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A história do voto que frustrou a candidatura de Buenos Aires 1956

A escolha de Melbourne como sede olímpica é atribuída a um membro chileno do COI. Não foi assim.

Os membros argentinos do COI Ricardo C. Aldao e Horacio Bustos Morón na abertura da reunião em Roma em 1949 (terceiro e quarto da esquerda na primeira fila da direita).

Recentemente me referi neste jornal ao malfadado complexo olímpico idealizado pelo peronismo para os Jogos Olímpicos de 1956. Mencionei que o projeto foi abandonado quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) escolheu Melbourne, em vez de Buenos Aires, como cidade organizadora do evento. Da mesma forma, aludi ao fato de que a votação que determinou aquela eleição em abril de 1949 foi, e continua sendo, a mais próxima (21 votos a 20) para uma sede olímpica na história daquela instituição.

Um jornalista e um dirigente desportivo entraram em contato comigo para me dizer que o voto decisivo a favor de Melbourne havia sido do membro chileno do COI. Embora não o mencionassem, referiam-se a Enrique Barbosa Baeza, que ingressara no COI em 1948. A razão para justificar seu voto, prosseguiram, era que Barbosa Baeza preferia viajar para Melbourne, porque Buenos Aires era um destino mais acessível. Em seus livros de 2010, 2012 e 2004, respectivamente, Ezequiel Fernández Moores, Ernesto Rodríguez III e Víctor Lupo fizeram declarações semelhantes, embora com cautela. Assim, Lupo escreveu: o voto “que mudou a história do esporte argentino, segundo especialistas, foi de um representante de um país vizinho, que, ao ser repreendido por sua mudança de decisão, respondeu: ‘Conhecer a Austrália de outra forma seria impossível, ir para Buenos Aires é muito fácil para mim’”.

Essa explicação pitoresca da candidatura fracassada de Buenos Aires por um voto é bastante difundida no imaginário esportivo nacional, mas é apócrifa e merece ser esclarecida. Uma vez que a Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA) informou ao COI em janeiro de 1948 que Buenos Aires estava solicitando a organização dos Jogos Olímpicos de 1956, as autoridades olímpicas nacionais começaram a promover a candidatura. Por exemplo, naquele mesmo mês, Horacio Bustos Morón e Ricardo C. Aldao, os membros argentinos do COI, informaram à instituição que apoiavam a comunicação do CADCOA. Seis meses depois, enviaram uma carta a Sigfrid Edstrøm, presidente do COI, e outra aos demais colegas da instituição detalhando a candidatura de Buenos Aires e solicitando seu consentimento. Na carta diziam: “esperamos sinceramente que os nossos Colegas e Amigos apoiem esta iniciativa e votem a seu favor quando chegar o momento de o fazer”. A oferta provavelmente também foi vigorosamente empurrada durante as Olimpíadas de Londres em julho e agosto de 1948.

Em março de 1949, o CADCOA escreveu novamente ao COI insistindo em seu desejo de organizar os Jogos Olímpicos de 1956. Também produziu um livro suntuoso que serviu como “seu convite formal para celebrar a XVI Olimpíada nele (Buenos Aires) em 1956”. O COI acusou o recebimento do material e lembrou que a votação ocorreria em sua reunião em Roma, marcada para os dias 24 e 29 do mês seguinte. Os esforços das autoridades olímpicas nacionais deram alguns frutos, como mostra o telegrama de apoio à candidatura de Buenos Aires que o Comitê Olímpico Uruguaio enviou ao COI pouco antes de se reunir na capital italiana. Ao contrário, em dois telegramas também enviados naqueles dias, os dois membros brasileiros do COI votaram por Detroit, uma das nove cidades candidatas.

Na sessão de 25 de abril, o COI decidiu que o voto por correspondência não seria admitido na votação que ocorreria três dias depois. Em outras palavras, apenas os 41 membros presentes em Roma podiam votar. Nesse grupo, os únicos sul-americanos eram Bustos Morón e Aldao. Em 28 de abril, os dois membros argentinos do COI, acompanhados por Rafael Ocampo Giménez, embaixador argentino na Itália, e Mario L. Negri, líder argentino de natação, apresentaram a candidatura de Buenos Aires ao COI e tentaram convencer seus membros da conveniência de organizar ali os Jogos Olímpicos de 1956. As demais delegações também tiveram a oportunidade de apresentar as candidaturas de suas cidades.

Em seguida, o COI, que havia decidido “proceder por eliminação” (“que o número de cidades a serem eliminadas será decidido após cada (rodada)” e que na última “era necessária maioria absoluta”), iniciou a votação. Chicago, Minneapolis, Filadélfia e San Francisco foram eliminados na primeira rodada. Na segunda, Cidade do México e, na terceira, Detroit e Los Angeles. Buenos Aires obteve 9, 12 e 13 votos nas três primeiras rodadas de votação; Melbourne 14, 18 e 19. Buenos Aires conquistou 7 dos 9 votos em disputa no quarto turno, mas essa finalização impetuosa foi insuficiente para impedir Melbourne de obter a vaga (21 votos a 20). Nesse processo, Barbosa Baeza não teve influência, pois estava ausente em Roma e, se votou pelo correio a favor de Melbourne, seu voto foi rejeitado.

Aqui estão outras hipóteses da votação enganosa que teria transformado Buenos Aires na sede dos Jogos Olímpicos de 1956. Quatro meses antes da votação, no final de 1948, Aldao escreveu a Edstrøm, confidencialmente, alertando que algumas ações do peronismo em matéria esportiva estavam à beira de transgredir os princípios olímpicos. Embora Aldao não tenha mencionado irregularidades na candidatura de Buenos Aires, é possível que Edstrøm tenha se alarmado com a carta de Aldao –já que o peronismo era seu promotor– e a desvalorizado. Mesmo que ele não revelasse seu alarme aos outros membros do COI, seu voto, involuntariamente influenciado por Aldao, poderia ter sido decisivo. Claro, também é provável que nada disso tenha acontecido e que a maioria dos membros do COI acreditasse que Melbourne era uma candidata melhor do que Buenos Aires. De qualquer forma, apesar de perder por um voto, a capital argentina deixou uma imagem positiva entre os membros do COI. Como afirmou o presidente do CADCOA após a reunião daquela instituição em Viena em 1951, “a maioria dos delegados […] reconheceu a Argentina como o país mais adequado [para substituir Melbourne, se necessário]” ​​. Essa substituição, no entanto, foi desnecessária.

* Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).


Texto originalmente publicado pelo site Página12 no dia 11 de maio de 2022

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro

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Sanções esportivas: Rússia hoje, outros antes

Contra a invasão russa na Ucrânia, impõem-se sanções. Várias. Inclusive esportivas.

Sanções esportivas não têm tanto impacto quanto sanções econômicas, claro. A escassez de recursos econômicos é muito mais grave do que a impossibilidade de disputar competições esportivas. Mas quando há o objetivo de isolar e desmoralizar um determinado país ou região, sanções esportivas internacionais podem ser decisivas, porque explicitam esse isolamento e desmoralização, ou seja, explicitam que aquele país ou região se tornou um pária para a comunidade de nações (ou está a caminho de se tornar). O caso mais lembrado, evidentemente, é o da África do Sul, que sofreu sanções de quase todas as entidades esportivas globais como reação ao seu regime de apartheid, condenado universalmente.

África Do Sul: o país que foi um pária do esporte mundial

Em 1964, a África do Sul foi impedida de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio. O mesmo aconteceu em 1968, nos Jogos Olímpicos da cidade do México. Em 1970, o país foi definitivamente expulso do COI. Uma expulsão com enorme impacto simbólico, sem dúvida. O COI, afinal, era uma das entidades mais conhecidas e respeitadas do planeta.

Já na FIFA, houve um pouco mais de dificuldade. Em 1961, a FIFA suspendeu a África do Sul pela primeira vez, mas o presidente da entidade, Stanley Rous, discordava dessa suspensão. Achava melhor buscar outra solução e reintegrou os sul-africanos em 1963. No ano seguinte, uma nova suspensão foi aprovada pela Assembleia Geral. O assunto era um foco de divergências entre os membros da FIFA. A expulsão, enfim, foi aprovada apenas em 1976, dois anos depois de João Havelange ser eleito presidente da FIFA (com amplo apoio dos representantes africanos, que exigiam aquela expulsão).

Até o fim da década de 1970, a maioria das entidades esportivas internacionais impôs punições específicas, suspensões ou expulsões à África do Sul. Envolver-se em competições com outros países passou a ser cada vez mais difícil para os sul-africanos. Em 1976, a seleção de rugby da Nova Zelândia disputou partidas na África do Sul. Em reação, vários países africanos exigiram do COI que os neozelandeses fossem expulsos das Olimpíadas daquele ano, com sede na cidade de Montreal. O COI, sustentando-se em argumentos jurídicos, não atendeu à exigência, o que provocou um grande boicote aos Jogos Olímpicos, com a adesão de 25 países africanos, acompanhados por Iraque e Guiana. Logo no ano seguinte, a comunidade britânica de nações chegou a um acordo interno que recomendava com veemência um boicote esportivo de todos os seus membros à África do Sul. Foi o chamado Acordo de Gleneagles. 

Em 1980, já havia sido atingido o objetivo de tornar a África do Sul um país-pária na comunidade esportiva mundial. Os sul-africanos participavam de poucos eventos esportivos internacionais e, quando conseguiam participar, era comum que houvesse protestos, como no ano de 1981, quando a seleção de rugby do país disputou uma série de partidas na Nova Zelândia e nos Estados Unidos. As manifestações contra essas partidas foram tamanhas que a última disputa foi realizada quase em segredo, em uma pequena cidade do Estado de Nova York, com a presença de apenas 30 torcedores. Consolidando ainda mais toda a pressão contra o regime segregacionista sul-africano, a ONU aprovou, em 1985, uma Convenção Internacional contra o Apartheid nos Esportes.

Protesto de neozelandeses contra a excursão da seleção sul-africana de rugby em 1981. Fonte: internet

Com a extinção do regime de apartheid, entre 1990 e 1994, a África do Sul passou a ser aceita em todas as entidades esportivas internacionais. Em 1992, esteve presente nas Olimpíadas de Barcelona, após 32 anos de sua última participação.

Rodésia: expulsa das Olimpíadas em votação apertada

Um caso menos conhecido é o da Rodésia na década de 1970.

Em 1965, um governo rodesiano, amparado pela minoria de origem britânica, proclamou a independência da região. Em 1970, adotou o regime republicano. A comunidade internacional, porém, não reconheceu o novo país, pois estava consolidada a ideia de dar respaldo, no continente africano, apenas a governos formados pela maioria nativa.

Mesmo sem ser reconhecida internacionalmente, a Rodésia foi admitida pelo COI nos Jogos Olímpicos de 1972, com algumas condições (entre elas, a de que participassem como um território colonial britânico e sob a antiga bandeira colonial da Rodésia do Sul). As condições foram aceitas.

Os países africanos protestaram. Alegaram que a Rodésia era um Estado ilegal, não reconhecido internacionalmente e de viés racista. Sua delegação, portanto, deveria ser expulsa dos Jogos Olímpicos. Caso contrário, haveria um boicote das nações africanas. O presidente do COI, Avery Brundage, resistiu à pressão, mas o assunto foi à votação no comitê executivo da entidade faltando apenas quatro dias para a abertura do evento. Em decisão apertada, foi aprovada a expulsão da Rodésia: 36 votos a favor, 31 contra e três abstenções. Avery Brundage se mostrou indignado: “As pressões políticas no esporte estão se tornando intoleráveis”. Para alguns dirigentes do COI, a delegação da Rodésia, formada por atletas brancos e negros, era um exemplo de bom convívio entre etnias e deveria ser protegida, não expulsa.

Avery Brundage, Presidente do COI em 1972. Fonte: internet

A expulsão da Rodésia dos Jogos Olímpicos de 1972 ajudou a isolar o país, que se dissolveu no fim daquela mesma década de 1970. Após diversas negociações diplomáticas, foi oficializada, em 1980, a República do Zimbábue, um novo Estado independente, com governo formado pela maioria nativa africana e reconhecido internacionalmente.

Naquele mesmo ano de 1980, o Zimbábue participou das Olimpíadas de Moscou. Conquistou uma medalha de ouro no hóquei sobre a grama feminino.

Iugoslávia: “geração roubada pela guerra”

Em 1992, o conflito envolvendo as repúblicas que formavam a Iugoslávia deu origem a um caso de sanção esportiva internacional que chamou muita atenção à época.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, no fim de maio, a Resolução 757, que impunha sanções ao governo iugoslavo sediado em Belgrado. Parte da resolução abordava a exclusão dos iugoslavos de competições esportivas. Estava comprometida, então, a participação da Iugoslávia na Eurocopa daquele ano, cuja sede seria a Suécia. O início da competição estava marcado para poucos dias depois de aprovada a sanção.

Os dirigentes da FIFA e da UEFA preferiam manter os iugoslavos na Eurocopa. Discordavam da interferência política em assuntos esportivos e havia uma situação relevante a considerar: apesar do técnico e de alguns atletas terem abandonado a delegação em razão do conflito militar, a seleção iugoslava continuava pluriétnica. O técnico substituto era croata e havia jogadores sérvios, montenegrinos, eslovenos e bósnios. Aquela equipe podia ser considerada um símbolo de tolerância e convívio, ao contrário dos ódios que moviam o conflito na Iugoslávia. 

Seleção da Iugoslávia (1992). Fonte: internet

Apesar das preferências dos dirigentes, a resolução do Conselho de Segurança da ONU não podia ser ignorada. A delegação iugoslava, que já estava hospedada na Suécia, foi excluída da Eurocopa. Os jogadores e a comissão técnica, após receberem a notícia, se prepararam para deixar o país, mas encontraram dificuldades, já que o tráfego aéreo rumo a Belgrado estava proibido, em razão do isolamento político e diplomático da Iugoslávia. Depois de algum esforço de negociação, puderam viajar, sentindo-se injustiçados e um tanto humilhados. A seleção da Dinamarca foi convocada às pressas para substituir o time excluído.

Foi convocada às pressas e surpreendeu. Terminou campeã, vencendo a Alemanha na final por 2 a 0.

A sanção esportiva contra a Iugoslávia permaneceu em vigor até abril de 1996. Foi considerada pela comunidade internacional uma sanção legítima, tendo em vista as atrocidades que chocaram o mundo durante o conflito entre as repúblicas iugoslavas. Mas também sofreu críticas. Os defensores da separação entre política e esporte ficaram extremamente contrariados nesse caso. Os atletas que foram impedidos de jogar pela Iugoslávia em 1992 reclamaram amargamente nos anos seguintes. Considerado um time de grande qualidade, com chance de entrar para a história do futebol mundial, já foram chamados de “geração roubada pela guerra”.

Em 1998, com a seleção da Iugoslávia classificada para a Copa do Mundo da França, novas sanções esportivas foram exigidas por parte da opinião pública europeia. O motivo para essas novas sanções seria o conflito do Kosovo. Dessa vez, porém, os iugoslavos foram mantidos na competição. Chegaram às oitavas-de-final e terminaram em décimo lugar.

Rússia: o novo pária do esporte internacional

A invasão russa à Ucrânia teve início em fevereiro. Rapidamente, foram impostas sanções esportivas. O COI proibiu a participação da Rússia em suas competições. Atletas e equipes russos ainda poderão ser admitidos, mas como participantes individuais, não como representantes do seu país. Diversas outras entidades esportivas internacionais aprovaram suas próprias sanções: ginástica, ciclismo, tênis, atletismo, judô, automobilismo e outras.

A FIFA impôs sanções severas. Nas Eliminatórias da Europa para a Copa do Mundo de 2022 (Catar), a seleção da Rússia estava classificada para a fase de repescagem. Seu adversário seria a Polônia. A partida, porém, foi cancelada e a Rússia foi sumariamente desclassificada. A seleção feminina também foi excluída de todas as competições, assim como todos os clubes de futebol do país.

O esporte russo, em cerca de dois meses, foi reduzido à situação de pária internacional.

As sanções estão em sintonia com o clamor antirrusso que se ergueu poderosamente na comunidade internacional depois de iniciada a invasão. Mas também há críticas e questionamentos. Alguns comentaristas perguntam por que outros países, que também se envolvem em conflitos armados e desrespeitam violentamente os direitos humanos, não sofrem sanções semelhantes. A Arábia Saudita e o Irã, por exemplo, estão envolvidos (inclusive militarmente) na guerra civil do Iêmen, que atormenta a população local há oito anos. Há denúncias graves de crimes de guerra. As seleções saudita e iraniana estão classificadas para a Copa do Mundo do Catar e, evidentemente, participarão sem qualquer objeção por parte da FIFA. Outros questionam a sustentação legal para se impor sanções a entidades esportivas russas que não tiveram absolutamente nenhuma responsabilidade pela decisão de invadir a Ucrânia. Os dirigentes esportivos russos pretendem levar esse questionamento à Corte Arbitral do Esporte.

Separar o esporte da política é uma atitude pluralista, pois se baseia na ideia de que a comunidade esportiva deve acolher atletas de todas as convicções (e também de todos os países, independentemente da ideologia ou do sistema político que os regem). Mas quando a realidade se agita, as tensões se aguçam e surge uma onda de indignação, esse pluralismo pode recuar (e dizem alguns que se trata de um recuo muito justo e sadio). As autoridades esportivas da Rússia continuarão defendendo a louvável separação entre esporte e política, mas já perceberam o tamanho do recuo que os colocou em posição de isolamento quase total. E sabem que enquanto houver invasão, esse recuo não muda. Talvez piore.

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Perón, o esporte e os Jogos Olímpicos de 1956

Plano da Vila Olímpica para a candidatura dos Jogos Olímpicos de Buenos Aires 1956. Imagem: Cortesia do Arquivo COI

É sabido que durante a primeira presidência de Juan Domingo Perón (1946-1955) foi implementada uma gestão estatal inédita e incomparável na história argentina que promoveu e desenvolveu o esporte em todos os seus níveis e modalidades. Para Perón, o esporte era uma tecnologia social capaz de moldar e fortalecer sua “Nova Argentina”, baseada no apotegma “justiça social, soberania política e independência econômica”, e de difundi-la no exterior. Um dos meios preferidos para atingir o último objetivo, enquadrado no que mais tarde seria chamado de “diplomacia cultural”, era a participação em eventos esportivos internacionais e a organização deles na Argentina.

Nesse contexto, em 20 de janeiro de 1948, a Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA) informou ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que Buenos Aires solicitava a organização dos Jogos Olímpicos de 1956. Nesse mesmo mês, uma carta do CADCOA fundamentava o “justo pedido” explicando que a eleição de Buenos Aires “satisfará as legítimas aspirações do governo do Exmo. Senhor Presidente, General Juan D. Perón, e dos atletas do continente” e que este [o governo de Perón] “comprometeu formalmente (…) toda a cooperação moral e material que a organização requer”. Além disso, o CADCOA assegurou que o governo estava terminando os estudos para a construção de um “grande estádio nacional com uma ‘Vila Olímpica'”, que seria o epicentro do evento.

Concluídos esses estudos, o CADCOA reiterou ao COI no início de 1949 “o propósito do Governo Superior da Nação, de construir um complexo olímpico com a Vila correspondente”. O local escolhido foram os quadrantes noroeste e sudoeste do cruzamento da Avenida Gral. Paz e Autopista Gral. Ricchieri. A eleição, que não está articulada nos documentos consultados relativos a esta candidatura olímpica, pode ser entendida como parte do que Anahí Ballent chama de operação territorial de Ezeiza, um projeto urbano “de notável magnitude no setor sudoeste da Grande Buenos Aires (que incluía) a arborização da área, novas vias de comunicação, conjuntos habitacionais e instalações esportivas, assistenciais, educativas e de saúde”. E, claro, o aeroporto internacional, inaugurado nesse mesmo ano. Dessa forma, articulando modernização técnica e social, Ezeiza constituía, também segundo Ballent, “uma espécie de cenário ideal para a política (peronista) onde a implantação de sonhos e projetos conseguiu configurar um novo espaço urbano-territorial”, que por um breve período incluiu o conjunto olímpico planejado.

Dessa forma, as delegações dos diversos países chegariam ao aeroporto internacional, o que criou “uma nova frente (e entrada) para a cidade”, e se deslocariam rapidamente por uma moderna rodovia até o complexo olímpico, que as abrigaria durante sua estada no país enquanto começava sua familiarização com as conquistas e aspirações da “Nova Argentina” de Perón. Essa possibilidade foi abreviada em abril de 1949 quando o COI escolheu Melbourne, em vez de Buenos Aires, para sediar os Jogos Olímpicos de 1956. O voto que determinou essa escolha foi, e ainda é, o mais próximo (21 votos a 20) para uma sede olímpica da história do COI. O CADCOA transformou a derrota em vitória, afirmando: “essa diferença mínima (…) conforta o espírito e satisfaz plenamente os mais queridos desejos argentinos, por tudo o que significa para nossa Pátria e o esporte argentino”.

Após a fracassada candidatura de Buenos Aires aos Jogos Olímpicos de 1956, o peronismo abandonou o projeto do complexo olímpico no cruzamento da Avenida Gral. Paz e Autopista Gral. Ricchieri. No entanto, inaugurou uma “Vila Olímpica” a poucos quilômetros do aeroporto internacional, no cruzamento da Autopista Gral. Ricchieri e Ruta 205, onde se preparou e concentrou a equipe argentina que participaria dos primeiros Jogos Esportivos Pan-Americanos de 1951, com sede em Buenos Aires, um dos eventos esportivos internacionais organizados durante a década peronista. Comparada ao abortivo plano olímpico original, esta Vila Olímpica, que fazia parte das instalações esportivas da operação territorial de Ezeiza, empalideceu em tamanho e simbolismo.

Atualmente, no local escolhido para a construção do complexo olímpico, existem inúmeros conjuntos habitacionais do tipo que Alicia Novick caracteriza como um habitat precário e irregular e traçados urbanos mais formais e regulares, mas empobrecidos. Todos nos municípios de Villa Madero e Villa Celina, no município de La Matanza. O destino daquele lugar, incluindo o sonho olímpico e o complexo tecido urbano atual, surge como uma topografia histórica e nos convida a reconstruí-lo, bem como a reimaginar seu futuro. Talvez seja isso o que fazem muitas das pessoas que o habitam, tantas vezes discriminadas e estigmatizadas, quando nos fins de semana organizam partidas de futebol e vôlei na terra firme e seca do que teria sido o complexo olímpico concebido para os Jogos Olímpicos de 1956.

* Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).


Texto originalmente publicado pelo site Página12 no dia 21 de abril de 2022

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro

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A leifertização da transmissão da Copa do Brasil

Na noite do Dia do Trabalho, o Flamengo venceu o Altos-PI por 2×1, para a alegria de quase 30 mil espectadores no Albertão em Teresina. A última vez que o Flamengo jogou no estado foi há 10 anos, em crise com a iminente saída de Ronaldinho Gaúcho. Mas o inusitado ficou muito além de um jogo de Copa do Brasil em pleno domingo. A partida foi exibida com exclusividade no Amazon Prime Video, serviço de streaming da Amazon, e contou com Casemiro e Tiago Leifert na transmissão.

A ação envolvendo os influenciadores é uma mudança no planejamento da Amazon, que, em dezembro do ano passado, anunciou um acordo com a Globo para sublicenciar os direitos de transmissão da Copa do Brasil. Inicialmente, porém, a empresa receberia não apenas o sinal da emissora de TV, mas também a narração, os comentários e as reportagens dos jogos. Isso aconteceu nas duas primeiras rodadas da competição. Agora, porém, com o torneio entrando em suas fases mais decisivas e com a entrada de times mais populares, como Flamengo e Corinthians, a Amazon decidiu investir em uma equipe própria de transmissão.

Tiago Leifert, apresentador com notável trabalho na Rede Globo, através dos campeões de audiência como o Big Brother Brasil e The Voice Brasil, foi responsável por grandes mudanças nos formatos do jornalismo da Globo, principalmente no esporte. Os visuais menos sérios e o humor do Globoesporte chamou a atenção do público mais jovem, agregando na audiência do programa.

Apenas no Instagram Tiago Leifert tem mais de 8,2 milhões, enquanto Casimiro conta com mais de 2,5 milhões de seguidores. Mas convenhamos, nessa rede social o Cazé está jogando fora de casa. O streamer de 28 anos despontou na Twitch, como um dos nomes mais carismáticos do momentos. Casimiro reagiu a pré-estreia do primeiro episódio da série sobre a vida de Neymar na Netflix, e mesmo acostumado com números expressivos, o streamer se assustou com os quase 540 mil espectadores sintonizados na live.

A transmissão

Para a partida, a Amazon ofereceu outra opção de transmissão, com Clayton Carvalho e comentários de Pedro Moreno, que seguiram todas as regras e técnicas do bom jornalismo tradicional. A gigante do streaming falhou em não comunicar essa possibilidade de divisão de interesses do público. Enquanto existiam os espectadores que privilegiam a informação contínua durante a transmissão e foco total na exibição, surge uma nova geração multi-tela e, cada vez mais, multitarefa, que parou de assistir tv e não tem paciência para ouvir um áudio na sua velocidade padrão de reprodução. Esse público, curtiu.

Do outro lado, muitos dos comentários negativos vêm carregados de uma intolerância rubro-negra à figura de Cazé e Leifert, marcados pela ligação com times rivais. Prova de que os pré-conceitos foram preponderantes no tom das críticas, foi o elogiado trabalho da repórter Pâmella Maranhão da TV Cidade Verde, afiliada do SBT, que foi cedida para a transmissão. A piauiense esbanjou referências locais, explicou a história do futebol piauiense de forma didática, em doses homeopáticas durante toda a transmissão e também usou do humor para conquistar a audiência. Passou detalhes sobre a atuação do técnico Diá e arrancou ótimas gargalhadas. 

Outro ponto de discussão é sobre a formação e oportunidade de mercado de trabalho de profissionais do futebol em praças não tão competitivas, como no caso do poderoso Campeonato Piauiense. Muito mais do já batido “estava no lugar certo, na hora certa”, Pâmella qualificou-se, soube aguardar a oportunidade e possivelmente teve a maior vitrine da sua carreira. Passou pelo teste bem avaliada e mostrou que está preparada para vôos mais altos. 

Outros não entenderam o conceito. O perfil @falso92 conhecido por conteúdo voltado para debate táticos de partidas, fez duras críticas à transmissão e em seguida se retratou.

“Sobre a polêmica da transmissão estilo gamer, eu já mudei de opinião e todas as vezes que o fizer, admitirei aqui que fui infeliz no comentário anterior. A empresa disponibilizou dois tipos de transmissão, logo, não excluiu ninguém. Pelo contrário, acabou abrangendo um público maior. Isso acaba trazendo um público novo pro futebol, ou fidelizando quem estava em vias de ser perdido. Podem evoluir em algumas coisas, como falar menos e deixar o som ambiente mais alto, mas é uma tendência pra atender uma geração nova, que tem que consumir o jogo também! A opinião que dei anteriormente foi antes de saber que era possível assistir da forma mais tradicional. O fiz e achei muito boa de outra maneira, inclusive. Viva a diversidade, sempre”, disse @falso92.

A leifertização

O termo “leifertização” representa essa mudança nos padrões do jornalismo esportivo, trazendo um ar mais cômico e menos sério para o estilo (que é utilizado até hoje). Ao mesmo tempo em que muitos espectadores e profissionais apoiaram esse movimento, muitos também o criticaram, como o jornalista esportivo Juca Kfouri, que em entrevista ao programa Voz Ativa, no ano de 2018, criticou esse fenômeno, falando do excesso de gracinhas presentes nas produções jornalísticas atualmente. 

Fonte: Purepeople

Marcio Telles, Doutor em Comunicação e Informação pela UFRGS, aborda a sobreposição do entretenimento em relação ao jornalismo esportivo.

“No  que  também parece  ser  consensual  à  crítica  teórica  da  “leifertização”  do  telejornalismo esportivo, o novo “Padrão Globo de Jornalismo Esportivo” não passa de  um   epifenômeno do capitalismo avançado, do espetáculo, da indústria cultural e sua voraz  fome  por  dinheiro/audiência, que  leva  à  “prostituição”  da  informação  travestida  de  entretenimento”

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“Nível Europa”

Semana passada uma discussão tomou conta das redes sociais e dos debates nas mesas redondas esportivas. A declaração do atacante do Flamengo Gabriel Barbosa após o empate contra o Palmeiras, em jogo adiantado pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro, falando que precisamos de uma arbitragem “nível Europa” provocou reflexões sobre a qualidade do jogo e de todos os atores envolvidos.

“ A gente fez um bom jogo, acho que fomos melhores em todos os momentos. Eles não nos assustaram em nenhum lance. Tivemos um gol impedido, perdemos outras chances, mas creio que fizemos um bom jogo. O juiz atrapalhou muito. A gente fala muito que quer um futebol nível europeu, mas o árbitro também precisa ser nível Europa. Escolheram uma pessoa que não deixava a bola rolar, toda hora parou o jogo”.

Foto: Delmiro Junior

Há aqueles que questionaram se também não precisamos de jogadores nível Europa. Outros concordaram com o atacante. Alguns ficaram em cima do muro e, no fim, sobrou até para imprensa com torcedores pedindo “jornalistas nível Europa”.  

Estendendo o debate poderíamos dizer que precisamos de gramados nível Europa, VAR nível Europa, treinadores nível Europa, torcedores nível Europa, e assim chegaríamos à conclusão de que é mais fácil ligar a televisão e assistir a uma partida europeia. 

Lá trás, Nelson Rodrigues já alertava para o nosso complexo de vira-latas. A frase já é batida, um clichezão e às vezes até um pouco cafona, já que é usada nos mais variados contextos. Esse poderia ser mais um, e, talvez para a sua decepção, ou costume, meio que é.  

Mais do que almejar esse padrão, porém, é preciso entender o que faz o “nível Europeu” ser “nível Europeu”. Logo o Brasil, pátria das chuteiras (ou agora ex?), tendo que buscar lá, o que nós ensinamos daqui, dentro das quatro linhas do gramado. Precisando olhar para fora, para enxergar problemas extra-campo que dizem respeito da nossa sociedade, muito mais do que sobre o nosso futebol. 

Nós queremos ser como eles?

Que fase! Como diria Milton Leite. Que fique claro, eu não acho que está tudo bem com o futebol brasileiro, nem que o nível da arbitragem seja excepcional. Estamos vivendo um futebol precário, em todos os sentidos. Banalização da violência, qualidade baixíssima da arbitragem, maus exemplos em campo, desrespeito a jornalistas, respostas evasivas de quem deveria dar uma satisfação ao torcedor.  

É necessário, com ou sem nível europeu, tratar o esporte de forma séria, em sua totalidade. Regulamentar a profissão de árbitro, oferecer punições justas em caso de infrações, coibir todos e quaisquer tipos de violência, inclusive aquelas que não contém agressão física, afinal, considerar apenas um tapa como violência abre perigosos precedentes.  

Para quem defende essa tese, um lembrete, transferir responsabilidades, ao invés de assumi-las não é “nível Europa”. 

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Atlético de Alagoinha: o bicampeão improvável e o seu polêmico presidente

Vem da Bahia uma das histórias mais surpreendentes do futebol brasileiro atual. Mais especificamente, de uma cidade chamada Alagoinhas.

O Atlético de Alagoinhas (cujo nome oficial é Alagoinhas Atlético Clube) foi fundado como clube profissional em 1970 e não demorou para chegar à decisão do Campeonato Baiano. Em 1973, disputou o título de campeão estadual contra o Bahia, que venceu a final por 2 a 0. Os atleticanos só voltariam a uma decisão estadual 47 anos depois. Fez história nas décadas seguintes como um time pequeno do interior nordestino. Uma história de poucos recursos, muita dificuldade e resultados pífios, como é comum de acontecer com os times de cidades menores.

Ser dirigente de um clube como esse não é o grande sonho de nenhum futebolista. Tanto é assim que o Atlético, em 2019, passou por uma eleição sem candidatos para a sua presidência. A situação foi contornada com um acordo interno, que deu origem à candidatura única de Albino Leite.

Aqui a história começa a ficar interessante.

Albino Leite não se destaca por ser um dirigente de ideias muito modernas. Não é um gestor de clube-empresa. Seu estilo é mais parecido com o de Eurico Miranda. Está longe de ser um gerente frio e calculista que faz a análise ponderada da conjuntura e toma decisões racionais. Albino é passional, polêmico, brigão e vive se metendo em confusão.

Em pleno ano de 2020, quem apostaria em um dirigente desse tipo?

Mas o Atlético de Alagoinhas surpreendeu naquele ano e, pela segunda vez em sua história, chegou à decisão do Campeonato Baiano. Na final, novamente o Bahia, assim como em 1973. Foram dois empates nas duas partidas decisivas e as equipes partiram para a disputa por pênaltis. O Bahia venceu por 7 a 6. E logo depois o presidente Albino polemizou: reclamou da arbitragem e cogitou uma anulação da partida decisiva.

“Eu não posso falar que foi garfado. Solicitei as imagens do VAR. Enquanto não tiver isso na mão, não posso ter um resultado do meu ponto de vista. Preciso analisar. Mas se essa bola [do gol do Bahia] tiver realmente 100% fora, meu irmão (sic), aí as ações jurídicas e esportivas vão ter de trabalhar, trabalhar direitinho”.

Albino Leite, após a final do Campeonato Baiano de 2020

E lá foi o Atlético de Alagoinhas disputar a Série D de 2020. O vice-campeão baiano, passando por dificuldades econômicas (como de costume), não chegou às fases finais. Albino Leite resolveu desabafar. Em um vídeo, após uma partida contra o Bahia de Feira, o presidente reclamou da torcida do próprio time, que chamava de amadora a diretoria do Atlético. Em seguida, anunciou a conta bancária do clube e pediu dinheiro: 50 reais de cada torcedor.

Albino Leite no dia em que pediu 50 reais para cada torcedor do Atlético de Alagoinhas.

“É a hora de ajudar nossos atletas, que são pais de família. Eu já não estou aguentando mais, eu preciso pagar a folha dos jogadores”.

Albino Leite, após vitória diante do Bahia de Feira na Série D de 2020

Fácil perceber que o Atlético de Alagoinhas, mesmo sendo vice-campeão estadual, continuava sendo uma aposta arriscada.

Aposta arriscada, mas em 2021 lá estava o clube, novamente, na final do Campeonato Baiano. O Atlético enfrentou o Bahia de Feira. Empatou a primeira partida, venceu a segunda e se sagrou campeão baiano pela primeira vez em sua história. Albino Leite, consagrado, entrou em confusão poucos dias depois.

Segundo um radialista da cidade de Alagoinhas, os jogadores campeões de 2021 não haviam recebido a premiação conforme combinado. Albino foi à rádio falar do assunto, discutiu com o radialista, o bate-boca viralizou na internet e aumentou a fama do presidente do Atlético fora da Bahia.

Atlético e Albino seguiram em frente. Na primeira Copa do Nordeste do clube, em 2022, as perspectivas não eram muito otimistas, mas o time conseguiu passar da primeira fase. Um êxito que foi bastante comemorado. O Atlético foi desclassificado logo em seguida, ao enfrentar o Fortaleza, quarto colocado da Série A de 2021 e classificado para a Libertadores da América de 2022. O Fortaleza, aliás, foi o campeão daquela Copa do Nordeste. Confusão envolvendo Albino Leite? Sim, a Copa do Nordeste também teve. Após a partida entre Atlético de Alagoinhas e Ceará, em fevereiro, o presidente do clube baiano foi denunciado por ter invadido o vestiário dos árbitros e os ameaçado de morte. Albino negou que isso tivesse ocorrido. Segundo uma nota divulgada à imprensa, ele assumiu que “cobrou, sim, com veemência a arbitragem”, mas sem invadir vestiário ou fazer ameaças de morte.

Doze dias depois da desclassificação na Copa do Nordeste diante do Fortaleza, lá estava o Atlético, pela terceira vez seguida, na final do Campeonato Baiano. O adversário dessa vez era o Jacuipense. Na primeira partida da decisão, em Alagoinhas, houve empate em 1 a 1. Logo no dia seguinte, foi anunciada a demissão do diretor de futebol do Atlético, Luiz Matos. Como era de se esperar, surgiram comentários de crise interna, mas o clube declarou oficialmente que o diretor se demitiu por questões pessoais.

A situação era um tanto problemática: diretor de futebol recém-demitido, suspeita de crise interna e partida decisiva no estádio do adversário (que havia sido o primeiro colocado na primeira fase da competição). O Atlético, mais uma vez, parecia ser a aposta mais arriscada. Pois bem: o time foi ao município de Riachão do Jacuípe, venceu a decisão por 2 a 0 e se tornou o primeiro clube do interior baiano a ser campeão estadual duas vezes seguidas.

Atlético de Alagoinhas, campeão baiano de 2021.

O Atlético de Alagoinhas, certamente, não está muito acima dos outros clubes baianos. Falta-lhe dinheiro, sobram incertezas. Diante do Bahia e do Vitória, continua sendo um nanico. Inspira pouca confiança. E quem imaginaria que o clube presidido pelo agitado Albino Leite acumularia êxitos por três anos consecutivos?

O Atlético acumulou: chegou a três decisões seguidas do campeonato estadual e venceu duas. Quem puder que explique.

Albino Leite, aliás, poderia ser reeleito com alguma facilidade para a presidência do clube. Já declarou que não se candidatará. Talvez surja alguma polêmica em razão dessa declaração. Tudo bem: de polêmica, ele entende.

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O provincianismo da dita mídia “nacional”

“Ex-Botafogo-PB, Durval é campeão da Libertadores da América de 2011 pelo Santos”.

A manchete, caro leitor, ainda que não tenha sido de fato publicada e que aqui sirva de mera ilustração, é rigorosamente correta.

O zagueiro Durval, um dos maiores campeões do futebol brasileiro entre os anos de 2003 e 2016, que passou por clubes como Botafogo-PB, Brasiliense, Athletico Paranaense, Sport e Santos, tendo sido campeão em todos eles e tendo acumulado 11 títulos estaduais, duas Copas do Brasil e uma Libertadores ao longo da carreira, é paraibano de Cruz do Espírito Santo e teve como primeiro título o Campeonato Paraibano de 2003.

Fonte: Globo

Ainda assim, você há de convir que a manchete, embora rigorosamente correta, não haveria de fazer o menor sentido se escrita em 2011, oito anos e tantos títulos depois de Durval ter iniciado a carreira e ter conquistado a sua primeira taça.

Aliás, aqui vai uma pequena correção.

A manchete haveria de fazer sentido se escrita, sei lá, pela assessoria de imprensa do próprio Botafogo-PB ou por algum veículo local da Paraíba, que quisesse destacar os feitos de um conterrâneo que, um dia tendo jogado em sua própria terra, estava a conquistar a América, a conquistar horizontes jamais imaginados por ele antes disso.

Mas então, se a referência ao Belo e à Paraíba parecem inimagináveis no caso acima citado, por que então a imprensa dita nacional (e não paulista, saliente-se) normaliza manchetes que idealizam um centro em detrimento de uma suposta periferia?

Quem, afinal, define o valor-notícia? Quem decide que um clube do Sudeste é mais importante do que um clube do Nordeste, por exemplo?

Todo esse preâmbulo, pois, é para analisar uma reportagem que foi publicada recentemente pelo portal da ESPN, em 9 de abril de 2022, sobre a estreia do Campeonato Brasileiro deste ano.

Fonte: Portal RMC

A manchete é assim:

“Ex-Corinthians dá show, e Palmeiras abre o Brasileirão com derrota para o Ceará em casa”.

Sim, eu estou mesmo propondo uma espécie de análise do discurso, um debate sobre um portal de notícias que se arvora nacional mas que, em casos como esse, demonstra um provincianismo difícil de entender.

Se o campeonato é o Brasileiro, se o portal é nacional, se a cobertura é total, por que, então, a referência, o centro, o que aparentemente importa, é tudo o que cerca o estado de São Paulo?

Para começo de debate, por que é o Palmeiras quem perde e não o Ceará quem vence?

Por que é o “ex-Corinthians” Mendonza (informação, aliás, que embora esteja na manchete, só aparece no oitavo parágrafo do texto) o craque do jogo, se faz quatro anos que o atacante colombiano não atua mais pelo clube paulista e se já há algum tempo ele é destaque do time cearense?

Tem mais.

Por que, afinal, em certo momento do texto, surge um intertítulo alertando que “poderia ser pior”?

Pior para quem, oras?

Para o Ceará, que venceu fora de casa, ao menos que eu saiba, melhor impossível.

Mas então…

Por que a ênfase total no Palmeiras? Por que diminuir o mérito cearense? Por que o destaque a um Corinthians que nem mesmo participava do jogo em si? Por que lamentar um suposto cenário mais catastrófico de um clube sem nem se importar com o feito do vencedor? Por que a cobertura da mídia é apequenada ao ponto de imaginar que o futebol que importa é apenas o do Sul e do Sudeste brasileiro?

Enfim, pesquisadoras como Hévilla Wanderley e outros nomes da Rede Nordestina de Mídia e Esporte (ReNEme) discutem amplamente a “questão nordestina” no futebol brasileiro. Os leitores que quiserem poderão se aprofundar no tema, visto que aqui é impossível fazer isso.

Mas é imperativo lembrar que portais como a ESPN, que relegam o Ceará à margem, a uma posição coadjuvante e de menor importância aos clubes do chamado “eixo”, é o mesmo que se infla sempre que possível para chamar sonsamente de “xenofobia” (sim, Mauro Cezar Pereira, eu estou falando de você, mesmo que você não faça mais parte do grupo) as tentativas de resistência dos clubes nordestinos contra essa hegemonia predatória que, muitas vezes financiadas pela própria mídia, tenta classificar de “nacional” apenas aquilo o que lhes cerca.

Mas, se a resistência não partir dos clubes do Nordeste, e de todos os demais de fora do “eixo”, quem haverá de resistir a esse tipo de abordagem que institucionaliza o preconceito? Que classifica como estrangeiro (um “estranho”, um “não proprietário do solo”, nas palavras de Georg Simmel), todos os clubes que estão para além da província que a “mídia nacional” se sente parte?

No fim de tudo, era esse o questionamento que eu queria deixar.

Referências

FERNANDES, Hévilla Wanderlley. Não é Apenas um Jogo: a questão meridional no futebol. 2020. Dissertação. Mestrado em Ciência Política – Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e Relações Internacionais, Universidade Federal da Paraíba (UFPB), João Pessoa, UFPB.

SIMMEL, Georg. O Estrangeiro. Trad. Mauro Guilherme Pinheiro Koury. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 4, n. 12, pp. 265-271, dez. 2005.

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Inscrições abertas para XVI Encontro Nacional de História Oral

A Associação Brasileira de História Oral (ABHO) convida professores, pesquisadores de todas as áreas de conhecimento humano e público interessado de todas as regiões do Brasil para participar do XVI Encontro Nacional de História Oral. As inscrições de trabalhos já podem ser feitas no site (www.even3.com.br/xviencontronacionaldehistoriaoral/). A chamada foi iniciada dia 20 de fevereiro e será encerrada na próxima semana, dia 20 de abril.

O evento conta com simpósios temáticos nas mais diversas áreas, sendo uma delas a esportiva. Nomeado de “Esportes, narrativas orais e memória”, o simpósio temático 3 tem por objetivo reunir trabalhos que investiguem a História do Esporte e das Práticas Corporais por meio de fontes e narrativas orais.

O XVI Encontro Nacional de História Oral acontecerá de 25 a 28 de julho e terá como sede a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Como fazer sua inscrição

1. Na página principal do evento (www.even3.com.br/xviencontronacionaldehistoriaoral/), clique, no canto superior direito da tela, em Login;

2. Caso já tenha login no sistema Even3, utilizar seu e-mail e senha. Caso não possua, clique em “Não tem uma conta? Cadastre-se”. Se este for o caso, crie sua conta e guarde a senha, que será necessária para acessar a área de inscrito, submeter trabalhos, entre outras funções;

3. Retorne à página do evento e clique no botão “Realizar inscrição”. Escolha a categoria de inscrição pessoal e, em seguida, clicando em “Realizar inscrição” novamente;

4. Preencha os seus dados, completando o formulário e, se for associado da ABHO em dia com a anuidade 2022, anexando o comprovante ao final e indicando o código de afiliado;

5. Caso deseje adquirir itens de souvenir do encontro, adicione em sua cesta. Você também pode optar por “Não selecionar itens e continuar”;

6. Ao final desse processo, deverá aparecer a informação “Inscrição confirmada”, caso você seja filiado à ABHO. Caso não, deverá proceder com o pagamento da taxa de inscrição, que é indispensável para que a submissão de propostas seja feita. Do contrário, a área de submissão estará inacessível.

Como submeter suas propostas

1. Após fazer seu login na plataforma Even3 (www.even3.com.br), verificar no topo da tela se o evento correto (XVI Encontro Nacional de História Oral) está selecionado;

2. Clicar em “Realizar submissão” (botão na cor azul escuro);

3. Clicar no botão “Submeter” (botão na cor azul escuro);

4. Escolher a modalidade para a qual você está enviando uma proposta;

5. Preencher os dados completos da proposta, prestando atenção para adicionar co-autores (se for o caso) utilizando o botão “Adicionar autor”;

6. Ao final do preenchimento do formulário, clicar em Submeter;

7. Caso a submissão tenha sido bem-sucedida, você será direcionado à página de suas submissões no evento. Caso encontre uma mensagem de erro, favor verificar o formulário, atentando para as regras de preenchimento.

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Les Bleus contra Zemmour: a primeira “final” da França em 2022

O futuro da França está em jogo dentro e fora de campo no ano de 2022. Nos gramados da Copa do Mundo no Qatar, o país vai tentar o tricampeonato a partir de novembro. Uma nova conquista terá o poder de reforçar o legado construído desde 1998 pela seleção multiétnica, com o protagonismo de jogadores brancos, negros e de descendência árabe em um momento de crescente xenofobia e racismo entre os franceses. Fora das quatro linhas, porém, o adversário deseja acabar com tudo o que os “Les Bleus” representam: Éric Zemmour, candidato a presidente nas eleições deste domingo.

Após ter ficado fora das Copas de 1990 e 1994, a seleção masculina passou por uma transformação que se confunde com a da própria sociedade francesa. A partir de 1998, a renovada equipe, fruto da migração ao país nas décadas anteriores, disputou três finais de Copa do Mundo e venceu duas, em 1998 e 2018; foi a duas finais de Eurocopa e venceu uma, em 2000; e conquistou duas Copas das Confederações, em 2001 e 2003. O desempenho só se compara ao da seleção brasileira, a única que conquistou mais títulos no período.

Zidane, filho de argelinos, ergue a taça da Copa do Mundo ao lado de Lizarazu (à esquerda) e Desailly, ganês naturalizado francês (à direita): trio é símbolo da nova França do final dos anos 1990. Foto: AFP

No entanto, enquanto acontecia a ascensão meteórica do futebol francês, Zemmour também ganhava notoriedade, justamente fazendo oposição à seleção nacional. O principal livro do jornalista, escritor de extrema-direita e candidato a presidente, com mais de 250 mil cópias vendidas, analisa o primeiro título mundial da França no futebol por um viés racista e xenófobo.

Tom anti-imigração do jornalista, escritor e candidato à presidência da França Éric Zemmour é apelo aos nostálgicos de um país que não existe mais. Foto: Eric Gaillard/Reuters

Em “Le Suicide Français” (“O suicídio francês”, em português), Zemmour afirma que a celebração nacional da vitória por 3 a 0 sobre o Brasil foi um passo rumo ao suposto “declínio do país”, por “priorizar o feito dos jogadores negros, brancos e árabes, ao invés do azul, branco e vermelho da bandeira francesa”. Para Zemmour, a França só foi campeã devido à liderança do treinador Aimé Jacquet e do capitão e atual técnico da seleção Didier Deschamps, dois homens brancos, negando a contribuição de atletas negros e de descendência árabe que são referências no futebol até hoje, como o meia Zinedine Zidane, autor de dois dos três gols daquela final, o lateral-direito Lilian Thuram e o volante Patrick Vieira.

Após a publicação do livro, Zemmour virou presença recorrente em programas de debate em emissoras de rádio e TV, e colunista de jornais de direita na França, como o “Le Figaro”, o que serve de alerta para o jornalismo profissional não compactuar com a ascensão de quem pode justamente atacar a imprensa e a democracia, em troca de polêmica e audiência.

Zemmour no poder executaria o projeto de destruição da bandeira da igualdade racial, da tolerância, da integração e da representatividade da seleção francesa de futebol. No entanto, está difícil virar o jogo. Antes em segundo lugar, o candidato agora está apenas em quarto, com 10% das intenções de voto. No entanto, outra candidata alinhada ideologicamente a Zemmour, Marine Le Pen, com 21,5%, deve disputar em 24 de abril o segundo turno contra o atual presidente Emmanuel Macron, de centro e líder nas pesquisas com vantagem de somente 5 pontos percentuais. 

A França pode até ser tricampeã mundial no Qatar, em dezembro, confirmando o favoritismo. Mas, para sair vitoriosa em 2022 de fato, precisa, antes, vencer nas urnas.

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Paulo André e a polêmica do bolsa atleta 

Paulo André Camilo, jovem de 23 anos, nasceu em Santo André, no ABC Paulista, mas cresceu em Vila Velha, no Espírito Santo. Velocista multipremiado, atleta olímpico, recordista sul-americano sub-18 dos 100m rasos, terceiro homem mais veloz da história do Brasil e campeão no Mundial de Revezamento no 4x100m rasos de 2019.

Fonte: Veja

Embora referência no seu esporte, antes de sua entrada no reality Big Brother Brasil, Paulo André não era um rosto conhecido pelo povo brasileiro. Após aceitar o desafio de ingressar no BBB, o atleta passou a ser citado e muitos dos seus feitos no esporte vieram à tona nas redes sociais – e foram recebidos por muitos com curiosidade e surpresa.

Muitos dos usuários das redes sequer tinham ouvido falar no atleta enquanto outros o conheciam mas não sabiam do seu destaque no atletismo. Atualmente, Paulo é assunto constante, seja por sua atuação no reality, seja por sua aparência ou por notícias relacionadas ao esporte.

Polêmica

Durante a estada na casa, o ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos), questionou a bolsa atleta paga mensalmente ao velocista Paulo André, gerando diversos comentários nas mídias sociais, principalmente no Twitter.

Fonte: Twitter

Na última semana, o Governo Federal suspendeu o pagamento da bolsa ao velocista após entender que, uma vez que o atleta estava confinado, não estava cumprindo o programa anual de treinamento apresentado em janeiro de 2021 para aquele ano.

O que é o bolsa atleta?

Segundo o governo federal, o investimento anual no esporte é de R$ 750 milhões. Esse valor é destinado majoritariamente para atletas olímpicos e paraolímpicos – através da Lei das Loterias, do Bolsa Atleta e Lei de Incentivo ao Esporte.

Dos 302 atletas olímpicos convocados ao Japão, 242 (80%) fazem parte do programa Bolsa Atleta. Ainda assim, 41 fizeram algum tipo de vaquinha (financiamento coletivo) para arrecadar dinheiro. E 33 atletas não se sustentam unicamente com o esporte.

Segundo o site da Caixa Econômica, responsável pelos pagamentos, “o Bolsa-Atleta é um programa do Governo Federal, gerido pelo Ministério da Cidadania, que visa garantir a manutenção pessoal aos atletas de alto rendimento que não têm patrocínio. O programa dá as condições necessárias para que eles se dediquem ao treinamento esportivo e possam participar de competições que permitam o desenvolvimento de suas carreiras”.

O valor do benefício varia entre parcelas de R$370,00/mês (para Atleta Estudantil) e R$ 15.000,00/mês (para Atleta Pódio). Veja a lista abaixo:

Valor do benefício:

Atleta Estudantil: R$ 370,00/mês.

Atleta de Base: R$ 370,00/mês.

Atleta Nacional: R$ 925,00/mês.

Atleta Internacional: R$ 1.850,00/mês.

Atleta Olímpico e Paralímpico: R$ 3.100,00/mês.

Atleta Pódio: até R$ 15.000,00/mês.

E o que isso revela sobre a atual situação do esporte brasileiro?

Como o investimento financeiro em esporte é concentrado nos atletas de alto rendimento, a formação de talentos entre crianças e adolescentes torna-se escassa no Brasil. Esse cenário exibe não só o desperdício do potencial da juventude, mas também a ignorância em não pensar o esporte como fator importante para a geração de empregos.

“O discurso de usar o esporte para tirar a molecada da rua é ultrapassado. A gente precisa pensar no esporte como carreira e profissão. Ele emprega não só o atleta, mas cerca de 30 tipos diferentes de profissionais envolvidos”. (comentou Diogo Silva, ex-atleta olímpico e campeão panamericano no taekwondo, em live sobre iniciativas públicas para formação de atletas)

Fonte: Vírgula

Além de gerador de empregos, o esporte atua como forma de prevenção de doenças – impedindo gastos evitáveis na área da saúde, melhora a concentração, reduz o estresse, estimula o desenvolvimento cognitivo, colabora para socialização e contribui para a formação física e psíquica. 

Referências:

BBB 22: conheça Paulo André, campeão mundial e atleta olímpico | atletismo | ge (globo.com)

CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo

https://www.gov.br/cidadania/pt-br/noticias-e-conteudos/esporte/noticias_esporte/com-mais-de-r-750-milhoes-de-investimento-anual-governo-federal-se-consolida-como-maior-patrocinador-do-olimpismo-no-brasil

Bolsa-Atleta, Apoio aos Atletas de Alto Rendimento (caixa.gov.br)

(1) Novo ciclo olímpico: iniciativas públicas para formação de atletas | Interolímpico – YouTube