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Balanço: Seminário Mulheres Esportivas

Se durante muito tempo as propagandas contribuíram imensamente para a manutenção e reforço, recentemente algumas têm investido na quebra de estereótipos relativos ao papel da mulher no universo esportivo. Em um recente comercial de carro, ao som da música “Heroes” de David Bowie, uma menina realiza o sonho de lutar Boxe, seguindo os passos do pai, Mohamed Ali. Em outra propaganda um rapaz representando um jogador da seleção brasileira entrega sua camisa a uma menininha, indicando que futebol não é coisa somente de homens, mas também é parte componente do imaginário e da vida de muitas mulheres, desde pequena.

A presença da mulher nos esportes é matéria que mereceu atenção de pesquisadores que nos últimos anos têm se debruçado sobre essa questão a partir de arcabouços teóricos diversos, vindos da Antropologia, Sociologia, História, Comunicação entre outros. E apesar de a produção ter se expandido bastante, sobretudo, no que se refere à presença das mulheres no universo do futebol, ainda há muito a ser dito, pesquisado e debatido. Em grande medida porque há muito que se conquistar em um ambiente que sempre foi um palco de exaltação de masculinidade no singular.  Isso implicou certamente no cerceamento da participação não somente da mulher, mas de masculinidades desviantes daquela considerada normativa cujo perfil era delineado a partir da das concepções de virilidade, brutalidade e violência.

A mulher, culturalmente concebida como “bela, maternal e feminina” – para fazer uso do título de um importante livro de Silvana Goelnner, demorou a poder participar de algumas práticas esportivas, sobretudo as consideradas mais brutas, como boxe e o futebol. Nos primeiros jogos Olímpicos Modernos, a participação feminina foi vetada e mesmo quando liberada, sua aceitação não foi plena como mostra o texto de Fausto Amaro, aqui publicado.[1]

Esse não reconhecimento e legitimação levaram diversos embates e um dos mais emblemáticos foi protagonizado pela atleta Alice Milliat que, em 1921, liderou a criação dos  I Jogos Femininos e da Federação Internacional Desportiva Feminina. No ano seguinte os jogos que também eram autodenominados de Olímpicos tiveram sua segunda edição sendo rebatizados de “Jogos Mundiais Femininos”. Como demonstra Katia Rubio[2] esses jogos forçaram a um acordo entre a Federação Internacional de Atletismo que se comprometeu a incluir, de modo completo, o programa de atletismo feminino proposto por Milliat.

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Legenda: Alice Milliat Fonte: Storie di Sport

No que diz respeito aos Jogos Olímpicos, a participação da mulher enquanto atleta tem aumentado, como se pode verificar no gráfico abaixo.

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Fonte: Firmino (2014, p. 18).

Porém, essa presença ainda é alvo de estranhamento, manifestações contrárias e preconceito, ainda notáveis, por exemplo, na representação midiática das atletas. Outro aspecto a ser considerado é a pouca ocupação da mulher em espaços representativos de Federações, como dirigentes esportivas, árbitras, torcedoras etc.

Além disso, em alguns esportes a presença das mulheres ainda se mostra problemática como é o caso do futebol brasileiro. O futebol feminino no Brasil ainda carece de uma estrutura esportiva que lhe sustente e dê possibilidade de atuação profissional às jogadoras. Poucos são os clubes que de fato investem na modalidade. No que se refere à seleção Brasileira, os recentes problemas envolvendo a demissão da treinadora Emly Lima, dão mostras do quão o futebol praticado por mulheres no Brasil é pouco levado a sério

Se no campo o panorama não é dos melhores, fora dele, assistimos a uma melhora, em termos quantitativos, da participação das mulheres no jornalismo esportivo. Seria muito bem-vinda uma ampliação do número de comentaristas e narradoras. Recentemente a rádio Independência se tornou a primeira a ter uma mulher narrando um jogo da série B. Isabelly Morais entrou para a história ao narrar a partida entre América-MG x ABC.  Nos EUA recentemente Beth Mowins foi a primeira a narrar uma partida da NFL em cadeia nacional. As críticas e manifestações contrárias foram muitas, algumas afirmando que se tratava de uma atividade que não podia ser ocupada por mulheres. Frases como “É horrível ver mulher narrando futebol” invadiram as redes sociais.

No Uruguai em ação de marketing promovida por uma empresa farmacêutica possibilitou que pela primeira vez uma equipe de mulheres narrasse um jogo da seleção celeste, durante as eliminatórias da Copa de 2018.

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Fonte: Blog dibradoras.

São conquistas recentes que dão mostras de que ainda há mais a ser feito e ainda é necessário debater e pesquisar a respeito da presença da mulher nos esportes. E pensando nisso, o Leme, em parceria com o PPGCOM e com o NEPPES, da UFF, organizou o Seminário Mulheres Esportivas. Mídia Memória e representação, realizado nos dias 06 e 07 de Novembro de 2017.

O Seminário reuniu pesquisadores de diversas partes do país que trabalham com temáticas variadas vinculadas à presença da mulher nos esportes em suas diversas esferas. A organização das mesas objetivou contemplar de modo panorâmico questões relativas à história das mulheres no esporte, a presença feminina nas arquibancadas e a prática do jornalismo esportivo.

A primeira mesa contou com a presença de Aira Bonfim (FGV), Mariane Pisani (USP), Pamella Lima (UERJ) e Leda Costa (UERJ). As falas foram perpassadas pela tentativa de mostrar parte do percurso das mulheres no futebol, tendo como fonte principal a representação na imprensa. As apresentações abarcaram um arco temporal que ia dos anos de 1940 até os dias atuais.

Aira Bonfim apresentou sua pesquisa, ainda em andamento, sobre alguns clubes de futebol feminino do subúrbio carioca que no ano de 1940 foram fortemente noticiadas por participarem de jogos, um dos quais realizado no Pacaembu na preliminar do jogo que inauguraria os refletores desse estádio. Aira fez um levantamento das matérias publicadas sobre essas equipes e tentará ao longo de sua pesquisa, reconstruir essas histórias indo em busca de informações a respeito de quem eram aquelas mulheres precursoras, seus clubes etc. Mariane Pisani fazendo uso de um viés antropológico nos mostrou relatos coletados entre jogadoras de futebol enfatizando o entrelaçamento das questões de gênero, raça e classe social como fatores que precisam ser considerados para, desse modo, se lançar uma perspectiva menos homogênea e mais problematizadora sobre a relação mulheres e futebol.

Leda Costa tentou mostrar que embora o papel da imprensa tenha sido problemático no que se refere a reiteração de estereótipos a respeito da participação das mulheres no futebol, é valido destacar que entre as décadas de 1970 e 1980, a imprensa teve participação importante no questionamento acerca da proibição do futebol feminino no Brasil. Esse questionamento foi tematizado nas páginas de veículos como Jornal do Brasil, O Globo e Jornal dos Sports. A discussão foi além das páginas esportivas adentrando o importante Caderno B, do Jornal do Brasil, o que é indicativo de que havia um diálogo entre a necessidade de liberação do futebol feminino com as reivindicações de igualdade de gênero da época.  Pamella Lima enfocou a representação da esposa de Suárez feita em alguns livros publicados sobre esse jogador cujas polêmicas vêm acompanhadas – e suavizadas – por declarações românticas direcionadas a mulher com quem namora desde a adolescência. Se por um lado Suárez tem sua face demoníaca criada a partir de suas constantes brigas e punições por conta de seu comportamento em campo, por outro, Suárez demonstra ser um indivíduo cujo equilíbrio e felicidade se fundam não nos milhares de dólares que ganha, mas sim em seu casamento.

No dia 07, duas mesas compuseram o Seminário. Tivemos a fala de Rosana da Câmara cujo trabalho sobre as torcidas jovens do Rio de Janeiro, ocupa lugar precursor nas pesquisas sobre o futebol. Rosana nos mostrou um pouco de seu trabalho e como se deu sua entrada no campo das torcidas organizadas, as dificuldades derivadas do fato de ser mulher e transitar em um ambiente tão marcadamente masculino. Já Gustavo Bandeira, pesquisador da UFRGS problematizou as falas de torcedores ouvidas durante pesquisa de campo no estádio do Grêmio. Nessas falas evidenciava-se, mesmo que de modo disfarçado, reações preconceituosas e ambíguas a respeito da presença da mulher no futebol. Trazendo um contexto fora do eixo Rio e São Paulo, a fala de Gustavo se mostrou muito interessante por se tratar de um pesquisador que costuma abordar os estádios como espaços em que se faz notar uma pedagogia masculina e heteronormativa. Afinal tratam-se de dois elementos diretamente vinculados a manifestações machistas que, por sua vez, sustentam os diversos problemas enfrentados por mulheres. Martin Curi fez uma apresentação demonstrando a “guerra dos sexos” presente no discurso de frequentadores de algumas mídias sociais que mobilizaram discussões em torno do desempenho das seleções femininas e masculinas de futebol, durante os Jogos Olímpicos de 2016. Por fim, contamos com a presença de Penélope Toledo, uma das líderes do Movimento Mulheres de Arquibancada que recentemente reuniu mais de 500 torcedoras no Museu do Futebol em São Paulo. As dificuldades de juntar, no mesmo local, diferentes torcedoras representantes de agrupamentos rivais e a importância dessa iniciativa são elementos que permearam a fala da convidada.

Por fim, na última mesa recebemos as jornalistas Martha Esteves e Carla Mattera que são personagens importantes da história das mulheres no jornalismo esportivo. As dificuldades e enfrentamentos por elas vividos foram narrados e compartilhados com uma plateia formada por alunos de dentro e de fora da UERJ, assim como de professores e pesquisadores da área.

É de se destacar a importância da realização desse evento na UERJ dando mostras de que essa instituição é local de produção e divulgação de conhecimento científico de excelência e aberto à participação pública. O evento mostrou-se relevante, também, por trazer à cena debates sobre um assunto atual que diz respeito à sociedade como um todo.

O Seminário foi válido para mostrar mais uma vez como o esporte pode ser veículo capaz de nos fazer refletir sobre questões que não lhes são exclusivas. Sendo assim, falar da mulher e sua presença no esporte é falar também do papel da mulher e de todos nós na sociedade.

Notas de fim

[1] As mulheres e os Jogos Olímpicos – alguns pontos para reflexão. Publicado dia 17/10/2017

[2] As identidades da atleta brasileira: os “pontos de apego temporários” da mulher na vida esportiva Disponível em : http://seer.ufrgs.br/Movimento/article/viewFile/21106/19072

Referências

Firmino, Carolina Bortoleto. “Sou atleta, sou mulher”: a representação feminina sob análise das modalidades mais noticiadas nas olimpíadas de Londres 2012. Dissertação de Conclusão (Mestrado em Comunicação Midiática) – FAAC – Unesp, sob orientação do prof. Dr. Mauro de Souza Ventura, Bauru, 2014. p. 18.

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LEME promove seminário sobre mulheres no esporte na próxima semana

Nos dias 6 e 7 de novembro, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte convida todos para participarem do seminário “Mulheres Esportivas: Mídia, Memória e Representação”. Pesquisadores e jornalistas, como a apresentadora e repórter Carol Barcellos, da TV Globo, estão confirmados para o evento no auditório do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, na UERJ, 10º andar, bloco F, sala 10.121.

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Programação:

– 2ª feira, dia 06/11 (14h às 17h)
Mesa-Redonda: Mulheres no esporte: história, memória e representação:
Aira Bonfim (FGV)
Mariane Pisani (USP)
Leda Costa (UERJ)
Pamella Lima (UERJ)
Mediação: Leda Costa

– 3ª feira, dia 07/11 (14h às 17h)
Mesa-Redonda: Mulheres nas arquibancadas concretas e virtuais:
Rosana da Câmara Teixeira (UFRJ)
Gustavo Bandeira (UFRGS)
Penélope Toledo (Coletivo Mídia, futebol e democracia)
Martin Curi (UFF)
Mediação: Fausto Amaro

– 3ª feira, dia 07/11 (17h30 às 20h30)
Carol Barcelos (TV Globo)
Carla Matera (Escola de Rádio)
Martha Esteves (jornalista esportiva e diretora de comunicação e marketing da ACERJ)
Mediação: Ronaldo Helal

Serão concedidos certificados aos estudantes presentes e não há necessidade de inscrição prévia. Não perca!

 

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Ode ao futebol Raiz

O delicioso livro de crônicas do historiador Luiz Antônio Simas “Ode a Mauro Shampoo e outras histórias de várzea” é uma pérola contemporânea na literatura sobre futebol na minha humilde opinião.

O botafoguense Simas, ilustre cidadão carioca, frequentador de bares, rodas de samba, livrarias e outros espaços públicos da cidade é um notório ícone de resistência cultural na maltratada eterna capital do Brasil. Para mim é um “vagabundo acadêmico” que não se limita as amarras científicas e metodológicas nos seus livros e crônicas ultrapassando as fronteiras do construir conhecimento para os pares, transcendendo assim nossa costumeira chatice circular entre mestres e doutores. É também um “malandro professor” que cativa alunos, leitores, sambistas, jornalistas, boêmios pseudo-intelectuais e até alguns de verdade.

Não o conheço pessoalmente como muitos de vocês podem supor pelos contundentes elogios feitos, mas pelo espírito das suas crônicas, suas intervenções em programas de rádio, palestras e até no clássico documentário Geraldinos de Pedro Asberg, além do relato de amigos em comum, com certeza é alguém que eu gostaria de beber várias cervas geladas. É até provável que já estivemos sentados em alguma mesa próxima em bares da cidade, cruzamos pelos corredores do IFCS, em lançamentos na livraria Folha Seca do Digão, ou em rodas de sambas, talvez na própria Rua do Ouvidor.

Referência em crônicas sobre samba, a cidade e seus personagens, Simas incorporou no referido livro sua paixão pelo futebol extrapolando as fronteiras cariocas com textos curtos, mas intensos, informais repletos de informação, com épicas histórias de personagens banais e equipes “pequenas” segundo a grande mídia e a maior parte dos estudiosos do futebol no país. Ver mais sobre o autor e o livro na reportagem da Folha de São Paulo.

Entretanto a forma como o autor narra o nascimento de pitorescas-fantásticas equipes do futebol brasileiro como Sampaio Correia, Asa de Arapiraca, Central de Caruaru, Calouros do Ar, Tuna Luso, Colo-Colo, entre outras, além da trajetória de personagens como Juca Baleia, Leônidas da Selva, Francisco Carregal, Mário Vianna e o próprio Mauro Shampoo coloca tanto os escretes quanto os seres humanos no panteão sagrado do futebol brasileiro. Curiosas escalações, belos trechos de hino, jogadas fantásticas, excursões homéricas, a relação entre futebol, política e cultura nos rincões do país dão visibilidade histórica a times e indivíduos que estavam marginalizados no enquadramento da memória oficial do que seria o futebol brasileiro.

Ademais é possível perceber críticas pertinentes a mercantilização, midiatização e globalização do futebol nacional nas entrelinhas de diversas crônicas sem aquele tom solene e panfletário de alguns jornalistas engajados ou de importantes trabalhos acadêmicos. A crítica aparece leve, também se desmancha no ar, mas cumpre o mesmo papel fundamental de alertar para nocivas transformações estruturais que vem ocorrendo faz anos no futebol brasileiro no que diz respeito ao processo de transformação do clube em truste de empresários, o jogador em capital especulativo e o torcedor em cliente- prime.

É verdade que, se eu fosse analisar as crônicas estritamente do ponto de vista acadêmico, poderia questionar o caráter excessivamente nostálgico, uma aparente essencialização do que seria o genuíno futebol brasileiro na perpetuação do mito freyreano do “footbal-mulato”, ou até mesmo a ausência de referências. Mas obviamente não é esse o meu objetivo e nem foi essa a proposta do cronista Simas. Não foi um trabalho historiográfico mas sim uma obra literária de grande valor para se refletir sobre mitos, origens e representações sobre o futebol brasileiro que pode ter um alcance muito maior que muitas dissertações e teses.

Além disso, como torcedor da mesma geração, compartilho da nostalgia de Simas sobre o futebol dos anos 80 e 90, do Maraca do século passado, da mitificação de equipes de pelada de campos predominantemente de terra, como o citado Vila Cava de Nova Iguaçu, o Ajax do Aterro, o KY do IFCS, além da idolatria da seleção canarinho de 1982 e a paixão pelos jogos de botão sobre o qual o autor escreveu belas crônicas. Resgatei meu plantel e segue a imagem de meus botões abaixo.

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Assim sendo, a simbólica obra louva de forma literária as raízes do futebol brasileiro. Neste livro aparece o “pereba”, o “carniceiro”, o “frangueiro”, o “torcedor “doente”, o “gordo”, o “derrotado”, enfim diversos personagens segregados no cotidiano das crônicas esportivas. Aparece também as potências futebolísticas que nunca fizeram parte do Clube dos 13 e raramente aparecem nos debates nas mesas esportivas nacionais, não estão presentes nas reuniões com a Rede Globo, pois necessitam de esforços individuais ou patrocínios locais para conseguirem sobreviver. Aparece enfim, uma outra representação do futebol brasileiro que não se retroalimenta apenas de celebridades, títulos e marketing esportivo mas de indivíduos comuns, paixão e Memória.

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Ronaldo Helal debate o 7 a 1 no “Conversa com Bial”

O sociólogo e coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte Ronaldo Helal esteve no programa “Conversa com Bial”, da TV Globo, nesta quarta-feira ao lado do jornalista da ESPN Juca Kfouri e do cronista Antonio Prata. Há menos de 1 ano da Copa da Rússia, o debate envolveu as impressões e consequências da maior derrota da história da Seleção Brasileira e a preparação para o mundial da Rússia.

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“Conversa com Bial” desta quarta. Crédito: TV Globo

Aproveitando a ocasião da conversa, Ronaldo Helal contou mais detalhes sobre o recém-lançado livro do LEME que trata exatamente sobre o 7 a 1, “Copa do Mundo 2014: Futebol, Mídia e Identidades Nacionais. Apesar de ter sido um duro golpe, os novos tempos, marcados pela globalização, tiveram o papel de transformar a derrota para a Alemanha em piada, diferentemente do Maracanazo, em 1950, interpretado como uma tragédia:

“Já tinha algo que vinha sendo quebrado há muito tempo, essa equação muito forte até a década de 1970, que era “seleção e nação”. Aquela famosa frase do Nelson Rodrigues, de que a seleção seria “a pátria de chuteiras”. Hoje, os ídolos atuam no exterior… Não sei se isso é bom ou ruim, mas houve essa desvinculação. As derrotas da seleção não são mais uma derrota de um projeto de país.”

Veja abaixo o programa na íntegra:

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O que Tite há de temer

Em meio ao desmonte do Estado Brasileiro operado pelo golpista Michel Temer e seus três por cento de apoiadores, uma notícia representativa ganhou forma na semana passada: o golpista utilizaria a representação do treinador Tite para “melhorar sua imagem” nas redes sociais. Isso é claro, depois de se safar da segunda denúncia na Câmara com a relativização da interpretação do trabalho escravo no país, tão sonhada pelos ruralistas. Mas o que há de Tite em Temer? O que Tite há de temer com esta comparação, no mínimo tosca?

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Mote da peça publicitária do governo federal compararia Dilma a Felipão e Temer a Tite.

Como uma manifestação cultural importantíssima no nosso país, o futebol influencia e é influenciado por determinados campos. Ao mesmo tempo em que ajuda a transformar a sociedade, é transformado por ela. O próprio ritual nacional (GUEDES, 1998 e GASLTALDO, 2002) de torcermos para a seleção durante a Copa do Mundo e seu simbolismo latente impregnado na nossa sociedade a construiu como “autêntica representante nacional”. Tal processo, que vinha se desenhando ao longo da história deste esporte no Brasil, tem como grande marco a Copa de 1938, onde o campo político, social, econômico e esportivo se entrelaçaram para sintetizar a nação em torno de onze atletas. Esse sentimento de construir uma comunidade imaginada (ANDERSON) proporcionou uma gama de significados ampla ao futebol. Logo o esporte se tornou arena de disputas de narrativas, de modelos de conduta e do que seria o correto. No ritual nacional de se vestir de verde e amarelo e torcer para nossos representantes, Leônidas e Domingos figuraram como primeiras grandes estrelas do casamento mídia e esporte no Brasil, seguidas por Garrincha, Zizinho, Pelé, Didi, Zico, Romário, Ronaldos e Neymar.

Neste ritual, a figura do treinador surge como o “comandante” desta representação. Principalmente durante a Copa do Mundo, ele assume um status de celebridade e com um capital simbólico importante para dialogar e circular entre diferentes esferas da sociedade. Adhemar Pimenta, treinador da seleção em 1938, ganhou uma narrativa próxima ao estilo durão, mantendo a disciplina dos atletas que, assim como soldados, eram convocados para ir a Europa pré-Guerra defender a sua nação. O momento do Estado Novo sugeria essa relação simbiótica esporte/nação, conseqüentemente exigindo de Adhemar Pimenta características de um “general”.

Defendemos em nossa tese de doutorado que a figura do treinador foi se adaptando ao longo do tempo. Do inicial “professor” que ensinaria a prática esportiva aos mais jovens, passando pelo “secretário” (WAGG, 1984) que mediaria as relações entre capital (clube) e trabalho (jogadores), até a narrativa do momento do “grande gestor”. É inegável a força do campo econômico no esporte. Resenhas esportivas tiveram um aumento considerável das notícias das finanças dos clubes de futebol. Além de táticas e esquemas, cifras e balanços entraram como “algo comum” nas análises dos desempenhos. O treinador tem hoje um “papel de gerente das metas”. Sua função é manter o “superávit” de vitórias da agremiação ou seleção, para que se mantenha no cargo e demonstre sua competência. Uma visão imediatista, neoliberal e que coloca o resultado frente a outros detalhes que também fazem parte da gestão.

A representação de Tite é positiva. Mesmo com as contradições do pêndulo constante da narrativa sobre nosso futebol em ora exigir o tradicional (futebol-arte) e ora clamar pela modernidade (futebol-força), as posições maniqueístas entre jogar feio ou bonito ganharam nova roupagem com a “eficiência” de Tite. Mais do que um simples “gestor”, o gaúcho Tite tem uma narrativa construída na imprensa com uma mistura de tudo aquilo que o futebol brasileiro poderia necessitar para se renascer depois do 7 a 1. Pessoalmente, gosto de seu estilo e me entristece projetar que os elogios atuais mudarão de figura com uma derrota na Copa do Mundo do ano que vêm. Porém na política e no esporte é preciso se pensar no momento.

Apropriar-se desta imagem de Tite é tentar se arrebanhar do poder simbólico do futebol em nossa sociedade. A campanha ainda não lançada de Temer (esperemos que não saia), compararia Dilma a Felipão explorando o 7 a 1 e a “mudança” de ares de Tite com o desgoverno de Temer. Inclusive aproveitando a representação de bom gestor, que cortou onde devia (saúde, educação) e investiu onde precisava (compra de deputados e anistia de devedores) Tudo com a ajuda dos jornais cada vez mais cínicos ao destacar a “melhora na economia”. Nada mais absurdo, porém, não nos surpreende já que uma significativa parcela dos torcedores presentes no Mineirão (eleitores de Aécio Neves) xingaram Dilma no final da vergonhosa derrota para a Alemanha. Em tempos que a limitação cognitiva já não é mais vergonha e sim exaltada nas redes, essa associação teria sentido. Explicar através da linguagem do futebol é algo recorrente na sociedade brasileira. São expressões de fácil compreensão e pelo poder de envolvimento de um número considerável de pessoas, a metáfora de um “comandante” que arruma a casa, melhora o time e chega a vitória seria verossímil.

Porém, não é novidade de que o sucesso do Brasil em Copas do Mundo se deu e se dá apesar de seus dirigentes. Dirigentes que ainda hoje se mostram na República Velha, com grandes oligarquias dominantes, donos de grandes terras, adeptos do trabalho escravo, do seu próprio umbigo e que pouco se importam para a melhora nas condições humanas. A “elite esportiva” brasileira se manteve em grande parte da nossa história política nesses modelos e nada melhor do que se encontrar com um governo que dialoga exatamente com a Velha República. Há muito de Temer na CBF e muito da CBF no governo Temer. Se encaixam de maneira profícua, até mesmo nas cores caju dos cabelos de cartolas e senadores. A campanha deveria excluir Tite e mostrar os dirigentes (atuais e ex) da CBF de braços dados com o Ministério de Temer. Esses sim, com muito em comum.

Já Tite, este, com todo o respeito, segue como nós. Sabe o que está errado e que não tem forças suficientes para mudar. Então faz o seu trabalho, buscando na medida do possível fazer valer sua ética, e negando o que os rituais do cargo lhe permitem negar. É pouco, pode ser. Mas o que fazemos nós contra um governo com 3 % de aprovação, que destrói a educação, entrega pré-sal, acaba com CLT e nos joga nos anos 1920 em menos de dois anos? Tite há de temer essa comparação, logicamente que sim…não é boa para a sua imagem, nem para a de nenhuma pessoal com o mínimo de decência. Mas já paramos para pensar que teremos que explicar para nossos filhos e netos como foi feito tudo isso no país sem nos mexermos?

Tite foca em 2018 como seu objetivo final e como a redenção de tudo que tem que engolir e temer, enquanto nós também esperamos uma Copa para jogar com o juiz comprado, jogadores suspensos, mas com a ilusão atroz de que “vai dar tudo certo”.

GUEDES, Simoni Lahud. O Brasil no campo de futebol: estudos antropológicos sobre os significados do futebol brasileiro. Editora Da Universidade Federal Fluminense, 1998.

GASTALDO, Édison. Pátria, chuteiras e propaganda: o brasileiro na publicidade da Copa do Mundo. Annablume, 2002.

ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e expansão do nacionalismo. 2.ed. Lisboa: Editora70, 2005.

 

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O surgimento dos primeiros heróis latino-americanos; por Cesar Torres

Na terceira e última parte da entrevista de Cesar ao Torres ao Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, o filósofo do esporte analisa a consolidação do olimpismo na América Latina do Século XX e o surgimento dos primeiros heróis do continente em Olimpíadas, que ascenderam ao panteão dos medalhistas. olímpicos Veja abaixo a terceira… Continuar lendo O surgimento dos primeiros heróis latino-americanos; por Cesar Torres

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As mulheres e os Jogos Olímpicos – alguns pontos para reflexão

Se atualmente as atletas ocupam lugar de destaque no mundo olímpico, a história nos revela que esse lugar foi conquistado a duras penas. Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos Modernos e presidente do COI por 25 anos, acreditava que o esporte era uma atividade eminentemente masculina. Esse entendimento, de uma maneira ou de outra, estava presente nos discursos de dirigentes esportivos e jornalistas ao redor do mundo. Não era diferente no Rio de Janeiro. Ao observar as narrativas sobre a significativa entrada das mulheres no campo esportivo a partir da década de 1920, é notório o desconforto dos jornalistas cariocas, homens em sua maioria, com o que se verificava.

Analisando os periódicos do Rio de Janeiro da época, podemos nos deparar com recomendações como essa: “ […] Realizem-se então disputas num limitado terreno e não se proporcione ao sexo belo as grandes disputas internacionais para que se não veja despertado na mulher o entusiasmo pelo combate, o que a levará um dia a querer rivalizar com o companheiro homem, esquecendo-se da sua real função na natureza” (JS, 01/07/1931, p. 4). “Belo sexo”, “sexo fraco”, “sexo frágil” e “sexo débil” eram algumas das expressões empregadas como sinônimos para o sexo feminino, o que escondia certa condescendência e paternalismo dos jornalistas. Um exercício frequente nas matérias era dividir os esportes, entre aqueles aptos à prática feminina e os não recomendados.

Muitas vezes o esporte não era interpretado pelos benefícios que traziam às mulheres, mas sim pelo prazer visual que proporcionava aos espectadores do sexo masculino. Quando da participação de Maria Lenk nos Jogos de 1932, o jornalista Edgar Proença, do Estado do Pará, tece os seguintes comentários sobre a nadadora: “Espiritualmente bela, a sua simplicidade arrebata, pondo no coração da gente o desejo prendê-la, de tê-la prisioneira de nosso encanto numa época em que as mulheres se banalizam” (O Jornal, 30/10/1932, 2ª seção, p. 4).

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A nadadora Maria Lenk foi a primeira atleta brasileira e sul-americana a competir em Jogos Olímpicos, com a participação em Los Angeles-1932. (Foto: Folha Imagem)

Outros tantos expressavam o temor quanto aos rumos que a aventura esportiva feminina representava para a ordem social em vigor. Analisando a Olimpíada de Paris, um jornalista deixa escapar seu receio: “O número de mulheres que acorreram dos pontos mais diversos do globo constitui uma surpresa, que é, também, um perigo” (O Imparcial, 20/08/1924, p. 1). Outro profissional da imprensa foi ainda mais categórico: “Mas o que é preciso a todo o transe impedir é que a mulher se masculinize; que faça sport, que seja corajosa e forte, mas que fique mulher, bem feminina” (Revista da Semana, 18/04/1925, p. 39-40).

Em várias edições da carta olímpica, podemos encontrar restrições à participação feminina. Vejamos o que diz a edição de 1933: “Women are not excluded but the International Olympic Committee, if requested by an International Federation, decides the events in which they may take part”. Em bom português, as mulheres eram convidadas nos Jogos, mas não participantes no mesmo nível de seus colegas do sexo masculino.

Para observar o árduo caminho percorrido pelas atletas brasileiras e estrangeiras, basta analisar percorrer os dados referentes as edições dos Jogos desde 1896, disponível no site oficial do COI. A discrepância no percentual de atletas homens e mulheres só começa a ser revertida em décadas recentes. Considero algumas datas especialmente relevantes e com elas gostaria de encerrar esse texto:

1932: primeira mulher (Maria Lenk) na delegação brasileira;

1981: primeiras delegadas olímpicas no COI (a venezuelana Flor Isava Fonseca e a finlandesa Pirjo Häggman);

1987: último ano em que vigora o subitem da Carta Olímpica, acima referido, versando sobre a especificidade da participação feminina;

1996: primeiras medalhas olímpicas femininas brasileiras (Sandra Pires/Jackie Silva e Adriana Samuel/Mônica Rodrigues no vôlei de praia).

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Sandra Pires e Jackie Silva, com o ouro, e Adriana e Mônica, com a prata foram as primeiras brasileiras a conquistarem medalhas olímpicas, 64 anos após a participação de Maria Lenk (Foto: Acervo Estadão)

 

Post scriptum – Curiosidade olímpica

O amadorismo foi um dos grandes assuntos do esporte nas primeiras décadas do século XX. A literatura acadêmica nacional já abordou exaustivamente a querela envolvendo o amadorismo no futebol brasileiro nos anos 1930, por exemplo. Nos Jogos Olímpicos, o tema esteve em pauta até meados da década de 1980. Em meio as pesquisas para a redação da minha tese de doutorado, encontrei o questionário abaixo apresentado na Carta Olímpica de 1933. É curioso observar nesses vestígios da história como a experiência do amadorismo era transmitida aos atletas e torcedores de então. Se seguidas as recomendações abaixo expostas, qualquer um poderia se tornar um sportsman.

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