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A chegada das novas piscinas de ondas. O surfe moderno também está passando por um processo de “arenização”?

A primeira realização de uma etapa do circuito mundial na Surf Ranch, piscina de ondas desenvolvida pelo onze vezes campeão mundial, Kelly Slater, em 2018, movimentou o mercado e as opiniões no mundo do surfe. As ondas artificiais não surgiram agora. Em 1985, os melhores surfistas do mundo participaram de um torneio em um parque aquático de Allentown, na Pensilvânia (EUA) e na década de 1990, piscinas de ondas artificiais receberam alguns campeonatos, um deles vencido justamente por Kelly Slater, na Disney, enquanto outros eventos movimentaram a cidade de Miyazaki, no Japão, onde estava a Ocean Dome, considerada a melhor piscina de ondas da época. Mas naquele tempo as tecnologias ainda não geravam ondas tão interessantes a ponto de competir com as ondas do mar. E foi justamente isso que a Kelly SlaterWave Company conseguiu para convencer a World Surf League (WSL) a realizar um campeonato na piscina: a capacidade de gerar “a primeira onda fabricada pelo homem com a força e a forma de uma onda oceânica.[2]

As tecnologias atuais prometem revolucionar o esporte por conta das novas possibilidades ligadas ao desenvolvimento de atletas, como o treinamento de alta performance, mas principalmente por gerar novas oportunidades comerciais como a criação de condomínios e resorts em locais longe do litoral, venda de direitos de transmissão dos campeonatos que se adequem melhor à programação televisiva, minimizando as dificuldades enfrentadas nos campeonatos realizados no mar (imprevisibilidade da natureza e falta de infraestrutura em determinados locais), aumento da audiência e o alcance de novos públicos. Um novo leque de atividades que provavelmente tornarão o esporte ainda mais midiatizado e passível de gerar mais lucros[1]

Em busca da onda perfeita

A tecnologia idealizada por Kelly Slater e por Adam Fincham, engenheiro mecânico, especializado em mecânica de fluidos na Universidade do Sul da Califórnia (USC), conta com uma piscina de 700 metros de comprimento por 150 metros de largura e um sistema chamado “hydrofoil”. É uma lâmina de metal, instalada em uma das laterais, que vai e volta toda a extensão do lago impulsionada por um sistema de trilhos, gerando a onda. Bancos de areia e recifes artificiais ajudam na hidrodinâmica para a recriação do fenômeno natural.

Surf Ranch – Fonte: revistatrip.uol.com.br

“A formação de uma onda pode durar até 50 segundos, com estabilidade de altura e formação. Em situações naturais, os surfistas muitas vezes não chegam a ficar 10 segundos em cima da prancha”. Outra tecnologia que já está em funcionamento e promete acirrar a corrida de lançamento de novos “surf parks” é a Surf Lakes, que fica na cidade de Yeppoon, em Queensland, Austrália. Ela consiste em um enorme disco de 1.400 toneladas que sobe e depois despenca sobre um lago a cada seis segundos formando ondas perfeitas em toda sua extensão. Segundo o site do parque, “é a maior inovação entre as inovações dos parques de surfe [2]

Surf Lakes – Fonte: stabmag.com

De acordo com Ford e Brown (2006), há uma tensão que permeia a cultura do surfe, principalmente em torno do “soul surf” e as tendências comerciais e de competição: “a primeira associada a uma narrativa declinante e o surfe contra cultural como perspectiva de estilo de vida, e a última, dentro de uma narrativa progressiva a um ethos olímpico de esportivização do surf” (FORD e BROWN, 2006, [s.i]). Essa discussão já existia dentro do esporte, mas parece ter se intensificado ainda mais com a chegada das novas piscinas de ondas artificiais. Para a World Surf League (WSL), que se tornou sócia da Surf Ranch em 2016, a piscina de ondas é uma importante aposta para tornar a primeira liga do surfe mundial lucrativa, como afirmou sua atual CEO, Sophie Goldschmidt em uma entrevista à revista Forbes:

Tivemos o primeiro evento do tipo no ano passado e teremos outro em 2019. É importante entender as possibilidades que isso traz para a mídia e os patrocinadores. O oceano nunca foi tão importante, mas agora usamos a tecnologia de forma complementar.

Essa forma complementar indica alguns interesses da liga, entre eles transformar a piscina no principal palco das Olimpíadas[3], facilitar a transmissão televisiva do esporte, que sempre teve dificuldades de entrar nas grades de programação por conta da imprevisibilidade da natureza, e a venda de ingressos. Rafael Fortes (2011) salienta que a inclusão do surfe nas Olimpíadas reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Nesse sentido, o autor enumera os desafios de se televisionar e transmitir o esporte: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões[4] (FORTES, 2020, p. 63).

Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se encaixaria perfeitamente às demandas da televisão. De acordo com os critérios da primeira etapa do mundial nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada. Outra novidade explorada pela WSL foi a venda de ingressos, que variaram de 99 dólares (direito a assistir a um dia de evento) a 30 mil dólares (direito a assistir todos os dias do evento em um camarote para dez pessoas, com comida e bebida inclusas).

Todas essas inovações dão indícios de que a “nova era do surfe”, que produz ondas perfeitas para o desenvolvimento da performance dos atletas, também irá inaugurar um processo de arenização no esporte, que talvez possa culminar em manifestações mais contundentes de negação ao “surfe moderno”, assim como o futebol, guardadas as diferenças entre ambos, vem passando. Podemos sugerir que ainda existe uma espécie de “democracia torcedora” (SANTOS, 2018) no surfe, na medida em que as praias onde são realizados os campeonatos são públicas, que não há restrição quanto a entrada nelas, e que atualmente é possível assistir às etapas do tour através das transmissões ao vivo via streaming por aplicativo ou pelo site da WSL com a opção de narração em português (FORTES, 2020, p. 64). Ir à praia, dependendo da distância que o “torcedor” se encontra, pode não ser exatamente barato, assim como ter um smartphone ou um computador com acesso à internet também não é para todos, mas essas opções são mais acessíveis do que pagar 99 dólares (cerca de meio salário mínimo) em um ingresso para assistir a uma etapa do tour na piscina, sem contar os demais possíveis gastos com itens de consumo dentro de um “parque”. Como Helal e Costa destacam (2020), já existem pesquisas que “dão ênfase aos intensos processos de mercadorização que estaria, segundo alguns autores, promovendo uma gradativa exclusão da participação popular” (HELAL e COSTA, 2020, p. 512), no futebol. Em um cenário esportivo cada vez mais midiatizado e espetacularizado, o surfe parece estar indo pelo mesmo caminho.

As piscinas brasileiras

No Brasil, estão sendo construídas duas piscinas de ondas para a prática do surfe. Uma em São Paulo, em Itupeva, o condomínio de luxo Praia da Gama: “o único condomínio do mundo com praia, golf e hípica”, e outra em Santa Catarina, Garopaba, a Surfland Brasil. “O primeiro clube e resort em multipropriedade com piscina de ondas para surf no mundo”. Em uma rápida comparação entre os sites e perfis no Instagram dos dois empreendimentos, supomos que os públicos-alvo almejados são diferentes. Enquanto que o Praia da Gama parece ser um condomínio mais voltado para um público mais abastado e exclusivo, com poucas unidades à venda e lotes a partir de dois milhões de reais, a Surfland parece querer atingir um público maior e que se identifica mais com o estilo de vida do surfe, pois além do modelo de vendas sugerir menos exclusividade, a sua campanha publicitária é feita explorando a imagem de atletas renomados do esporte, como o bicampeão mundial, Gabriel Medina. De acordo com um levantamento feito em agosto de 2020 com um representante de vendas do empreendimento Surfland Brasil, pudemos apurar que o custo de uma “fração[5]” era cerca de noventa mil reais. Cada fração dava direito a quatorze dias de hospedagem no ano em um apartamento térreo (sendo sete dias na alta temporada e sete dias na média), além de acesso ao clube, que conta com a piscina de ondas, uma pista de skate e outros equipamentos esportivos, o ano inteiro.

As propostas da Surfland Brasil e do Praia da Gama estão de acordo com as ideias da WSL para a construção de novas piscinas de ondas pelo mundo. Segundo Sophie Goldschmidt, principal executiva da liga mundial, em entrevista à revista TPM sobre como a piscina de ondas poderia ser usada pela comunidade no Brasil, ela respondeu: “uma parte importante será o treinamento para o surf de alto desempenho. Também vemos a oportunidade de fazer algo parecido com um country club [um clube de associados]”. Essa visão de mercado reforça a hipótese de que o surfe é um esporte majoritariamente de elite. Fortes (2011), em seu livro o Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura, ressalta que:

A caracterização do surfe como algo nato na fala dos surfistas apaga diferenças quanto a fatores de classe, lugar, oportunidades para surfar (tempo livre, acesso ao mar, posse de prancha e acessórios). Embora a representação elimine estes elementos, na prática eles são decisivos e constituem as condições estruturais que determinam se um indivíduo poderá ou não ser surfista (FORTES, 2011, p. 267) .

Ou seja, a condição financeira do praticante pode ser preponderante para que ele evolua no esporte e desfrute do estilo de vida easy going que o estigma de o que é ser um surfista costuma sugerir. Com as piscinas de onda, a tendência é que haja mais um elemento de distanciamento não só do praticante com poucos recursos financeiros, como do público em geral, espectador esporádico e simpatizante do surfe. Ainda não se sabe se esses empreendimentos, que por si só demandam grandes infraestruturas e espaços, estarão ligados a processos de gentrificação nas regiões onde estão sendo instalados, assim como ainda não é possível afirmar se tais investimentos trarão benefícios concretos para o esporte, como o desenvolvimento de novos atletas. Mas a expectativa do crescimento no lançamento e desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de ondas artificiais próprias para o surfe nos próximos anos é grande, e será necessário que novas pesquisas lancem luz sobre esse tema que já está impactando o chamado “surfe moderno”.  

Referências bibliográficas

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARAES, P. C. D.; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões e Debates, v. 68, p. 55-76, 2020.

HELAL, Ronaldo. O Que é Sociologia do Esporte. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HELAL, Ronaldo; Costa, Leda Maria. Sociologia do Esporte: temas, pressupostos e situação do campo. In: Rita de Cássia Fazzi; Jair Araújo de Lima (Orgs.). Campos das Ciências Sociais. Figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal. 1ed. Petrópolis: Vozes, 2020.

LORCK, Carlos K. Surfe: deslizando sobre as ondas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1980.

SANTOS, I. S. C. Mercantilização do futebol e movimentos de resistência dos torcedores: histórico, abordagens e experiências brasileiras. Esporte e Sociedade, v. 11, p. 1-18, 2016.

SANTOS, IRLAN SIMÕES DA CRUZ; SANTOS, ANDERSON DAVID GOMES DOS. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 9, p. 246-261, 2018.


[1] Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Surfe (Ibrasurfe), no Brasil, o esporte movimenta R$ 7 bilhões ao ano em roupas, pranchas e acessórios, e tem por volta de 3 milhões de praticantes.

[2] Tradução nossa: “The biggest break in surf park innovation”.

[3] Após meses de indefinições, a organização dos próximos Jogos descartou o modo artificial por questões logísticas e confirmou a disputa em Chiba, litoral que fica a 60 quilômetros de Tóquio, mesmo com os riscos climáticos de possíveis atrasos e adiamento de baterias. Porém, a piscina é uma possibilidade real para a Olimpíada de Paris, em 2024.

[4] “Após ataque de tubarão, WSL anuncia que feminino mudará de local no Havaí; Pipe é uma opção”.

[5] Na multipropriedade você se torna dono de uma fração do imóvel, detém escritura pública e paga supostamente apenas pelo tempo que utiliza.


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Os cinco lutadores da foto: peronismo, esporte e diplomacia

Por César R. Torres* y David M. K. Sheinin **

No dia 23 de maio de 1954, um ano e quatro meses antes do golpe de estado que derrubaria Juan Domingo Perón, o jornal havanês Diario de la Marina publicou uma foto da equipe argentina de luta em sua chegada a Tóquio para participar do campeonato mundial desse esporte. A foto tinha sido tirada ates, já que o evento aconteceu entre os dias 22 e 25 de maio. Entre os quinze países participantes, a Argentina era o único latino-americano. Talvez esse tenha sido o motivo, junto a seu excelente desempenho nos primeiros Jogos Panamericanos organizados pelo peronismo em Buenos Aires três anos antes, pelo qual o Diario de la Marina incluíra a fotografia da equipe argentina. Essa mostrava os cinco integrantes – elegantemente vestidos – junto ao avião no qual haviam chegado à Tóquio. A imagem foi localizada na parte superior de uma página de esporte e ocupava três das oito colunas. Qualquer que tenha sido o motivo para publicá-la ali, a foto projetava vários eixos da reconfiguração de significados desportivos e cidadãos promovidos por Perón durante a década em que governou e que cimentaram alguns traços da Argentina contemporânea.

Os cinco lutadores da fotografia marcaram a interseção de vários temas chaves no desenvolvimento e na promoção da argentinidade sob o peronismo. Entretanto, dois desses lutadores, Omar Blebel, um argentino de ascendência árabe, e León Genuth, um argentino judeu, o fizeram de forma ainda mais evidente que os destacados Juan Rolón e Alberto Longarela, supostamente de origem espanhola e italiana, respectivamente. A presença de Zdzislaw Pielach no grupo de lutadores que viajou a Tóquio também é significativa. Ainda que dele se saiba muito pouco, pode-se especular que era de origem polaca.

Blebel e Genuth, além de Pielach, simbolizam o reconhecimento e a inclusão de identidades até então marginalizadas da polis nacional. Segundo o historiador Raanan Rein, diferentemente de outros regimes políticos, o peronismo legitimou os cidadãos de comunidades étnicas, raciais e/ou religiosas minoritárias. Pela primeira vez na Argentina, Perón estabeleceu que era compatível para os cidadãos serem leais ao projeto argentino (e peronista) e manterem fortes laços com suas comunidades de ascendência. As comunidades judaica e árabe, entre outras, formaram grupos peronistas no reconhecimento de tamanha mudança sociopolítica e expressaram sua identidade argentina (e peronista) de novas maneiras. Um exemplo é a presença sem precedentes de membros da comunidade árabe nas instituições da sociedade civil do norte do país. Blebel e Genuth, assim como os outros três lutadores, chegaram ao auge de suas carreiras desportivas nesse contexto de crescente inclusão e reconhecimento e no marco da forte associação entre o peronismo e o esporte.

Fonte: Imagem retirada do site El Furgón

No fomento do esporte de todo nível – desde clubes de bairro até os Jogos Panamericanos de 1951 –, assim como no interesse de Perón em atletas de destaque, como o boxeador José María Gatica, e no apoio de Evita ao “obrero” Club Atlético Banfield no campeonato de futebol de 1951, e em muitas outras circunstâncias, o peronismo reconheceu a importância do esporte para promover a ideia de uma Argentina forte, sã e peronista a nível nacional e internacional. Sem militância política aparente, com seus triunfos desportivos, Blebel e Genuth representavam esse novo país. Ambos ganharam medalhas de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, enquanto a equipe argentina terminou a competição com quatro medalhas de ouro e oito no total. Blebel e Genuth se transformaram em visíveis representantes da integração do argentino judeu e do argentino árabe à nação imaginada por Perón.

Genuth nasceu na província de Entre Ríos em 1931 e se formou como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da Cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente e em 1850 competiu na terceira Macabeada em Israel, ganhando duas medalhas de ouro, que dedicou a Perón. De volta à Argentina, Perón lhe entregou um troféu, não por ser um campeão judeu, mas por ser um campeão argentino em Israel. No ano seguinte de seu triunfo nos Jogos Panamericanos de 1951, se classificou em sexto lugar nos Jogos Olímpicos de Helsinque. Os meios de comunicação anunciaram as conquistas internacionais de Genuth “como triunfos argentinos”, solidificando sua integração à nação. Em 1953, ele competiu na quarta Macabeada em Israel, conquistando novamente duas medalhas de ouro. Naquele ano, o semanário Mundo Deportivo ressaltou “a grande qualidade deste lutador argentino e ratifica também o alto nível alcançado por nossa luta”. Segundo esse semanário, Genuth encabeçava o que considerava uma grande recuperação da luta nacional.

Ainda que Blebel, nascido na província de Santa Fe, fosse nove anos mais velho que Genuth, ele também fazia parte dessa recuperação. Participou dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, e nos de Helsinque, em 1952, classificando-se em décimo terceiro e décimo quarto lugar, respectivamente. Antes de ganhar a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, Blebel recebeu uma carta, bem como todos os membros da delegação argentina, na qual o presidente da Confederação Argentina de Desportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), Rodolfo Valenzuela, dizia: “todo o país tem depositado sua fé no seu comprovado espírito de desportista nato, como corresponde a um verdadeiro argentino. Creem em ti como desportista. Mas deve crer, convencer-se intimamente, que és um patriota”. Valenzuela acrescentou, depois de mencionar a obra de Evita e de sua fundação em prol da preparação da delegação argentina, que “todos eles [..] merecem que você, amigo desportista, represente um argentino nos Jogos, se sinta identificado com a causa comum”. Depois do evento, o Mundo Deportivo ressaltou que Blebel “era uma das esperanças de nossa equipe” e que “fez honra à confiança”. Assim, esse lutador argentino árabe era plenamente integrado à nação e ao peronismo. O semanário El Gráfico anunciou no mês anterior ao campeonato mundial em Tóquio que “se a luta teve progresso foi precisamente por esse escasso contato internacional que seus praticantes tiveram por não mais que cinco anos”. Era um reconhecimento oblíquo a Blebel, a Genuth e ao resto da equipe de luta, assim como ao peronismo e sua política desportiva.

Perón considerava que o esporte e os atletas podiam disseminar internacionalmente a imagem e as conquistas de sua nova Argentina. Nesse sentido, a revista Olimpia, publicada pela CADCOA, afirmou em 1954: “quando uma delegação desportiva viaja para o exterior, automaticamente se convertem em embaixadores com placet[1] popular” e acrescentou que os atletas “vêm para robustecer o trabalho diplomático que desenvolviam os diplomatas de carreira”.  A união da diplomacia tradicional e do esporte, prosseguia a revista, “conduzem a uma só meta: fazer sobressair o nome da Pátria para além de suas fronteiras físicas”. Dessa maneira, a equipe argentina que viajou à Tóquio naquele ano para o campeonato mundial constituiu uma embaixada desportiva argentina (e peronista). Antes de sua partida, El Gráfico argumentou que se podia estar certo de que “a equipe de lutadores argentinos […] é superior em experiência e qualidade a todos aqueles que até o momento defenderam nossas cores em lonas de outras terras. São de se esperar os acontecimentos”.

Os acontecimentos não foram favoráveis desportivamente. Em Tóquio, os lutadores argentinos foram superados pelos representantes das potências mundiais desse esporte. De todo modo, a viagem serviu como preparação para os Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1955, onde Genuth e Blebel ratificariam sua qualidade com medalhas de ouro. Longarela também conquistaria um ouro e Rolón uma prata. Pielach não representou a Argentina nesse evento. Para além do benefício desportivo, a presença argentina em Tóquio, como demonstra a fotografia publicado pelo Diario de la Marina, projetou a imagem, nas palavras de Rein, da legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (raciais e/ou religiosos)” e do esporte como prática integradora privilegiada. Os cinco lutadores argentinos, mas fundamentalmente Blebel e Genuth, corporizavam a ideia de uma Argentina inclusiva e respeitosa da diversidade de sua cidadania. Ou seja, nessa foto podemos perceber a base do que tempos depois seria a Argentina multicultural contemporânea. O fato de ter sido publicado em um jornal de Havana foi uma pequena conquista da diplomacia desportiva peronista.

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de abril de 2021.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

** Doutor em história. Docente na Universidade de Trent.


[1] Termo que designa a aprovação que um Governo concede a uma determinada pessoa para exercer, em seu território, a representação diplomática de outro país.

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Direitos das atletas gestantes: o caso Allyson Felix e a relação com patrocinadores

A velocista norte-americana Allyson Felix é detentora de vinte e cinco medalhas entre Jogos Olímpicos e Campeonatos Mundiais de Atletismo, sendo dezoito delas de ouro – os dois últimos conquistados nas Olimpíadas do Rio em 2016. Competidora dos 100, 200 e 400 m raso, ela é a única atleta do mundo a somar seis medalhas de ouro no atletismo olímpico. Em sua maior especialidade, os 200 m rasos, Felix tem uma medalha de ouro olímpica e três como campeã mundial, sendo 21,69 segundos sua melhor marca nessa distância – sexto melhor tempo da prova na história, feito que inclusive a coloca como a quarta velocista mais rápida do mundo. Em 2018, Alysson Felix decidiu ser mãe. Sua filha Camryn nasceu em novembro, de um parto prematuro de 32 semanas. No mês de maio daquele ano, a atleta se juntou às denúncias de discriminação feitas por outras desportistas, o que culminou em um texto de grande repercussão publicado no The New York Times, no qual Felix relatava que a Nike, sua então patrocinadora, reduziu em cerca de 70% os valores de seu contrato de patrocínio após o nascimento de Camryn.

Durante a gravidez, a atleta ainda pediu garantias à patrocinadora de que não seria penalizada caso rendesse abaixo de seu nível nos meses anteriores e posteriores ao parto. A princípio, a resposta da empresa foi negativa. Porém, cerca de três meses após ser exposta no jornal, a Nike escreveu à atleta para anunciar que não rescindiria o contrato e nem reduziria os valores durante os dezoito meses de gestação e maternidade, sendo oito deles anteriores ao parto. Dez meses após o nascimento da filha, Alysson Felix integrou o revezamento 4×400 misto composto de duas mulheres e dois homens, no Mundial de Atletismo em Doha, de 2019. Na ocasião, a equipe de Felix ganhou a medalha de ouro e ainda estabeleceu o recorde mundial da prova. Essa foi a décima segunda medalha de ouro de Alysson Felix em mundiais de Atletismo, superando o recorde do jamaicano Usain Bolt, detentor de onze ouros na competição. O feito foi marcante não só por se tratar de uma mulher batendo o recorde de um homem, mas, sobretudo, porque contradiz o argumento de empresas patrocinadoras que insinuam o suposto baixo rendimento de atletas que retornam da licença maternidade.

Legenda: Allyson Felix e a filha Camryn em 2019/Reprodução Instagram @af85

Sabemos que o mercado de trabalho para as mulheres, qualquer que seja a profissão, ainda é terreno fértil para práticas discriminatórias e relações abusivas pautadas pela hierarquia de gênero. Prova disso é que, mesmo ocupando posições correlatas às dos homens, as mulheres recebem salários inferiores em todas as ocupações, segundo pesquisa divulgada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa mentalidade se deve ao machismo estrutural no qual o papel do homem é supervalorizado, o que no mundo do trabalho é ilustrado pela falsa acepção de que a mulher produziria menos e, portanto, contribuiria menos para uma lógica econômica de mercado. Para as que trabalham no meio esportivo, esse cenário tende a ser ainda mais duro, tanto é que o Brasil – justamente a nação que ostenta o imaginário de país do futebol, precisou esperar até setembro de 2020 para que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) finalmente anunciasse a equiparação de valores de premiações e diárias entre a modalidade futebolística masculina e feminina.

Embora nos últimos anos os espaços midiáticos – em especial os alternativos, isto é, que não fazem parte da imprensa hegemônica – venham subvertendo essa lógica do machismo estrutural em diversas esferas da sociedade (que não só o esporte), é impossível não retomar as previsões da pesquisadora Miriam Adelman (2006) já no início do século, em relação ao papel da mídia na luta de gênero:

Como a filósofa feminista Susan Bordo (1994) nos adverte, estamos ainda longe de um momento “pós-gênero”, as práticas subversivas ainda não se afirmam como majoritárias, e a cultura pós-moderna, atrelada ainda aos discursos hegemônicos disseminados poderosamente nos meios de comunicação de massas, produz a cada momento novas formas de disciplinar os corpos e os sujeitos, segundo critérios dicotômicos e desiguais sobre o que pode/deve ser e fazer, uma mulher, ou um homem. (ADELMAN, 2006, p. 13).

Adelman (2006) ainda traz para o debate a escritora feminista Susan Brownmiller e sua definição de feminilidade como “estética da limitação”, sob a qual se resumem os impulsos dominantes de vários séculos de cultura moderna. Nessa ótica, entende-se por que o esporte é terreno de luta sobre o que pode ser ou fazer uma mulher, tendo em vista que as práticas esportivas – pelo menos nas modalidades mais competitivas – “desafiam os limites” das habilidades corporais. “Para as mulheres, torna-se uma disputa por acesso a espaços, legitimidade, e recursos materiais e simbólicos, que encena de forma muito sensível, a luta maior para ter controle sobre o próprio corpo, e sobre a vida.” (ADELMAN, 2006, pp. 13/14). Nessa luta, naturalmente, inclui-se o direito de decidir-se ou não pela maternidade.

Foi justamente por priorizar o esforço corporal exigido pelo atletismo, que a empresa de material esportivo Nike não hesitou ao reduzir em cerca de 70% os valores de patrocínio concedidos à velocista Allyson Felix após a atleta anunciar sua gravidez. Em um artigo publicado no jornal The New York Times no dia 22 maio de 2019, Felix se posicionou a respeito, acusando a patrocinadora Nike de discriminar atletas que tiram licença maternidade: “Se eu, uma das atletas mais comercializadas da Nike, não podia conseguir essas proteções, quem poderia?”. Ela não foi a primeira atleta a denunciar publicamente a marca por reduzir contratos de patrocínio de atletas logo depois de se tornarem mães:

Na semana passada, duas de minhas ex-companheiras de equipe da Nike, as corredoras olímpicas Alysia Montaño e Kara Goucher, heroicamente quebraram seus acordos de sigilo com a empresa para compartilhar seus relatos da gravidez em uma investigação do The New York Times. Elas contaram histórias que nós, atletas, sabemos que são verdadeiras, mas temos medo de contar publicamente: se tivermos filhos, corremos o risco de cortes nos salários de nossos patrocinadores durante a gravidez e depois. É um exemplo de uma indústria esportiva onde as regras ainda são feitas principalmente para e por homens (Allyson Felix – The New York Times).

Legenda: Alysia Montaño em 2014, competindo no Campeonato de Atletismo dos Estados Unidos em sua 34ª semana de gravidez/Reprodução Instagram @alysiamontano

Allyson Felix decidiu ser mãe em 2018, mesmo ciente do que isso poderia acarretar para a sua carreira. Nessa mesma época, ela estava negociando a renovação de seu contrato com a Nike, que havia terminado em dezembro de 2017. Embora seja uma das atletas mais vitoriosas já patrocinadas pela marca, Felix não apenas teve seu contrato de patrocínio significativamente reduzido pela Nike, mas, também, recebeu uma negativa quando solicitou à empresa que não a punisse caso rendesse abaixo do seu melhor desempenho nos meses anteriores ao parto.

Além disso, Felix alega em seu artigo que foi pressionada pela empresa para voltar à forma o mais rapidamente possível após o nascimento da filha em novembro de 2018, mesmo tendo passado por uma cesariana de emergência quando completou 32 semanas de gravidez e teve sua vida (e a da sua bebê) ameaçada por uma pré-eclâmpsia: “Apesar de todas as minhas vitórias, a Nike queria me pagar 70% menos do que antes. Se é isso que eles acham que valho agora, eu aceito. O que não estou disposta a aceitar é o status quo duradouro em torno da maternidade.”. Ainda no mesmo artigo, Felix afirma que um dos fatores decisivos para ela assinar com a empresa há quase dez anos foi, ironicamente, o que pensou ser um dos princípios fundamentais da empresa: a igualdade de gênero:

Eu poderia ter assinado em outro lugar por mais dinheiro. […] Mas quando me encontrei com a liderança da empresa em 2010, uma mulher me contou sobre uma iniciativa patrocinada pela Nike chamada Girl Effect, baseada na crença de que, quando as meninas têm oportunidades, elas são capazes de tirar seus países da pobreza. Ao ingressar na Nike, ela disse, eu poderia ajudar a empoderar mulheres. Ela me afirmou que a Nike acreditava em mulheres e meninas, e eu acreditei nela. Isso também explica por que minha experiência recente foi tão dolorosa (Allyson Felix – The New York Times).

A ironia da pseudo-política não-discriminatória da Nike também apareceu no relato da atleta Alysia Montaño para o mesmo jornal: “A Nike me disse para ter sonhos loucos, até que eu quis ter um bebê.”. A atleta se referia à uma campanha publicitária da empresa, “Dream Crazier”, lançada em fevereiro de 2019 na cerimônia do Oscar e narrada pela tenista norte-americana Serena Williams. Com tom de voz enérgico, Williams narra as discriminações diversas as quais atletas mulheres estão sujeitas apenas por tentarem acreditar em seus sonhos:

Se demonstramos emoção, somos chamadas de dramáticas. Se queremos jogar contra os homens, somos loucas. E se sonharmos com oportunidades iguais, estamos delirando. Quando lutamos pelo que é justo, somos desequilibradas. Quando estamos muito bem, há algo errado com a gente. E se ficamos com raiva, somos histéricas, irracionais ou simplesmente doidas. […] Se eles querem te chamar de ‘louca’, tudo bem, mas mostre a eles o que as loucas são capazes de fazer (Trecho do comercial Dream Crazier, da Nike, narrado por Serena Williams).

O problema do anúncio feminista da Nike é que ele incorre na contradição salientada pelas atletas no The New York Times: ao mesmo tempo em que a empresa lança uma série de campanhas ativistas denominada “Just Do It” (“Simplesmente faça”), ela também reduz o patrocínio de esportistas gestantes e pune quem tira licença-maternidade depois de apostar na “loucura” de ser mãe enquanto se está no auge da carreira. Diante dos relatos expostos no jornal nova-iorquino, a Nike respondeu que colocaria em andamento uma nova política de salários-padrão às atletas durante suas gestações. Cerca de três meses depois, formalizou seu compromisso em um e-mail assinado por John Slusher, vice-presidente de Marketing global da marca, e endereçado à Allyson Felix. No comunicado, a Nike afirmou que não mais rescindiria nem aplicaria reduções econômicas em contratos de atletas gestantes durante os dezoito meses de gravidez e maternidade.

Contudo, em julho de 2019 – cerca de um mês antes de receber o comunicado oficial da empresa e após voltar a competir pela primeira vez depois do parto – Felix encerrou as negociações com a Nike e assinou um contrato com a Athleta, uma marca de roupas esportivas que nunca havia patrocinado atletas – homens ou mulheres. Pode-se dizer que Allyson Felix também “formalizou” seu rendimento pós-parto ao conquistar, em outubro daquele mesmo ano, sua décima segunda medalha de ouro em mundiais. O feito foi no revezamento 4×400 metros com a equipe dos Estados Unidos no Mundial de Doha, no Qatar. Além de ter sido campeã do torneio, Felix ainda bateu o recorde do jamaicano Usain Bolt – registro que se mantinha desde 2013 quando o velocista conquistou seu décimo primeiro ouro.

Legenda da foto: Allyson Felix no Mundial de Doha em 2019/Getty Images

Essa vitória foi bastante simbólica para as atletas mulheres – e para o Esporte em geral – não apenas porque se trata de uma mulher batendo o recorde de um homem, mas, sobretudo, porque o feito se deu apenas 10 meses após Allyson Felix ter dado a luz à filha Camryn em meio ao imbróglio da queda de seu patrocínio com a Nike. Na ocasião em que recebeu o e-mail onde a empresa anunciava sua nova política contratual não-discriminatória, Felix publicou a resposta em sua conta pessoal no Instagram, demonstrando-se realizada com a decisão da Nike em dar proteção às atletas mulheres as quais patrocina, que já não serão penalizadas economicamente por decidirem ter filhos. Na postagem, Felix conclui: “Nossas vozes têm poder. […] Agradeço a John Slusher e Mark Parker por sua liderança e seu desejo de guiar a Nike como empresa que acha que somos mais do que atletas. Obrigada às marcas que já assumiram esse compromisso. Quem será o próximo?”.

No âmbito trabalhista, a ausência de profissionalização e, consequentemente, da garantia de direitos previdenciários como a licença-maternidade, faz com que as desportistas precisem pensar duas (ou centenas de vezes) antes de decidir ter um filho. Ao escolherem tê-lo, ainda correm o risco de estarem submetidas a cláusulas de redução de ganhos por perda de performance nos contratos de exclusividade com patrocinadores, a exemplo da norte-americana Allyson Felix. Não se sabe, por exemplo, de nenhum caso relevante em que um atleta homem teve o patrocínio diminuído em função da paternidade.

Quando Felix competiu no Mundial de Doha dez meses após ter dado luz à sua filha Camryn, sagrando-se campeã e ainda batendo o recorde do consagrado velocista jamaicano Usain Bolt, muitos jornais estamparam a vitória da atleta na primeira página de seus cadernos esportivos. Poucos, porém, contextualizaram o simbolismo que aquela conquista trazia em termos de representatividade, visibilidade, reconhecimento e, sobretudo, direito da mulher ao próprio corpo. Considerando o esporte como um “espaço de transgressão, empoderamento, e/ou disciplinamento patriarcal das mulheres” (ADELMAN, 2006, p. 11) e o papel social do jornalismo como um dos vetores da igualdade de gênero, convém finalizar este texto retomando um trecho de Allyson Felix na denúncia que fez ao The New York Times, a qual felizmente culminou em significativas alterações contratuais na política de patrocínio esportivo da Nike: “Sempre soube que me expressar poderia prejudicar minha carreira. Então tentei antecipar o que as pessoas esperam de minhas conquistas e não fazer isso. Eu não gosto de decepcionar as pessoas. Mas não se pode mudar nada ficando em silêncio.”.

*Uma versão mais completa deste texto integra o Simpósio Temático “Educação de corpos, gêneros e sexualidades nas práticas esportivas e de lazer: entre resistências e reificações” da edição 2020 do Seminário Internacional Fazendo Gênero. Além disso, a versão completa também foi apresentada à disciplina Debates Contemporâneos em Estudos Feministas e de Gênero, ministrada remotamente no segundo semestre de 2020, pelo Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da Universidade Federal de Santa Catarina, sob supervisão das professoras Miriam Pillar Grossi, Caroline Soares de Almeida, Claudia Lazcano, Marie Leal Lozano e Vera Gasparetto.

Referências bibliográficas

ADELMAN, Miriam. Mulheres no Esporte: Corporalidades e Subjetividades. Revista Movimento, Porto Alegre, v.12, n. 01, p. 11- 29, janeiro/abril de 2006.

Artigos

Lutador e Peronista


Por Cesar Torres* e David M. K. Sheinin**

Nascido em 1976 no bairro portenho de La Paternal, F relata uma experiência muito comum na comunidade judaica argentina. Seu pai morreu quando tinha oito anos. Entretanto, foi na vida adulta que tomou conhecimento de um segredo profundo do qual seus familiares haviam falado apenas em sussurros: seu pai, um operário industrial, havia sido peronista.

Não foi simplesmente como se seu pai tivesse se “equivocado” como seguidor judeu de Juan Domingo Perón, mas sim que sua identidade peronista envergonhava aos familiares. Este trabalhador industrial representou a antítese à ascensão da classe média judaico-portenha. A história que F contou corresponde com a imagem do jornalista Jacobo Timerman no livro Timerman: el periodista que quiso ser parte del poder. A autora, Graciela Mochkofsky, conecta a identidade judaica de Timerman (e de outros judeus argentinos) à modernidade do século XX, associada com os ideais liberais do século anterior, originados na França napoleônica, e aos princípios de cidadania completa e livre para os judeus na Europa.

Em seu livro Los muchachos judíos peronistas, o historiador Raanan Rein demonstra que a distância entre os judeus e o peronismo era um mito. Enquanto muitas pessoas ainda associam Perón com o antissemitismo, antes de Rein não havia sido apresentado de forma tão contundente que dentro da comunidade judaica houve um apoio notável a Perón. Levando em conta a insistente associação do peronismo com a identidade argentina, o mito do distanciamento entre a comunidade judaica e o peronismo constata o tom preconceituoso quando ela é apresentada como estrangeira. Los muchachos judíos peronistas explica que o peronismo é também parte da história da comunidade judaica argentina no século XX. Perón declarou explicitamente que a etnia judaica – assim como a árabe ou a japonesa – não diminuiria a identidade argentina. Ao contrário, o peronismo representou o primeiro movimento político argentino que afirmou a argentinidade das diferentes comunidades étnicas e religiosas. Para muitos argentinos judeus, o peronismo ofereceu uma entrada livre de dúvidas à nova sociedade argentina – a Nova Argentina de Perón na fórmula partidária – forjada a partir dos anos quarenta.

Fonte: eraseperonia.com

O esporte peronista

Perón praticou todo tipo de esporte, desde boxe à esqui, desde esgrima ao motociclismo. Mais do que reforçar sua própria masculinidade com o cultivo de uma imagem pública de atleta vigoroso, Perón chegou à presidência com uma visão de inclusão social que incorporava o esporte para beneficiar as classes populares. Os dez anos peronistas foram, segundo o antropólogo Eduardo Archetti, “exemplares e não houve, posteriormente, outras intenções sistemáticas de vincular o esporte com a nação através de políticas estatais claras e articuladas”. Além da participação de milhares de jovens nos Jogos Evita e da organização de espetáculos desportivos como os primeiros Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 e da construção de infraestrutura esportiva como o Autódromo Municipal, Perón apoiou a muitos atletas, desde boxeadores de bairros até automobilistas famosos. O boxeador José María Gatica, por exemplo, era o favorito de Perón. Seu laço com o peronismo ia mais além desse apoio, Gatica se autoidentificou com o movimento e a noção de que o público o percebia como peronista marcou um pertencimento social e cultural que excedia a política que o movimento promovia. Como lutador, como trabalhador e como uma pessoa que buscava a vida bem-sucedida, Gatica representava a esperança que a classe trabalhadora associava com a Argentina do futuro sob a tutela do peronismo. Da mesma forma, quando Evita Perón apoiou a equipe do Club Atlético Banfield no campeonato de futebol masculino da primeira divisão de 1951, essas mesmas qualidades foram reconhecidas em jogadores pouco conhecidos do subúrbio de Buenos Aires: lutadores, trabalhadores e batalhadores.

León Genuth um lutador judeu argentino que se destacou a nível nacional e interacional durante o peronismo exemplificou as qualidades citadas. Relembrando seus treinamentos do começo dos anos cinquenta, disse que “convivia com muito entusiasmo e sacrifício”. Manifestou, por exemplo, que “se a eletricidade fosse cortada, sem acovardar-se, as velas eram colocadas ao redor dos tapetes nas cadeiras, para não parar a atividade e continuar o treinamento; também, na maioria das vezes, tínhamos que tomar banho frio em pleno inverno”; Genuth admitiu que “sempre tomei como meu o lema macabeu ‘¡Jazaak Veematz!’ (seja forte e valente), que guiou minha vida e minha atividade desportiva”. Essa dedicação estava em consonância com a ideia que Perón tinha do esporte. Em uma carta enviada aos desportistas argentinos que participariam nos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951, grupo do qual Genuth fazia parte, Perón expressou aos atletas que “defender as cores sagradas da nossa bandeira em um evento esportivo pressupõe a mesma honra e o mesmo sacrifício que fazê-lo em qualquer outra ocasião. A pátria se defende de uma só maneira: com toda a alma, com toda a vida”. E completou: “lembre companheiro que nessa defesa você é a síntese de todo um povo”, para salientar que “nos esportes, como em todas as coisas da vida, se vence com a cabeça, se chega com o coração e se chega ainda mais longe com a vontade tenaz e inflexível de vencer”.

A carreira esportiva de León Genuth

Ainda que tenha nascido na Província de Entre Rios em 1931, Genuth se desenvolveu como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente tanto no estilo livre como no greco-romano. Em 1949, ainda tendo idade da categoria juvenil, foi campeão argentino de peso médio em ambos os estilos, título que manteve por vários anos. Por esse rendimento foi selecionado para competir no ano seguinte na Terceira Macabeada, a primeira celebrada no Estado de Israel, estabelecido em 1948. Era a estreia argentina nesse festival, que promove as tradições, a identidade e a solidariedade judaica através do esporte. Genuth obteve o primeiro lugar em seu peso, em ambos estilos. De acordo com o testemunho do lutador, Pablo Manguel, dirigente da Organização Israelita Argentina, e embaixador argentino em Israel entre 1949 e 1954, dedicou seus triunfos sobre o tatame a Perón, quem o havia designado para o cargo. O historiador Ignacio Klich afirma que Manguel, o primeiro latino-americano com cargo de embaixador naquele país, fazia parte “de um pequeno grupo de judeus peronistas”.

Na volta à Argentina, Genuth conheceu Perón através de Rodolfo Valenzuela, presidente da Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino. Perón entregou-lhe um troféu e perguntou se o lutador estava concentrado em Ezeia, onde havia sido erguido um centro de treinamento descrito como “um laboratório do triunfo”, com o plantel que competiria nos Jogos Desportivos Pan-americanos no começo de 1951. Como não fazia parte desse plantel, Valenzuela disse-lhe que passaria umas férias com a equipe de luta. Genuth respondeu que não lhe interessavam as férias, mas sim ter a possibilidade de participar das provas seletivas que determinariam a confirmação final da equipe. Foi lhe dada a permissão, Genuth foi selecionado e ganhou a medalha de ouro no estilo livre na divisão de 79kg. No ano seguinte, Genuth foi membro da delegação argentina nos Jogos Olímpicos de Helsinki, onde obteve o sexto lugar no mesmo estilo e divisão. Seu último combate foi em 22 de julho, quatro dias antes do falecimento de Evita Perón. El Gráfico anunciou “que a delegação argentina recebeu um duro golpe com a notícia”. Já o Mundo Deportivo informou que “em Helsinki se chorou a porta-bandeira dos humildes” e que aqueles “dias nebulosos e tristes, foram desconcertantes e angustiantes para os jovens integrantes da delegação argentina”.

Em 1953, Genuth competiu na Quarta Macabeada, organizada pela segunda vez em Israel, onde manteve os títulos obtidos em 1950. Da mesma maneira, nos segundos Jogos Desportivos Pan-americanos, organizados em 1955 na Cidade do México, Genuth defendeu com sucesso o título obtido em Buenos Aires quatro anos antes. Tudo indicava que tinha grandes chances de se destacar nos Jogos Olímpicos de 1956 que seriam realizados em Melbourne. O mesmo lutador recordou tempos depois que figurava em primeiro no ranking nacional para representar a Argentina no evento. Entretanto, a destituição de Perón pela ditadura civil-militar autodeterminada Revolução Libertadora, quase seis meses depois de sua volta do México, frustraria suas aspirações. Os líderes da Revolução Libertadora pretendiam expulsar o peronismo da vida nacional, incluindo o esporte. Para isso, formaram uma comissão que investigou supostas irregularidades no funcionamento das federações desportivas nacionais e atos considerados em violação ao código amador durante a década peronista. Desta maneira, foram suspendidos, por um processo irregular, arbitrário e vingativo, um grande número de dirigentes e atletas. Até outubro de 1956, Genuth figurava como membro da delegação que viajaria a Melbourne. Porém, a poucos dias de embarcar na viagem, foi excluído dela. Genuth explicou que “a desculpa foi que ao ter ganhado no ano anterior os Jogos Pan-americanos no México, teriam que investigar se (os melhores representantes de vários esportes) estavam competindo por regalias”. Segundo o jornalista Dante Panzeri, “de León Genuth não existiam provas de ter recebido a quarta parte de um carro dos que foram distribuídos aos campeões pan-americanos no México”. Mas, prosseguia Panzeri, quem apoiava, em suas palavras, a “Revolução que há mais de um ano pôs fim a uma longa noite da vida argentina”, como “(Alberto) Longarella (outro lutador que também havia ganhado uma medalha de ouro no México) declarou que teria repartido com pessoas entre as quais estava Genuth, e ali ele caiu”.

Para o historiador Roberto Baschetti, após a amarga provação, Genuth “foi para o exílio empurrado pelos ‘libertadores’”. Entre 1957 e 1959, Genuth trabalhou no México e nos Estados Unidos ensinando luta e em sua volta à Argentina assumiu o comando na Sociedade Hebraica Argentina. Em pouco tempo, a Federação Argentina de Luta o designou como treinador da seleção nacional, preparando equipes para vários eventos internacionais. Em 1967, Genuth foi contratado para desenvolver a luta livre no Peru, onde morou por dez anos. Ao retornar à Argentina, se encarregou da luta livre na Organização Hebraica Argentina Macabi, e a Federação Argentina de Luta o designou como treinador de todas as seleções nacionais.

Um lutador peronista

A vitoriosa carreira desportiva de Genuth, assim como seu final repentino, coincidiu com a década peronista. Dessa maneira, esteve marcada pelas diretrizes, políticas e dificuldades do governo de Perón. Genuth foi o desportista judeu argentino de maior relevância durante esse período e, talvez, um dos mais transcendentes da história nacional. Não se tem conhecimento de pronunciamentos públicos sobre sua posição a respeito do peronismo. Em relação a sua exclusão, pela Revolução Libertadora, da delegação que competiria nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956, Genuth declarou criticamente “que se afastou do amadorismo (e não seguiu competindo) por dar-se conta da politização do esporte”. Qualquer que tenha sido sua posição a respeito do peronismo, sua figura representou, nas palavras de Rein, a legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (e religiosos) no seu país” e a semelhança, por exemplo, entre ser um bom argentino e ser um bom judeu. A coincidência de sua visão de esporte com a de Perón não é surpreendente. É nesse sentido que Genuth pode considerar-se como um lutador peronista. Assim, foi símbolo da integração social promovida pelo peronismo sem ter que renunciar ao componente judaico de sua identidade. Com Genuth, e a partir do impulso do peronismo, os esportistas judeus passaram a formar parte da polis desportiva argentina. Uma crônica do Mundo Deportivo sobre o torneio de luta dos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 mencionava sua medalha de ouro e destacava sua atuação no ano anterior na Terceira Macabeada. A revista também ressaltava que, graças à destreza dos lutadores nacionais e ao estímulo do público, “a vitória geral foi nossa”. Genuth, um lutador argentino judeu peronista, era um deles.

Texto originalmente publicado no site Erase Una Vez En Peronia no dia 27 de janeiro de 2021.

* Cesar Torres Doutor em filosofia e história do deporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** David M. K. Sheinin Duotor em história. Docente ma Universidade de Trent.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo oitavo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo oitavo episódio é “Os 30 anos do livro O que é sociologia do esporte”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Fausto Amaro, recebemos Ronaldo Helal, autor da obra, coordenador do LEME e professor da UERJ.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo oitavo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Brasil, mostra tua cara“, composta por George Israel, Nilo Romero e Cazuza.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Convidado: Ronaldo Helal

Artigos

Ditadura, esporte e a aceitação do inaceitável

22 de junho de 1970, Jorge Curi descreve de forma magistral o último gol do
Brasil contra a Itália no estádio Jalisco que começa com os dribles de Clodoaldo e termina com o chute preciso do capitão Carlos Alberto. O gol metaforizava o que tornaria uma associação automática da seleção brasileira ao chamado futebol-arte. A Copa de 1970 também serviu para análises da exploração política do futebol pelo governo.

13 de outubro de 2020, André Marques narrava a partida das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. A vitória por 4 a 2 da seleção brasileira sobre o Peru teve uma repercussão menor frente a uma nota lida pelo locutor. A nota metaforizou a noção de que uma empresa estatal passa a ser confundida com uma empresa do governante.

Em 1970, antes do quarto gol, Curi destaca: “Quarenta e um minutos de luta. E vamos ter a palavra daqui a pouco de sua excelência, o presidente da república…bola entregue na direção de Clodoaldo, dribla um dribla dois…” A sutil menção ao então presidente, Emilio Garrastazu Médici, nem chega a citar seu nome. Com apenas cinco linhas de transmissão disponíveis para o país foi preciso fazer um pool entre as emissoras. O Grupo 1 ficou com Rádio Tupi, Rádio Clube de Pernambuco e Guarani de Belo Horizonte. O grupo 2 com a Continental, JB e Guaíba do Rio Grande do Sul. No grupo 3, a Rádio Globo, Nacional e Gaúcha revezaram seus locutores e comentaristas. No quarto grupo, as paulistas: Rádio Nacional, Band e Jovem Pan. No quinto grupo a Rádio Mauá e a Itatiaia de Belo Horizonte. Waldir Amaral e Jorge Curi dividiram a locução radiofônica onde cada um narrava um tempo. Interessante observar que a unificação das transmissões e sua abrangência nacional, produziram um discurso único na narrativa radiofônica e televisiva. A televisão se preparou para a transmissão como nunca havia feito. O Ministério das Comunicações negociou diretamente com a empresa
detentora dos direitos de transmissão e inicialmente o patrocinador seria único: a Caixa Econômica Federal. Com a instalação da estação via satélite de Itaboraí em 1969, os patrocinadores Esso, Gillete e Souza Cruz enxergaram o potencial da Copa do Mundo e pagaram o valor de 1 milhão de dólares (as três juntas) para “bancar” a transmissão televisiva. Assim, a Caixa repassou os direitos às três.

brasil.elpais.com

Usar de ferramentas do aparato estatal para enaltecer as figuras mandatárias é algo comum em ditaduras. Foi assim em 1970 e se repete em 2020. A confusão de governar para si e seus aliados, alimentando sua bolha cada vez mais raivosa e descolada da realidade, esquecendo-se dos demais brasileiros, resgata debates sobre os limites da ação de um governo para propaganda pessoal, o que é bem diferente da publicidade estatal.

No dia 13 de outubro de 2020, o secretário de Comunicação Fábio Wajngarten, em conjunto com o presidente Jair Bolsonaro, amparados no artigo 84 da lei Pelé, que obriga que o jogo da seleção seja transmitido em televisão aberta, pressionaram a CBF para comprar o direito de transmissão e televisionar, agradando inclusive os empresários acusados de bancar disparos em massa de Fake News que auxiliam na sustentabilidade do seu governo, que tinham placas de publicidade no estádio onde o jogo aconteceu. A CBF comprou e repassou à TV Brasil as imagens.

O “abraço” ao presidente estava inserido em uma nota, no mínimo constrangedora: “em nome da secretaria especial de Comunicação Social da Empresa Brasil de Comunicação e do secretário Fabio Wajngarten, agradecemos a CBF nas pessoas do presidente Rogério Caboclo, do secretário geral Walter Feldman e do diretor de mídia Eduardo Zambini e um abraço especial também ao presidente Jair Bolsonaro que está assistindo ao jogo.” Além da intervenção e da clara tentativa de exaltação da imagem do presidente, notamos que, comparando com a transmissão de 1970, nem mesmo na ditadura militar nos seus piores momentos foi tão incisiva em usar uma transmissão esportiva para exaltar a figura que ocupava o cargo de presidente.

Longe da interpretação que o futebol seria ópio do povo, momento em que observa-se seu uso claramente político que teria como objetivo principal de “driblar” a consciência da população, vamos destacar a compreensão do futebol e do esporte como um espaço de conflitos. O esporte e toda a sua força simbólica se torna mais do que um locus de tentativa de dominação (ópio do povo) ele é um palco de disputas constantes. Nesse espaço de conflitos, procura-se também controlar as vozes legitimadas a falar
nessa esfera, amedrontando quem fala “contra” forças que controlam o esporte como a CBF e mais recentemente a CBV, por exemplo. Casos de atletas atacados em suas carreiras por disputar esse espaço são notórios, com destaque para Afonsinho que nos anos 1970 lutava pelo fim da lei do passe.

extra.globo.com

Recentemente Carol Solberg foi julgada por gritar: “Fora Bolsonaro”. Mas o que esse caso tem a ver com a bajulação de uma emissora estatal ao presidente? Tudo. Esses dois casos indicam como passamos a aceitar o inaceitável. O primeiro nível é parear jogadores que apoiaram o presidente a Carol, como se ambos fossem “manifestações democráticas”. Não, elas não estão na mesma árvore da democracia, que pode e deve ter diferentes galhos, mas a raiz deve se pautar em valores absolutamente necessários para operarmos a sociedade. Raízes como a defesa intransigente da dignidade humana, atacada constantemente pelos apoiadores do presidente com o slogan “bandido bom é bandido morto” e exaltação a torturadores. Raízes como a defesa das riquezas minerais e da terra como fonte de vida do mundo, que estão sendo destruídas e queimadas. Raízes como a defesa da vida que foi relativizada com a pandemia, afinal “todo mundo morre um dia”.

Não caberiam neste texto todos os exemplos de que a linha necessária para se manter a integridade humana vem sendo ultrapassada desde 17 de abril de 2016 com um voto em homenagem a um torturador e que se intensificou com o início do mandato do atual presidente. Uma vez ultrapassada, e ao banalizarmos esse rompimento, não conseguimos mais recolocar esse limite, mergulhando nossa sociedade no caos, no ódio, na mentira, nas mortes, nos ataques as minorias e no uso do bem público para fins privados. Rompeu-se o que não deveria ter sido rompido. Carol e seu grito tentam alertar que estamos indo para o precipício e foi culpada por isso. É falsa a questão de que todos devem se expressar livremente. Incitar violência não é liberdade de expressão. Ferir a dignidade humana não é liberdade de expressão. Apoiar esse governo não é um “ato democrático”, é um ato de destruição da democracia e de todas as raízes fundamentais para vivermos em sociedade. Devemos ser intolerantes com os intolerantes, como Karl Popper alertou.

Entretanto, o que fizemos foi normalizar este governo, assim como naturalizou-se regimes totalitários como o nazismo. Enquanto o atual governo entrega tudo ao mercado, os grandes jornais criam essas falsas questões, apoiam essas entregas e aceitam o inaceitável. Nesse consórcio, a TV Brasil foi mais clara e sincera na bajulação. Uma bajulação no nível de seus apoiadores que ao lerem este texto vão atacar em massa, mostrando o quanto são prejudiciais à sociedade. Enquanto para uns as instituições seguem funcionando e naturalizam a barbárie, o esporte se fortalece como este local de disputas. O local onde se combate. Como vimos nos EUA, país que é exaltado como régua moral deste governo, nas manifestações “Black Lives Matter” e em depoimentos como o do campeão da NBA Lebron James. Aqui Lebron e cia seriam punidos pelo STJD? Aqui as vozes que se levantam são censuradas. As que bajulam relativizadas. Aqui seguimos uma trágica evolução da mera menção do presidente em 1970 para um “abraço” em 2020. O que virá se continuarmos aceitando tudo? Que o esporte siga sendo nosso campo de batalha, que mais Carols tenham voz e que não aceitemos o inaceitável.

folha.uol.com.br
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Já está no ar o vigésimo quinto episódio do Passes & Impasses

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O tema do nosso vigésimo quinto episódio é “Esportes Paralímpicos”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Carol Fontenelle, recebemos José Carlos Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/ Bauru), e Maurício Dumbo, atleta de futebol de 5, campeão paralímpico.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo quinto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi audiodescrição do clipe final dos Jogos Paralímpicos 2016.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

  • Linha de passe [filme]
  • Her [filme]
  • Special [série]

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Carol Fontenelle e Letícia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Carol Fontenelle
Convidados: José Carlos Marques e Maurício Dumbo.

Artigos

O que escolher?

Não é nenhuma novidade que a quantidade de informações a que estamos expostos atualmente não encontra precedentes na história humana. A tendência, aliás, é que isso se intensifique nos próximos anos. No mundo dos esportes, isso talvez seja mais facilmente perceptível do que em outras esferas sociais. São variados os sites de notícia, apps, programas de TV, jogos ao vivo, fantasy games, podcasts, canais no Youtube, perfis no Insta dedicados ao tema. Enfim, trata-se de uma infinidade de conteúdos à disposição de quem possui tempo para acessá-los e os dispositivos e assinaturas necessários para poder consumir todos ou alguns desses produtos. Sim, porque nada é totalmente de graça no século XXI. Boa parte dos conteúdos ao vivo de esporte está pulverizada por cerca de meia dúzia de empresas de comunicação. Um bom exercício de imaginação é supor o que Umberto Eco teria a nos dizer sobre isso – se, na década de 1980, ele já se queixava da “falação esportiva”, qual termo cunharia hoje para descrever o que vivemos?

Nos anos 1980, crescia a quantidade de programas de debate esportivo na televisão, comentando os jogos recém-encerrados, a rodada de um campeonato ou o mercado da bola. Atualmente, esse tipo de programa não está mais apenas nos canais televisivos; a concorrência agora é muito mais ampla. Aliás, o esporte concorre com inúmeras outras possibilidades de entretenimento audiovisual. Isso talvez explique por que o jornalismo esportivo pende cada vez mais para o humor, em detrimento da informação, para conseguir prender a atenção do espectador (não que humor e informação não possam caminhar juntos eventualmente…). Outro nicho em ascensão são os “influenciadores dos clubes”. Torcedores comuns, com ou sem diploma de jornalistas, que emitem suas opiniões sobre seus times do coração. Muitas vezes nesses vídeos, o influenciador “comenta” os comentários das mesas-redondas televisivas (boa parte das vezes discordando de um ou outro jornalista, que estaria supostamente contra o seu clube e favor dos rivais). Qual seria o próximo passo? Todo torcedor, em seus perfis pessoais na rede social em alta no momento, tecendo comentários sobre a opinião dos influenciadores, os quais por sua vez analisam os jornalistas dos grandes canais de TV? Se pensarmos bem, essa situação já ocorre nas caixas de comentários do Youtube, Instagram, Twitter…

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Como processar tantos dados? Dada a complexidade crescente da indústria do esporte, é demandado do torcedor conhecer o jogo para muito além das quatro linhas. Debates econômicos, antes restritos aos bastidores, vêm cada vez mais para a frente do palco. Clube-empresa, patrocínios, naming rights… são assuntos que hoje ocupam espaço nas conversas entre aficionados por esporte. “Meu clube fatura mais com patrocínios que o seu”, “Meu clube tem mais sócios”, “O estádio do meu clube lucra mais com naming rights” – não consigo imaginar esse tipo de afirmação sendo feita, por exemplo, na década de 1950. Se atualmente esses tópicos estão na ordem dos temas circulantes, isso se justifica, em parte, pelo que falei no início deste texto – quantidade cada vez maior de informação, sobre qualquer assunto e também sobre futebol. Outro exemplo são os fantasy games de esporte (como o Cartola FC), que, sob o incentivo de transformar qualquer torcedor em técnico, busca instigar que os usuários procurem informações não apenas sobre seu clube favorito, mas sobre todos os outros que disputam o campeonato. Pelo lado do torcedor/usuário, essa informação lhe permitirá escalar melhor seu time na plataforma, ao custo de mais tempo gasto no consumo de informação esportiva. Pelo lado da empresa, isso proporciona maior retenção de usuários em suas plataformas (logo, mais engajamento, alcance e todas aquelas métricas de marketing conhecidas) e, finalmente, a capacidade de barganhar com anunciantes por cotas maiores de publicidade.

Para que esse texto não fique excessivamente extenso e perca o seu curso, acho que podemos encerrar nos perguntando: como selecionar o conteúdo que, de fato, queremos assistir e não o conteúdo que nos é forçado goela abaixo pelos algoritmos das redes sociais ou pela programação televisiva? Acredito que, cada vez mais, tenhamos de agir tal qual gatekeepers da nossa própria grade de programação, não apenas fracionando o tempo dos nossos descansos entre os vários divertimentos que cultivamos, mas também hierarquizando o que julgamos relevante daquilo que não nos acrescenta muita coisa (seja em termos de informação ou mesmo de diversão). E, se você considera divertido mesas-redondas com mais humor do que informação, vá em frente e coloque esse programa no topo da sua hierarquia. Por outro lado, se você só assiste esses programas meio que por inércia, repense suas escolhas. Existem podcasts esportivos com informação de muito mais qualidade, sem abrir mão de uma linguagem acessível (vide o nosso Passes e Impasses, por exemplo). Para além da questão da qualidade do conteúdo, existe o tempo a ser gasto. Se você tem tempo de sobra e consumir esporte te dá mais prazer do que arrependimentos, acredito que não há problema em ser utilitarista aqui. No entanto, se a sua semana é corrida, e tempo é item escasso na sua vida, pense em dosar o consumo diário de esportes (temos aplicativos de controle de rotina e de gerenciamento de atividades que podem te ajudar com isso).

Em resumo, em nossa sociedade hiperinformacional, a gestão do tempo talvez seja o maior desafio, tanto para as empresas em geral, que querem mais e mais nacos da sua atenção diária, quanto para você, que deve direcionar o seu foco para aquilo que realmente é do seu interesse e não para o que lhe é imposto.

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo terceiro episódio é “Futebol e nacionalismos”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos o Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro Victor Andrade de Melo e o doutor em História Comparada pelo Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ Maurício Drumond.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Sou brasileiro”, composta por Nelson Biasoli e cantada pela torcida em época de Copa do Mundo

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Letícia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Victor Melo e Maurício Drumond

Artigos

As estátuas e o esporte caem do pedestal

Represada por séculos, a onda antirracista conseguiu, finalmente em 2020, romper os diques que mantinham, sob conforto e segurança, os privilégios de uma sociedade discriminatória.

A derrubada e a retirada de monumentos de personalidades identificadas com o racismo têm sido rotineira nos recentes protestos de rua que vêm exigindo justiça racial. Uma por uma, essas estátuas caem dos seus pedestais e geram o debate em torno da reinterpretação da história. E o caso de uma delas, no estádio olímpico de Amsterdã, mostra que essa onda pode causar transformações sem precedentes no esporte.

Turistas desavisados que até pouco tempo atrás passavam pelo estádio na capital holandesa invariavelmente se sentiam constrangidos.

Isso porque, desde 1928, estava lá uma estátua de bronze em que um homem saudava a todos com o braço direito retilíneo e esticado para frente. Ela foi idealizada pela escultora holandesa Gerarda Rueb na reforma do estádio para os Jogos daquele ano e em homenagem ao Barão Van Tuyll van Serooskerken, fundador do Comitê Olímpico da Holanda.

A intenção do monumento era recordar e exaltar uma suposta saudação da Antiguidade Romana, um dos berços da formação cultural do Ocidente. No entanto, apesar de ter sido erguida 5 anos antes da ascensão de Hitler, a estátua passou a ser associada, ao longo do tempo, ao nazismo, que influencia até hoje grupos racistas, como a Ku Klux Klan nos Estados Unidos. 

Estátua com o braço esticado para frente na entrada do Estádio Olímpico de Amsterdam causou polêmica. Foto: Evert Elzinga/EFE.

 

Diante das cobranças para a estátua ser removida, a Fundação do Estádio Olímpico de Amsterdã consultou um grupo de historiadores e concluiu que a saudação aos romanos é um mito. Não há relatos da época que comprovem que ela, de fato, existiu. Além disso, a estátua com a saudação acabou se tornando uma coincidência acidental e – por que não – trágica: o mesmo gesto com o braço esticado para frente tinha sido introduzido pelo Barão de Coubertin, fundador do Comitê Olímpico Internacional, nos Jogos Olímpicos de 1924, como símbolo de desportividade e respeito entre os atletas (VAN DER VOOREN, 2018).

Anos depois, os nazistas incorporaram o gesto aos seus rituais culturais, e a história fez desaparecer a saudação em meio ao constrangimento coletivo perante o terror causado pelo regime. Mas restava a estátua, bem intencionada no início, porém anacrônica, e que, por isso, já foi removida para um museu dentro do estádio

O esporte pouco havia feito para combater o racismo nas últimas três décadas em que se tornou um espetáculo global, bilionário e, por isso, um produto com grande capacidade de mobilização coletiva. Políticas afirmativas para negros foram raríssimas em clubes e outras entidades esportivas. Em meio às incontáveis injúrias sofridas por atletas negros, o que havíamos visto, no máximo, foi uma faixa “Diga não ao racismo” em estádios ou a frase “Vidas negras importam” em uniformes. Mas nada disso adiantou. 

Portanto, boicotar jogos da NBA e remover estátuas já compõem um avanço sem precedentes, embora ainda tímido. O esporte, em troca de lucros bilionários, frequentemente traçou estratégias para evitar debates raciais e de outros temas de ordem política. Para não desagradar patrocinadores, atletas foram compelidos a manter um comportamento “manso” em meio aos pedidos por engajamento social. Mas a impressão agora é a de que o silêncio da falsa normalidade e que, um dia, taxou o esporte de “alienado” definitivamente acabou.

 

Referências:

VAN DE VOOREN, J. Amsterdam 1928: Het onbekende verhaal van de Nederlandse Olympische Spelen. Balans, Uitgeverij, 2018.

Saluting statue to be removed from Amsterdam Olympic Stadium. Associated Press, Amsterdam, 14 de agosto de 2020. Acesso em: 04 set. 2020.