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Pensar transmissões esportivas mais plurais

Reprodução: Internet

É bastante recorrente que sujeitos mais associados as lógicas conservadoras em nossa sociedade reiterem a afirmação, no mínimo equivocada, de que política e esportes não se misturam. O raciocínio que sustenta este tipo de argumento é o mesmo que afirma que não se pode discutir política nas escolas ou em outras instituições que deveriam, por sua natureza, ser “apolíticas”. Todos os conceitos normativos que ordenam os entendimentos nos esportes ou na escola, por exemplo, são resultado de disputas por significação que possuem um acordo extremamente pontual e limitado que nos permitem ler os entendimentos que possuem status de senso comum. Negar a participação e a disputa política nesse espaço é um esforço para naturalizar esses acordos tirando os de seu espaço de construído politicamente para transformá-los em conceitos naturalizados.

Desde a década de 1980, talvez mais explicitamente a partir da hegemonia das democracias representativas burguesas, os movimentos de política identitária têm ganhado destaque nas formas de organização das diferentes militâncias. Nas próximas linhas pretendo problematizar algumas das formas com que essa política identitária tem aparecido nas transmissões esportivas. Como as emissoras têm utilizado algumas identidades e de que maneira a representatividade já começa a produzir efeitos nestes espaços.

Com um ano de atraso os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2020 foram realizados em Tóquio, mesmo que sem público. É lugar comum nas transmissões dos megaeventos esportivos a contratação de comentaristas especializados, quase sempre atletas ou ex-atletas, para ajudarem na transmissão esportiva, podendo estabelecer alguma informação mais qualificada de alguma modalidade ou traduzir para um público leigo ou para os jornalistas algum vocabulário específico dos praticantes. Para a transmissão dos Jogos Paralímpicos, dentro dessa perspectiva, foram convocados e convocadas paratletas e ex-paratletas que teriam essa função. Verônica Hipólito extrapolou, e muito, o que se espera desses comentaristas. A paratleta, medalhista no Rio em 2016, mostrou um conhecimento sobre os participantes e as modalidades que causaram fortíssimo constrangimento entre comentaristas consagrados que insistentemente repetem lugares comuns e indicam que uma equipe poderia melhorar seu desempenho a partir da entrada de um atleta lesionado… Minha impressão neste caso é de telespectador e me faltam elementos técnicos que atravessam as decisões das direções das emissoras, mas Verônica subiu a vara de qualidade das transmissões. É inaceitável que os demais comentaristas não estudem como ela e, o mais importante para meu argumento, é inaceitável que ela comente apenas jogos paralímpicos. Verônica foi brilhante por ter realizado um trabalho jornalístico de excelência, não por ser paratleta. Isso não é a exaltação da meritocracia, mas uma reclamação pela falta de estudo de outros profissionais com espaços midiáticos muito maiores.

Não são apenas paratletas que são chamados para comentar o paradesporto. Quando eclodem casos de racismo ou machismo, pessoas negras e mulheres são chamadas para opinar. Alguns dos especialistas convidados falam somente destes conteúdos. Isto gera um problema duplo. A partir dos processos de políticas identitárias se transformam sujeitos marcados como pertencentes as “minorias” como identitários enquanto outros não teriam identidade. Ou seja, as mulheres falariam de problemas de mulheres, mas os homens não falam dos problemas dos homens, falam da humanidade, falam de tudo. E aí aparece o segundo problema: eles falam de tudo, mas nesse tudo não se incluem violências contra essas chamadas “minorias”. Neste caso, essas violências não são um problema da humanidade, mas acabam sendo reportados como problemas identitários ou, o que seria ainda pior, problemas de identidade. O muito utilizado e pouco estudado conceito de “lugar de fala” reporta justamente essa dificuldade de quem está e de quem não está autorizado a falar sobre qual assunto.

As comentaristas mulheres no futebol jogado por homens trabalham com uma lógica inclusiva distinta. Ali elas estão autorizadas a falar sobre futebol, sem gênero. Mulheres, da mesma forma que os homens, são capazes de falar sobre qualquer assunto para os quais tenham se preparado. O mesmo vale para pessoas negras que possuem capacidade de discorrer sobre qualquer assunto para o qual estudaram e não somente para relatar suas vivências. Então não faria diferença se quem comenta é homem ou mulher, branco ou negro? Sim, segue fazendo diferença. A presença das mulheres obriga a um esforço reflexivo maior dos homens (ao menos deveria exigir). Machismo travestido em piadas começam a ser menos oportunos. Nosso chamado país do futebol por muito tempo excluiu as mulheres. Quando elas entram seja no campo, nos microfones e até na direção do futebol de mulheres da CBF (conduzidas graças a luta das mulheres no mandato de um presidente afastado por acusação de assédio sexual), inevitavelmente elas apresentam novas pautas. E isso fará o país do futebol ser mais país do futebol. Um país que exclui as mulheres não é um país. Quando muito é a metade de um país. Acredito que se tivéssemos mais mulheres ou homens não brancos em nossas transmissões esportivas ou mesas redondas, seria mais difícil ouvir ridículos argumentos que associam o mal desempenho esportivo com o esforço estético para a manutenção de um penteado afro.

É a partir da ampliação da participação de diferentes sujeitos atravessados por diferentes marcadores identitários com o aumento de representatividade que poderemos colocar a disputa política no centro dos nossos esportes e das nossas transmissões esportivas. É lugar comum (em alguns lugares de forma equivocada) entender que os esportes em geral e, no caso sul-americano, o futebol em específico, como microcosmos ou espelho da sociedade (eu sigo preferindo pensá-lo como integrado com). Ampliarmos a participação de atores e desnaturalizarmos a posição normativa dos homens cisgênero brancos, heterossexuais é ampliar a democracia. Poderia ser um catalisador para qualificarmos as discussões desses mesmos problemas em outros espaços de nossa cultura.

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E se a estreia do surfe nas Olimpíadas fosse numa piscina de ondas

Jonne Roriz/COB

A jornada até a estreia do surfe nos jogos olímpicos foi longa e durou mais de um século se considerarmos que o havaiano, tricampeão olímpico de natação, Duke Kahanamoku pleiteou a entrada do surfe nos jogos de Estocolmo, em 1912 (STACHEVSKI, 2020). Desde aquela época até 2021 muito se especulou sobre o ingresso do surfe nos jogos, e paralelamente muita coisa mudou dentro do esporte, mas é inegável que mídia teve um papel preponderante ao pavimentar esse caminho até a praia de Tsurigasaki, no Japão, já que cristalizou boa parte dos valores que hoje fazem parte do imaginário em torno do esporte, como a ligação com a natureza e a juventude[1] (FORD e BROWN, 2006), assim como provavelmente tornou o esporte mais atraente para o Comitê Olímpico Internacional (COI) ao torná-lo mais popular e expandir o tamanho da audiência no mundo ao longo do tempo. Estima-se que existam hoje 40 milhões de surfistas ativos e mais de 370 milhões de pessoas em todo o mundo interessadas no esporte[2].

O time brasileiro, composto por Gabriel Medina, Ítalo Ferreira, Silvana Lima e Tati Weston Webb, confirmou o favoritismo com a vitória do atual campeão mundial, Ítalo Ferreira, que conquistou o primeiro ouro do Brasil em Tóquio e fez história ao ser o primeiro medalhista olímpico de ouro na modalidade [3]. No total participaram 40 surfistas, 20 homens e 20 mulheres, de 18 países: Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, França, Alemanha, Indonésia, Israel, Itália, Japão, Marrocos, Nova Zelândia, Peru, Portugal, África do Sul e Estados Unidos. Uma pluralidade que incluiu nações sem tradição no esporte e que não é vista na principal liga de surfe mundial, a World Surf League (WSL), que é historicamente dominada por Australianos, Americanos e Havaianos.

Mas a questão que gostaríamos de levantar neste artigo é sobre o palco onde ocorreram as disputas. Ao longo da trajetória do lobby para que o surfe figurasse entre os esportes olímpicos cogitou-se que seria fundamental ter a estrutura e a tecnologia das piscinas de ondas para que fosse possível a entrada do esporte nos jogos. Em um encontro entre o presidente da International Surfing Association (ISA), Fernando Aguerre, e o então presidente do COI, Jacques Rogge, em 2009, este último chegou a afirmar que sem as piscinas a probabilidade do surfe entrar no evento era muito baixa (STACHEVSKI, 2020, p. 52). A preocupação justificava-se em parte por conta da necessidade de praias com ondas nas cidades sede do evento, como Londres, Tóquio[4] e Paris, e a dependência das condições climáticas para a realização das competições.

Porém, o imbróglio da entrada tardia do surfe nos jogos olímpicos é anterior a este encontro e vem desde meados da década de 1960, como relata o autor Matt Warshaw (2005): “A história do namoro do surfe com COI é de esperança e decepção cíclicas[5] (WARSHAW, 2005, p.431 e 432)”. Em 1964, em um dos primeiros artigos sobre o tema, a revista Surfer publicou: “Não deve demorar muito para o surfe entrar no calendário olímpico[6]”; em 1977, na Surf Magazine, “as olimpíadas finalmente[7]”; e novamente na revista Surfer, em 1995, “o surfe dá o primeiro grande passo em direção às olimpíadas[8] (WARSHAW, 2005, p. 432)”.

Mas a candidatura do surfe só passou a ser considerada de fato após o COI ter reconhecido a ISA como principal instituição responsável pelo surfe mundial, e isso ocorreu em 1994, no primeiro ano de mandato do argentino Fernando Aguerre (STACHEVSKI, 2020, p. 38). Na época, Aguerre tinha a intenção de que o surfe entrasse nos jogos de Sydney, Austrália, em 2000, mas o esporte escolhido na época foi o vôlei de praia (WARSHAW, 2005, p.432), entretanto, o presidente da ISA continuou acreditando que era uma questão de tempo e já planejava a construção de uma piscina de ondas para fosse possível incluir o surfe nos jogos olímpicos de Atenas, Grécia, em 2004 (WARSHAW, 2005, p.432). Porém, a confirmação final só veio em agosto de 2016, no Rio de Janeiro, quando todos os membros do COI aceitaram a proposta das cinco indicações de esportes escolhidas pelo Comitê Olímpico Japonês (JOC – Japanese Olympic Comitee). Segundo Yoshiro Mori, presidente do comitê organizador, a escolha das candidaturas foi baseada em função da “popularidade dos esportes, seu acompanhamento entre jovens e o maior potencial para promover o espírito olímpico”, além da necessidade de construção de instalações esportivas adicionais.

Rafael Fortes (2020) aponta que a inclusão do surfe nos Jogos Olímpicos reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Alguns puristas, contrários à espetacularização do esporte, se mantiveram pessimistas durante a campanha antes da entrada do surfe nos jogos. O editor do Surfer’s Journal, Steve Pezman, escreveu: “o surfe não pode ser embalado e levado ao mercado sem perder seu caráter, espontaneidade e apelo[9] (WARSHAW, 2005, p.432).” Essa disputa simbólica sobre o significado do esporte e sobre uma experiência que seria mais autêntica (Martin Jay, 2009) gira em torno do profano versus o sagrado e da mercantilização de valores ligados à cultura do surfe, como destacam os autores Ford e Brown (2006):

Com a contracultura do final dos anos 1960, a tendência de “soul surf” enfatizou uma reinterpretação dos valores da espiritualidade, estética e a busca pela paz interior e autenticidade. Com o crescimento da popularidade do surfe e as oportunidades de negócios concomitantes, em congruência com o capitalismo tardio, os negócios empacotaram esses mesmos valores de autenticidade e distinção. Além disso, a midiatização do surf ampliou esses valores em uma disseminação cultural mais ampla[10] (FORD e BROWN, 2006, n.p.).

Apesar de uma janela de tempo de oito dias para a realização das provas, todas as baterias da disputa pelas primeiras medalhas olímpicas da história do surfe aconteceram de 25 a 27 de julho de 2021. As finais foram antecipadas por conta da chegada de um tufão que poderia impedir a realização das provas, de acordo com a intensidade que chegasse na costa japonesa. Essa imprevisibilidade da natureza é justamente a característica que alguns sufistas afirmam fazer do surfe o que ele é. A sua essência. Entre dezenas de opiniões, a do escritor sênior da revista Surfer, Sean Doherty, ilustra bem esse posicionamento:

Primeiramente, todos os esportes olímpicos estão ancorados em equidade e igualdade de condições. Entretanto, o oceano não oferece isso. Certamente a única maneira de o surf ser considerado um esporte olímpico é se ele fosse realizado em piscinas de ondas, e se fosse realizado em piscinas de ondas, então eu não consideraria surfar. Ademais, o fato de não haver duas ondas iguais é o que faz surfar, surfar. De tal forma que não foi projetado para ser justo. O oceano não é justo e, a menos que você seja Kelly[11], o oceano não dá a mínima para você.

Por outro lado, esse mesmo aspecto de incerteza da natureza é um agente que dificulta a midiatização do esporte. Pedro Guimarães e Rafael Fortes (2020), em um artigo sobre a transmissão dos campeonatos de surfe, enumeram alguns desses desafios: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões (GUIMARÃES e FORTES, 2020, p. 63). Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se adaptaria perfeitamente às demandas da televisão, assim como aconteceu com o baseball, o tênis e o próprio surfe (LASCH, 1983):  

Quando as redes de televisão descobriram o surfe, insistiram que os eventos fossem realizados de acordo com uma programação pré-estabelecida, independentemente das condições meteorológicas. Um surfista reclamou. “A televisão está destruindo nosso esporte. Os produtores de TV estão transformando um esporte e uma forma de arte em um circo (LASCH, 1983, p.140).

Talvez esse seja um dos principais motivos da WSL ter se tornado sócia da empresa de Kelly Slater em 2016, a Kelly Slater Wave Company, responsável pela piscina de ondas Surf Ranch, além da possibilidade de vender a tecnologia de geração de ondas artificiais para o COI realizar as disputas do surfe em jogos olímpicos futuros e o treinamento de atletas de alta performance. A própria da WSL tem uma etapa do circuito mundial na piscina, e de acordo com os critérios do primeiro evento realizado nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada.

 Apesar das piscinas terem trazido novas perspectivas para o esporte, como novos formatos de disputas, possibilidade de treinamento facilitado pela repetição e testes de novos equipamentos, não há uma unanimidade mesmo entre os surfistas profissionais. O surfista brasileiro, bicampeão mundial, Gabriel Medina, disse em entrevista que é “a onda dos sonhos”. A surfista americana Bethany Hamilton também elogiou: “é um sonho. É incrível ver o que o homem está fazendo com a tecnologia e criando as próprias ondas”. Já o sul-africano Jordy Smith diz que a piscina é previsível e realmente “não é tão emocionante para os telespectadores depois de assistir o décimo surfista voltar para o tubo[12] por mais dez segundos. É o evento mais desinteressante da turnê.”

Durante as disputas das semifinais dos jogos olímpicos de Tóquio, o caráter subjetivo do julgamento do surfe ficou mais explícito. Gabriel Medina foi eliminado pelo japonês Kanoa Igarashi após ambos terem executado manobras semelhantes, porém a nota do adversário foi muito superior a de Medina. Se a competição fosse em uma piscina com ondas idênticas, talvez a avaliação dos juízes sobre a dificuldade que ambos tiveram na execução da manobra fosse menos discrepante. De qualquer forma, o surfe já está confirmado para os próximos jogos olímpicos de verão, que serão realizados em Paris, França. As disputas do surfe acontecerão no Tahiti, na polinésia francesa, nas ondas de Teahupoo, que normalmente apresentam condições mais desafiadoras e melhores para a execução de manobras.

Se depender dos números da audiência, o esporte também deverá ser confirmado para os jogos de 2028, em Los Angeles, já que segundo o COI, entre as modalidades estreantes, o surfe e o skate impulsionaram a audiência dos jogos, principalmente no Brasil. O acesso ao grande público deu uma projeção midiática além dos espectadores de nicho e isso fez com que os atletas do surfe aumentassem em até dezoito vezes o número de seguidores nas redes sociais em comparação ao período pré-olímpico. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, Kelly Slater foi perguntado se a sua piscina poderia ser utilizada para o surfe nos jogos olímpicos de 2028. Ele respondeu: “Eu não pensei nisso[13]”, mas acrescentou em seguida: “É algo que poderia ser feito[14]”. Será que ainda veremos um brasileiro ganhar uma medalha olímpica em uma piscina de ondas?


[1] “Filmes de praia / surfe de Hollywood, como Gidget (1959), trazem uma caricatura dos estilos de vida do surfe para um público mais amplo, enquanto The Endless Summer (1964) cristaliza a sensação e o sonho de surfar da perspectiva de “um insider”. Tradução nossa: “Hollywood beach/surf movies such as Gidget (1959) bring a caricature of surfing lifestyles to a wider audience, while The Endless Summer (1964) crystallizes the feel and dream of surfing from “an insider’s” perspective (FORD e BROWN, 2006, n.p.).”

[2] Tradução nossa: “There are 370 million people across the world interested in surfing and more than 40 million active surfers.” Disponível em: < https://www.worldsurfleague.com/posts/397536/ikea-and-world-surf-league-riding-a-wave-of-sustainability?isearch=true&scategory=article&gt;. Acesso em 22 ago. 2021.

[3] É interessante ressaltar que na WSL há uma subdivisão entre atletas dos Estados Unidos e atletas do Havaí. 

[4] A praia de Tsurigasaki, na cidade de Ichinomiya, costa do Pacífico da Província de Chiba fica a cerca de 100 km do Estádio Olímpico de Tóquio. Disponível em: <https://falauniversidades.com.br/tudo-sobre-a-estreia-do-surfe-nas-olimpiadas-2021/&gt;. Acesso em 22 ago. 2021.

[5] Tradução nossa: “The history of surfing’s courtship of the IOC is one of cyclical hope and disappointment”

[6] Tradução nossa: “it shouldn’t be long before surfing is entered on the Olympic calendar”

[7] Tradução nossa: “the olympics at last”

[8] Tradução nossa: “surfing takes its the first big step toward the Olympics”

[9] Tradução nossa: “surfing can’t be shrink-wrapped and taken to market without losing its character, spontaneity and appeal”

[10] Tradução nossa: “With the late 1960s counter-culture, the ‘soul surfing’ tendency emphasized a reinterpretation of the values of spirituality, aesthetics and the quest for inner peace and authenticity. With the growth of surfing’s popularity and concomitant business opportunity, in congruence with late capitalism, business packaged these very values of authenticity and distinctiveness. Furthermore the mediatization of surfing amplified these values in a wider cultural dissemination.”

[11] Kelly Slater, onze vezes campeão mundial de surfe.

[12] Manobra que consiste em permanecer dentro da onda. “Entubar”.

[13] Tradução nossa: “I didn’t think about that”

[14] Tradução nossa: “It’s something that could be done”.

Referências

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARÃES, Pedro; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões & Debates. Curitiba v. 68, n. 37, p. 55-76 mês jul./dez. 2020

JAY, Martin. Cantos de Experiência: variaciones modernas sobre um tema universal. – 1ª ed. – Buenos Aires: Paidós, 2009.

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O torneio de futebol olímpico que merece ser lembrado: Los Angeles, 1984

Nos Jogos Olímpicos de 1984, realizados em Los Angeles, o torneio de futebol passou por uma mudança radical. Atletas profissionais passaram a ser admitidos. Até a Olimpíada anterior, apenas amadores podiam participar. Essa restrição havia sido decisiva para o sucesso dos países comunistas nos torneios de 1952 a 1980. Seus atletas, oficialmente, tinham outras profissões e praticavam o esporte como atividade de lazer, o que era uma falsidade (uma falsidade evidente e comentada às claras, aliás). Eram atletas, na realidade, que se dedicavam muito ao futebol. Estavam em nível comparável ao dos jogadores profissionais dos países capitalistas. E enfrentavam, nas Olimpíadas, seleções formadas por amadores (juniores, muitas vezes). Acontecia o que era óbvio. Hungria, União Soviética, Iugoslávia, Polônia, Alemanha Oriental e Tchecoslováquia foram as seleções campeões olímpicas no período 1952-1980, sendo a Hungria campeã três vezes. Predomínio absoluto dos países que estavam à sombra do regime comunista sediado em Moscou.

Com a mudança de 1984, equipes da América do Sul, da Europa capitalista e até de outras regiões do planeta passariam a ter chances reais de êxito. Isso deveria despertar o interesse dos seus torcedores. Consequentemente, aumentaria o público que acompanhava as partidas nos estádios e, em especial, nas transmissões televisivas. A expectativa era de audiência alta e bons lucros. Um acordo entre o COI e a FIFA, então, extinguiu a distinção entre atletas amadores e profissionais no futebol olímpico. Para a FIFA, que defendia e promovia a expansão do profissionalismo no futebol, foi uma vitória de grande significado. Seu presidente, João Havelange, enfatizava a importância daquela mudança ao falar sobre o acordo com o COI.

Mas para que a hegemonia do futebol comunista não fosse substituída por uma outra hegemonia (a das poderosas seleções da CONMEBOL e da UEFA), criou-se uma outra restrição. Ficou estabelecido que as equipes vinculadas a essas duas entidades não poderiam ter jogadores que já tivessem disputado partidas da Copa do Mundo. Assim, países da África e da Ásia, por exemplo, ganhavam uma vantagem considerável, já que podiam escalar atletas profissionais e com experiência em partidas de Copa do Mundo ou de qualquer outra competição. A disputa, desse modo, ficava mais nivelada. Era necessário promover esse nivelamento para que o torneio fosse, de fato, atraente e mantivesse a audiência alta (algo que não acontecia nos torneios olímpicos de futebol).

Alemanha Oriental – Medalha de ouro em 1976

No Brasil, as novas regras não fizeram surgir maior interesse pelo futebol olímpico. Os torcedores continuaram mais interessados nos campeonatos estaduais do que na seleção que viajaria para os Estados Unidos. O torneio em Los Angeles era considerado uma disputa de importância inferior. Nem a CBF parecia muito atenta aos Jogos Olímpicos. Na primeira convocação dos atletas, foram chamados apenas amadores, como se a antiga restrição ainda existisse. Alguns dias depois, a Confederação divulgou uma outra lista: foi convocada uma seleção com 17 atletas, sendo onze jogadores titulares do Internacional (de Porto Alegre) e mais seis. O técnico, Jair Picerni, havia trabalhado em apenas três clubes paulistas: Ponte Preta, Internacional de Limeira e Santo André. Não era um currículo de peso. Aquela, afinal, era uma seleção que não tinha a admiração da torcida e não inspirava confiança na imprensa.

Na primeira fase, o Brasil estava no grupo C e enfrentou as seleções da Arábia Saudita, Alemanha Ocidental e Marrocos. Foram três vitórias brasileiras. A partida mais difícil foi contra os alemães. O resultado final foi 1 a 0, com um gol de Gilmar Popoca (em cobrança de falta) aos 43 minutos do segundo tempo. Contra a Arábia Saudita, o placar foi 3 a 1. Contra o Marrocos, 2 a 0.

Veio, então, a partida contra o Canadá nas quartas-de-final. Foi quando a seleção brasileira começou a atrair maior atenção. Os canadenses, sem grande tradição futebolística, se mostraram mais fortes do que se esperava. Começaram vencendo, com um gol de Mitchell aos 13 minutos do segundo tempo. O Brasil empatou 14 minutos depois (gol de Gilmar Popoca, que já era tratado como um dos melhores jogadores da seleção). A partida foi para a prorrogação e, depois, para a disputa por pênaltis. Foi a vez de outro Gilmar se destacar (o goleiro). Defendeu duas cobranças e a seleção brasileira venceu por 4 a 2.

No ano seguinte, o futebol do Canadá voltaria a mostrar força. Contando com vários jogadores desse time olímpico de 1984, a seleção canadense ficou em primeiro lugar nas eliminatórias da CONCACAF e se classificou pela primeira vez para uma Copa do Mundo. 

Na semifinal, a adversária do Brasil foi a Itália. A disputa olímpica, enfim, se tornou interessante para os torcedores brasileiros. Comentava-se bastante sobre a possibilidade da seleção chegar à final do torneio de futebol e conquistar, pela primeira vez na história, uma medalha. Os mais animados chegavam a dizer, com exagero, que aquela semifinal era uma revanche da traumática vitória italiana na Copa do Mundo de 1982. A partida foi emocionante. Houve empate em 1 a 1 no tempo regulamentar. Na prorrogação, o Brasil venceu por 1 a 0 e se classificou. Uma medalha, pelo menos, já estava garantida.

Gol do Brasil em Los Angeles (1984)

Na noite de 11 de agosto de 1984, os brasileiros tinham duas finais olímpicas para assistir. No futebol, Brasil contra França. No vôlei, a seleção masculina enfrentaria os Estados Unidos. Havia muita confiança e milhões de televisores ligados por todo o país. O Brasil podia comemorar, naquela noite, duas vitórias que entrariam para a história esportiva nacional.

A decepção foi dupla. A seleção de vôlei norte-americana, com o apoio de sua torcida e enorme confiança, venceu por 3 sets a 0. Na final do torneio de futebol, a França se impôs e venceu por 2 a 0.

O futebol francês passava por uma das suas melhores fases. Menos de dois meses antes, a sua seleção profissional havia sido campeão da Europa. O técnico da seleção olímpica da França era o próprio técnico campeão europeu, Henri Michel, que montou para as Olimpíadas um ótimo time, com jogadores jovens, mas já inseridos no futebol profissional francês. Alguns desses jogadores campeões em Los Angeles foram escalados para a Copa do Mundo de 1986. Entre esses estava o atacante Xuereb, que foi o artilheiro do torneio olímpico com 5 gols (empatado com Cvetkovic, da Iugoslávia).

Gilmar Popoca foi considerado pelo COI o melhor jogador da competição. Era um dos seis convocados que não jogavam no Internacional. Seu clube, naquele ano de 1984, era o Flamengo. Jogou por mais 14 anos e chegou a ser contratado por clubes de Portugal, México e Bolívia. A conquista da medalha de prata em Los Angeles foi a que lhe deu maior projeção.

A decisão foi disputada no Estádio Rose Bowl e teve público de 102.000 pessoas. Outras partidas também tiveram públicos numerosos. Um sucesso indiscutível, para satisfação de João Havelange, que tanto havia defendido as novas regras para o torneio de futebol. No entanto, as emissoras de TV dos Estados Unidos falavam pouco sobre a competição, o que levou Havelange a reclamar publicamente e a exigir uma atitude do presidente do COI, Juan Antonio Samaranch.

Brasil- Medalha de prata em 1984 

Uma novidade marcante foi a presença de nomes famosos do futebol profissional. Além do já citado Henri Michel, o italiano Enzo Bearzot, técnico campeão da Copa de 1982, esteve em Los Angeles. Era o técnico da seleção olímpica da Itália. Esteve em Los Angeles também o camaronês Roger Milla, que havia ficado famoso na Copa do Mundo de 1982 ao marcar o gol de empate de sua seleção contra a Itália. Ele participou do torneio olímpico e até marcou um gol, mas a seleção de Camarões não passou da primeira fase. Henri Michel, Bearzot e Milla foram os pioneiros. Depois vieram outros. E o torneio passou a exibir, principalmente da década de 1990 em diante, atletas e técnicos conhecidos mundialmente (e até campeões da Copa do Mundo). Ronaldo Fenômeno e Messi foram alguns desses. Na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, Neymar participou e foi campeão.

E assim o torneio olímpico de futebol perdeu a sua aparência de disputa amadora e de “campeonato das seleções comunistas”. Mas ainda haveria uma última vitória olímpica “vermelha”: a União Soviética, em 1988, venceu o Brasil na final e foi a campeã nos Jogos Olímpicos de Seul. 

A inclusão de atletas profissionais no torneio de 1984 satisfez João Havelange, mas a ideia não era seguir adiante até criar uma competição de tanto prestígio que pudesse ser considerada uma “segunda Copa”. Manter o torneio olímpico abaixo da Copa do Mundo foi uma preocupação constante da FIFA ao longo de várias décadas e assim continua sendo até hoje, com a manutenção de normas restritivas para os atletas dos times masculinos. Atualmente, impõe-se um limite de idade, admitindo-se três exceções.

O torneio olímpico, então, continuou sendo, mesmo com as mudanças de 1984, um torneio cheio de atletas jovens e alguns muito promissores. Promissores como havia sido o goleiro Carlos, que participou da Olimpíada de 1976 e dez anos depois foi titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1986. Os jovens promissores em 1984 foram o alemão Brehme (campeão na Copa do Mundo de 1990), o brasileiro Dunga (campeão na Copa do Mundo de 1994) e o italiano Baresi (vice-campeão na Copa do Mundo de 1994), entre outros que também poderiam ser destacados.

Por tudo o que trouxe de novo (atletas profissionais, a primeira medalha brasileira, altíssima audiência televisiva, participação do técnico campeão da última Copa do Mundo,…) e por ter iniciado uma nova fase na história do torneio olímpico de futebol, aquela competição de 1984 merece ser lembrada e relembrada várias vezes. Foi, sem dúvida, uma das mais interessantes.

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Quando a pira se apagar em Tóquio, desafio do COI é manter a chama olímpica acesa

Dois anos atrás, nos arredores do templo budista Senso-ji, o mais antigo de Tóquio, máquinas faziam um ruído que afrontava a tranquilidade característica do local e da religião asiática. O mundo acreditava que os Jogos Olímpicos aconteceriam em julho de 2020, como era o previsto, então a obra não tinha tempo a perder.

O objetivo era recapear todos os 42 quilômetros de ruas por onde passariam os maratonistas durante os Jogos. Como os meses de julho e agosto são os mais quentes do ano na capital japonesa, havia o receio, por parte dos organizadores, de que o calor emitido pelo asfalto pudesse causar mal-estar nos atletas. Nos eventos-teste, vários corredores não se sentiram bem. O novo revestimento, portanto, dissiparia melhor o calor. Mutirões avançavam com o trabalho em todas as madrugadas, o único momento em que a frenética cidade permitia uma tarefa como essa.

No entanto, o esforço se tornaria inútil. Dois meses depois do início das obras, a maratona foi transferida para a cidade de Sapporo, no norte do Japão e de clima mais fresco. O novo asfalto virou uma cena incompleta e lamentável, símbolo do desperdício e síntese do dilema atual em torno dos Jogos Olímpicos: Tudo isso vale a pena? E para quem?

Paris e Los Angeles só vão sediar as edições de 2024 e 2028, respectivamente, porque o Comitê Olímpico Internacional (COI) chegou a um acordo com as cidades. Brisbane, na Austrália, só foi escolhida sede das Olimpíadas de 2032 por ter sido candidata única.

Quem chega para a festa só de quatro em quatro anos (ou em cinco por causa da covid-19) pode até não ter percebido antes, mas os dezoito dias de Jogos Pandêmicos de Tóquio trazem, como nunca antes, a inevitável pergunta: “Que diabos estamos fazendo aqui, no mais próximo do apocalipse que já vivemos?”. Nem mesmo os recordes e atuações de gala dos atletas podem calar essa pergunta.

Japonesa protesta contra modelo atual dos Jogos Olímpicos. Movimento “Nolympics” (“Não às Olimpíadas) ganhou força na última década. Foto: Hiro Komae / AP

Apenas 22% dos japoneses acham que os Jogos deveriam acontecer. A olimpíada que já seria a mais cara da história sem a pandemia deve ultrapassar R$ 90 bilhões com os gastos do adiamento por um ano e da adesão de protocolos sanitários. No Rio de Janeiro em 2016, foram R$ 41 bilhões.

O COI ganha muito e devolve pouquíssimo para levar sua “Família olímpica” em turnê a cada quatro anos. A cidade-sede, as autoridades locais e a população local, através de impostos, pagam pelas obras e estádios, enquanto o COI tem lucrado bilhões com a venda de direitos de transmissão para as TVs do mundo, ingressos e cotas para empresas patrocinarem o evento. Até os milhares de voluntários são uma forma de o COI não assumir tantas despesas.

Diante desse acordo tão desequilibrado entre as partes envolvidas, demorou até demais para políticos e cidadãos se movimentarem para evitar que suas cidades se candidatassem a receber os Jogos. A chama olímpica corre risco de se apagar, já que a honra de sediar os Jogos desapareceu, ainda mais com os recentes escândalos de compra de votos nos processos de escolha das olimpíadas no Rio de Janeiro e em Tóquio.

Resta de legítimo apenas o desejo de atletas de participarem do maior evento comercial do mundo camuflado de competição esportiva. Mas até que ponto a presença deles nos Jogos é para satisfazer esses interesses comerciais, em vez de um reconhecimento pelas inúmeras gotas de suor despejadas em treinamentos severos? As performances e os recordes são a força motriz da engrenagem que gera bilhões de dólares a patrocinadores e ao COI. Em troca, uma medalha. É muito pouco. Grande estrela dos Jogos de Tóquio, a ginasta Simone Biles, vivendo essa pressão desde criança, cansou, priorizou fazer apenas o que queria e deixou de lado algumas provas em que competiria. A prova de que o sistema está falido.

O objetivo não é acabar com os Jogos Olímpicos. O dia mais feliz da minha vida foi no Maracanã, em 5 de agosto de 2016, quando assisti à cerimônia de abertura no Rio de Janeiro. Mas da forma como são atualmente, as olimpíadas não despertam o melhor de nós.

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O novo lema olímpico e suas implicações

O lema citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte) é amplamente reconhecido e reverenciado no Movimento Olímpico. Foi adotado em 1894 quando o Barão francês Pierre de Coubertin instituiu o Comitê Olímpico Internacional (COI). Ele pegou emprestado esse lema de seu compatriota Henri Didon, um padre dominicano que Coubertin ouviu recitar a frase em 7 de março de 1891 durante a cerimônia de premiação de um evento esportivo na Escola Albert Le Grand, em Arcueil, perto de Paris, na qual ele era o reitor. Impressionado, Coubertin citou o futuro lema olímpico em uma reportagem publicada na revista Les Sports Athlétiques alguns dias depois.

Barão de Coubertin, responsável por introduzir o lema olímpico. Fonte: Olimpíada todo dia

Em seu website, o COI afirma que o lema olímpico “resume uma filosofia de vida ou um código de conduta” que “incentiva os atletas a darem o seu melhor durante as competições”. Além disso, de acordo com a Carta Olímpica, a mesma “expressa às aspirações do Movimento Olímpico”. O COI esclarece em seu site que o lema olímpico compreende não apenas um significado esportivo e técnico, mas também uma perspectiva moral e educacional. Nesse sentido, Coubertin já havia dito em 1929 que “a chamada sonora” dessas três palavras e os enormes esforços para melhorar o rendimento são necessários “para a vida esportiva e as proezas excepcionais indispensáveis ​​à atividade geral”. Assim, o lema olímpico implica uma postura perfeccionista sobre a vida humana com ênfase na excelência individual.

A persistente pandemia de coronavírus gerou uma mudança imprevista e incomum no lema olímpico. Perturbado por seus efeitos sobre o Movimento Olímpico e motivado pelas reformas que vem promovendo desde sua eleição como presidente do COI em 2013, o alemão Thomas Bach propôs em março deste ano “complementar este lema adicionando, após um hífen, a palavra juntos”, para o qual evocou a palavra latina communis.

Sua proposta, realizada durante o discurso de aceitação de sua reeleição como Presidente do COI, reconhece que “aprendemos do jeito mais difícil durante esta crise do coronavírus que podemos estar de acordo com nosso lema olímpico ‘mais rápido, mais alto, mais forte’, no esporte e na vida, somente se trabalharmos juntos em solidariedade”. Encorajando seus colegas do COI a imaginar metas mais ambiciosas para o mundo pós-coronavírus, Bach proclamou: “Precisamos de mais solidariedade dentro das sociedades e entre as sociedades e isso se tornou óbvio no início do coronavírus, quando se pôde ver que o fosso social estava se ampliando”. Prosseguiu explicando que “o mundo é tão interdependente que ninguém consegue mais resolver os grandes desafios sozinho” e insistiu que sua proposta expressa “essa necessidade de solidariedade”. Não surpreende que, quase um século antes, Coubertin disse que, no Olimpismo, a filosofia constituinte do Movimento Olímpico, “tudo gira em torno das ideias obrigatórias de continuidade, interdependência e solidariedade”.

No mês seguinte, em uma reunião virtual, o comitê executivo do COI endossou a proposta de Bach e decidiu submetê-la aos seus membros para consideração durante a assembleia geral a ser realizada antes do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Já é dado como certo que o novo lema olímpico será aprovado com entusiasmo. Por um lado, explicita que o esporte, a prática social estruturante do Movimento Olímpico, é um projeto comunitário que exige reconhecimento, cooperação e cuidado dos adversários. Por outro lado, enfatiza o caráter ecumênico do Movimento Olímpico, assim como sua aspiração, conforme consta na Carta Olímpica, de “favorecer o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana”. Uma preocupação central do Olimpismo é a criação de uma communitas de iguais morais que respeitem suas diferenças. Desta forma, o Olimpismo propõe, tomando emprestado livremente do filósofo francês Emmanuel Levinas, o reconhecimento celebrativo da alteridade e nos convida a cultivá-la no caminho compartilhado em direção à excelência.

A Sessão do Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou a mudança no lema olímpico. Foto: IOC/Greg Martin

O novo slogan olímpico resume melhor, esclarece e torna muito mais coerente a ideologia olímpica. É razoável esperar que o COI, como líder do Movimento Olímpico, se esforce para torná-lo realidade e o utilize para orientar suas políticas e iniciativas. Por isso, também é razoável esperar que o COI indique claramente sua posição sobre os próximos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022 e a repressão violenta por parte das autoridades chinesas contra as pessoas uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas em Xinjiang. Um setor da comunidade internacional argumenta que o genocídio está sendo cometido contra essas minorias e que mais de um milhão de pessoas foram transferidas para prisões e campos de doutrinação. Vale a pena perguntar o lugar dessas minorias no “juntos” do novo lema olímpico. O que deve implicar a solidariedade invocada por Bach para justificar tal acréscimo no caso dessas minorias? Imputando a inação do COI, o antropólogo cultural estadunidense John J. MacAloon declarou recentemente que os verdadeiros movimentos sociais se levantam e se opõem a ele. Ver-se-á se o COI, estimulado pelo novo lema olímpico e pelos demais preceitos, se comporta dessa forma.


Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 21 de julho de 2021

Tradução: Eduardo Ribeiro e Fausto Amaro

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“Eu tô pagando!”. Quando o capital se apropria do lúdico

“Tô pagando!!”. Esse era o bordão da personagem Lady Kate interpretada pela atriz Katiuscia Canor. Uma sátira ao processo de financeirização [1] do cotidiano e do comportamento dos chamados “novos ricos”. Nessa lógica, tendo dinheiro, qualquer coisa se consegue. Indo mais além, é possível submeter outros seres humanos a sua vontade já que “você está pagando”. A transformação do cidadão em consumidor passa por essa compreensão. “Eu quero tudo do meu jeito”, já que eu paguei, posso consumir o que eu quiser, não importando como se alcançará a minha vontade. A naturalização deste pensamento é apenas uma das ações perversas do capital. Ele retira a dignidade do outro ser humano que precisa vender a sua força de trabalho e fica a mercê dos interesses da empresa/patrão. Se estou pagando, eu escolho como, onde, e em quais condições o outro trabalha. O empregado não pode reclamar, afinal, ele precisa daquilo para sobreviver. A narrativa das revistas de gestão empresarial “ensina” técnicas de como fazer o trabalhador naturalizar essas ações e se sentir parte da empresa, alguém que deve se esforçar ao máximo para entregar tudo que lhe é pedido. Para isso se utilizam de metáforas oriundas do mundo esportivo com “vestir a camisa” da empresa.

Na última semana, dois casos específicos ocorridos com jogadores do Flamengo evidenciam o poder do capital sobre o lúdico. Logicamente que faz tempo que esse processo ocorre, mais precisamente desde a profissionalização do esporte. A partir deste momento o jogador recebia para praticar a atividade e estava sujeito a regras do clube. Neste cenário o papel do treinador emerge como o responsável por “vigiar e punir” os atletas. O lúdico vai perdendo terreno para a necessidade de acumulação de vitórias. Nossa intenção nesta coluna é mostrar como o discurso desta financeirização está entranhado no cotidiano que não só legitima esse “eu tô pagando” mas também torna quem o contesta quase um extraterrestre, alguém que “não entendeu como o mundo funciona”.

Começamos pelo caso Gerson. O volante, visivelmente emocionado ao dar uma entrevista após o fim da sua última partida pelo Flamengo ao repórter Eric Faria, da TV Globo, deixou claro o seu “pesar” por deixar o clube. Em uma análise rápida de seu discurso já se evidencia que a ideia de que “é preciso fechar as contas” sacrificou a sua vontade de se manter no clube do coração. Por mais que procure se desdenhar e sacramentar que o jogador não tem mais o lúdico, ou seja, o sonho de criança, de jogar no clube do coração, no estádio que ele ia para ver o Flamengo jogar quando menino, é esse lúdico que é atacado pelo capital. Percebam que sair do clube é uma forma de ter dinheiro e “equilibrar as contas”. Se tem alguém pagando por ele, o seu lúdico, sua vontade e seu desejo deixam de ser respeitados e são apropriados pelo dinheiro. Sei que a essa altura, o leitor acostumado com a normalidade da financeirização bravejará: “então como se fecha a conta do clube?”. Essa é a lógica do capital: submeter as ações humanas à acumulação. Gerson não foi o primeiro, não será o último. Até Zico já “teve que ser vendido”. É sobre essa imposição do “tô pagando” que este texto procura refletir e causar incômodo no leitor, ou seja desnaturalizar esse discurso.

Gerson chora em entrevista após sua última partida pelo Flamengo
Fonte: ESPN

Outro caso, no mesmo clube, é do atacante Pedro. Convocado para disputar os Jogos Olímpicos pela seleção brasileira em Tóquio, Pedro não será liberado pelo clube. Nos grupos de whatsapp surgem as frases prontas de flamenguistas ensandecidos: “o Flamengo que paga, o Flamengo decide”. A clara defesa de que: quem está pagando decide o que fazer com a vida do atleta. Pedro está querendo jogar os Jogos Olímpicos. Por mais que tenha passado por reapropriações do sentido original desejado pelo Barão Pierre de Coubertin no final do século XIX, os Jogos ainda se sustentam no imaginário social como o local da disputa por si só, do jogo e do lúdico. Pedro tem o desejo de participar desse evento. Um sonho de menino para alguns. Um sonho de ganhar novos contratos para outros. Seja qual for real desejo do atleta, o clube se apodera da narrativa do “tô pagando” para validar a sua decisão. Uma empresa (neste caso, o clube atua totalmente como empresa) deveria ter realmente este poder? Ela pode escolher as ações de seu comandado desta forma? Ela é “dona” do atleta simplesmente porque paga o seu salário? Se é alto ou não, o certo é que ninguém deveria se prender a essa lógica. Pedro não é nenhum revolucionário, não quer tomar os bens de produção, ele quer apenas jogar o jogo.

Pedro atuando pela seleção olímpica. O jogador não deve ser liberado para a competição em Tóquio
Fonte: Gazeta Esportiva

Neste viés, naturaliza-se essa apropriação do corpo e da vontade do cidadão pelas empresas e patrão. Os manuais de gestão de pessoas, maravilhosos na prática e raramente seguidos pelas empresas brasileiras, indicam que um funcionário feliz “rende mais”. As empresas hoje, no nosso caso os clubes, por pagarem o salário, se acham no direito de decidir o que seria a felicidade alheia. A felicidade de Gerson seria “jogar na Europa” e “ficar rico”. Talvez esse não seja a vontade de todos os mortais. Adriano “Imperador” já demonstrou isso. A realização de Pedro será “ficar no banco de Gabigol”, esperando a oportunidade, porque o clube está pagando? Um mínimo de bom senso, até mesmo no sentido financeiro, no caso de Pedro, liberaria o jogador, ele voltaria “valorizado” e “empolgado”, mais “confiante” (termos usados pelos coachs) para voltar a “vestir a camisa” do Flamengo (em todos os sentidos). Podia-se até negar a convocação, mas a condução do caso mostrou a narrativa típica de uma elite escravocrata, arrogante e exploratória.

Enfim, o extraterrestre aqui se incomodou demais com a normalização da financeirização nas análises dos colegas de imprensa. Aquele que bate palmas para essa argumentação hoje dá aval para que o seu patrão decida os rumos de sua vida simplesmente por “estar pagando” o seu salário. Vou pegar minha nave de volta ao mundo em que o ser humano vem antes do dinheiro, com o desejo de ter colocado várias pulgas atrás das orelhas dos terráqueos que idolatram o capital.


[1] Aqui a dotamos a interpretação de financeirização de Bryan e Rafferty (2006) ao compreender que este processo significaria não apenas que o setor financeiro está maior, mas que as formas financeiras de cálculo estão se tornando mais difundidas socialmente.

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A chegada das novas piscinas de ondas. O surfe moderno também está passando por um processo de “arenização”?

A primeira realização de uma etapa do circuito mundial na Surf Ranch, piscina de ondas desenvolvida pelo onze vezes campeão mundial, Kelly Slater, em 2018, movimentou o mercado e as opiniões no mundo do surfe. As ondas artificiais não surgiram agora. Em 1985, os melhores surfistas do mundo participaram de um torneio em um parque aquático de Allentown, na Pensilvânia (EUA) e na década de 1990, piscinas de ondas artificiais receberam alguns campeonatos, um deles vencido justamente por Kelly Slater, na Disney, enquanto outros eventos movimentaram a cidade de Miyazaki, no Japão, onde estava a Ocean Dome, considerada a melhor piscina de ondas da época. Mas naquele tempo as tecnologias ainda não geravam ondas tão interessantes a ponto de competir com as ondas do mar. E foi justamente isso que a Kelly SlaterWave Company conseguiu para convencer a World Surf League (WSL) a realizar um campeonato na piscina: a capacidade de gerar “a primeira onda fabricada pelo homem com a força e a forma de uma onda oceânica.[2]

As tecnologias atuais prometem revolucionar o esporte por conta das novas possibilidades ligadas ao desenvolvimento de atletas, como o treinamento de alta performance, mas principalmente por gerar novas oportunidades comerciais como a criação de condomínios e resorts em locais longe do litoral, venda de direitos de transmissão dos campeonatos que se adequem melhor à programação televisiva, minimizando as dificuldades enfrentadas nos campeonatos realizados no mar (imprevisibilidade da natureza e falta de infraestrutura em determinados locais), aumento da audiência e o alcance de novos públicos. Um novo leque de atividades que provavelmente tornarão o esporte ainda mais midiatizado e passível de gerar mais lucros[1]

Em busca da onda perfeita

A tecnologia idealizada por Kelly Slater e por Adam Fincham, engenheiro mecânico, especializado em mecânica de fluidos na Universidade do Sul da Califórnia (USC), conta com uma piscina de 700 metros de comprimento por 150 metros de largura e um sistema chamado “hydrofoil”. É uma lâmina de metal, instalada em uma das laterais, que vai e volta toda a extensão do lago impulsionada por um sistema de trilhos, gerando a onda. Bancos de areia e recifes artificiais ajudam na hidrodinâmica para a recriação do fenômeno natural.

Surf Ranch – Fonte: revistatrip.uol.com.br

“A formação de uma onda pode durar até 50 segundos, com estabilidade de altura e formação. Em situações naturais, os surfistas muitas vezes não chegam a ficar 10 segundos em cima da prancha”. Outra tecnologia que já está em funcionamento e promete acirrar a corrida de lançamento de novos “surf parks” é a Surf Lakes, que fica na cidade de Yeppoon, em Queensland, Austrália. Ela consiste em um enorme disco de 1.400 toneladas que sobe e depois despenca sobre um lago a cada seis segundos formando ondas perfeitas em toda sua extensão. Segundo o site do parque, “é a maior inovação entre as inovações dos parques de surfe [2]

Surf Lakes – Fonte: stabmag.com

De acordo com Ford e Brown (2006), há uma tensão que permeia a cultura do surfe, principalmente em torno do “soul surf” e as tendências comerciais e de competição: “a primeira associada a uma narrativa declinante e o surfe contra cultural como perspectiva de estilo de vida, e a última, dentro de uma narrativa progressiva a um ethos olímpico de esportivização do surf” (FORD e BROWN, 2006, [s.i]). Essa discussão já existia dentro do esporte, mas parece ter se intensificado ainda mais com a chegada das novas piscinas de ondas artificiais. Para a World Surf League (WSL), que se tornou sócia da Surf Ranch em 2016, a piscina de ondas é uma importante aposta para tornar a primeira liga do surfe mundial lucrativa, como afirmou sua atual CEO, Sophie Goldschmidt em uma entrevista à revista Forbes:

Tivemos o primeiro evento do tipo no ano passado e teremos outro em 2019. É importante entender as possibilidades que isso traz para a mídia e os patrocinadores. O oceano nunca foi tão importante, mas agora usamos a tecnologia de forma complementar.

Essa forma complementar indica alguns interesses da liga, entre eles transformar a piscina no principal palco das Olimpíadas[3], facilitar a transmissão televisiva do esporte, que sempre teve dificuldades de entrar nas grades de programação por conta da imprevisibilidade da natureza, e a venda de ingressos. Rafael Fortes (2011) salienta que a inclusão do surfe nas Olimpíadas reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Nesse sentido, o autor enumera os desafios de se televisionar e transmitir o esporte: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões[4] (FORTES, 2020, p. 63).

Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se encaixaria perfeitamente às demandas da televisão. De acordo com os critérios da primeira etapa do mundial nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada. Outra novidade explorada pela WSL foi a venda de ingressos, que variaram de 99 dólares (direito a assistir a um dia de evento) a 30 mil dólares (direito a assistir todos os dias do evento em um camarote para dez pessoas, com comida e bebida inclusas).

Todas essas inovações dão indícios de que a “nova era do surfe”, que produz ondas perfeitas para o desenvolvimento da performance dos atletas, também irá inaugurar um processo de arenização no esporte, que talvez possa culminar em manifestações mais contundentes de negação ao “surfe moderno”, assim como o futebol, guardadas as diferenças entre ambos, vem passando. Podemos sugerir que ainda existe uma espécie de “democracia torcedora” (SANTOS, 2018) no surfe, na medida em que as praias onde são realizados os campeonatos são públicas, que não há restrição quanto a entrada nelas, e que atualmente é possível assistir às etapas do tour através das transmissões ao vivo via streaming por aplicativo ou pelo site da WSL com a opção de narração em português (FORTES, 2020, p. 64). Ir à praia, dependendo da distância que o “torcedor” se encontra, pode não ser exatamente barato, assim como ter um smartphone ou um computador com acesso à internet também não é para todos, mas essas opções são mais acessíveis do que pagar 99 dólares (cerca de meio salário mínimo) em um ingresso para assistir a uma etapa do tour na piscina, sem contar os demais possíveis gastos com itens de consumo dentro de um “parque”. Como Helal e Costa destacam (2020), já existem pesquisas que “dão ênfase aos intensos processos de mercadorização que estaria, segundo alguns autores, promovendo uma gradativa exclusão da participação popular” (HELAL e COSTA, 2020, p. 512), no futebol. Em um cenário esportivo cada vez mais midiatizado e espetacularizado, o surfe parece estar indo pelo mesmo caminho.

As piscinas brasileiras

No Brasil, estão sendo construídas duas piscinas de ondas para a prática do surfe. Uma em São Paulo, em Itupeva, o condomínio de luxo Praia da Gama: “o único condomínio do mundo com praia, golf e hípica”, e outra em Santa Catarina, Garopaba, a Surfland Brasil. “O primeiro clube e resort em multipropriedade com piscina de ondas para surf no mundo”. Em uma rápida comparação entre os sites e perfis no Instagram dos dois empreendimentos, supomos que os públicos-alvo almejados são diferentes. Enquanto que o Praia da Gama parece ser um condomínio mais voltado para um público mais abastado e exclusivo, com poucas unidades à venda e lotes a partir de dois milhões de reais, a Surfland parece querer atingir um público maior e que se identifica mais com o estilo de vida do surfe, pois além do modelo de vendas sugerir menos exclusividade, a sua campanha publicitária é feita explorando a imagem de atletas renomados do esporte, como o bicampeão mundial, Gabriel Medina. De acordo com um levantamento feito em agosto de 2020 com um representante de vendas do empreendimento Surfland Brasil, pudemos apurar que o custo de uma “fração[5]” era cerca de noventa mil reais. Cada fração dava direito a quatorze dias de hospedagem no ano em um apartamento térreo (sendo sete dias na alta temporada e sete dias na média), além de acesso ao clube, que conta com a piscina de ondas, uma pista de skate e outros equipamentos esportivos, o ano inteiro.

As propostas da Surfland Brasil e do Praia da Gama estão de acordo com as ideias da WSL para a construção de novas piscinas de ondas pelo mundo. Segundo Sophie Goldschmidt, principal executiva da liga mundial, em entrevista à revista TPM sobre como a piscina de ondas poderia ser usada pela comunidade no Brasil, ela respondeu: “uma parte importante será o treinamento para o surf de alto desempenho. Também vemos a oportunidade de fazer algo parecido com um country club [um clube de associados]”. Essa visão de mercado reforça a hipótese de que o surfe é um esporte majoritariamente de elite. Fortes (2011), em seu livro o Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura, ressalta que:

A caracterização do surfe como algo nato na fala dos surfistas apaga diferenças quanto a fatores de classe, lugar, oportunidades para surfar (tempo livre, acesso ao mar, posse de prancha e acessórios). Embora a representação elimine estes elementos, na prática eles são decisivos e constituem as condições estruturais que determinam se um indivíduo poderá ou não ser surfista (FORTES, 2011, p. 267) .

Ou seja, a condição financeira do praticante pode ser preponderante para que ele evolua no esporte e desfrute do estilo de vida easy going que o estigma de o que é ser um surfista costuma sugerir. Com as piscinas de onda, a tendência é que haja mais um elemento de distanciamento não só do praticante com poucos recursos financeiros, como do público em geral, espectador esporádico e simpatizante do surfe. Ainda não se sabe se esses empreendimentos, que por si só demandam grandes infraestruturas e espaços, estarão ligados a processos de gentrificação nas regiões onde estão sendo instalados, assim como ainda não é possível afirmar se tais investimentos trarão benefícios concretos para o esporte, como o desenvolvimento de novos atletas. Mas a expectativa do crescimento no lançamento e desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de ondas artificiais próprias para o surfe nos próximos anos é grande, e será necessário que novas pesquisas lancem luz sobre esse tema que já está impactando o chamado “surfe moderno”.  

Referências bibliográficas

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARAES, P. C. D.; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões e Debates, v. 68, p. 55-76, 2020.

HELAL, Ronaldo. O Que é Sociologia do Esporte. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HELAL, Ronaldo; Costa, Leda Maria. Sociologia do Esporte: temas, pressupostos e situação do campo. In: Rita de Cássia Fazzi; Jair Araújo de Lima (Orgs.). Campos das Ciências Sociais. Figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal. 1ed. Petrópolis: Vozes, 2020.

LORCK, Carlos K. Surfe: deslizando sobre as ondas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1980.

SANTOS, I. S. C. Mercantilização do futebol e movimentos de resistência dos torcedores: histórico, abordagens e experiências brasileiras. Esporte e Sociedade, v. 11, p. 1-18, 2016.

SANTOS, IRLAN SIMÕES DA CRUZ; SANTOS, ANDERSON DAVID GOMES DOS. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 9, p. 246-261, 2018.


[1] Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Surfe (Ibrasurfe), no Brasil, o esporte movimenta R$ 7 bilhões ao ano em roupas, pranchas e acessórios, e tem por volta de 3 milhões de praticantes.

[2] Tradução nossa: “The biggest break in surf park innovation”.

[3] Após meses de indefinições, a organização dos próximos Jogos descartou o modo artificial por questões logísticas e confirmou a disputa em Chiba, litoral que fica a 60 quilômetros de Tóquio, mesmo com os riscos climáticos de possíveis atrasos e adiamento de baterias. Porém, a piscina é uma possibilidade real para a Olimpíada de Paris, em 2024.

[4] “Após ataque de tubarão, WSL anuncia que feminino mudará de local no Havaí; Pipe é uma opção”.

[5] Na multipropriedade você se torna dono de uma fração do imóvel, detém escritura pública e paga supostamente apenas pelo tempo que utiliza.


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Competições olímpicas de arte e a história das mulheres no esporte

A trajetória das mulheres no esporte durante algum tempo foi contada a partir da ênfase naquilo que não foi ou naquilo que poderia ter sido. Trata-se de uma perspectiva importante e justa que chamou a atenção para o longo silêncio sobre uma parte importante da história do esporte. Essa parte cabe às mulheres e ela é composta de inúmeros eventos e ações que precisam ser trazidos à cena, montando assim um quadro não de lacunas somente, mas de atos e gestos movidos por esforços solitários e coletivos. Esforços que possuem laços com diferentes esferas da cultura e da sociedade, entre as quais a arte.

Diversas foram as vezes em que o esporte foi artisticamente representado. As vanguardas europeias são um exemplo dessa aproximação. A ânsia por tematizar o frenesi da modernidade e seus ícones – entre os quais o esporte – moveu a tinta de artistas futuristas como Giacomo Balla, Umberto Boccioni e Carlo Carrà[1].

Porém, uma das mais fortes demonstrações da relação entre arte e esporte está nas Olympic Art Competitions (Competições Olímpicas de Arte) quase esquecidas hoje em dia, mas que já fizeram parte do programa dos Jogos Olímpicos. Essas competições começaram oficialmente, em 1912, nos Jogos de Estocolmo e terminaram em 1948, em Londres. Elas surgiram da vontade de Pierre Coubertin de relacionar esporte, arte e literatura, pois essa união representaria o que Coubertin considerava como a verdadeira essência dos Jogos Olímpicos, do modo como acreditava terem sido concebidos na Antiguidade.

Essas disputas artísticas foram um momento importante para as mulheres no esporte. Em 1928, o mexicano Ángel Zárraga levou para as competições seus quadros La Futebolista Rubia e La Futebolista Morena nos quais são retratadas jogadoras de futebol parisienses que atuavam nos gramados franceses em uma época considerada como a “idade de ouro” do futebol feminino[2].

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La futebolista morena, obra pintada, em 1926, por Ángel Zárraga e inscrita nas Competições Olímpicas de arte de 1928

Porém, as mulheres, também, se destacaram como artistas. E várias delas conseguiram medalhas.

Competições Olímpicas de arte e as mulheres

Pelo menos desde a metade dos anos de 1910, Pierre Coubertin não mediu esforços para a organização de uma conferência consultiva que visava convencer o Comitê Olímpico Internacional sobre a necessidade de se integrar ao Jogos, manifestações que fossem além dos esportes e abarcassem as artes. Richard Stanton, em seu livro The forgotten Olympic Art Competitions, nos mostra o empenho de Coubertin em convidar importantes artistas da época para comporem a conferência, enviando-lhes cartas individuais.

Em 1906, na abertura desse evento, Coubertin fez a leitura intitulada “A Grand Merriage” na qual enfatiza a necessidade de unir músculo e mente[3]. Seu esforço gerou resultado:

A conferência aprovou por unanimidade a ideia de instituir cinco concursos, arquitetura, escultura, pintura, literatura e música, que se juntarão a seguir as Olimpíadas e farão parte delas com o mesmo status das provas atléticas. Os trabalhos apresentados devem ser inspirados na ideia do esporte ou referir-se diretamente ao esporte. Eles seriam examinados por um júri internacional. As obras vencedoras seriam, na medida do possível, exibidas, publicadas ou executadas (como se fossem pictóricas, arquitetônicas, escultóricas ou literárias, ou finalmente, musicais ou dramáticas) ao longo dos Jogos. (tradução minha) [4]

Após alguns percalços, finalmente nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, as competições artísticas foram oficializadas. As principais categorias incluíam Arquitetura, Escultura, Pintura, Música e Literatura[5] tendo sua organização orientada pela nacionalidade. Assim como nos jogos esportivos, as premiações se dividiam em medalhas de ouro, prata e bronze. Em 36 anos foram concedidas 147 medalhas, sendo no total 24 para a Alemanha, 14 para Itália e 13 para a França.

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Competições Olímpicas de arte, 1932, Los Angeles. Júri observando as obras. Fonte: Olympic Museum

O único representante de destaque da América do Sul foi o Uruguai que obteve uma menção honrosa, em 1948, na categoria literatura, prêmio obtido por Clotilde Luisi, uma advogada, escritora e militante do direito das mulheres[6].

Várias foram as mulheres que participaram das Competições Olímpicas de Arte e que ganharam medalha como é o caso da escultora alemã Renée Sintenis que, em 1928, recebeu prata pela obra Footballeur. René era uma mulher que chamava atenção em sua época por seu estilo andrógino e por uma vida pública agitada, sendo com frequência vista em eventos esportivos ou dirigindo carros pelas ruas de Berlim.

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Footballeur, 1928, Renée Sintenis, medalha de bronze. Fonte: Playing Pasts

Outro destaque pode ser dado a Laura Knight que, em 1913, impactou a crítica e o público com seu Self-portrait with nude (Autorretrato com nu). Essa composição mostra uma cena ambientada em um estúdio no qual aparece Knight – vestida – em frente a uma tela em que pinta a modelo nua, Ella Naper.  Ao lado de Laura podemos ver um espelho refletindo o corpo real dessa modelo que posava para a artista. É uma pintura complexa que ao duplicar a imagem, atinge três planos de representação feminina: pintora, modelo e figuração.

Vale lembrar que no período de formação artística de Laura Knight, nas escolas de arte, era desaconselhado e até mesmo vedado que mulheres pintassem diretamente modelos nus, tendo que se limitar a trabalhar a partir de moldes ou copiar desenhos preexistentes. O quadro Autorretrato com nu, em grande medida, pode ser interpretado como uma provocação a essa sanção sofrida pela própria artista.

Knight foi alvo de críticas negativas de quem a considerou imoral e com uma postura considerada como incompatível com uma mulher. Entretanto com o passar do tempo, sua técnica que conjugava realismo e traços de impressionismo, a tornaram um dos principais nomes das artes plásticas da Inglaterra em sua época.  Uma artista muito popular, também, devido às suas pinturas sobre o cotidiano do circo. Laura Knight, em 1936, tornou-se a primeira mulher eleita para membro efetivo da Royal Academy desde sua fundação.

Antes disso, em 1928, Laura Knight foi medalhista das Competições Olímpicas de Arte ganhando a prata com a pintura Bouxeurs. Essa modalidade esportiva, aliás, já havia recebido atenção da artista em obras anteriores como é o caso de Physical Training at Witley Camp (1918), inspirada em cenas presenciadas pela própria artista no campo de treinamento militar Witley, onde soldados canadenses, francês e Belgas se preparavam para a primeira guerra mundial. Desde, então, a pintora costumava representar o boxe em suas produções como é o caso de Youngsters at the ring, Blackfriars (1937). Ainda em relação à temática esportiva, a artista fez o famoso cartaz Rugby at Twickenham by Tram, em 1921.

Foto 4
Boxeurs, Medalha de prata, Competições Olímpicas de Arte 1932. Fonte: Olympic Museum

Foto 5
Physical Training at Witley Camp (1918), Laura Knight. Fonte: Allpainter

Foto 6
Youngsters at the ring, Blackfriars (1937), Laura Knight. Fonte: Artnet

FOTO 7
Rugby at Twickenham by Tram, cartaz feito por Laura Knight
Fonte: London Transport Museum

Agora é a vez de falar de Ruth Miller, nascida em Chicago, em 1904, filha de uma família abastada e conservadora da qual tentou desvencilhar-se e ir em busca de mais liberdade. Ruth chegou a fingir um colapso nervoso para não ser matriculada no tradicional Vassar College. Viajou para a Europa, casou-se sem autorização dos pais e estudou artes plásticas durante a efervescência das vanguardas europeias. Provavelmente desse contato surgiram os traços surrealistas que acompanham muitas de suas obras.

Já de volta aos Estados Unidos, em 1932, nos Jogos de Los Angeles, Ruth ganhou a medalha de prata nas competições artísticas com a interessantíssima pintura The Struggle, em que é possível observarmos dois homens, um negro e um branco, cuja luta corpórea pode ser interpretada como uma alusão ao embate racial comum à sociedade americana da época.

FOTO 8
Ruth Miller Kempster, The Struggle, Medalha de prata. Competições Olímpicas de Arte de 1932.
Fonte.: http://lacmaonfire.blogspot.com/

A pintora não deixou de lançar um olhar crítico também sobre os padrões femininos de sua época, como ocorre na bela e provocativa obra Housewife, de 1935. Nela, a partir da técnica de enquadramento usada, nos é passada uma forte impressão do enclausuramento do cotidiano doméstico das mulheres.

FOTO 9
Housewife, 1935, Ruth Miller Kempster. Fonte: Los Angeles Times.

As pintoras aqui mencionadas, de algum modo, deram mostras tanto na arte quanto em suas vidas de que havia espaços mais amplos a serem ocupados pelas mulheres na sociedade. E esse é um dos motivos que norteou a escolha delas para compor este texto. Além desse aspecto, o destaque dessas artistas, nesta postagem, também se justifica pela maior quantidade de informações acessíveis sobre suas carreiras e as obras que as levaram a ser premiadas nas Competições Olímpicas de Arte.

Foram 148 mulheres artistas que concorreram nessa disputa, sendo que 10 ganharam medalhas e cinco conseguiram menção honrosa. São números que dão mostras de uma participação exitosa. Desde a primeira edição oficial, em 1912, foi permitida a presença de mulheres, o que dá mostras de que pelo menos nas competições artísticas dos Jogos, essa questão não foi um problema. Nas regras das Competições Olímpicas de Arte não há passagens que façam alusão a regulações específicas em relação a artistas mulheres, assim como não se encontrava menção à sua exclusão das competições[7].

foto 10
Quadro de medalhistas mulheres nas Competições Olímpicas de Arte nas Fonte.: Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016

Tudo bem diferente do que ocorria com os Jogos Olímpicos esportivos cuja presença feminina foi algo contra o qual o próprio Barão de Coubertin manifestou-se explicitamente diversas vezes. Essa e outras oposições dificultaram sobremaneira a participação de mulheres atletas, mas como já disse, no início desta postagem, a trajetória das mulheres no esporte é fascinante devido ao seu caráter alternativo e em certa medida desobediente.

Afinal enquanto Barão de Coubertin dizia não, a francesa Alice Milliat, criou, e depois dirigiu, a Fédération Sportive Féminine Internationale (F.S.F.I.). Essa instituição durou 15 anos – (1921-1936) – e no decorrer desse esse tempo foi responsável pela organização de quatro edições dos Jogos Olímpicos Femininos.

Mas esse é tema para a próxima postagem.

[1] Sobre a relação arte e esporte há livros e artigos de Victor Andrade de Melo que podem ser consultados

[2] Uso a expressão de Xavier BREUIL no seu Histoire du football féminin en Europe. Paris.: Nouveau Monde Editions, 2011

[3] “to reunite a long-divorced couple – Muscle and Mind”, assim consta no discurso original que pode ser lido no livro de Richard Stanton The forgotten Olympic Art Competitions

[4] Pérez-Aragón, P. y Gallardo-Pérez, J. (2017). Coubertin and the Artistic Competitions in the Modern Olympic Games. Revista Internacional de Medicina y Ciencias de la Actividad Física y el Deporte vol. 17 (68) p.633-649.

[5] Com o tempo outras subdivisões foram acrescentadas

[6] Clotildi Luisi foi uma artista atuante no cenário político da América Latina saindo em defesa de ideias anti-imperialistas. Ela foi amiga de Alfonso Reys, poeta e diplomata Mexicano, com quem manteve intercâmbio intelectual frequente. Sobre a atuação de Luisi ver Mariana Moraes Medina. Crónica de una efusión: Alfonso Reyes, Luisa Luisi y el Comité Uruguay-México. Revista de Historia de América núm. 156, 2019.

[7] Ver  Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016 – Issue 13: Special Issue: Women and Sport

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