamentos aqui propostos, não posso deixar de mencionar ainda a importância dos trabalhos que relacionam o futebol às hierarquias urbanas, a exemplo das pesquisas do geógrafo Gilmar Mascarenhas, que traça paralelos sobre o processo histórico de desenvolvimento desse esporte no Brasil com os efeitos da concentração de poder e de capital que hoje pairam sobre a modalidade. No artigo Futebol, globalização e identidades locais no Brasil (2008), o autor aponta, por exemplo, para a contradição existente entre as forças mercadológicas da globalização – que tendem a transformar o torcedor em consumidor do espetáculo futebolístico – e a manutenção de tradições locais, considerando-se, inclusive, a força das rivalidades estaduais do futebol brasileiro.

Deve-se notar que, quando clubes da mesma cidade participam de competições nacionais ou internacionais, ao nível do cidadão comum, vemos uma disputa paralela contínua, porque o que realmente interessa ao torcedor é saber qual das equipes está melhor posicionada. E ele não apenas aplaude as vitórias do seu clube, mas também as derrotas do seu rival local. (MASCARENHAS, 2008, p. 12)

Quanto ao ato de aplaudir a derrocada do rival, atribuo esse sentimento à natureza sociológica do conflito, evidenciada pelo sociólogo alemão Georg Simmel (1983). Ele defende que toda relação conflituosa, por si só, é uma forma de sociação, de modo que o conflito estaria destinado “a resolver dualismos divergentes; é um modo de conseguir algum tipo de unidade, ainda que através da aniquilação de uma das partes conflitantes” (p. 22). Nesse sentido, para o adversário é como se pouco importasse a condição social do outro – se povo ou elite, se pobre ou rico, se negro ou branco – mas sim se ele torce ou não para o mesmo time.

Tanto é que, em dia de clássico, é nítida a separação entre os alambrados rivais. Até mesmo no entorno dos estádios o policiamento é reforçado para que os adversários tomem cada qual seu espaço e não se cruzem pelo caminho. Nesse cenário, percebemos que a prática do schadenfreude – palavra de origem alemã que, em bom português, significa ficar feliz pela desgraça do outro, vigora independentemente do alcance da partida ou da dimensão dos clubes em disputa. Porém, qual a garantia de que realçar os problemas e estigmas do rival resolverá as pendências do seu time do coração, fazendo com que ele suba na tabela? Nenhuma. Mas talvez resida justamente nessa perspectiva um dos maiores clichês do nosso futebol: clássico é clássico. E vice-versa.

 

Referências

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A insensatez e a razão do torcedor

Em tempos de fim do Campeonato Brasileiro e com o Flamengo já campeão desde as últimas rodadas e se preparando para o Mundial de Clubes, tenho pensado sobre o sentido de “torcer” por um time de futebol. Se seguirmos por uma linha utilitarista defendida pelos filósofos Jeremy Bentham e John Stuart Mill, nos séculos XVIII e XIX, portanto antes do advento do futebol, poderíamos especular que o ato de torcer produziria a maior quantidade de bem-estar possível para aqueles que assim o fazem. Isso principalmente quando seus times vencem. Ainda assim, a explicação carece de um sentido racional anterior. Por que torcedores sentem prazer quando seus times vencem e ficam tristes quando perdem?

Sou rubro-negro de berço. Já me vi várias vezes questionando este sentimento que me fez, por exemplo, adquirir um rádio de ondas curtas para acompanhar o Flamengo em um período dos anos 1980, quando estudava em Nova York. Minha relação familiar com a instituição do Flamengo nunca foi suficiente para explicar este arrebatamento.

Um antropólogo alemão, amigo do meu grupo de pesquisa da Uerj, Martin Curi, disse certa vez, ainda que brincando, que só os torcedores sabem verdadeiramente o que é o amor. Apesar do exagero, a frase nos leva à reflexão.

Por que torcemos por um time de futebol? Por que gritamos e choramos diante da televisão ou em um estádio? Seria mesmo um tipo de amor? E que espécie de amor seria esse, se é que possível formular tal questão? Estas são reflexões que nunca nos fazemos. Simplesmente sentimos.

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Fonte: maquinadoesporte.uol.com.br

De fato, visto de longe parecemos fazer parte de uma nau de insensatos, tal como a colocou em seu poema satírico o humanista Sebastian Brant no fim do século XV, para criticar os excessos e vícios da sociedade. Afinal de contas, o torcedor é sempre “excessivo”, um fanático no sentido amplo do termo. Torcer se contorcendo e, muitas vezes, distorcendo a realidade, faz parte deste universo de emoções exacerbadas, que o bom senso recomenda que não extrapolem o momento. Estranhas emoções para aqueles que não a sentem. Naturais emoções para os de dentro, os torcedores de futebol.

A comemoração dos rubro-negros com a conquista da Libertadores promoveu um estado de êxtase que levou uma multidão às ruas do centro do Rio de Janeiro para receber o time. Atitude que pode ter levado os que não fazem parte do universo futebolístico a julgarem tudo aquilo como algo insensato.

Mas existiria uma razão para esta “insensatez”? Como explicar tamanha comoção? A história do clube, suas conquistas, seus ídolos e heróis geram uma noção de pertencimento, compartilhamento e de laços identitários muito fortes. Mais importante ainda é observamos que no Brasil dizemos que somos o time e não que torcemos por ele. Daí o “eu sou Flamengo” ou “eu sou Vasco” etc. Talvez, nos laços identitários e de pertencimentos possamos seguir um caminho promissor para a compreensão deste envolvimento

Da mesma forma que estranhamos o que não faz parte da nossa cultura, os que não torcem para time algum tendem a julgar com as lentes de sua razão esta paixão, aparentemente irracional. Para os que estão dentro, o torcer é algo inerente as suas vidas e desde que se tenha tolerância, a nau dos insensatos não faz mal algum nem aos seus tripulantes, nem ao outros.

Estas reflexões merecem ser mais bem pesquisadas para conseguirmos um dia entender este sentimento que permeia a vida de muita gente no Brasil e ao redor do planeta.

*Artigo publicado originalmente no Globo no dia 06 de dezembro de 2019.

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E agora, José?

26 de maio de 1999. Camp Nou, Barcelona. Mais de noventa mil pessoas fixavam seus olhares em David Beckham, posicionado, aos 48 minutos do segundo tempo, para cobrança de novo escanteio a favor do Manchester United. A cena ganhava contornos de déjà vu: apenas um par de minutos antes, o então jovem meio-campista alçara a bola, daquela mesmíssima posição, na área do rival Bayern de Munique, onde caminhos imponderáveis fizeram de Teddy Sheringham o autor do gol de empate em uma partida prestes a se tornar histórica. Estava em disputa, à ocasião, a Liga dos Campeões da UEFA. Os bávaros, ao verem se esvair a vantagem mínima que preservavam desde falta cobrada por Basler no contrapé de Peter Schmeichel, aos seis minutos da primeira etapa, sentiram o golpe. Não bastasse o súbito revés, que abria as portas para os desgastes físico e psicológico de uma prorrogação em tais condições, lá estava uma vez mais a cabeleira loira do prodígio inglês naquele fatídico vértice do campo de jogo. Tão veloz quanto inesquecível, recordo a sequência como registro digno de película: o toque de elegância no cruzamento, o desvio de cabeça do recém-algoz Sheringham (suficiente apenas para que a bola passasse rente à trave defendida por Oliver Kahn) e a conclusão instintiva, como uma aguilhoada mortal, de Ole Gunnar Solskjær – o mesmo que, décadas depois, viria a distribuir instruções à beira do gramado em Old Trafford. Incredulidade ao redor do globo. A virada-relâmpago fizera com que o apito final soasse logo em seguida aos ouvidos alemães como a Sétima Trombeta, transferindo de mãos o troféu mais importante do Velho Mundo e se projetando como exemplo mais bem consumado do Fergie Time – período no qual os Diabos Vermelhos treinados por Sir Alex Ferguson acabavam por dar números terminais ao marcador já durante a agonia dos acréscimos.

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Fonte: trivela.com.br

Aquele confronto possui uma função mítica em minha vida. Não sei bem se narro aqui uma memória precisa ou um desses fragmentos dúbios dos tempos de infância – enquanto mito, de resto, isso pouco importa –, mas uma mirada retrospectiva me leva a crer que se dava ali um instante fundador de mim mesmo: do alto dos meus dez anos, consciente do que se passava, entendia enfim toda a potência do futebol. Com efeito, uma história análoga àquelas contadas por meu pai, arquibaldo quando o Maracanã dos Maracanãs ainda engolia mortais em transe, acabava de se insinuar às retinas de criança. Por meio daquela experiência, eu fora projetado à dimensão metafísica do todo – há algo de transcendente em qualquer bola que cruze a linha do gol, seja esta imaginada entre chinelos, nas ruas de um subúrbio, ou materializada pela cal. Dia após dia, passei a procurar, em cada ida religiosa aos estádios, em cada segundo vidrado diante de uma tevê ou atento aos galopes do rádio, a possibilidade de retornar, trajado em minhas próprias cores, àquele momento originário, de revisitar aquela vertigem, de não mais caber em meus próprios limites graças à catarse gerada pela força motriz das multidões: o gol redentor que antecede o poente dos refletores.

Vinte anos se passaram. No calendário: 23 de novembro de 2019. Estádio Monumental, Lima. Trinta e oito anos após erguer a Libertadores da América pela primeira e única vez, o Flamengo adentrava o relvado diante de quase oitenta mil pessoas para medir forças com o campeão vigente do torneio: o fortíssimo River Plate da era Gallardo, que buscava o feito de levantar o caneco pela terceira vez em apenas cinco anos. A equipe rubro-negra, embora não chegasse à final havia tanto tempo – retornava para uma inédita, logística e culturalmente lamentável edição em contenda única, jogada em cancha pré-definida e transferida de Santiago, a opção inicial, devido à ampla mobilização popular que reivindicava melhores condições de vida à gente chilena –, levava ao Peru um favoritismo chancelado não somente por uma campanha avassaladora no Campeonato Brasileiro (restando quatro rodadas para o término da competição, atingira o recorde de pontos no sistema corrido – o auspicioso número 81, mesmos dígitos do ano que o esquadrão capitaneado por Zico cravou como o mais importante da história do clube ao vencer justamente a Libertadores, além do Mundial Interclubes), mas por atuações que confirmaram um domínio categórico também sobre os dois gigantes de Porto Alegre nos desafios pregressos do mata-mata continental: seguros 2 x 0 contra o Internacional no Maracanã, com empate em 1 x 1 na volta maduramente administrada no Beira-Rio, sucedidos pela mesma igualdade contra o Grêmio no Sul (resultado que camuflou a superioridade do time carioca, que poderia ter voltado à Gávea com a classificação encaminhada) e, é claro, o massacre perpetrado no Templo Maior três semanas depois – nada mais nada menos que impiedosos 5 x 0 sobre os tricolores de Renato Gaúcho, assíduos frequentadores das fases agudas da Copa desde 2017, quando conquistaram seu tricampeonato. Havia no ar do Rio de Janeiro um curioso misto de respeito ao oponente derradeiro e de confiança muito acima da média por parte dos adeptos do Mister, o português Jorge Jesus – combinação temperada com inevitáveis doses de arrogância, que se encarregaram de legar ao passado todo um receio introjetado no espírito por eliminações recentes e vexaminosas além-fronteiras nacionais.

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Fonte: blogdorafaelreis

Com a bola rolando, porém, os Millonarios trataram de demonstrar sem delongas o significado de uma final de Libertadores perante uma camisa enverga-varais: decorridos 14 minutos, o colombiano Borré foi às redes com um arremate rasteiro inapelável para o goleiro Diego Alves, após falha coletiva pelo lado esquerdo do sistema defensivo brasileiro – permissivo não apenas quanto ao espaço para a chegada portenha às costas do tarimbado lateral Filipe Luís, mas ainda incapaz de afastar o perigo de sua área em função de um deixa-não-deixa fatal entre Willian Arão e Gerson. A dianteira no placar era tudo que um cascudo River Plate necessitava para ratificar sua estratégia: busca por domínio mental, marcação pegada e constantemente concentrada, anulação das linhas de passe mais perigosas à sua meta, pressão sobre a bola durante a posse rival… – tudo isso somado à conhecida catimba argentina, empregada com inteligência a fim de fazer e receber faltas estratégicas para impor o ritmo que lhe convinha, minando a paciência e o ímpeto adversários. A tática de El Muñeco conseguia o que nenhuma equipe de nosso país havia feito nos últimos meses, anulando a intensidade rubro-negra, forçando o desafiante a passes errados e transformando a segurança característica do outro lado em ansiedade. A receita para o sucesso, pois, funcionava, e o roteiro parecia inalterável. No entanto, a conclusão do enredo nos é conhecida: uma crônica rodrigueana póstuma, na qual bem poderíamos encontrar a afirmação de que os helenos só inventaram a tragédia enquanto gênero teatral porque lhes faltaram duas traves. Para entender como seria possível uma reviravolta inscrita de imediato na posteridade, é preciso lançar luzes sobre dois nomes que mudaram a trajetória daquela tarde aos pés das montanhas limenhas: Diego Ribas e Lucas Pratto.

O primeiro – que, em função de uma contusão que o deixara fora dos gramados durante longo período, assistiu do banco de reservas à ascensão de seus companheiros ao longo da temporada – entrou em campo no lugar de Gérson, uma das grandes esperanças do Flamengo anuladas na peleja, aos 21 minutos da última etapa; por sua vez, o segundo – um dos heróis na consagração áurea do River no ano anterior, em que marcou um gol em cada partida decisiva contra o arquirrival Boca Juniors, quando os xeneizes estavam à frente do placar tanto na Bombonera quanto no… Santiago Bernabéu (sob olhares revoltos das almas de José de San Martín, Simón Bolívar e demais líderes das independências latino-americanas) – substituiu Borré, que àquela altura já sonhava com o ingresso no panteão dos ídolos alvirrubros, quase dez minutos depois. Quiseram as divindades da bola que o destino passasse por ambos, embora de formas muito distintas. Diego, afinal, conseguiu trazer à sua equipe a mobilidade e dinâmica de que ela tanto necessitava, movimentando-se para construir e distribuir jogadas ao flutuar desde trás entre espaços vazios (e até então raros), ao passo que Pratto, decerto inserido com o intuito de prender a bola em seu campo de ataque com a experiência que lhe cabia, optava por definições no mais das vezes precipitadas e inofensivas.

Ainda que estes pêndulos individuais indicassem vantagem ao brasileiro, o quadro geral se mantinha incólume: River, mais disperso, conquanto ainda guerreiro, um; Flamengo, mais operante, entretanto ainda neutralizado, zero. Eis que, no limite do tempo regulamentar, as duas figuras em questão se encontram. É Pratto quem retém a bola na intermediária ofensiva. Sobre si, nenhuma pressão: há espaço suficiente para cadenciar a velocidade a seu favor. Contudo, delibera como juvenil: força um passe desnecessário pelo meio, interceptado justamente pelo carrinho de um atento Diego. É o primeiro passo da derrocada. A rebatida faz com que a pelota volte em direção ao atacante, mas, antes mesmo de seu domínio se concretizar, Diego, ato contínuo à interceptação, já havia se levantado para novo combate. Via-se ali o contraponto: era gesto de quem compreendia a magnitude do que se passava.

No extremo esquerdo do lado argentino, braços erguidos a rogar por uma inversão de jogo; no direito, um companheiro que fora desde sempre a melhor opção a ser acionada por Pratto, livre para reter a bola como recomenda o manual. Segundo passo da queda: já pressionado de perto pelo camisa 10 do Flamengo, o dianteiro ignora a ambos e escolhe conduzir de modo inadvertido a redonda, que levemente lhe escapa – como se fosse agora um Sófocles a nos apresentar a peripécia de alguma de suas encenações. É o sinal para De Arrascaeta auxiliar Diego na marcação. A dupla pressão culmina em uma roubada de bola que permite ao meia uruguaio avançar contra o campo desguarnecido do River, tomado de assalto. Lá, ele a entrega ao maior fator de desequilíbrio da Copa: Bruno Henrique. Este ensaia um mano a mano já próximo à grande área de La Banda, mas, com a aproximação de um marcador, prefere aplicar um drible no sentido oposto ao da meta, desacelerando a jogada. Quando retoma agressivamente a direção do gol, um átimo depois, sua investida parece cair em uma armadilha, na medida em que os quatro contendores mais próximos avançam em simultâneo num bote múltiplo.

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Fonte: veja.abril.com.br

Dizia Armando Nogueira que o bom jogador vê o seu entorno; o craque, todavia, é aquele que o antevê. Foi o que fez Bruno Henrique. Diante daquele cerco, o brasileiro encontrou um passe desmonta-ferrolhos, entre linhas, como se para isso tivesse ele próprio planejado aquele exato movimento coordenado da defesa. O destinatário, o mesmo De Arrascaeta que o havia encontrado aberto para o contra-ataque em curso, alcançou a bola beijando a linha da pequena área e, lançando-se ao chão em disputa com Pinola, capitão adversário, rolou-a de bandeja para Gabriel Barbosa – o Gabigol. Com Armani imóvel e rendido à primeira trave, bastou ao artilheiro empurrar a redonda para o gol aberto, aos 43 minutos do segundo tempo, para em seguida exibir os muques, o semblante marrento, em sua tradicional comemoração. Ora, que a verdade seja de uma vez exposta: não importa o que digam, todos que assistiam àquele desenlace foram tomados pela mesma certeza, como os ingleses de vinte anos atrás: o empate no placar passava a ser apenas um detalhe provisório; o Flamengo acabara de se tornar campeão das Américas. A pergunta passava a ser tão somente por quanto tempo duraria a vã igualdade. . A resposta não tardou: mal haviam cessado as celebrações, os replays ainda rodavam o mundo dissecando em câmera lenta todos os ângulos, e a dona dos olhares novamente voltava aos pés de Diego, senhoril em seu campo de defesa, próximo ao círculo central. Erguida a cabeça, ele logo avistou Gabigol solicitando lançamento, ao que foi prontamente atendido. Entrávamos no minuto 46. Com a bola em viagem, o máximo goleador do torneio trombou com o gigante Pinola, impedindo-lhe de cortar a ligação à primeira vista despretensiosa pelo alto e ganhando a dianteira após o quique (falha do beque? Méritos do algoz? Ambos?). Numa última tentativa de anular a ameaça – o que lograra com louvor até o letal ataque anterior –, o zagueiro cabeceou a bola de maneira tola, como lhe pareceu possível.

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Fonte: veja.abril.com.br

Não previa, por óbvio,que aquele ato serviria como uma assistência contra si e os seus, clareando o horizonte para o inimigo. Tudo à feição para Gabigol, de dentro da área, fulminar frontalmente Armani, sucumbido, e transmutar-se ali mesmo em lenda, a repetir o feito de Zico: dois gols determinantes no jogo da taça. Em suma: três minutos inscritos na eternidade. Flamengo bicampeão da Libertadores, com script encomendado a um dos mais cultuados deuses do futebol – o Imponderável. Qualquer análise dirá, e com razão, que aquela há de ter sido a pior partida da equipe de Jorge Jesus desde seu encaixe imbatível. Irrelevante. Toda uma geração de torcedores teria desde então a sua existência justificada e se dedicaria a relembrar, entusiasmados, a saga de Lima vida afora. A mitologia rubro-negra ganharia novos imortais, e rapsodos a cantá-los de cidade em cidade, em cada arquibancada visitada: ao lado dos saudosos de 1981, promoviam-se os instantâneos de 2019. De modo sucinto: dar-se-ia a conversão do fato objetivo em narrativa simbólica. Aquela comunhão fantástica ao qual eu, moleque, fora projetado por um embate entre clubes europeus ora se perfazia como rito fundamental para moradores de minha própria terra, de meu próprio bairro, de minha própria vila. Gritos ensandecidos invadiam minha janela, pela qual, em ocasiões extraordinárias, é possível ouvir até mesmo os urros advindos do Maracanã. Mas tais gritos eram externos; não encontravam eco do lado de cá da fenestra.Não em minha casa, alheia à apoteose improvável. Não em minha tevê, cujo volume se mantivera baixo, como quem não quisesse ser divulgado. Não dentro de mim, oco e incrédulo de inveja. Porque, lástima e ironia, mil ais de maldição!: toda minha devoção é em verdade dedicada ao Fluminense, de onde surgiu, como diria Nelson Rodrigues, a seção terrestre daquele Flamengo de regatas, depois de briga havida nas Laranjeiras nos priscos 1911. Eu, que sonhara com um triunfo daquela natureza – e, in loco, vira-o escapar pelos dedos em 2008 –, testemunhava a glória do antagonista.

No dia seguinte, enquanto os jogadores desfilavam com seu povo em carro aberto pelo Centro do Rio, uma derrota do Palmeiras, vice-líder do Campeonato Brasileiro, ainda garantiu protocolarmente o título nacional ao Flamengo, inalcançável em definitivo por sua pontuação sem precedentes. Estava consumado um abismo inédito em nosso moderno futebol de clubes. Era a primeira vez que um time exercia seu domínio em níveis nacional e latino-americano em uma mesma temporada desde o eterno Santos de Pelé, em 1963. Afinal, como isso foi possível? Ao mesmo tempo em que a festa transcorria para tantos, outros milhões mergulhavam numa reflexão que se impunha com premência ao futebol brasileiro, alimentada pelo ameaça de uma hegemonia rubro-negra por vir.

Em face de tamanho domínio dos comandados por Jorge Jesus, um debate ganhou corpo, opondo em geral duas perspectivas supostamente dicotômicas: de um lado, a ênfase na desnivelada distribuição de cotas de televisão para os clubes no Brasil – em geral, sua principal fonte de renda –, que teria favorecido sobretudo o clube de maior torcida em nosso território; de outro, a defesa do choque de gestão levado a termo na Gávea no decorrer dos últimos anos, trazendo uma estabilidade que, para citar bordão da hora, teria erigido o Flamengo a outro patamar em relação aos concorrentes. Aos dados: segundo Paulo Vinicius Coelho, em coluna na Folha de São Paulo intitulada Pobre futebol rico (publicada em 29/09/13)¹, cinco clubes recebiam R$25 milhões cada até 2009 pelos contratos de transmissão com a Rede Globo, a saber: Flamengo, Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Vasco. Em 2013, um salto: as duas agremiações de maior torcida passaram a embolsar R$120 milhões cada – Palmeiras e Vasco, por seu turno, ficaram com R$80 milhões (portanto, R$40 milhões a menos do que os líderes econômicos), um pouco abaixo do São Paulo. Três anos depois, nova renegociação, com validade de quatro anos, e a dupla que rica já era mais rica ficou: meros R$170 milhões cada – e isso sem o montante oriundo do pay-per-view (sistema ao qual logo chegaremos e em que, por razões compreensíveis, estão na ponta). Em 2016, por conseguinte, já eram R$70 milhões a separar Flamengo e Corinthians de Palmeiras e Vasco (estes com R$100 milhões de faturamento, R$10 milhões abaixo do terceiro colocado, novamente o São Paulo).² Em pelotão menos abastado, forças como Atlético-MG, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Fluminense e Botafogo, que outrora recebiam R$45 milhões por ano, elevaram as cifras para R$60 milhões. Ainda assim, o fosso entre este último grupo de gigantes e os dois primeiros clubes do topo passava a ser de R$110 milhões no ponto de origem. Se pensarmos para além do eixo Rio/São Paulo/Belo Horizonte/Porto Alegre, o buraco talvez não tenha fundo. Aqui, como nos índices brutalmente desiguais da sociedade brasileira, não há discurso meritocrata que se sustente. Não por acaso, em seu texto no jornal paulistano, PVC discutia, há cinco anos, o que tem sido cada vez mais chamado de fenômeno da espanholização do futebol, em referência ao país ibérico onde Real Madrid e Barcelona se consolidaram como superpotências demasiadamente dominantes, tornando-se nocivos à própria competitividade de La Liga.

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Fonte: veja.bril.com.br

Em maio deste ano, a partir dos balanços financeiros referentes a 2018 divulgados pelos clubes da Série A, a empresa SportsValue, especializada em marketing esportivo, divulgou um estudo acerca das variadas fontes de receitas em nosso futebol.[4] Segundo as estatísticas, os direitos de transmissão da temporada passada representaram, como sói acontecer, a maior parcela dos valores movimentados: 38% do total. À frente neste quesito ficaram Flamengo (R$222 milhões – o único a ultrapassar a faixa dos R$200 milhões), Corinthians (R$198 milhões), Cruzeiro (R$191), Grêmio/Palmeiras (R$137 milhões) e São Paulo (R$135 milhões). A distância entre os cariocas que abrem o ranking e o tricolor do Morumbi, historicamente bem colocado, foi de R$87 milhões. Impulsionado pelas transferências de jogadores (R$170 milhões), bilheteria (R$116 milhões) e patrocínios (R$95 milhões), o Palmeiras, com fomentos da empresa de créditos Crefisa e praticante do valor médio mais elevado para os ingressos no Brasil[5], faturou 30% a mais do que no ano anterior, batendo o Flamengo na receita total (R$654 milhões contra R$543 milhões) e tentando lhe fazer frente no panorama da bola – vale uma boa análise sobre o papel de mais um exemplo de injeção volumosa de dinheiro externo circunstancial, além da adoção de uma nefasta política de gentrificação nas modernas arenas, que se tornaram tônica no pós-Copa do Mundo de 2014. E em 2019? Pois bem, chegamos a uma alteração substancial no sistema de cotas de televisão. Se até então os direitos eram negociados diretamente com a Rede Globo, a toda-poderosa emissora dos trópicos, a chegada ao Brasil do grupo Turner (Esporte Interativo/TNT) gerou um cenário em que os percentuais das transmissões em canais abertos e no catálogo pay-per-view passaram a ser discutidos em tratativas independentes. Quanto ao primeiro segmento, a Globo enfim buscou estabelecer um critério mais equilibrado para o balanço anual: de uma soma em torno de R$600 milhões, 40% serão igualmente distribuídos entre os clubes da divisão de elite que firmaram acordo (75% entre janeiro e junho e 25% entre julho e dezembro, pagos mensalmente); 30% serão proporcionais ao número de exibições no canal (pagamentos entre maio e dezembro); e os 30% restantes serão por fim repassados ao término do campeonato, consoante a posição final na tabela (pagamento em dezembro).[6] Estaríamos observando o fim de um problema estrutural no que tange à relação dos clubes com as emissoras de televisão, enfim? Bom, não exatamente. A despeito de as fatias concernentes aos canais abertos terem de fato sido mais bem concebidas[7], no que diz respeito ao modelo pay-per-view os valores não deixaram de contribuir para a manutenção de uma balança em muito desproporcional: segundo estudo divulgado pela Ernest & Young, com a nova metodologia adotada (pesquisas por levantamento das torcidas em todo o território do país, e não mais apenas nas capitais), enquanto Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras incrementarão seus caixas, outros clubes de ampla projeção, como Vasco, Fluminense, Botafogo, Grêmio, Internacional, Cruzeiro e Atlético-MG poderão perder receitas em relação a anos anteriores.[8] Em nome da clareza, é bom ressaltar o seguinte: não questiono exatamente se Flamengo ou Corinthians, maiores torcidas do Brasil, devem ou não receber mais das televisões em alguma medida – dada a demanda por exibições de seus escudos nas mais diversas praças, é razoável supor que sim –; o cerne aqui é avaliar se a discrepância exacerbada entre eles e os demais em seus respectivos vínculos com as emissoras é não apenas justa, mas salutar para a concorrência esportiva quando a bola rola. Parece-me elementar que, hoje, os fundos pecuniários dos clubes não se sustentam exclusivamente a partir deste elemento. Itens como negociações de atletas, placas publicitárias, circulação da marca no mercado, adesão de torcedores a programas de associação, capacidade de atrair público ao estádio para captar dividendos com bilheteria, exploração comercial das sedes sociais etc. compõem um cálculo mais amplo, no qual certamente entra na fórmula a capacidade de gestão – ponto reconhecido para o Flamengo, sem dúvida. Se compararmos os outros três grandes do Rio com o multicampeão do ano, há em suas áreas administrativas uma enorme diferença (e, à luz dos últimos acenos políticos da diretoria rubro-negra, vale dizer que apenas administrativamente ela poderia servir como bom referencial possível). Quanto a isto, ao seu modo, Fluminense, Vasco e Botafogo precisam reformular urgentemente seus quadros de maneira mais criteriosa. De toda sorte, a tese que defendo é a de que, se hoje muitos torcedores do Flamengo ensaiam um discurso que ousa minimizar a dimensão das cotas de televisão, eles só podem fazê-lo porque, paradoxalmente, valeram-se delas durante considerável período em dígitos astronômicos, que ajudaram em sua recente engenharia financeira. Que sejam reconhecidos os bons trabalhos realizados, mas sem cairmos nas fábulas das gestões responsáveis que se tornam exitosas por si só, sem influência de uma conjuntura favorável que as precedem. Por isso, a apreensão generalizada dos rivais reside na consideração de que – fato inédito –, o clube de maior receita acumulada do Brasil (graças aos desarrazoados antecedentes descritos acima) passou a ser conduzido por uma gestão que soube se planejar como nenhuma outra em âmbito nacional (dado que, resguardas ressalvas que não cabem neste texto, merece elogios).

Palmeiras tem o preço médio de ingresso mais caro do país. Veja o ranking
Fonte: globoesporte.com

O futuro do futebol no Brasil é sempre incerto, mas a prudência se faz mais do que necessária quanto ao possível agravamento de disparidades econômicas – que, se bem geridas, culminam também em desequilíbrio esportivo. Talvez estejamos “apenas” vivenciando mais um desses episódios meteóricos, quando tudo converge para um sucesso que levará decênios para se repetir em novas linhas; talvez, pelo contrário, o Flamengo consiga doravante replicar a fórmula bem-sucedida de 2019 (técnico afinado com as demandas modernas do esporte, contratações de nomes experientes que buscam um projeto pós-Europa definido, leitura refinada do mercado, investimento em nomes ainda promissores, lançamento calculado de promessas da base, resgate de atletas em baixa…). A barra de exigência foi elevada a um estágio incomum para o cenário de nosso futebol de clubes. Por variáveis econômicas e técnicas, parece que só o Flamengo será capaz de desafiar seus próprios recordes em curto prazo. Aos outros clubes, bem, não há passe de mágica: a transformação, ao fim e ao cabo, deverá certamente partir de uma legítima reivindicação conjunta por partilhas financeiras e estruturantes mais equilibradas (uma Liga própria a gerenciar o Campeonato Brasileiro parece fadada a ser sonho de uma noite de verão…), mas precisará envolver também uma busca por dirigentes capazes de organizar suas instituições e potencializar seus recursos em uma era que lhes exige atualização – em algum grau, o Flamengo emerge como norte. Se, no meio de todo esse processo, ainda for possível considerar na equação uma combate à elitização do futebol como via única e incontornável, nós, torcedores, seremos gratos (o próprio Flamengo é, mesmo em seus jogos lotados, um time do povo?). Mas isso já é assunto para outro texto.

Eventos · Produção bibliográfica

“Helal, uma paixão rubro-negra” é lançado na Gávea

Foi realizado ontem, 18 de novembro, na Gávea, o lançamento do livro “Helal, uma paixão rubro-negra” uma homenagem ao ex-presidente do Flamengo George Helal, organizado por seu filho Ronaldo Helal, também coordenador do LEME e professor da UERJ.

O evento contou com presença de grandes ídolos do clube como Zico, Adílio, Júnior, Cantarele, Mozer, o atual presidente Rodolfo Landim, ex-presidentes, entre outras figuras que estão na história do Clube de Regatas do Flamengo.

Fonte: Instagram do C. R. Flamengo
Artigos

Coordenador do LEME lança livro no Rio

O Clube de Regatas do Flamengo recebe na segunda-feira, dia 18, às 19h, um dos seus mais ilustres rubro-negros para o lançamento do livro Helal, uma paixão rubro-negra. Organizado pelo professor da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), Ronaldo Helal, o livro conta a história de George Helal, pai de Ronaldo e ex-presidente do clube.

Helal, uma paixão rubro-negra chega às livrarias após três anos de projeto e traz entrevistas com ex-atletas, dirigentes, amigos e funcionários do clube. Em meio aos depoimentos, a tentativa de explicar como surgiu o amor deste norte-americano, naturalizado brasileiro, pelo Flamengo, desde os 13 anos de idade, quando ouviu o rubro-negro ser tricampeão carioca, em 1944.

Serviço

Lançamento do livro Helal, uma paixão rubro-negra
Dia: 18/11/2019
Horário: 19h
Local: Sede do Flamengo na Gávea (em frente ao museu)
Endereço: Av. Borges de Medeiros, 997, Lagoa, Rio de Janeiro.

Artigos

O senso comum no jornalismo esportivo

Após a conclusão da nona rodada do Campeonato Brasileiro, com o Palmeiras liderando a competição invicto e com cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Santos, e oito pontos sobre o terceiro, o Flamengo, o comentarista da Fox Esportes Fábio Sormani indagou, durante o programa Fox Sports: “Tem competição neste campeonato?” Para, em seguida, ele mesmo decretar: “Acho que não. Acho que o Palmeiras só perde este campeonato para ele mesmo”.

Apenas três rodadas depois, o Santos, abriu dois pontos de vantagem sobre o então campeão virtual, assumindo a liderança, condição que, quatro rodadas adiante, seria tomada pelo Flamengo. O exemplo, longe de inédito, constitui-se em caso exemplar da subjetividade no jornalismo esportivo, que tem como um dos seus pontos constituintes o senso comum que guia grande parte dos profissionais dessas editorias, como parece confirmar o silêncio e/ou a concordância dos demais integrantes daquela mesa.

Embora subjetividade e senso comum também compareçam em todas as editorias do jornalismo, eles são mais facilmente identificados ou identificáveis nas de esportes. Talvez, por serem consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais, as páginas de esporte da mídia são pródigas para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem do jornalismo, mas justamente para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Tal subjetivismo mais explicitado pode ser atribuído à relação estabelecida com o público, fortemente baseada em discursos mitológicos na representação de ídolos e fãs, o que, de certa forma, desculparia a existência de um texto abertamente mais opinativo e de forte caráter emocional. O senso comum de que “todo brasileiro gosta de futebol” também ajuda o jornalista a expor suas opiniões sobre o tema, sem necessidade de escudar-se na objetividade. É justamente o maior relaxamento na defesa da objetividade que ajuda a jogar luzes no processo de construção do discurso jornalístico nas editorias de esporte.

Fonte: torcedores.com

No entanto, em que se escora tal subjetivismo numa prática social que tem na objetividade sua pedra angular que garantiria sua autorreivindicada neutralidade e seu afastamento dos fatos? E o que teria autorizado o jornalista a proclamar um campeão antes mesmo que um terço do campeonato fosse disputado? Em 2018, na mesma nona rodada, o líder era o Flamengo, com um ponto de vantagem sobre o então vice-líder, São Paulo, e três sobre o então quarto colocado, o Palmeiras, vantagem que não impediu a conquista do título por este último.

A explicação não estaria ancorada, portanto, sequer no histórico recente da competição, embora aquele não seja garantia de acerto de qualquer previsão. Para a teoria construcionista do jornalismo, de  um ponto de vista sociológico, pode-se considerar os procedimentos que servem à busca pela objetividade como rituais, entendido aqui esse conceito como um procedimento de rotina que relativamente tem pouca importância ou importância tangencial para o fim procurado.

Tais procedimentos estratégicos, de acordo com a socióloga Gaye Tuchman – uma das principais representantes da corrente construcionista – seriam agrupados em cinco itens: apresentação de possibilidades conflituosas (ouvir os dois lados); a técnica do lead; provas auxiliares; uso de aspas; e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro dos primeiros em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda.

Para tentar minimizar o risco de que a objetividade possa ser apropriada para justificar a produção de dois leads, igualmente objetivos, porém, com abordagens distintas em assuntos delicados para os interesses editoriais e/ou econômicos das empresas, estas recorrem as suas políticas editoriais, para reforçar o controle profissional da mídia sobre os jornalistas (SOLOSKI in Traquina, 1993). Para ser mais eficiente, no entanto, a política editorial deve estar articulada com o profissionalismo exigido de cada jornalista. Soloski considera tal método mais eficiente e econômico como forma de controle do que, por exemplo, a censura explícita. Já que esta é contrária ao profissionalismo, sendo capaz de causar estranhamentos e vazamentos, estes hoje mais prováveis e viáveis com a presença das redes sociais e mídias alternativas.

Entende-se aqui profissionalismo como o estabelecimento de normas e padrões – formato mais flexível do que o de regras gerais – e a institucionalização de sistemas de recompensa profissional, vital numa instituição piramidal como os jornais. Apesar de mitificações difundidas em contrário, jornalistas, em geral, não têm perspectivas ideológicas mais definidas e tendem a buscar fontes na estrutura do sistema político-econômico, o que facilita a naturalização de interlocutores ligados à defesa do status quo, sem que isso seja considerado antiprofissional.

Fonte: cruzeirodosul.edu.br

A construção do profissionalismo sustenta-se fortemente na defesa do senso comum. Independentemente do maior ou menor grau de consciência do jornalista, o processamento de qualquer notícia envolve conjecturas. Dessa forma, a maneira mais eficaz de um profissional defender sua matéria diante de superiores hierárquicos, fontes ou, eventualmente nos tribunais, é recorrer à objetividade. Nessa construção social fundante do jornalismo moderno, a objetividade é a norma profissional mais importante. Ela, no entanto, está fortemente ancorada no senso comum e, como este guarda fortes raízes com a defesa do status quo, a investigação sobre como o jornalismo trata times e jogadores de futebol revela muito da sociedade da qual eles são parte influente.

Por isso, ao analisar-se as razões que levaram o jornalista Fábio Sormani a decretar o Palmeiras campeão com apenas nove rodadas de antecedência, deve-se ter presente alguns dos elementos subjetivos lidos pelos profissionais como objetivos e, portanto, neutros. Com R$ 81 milhões em patrocínio de camisa, R$ 15 milhões em luvas e R$ 6,8 milhões em propriedades de marketing (inclui salários de jogadores), num total de R$ 102,8 milhões (cerca de € 24 milhões de euros, no início de 2019), o Palmeiras, alcançou, graças ao acordo com a Crefisa, a condição de um dos maiores patrocínios do mundo.

O acordo estaria atrás apenas “dos gigantes espanhóis (Barcelona e Real Madrid), da potência alemã (Bayer de Munique), do novo rico francês (Paris Saint-Germain) e do top 6 inglês (Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham).

Para reforçar a afirmação de Sormani, outro integrante da mesa redonda, citando números da Footstats – empresa que, com apoio de soluções de inteligência analítica, produz dados e estatísticas sobre esportes – projetou que, ao fim da última rodada do campeonato, a diferença seria ainda mais avassaladora a favor do clube paulista, que atingiria 82 pontos, seguido de Internacional, com 59, e Flamengo, com 52. Além disso, o senso comum, no jornalismo brasileiro, associa, automaticamente, maior capacidade financeira a títulos, e o Palmeiras fora campeão no ano anterior.

Afinal, “lá fora” – leia-se, nos principais campeonatos da Europa – é assim. Não por acaso, outro integrante do mesmo programa vislumbrava a possibilidade de o Palmeiras – clube com origens italianas – tornar-se o “Juventus do seu campeonato”. A referência era ao fato de este time ter sido campeão das últimas oito edições do Campeonato Italiano, distanciando-se, em número de títulos de Milan e Internazionale, seus perseguidores mais próximos.[1] Como nos ensina a sociologia, no entanto, toda tentativa de transplantação cultural para sociedades de realidades diferentes é, no mínimo, problemática, estando sujeita a equívocos metodológicos e de análise, como o mecanicismo.

Na Itália, antes mesmo da atual hegemonia do clube de Turim sobre seus dois adversários, a competição, como regra, limitava-se aos três clubes citados. O último campeão não pertencente ao trio fora o Roma, no distante 2001. Com variações escassas, o número reduzido de reais competidores aos títulos nacionais repete-se, como regra, em Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha e França.

A única exceção é a Inglaterra, onde após uma maior redistribuição das cotas pagas pela televisão, em parcelas mais equânimes, passou a existir uma menor assimetria entre os clubes, permitindo que, nos últimos dez anos, quatro agremiações conquistassem o título da Premier League.[2] Os números ingleses, porém, também, são um tanto borrados pelos grandes investidores que compraram Manchester City e Chelsea, que, antes dessa mudança societária, encontravam-se distantes dos principais competidores do país.

Os dados apresentados reforçam a advertência da necessidade de cautela quando setores do jornalismo esportivo tentam transplantar mecanicamente paradigmas de centros futebolísticos marcados pelo duopólio ou pouco mais do que isso para uma realidade como a do futebol brasileiro, com diferentes e complexas identidades culturais.  Portadora de um caldeirão de possibilidades, esta permitiu que, entre 1959 e 2002 – último ano antes da era dos pontos corridos – 17 clubes fossem, ao menos uma vez, campeões brasileiros.

Mesmo a partir de 2003, quando, com a mudança para pontos corridos, o número de competidores efetivos ao título, foi afunilado, sete equipes venceram, ao menos uma vez, em 16 das edições realizadas até 2018. Tanto os números que contam o conjunto da história da competição, quanto os que se restringem ao período mais curto pós-2003 apontam para  inexistência de uma clara hegemonia, no futebol brasileiro, de um único clube ou da constituição de um duopólio, nos moldes europeus.

Brasil não é Europa

É verdade, porém, que esse maior pluralismo começa a ser desafiado a partir do aporte de recursos que ficam atrás apenas “dos gigantes europeus”, e da ampliação da assimetria na distribuição das cotas de TV, que se concentram em dois clubes.[3] Assim, nas edições entre 2015 e 2018, apenas Corinthians e Palmeiras revezaram-se no pódio. Se a análise estender-se para as primeiras posições, que asseguram classificação direta à Libertadores, se verá que a fatia de clubes de São Paulo pode, de fato, sinalizar uma concentração das equipes mais competitivas no estado mais rico da federação.

Uma exceção seria o Flamengo, um dos dois detentores – ao lado do Corinthians – da maior cota paga pela TV Globo – até 900% superior aos clubes mais tradicionais da última faixa constituída pela emissora. No entanto, pelo menos até 2018, o maior poder econômico desta equipe carioca não foi convertido em títulos no Brasileiro – apenas um na era dos pontos corridos – nem muito menos em conquistas internacionais, que não são, porém, o alvo deste artigo.

Tem-se, então, que buscar outras fontes para justificar a profecia peremptória do jornalista. Talvez, a junção de novos patamares econômicos com o antigo cacoete de comparar o futebol do Brasil com o da Europa, mas sempre, ou quase sempre, a partir do olhar europeu. Tal enviezamento já resultou em outros prognósticos,como o risco da espanholização do futebol brasileiro, que se reduziria a Flamengo e Corinthians; ou a constituição de um hegemon a partir de valores “mercantilistas”, como tamanho da torcida e do poderio econômico.

Fonte: exame.abril.com.r

Todos esses fenômenos, já examinados por mim e outros autores, embora devam ser observados com a devida atenção, no entanto, até o momento, ainda, não passaram por um processo de institucionalização que autorize uma equiparação, imediata e definitiva, com o paradigma hegemônico na Europa. O descompasso entre as profecias do jornalismo baseadas no senso comum e a realidade, no entanto, não servem de impedimento para que essas continuem sendo produzidas em série e alimentem, não raro, como dado de realidade, os debates das mesas esportivas e dos torcedores.

Um dos mais recorrentes é “Não pode deixar o Flamengo chegar, que é campeão”. Tal crença, aparentemente baseada no intervalo entre 1980 e 1983, quando o clube conquistou três dos quatro títulos em disputa, era reforçada, ainda, pela fraca performance do time nos anos em que não foi campeão, entre 1959 e 1980, com classificações que variaram entre o 24º lugar, em 1973 – pior posição no perído – e o 5º lugar, em 1976 – melhor posto no mesmo intervalo. A reivindicação de que o time se tornaria imbatível “quando chegasse” se sustentaria, assim, não apenas entre os títulos entre 1980 e 1983 – era mais vitoriosa da história do clube – como seria reforçada pelo parâmetro do “tudo ou nada”.

Após a década de 1980, porém, tal combinação não se sustentou nos fatos. Tanto o clube alcançou boas colocações quando não foi campeão – terceiro lugar (em 2016) e vice-campeão (2018) – como, em competições eliminatórias, nas quais ficaria mais acentuado o dístico “Não pode deixar chegar…”, tal profecia malogrou.

Para ficarmos apenas em exemplos mais recentes, em 2017, o clube foi derrotado pelo Cruzeiro, na disputa de pênaltis, na final da Copa do Brasil; no mesmo ano, perdeu o título da Sul-Americana para o argentino Independiente, após empate em 1 x 1, no Maracanã, que seguira à derrota, por 2 x 1, no primeiro jogo na Argentina. Em 2018, foi eliminado pelo Cruzeiro, nas quartas de final da Libertadores, após perder a primeira partida por 2 x 0, no Maracanã, e vencer o adversário por 1 x 0, no Mineirão. E, em 2019, foi a vez de o Athetico-PR eliminar o rubro-negro carioca, também, no Maracanã, na disputa de pênaltis.

Sustentar, porém, que tais descompassos entre a realidade e as convicções dos jornalistas em suas conjecturas seriam impeditivos a que o Palmeiras pudesse ser campeão do Brasileiro de 2019 e que o Flamengo possa ir adiante em jogos decisivos constituiria, em ordem inversa, um novo paradigma assentado também no senso comum.

Fonte: pretextouel.com

Uma das dificuldades de origem na crítica de outros ramos das ciências humanas ao texto jornalístico é a tendência a tratá-lo como uma espécie de sociologia mal posta ou mera propaganda ideológica. Tal abordagem peca por ignorar especificidade fundamental do jornalismo. Enquanto o texto sociológico busca dissecar os processos sociais, a notícia intenciona ajudar a familiarizar os leitores com os acontecimentos diários.

O exame dos exemplos que tratamos – e existem inúmeros outros equivalentes –  nos alertam, no entanto, para outro tipo de risco: ao elevar o senso comum à única, ou à principal, categoria de realidade, o jornalismo e os jornalistas aproximam-se, e fundem-se, com o entretenimento. Ao fazerem isso, misturam-se com papel mais talhado à jocosidade das torcidas, território a que também não deveriam filiar-se. Pois ao recusarem-se a manter a devida cautela em relação à excessiva aproximação do entretenimento, atuam, por exemplo, mais como personagens e/ou torcedores. Com isso, jornalismo e jornalistas correm o risco de contribuírem para a descontituição de um campo próprio construído longamente, ao longo dos séculos, desde a autonomização do jornalismo em relação à literatura.

Referências

GAYE, Tuchman. A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.

SOLOSKI, John. O jornalismo e o profissionalismo: alguns constrangimentos no trabalho jornalístico In TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993

SOUTO, Sérgio Montero. E 1987 não acabou – penta ou hexa: diferentes memórias sobre a hegemonia no futebol brasileiros quando o “mercado” entra em campo. . Joinville: 41º Intercom, 2018.

Notas de fim

[1] Com 35 conquistas, o Juventus tem quase o dobro de títulos nacionais sobre Milan e Internazionale, ambos com 18.

[2] Entre 2010 e 2019, Manchester City (quatro vezes), Chelsea (três), Manchester United (duas) e Leicester City (uma) revezaram-se nas conquistas.

[3] Para uma comparação entre a assimetria entre audiência, números de transmissões de partidas e distribuição de cotas de TV veja SOUTO, 2018.

Artigos

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