Artigos

Lutador e Peronista


Por Cesar Torres* e David M. K. Sheinin**

Nascido em 1976 no bairro portenho de La Paternal, F relata uma experiência muito comum na comunidade judaica argentina. Seu pai morreu quando tinha oito anos. Entretanto, foi na vida adulta que tomou conhecimento de um segredo profundo do qual seus familiares haviam falado apenas em sussurros: seu pai, um operário industrial, havia sido peronista.

Não foi simplesmente como se seu pai tivesse se “equivocado” como seguidor judeu de Juan Domingo Perón, mas sim que sua identidade peronista envergonhava aos familiares. Este trabalhador industrial representou a antítese à ascensão da classe média judaico-portenha. A história que F contou corresponde com a imagem do jornalista Jacobo Timerman no livro Timerman: el periodista que quiso ser parte del poder. A autora, Graciela Mochkofsky, conecta a identidade judaica de Timerman (e de outros judeus argentinos) à modernidade do século XX, associada com os ideais liberais do século anterior, originados na França napoleônica, e aos princípios de cidadania completa e livre para os judeus na Europa.

Em seu livro Los muchachos judíos peronistas, o historiador Raanan Rein demonstra que a distância entre os judeus e o peronismo era um mito. Enquanto muitas pessoas ainda associam Perón com o antissemitismo, antes de Rein não havia sido apresentado de forma tão contundente que dentro da comunidade judaica houve um apoio notável a Perón. Levando em conta a insistente associação do peronismo com a identidade argentina, o mito do distanciamento entre a comunidade judaica e o peronismo constata o tom preconceituoso quando ela é apresentada como estrangeira. Los muchachos judíos peronistas explica que o peronismo é também parte da história da comunidade judaica argentina no século XX. Perón declarou explicitamente que a etnia judaica – assim como a árabe ou a japonesa – não diminuiria a identidade argentina. Ao contrário, o peronismo representou o primeiro movimento político argentino que afirmou a argentinidade das diferentes comunidades étnicas e religiosas. Para muitos argentinos judeus, o peronismo ofereceu uma entrada livre de dúvidas à nova sociedade argentina – a Nova Argentina de Perón na fórmula partidária – forjada a partir dos anos quarenta.

Fonte: eraseperonia.com

O esporte peronista

Perón praticou todo tipo de esporte, desde boxe à esqui, desde esgrima ao motociclismo. Mais do que reforçar sua própria masculinidade com o cultivo de uma imagem pública de atleta vigoroso, Perón chegou à presidência com uma visão de inclusão social que incorporava o esporte para beneficiar as classes populares. Os dez anos peronistas foram, segundo o antropólogo Eduardo Archetti, “exemplares e não houve, posteriormente, outras intenções sistemáticas de vincular o esporte com a nação através de políticas estatais claras e articuladas”. Além da participação de milhares de jovens nos Jogos Evita e da organização de espetáculos desportivos como os primeiros Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 e da construção de infraestrutura esportiva como o Autódromo Municipal, Perón apoiou a muitos atletas, desde boxeadores de bairros até automobilistas famosos. O boxeador José María Gatica, por exemplo, era o favorito de Perón. Seu laço com o peronismo ia mais além desse apoio, Gatica se autoidentificou com o movimento e a noção de que o público o percebia como peronista marcou um pertencimento social e cultural que excedia a política que o movimento promovia. Como lutador, como trabalhador e como uma pessoa que buscava a vida bem-sucedida, Gatica representava a esperança que a classe trabalhadora associava com a Argentina do futuro sob a tutela do peronismo. Da mesma forma, quando Evita Perón apoiou a equipe do Club Atlético Banfield no campeonato de futebol masculino da primeira divisão de 1951, essas mesmas qualidades foram reconhecidas em jogadores pouco conhecidos do subúrbio de Buenos Aires: lutadores, trabalhadores e batalhadores.

León Genuth um lutador judeu argentino que se destacou a nível nacional e interacional durante o peronismo exemplificou as qualidades citadas. Relembrando seus treinamentos do começo dos anos cinquenta, disse que “convivia com muito entusiasmo e sacrifício”. Manifestou, por exemplo, que “se a eletricidade fosse cortada, sem acovardar-se, as velas eram colocadas ao redor dos tapetes nas cadeiras, para não parar a atividade e continuar o treinamento; também, na maioria das vezes, tínhamos que tomar banho frio em pleno inverno”; Genuth admitiu que “sempre tomei como meu o lema macabeu ‘¡Jazaak Veematz!’ (seja forte e valente), que guiou minha vida e minha atividade desportiva”. Essa dedicação estava em consonância com a ideia que Perón tinha do esporte. Em uma carta enviada aos desportistas argentinos que participariam nos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951, grupo do qual Genuth fazia parte, Perón expressou aos atletas que “defender as cores sagradas da nossa bandeira em um evento esportivo pressupõe a mesma honra e o mesmo sacrifício que fazê-lo em qualquer outra ocasião. A pátria se defende de uma só maneira: com toda a alma, com toda a vida”. E completou: “lembre companheiro que nessa defesa você é a síntese de todo um povo”, para salientar que “nos esportes, como em todas as coisas da vida, se vence com a cabeça, se chega com o coração e se chega ainda mais longe com a vontade tenaz e inflexível de vencer”.

A carreira esportiva de León Genuth

Ainda que tenha nascido na Província de Entre Rios em 1931, Genuth se desenvolveu como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente tanto no estilo livre como no greco-romano. Em 1949, ainda tendo idade da categoria juvenil, foi campeão argentino de peso médio em ambos os estilos, título que manteve por vários anos. Por esse rendimento foi selecionado para competir no ano seguinte na Terceira Macabeada, a primeira celebrada no Estado de Israel, estabelecido em 1948. Era a estreia argentina nesse festival, que promove as tradições, a identidade e a solidariedade judaica através do esporte. Genuth obteve o primeiro lugar em seu peso, em ambos estilos. De acordo com o testemunho do lutador, Pablo Manguel, dirigente da Organização Israelita Argentina, e embaixador argentino em Israel entre 1949 e 1954, dedicou seus triunfos sobre o tatame a Perón, quem o havia designado para o cargo. O historiador Ignacio Klich afirma que Manguel, o primeiro latino-americano com cargo de embaixador naquele país, fazia parte “de um pequeno grupo de judeus peronistas”.

Na volta à Argentina, Genuth conheceu Perón através de Rodolfo Valenzuela, presidente da Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino. Perón entregou-lhe um troféu e perguntou se o lutador estava concentrado em Ezeia, onde havia sido erguido um centro de treinamento descrito como “um laboratório do triunfo”, com o plantel que competiria nos Jogos Desportivos Pan-americanos no começo de 1951. Como não fazia parte desse plantel, Valenzuela disse-lhe que passaria umas férias com a equipe de luta. Genuth respondeu que não lhe interessavam as férias, mas sim ter a possibilidade de participar das provas seletivas que determinariam a confirmação final da equipe. Foi lhe dada a permissão, Genuth foi selecionado e ganhou a medalha de ouro no estilo livre na divisão de 79kg. No ano seguinte, Genuth foi membro da delegação argentina nos Jogos Olímpicos de Helsinki, onde obteve o sexto lugar no mesmo estilo e divisão. Seu último combate foi em 22 de julho, quatro dias antes do falecimento de Evita Perón. El Gráfico anunciou “que a delegação argentina recebeu um duro golpe com a notícia”. Já o Mundo Deportivo informou que “em Helsinki se chorou a porta-bandeira dos humildes” e que aqueles “dias nebulosos e tristes, foram desconcertantes e angustiantes para os jovens integrantes da delegação argentina”.

Em 1953, Genuth competiu na Quarta Macabeada, organizada pela segunda vez em Israel, onde manteve os títulos obtidos em 1950. Da mesma maneira, nos segundos Jogos Desportivos Pan-americanos, organizados em 1955 na Cidade do México, Genuth defendeu com sucesso o título obtido em Buenos Aires quatro anos antes. Tudo indicava que tinha grandes chances de se destacar nos Jogos Olímpicos de 1956 que seriam realizados em Melbourne. O mesmo lutador recordou tempos depois que figurava em primeiro no ranking nacional para representar a Argentina no evento. Entretanto, a destituição de Perón pela ditadura civil-militar autodeterminada Revolução Libertadora, quase seis meses depois de sua volta do México, frustraria suas aspirações. Os líderes da Revolução Libertadora pretendiam expulsar o peronismo da vida nacional, incluindo o esporte. Para isso, formaram uma comissão que investigou supostas irregularidades no funcionamento das federações desportivas nacionais e atos considerados em violação ao código amador durante a década peronista. Desta maneira, foram suspendidos, por um processo irregular, arbitrário e vingativo, um grande número de dirigentes e atletas. Até outubro de 1956, Genuth figurava como membro da delegação que viajaria a Melbourne. Porém, a poucos dias de embarcar na viagem, foi excluído dela. Genuth explicou que “a desculpa foi que ao ter ganhado no ano anterior os Jogos Pan-americanos no México, teriam que investigar se (os melhores representantes de vários esportes) estavam competindo por regalias”. Segundo o jornalista Dante Panzeri, “de León Genuth não existiam provas de ter recebido a quarta parte de um carro dos que foram distribuídos aos campeões pan-americanos no México”. Mas, prosseguia Panzeri, quem apoiava, em suas palavras, a “Revolução que há mais de um ano pôs fim a uma longa noite da vida argentina”, como “(Alberto) Longarella (outro lutador que também havia ganhado uma medalha de ouro no México) declarou que teria repartido com pessoas entre as quais estava Genuth, e ali ele caiu”.

Para o historiador Roberto Baschetti, após a amarga provação, Genuth “foi para o exílio empurrado pelos ‘libertadores’”. Entre 1957 e 1959, Genuth trabalhou no México e nos Estados Unidos ensinando luta e em sua volta à Argentina assumiu o comando na Sociedade Hebraica Argentina. Em pouco tempo, a Federação Argentina de Luta o designou como treinador da seleção nacional, preparando equipes para vários eventos internacionais. Em 1967, Genuth foi contratado para desenvolver a luta livre no Peru, onde morou por dez anos. Ao retornar à Argentina, se encarregou da luta livre na Organização Hebraica Argentina Macabi, e a Federação Argentina de Luta o designou como treinador de todas as seleções nacionais.

Um lutador peronista

A vitoriosa carreira desportiva de Genuth, assim como seu final repentino, coincidiu com a década peronista. Dessa maneira, esteve marcada pelas diretrizes, políticas e dificuldades do governo de Perón. Genuth foi o desportista judeu argentino de maior relevância durante esse período e, talvez, um dos mais transcendentes da história nacional. Não se tem conhecimento de pronunciamentos públicos sobre sua posição a respeito do peronismo. Em relação a sua exclusão, pela Revolução Libertadora, da delegação que competiria nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956, Genuth declarou criticamente “que se afastou do amadorismo (e não seguiu competindo) por dar-se conta da politização do esporte”. Qualquer que tenha sido sua posição a respeito do peronismo, sua figura representou, nas palavras de Rein, a legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (e religiosos) no seu país” e a semelhança, por exemplo, entre ser um bom argentino e ser um bom judeu. A coincidência de sua visão de esporte com a de Perón não é surpreendente. É nesse sentido que Genuth pode considerar-se como um lutador peronista. Assim, foi símbolo da integração social promovida pelo peronismo sem ter que renunciar ao componente judaico de sua identidade. Com Genuth, e a partir do impulso do peronismo, os esportistas judeus passaram a formar parte da polis desportiva argentina. Uma crônica do Mundo Deportivo sobre o torneio de luta dos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 mencionava sua medalha de ouro e destacava sua atuação no ano anterior na Terceira Macabeada. A revista também ressaltava que, graças à destreza dos lutadores nacionais e ao estímulo do público, “a vitória geral foi nossa”. Genuth, um lutador argentino judeu peronista, era um deles.

Texto originalmente publicado no site Erase Una Vez En Peronia no dia 27 de janeiro de 2021.

* Cesar Torres Doutor em filosofia e história do deporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** David M. K. Sheinin Duotor em história. Docente ma Universidade de Trent.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo oitavo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo oitavo episódio é “Os 30 anos do livro O que é sociologia do esporte”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Fausto Amaro, recebemos Ronaldo Helal, autor da obra, coordenador do LEME e professor da UERJ.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo sexto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Brasil, mostra tua cara“, composta por George Israel, Nilo Romero e Cazuza.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Convidado: Ronaldo Helal

Artigos

Ditadura, esporte e a aceitação do inaceitável

22 de junho de 1970, Jorge Curi descreve de forma magistral o último gol do
Brasil contra a Itália no estádio Jalisco que começa com os dribles de Clodoaldo e termina com o chute preciso do capitão Carlos Alberto. O gol metaforizava o que tornaria uma associação automática da seleção brasileira ao chamado futebol-arte. A Copa de 1970 também serviu para análises da exploração política do futebol pelo governo.

13 de outubro de 2020, André Marques narrava a partida das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022. A vitória por 4 a 2 da seleção brasileira sobre o Peru teve uma repercussão menor frente a uma nota lida pelo locutor. A nota metaforizou a noção de que uma empresa estatal passa a ser confundida com uma empresa do governante.

Em 1970, antes do quarto gol, Curi destaca: “Quarenta e um minutos de luta. E vamos ter a palavra daqui a pouco de sua excelência, o presidente da república…bola entregue na direção de Clodoaldo, dribla um dribla dois…” A sutil menção ao então presidente, Emilio Garrastazu Médici, nem chega a citar seu nome. Com apenas cinco linhas de transmissão disponíveis para o país foi preciso fazer um pool entre as emissoras. O Grupo 1 ficou com Rádio Tupi, Rádio Clube de Pernambuco e Guarani de Belo Horizonte. O grupo 2 com a Continental, JB e Guaíba do Rio Grande do Sul. No grupo 3, a Rádio Globo, Nacional e Gaúcha revezaram seus locutores e comentaristas. No quarto grupo, as paulistas: Rádio Nacional, Band e Jovem Pan. No quinto grupo a Rádio Mauá e a Itatiaia de Belo Horizonte. Waldir Amaral e Jorge Curi dividiram a locução radiofônica onde cada um narrava um tempo. Interessante observar que a unificação das transmissões e sua abrangência nacional, produziram um discurso único na narrativa radiofônica e televisiva. A televisão se preparou para a transmissão como nunca havia feito. O Ministério das Comunicações negociou diretamente com a empresa
detentora dos direitos de transmissão e inicialmente o patrocinador seria único: a Caixa Econômica Federal. Com a instalação da estação via satélite de Itaboraí em 1969, os patrocinadores Esso, Gillete e Souza Cruz enxergaram o potencial da Copa do Mundo e pagaram o valor de 1 milhão de dólares (as três juntas) para “bancar” a transmissão televisiva. Assim, a Caixa repassou os direitos às três.

brasil.elpais.com

Usar de ferramentas do aparato estatal para enaltecer as figuras mandatárias é algo comum em ditaduras. Foi assim em 1970 e se repete em 2020. A confusão de governar para si e seus aliados, alimentando sua bolha cada vez mais raivosa e descolada da realidade, esquecendo-se dos demais brasileiros, resgata debates sobre os limites da ação de um governo para propaganda pessoal, o que é bem diferente da publicidade estatal.

No dia 13 de outubro de 2020, o secretário de Comunicação Fábio Wajngarten, em conjunto com o presidente Jair Bolsonaro, amparados no artigo 84 da lei Pelé, que obriga que o jogo da seleção seja transmitido em televisão aberta, pressionaram a CBF para comprar o direito de transmissão e televisionar, agradando inclusive os empresários acusados de bancar disparos em massa de Fake News que auxiliam na sustentabilidade do seu governo, que tinham placas de publicidade no estádio onde o jogo aconteceu. A CBF comprou e repassou à TV Brasil as imagens.

O “abraço” ao presidente estava inserido em uma nota, no mínimo constrangedora: “em nome da secretaria especial de Comunicação Social da Empresa Brasil de Comunicação e do secretário Fabio Wajngarten, agradecemos a CBF nas pessoas do presidente Rogério Caboclo, do secretário geral Walter Feldman e do diretor de mídia Eduardo Zambini e um abraço especial também ao presidente Jair Bolsonaro que está assistindo ao jogo.” Além da intervenção e da clara tentativa de exaltação da imagem do presidente, notamos que, comparando com a transmissão de 1970, nem mesmo na ditadura militar nos seus piores momentos foi tão incisiva em usar uma transmissão esportiva para exaltar a figura que ocupava o cargo de presidente.

Longe da interpretação que o futebol seria ópio do povo, momento em que observa-se seu uso claramente político que teria como objetivo principal de “driblar” a consciência da população, vamos destacar a compreensão do futebol e do esporte como um espaço de conflitos. O esporte e toda a sua força simbólica se torna mais do que um locus de tentativa de dominação (ópio do povo) ele é um palco de disputas constantes. Nesse espaço de conflitos, procura-se também controlar as vozes legitimadas a falar
nessa esfera, amedrontando quem fala “contra” forças que controlam o esporte como a CBF e mais recentemente a CBV, por exemplo. Casos de atletas atacados em suas carreiras por disputar esse espaço são notórios, com destaque para Afonsinho que nos anos 1970 lutava pelo fim da lei do passe.

extra.globo.com

Recentemente Carol Solberg foi julgada por gritar: “Fora Bolsonaro”. Mas o que esse caso tem a ver com a bajulação de uma emissora estatal ao presidente? Tudo. Esses dois casos indicam como passamos a aceitar o inaceitável. O primeiro nível é parear jogadores que apoiaram o presidente a Carol, como se ambos fossem “manifestações democráticas”. Não, elas não estão na mesma árvore da democracia, que pode e deve ter diferentes galhos, mas a raiz deve se pautar em valores absolutamente necessários para operarmos a sociedade. Raízes como a defesa intransigente da dignidade humana, atacada constantemente pelos apoiadores do presidente com o slogan “bandido bom é bandido morto” e exaltação a torturadores. Raízes como a defesa das riquezas minerais e da terra como fonte de vida do mundo, que estão sendo destruídas e queimadas. Raízes como a defesa da vida que foi relativizada com a pandemia, afinal “todo mundo morre um dia”.

Não caberiam neste texto todos os exemplos de que a linha necessária para se manter a integridade humana vem sendo ultrapassada desde 17 de abril de 2016 com um voto em homenagem a um torturador e que se intensificou com o início do mandato do atual presidente. Uma vez ultrapassada, e ao banalizarmos esse rompimento, não conseguimos mais recolocar esse limite, mergulhando nossa sociedade no caos, no ódio, na mentira, nas mortes, nos ataques as minorias e no uso do bem público para fins privados. Rompeu-se o que não deveria ter sido rompido. Carol e seu grito tentam alertar que estamos indo para o precipício e foi culpada por isso. É falsa a questão de que todos devem se expressar livremente. Incitar violência não é liberdade de expressão. Ferir a dignidade humana não é liberdade de expressão. Apoiar esse governo não é um “ato democrático”, é um ato de destruição da democracia e de todas as raízes fundamentais para vivermos em sociedade. Devemos ser intolerantes com os intolerantes, como Karl Popper alertou.

Entretanto, o que fizemos foi normalizar este governo, assim como naturalizou-se regimes totalitários como o nazismo. Enquanto o atual governo entrega tudo ao mercado, os grandes jornais criam essas falsas questões, apoiam essas entregas e aceitam o inaceitável. Nesse consórcio, a TV Brasil foi mais clara e sincera na bajulação. Uma bajulação no nível de seus apoiadores que ao lerem este texto vão atacar em massa, mostrando o quanto são prejudiciais à sociedade. Enquanto para uns as instituições seguem funcionando e naturalizam a barbárie, o esporte se fortalece como este local de disputas. O local onde se combate. Como vimos nos EUA, país que é exaltado como régua moral deste governo, nas manifestações “Black Lives Matter” e em depoimentos como o do campeão da NBA Lebron James. Aqui Lebron e cia seriam punidos pelo STJD? Aqui as vozes que se levantam são censuradas. As que bajulam relativizadas. Aqui seguimos uma trágica evolução da mera menção do presidente em 1970 para um “abraço” em 2020. O que virá se continuarmos aceitando tudo? Que o esporte siga sendo nosso campo de batalha, que mais Carols tenham voz e que não aceitemos o inaceitável.

folha.uol.com.br
Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo quinto episódio do Passes & Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo quinto episódio é “Esportes Paralímpicos”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Carol Fontenelle, recebemos José Carlos Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/ Bauru), e Maurício Dumbo, atleta de futebol de 5, campeão paralímpico.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo quinto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi audiodescrição do clipe final dos Jogos Paralímpicos 2016.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

  • Linha de passe [filme]
  • Her [filme]
  • Special [série]

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Carol Fontenelle e Letícia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Carol Fontenelle
Convidados: José Carlos Marques e Maurício Dumbo.

Artigos

O que escolher?

Não é nenhuma novidade que a quantidade de informações a que estamos expostos atualmente não encontra precedentes na história humana. A tendência, aliás, é que isso se intensifique nos próximos anos. No mundo dos esportes, isso talvez seja mais facilmente perceptível do que em outras esferas sociais. São variados os sites de notícia, apps, programas de TV, jogos ao vivo, fantasy games, podcasts, canais no Youtube, perfis no Insta dedicados ao tema. Enfim, trata-se de uma infinidade de conteúdos à disposição de quem possui tempo para acessá-los e os dispositivos e assinaturas necessários para poder consumir todos ou alguns desses produtos. Sim, porque nada é totalmente de graça no século XXI. Boa parte dos conteúdos ao vivo de esporte está pulverizada por cerca de meia dúzia de empresas de comunicação. Um bom exercício de imaginação é supor o que Umberto Eco teria a nos dizer sobre isso – se, na década de 1980, ele já se queixava da “falação esportiva”, qual termo cunharia hoje para descrever o que vivemos?

Nos anos 1980, crescia a quantidade de programas de debate esportivo na televisão, comentando os jogos recém-encerrados, a rodada de um campeonato ou o mercado da bola. Atualmente, esse tipo de programa não está mais apenas nos canais televisivos; a concorrência agora é muito mais ampla. Aliás, o esporte concorre com inúmeras outras possibilidades de entretenimento audiovisual. Isso talvez explique por que o jornalismo esportivo pende cada vez mais para o humor, em detrimento da informação, para conseguir prender a atenção do espectador (não que humor e informação não possam caminhar juntos eventualmente…). Outro nicho em ascensão são os “influenciadores dos clubes”. Torcedores comuns, com ou sem diploma de jornalistas, que emitem suas opiniões sobre seus times do coração. Muitas vezes nesses vídeos, o influenciador “comenta” os comentários das mesas-redondas televisivas (boa parte das vezes discordando de um ou outro jornalista, que estaria supostamente contra o seu clube e favor dos rivais). Qual seria o próximo passo? Todo torcedor, em seus perfis pessoais na rede social em alta no momento, tecendo comentários sobre a opinião dos influenciadores, os quais por sua vez analisam os jornalistas dos grandes canais de TV? Se pensarmos bem, essa situação já ocorre nas caixas de comentários do Youtube, Instagram, Twitter…

showmetech.com.br

Como processar tantos dados? Dada a complexidade crescente da indústria do esporte, é demandado do torcedor conhecer o jogo para muito além das quatro linhas. Debates econômicos, antes restritos aos bastidores, vêm cada vez mais para a frente do palco. Clube-empresa, patrocínios, naming rights… são assuntos que hoje ocupam espaço nas conversas entre aficionados por esporte. “Meu clube fatura mais com patrocínios que o seu”, “Meu clube tem mais sócios”, “O estádio do meu clube lucra mais com naming rights” – não consigo imaginar esse tipo de afirmação sendo feita, por exemplo, na década de 1950. Se atualmente esses tópicos estão na ordem dos temas circulantes, isso se justifica, em parte, pelo que falei no início deste texto – quantidade cada vez maior de informação, sobre qualquer assunto e também sobre futebol. Outro exemplo são os fantasy games de esporte (como o Cartola FC), que, sob o incentivo de transformar qualquer torcedor em técnico, busca instigar que os usuários procurem informações não apenas sobre seu clube favorito, mas sobre todos os outros que disputam o campeonato. Pelo lado do torcedor/usuário, essa informação lhe permitirá escalar melhor seu time na plataforma, ao custo de mais tempo gasto no consumo de informação esportiva. Pelo lado da empresa, isso proporciona maior retenção de usuários em suas plataformas (logo, mais engajamento, alcance e todas aquelas métricas de marketing conhecidas) e, finalmente, a capacidade de barganhar com anunciantes por cotas maiores de publicidade.

Para que esse texto não fique excessivamente extenso e perca o seu curso, acho que podemos encerrar nos perguntando: como selecionar o conteúdo que, de fato, queremos assistir e não o conteúdo que nos é forçado goela abaixo pelos algoritmos das redes sociais ou pela programação televisiva? Acredito que, cada vez mais, tenhamos de agir tal qual gatekeepers da nossa própria grade de programação, não apenas fracionando o tempo dos nossos descansos entre os vários divertimentos que cultivamos, mas também hierarquizando o que julgamos relevante daquilo que não nos acrescenta muita coisa (seja em termos de informação ou mesmo de diversão). E, se você considera divertido mesas-redondas com mais humor do que informação, vá em frente e coloque esse programa no topo da sua hierarquia. Por outro lado, se você só assiste esses programas meio que por inércia, repense suas escolhas. Existem podcasts esportivos com informação de muito mais qualidade, sem abrir mão de uma linguagem acessível (vide o nosso Passes e Impasses, por exemplo). Para além da questão da qualidade do conteúdo, existe o tempo a ser gasto. Se você tem tempo de sobra e consumir esporte te dá mais prazer do que arrependimentos, acredito que não há problema em ser utilitarista aqui. No entanto, se a sua semana é corrida, e tempo é item escasso na sua vida, pense em dosar o consumo diário de esportes (temos aplicativos de controle de rotina e de gerenciamento de atividades que podem te ajudar com isso).

Em resumo, em nossa sociedade hiperinformacional, a gestão do tempo talvez seja o maior desafio, tanto para as empresas em geral, que querem mais e mais nacos da sua atenção diária, quanto para você, que deve direcionar o seu foco para aquilo que realmente é do seu interesse e não para o que lhe é imposto.

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo terceiro episódio é “Futebol e nacionalismos”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos o Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro Victor Andrade de Melo e o doutor em História Comparada pelo Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ Maurício Drumond.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Sou brasileiro”, composta por Nelson Biasoli e cantada pela torcida em época de Copa do Mundo

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Letícia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Victor Melo e Maurício Drumond

Artigos

As estátuas e o esporte caem do pedestal

Represada por séculos, a onda antirracista conseguiu, finalmente em 2020, romper os diques que mantinham, sob conforto e segurança, os privilégios de uma sociedade discriminatória.

A derrubada e a retirada de monumentos de personalidades identificadas com o racismo têm sido rotineira nos recentes protestos de rua que vêm exigindo justiça racial. Uma por uma, essas estátuas caem dos seus pedestais e geram o debate em torno da reinterpretação da história. E o caso de uma delas, no estádio olímpico de Amsterdã, mostra que essa onda pode causar transformações sem precedentes no esporte.

Turistas desavisados que até pouco tempo atrás passavam pelo estádio na capital holandesa invariavelmente se sentiam constrangidos.

Isso porque, desde 1928, estava lá uma estátua de bronze em que um homem saudava a todos com o braço direito retilíneo e esticado para frente. Ela foi idealizada pela escultora holandesa Gerarda Rueb na reforma do estádio para os Jogos daquele ano e em homenagem ao Barão Van Tuyll van Serooskerken, fundador do Comitê Olímpico da Holanda.

A intenção do monumento era recordar e exaltar uma suposta saudação da Antiguidade Romana, um dos berços da formação cultural do Ocidente. No entanto, apesar de ter sido erguida 5 anos antes da ascensão de Hitler, a estátua passou a ser associada, ao longo do tempo, ao nazismo, que influencia até hoje grupos racistas, como a Ku Klux Klan nos Estados Unidos. 

Estátua com o braço esticado para frente na entrada do Estádio Olímpico de Amsterdam causou polêmica. Foto: Evert Elzinga/EFE.

 

Diante das cobranças para a estátua ser removida, a Fundação do Estádio Olímpico de Amsterdã consultou um grupo de historiadores e concluiu que a saudação aos romanos é um mito. Não há relatos da época que comprovem que ela, de fato, existiu. Além disso, a estátua com a saudação acabou se tornando uma coincidência acidental e – por que não – trágica: o mesmo gesto com o braço esticado para frente tinha sido introduzido pelo Barão de Coubertin, fundador do Comitê Olímpico Internacional, nos Jogos Olímpicos de 1924, como símbolo de desportividade e respeito entre os atletas (VAN DER VOOREN, 2018).

Anos depois, os nazistas incorporaram o gesto aos seus rituais culturais, e a história fez desaparecer a saudação em meio ao constrangimento coletivo perante o terror causado pelo regime. Mas restava a estátua, bem intencionada no início, porém anacrônica, e que, por isso, já foi removida para um museu dentro do estádio

O esporte pouco havia feito para combater o racismo nas últimas três décadas em que se tornou um espetáculo global, bilionário e, por isso, um produto com grande capacidade de mobilização coletiva. Políticas afirmativas para negros foram raríssimas em clubes e outras entidades esportivas. Em meio às incontáveis injúrias sofridas por atletas negros, o que havíamos visto, no máximo, foi uma faixa “Diga não ao racismo” em estádios ou a frase “Vidas negras importam” em uniformes. Mas nada disso adiantou. 

Portanto, boicotar jogos da NBA e remover estátuas já compõem um avanço sem precedentes, embora ainda tímido. O esporte, em troca de lucros bilionários, frequentemente traçou estratégias para evitar debates raciais e de outros temas de ordem política. Para não desagradar patrocinadores, atletas foram compelidos a manter um comportamento “manso” em meio aos pedidos por engajamento social. Mas a impressão agora é a de que o silêncio da falsa normalidade e que, um dia, taxou o esporte de “alienado” definitivamente acabou.

 

Referências:

VAN DE VOOREN, J. Amsterdam 1928: Het onbekende verhaal van de Nederlandse Olympische Spelen. Balans, Uitgeverij, 2018.

Saluting statue to be removed from Amsterdam Olympic Stadium. Associated Press, Amsterdam, 14 de agosto de 2020. Acesso em: 04 set. 2020.

Produção bibliográfica

Coordenador do LEME publica capítulo em coletânea sobre futebol

 “O triste fim do ‘Canarinho Pistola’: a cobertura da Copa do Mundo de 2018 no jornal Meia Hora”, artigo de Ronaldo Helal e Leda Costa, coordenador e pesquisadora do LEME respectivamente, acaba de ser publicado no livro O futebol nas ciências humanas no Brasil. Organizada pelos professores Sérgio Settani Giglio e Marcelo Proni da Universidade Estadual de Campinas, a obra já está disponível on-line para compra no site da Editora Unicamp.

O objetivo do artigo escrito por Ronaldo e Leda é analisar a cobertura do jornal Meia Hora sobre a participação da seleção brasileira masculina de futebol na Copa do Mundo da Rússia. Os pesquisadores elegeram esse jornal popular por identificarem nele um tipo de cobertura diferente dos demais. A não-produção de heróis ou vilões por parte da mídia levantou questões sobre a falta de identificação entre a seleção e a nação brasileira, tão comum em outras épocas.

O futebol nas ciências humanas no Brasil, que está dividido em oito partes (Política; História; Sociologia; Antropologia; Comunicação e literatura; Outras áreas; Gênero, torcidas e racismos; Prorrogação), conta com outros nomes importantes da literatura esportiva, como Antônio Jorge Soares, Bernardo Buarque de Hollanda, Victor Melo, Gilmar Mascarenhas e Simoni Lahud Guedes.

Serviço

Título: O futebol nas ciências humanas no Brasil

Editora: Editora da Unicamp

Ano de Lançamento: 2020

Organizadores: Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt Proni

Sumário

Parte 1 – Política

1 – Futebol e política

Luiz Carlos Ribeiro

2 – Entre políticos e paredros: As relações políticas do futebol brasileiro na primeira metade do século XX

Maurício Drumond

3 – “A minha preocupação era jogar futebol”: Relações entre futebol e ditadura

Sérgio Settani Giglio

4 – A dimensão política do futebol-arte

José Paulo Florenzano

5 – Copa do Mundo de 1982: Ventos democráticos na Espanha e no Brasil

Alvaro Vicente do Cabo

6 – O F. C. Barcelona e o catalanismo: Apontamentos sobre as origens históricas da transcendentalidade política de um clube de futebol

Euclides de Freitas Couto

Parte 2 – História

7 – Futebol e história

João Manuel Casquinha Malaia Santos

8 – Entre a evidência e a especulação: A “origem” do futebol no Rio de Janeiro e em Niterói

Victor Andrade de Melo

9 – O nascimento do Sport Club Corinthians Paulista

Plínio Labriola Negreiros

10 – Mitos, futebol e identidade nacional (1930-1983)

Denaldo Alchorne de Souza

Parte 3 – Sociologia

11 – Esporte e sociedade em escritos de Roberto DaMatta

Alexandre Fernandez Vaz

12 – Fried, o futebol e a individualização do sportman

Ricardo Lucena

13 – Futebol e capitalismo global: Mercadorização do esporte e a formação de uma cultura neoliberal

Michel Nicolau Netto e Sávio Cavalcante

14 – Futebol bom é o europeu?! Sobre as teses do atraso e do desvio na
leitura do processo modernizador futebolístico brasileiro

Juliano de Souza e Wanderley Marchi Jr.

15 – A cooptação estratégica dos Brics pela Fifa: Análise da África do Sul, do Brasil e da Rússia

Marco Bettine

Parte 4 – Antropologia

16 – Sentidos, significados e rede de relações em torno do futebol: Exemplos analíticos

Simoni Lahud Guedes

17 – Futebol e antropologia

Arlei Sander Damo

18 – Futebol e antropologia, um jogo etnográfico “de categoria”

Enrico Spaggiari

19 – Garrincha, Pelé e Maradona: O sagrado esportivizado em tempos de iconoclastia futebolística

Luiz Henrique de Toledo

20 – Quando começa e termina o evento Copa do Mundo 2014?

Martin Curi

Parte 5 – Comunicação e literatura

21- Futebol e estudos de comunicação no Brasil: Caminhos e encruzilhadas de um campo indisciplinar

Édison Gastaldo

22 – Esporte e os meios de comunicação no Brasil: Vícios e virtudes de um matrimônio secular

José Carlos Marques

23 – Futebol e literatura no Brasil

Elcio Loureiro Cornelsen

24 – Poéticas do futebol: Formas do jogo no papel

Gustavo Cerqueira Guimarães

25 – Quem não faz leva: Futebol, linguagem e história

Raul Milliet Filho

26 – “O triste fim do canarinho pistola”: A cobertura da Copa do Mundo de 2018 no jornal Meia Hora

Leda Costa e Ronaldo Helal

Parte 6 – Outras áreas

27 – A geografia das Copas: O Brasil urbano em 1950

Gilmar Mascarenhas

28 – Estádios e arenas como lentes privilegiadas para capturar as transformações do espaço urbano

Fernando da Costa Ferreira

29 – O futebol-empresa no Brasil

Marcelo Weishaupt Proni

30 – Das “cinco estrelas” que ninguém tem ao 7 a 1 que ninguém levou:
A gestão como instrumento para o futebol brasileiro voltar a vencer

Leandro Carlos Mazzei e Ary José Rocco Jr.

31 – Pedagogia não linear no futebol: Uma busca por estratégias pedagógicas que possam nortear o processo de criação de tarefas representativas

João Cláudio Machado e Alcides José Scaglia

Parte 7 – Gênero, torcidas e racismos

32 – Dimensões de gênero e os múltiplos futebóis no Brasil

Wagner Xavier de Camargo

33 – Projetos de vida, mulheres e futebol

Osmar Moreira de Souza Júnior e Heloisa Helena Baldy dos Reis

34 – O Brasil é hexa: A trajetória esportiva de Marta

Cláudia Samuel Kessler e Silvana Vilodre Goellner

35 – A palavra e a voz no futebol: Apontamentos sobre mulheres e narração esportiva

Leonardo Turchi Pacheco

36 – Ordem & progresso nas arquibancadas: Jornalismo esportivo e a gênese das torcidas uniformizadas de futebol durante o regime político do Estado Novo (1937-1945)

Bernardo Buarque de Hollanda e Aníbal Chaim

37 – Futebol, violências e a política democrática no Brasil

Heloisa Helena Baldy dos Reis e Mariana Zuaneti Martins

38 – Narrativas sobre violência no futebol: (Des)construindo a categoria “torcedor violento”

Felipe Tavares Paes Lopes

39 – A experiência do torcer no (dito) “futebol moderno”

Silvio Ricardo da Silva e Priscila Augusta Ferreira Campos

40 – O “racismo à brasileira” no futebol

Bruno Otavio de Lacerda Abrahão e Antonio Jorge Gonçalves Soares

41 – “Essa é uma realidade”: Os racismos vividos e narrados por negros em várias áreas de atuação no futebol brasileiro

Marcel Diego Tonini

Parte 8 – Prorrogação

A polêmica sobre o VAR e suas consequências no futebol

Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt Proni

Eventos · Parcerias

Jornada de pós-graduandos recebe inscrições de pesquisas sobre Comunicação e Futebol no Nordeste

Divulgar as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por estudantes de mestrado e
doutorado nordestinas/os em programas pós-graduação que versam sobre futebol no
campo da Comunicação e em áreas afins. Esse é o objetivo da Jornada nordestina de
pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol, que será realizada de 9 a 11 setembro
de 2020 de maneira virtual, com transmissão online pelo canal do portal Ludopédio no
Youtube.

A partir desta segunda-feira, 10 de agosto, está aberta a chamada de inscrições de
resumos de pesquisas em desenvolvimento ou que tenham sido concluídas como
dissertação ou tese em 2019 ou 2020, tendo como objeto de estudo o Futebol. A
inscrição é gratuita e pode ser feita com o preenchimento do formulário que deve
conter um resumo de 15 linhas, em que o discente deve informar, pelo menos, objetivo
e metodologia de sua pesquisa. Todos os congressistas que apresentarem trabalhos
receberão certificados de participação.

As submissões seguem abertas até o dia 21 de agosto (sexta-feira). Após essa data, a
organização do evento formará as mesas de apresentação dos trabalhos de acordo
com as temáticas e suas relações com o campo do futebol, comunicação e áreas afins.
Após as apresentações orais das pesquisas, haverá um tempo reservado ao debate,
com participação aberta do público, que poderá interagir através do chat da
transmissão no Youtube.

O evento é uma iniciativa da Rede nordestina de Estudos em Mídia e Esporte
(ReNEme), que será lançada oficialmente por ocasião da jornada. O grupo já conta
com representações de discentes e docentes vinculados a universidades públicas de
estados como Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. A Jornada conta ainda
com a organização do grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da
Comunicação (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e tem também os apoios do capítulo Brasil do União Latina de Economia Política da Informação, Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil), com a jornada sendo um dos pré-eventos do 8° Encontro Ulepicc-Brasil; Laboratório de Estudos em Esporte e Mídia (LEME), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e do Ludopédio, portal de produção e divulgação científica sobre futebol.

SERVIÇO

Jornada nordestina de pós-graduandas/os de estudos de futebol na Comunicação e
áreas afins
Data: 9 e 11 de setembro
Local: canal do Youtube do portal Ludopédio (https://bit.ly/3ilCvxV)
Período de inscrições: 10 a 21 de agosto de 2020
Link de submissão de resumos: https://bit.ly/2C8F7zT

Artigos

Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

cesar3
Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

cesar1
pinterest.com

De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros