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O jornalismo esportivo em tempos de Coronavírus

Como uma jovem jornalista em formação, apaixonada por esporte, esse novo modo de viver que nos foi imposto me fez refletir. Refletir acerca do papel do jornalista, do papel do esporte e do nosso papel enquanto pessoas. Para uma pessoa que gosta de esporte e está cursando jornalismo, essas três variáveis são quase indissociáveis.

Enquanto tentava entender tudo o que estava acontecendo, me senti profundamente tocada pela crônica de Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 20/03/2020, no programa “Faixa especial” do SporTV. Compartilho aqui ela na íntegra:

A rua é a casa do repórter. Quando uma crise mundial bate à porta, a mais humana das reações é não deixar ninguém entrar. Seja em tempos de guerra, seja em tempos de pandemia. No presente, aquele que ninguém jamais pediu, a batalha é contra o coronavírus. De dentro do laboratório elas mandaram avisar o mais rápido possível medidas simples, porém eficientes, para conter o avanço da doença: “evite falar com as pessoas a menos de um metro de distância”; “nada de abraços, mãos ao rosto, aperto de mão”. Basicamente, é isso que milhares de repórteres têm dito durante as últimas semanas. Claro, as paralisações de competições esportivas e países inteiros, andam em pauta. Os trágicos números de vítimas da doença do século, também. É inevitável pensar. Não ir pra rua é não ir pra casa, pois de que vale a mensagem trazida pelo repórter se ele não falou com ninguém, não viu as estações de metrô fecharem, não teve nos restaurantes sem clientes, não sentiu o estrondoso vazio dos cenários mais famosos do planeta, como num filme apocalíptico. Para alguns, em certos países como a Grã-Bretanha, como o Brasil, pisar na rua ainda é permitido. Ainda. Um alento para o repórter e uma preocupação para o ser humano que habita o mesmo corpo. Porque, realizar o ofício que a gente tanto ama, significa por os nossos maiores amores em risco. Pensando assim, estar longe do nosso país, das pessoas mais importantes da nossa vida deveria ser bom, mas não é. Longe, sozinho, a cabeça começa a trair a razão. Melhor estar perto dos nossos, tomando conta um do outro. Melhor se prevenir de um jeito solidário, com responsabilidade, conhecimento, mas um olhar terno ao próximo. Só assim ainda seremos repórteres. Ainda seremos o que um dia já fomos.

Ouvi uma, duas, três… dez vezes… Mudei o texto que originalmente publicaria no blog. Transcrevi e trouxe aqui, pois achei de extrema sensibilidade e sensatez. Fico emocionada de maneiras diferentes cada vez que ouço ou leio. Tenho acompanhado diariamente a programação do SporTV, e como eles estão se reinventando para tentar evitar o inevitável. Tentar não ficar sem assunto quando o seu assunto já não existe mais. Aquilo que talvez a gente nunca imaginasse, aconteceu. O futebol parou. O esporte parou. Já ouvi que o futebol havia parado uma guerra, que parou um país, vários países… mas nunca, nunca tinha ouvido que o futebol havia parado. Em praticamente todo o mundo, a bola já não rola mais. A famosa frase do técnico vice-campeão mundial pela seleção italiana na Copa de 94, Arrigo Sacchi, “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”, faz cada vez mais sentido. Nesse momento não há espaço para as coisas menos importantes.

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O jornalista é um flâneur – do francês: caminhante, errante, observador. Flanar sem rua é quase como a música da Adriana Calcanhoto “Fico Assim Sem Você”. A palavra agora, porém, é outra: navegar. Navegar pelas ondas da internet, trabalhar de home office, ainda que alguns jornalistas ainda sejam vistos em seu habitat natural, a fim de levar as informações para quem não pode – e não deve – sair de casa. Adaptação. Palavra que entrou no dicionário de todo mundo. De uma vez só. Quem é da rua sabe se adaptar. Quem faz reportagem ao vivo, sabe correr riscos. Quem busca informação, sabe se prevenir. Quem gosta de esporte, sabe driblar. E assim se reinventam os jornalistas esportivos. Adaptando-se, correndo riscos, prevenindo-se, e driblando – com responsabilidade (como já diria Felipe Melo) – o Covid-19.

Os noticiários dos canais de esporte e dos canais de informação se misturam. Não há escapatória. Vê-se, porém, luz no fim do túnel, nem tudo está perdido. Há notícia!! Atletas que foram infectados, esportistas que passam recados reforçando a importância de ficar em casa, como os clubes estão lidando com a quarentena e a decisão do COI – ainda que tardia – de  adiar as Olimpíadas de Tóquio 2020. Os repórteres, de casa, trazem as informações necessárias ao que restou dos programas ao vivo, que, nesse momento, se reduzem a apenas três (do que antes eram, no mínimo seis programas da grade regular do SporTV). Decisão sensata a mudança na programação. Pela questão da saúde dos funcionários, respeitando o isolamento social proposto pelo governo, mas não só por isso. A informação, que já é escassa, começa a se repetir. De noite, você ouve o que já ouviu de tarde, e o que já ouviu de dia, mas na voz de pessoas diferentes. Assim, manter a grade normal torna-se insustentável.

No ar, uma mistura de luto e desânimo, intercaladas com piadas e brincadeiras que os jornalistas, repórteres e ex-jogadores fazem entre eles. “Pra descontrair”, eles avisam. O que mais me chamou atenção, entretanto, era a fala de não só um, mas alguns jornalistas esportivos – e não só no SporTV – reafirmando aquele espaço como, praticamente, o que restou aos amantes do esporte, e de como eles se sentiam honrados em poder levar, ainda que apenas um pouco, de entretenimento para a casa das pessoas. E não é mentira. Vídeos divertidos de narrações de afazeres doméstico; análise de como cada clube estava jogando antes dessa – necessária – parada; e vídeos de profissionais de educação física mostrando alguns treinos viáveis de serem feitos em casa, foram algumas das estratégias para que o isolamento social – nome chique para “ficar em casa” – seja colorido pelo esporte, mesmo que em tons pastéis.

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Fui descobrindo, dessa maneira, novas funções que essa profissão pode ter. Nunca tinha parado para pensar em como seria ser uma jornalista esportiva em um mundo em que não há esporte. É claro, antes de ser “jornalistas esportivos”, somos “jornalistas”; se um dia o esporte acabasse para sempre – bate na madeira três vezes!! – migraríamos para outras editorias e cada um seguiria sua vida. Ela, porém, nunca mais seria a mesma. Quando perguntaram à teóloga Dorothee Sölle como ela explicaria a felicidade a uma criança, ela respondeu: “Não explicaria. Daria uma bola para ela brincar”. Seguiríamos nossas vidas sem saber mais o que é felicidade.

Por sorte o cenário não é tão desolador – no sentido de o esporte acabar para sempre. Ele há de voltar. Um dia. Esperaremos o tempo que for necessário, ficando em casa o máximo possível, lavando as mãos e passando álcool gel. Enquanto isso podemos retornar com os jogos de futebol de botão, jogos de videogame, relembrar partidas memoráveis… Se não podemos, por hora, brincar com a bola, pelo menos nós conhecemos a felicidade. E isso já é muito. Que possamos voltar a flanar o mais rápido possível pelas quatro linhas do campo, por entre os dribles dos jogadores, dentro do movimento das torcidas. Não só os jornalistas, mas todos os que amam Futebol.

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Primeira edição dos Encontros LEME 2020

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No primeiro Encontro de 2020, vamos receber Luiz Guilherme Burlamaqui, que apresentará a pesquisa “A dança das cadeiras: como João Havelange se tornou presidente da FIFA em 1974”.
Luiz Burlamaqui é doutor em História Social pela USP e professor de história no Instituto Federal de Brasília.

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

Local: Auditório do PPGCom/UERJ
Horário: 16h
Não é necessária inscrição prévia.
Em todas as palestras teremos certificado para alunos para horas complementares.

Os próximos Encontros agendados são:
> 06/04 16h – Diano Albernaz Massarani
> 27/04 16h – Alberto Filgueiras
> 11/05 16h – Irlan Simões
> 27/05 16h – Isabella Trindade
> 08/06 16h – Carlus Augustus
> 22/06 16h – Jimmy Medeiros

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Já está no ar o décimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o décimo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo episódio é “O Brasil em sua primeira participação olímpica”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, que é pesquisador do LEME e e jornalista da Rádio Globo, recebemos no nosso estúdio Fausto Amaro, doutor em Comunicação pela UERJ, coordenador técnico do LEME e diretor do Passes e Impasses.

 

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi o “Hino Olímpico”, que foi composto pelo grego Spyridon Samaras, com letra do poeta romano Kostís Palamás.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano e Carol Fontenelle

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro

Convidados: Mattheus Reis e Fausto Amaro

Produção audiovisual

Palestra de Aira Bonfim disponível no Youtube

Está disponível no canal do LEME no Youtube o vídeo da palestra de Aira Bonfim nos Encontros LEME 2019. Aira esteve conosco no dia nove de setembro, no auditório do PPGCom/UERJ, para falar de sua pesquisa no Mestrado em História, Política e Bens Culturais da FGV: “Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941)”.

Aira Bonfim teve como intuito na sua pesquisa apresentar um panorama do envolvimento de diferentes grupos sociais de mulheres que aderiram à prática do futebol, em diversos momentos históricos, desempenhando distintos papéis. Locais como os das festas esportivas, dos picadeiros circenses e dos campos suburbanos do Rio de Janeiro mostraram-se ricos na manifestação do fenômeno “football feminino”. Em seu trabalho, a pesquisadora utiliza como fontes jornais e revistas do período, bem como acervos iconográficos institucionais e pessoais.

A palestra fez parte dos Encontros LEME, uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções entre Comunicação, Esporte e Cultura. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

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Eventos · Produção bibliográfica

Lançamento de livro organizado por pesquisador do LEME

Hoje, dia 21 de novembro às 18h, ocorre o lançamento do livro Rio de Janeiro, uma cidade em perspectiva. A obra é organizada por Fausto Amaro (doutor pelo PPGCom/UERJ e pesquisador do LEME) em parceria com os professores da UERJ André Nunes de Azevedo e Érica Sarmiento. O livro também conta com artigos do coordenador do LEME, Ronaldo… Continuar lendo Lançamento de livro organizado por pesquisador do LEME

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Artigos

A guerra, o esporte de alto rendimento, e a sociedade competitiva. Os limites do esporte como prática saudável

Nasci em 1971. Cresci ouvindo em todo canto que esporte é saúde. De fato, para o atleta recreacional que respeita os seus limites, esporte é não só saúde física, pois, comprovadamente, a atividade física é profilaxia de um sem número de doenças: diabetes, infarto, obesidade, câncer, entre outras; mas também é saúde mental, uma vez… Continuar lendo A guerra, o esporte de alto rendimento, e a sociedade competitiva. Os limites do esporte como prática saudável

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Eventos

LEME recebe os pesquisadores Gustavo Bandeira e Vivian Fonseca

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções entre Comunicação, Cultura e Esporte. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica. Neste semestre, já recebemos pesquisadores proeminentes da área de esportes –… Continuar lendo LEME recebe os pesquisadores Gustavo Bandeira e Vivian Fonseca

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