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“Paraibadas”

Repercutiu enormemente nos últimos dias na Paraíba, de onde escrevo, as declarações de uma subcelebridade brasiliense, dessas com muitos seguidores nas redes sociais, em que ela, ao se revoltar com um grave caso de violência contra a mulher, lembrava a origem do autor do crime e dizia que aquilo era coisa de “paraíba”.

A declaração, óbvio, não pegou bem. Repercutiu pela Paraíba e pelo Nordeste. Causou revolta.

Mas o pior foi a emenda que estava por vir.

Ao responder as críticas iniciais, disse que não fez nada demais. Que “paraíba” era uma mera força de expressão que vinha de “paraibada”, alcunha que segundo ela serviria para se referir a quem faz algum tipo de besteira. “Como por exemplo bater em mulher”, exemplificou.

Vocês entenderam bem, não foi? Para a tal subcelebridade, quem comete um crime faz, no fim das contas, uma “paraibada”. E ela dizia isso jurando que não estava cometendo nenhum tipo de preconceito.

Pois é justo nesse detalhe que eu queria me apegar no presente texto.

A facilidade que as pessoas têm de naturalizar a violência, de minimizar os efeitos do preconceito, de dizer que o alvo dos ataques é que estão exagerando. Ou, em sentido completamente oposto, as dificuldades dessas pessoas em entenderem que algumas expressões cotidianas, aparentemente livres de intencionalidades, tem uma carga terrível. Que, invariavelmente, leva ao preconceito – e à violência – para outros espaços.

Como, por exemplo, ao esporte.

Xenófobos, afinal, nunca se admitem como tal. E, sem se admitir, apenas disseminam o preconceito nas áreas mais distintas possíveis.

E, ao falar dessa questão numa perspectiva esportiva, é impossível não lembrar do famoso caso de Edmundo, à época jogador do Vasco da Gama. Tão longínquo, tão incrivelmente atual.

O ano era 1997. O jogo válido pelo Brasileirão daquele ano, entre o Vasco e o América-RN, era em Natal. O árbitro que acabou expulsando o jogador naquela partida, ainda nos primeiros minutos de jogo, era o cearense Francisco Dacildo Mourão. Mas, para Edmundo, tudo não passava indiscriminadamente de “paraibas”. Fazendo “paraibadas”, oras.

A frase ficou célebre:

– Viemos para a Paraíba e colocam um “paraíba” para apitar – disse ao microfone enquanto deixava o campo de jogo.

Momento em que Edmundo é xenofóbico durante entrevista. Fonte: Bol

Depois, quando a coisa se voltou contra ele, foi mais um a repetir o mantra dos preconceituosos:

– É que no Rio temos o costume de chamar os nordestinos de “paraíba”, só isso.

Só isso, pessoal.

Mas, não é só isso, a gente sabe bem.

Esse preconceito regional regular, naturalizado a ponto de não ser percebido pela maioria da população, gera consequências em todos os cenários possíveis.

Resulta, muitas vezes, numa precarizada cobertura esportiva daquilo que é praticado no Nordeste. Numa mudança de peso daquilo que é notícia para a chamada “grande mídia” – sugiro, a propósito, a leitura de novíssimo artigo de Ana Flávia Araújo (2021) sobre o tema. Numa Série A de Brasileirão pouco nordestina, numa Copa do Brasil cada vez mais anti-democrática e pouco interessada nos clubes fora do “eixo”, e por aí em diante.

Mas o preconceito não para por aí.

Apenas a título de ilustração, queria citar uma experiência que vivi durante minha pesquisa de mestrado, quando certa vez acompanhei torcedores do Botafogo da Paraíba a Ribeirão Preto, para um jogo da Série C do Brasileirão, que valia vaga na Série B do ano seguinte.

Imagine o bonito Estádio Santa Cruz completamente abarrotado.

Torcedores do Botafogo-PB no estádio Santa Cruz.

Milhares de torcedores do time do interior paulista circundando toda a arquibancada e espremendo cerca de 400 paraibanos num pequeno pedaço.

Cânticos, gritos, xingamentos, provocações ao longo de 90 minutos. Em quase todo o tempo, a mensagem era violenta, depreciativa, lembrando o lado supostamente negativo de ser “paraíba”. Falava-se de ignorância, de seca, de cabeças chatas, outros tantos estereótipos. Tudo sob o selo da “brincadeira”, da “simples expressão”, do “hábito”.

Pois não é brincadeira. Não é expressão. Não é modo de falar. É preconceito e violência que reverbera no cotidiano dos paraibanos e nordestinos. Por anos e anos a fio.

Nesta lógica, se me permitem parafrasear Miguel Vale de Almeida (2004) em sua reflexão sobre sinais diacríticos, o ser nordestino não é o outro lado da moeda de ser sudestino, por exemplo. É o lado pior, negativo, inferior, mais desvalorizado, enquadrado de forma genérica sob a pecha de “paraíba”. Numa homogenização, a propósito, que apaga toda riqueza e pluralidade da região.

Isso precisa ser combatido, repelido, ser tratado como de fato é: o mais puro e xenofóbico preconceito regional. Sem mais.


Referências

ALMEIDA, Miguel Vale de. O Manifesto do Corpo. Lisboa, Revista Manifesto, nº 5, pp. 17-35, 2004.

ARAÚJO, Ana Flávia Nóbrega. Até quando precisaremos salvar os times do sudeste e invisibilizar os nordestinos, PVC?. Ludopédio, São Paulo, 2021.

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O melhor dos piores? O futebol e a falta do espírito esportivo

Quem gosta de perder? Acredito que ninguém. Em competições que valem o título, então, é notório a disputa em campo por cada bola, em cada lance, como se fosse o último. Entretanto, no fim, só um pode sagrar-se campeão. E todos estão cientes disso, jogadores, técnicos, dirigentes, torcida. A taça só é levantada por um time, enquanto o outro fica com o segundo lugar.

Qual é o valor da medalha de prata, então? Seria ela o símbolo do “melhor dos piores”? Ou uma representação de estar no extrato dos melhores, guardando, inclusive, um lugar no pódio? No futebol, parece que ganha a primeira opção. É sintomático ver, em duas finais seguidas, a mesma imagem. Jogadores de Brasil e Inglaterra, logo após receberem as medalhas de prata, retiraram-nas do pescoço.

Neymar com a medalha de prata fora do pescoço. Fonte: O Globo

A dor, a frustração, a tristeza e a raiva, mesmo que presentes, não podem ser justificativas para tal ação. Não faz muito tempo, a imagem de Guardiola beijando a medalha de prata depois de perder a final da Liga dos Campeões para o Chelsea viralizou. Estaria ele menos triste que os demais? Ou Guardiola, com esse gesto, valorizava a campanha de seu time? Existe uma linha muito tênue entre a insatisfação pela derrota e o desprezo pela competição. Retirar a medalha de prata do peito é negar a própria trajetória de seu time, e, pior de tudo, não reconhecer a vitória do seu adversário. É a síntese da falta de espírito esportivo.

Guardiola beija medalha de prata depois de ficar com o vice na Liga dos Campeões. Fonte: ge.globo.com

Quais são os valores do esporte? Disciplina, trabalho em equipe e respeito, são conceitos que, frequentemente, estão presentes nas respostas dessa pergunta. É por isso que há beleza no esporte. Porque ele nos mobiliza ao mesmo tempo que nos ensina. Em muitos aspectos, o esporte é sim formador.

Quando se trata do esporte profissional, porém, entra em caráter o aspecto econômico, e a vitória possui, também, um valor monetário. Os valores do esporte, muitas vezes, ficam de lado, e fica o questionamento sobre o quanto essa profissionalização naturaliza condutas antiéticas, justificadas por “isso é futebol”. No imaginário popular, existe uma ideia de que ética e futebol não andam juntos. E que, portanto, qualquer coisa vale para se alcançar a vitória, que é a única régua para medir uma atuação.

É justamente aí que reside o perigo. Quando medimos qualquer coisa olhando apenas para um aspecto, perdemos uma gama de outras questões que moldam, no caso do futebol, um time, uma partida, uma final, uma medalha de ouro ou de prata. E, então, caímos em reducionismos simplistas: ouro é bom, prata é ruim. Repetidamente falamos que, “nem sempre ganha o melhor”. Então por que parece que sempre perde o pior? Que mensagem é passada para muitos jovens que, um dia, sonham em estar no lugar dos seus ídolos? Que só os que saem vitoriosos devem ser valorizados. E, assim, gira fortificada a roda do culto à vitória no futebol.

Harry Kane com a medalha de prata na mão, logo após recebê-la. Fonte: Congo News

Talvez nesse momento muitos torcedores estejam um pouco irritados, questionando se eu ficaria feliz com meu time ganhando uma medalha de prata. Antes de mais nada, vejam, não estou pedindo para ninguém sorrir e sair serelepe depois de perder um jogo. Até podiam, afinal, a conquista de um vice-campeonato não deixa de ser uma conquista. Mas o texto não é sobre isso. Não é sobre se alegrar com a derrota, mas em reconhecer a vitória do outro. É claro que, quando meu time está em uma final, o que eu mais quero é gritar “é campeão!”. E, portanto, é óbvio que eu vou ficar triste se ele perder. Mas eu ficaria muito mais triste vendo meu time tirando essa medalha do peito, desrespeitando o adversário, o campeonato, a torcida e a instituição.

Aceitar a derrota não é romantizá-la, não é sinônimo de conformismo e muito menos de passividade. Aceitar a derrota é o primeiro passo para vencer o próximo jogo. Caso contrário, corre-se o risco de se cometer os mesmos erros e ter os mesmos resultados. E esse filme já é conhecido por muitos…

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Tipologia de clubes de futebol no século XXI

Nesse texto comentarei brevemente uma proposta de tipologia de clubes de futebol no século XXI, elaborada ao longo de pesquisa desenvolvida em nível de doutoramento. Para não estender em demasiado as discussões que motivam (ou decorrem) do esquema classificatório aqui apresentado, o texto será referenciado em artigos, capítulos de livros ou obras de minha autoria, listados nas referências ao final do texto. Caso interesse ao leitor aprofundar as discussões aqui propostas, essas produções servem como ponto de partida.

Com o avanço da Lei das Sociedades Anônimas do Futebol (PL 5516/2019), ou Lei das SAF, apresentada e aprovada no Senado Federal, o diagrama pode ser útil para compreender as transformações vindouras. Uma vez que o processo de conversão dos clubes para empresas no Brasil é facultativo, muitos formatos podem se apresentar ao longo dos próximos anos. O projeto de lei, apesar de criar um novo tipo de sociedade anônima – com regras específicas para os clubes de futebol – também não define um único modelo possível, ainda que futuramente seja esse o modelo mais atrativo, dados os benefícios que gerará aos clubes aderentes.

O modelo classificatório aqui elaborado consiste em um diagrama ilustrativo, cuja finalidade é apresentar os tipos de clubes de futebol a partir de três níveis: 1) formato jurídico; 2) estrutura societária; 3) modelo político. Esse esquema está mais detalhado em um artigo que ainda não foi publicado até a publicação desse texto, tendo aqui a sua apresentação antecipada de forma resumida.

Diferente do que se costumar observar em debates sobre o tema, que tendem a resumir os clubes da atualidade entre “associações civis sem fins lucrativos” ou “sociedades empresárias” (os ditos clubes-empresa), o fato é que clubes de futebol constituem um quadro muito diverso no que tange à sua organização, constituição histórica, processo decisório, modelo administrativo, etc. No livro “Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, os diferentes capítulos vão apresentando essas questões de forma mais apurada.

Como a pesquisa original se dedicava a investigar os movimentos de torcedores em clubes de diferentes países, foi necessária uma compreensão mais profunda das particularidades dos processos de formação dessas agremiações em cada localidade estudada.

Essas experiências coletivas de torcedores mobilizados por pautas referentes à defesa do clube e dos estádios em diversos sentidos, o que demandou à pesquisa a detecção dos espaços concretos ou parciais da participação dos torcedores. Por isso o modelo classificatório surge como produto indireto da investigação, que percebia esses movimentos como formados por sócios, onde ainda existia uma associação civil; ou por “acionistas de base”, onde o clube já não contava com uma associação originária.

De todo modo, o diagrama possui utilidade para estudos que partam de outros objetivos, já que ajuda o pesquisador a visualizar/identificar os clubes existentes na atualidade dentro de um quadro mais amplo.

Ao menos 10 tipos de clubes podem ser visualizados a partir da tipologia proposta, como o diagrama completo demonstra:

Classificação de tipos de clubes de futebol

Como dito, a apresentação mais detalhada do diagrama será publica em breve em artigo, contando com exemplos concretos para cada modelo. Aqui, convém ao menos ressaltar os três níveis de classificação, e como eles apresentam outras subclassificações.

Nível 1: Formato jurídico

São três os tipos possíveis quanto ao “formato jurídico”: A) Associação civil sem fins lucrativos; B) Sociedade empresária; C) Sociedade anônima com associação como acionista.

O mais importante a ser ressaltado aqui é que os formatos jurídicos de clubes não podem ser reduzidos a “empresas” ou “associações”. Em clubes onde a associação civil está presente como mais um dos acionistas de uma sociedade anônima (modelo comum na Alemanha, Portugal e Chile), o funcionamento da agremiação é completamente distinto de uma sociedade anônima formada apenas por acionistas privados. Afinal, ainda existe ali uma associação civil à qual vários indivíduos estão vinculados de forma voluntária e abnegada, sem objetivos de participação financeira nessa entidade.

Nível 2: Estrutura societária

O segundo nível de classificação só se aplica basicamente ao modelo do tipo C (sociedade anônima com associação como acionista), uma vez que essa associação pode ter maior ou menor participação na sociedade anônima que controla os ativos financeiros do clube. Isso quer dizer que há casos onde a associação exerce o controle dessa sociedade, outros casos onde a associação compõe um conselho/órgão de administração ao lado de outros investidores privados, ou onde a associação possui participação minoritária com pouco poder de participação.

Como há muitas possibilidades de configurações quanto ao poder de participação da associação em uma sociedade anônima, esse nível de classificação se resume a dois tipos gerais: 1) associação como maior acionista; 2) associação como acionista minoritário.

Por razões óbvias, esse nível de classificação não se aplica aos casos de tipo A (associações civis) ou tipo B (sociedade empresária), aqui apenas representados como modelos “puros”.

Nível 3: Modelo político

A classificação de “modelos políticos” convém principalmente para os objetivos da pesquisa original que elaborou tal tipologia (o espaço de participação dos torcedores nos clubes). Por isso é importante observar qual tipo de associação civil está sendo observada: se uma associação restrita ou popular. Esses dois tipos sintetizam características que podem variar consideravelmente entre clubes de um mesmo país, como ocorre no Brasil, onde cada clube apresenta critérios próprios de admissão de novos sócios (restrito/aberto), quanto aos custos para o acesso e manutenção dos direitos associativos/políticos (custoso/acessível), ou ao próprio processo eleitoral em si (direto/indireto).

Dessa forma, avaliar se uma associação é popular ou restrita tem aplicabilidade principalmente ao tipo A1 (associação civil pura), e ao tipo C1 (S.A com associação como maior acionista). O mesmo não se aplica aos casos do tipo C2 (S.A com associação acionista minoritária).

Por outro lado, a ideia de observar o “modelo político” também serve para compreender a “dinâmica política” presente em clubes que possuem uma sociedade anônima. Essa pode ser formada por um número grande de acionistas que controlam cotas equilibradas de ações – dentre elas, muitas vezes, está também a própria associação originária do clube. A isso se escolheu definir por “sociedades dispersas”, que contrastam como aquelas “sociedades concentradas”, onde um único acionista tem o controle de maioria ou ampla maioria das ações da sociedade.

A classificação de sociedade dispersa ou concentrada se aplica tanto ao tipo B1 (sociedade empresária pura), quanto aos tipos B2 (sociedade anônima com associação como acionista minoritário). Do tipo B2, caberá observa ainda se a associação civil é de caráter popular ou restrita – o que gera uma quarta classificação exclusiva para esse tipo.

Resumo dos tipos

Dessa forma, assim se apresentam os 10 tipos de clubes:

  1. A1a: associação civil pura de caráter popular
  • A1b: associação civil pura de caráter restrito
  • B1a: sociedade empresária pura e dispersa
  • B1b: sociedade empresária pura e concentrada
  • C1a: associação civil de caráter popular como maior acionista da sociedade anônima
  • C1b: associação civil de caráter restrito como maior acionista da sociedade anônima
  • C2a¹: sociedade anônima dispersa, com associação popular como acionista minoritário
  • C2a²: sociedade anônima dispersa, com associação restrita como acionista minoritário
  • C2b¹: sociedade anônima concentrada, com associação popular como acionista minoritário
  1. C2b²: sociedade anônima concentrada, com associação restrita como acionista minoritário

Como observado anteriormente, o esquema classificatório aqui proposta será detalhado em um artigo ainda não publicado. Para leituras mais detalhadas e aprofundadas sobre o tema em questão, convém apreciar as referências bibliográficas apresentadas abaixo.

Referências

SANTOS, Irlan Simões da Cruz; SANTOS, Anderson David Gomes dos. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico. Rio de Janeiro, v. 9, n. 14, p. 246-261, 2018.

SIMÕES SANTOS, Irlan Simões (Org.). Clube empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol. Rio de Janeiro: Corner, 2020.

SIMÕES SANTOS, Irlan. Associação, pertencimento e participação: sobre ações políticas de torcedores nos clubes de futebol. In. MATIAS, Wagner Barbosa; ATHAYDE, Pedro Fernando Avalone. (Orgs.). Nas entrelinhas do futebol: espetáculo, gênero e formação. Curitiba: CRV Editora, 2021a, pp.33-48.

SIMÕES SANTOS, Irlan. Futebol-negócio e ativismos torcedores: notas para um estudo da política em clubes da Europa e América do Sul. Recorde, v. 14, n. 1, 2021b, pp. 1-14.

SIMÕES SANTOS, Irlan. O novo processo de empresarização dos clubes de futebol no Brasil: elementos para uma análise crítica. Anais do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2021c.

SIMÕES SANTOS, Irlan. Futebol-negócio, pertencimento ao clube e afeto pelo estádio: uma análise de movimentos de torcedores de Os Belenenses (POR) e Sevilla (ESP). In. HELAL, R.; COSTA, L.; FONTENELLE, C. Esporte, Mídia, identidades locais e globais: uma produção do Seminário Copa América. 1ed. Rio de Janeiro: Autorale/FAPERJ, 2021d.

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Show do Esporte

Para aqueles leitores com mais tempo de janela como eu, a associação do título é inevitável, porém é necessária uma explicação aos mais novos. No começo dos anos 1980 do século passado, o locutor esportivo Luciano do Valle comandava, todos os domingos, na TV Bandeirantes, uma maratona esportiva com diversas modalidades, muitas delas sem qualquer tradição na televisão brasileira, era o Show do Esporte. O jornalista, que chegou a ser chamado de Luciano do Vôlei, por sua importância no desenvolvimento da popularidade da modalidade no país, também trouxe para a telinha a Fórmula Indy, o campeonato italiano, o futebol master, o futebol feminino e até o futebol americano. Também ajudou a criar ídolos, um tanto quanto efêmeros, é verdade, como Rui Chapéu (sinuca) ou Maguila (boxe), mas a maior virtude da atração foi acreditar na força do esporte como entretenimento de massa bem além dos tradicionais gramados do velho esporte bretão e, isso, muito antes das TVs por assinatura e seus canais esportivos 24 horas.

Quem se interessa por Comunicação Social já ouviu falar, em algum momento, do termo infotenimento. Surgido também nos anos 1980, ele é uma tentativa de denominação para um tipo de conteúdo informativo menos formal, no qual jornalismo e entretenimento se mesclam. Os talk shows logo surgiram como seu principal exemplo, mas a tentação de aumentar audiências através dessa fusão fez com que os telejornais e outros programas de conteúdo informativo adotassem essa linha, digamos assim, mais leve, pelo menos para os conteúdos que assim o permitiam.

 O jornalismo esportivo embarcou de “mala e cuia” no trem do entretenimento. Não bastava mais informar, era quase que obrigatório descontrair, jogar com as palavras, fazer piadas, criar personagens, caçar emoções. O jornalista alagoano Márcio Canuto, que nessa época era um dos poucos a se aventurar por esse lado histriônico do noticiário de esportes, passou a fazer escola. E seus alunos, mesmo moderando o tom circense do colega, passaram a se tornar verdadeiros entertainers. Não é à toa que um dos maiores representantes dessa nova linha, o ex-repórter paulista Tiago Leifert, acabou se tornando apresentador de reality shows e programas de variedades na TV Globo.

Márcio Canuto, o “pioneiro”. (reprodução TV Globo)

 Impulso digital

Se essa tabelinha entre esporte e entretenimento já dava bons resultados antes da internet, depois da popularização dos PCs e dos smartphones, passou a ser forma de sobrevivência. A concorrência é pesada demais para os antes hegemônicos meios de comunicação tradicionais. Os elevados custos da produção para suprir a exigência de alta qualidade técnica tornaram as emissoras de TV em pesados brontossauros que tentam competir diariamente com os ágeis velociraptors digitais (como estamos falando em infotenimento, nada como uma citação de Jurassic Park). E pra complicar ainda mais a situação, o mercado consumidor da informação também mudou. A velocidade informacional dos meios digitais nos contaminou.  

De acordo com uma pesquisa apresentada pela Kantar/IBOPE, 80% dos brasileiros assistiram vídeos online gratuitos em 2020. Em outros países a média foi de 65%. A mesma desproporção vale para vídeos em redes sociais (72% x 57%) e vídeos em serviços por assinatura (62% x 50%). Um desafio para os grandes grupos de telecomunicação nacionais que, por enquanto, ainda resistem, como mostra o mesmo estudo. Mais de 204 milhões de brasileiros consumiram conteúdo em vídeo na televisão em 2020. E o tempo que cada pessoa passou em frente à TV foi 37 minutos maior do que em 2019, totalizando 7h09 horas diárias – recorde dos últimos cinco anos.

Só que não é preciso ser um profeta para ver que a diluição da oferta de conteúdo em vídeo vai ser cada vez maior e com isso dilui-se também o investimento publicitário que, no fim das contas, é o que faz a roda da comunicação girar.  Vejam essa declaração de Arthur Bernardo Neto, Diretor de Desenvolvimento de Negócios para Media Owners: “Em um mundo onde a interação entre pessoas passa a ser cada vez mais virtual, marcas e anunciantes buscaram novas formas de se aproximar do público. Apesar do distanciamento físico, estamos próximos. A interatividade está em alta. Em agosto, por exemplo, 8% dos brasileiros disseram ter escaneado um QR Code pela primeira vez na pandemia”.

Para continuar faturando é preciso aprender os novos passos dessa dança, porque em nenhum momento a “música” vai parar de tocar.

Transmídia sem limites

Os grandes grupos de comunicação já se deram conta há um bom tempo de que precisavam estar presentes além de suas plataformas originais. Uma emissora de TV que não conversasse com seu público através das mídias sociais, achando que seu histórico de audiência a garantiria, certamente já teria sucumbido. E não basta ter perfis no Instagram e Facebook ou material disponível no YouTube ou TikTok. É preciso que o conteúdo seja atraente, diverso e agregador.

É aí que entra a transmídia, utilizando todas os arranjos midiáticos disponíveis de forma estratégica, na qual conteúdos se completam e oferecem um mar de entretenimento e informação ao consumidor.

Em tempos de grandes conglomerados de mídia, essas possibilidades crescem em progressão geométrica, porque todos os empreendimentos desses gigantes midiáticos podem se cruzar, se complementar.

Como estamos falando mais especificamente de esportes trago dois exemplos. O primeiro deles mostra a ligação entre o grupo ViacomCBS com a NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos.

Além da rede de TV CBS, a Viacom também é proprietária do canal infanto-juvenil americano Nickelodeon e, neste ano de 2021 propôs à NFL a transmissão de uma partida dos playoffs, entre Chicago Bears e New Orleans Saints nos dois canais. Sendo que no canal alternativo, a partida teria características muito mais voltadas ao entretenimento do que ao jornalismo esportivo. A transmissão teve a inclusão de efeitos de desenhos animados da Nickelodeon sobre a imagem e ainda contou com comentários de artistas do canal, como Gabrielle Green e Lex Lumpkin.

A partida ganhou design gráfico próprio. (reprodução Nickelodeon)
Os touchdowns ganharam jatos virtuais de slime. (reprodução Nickelodeon)
E o Bob Esponja foi parar no meio das traves. (reprodução Nickelodeon)

A estratégia foi lucrativa para ambas as partes. A Viacom usou seus direitos de transmissão para atingir um público maior que o normal e aumentou seu faturamento com espaços publicitários, já que muitos anunciantes voltados ao público infanto-juvenil tiveram um novo produto à disposição. Para a NFL também foi proveitoso; além do faturamento extra, ganhou com a exposição de seu produto a um público novo e potenciais consumidores no futuro.

A Disney não ficou atrás e usou a ESPN, seu selo de esportes, para divulgar personagens da Marvel, empresa que também pertence ao grupo, em uma partida da NBA, a liga de basquete profissional norte-americana. E abusou da criatividade para contextualizar a experiência que recebeu o título de Arena de Heróis.

Jogadores transformados em heróis de quadrinhos. (reprodução ESPN)

De acordo com o roteiro, depois de uma vitória apertada sobre um exército alienígena invasor, os Vingadores recebem uma nova ameaça, o inimigo promete retornar com reforços. Reconhecendo as habilidades físicas superiores, agilidade e tenacidade dos atletas da Terra, o Pantera Negra e o Homem de Ferro decidem realizar uma série de competições para selecionar quem vai lutar ao lado deles como Campeões da Marvel.

Na partida entre Warriors e Pelicans, competiram três estrelas de cada equipe. No time da Califórnia, Stephen Curry representou a Capitã Marvel; Draymond Green, o Doutor Estranho e Andrew Wiggins, o Pantera Negra. Já pela equipe de Nova Orleans, a estrela da nova geração Zion Williams, representava o novo Capitão América; Brandon Ingram, a Viúva Negra e Lonzo Ball, o Homem de Ferro. A disputa entre eles se deu através de seus desempenhos em quadra, com uma pontuação paralela à do jogo, na qual acertos e erros somavam e diminuíam a contagem. Os detalhes podem ser conferidos clicando aqui

Pontuação paralela dos jogadores selecionados. (reprodução ESPN)

Como na outra iniciativa citada, a transmissão nos EUA foi feita em dois canais da ESPN, uma normal e outra com diversos efeitos visuais e com o acompanhamento da disputa paralela. No estúdio, vários elementos do universo Marvel estavam presentes, como o martelo de Thor ou a luva de Thanos com as Joias do Infinito. A transmissão também contou com a participação do ator Anthony Mackie, que interpreta o novo Capitão América em série recém-lançada pela plataforma de streaming Disney +. No Brasil apenas a transmissão especial foi exibida.

Cenário temático para os apresentadores. (reprodução ESPN)

Esses são apenas dois exemplos da ampla possibilidade de ações envolvendo mídia, entretenimento e esporte. Em nosso país esse tipo de iniciativa ainda é bastante incipiente. Quando muito, emissoras de TV colocam estrelas de seus elencos participando de reportagens, transmissões ou programas esportivos. Mas isso terá que mudar. Afinal, é como afirma o velho jargão do mundo dos espetáculos: The show must go on (O show não pode parar).

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Criação de Liga independente de clubes terá como principal oponente estrutura política arcaica

Diante da fragilidade política vivida atualmente pela Confederação Brasileira de Futebol, os clubes da série A do campeonato brasileiro se articulam na tentativa de se desprender das amarras das entidades políticas do futebol e ter o controle sobre competições nacionais. O processo, no entanto, deve ser penoso. Rogério Caboclo, mandatário acusado de assédio moral e sexual por funcionária da CBF, está afastado do cargo por um mês e ocupando interinamente sua vaga está Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes. O descrédito da CBF junto à opinião pública cria um momento propício para os clubes se movimentarem nos bastidores em prol de mudanças.

Os clubes reivindicam o poder de criação e organização das competições nacionais que pode consertar uma falha que acomete os clubes há muitos anos: o prejuízo técnico que a ausência de paralisação dos campeonatos durante as datas FIFA traz às agremiações. Com a presença dos estaduais, as 38 rodadas do campeonato brasileiro ocorrem em um período enxuto que vai, geralmente, de maio a dezembro. A necessidade de encerrar o campeonato ao final do ano resulta na não paralisação dos jogos durante competições e jogos internacionais, resultando em prejuízo técnico e financeiro aos clubes que têm atletas convocados; o mais grave, muitas vezes pagando salários de 6 ou 7 dígitos para ver seus atletas atuarem em amistosos sem nenhuma relevância esportiva, a não ser para atender aos interesses dos patrocinadores envolvidos nas partidas. Para fins de comparação, na Europa e mesmo no Sul Global como nossos hermanos argentinos, as competições nacionais param durante as partidas de seleção. A ausência de campeonatos estaduais é um ponto nevrálgico que permite uma folga no calendário nesses países.

Em reportagem recente, Rodrigo Mattos, jornalista do UOL, mostrou que a CBF tem por obrigação prevista no artigo 41 da Lei Pelé custear o salário dos jogadores enquanto estiverem a serviço da seleção. A CBF, entretanto, como demonstrado pela reportagem, não cumpre o que está previsto em lei. O Flamengo, por exemplo, teve de ceder dois de seus principais e mais caros jogadores para atuarem na Copa América de 2021, Gabigol e Éverton Ribeiro. Dessa maneira, perderão seus atletas por aproximadamente 9 rodadas do campeonato brasileiro, pagando integralmente seus salários e sem nenhum tipo de contrapartida por parte da CBF.

A dificuldade que o movimento de mudança encontrará reside da existência das federações estaduais. Como jabuticabas, só existem no Brasil. Com mais força e peso que os clubes nas tomadas de decisão, as agremiações dependeriam da aprovação das federações para criação da Liga, isto porque há dois tipos distintos de Assembleia Geral previstas no estatuto da CBF e os clubes têm participação prevista apenas na Assembleia Geral Eleitoral, cuja função é definir o presidente e vice-presidentes da entidade; a Assembleia Geral Administrativa, por sua vez, aquela na qual são definidas questões mais profundas como mudanças no calendário, destituição de presidente e prestação de contas da Confederação, tem participação apenas das entidades estaduais. Ou seja, para a criação da Liga os clubes dependeriam também das federações estaduais, cujo interesse maior é manter os Campeonatos Estaduais que geram receitas e garantem suas existências. Mesmo na Assembleia Geral Eleitoral, os clubes possuem peso de voto menor que as federações. Ao passo que as federações possuem peso 3, totalizando 81 votos com suas 27 federações, os clubes da série A têm peso 2 e os da B, peso 1. Ou seja, os clubes, unidos, totalizam apenas 60 votos. A escolha de presidentes e vices está absolutamente vinculada às vontades das federações.

Assembleia Geral reuniu os 27 presidentes das federações estaduais para mudança de Estatuto, em 2015. Fonte: site da CBF.

O próprio desenho institucional da política do futebol nos faz prospectar o quão longe, de fato, uma mudança pode ser vislumbrada neste momento. Parece que a retirada dos longuíssimos campeonatos estaduais, com infindáveis jogos inúteis e mal jogados tecnicamente não é uma opção no calendário futebolístico brasileiro. Experiência recente como a criação da Primeira Liga evidenciam os percalços que poderão vir mais à frente. A Liga durou apenas o biênio 2016-2017, sendo desmanchada precocemente devido ao calendário apertado, uma vez que os campeonatos estaduais continuaram sendo disputados normalmente. O movimento atual, ao contrário do que ocorrera na Primeira Liga, conta com todos os clubes da primeira divisão nacional, mas a questão dos estaduais continua sendo o calcanhar de Aquiles para mudanças mais profundas de política e mentalidade do futebol brasileiro.

Para entender os desafios de movimentos como o recém inaugurado pelos clubes brasileiros, faz-se necessário compreender como se estruturam as instituições políticas e quais interesses estão por trás do desenho institucional do futebol no Brasil. Na tentativa de compreender sociologicamente a estrutura política do futebol brasileiro, podemos mobilizar um arcabouço teórico que descortine práticas e valores políticos como patrimonialismo e clientelismo por trás do modus operandi da cartolagem brasileira. Revisitar conceitos e recorrer a autores tão caros na tradição das ciências sociais no Brasil – como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Raymundo Faoro, etc. – nos dão a condição de visualizar o funcionamento das instituições políticas do futebol como parte integrante de processos sociais mais abrangentes e de longa duração da sociedade brasileira. Afinal, valores tão tenazes na sociabilidade brasileira oriundos das próprias bases sociais de nossa vida política de passado colonial, como a prevalência do interesse privado em detrimento a interesses mais gerais, se faz ainda presente na própria estruturação das instituições políticas. A estrutura política arcaica do futebol brasileiro pretende favorecer aos interesses da cartolagem da CBF, como percebemos no maior peso decisório dado às federações estaduais, cerceando ações independentes dos clubes. São as ações dotadas de valores dos atores sociais que criam e recriam as instituições na sociedade e o futebol não está infenso a este processo.

Devemos nos atentar, portanto, ao desenvolvimento dos próximos acontecimentos com um olhar especial ao papel desempenhado pelas federações estaduais como um ator político fulcral nesse movimento de mudanças capitaneado pelas agremiações da elite do futebol nacional. Uma mudança de fato significativa nos rumos tomados pelo futebol brasileiro e de sua modernização passam pela extinção dos campeonatos estaduais e da readequação de um calendário que favoreça aqueles que possuem o monopólio da paixão do torcedor: os clubes.

Referências bibliográficas

BOTELHO, André e SCHWARCZ, Lilia. Público e privado no pensamento social brasileiro. In: Agenda Brasileira – Temas de uma Sociedade em Mudança. São Paulo: Companhia das Letras; 1a edição, 2011.

DA SILVA, Breno Carlos.“FUTEBOL-BANDIDO”: Os cartolas da CBF e a corrupção no Brasil. In: Ciências Socias aplicadas: necessidades individuais & coletivas 2. Paraná: Editora Atena, 2020.

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Uma provocação: as cotas mudaram o ranking do Brasileiro?

Com o rebaixamento de Botafogo e Vasco, no Brasileiro de 2020, e o não retorno do Cruzeiro à primeira divisão em 2021, pela primeira vez, três das 12 equipes mais tradicionais do país [1] vão disputar, numa mesma edição, a série B. O fato de 1/4 dos integrantes do que chamamos aqui de tradicionais nacionalmente (TN) estarem excluídos, ao menos provisoriamente, da elite do futebol brasileiro ensejou diversas tentativas de explicação e hipóteses.

Má gestão e incompetência são as mais recorrentes. O diagnóstico tecnicista parece ganhar maior densidade explicativa quando contraposto a um reivindicado maior profissionalismo dos clubes que têm se mantido no topo do ranking do Brasileiro. Sem desconsiderarmos ambas, queremos analisar outro ângulo que parece negligenciado, principalmente pelo jornalismo esportivo: os efeitos da implosão do Clube dos 13, em 2011, com a consequente concentração das cotas de televisão em apenas dois clubes.

Fábio Koff, ex-presidente do Clube dos 13
Fonte: Trivela

Pergunta-se se o novo paradigma deflagrou um processo de reconfiguração do TN, instaurando novo patamar de competitividade, em que, da multiplicidade de candidatos a campeão nacional, tem-se padrão próximo ao da maioria dos principais campeonatos europeus, restritos a dois ou, no máximo, três concorrentes ao título. Para responder a essa hipótese, comparou-se a classificação nos noves Brasileiros seguintes ao fim do Clube dos 13, de 2012 a 2020 – o novo modelo de contrato da TV Globo só começou a vigorar em 2012 – com as nove edições imediatamente anteriores, de 2003 a 2011. Vamos nos abster de uma historiografia da criação e do fim do Clube dos 13 [2]. O que nos mobiliza aqui são as consequências, nos níveis de competitividade, dos times TN a partir da negociação individual da Globo com as equipes.

Optou-se por uma visão panorâmica, em que não se cotejou apenas os campeões do Brasileiro nos dois períodos. A comparação estendeu-se aos que, num intervalo e outro, alcançaram as quatro primeiras posições – o G4 – com vaga automática à Libertadores, competição que se tornou o principal foco de clubes, torcedores e imprensa. Analisou-se, ainda, os rebaixados à segunda divisão – o Z4 – o que, também, dá pistas sobre a reconfiguração em curso. Neste último recorte, subdividiram-se as equipes entre os 12 tradicionais nacionalmente (TN) e as não integrantes desse grupo, os tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

O primeiro intervalo de nove anos tem início em 2003, quando instaura-se o sistema de pontos corridos no Brasileiro. A partir dessa edição, os quatro primeiros classificados garantem vaga à Libertadores. Não se considerou, na comparação, nem o campeão da Copa do Brasil nem o da Sul-Americana, ambos com vaga à Libertadores – no caso da segunda apenas a partir de 2010. Por se tratar de competições que envolvem jogos mata-mata, estão sujeitas a maior imprevisibilidade, diferentemente do campeonato por pontos corridos, o que distorceria o objetivo aqui buscado.

Descartou-se, ainda, a inclusão, no comparativo, do quinto e do sexto lugares do Brasileiro, que, a partir de 2016, quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) ampliou o número de vagas na Libertadores para Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, asseguram vaga à fase eliminatória da Libertadores. Pensa-se que nossa opção metodológica dá uma percepção mais nítida sobre o caráter competitivo dos clubes, antes e depois, da implosão do Clube dos 13.

Cotas (quase) iguais no TN até 2011

Concentrou-se, basicamente, no valor pago pela TV aberta, ainda a principal plataforma do país e a mais valorizada por grande parte dos anunciantes de futebol. Da criação da Copa União, em 1987, até 2000, a cota da TV era dividida em partes iguais pelos filiados ao Clube dos 13, com quantias inferiores aos “convidados”. Segundo cálculo do jornalista Mauro Beting, citado no blog do jornalista Allan Simon, em 1987, cada integrante da associação recebeu 12,8 milhões de cruzados, equivalente a quase R$ 2 milhões em valores atualizados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre dezembro de 1987 e dezembro de 2019. (SIMON, 2000).

A partir de 2001, a entidade separou Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Vasco em um grupo que ganharia mais, e outro com Botafogo, Fluminense, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético-MG, Cruzeiro e Bahia, com valores menores. Outros ajustes ocorreram até que, em 2011, a última divisão antes do fim do Clube dos 13 contemplava quatro grupos distintos:

Fonte: LEITE JR (2015, P.61) [4]

Com tal distribuição de valores, tivemos, entre 2001 e 2010, seis clubes campeões: São Paulo (3 títulos), Corinthians (2), Flamengo, Fluminense, Cruzeiro e  Santos (1 cada). Classificaram-se para o G4, nesse novênio, 13 equipes: São Paulo (6 vezes); Santos e Cruzeiro (4 cada); Grêmio, Palmeiras, Internacional, Flamengo e Fluminense (3), Corinthians, Vasco, Athletico-PR, São Caetano e Goiás (1). Foram rebaixados à segunda divisão, nesses nove anos, quatro clubes do TN: Vasco, Corinthians, Grêmio e Atlético-MG – todos com uma única queda. Entre as equipes fora desse grupo, 25 caíram de série: Fortaleza, América-MG, Coritiba, Vitória, Avaí e Guarani (2 vezes cada); Bahia, Ceará, Portuguesa-SP, Sport, Santa Cruz, Paraná, Juventude, Figueirense, Ipatinga, Santo André, Náutico, Goiás, Barueri, São Caetano, Ponte Preta, Payssandu, Crisciúma, Brasiliense, Athletico-PR (1).

Vê-se, assim, uma briga bastante competitiva pelo título, com apenas dois clubes, São Paulo (3) e Corinthias (2), vencendo mais de uma vez a competição, e com seis campeões diferentes em nove anos. O G4 também mostra grande pluralidade: dez dos 12 TN – Botafogo e Internacional são as exceções – participaram, ao menos uma vez, em nove anos, da Libertadores, assim como três equipes TR: São Caetano, Athletico-PR e Goiás. Os clubes TN rebaixados no período – 4 – só caíram uma vez de divisão em nove anos, com todos retornando à série A após apenas um ano na B.

Com o fim do Clube dos 13, o contrato para o triênio 2012 a 2015 já ampliou consideravelmente a assimetria do pagamento pelas partidas na TV aberta:

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 83)

No triênio 2016 a 2018, a concentração se acentuou ainda mais.

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 84)
* Demais clubes: negociações anuais com a Globo, a depender da participação na Série A

Com isso, a partir de 2016, Flamengo e Corinthians elevam a diferença de R$ 30 milhões sobre o São Paulo para R$ 60 milhões. Em relação a Vasco e Palmeiras, avança de R$ 40 milhões para R$ 70 milhões. Sobre o Botafogo, que na transição do Clube dos 13 para as negociações individuais, vira sua cota avançar de R$ 16 milhões para R$ 45 milhões, a distância para o Flamengo saltou, de R$ 9 milhões em 2011, “para inacreditáveis R$ 110 milhões”. (LEITE JR, p 85).[5]

Nesse modelo, entre 2012 a 2020 temos cinco campeões brasileiros: Corinthians (3 vezes); Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo (2 cada) e Fluminense (1). Classificaram-se para o G4, no período, 12 equipes: Grêmio e Flamengo (5 vezes); São Paulo, Corinthians, Atlético-MG e Palmeiras (4); Internacional e Santos (3), Cruzeiro, Fluminense e Athletico-PR (2); Vasco e Botafogo (1). O número de rebaixados do TN avançou de quatro para cinco – Vasco (3 vezes); Botafogo (2); Internacional, Cruzeiro e Palmeiras (1 cada). Entre os clubes fora do TN foram 20: Avaí (3); América-MG, Vitória, Goiás, Figueirense, Coritiba e Ponte Preta, Atlético-GO e Sport (2); Crisciúma, Joinville, Santa Cruz, Paraná, CSA, Chapecoense, Athletico-PR, Ceará, Portuguesa-SP [6], Náutico e Bahia (1).

Vê-se que, entre um período e outro, o número de campeões recuou de seis para cinco. Para além dessa redução, parece mais significativo que, nos últimos seis anos, apenas dois times de São Paulo – Corinthians e Palmeiras (2 vezes cada) – e um do Rio – Flamengo (2) venceram o Brasileiro. Se na década anterior, houve seis campeões diferentes em nove edições, no intervalo seguinte, em seis dos últimos anos, foram só três os vencedores, sinalizando concentração rara na história do futebol brasileiro. O número de times no G4 caiu só de 13 para 12, sendo 11 do TN – a exceção foi o Vasco – contra dez no intervalo anterior. A estabilidade no número de frequentadores da Libertadores permite duas leituras complementares. Por um lado, à parte Flamengo e Corinthians, temos seis dos outros dez clubes do TN em ao menos três das nove edições – Grêmio (5) São Paulo, Palmeiras e Atlético-MG (4), Internacional e Santos (3). Isso pode indicar que, com a emblemática exceção do Palmeiras [7], os demais, sem condições de brigar pelo título, tiveram de se contentar com a ida à Libertadores.

Simultaneamente, o número de quedas de alguns integrantes do TN deu salto importante: de uma vez para três (Vasco) e de zero para duas (Botafogo). E, pela primeira vez desde o início dos pontos corridos, em 2003, um integrante do grupo – o Cruzeiro, campeão do primeiro ano da segunda década – não logrou retornar à série A no ano seguinte [8]. Também pela primeira vez, três TN – Cruzeiro, Botafogo e Vasco, 1/4 daquele universo – vão disputar a série B. Fora do TN, a presença no G4 caiu de dois para um, embora este – Athletico-PR – tenha se classificado duas vezes, sinalizando que o time paranaense pode ter encontrado um modelo competitivo superior ao de outros mais tradicionais, mas insuficiente para disputar, e vencer, o Brasileiro.

Expostos os dados comparativos, nos limitamos a deixar uma provocação à reflexão dos que pensam o futebol como manifestação cultural e identitária para além do clubismo: seria a gestão explicação suficiente e única para a nova configuração de competividade no TN?



[1] Considera-se aqui como tais 12 clubes: quatro do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco); quatro de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos); dois de Minas Gerais (Atlético-MG e Cruzeiro); e dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional). Serão doravante nomeados tradicionais nacionalmente (TN), em contraponto aos tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

[2] Para uma análise detalhada do Clube dos 13 ver SANTOS, 2019; LEITE JR, 2015 e CHRISTOFOLETTI, 2015.

[3] Por estar na segunda divisão, recebeu apenas 50%.

[4] Os clubes que não faziam parte do Clube dos 13 tinham que negociar diretamente com a entidade e não recebiam mais do que 45% do valor do Grupo 3.

[5] Em 2019, um ano após o Grupo Turner, via Esporte Interativo, entrar na disputa da TV fechada, a Globo mudou a fórmula de cotas da TV aberta: 40% dos valores passaram a ser distribuídos igualmente pelos clubes, 30% pela colocação no campeonato e 30% pelo número de partidas exibidas. Embora essa mudança aparentasse reduzir as assimetrias, a Globo ampliou o número de partidas do Corinthians na TV aberta e, aproveitando o ano excepcional do Flamengo, priorizou transmitir os jogos deste time via pay-per-view. Com essas duas opções, elevou ainda mais a diferença dos valores pagos à dupla. O detalhamento das consequências dessa mudança ampliaria excessivamente o espaço desta comunicação. Consideramos que os números já expostos já dão conta do foco aqui escolhido.

[6] O rebaixamento da Portuguesa-SP, em 2013, ocorreu por fatores extracampo. Sob a alegação de que, quase ao fim do último jogo – 0 x 0 contra o Grêmio –, a equipe paulista colocou em campo o meia Heverton, suspenso por duas partidas, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu a Lusa com a perda de quatro pontos (três da partida disputada mais o ponto do empate). Com isso, a equpe caiu de 48 pontos, no 12º lugar, para 44 pontos, no 17º lugar, salvando o Fluminense, que, com 46 pontos, ocuparia essa posição, sendo rebaixado no campo. O STJD também retirou quatro pontos do Flamengo, por escalar o lateral esquerdo André Santos, suspenso por um jogo. Com isso, o rubro-negro caiu de 49 pontos, na 11º posição, para 45 pontos, na 16ª colocação.

[7] Com uma injeção de € 24 milhões (cerca de R$ 153 milhões) desde 2015 até 2021, o time paulista passou a deter um dos maiores patrocínios do mundo, atrás apenas dos espanhóis Barcelona e Real, do alemão Bayern de Munique, “do novo rico francês Paris Saint-Germain e do top 6 inglês: Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham”.

[8] Sobre a crise financeira do Cruzeiro

Referências bibliográficas

CHRISTOFOLETTI, Danilo Fontanetti. O fim do Clube dos 13: Como a Rede Globo controla o futebol brasileiro. São Paulo, Monografias Brasil Escola UOL, 2015.

LEITE JR., Emanuel. Cotas de televisão “apartheid futebolístico” e risco de “espanholização”. Recife, Ed. do Autor, 2015.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol. Curitiba: Appris, 2019

SIMON, Allan. Brasileirão: como o dinheiro da TV foi distribuído entre os fundadores do C!3 desde 2001, São Paulo: https://allansimon.com.br/2020/01/12/brasileirao-como-o-dinheiro-da-tv-foi-distribuido-entre-os-fundadores-do-c13-desde-2001 acessado in 12/05/2021

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A História feminina do esporte argentino

Há mais de 100 anos, em seu relatório anual de 1918, P.P Phillips, diretor de educação física da Asociación Cristiana de Jóvenes (ACJ) de Buenos Aires, escreveu: “Ao contrário de sua tendência tradicional, os argentinos agora estão desenvolvendo uma sede insaciável pela educação física e os esportes estrangeiros”. Por outro lado, ressaltou que em um rápido olhar para os estudantes em seu ginásio, podia observar “os tipos de homens e crianças bem educados” que a ACJ atraía, assim como “o clima democrático, gentil” que se mantinha nelas. Para mostrar a aprovação que geravam as iniciativas da instituição, Phillips citou um médico local, para quem seus colegas portenhos poderiam enviar mulheres jovens o suficiente para abrir uma seção feminina se a ACJ estivesse disposta a realizar o mesmo trabalho “para nossas meninas gordas”.

O Relatório de Phillips demonstra a crescente importância do esporte na Argentina no começo do século XX e a ordem genérica que prevalecia. O esporte estava reservado e era controlado por homens, que estavam habilitados para beneficiarem-se de todos os valores atribuídos à sua prática. Entretanto, como indica a prescrição do médico, as mulheres tinham permissão para participar dos esportes se isso resultasse na melhora da saúde (sobretudo reprodutiva), e não alterasse o ideal feminino estabelecido. Vale a pena destacar que a Asociación Cristiana Femenina (ACF) de Buenos Aires teve seu início em 1890, sendo uma das instituições femininas mais antigas do país. O fato do médico citado por Phillips ignorá-la também expõe as enormes dificuldades que enfrentava, e ainda enfrenta, o esporte feminino. 

A história da ACF demonstra que, apesar dos discursos esportivos dominantes que durante muito tempo o silenciaram ou minimizaram, e que ainda o fazem, sempre houve, e há, mulheres e instituições que favoreceram, materializaram e exemplificaram a emancipação e o empoderamento feminino através da prática esportiva. Se pode, e deve, considerá-las como pioneiras no sentido de que eram, e muitas ainda seguem sendo, as primeiras a ingressarem em um espaço novo. Da mesma forma que se pode, e deve, considerá-las lutadoras e militantes no sentido de que nesse corajoso ingresso, criaram novos espaços participativos por meio dos quais se questionaram estereótipos de gênero e se imaginaram visões políticas alternativas. Teria mencionado algo sobre isso Alicia Moreau quando a ACJ a convidou para falar sobre “O feminismo como problema social” em seu ciclo de conferências de 1919?

Sabe-se relativamente pouco da vida dessas mulheres e instituições pioneiras, lutadoras e militantes do campo do esporte, visto que elas estão em grande parte ausentes da narrativa histórica e jornalística tradicional. Felizmente, o trabalho paciente de várias colegas começa a interpretar o complexo processo pelo qual as mulheres e instituições pioneiras, lutadoras e militantes, em suas buscas, suas conquistas, e seus fracassos, contribuíram para resistir, negociar e ressignificar a ordem genérica que operava no esporte ao longo do último século. Ao torná-las visíveis, percebemos sua larga e importante, mas agora latente, presença no esporte nacional. 

O exemplo de Lilian Harrison é norteador. Anos depois de converter-se como a primeira pessoa a cruzar a nado o Río de la Plata em 1923, declarou:

“Nunca posso me esquecer que um dos presentes [em Colonia] não se cansava de dizer que eu estava louca e que não chegaria nem ao penhasco. Veja que estranho, quando toquei a terra, em Punta Colorada, próximo de Punta Lara, a primeira coisa que me aconteceu foi pensar naquela pessoa que havia comentado de minha loucura um dia antes”.

Lilian Harrison

Se nos interessa a produção de discursos e de sentidos genéricos, assim como a igualdade de gênero no esporte, nem a fala e nem a vida de figuras como Harrison, nem o seu significado, deveriam ser esquecidos. Resgatá-las, mantê-las presentes e problematizá-las ajuda a tornar visível o papel vital da mulher no esporte e em outros espaços sociais.


Texto originalmente publicado no site El Equipo no dia 29 de maio de 2021

Tradução: Abner Rey e Fausto Amaro

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Seis anos após escândalo em que manchou o futebol, a Fifa mudou?

“Vou lutar com todas as minhas forças para que ela seja aprovada”. Em 1999, o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, declarou seu apoio à proposta de realização da Copa do Mundo de futebol masculino a cada dois anos, e não mais em quatro. Blatter é hoje carta fora do baralho na entidade, mas, duas décadas depois, essa possibilidade volta à tona.

A Fifa vai elaborar um novo estudo de viabilidade sobre a realização do torneio a cada dois anos. Não há prazo para o documento ser concluído. A autorização para o início desse estudo foi dada à administração da Fifa no último dia 21 pelo Congresso anual da entidade – 166 associações nacionais de futebol votaram a favor e 22 votaram contra.

Em 1974, quando assumiu a presidência da FIFA, João Havelange cumpriu a promessa de campanha e expandiu o número de participantes da Copa do Mundo, de 16 até então para 24, a partir do mundial de 1982. Eram tempos de descolonização na África e na Ásia, e os impérios europeus, sobretudo o inglês e o francês, já não eram capazes de deter movimentos de libertação nacional que geraram, entre 1955 e 1970, quarenta novos países. Mais que proclamar a independência, esses novos Estados precisavam de reconhecimento da comunidade internacional, em especial de três instituições e entidades: a Organização das Nações Unidas (ONU), pela influência geopolítica, e a Fifa e o Comitê Olímpico Internacional (COI), organizadores dos maiores eventos esportivos do planeta: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, respectivamente.

Novas vagas no mundial de futebol foram destinadas para seleções desses dois continentes, o que colaborou para a autoafirmação dessas nações recém-emancipadas. No entanto, a solidariedade política não era o objetivo principal da entidade máxima do futebol mundial, e sim uma estratégia. Havelange e membros do Comitê Executivo deram o passo inicial para a engrenagem de corrupção, clientelismo e perpetuação no poder fortemente abalada em 2015, com a investigação conduzida pelo FBI e pela Justiça da Suíça, mas que continua de pé na Fifa. Cumprindo também uma promessa de campanha, o atual presidente Gianni Infantino, aumentou para 48 as seleções classificadas para a Copa do Mundo a partir de 2026. Cogitar agora transformar o torneio em algo mais frequente no calendário mundial é a nova fase do “Padrão Fifa”, que maltrata um patrimônio da humanidade e o seu clímax, em prol de interesses individuais.

Após expandir Copa do Mundo masculina de 32 para 48 seleções, Gianni Infantino, presidente da Fifa, analisa realizar torneio a cada dois anos. 
Foto: Arnd Wiegmann / Reuters

Com essa expansão, a FIFA pretende lucrar ainda mais com a venda de ingressos e de direitos de transmissão, além da valorização de contratos de patrocínio. No entanto, a expansão e a articulação global de movimentos e ativistas contra o modelo suntuoso de organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos têm mostrado a falácia do legado desses eventos, influenciando governos quanto à decisão de se candidatar para sediar tais eventos.

Fontes: Comitês organizadores das Copas de 2010 e 2018, e Tribunal de Contas da União (TCU)
Fonte: Fifa

O Comitê Olímpico Internacional (COI) já entendeu o recado. Em tempos de baixo crescimento econômico mundial, de iniciativas ambientalmente sustentáveis e de contestação aos custos dos megaeventos esportivos, a entidade reformulou, em 2014, suas exigências quanto à organização dos Jogos Olímpicos, as tornou menos rígidas, priorizando candidaturas de cidades onde já existam instalações prontas e infraestrutura sem necessidade de grandes e caros ajustes.

Na contramão do mundo, porém, está a Fifa, ao cogitar realizar a cada dois anos um evento sustentável apenas para a entidade. Não haveria problema algum em relação ao crescimento dos lucros da Fifa com a Copa do Mundo masculina se eles fossem investidos no fortalecimento das categorias de base, do futebol feminino e da estrutura de treinamento em diversos países, sobretudo os mais pobres. Mas a realidade envolve o envio de dinheiro para dirigentes de confederações continentais e nacionais que não é revertido para o fortalecimento de clubes, campeonatos e para a inclusão social através do esporte. Vão para os bolsos alheios, sem fiscalização e punição pelos líderes da entidade máxima do futebol, que, em troca, recebem votos para a permanência no poder em eleições presidenciais. A Copa do Mundo a cada dois anos é a nova moeda de troca, em que as federações ganhariam maior exposição e dinheiro no maior torneio de futebol do mundo acontecendo de forma mais rotineira.

Foi essa estrutura que, ao se locupletar a um nível de ganância sem precedentes na história do futebol, levou à situação atual de penúria na Fifa. Há exatos seis anos, em 27 de maio de 2015, dirigentes da entidade eram presos em um hotel de Zurique, na Suíça, onde participavam do congresso que elegeria o novo presidente da entidade. Cartolas acusados de venderem seus votos para o Qatar ganhar a sede da Copa do Mundo de 2022, aquela em que paquistaneses, nepaleses e indianos constroem estádios climatizados no calor do deserto e em condições análogas à escravidão. Tudo sob o silêncio da entidade.

Desde então, os prejuízos se acumulam nos balanços financeiros da Fifa. Déficit de 122 milhões de dólares em 2015; 369 milhões de dólares em 2016; 1 bilhão de dólares em 2018; 683 milhões de dólares em 2020, sob efeitos da pandemia de Covid-19.

Em 1999, a proposta de organizar a Copa do Mundo a cada dois anos não foi adiante. Resgatá-la duas décadas depois mostra que a Fifa não mudou. A necessidade fala mais alto e as lições recentes da história já viraram uma memória a ser esquecida.

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A chegada das novas piscinas de ondas. O surfe moderno também está passando por um processo de “arenização”?

A primeira realização de uma etapa do circuito mundial na Surf Ranch, piscina de ondas desenvolvida pelo onze vezes campeão mundial, Kelly Slater, em 2018, movimentou o mercado e as opiniões no mundo do surfe. As ondas artificiais não surgiram agora. Em 1985, os melhores surfistas do mundo participaram de um torneio em um parque aquático de Allentown, na Pensilvânia (EUA) e na década de 1990, piscinas de ondas artificiais receberam alguns campeonatos, um deles vencido justamente por Kelly Slater, na Disney, enquanto outros eventos movimentaram a cidade de Miyazaki, no Japão, onde estava a Ocean Dome, considerada a melhor piscina de ondas da época. Mas naquele tempo as tecnologias ainda não geravam ondas tão interessantes a ponto de competir com as ondas do mar. E foi justamente isso que a Kelly SlaterWave Company conseguiu para convencer a World Surf League (WSL) a realizar um campeonato na piscina: a capacidade de gerar “a primeira onda fabricada pelo homem com a força e a forma de uma onda oceânica.[2]

As tecnologias atuais prometem revolucionar o esporte por conta das novas possibilidades ligadas ao desenvolvimento de atletas, como o treinamento de alta performance, mas principalmente por gerar novas oportunidades comerciais como a criação de condomínios e resorts em locais longe do litoral, venda de direitos de transmissão dos campeonatos que se adequem melhor à programação televisiva, minimizando as dificuldades enfrentadas nos campeonatos realizados no mar (imprevisibilidade da natureza e falta de infraestrutura em determinados locais), aumento da audiência e o alcance de novos públicos. Um novo leque de atividades que provavelmente tornarão o esporte ainda mais midiatizado e passível de gerar mais lucros[1]

Em busca da onda perfeita

A tecnologia idealizada por Kelly Slater e por Adam Fincham, engenheiro mecânico, especializado em mecânica de fluidos na Universidade do Sul da Califórnia (USC), conta com uma piscina de 700 metros de comprimento por 150 metros de largura e um sistema chamado “hydrofoil”. É uma lâmina de metal, instalada em uma das laterais, que vai e volta toda a extensão do lago impulsionada por um sistema de trilhos, gerando a onda. Bancos de areia e recifes artificiais ajudam na hidrodinâmica para a recriação do fenômeno natural.

Surf Ranch – Fonte: revistatrip.uol.com.br

“A formação de uma onda pode durar até 50 segundos, com estabilidade de altura e formação. Em situações naturais, os surfistas muitas vezes não chegam a ficar 10 segundos em cima da prancha”. Outra tecnologia que já está em funcionamento e promete acirrar a corrida de lançamento de novos “surf parks” é a Surf Lakes, que fica na cidade de Yeppoon, em Queensland, Austrália. Ela consiste em um enorme disco de 1.400 toneladas que sobe e depois despenca sobre um lago a cada seis segundos formando ondas perfeitas em toda sua extensão. Segundo o site do parque, “é a maior inovação entre as inovações dos parques de surfe [2]

Surf Lakes – Fonte: stabmag.com

De acordo com Ford e Brown (2006), há uma tensão que permeia a cultura do surfe, principalmente em torno do “soul surf” e as tendências comerciais e de competição: “a primeira associada a uma narrativa declinante e o surfe contra cultural como perspectiva de estilo de vida, e a última, dentro de uma narrativa progressiva a um ethos olímpico de esportivização do surf” (FORD e BROWN, 2006, [s.i]). Essa discussão já existia dentro do esporte, mas parece ter se intensificado ainda mais com a chegada das novas piscinas de ondas artificiais. Para a World Surf League (WSL), que se tornou sócia da Surf Ranch em 2016, a piscina de ondas é uma importante aposta para tornar a primeira liga do surfe mundial lucrativa, como afirmou sua atual CEO, Sophie Goldschmidt em uma entrevista à revista Forbes:

Tivemos o primeiro evento do tipo no ano passado e teremos outro em 2019. É importante entender as possibilidades que isso traz para a mídia e os patrocinadores. O oceano nunca foi tão importante, mas agora usamos a tecnologia de forma complementar.

Essa forma complementar indica alguns interesses da liga, entre eles transformar a piscina no principal palco das Olimpíadas[3], facilitar a transmissão televisiva do esporte, que sempre teve dificuldades de entrar nas grades de programação por conta da imprevisibilidade da natureza, e a venda de ingressos. Rafael Fortes (2011) salienta que a inclusão do surfe nas Olimpíadas reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Nesse sentido, o autor enumera os desafios de se televisionar e transmitir o esporte: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões[4] (FORTES, 2020, p. 63).

Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se encaixaria perfeitamente às demandas da televisão. De acordo com os critérios da primeira etapa do mundial nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada. Outra novidade explorada pela WSL foi a venda de ingressos, que variaram de 99 dólares (direito a assistir a um dia de evento) a 30 mil dólares (direito a assistir todos os dias do evento em um camarote para dez pessoas, com comida e bebida inclusas).

Todas essas inovações dão indícios de que a “nova era do surfe”, que produz ondas perfeitas para o desenvolvimento da performance dos atletas, também irá inaugurar um processo de arenização no esporte, que talvez possa culminar em manifestações mais contundentes de negação ao “surfe moderno”, assim como o futebol, guardadas as diferenças entre ambos, vem passando. Podemos sugerir que ainda existe uma espécie de “democracia torcedora” (SANTOS, 2018) no surfe, na medida em que as praias onde são realizados os campeonatos são públicas, que não há restrição quanto a entrada nelas, e que atualmente é possível assistir às etapas do tour através das transmissões ao vivo via streaming por aplicativo ou pelo site da WSL com a opção de narração em português (FORTES, 2020, p. 64). Ir à praia, dependendo da distância que o “torcedor” se encontra, pode não ser exatamente barato, assim como ter um smartphone ou um computador com acesso à internet também não é para todos, mas essas opções são mais acessíveis do que pagar 99 dólares (cerca de meio salário mínimo) em um ingresso para assistir a uma etapa do tour na piscina, sem contar os demais possíveis gastos com itens de consumo dentro de um “parque”. Como Helal e Costa destacam (2020), já existem pesquisas que “dão ênfase aos intensos processos de mercadorização que estaria, segundo alguns autores, promovendo uma gradativa exclusão da participação popular” (HELAL e COSTA, 2020, p. 512), no futebol. Em um cenário esportivo cada vez mais midiatizado e espetacularizado, o surfe parece estar indo pelo mesmo caminho.

As piscinas brasileiras

No Brasil, estão sendo construídas duas piscinas de ondas para a prática do surfe. Uma em São Paulo, em Itupeva, o condomínio de luxo Praia da Gama: “o único condomínio do mundo com praia, golf e hípica”, e outra em Santa Catarina, Garopaba, a Surfland Brasil. “O primeiro clube e resort em multipropriedade com piscina de ondas para surf no mundo”. Em uma rápida comparação entre os sites e perfis no Instagram dos dois empreendimentos, supomos que os públicos-alvo almejados são diferentes. Enquanto que o Praia da Gama parece ser um condomínio mais voltado para um público mais abastado e exclusivo, com poucas unidades à venda e lotes a partir de dois milhões de reais, a Surfland parece querer atingir um público maior e que se identifica mais com o estilo de vida do surfe, pois além do modelo de vendas sugerir menos exclusividade, a sua campanha publicitária é feita explorando a imagem de atletas renomados do esporte, como o bicampeão mundial, Gabriel Medina. De acordo com um levantamento feito em agosto de 2020 com um representante de vendas do empreendimento Surfland Brasil, pudemos apurar que o custo de uma “fração[5]” era cerca de noventa mil reais. Cada fração dava direito a quatorze dias de hospedagem no ano em um apartamento térreo (sendo sete dias na alta temporada e sete dias na média), além de acesso ao clube, que conta com a piscina de ondas, uma pista de skate e outros equipamentos esportivos, o ano inteiro.

As propostas da Surfland Brasil e do Praia da Gama estão de acordo com as ideias da WSL para a construção de novas piscinas de ondas pelo mundo. Segundo Sophie Goldschmidt, principal executiva da liga mundial, em entrevista à revista TPM sobre como a piscina de ondas poderia ser usada pela comunidade no Brasil, ela respondeu: “uma parte importante será o treinamento para o surf de alto desempenho. Também vemos a oportunidade de fazer algo parecido com um country club [um clube de associados]”. Essa visão de mercado reforça a hipótese de que o surfe é um esporte majoritariamente de elite. Fortes (2011), em seu livro o Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura, ressalta que:

A caracterização do surfe como algo nato na fala dos surfistas apaga diferenças quanto a fatores de classe, lugar, oportunidades para surfar (tempo livre, acesso ao mar, posse de prancha e acessórios). Embora a representação elimine estes elementos, na prática eles são decisivos e constituem as condições estruturais que determinam se um indivíduo poderá ou não ser surfista (FORTES, 2011, p. 267) .

Ou seja, a condição financeira do praticante pode ser preponderante para que ele evolua no esporte e desfrute do estilo de vida easy going que o estigma de o que é ser um surfista costuma sugerir. Com as piscinas de onda, a tendência é que haja mais um elemento de distanciamento não só do praticante com poucos recursos financeiros, como do público em geral, espectador esporádico e simpatizante do surfe. Ainda não se sabe se esses empreendimentos, que por si só demandam grandes infraestruturas e espaços, estarão ligados a processos de gentrificação nas regiões onde estão sendo instalados, assim como ainda não é possível afirmar se tais investimentos trarão benefícios concretos para o esporte, como o desenvolvimento de novos atletas. Mas a expectativa do crescimento no lançamento e desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de ondas artificiais próprias para o surfe nos próximos anos é grande, e será necessário que novas pesquisas lancem luz sobre esse tema que já está impactando o chamado “surfe moderno”.  

Referências bibliográficas

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARAES, P. C. D.; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões e Debates, v. 68, p. 55-76, 2020.

HELAL, Ronaldo. O Que é Sociologia do Esporte. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HELAL, Ronaldo; Costa, Leda Maria. Sociologia do Esporte: temas, pressupostos e situação do campo. In: Rita de Cássia Fazzi; Jair Araújo de Lima (Orgs.). Campos das Ciências Sociais. Figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal. 1ed. Petrópolis: Vozes, 2020.

LORCK, Carlos K. Surfe: deslizando sobre as ondas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1980.

SANTOS, I. S. C. Mercantilização do futebol e movimentos de resistência dos torcedores: histórico, abordagens e experiências brasileiras. Esporte e Sociedade, v. 11, p. 1-18, 2016.

SANTOS, IRLAN SIMÕES DA CRUZ; SANTOS, ANDERSON DAVID GOMES DOS. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 9, p. 246-261, 2018.


[1] Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Surfe (Ibrasurfe), no Brasil, o esporte movimenta R$ 7 bilhões ao ano em roupas, pranchas e acessórios, e tem por volta de 3 milhões de praticantes.

[2] Tradução nossa: “The biggest break in surf park innovation”.

[3] Após meses de indefinições, a organização dos próximos Jogos descartou o modo artificial por questões logísticas e confirmou a disputa em Chiba, litoral que fica a 60 quilômetros de Tóquio, mesmo com os riscos climáticos de possíveis atrasos e adiamento de baterias. Porém, a piscina é uma possibilidade real para a Olimpíada de Paris, em 2024.

[4] “Após ataque de tubarão, WSL anuncia que feminino mudará de local no Havaí; Pipe é uma opção”.

[5] Na multipropriedade você se torna dono de uma fração do imóvel, detém escritura pública e paga supostamente apenas pelo tempo que utiliza.


Artigos

Os cinco lutadores da foto: peronismo, esporte e diplomacia

Por César R. Torres* y David M. K. Sheinin **

No dia 23 de maio de 1954, um ano e quatro meses antes do golpe de estado que derrubaria Juan Domingo Perón, o jornal havanês Diario de la Marina publicou uma foto da equipe argentina de luta em sua chegada a Tóquio para participar do campeonato mundial desse esporte. A foto tinha sido tirada ates, já que o evento aconteceu entre os dias 22 e 25 de maio. Entre os quinze países participantes, a Argentina era o único latino-americano. Talvez esse tenha sido o motivo, junto a seu excelente desempenho nos primeiros Jogos Panamericanos organizados pelo peronismo em Buenos Aires três anos antes, pelo qual o Diario de la Marina incluíra a fotografia da equipe argentina. Essa mostrava os cinco integrantes – elegantemente vestidos – junto ao avião no qual haviam chegado à Tóquio. A imagem foi localizada na parte superior de uma página de esporte e ocupava três das oito colunas. Qualquer que tenha sido o motivo para publicá-la ali, a foto projetava vários eixos da reconfiguração de significados desportivos e cidadãos promovidos por Perón durante a década em que governou e que cimentaram alguns traços da Argentina contemporânea.

Os cinco lutadores da fotografia marcaram a interseção de vários temas chaves no desenvolvimento e na promoção da argentinidade sob o peronismo. Entretanto, dois desses lutadores, Omar Blebel, um argentino de ascendência árabe, e León Genuth, um argentino judeu, o fizeram de forma ainda mais evidente que os destacados Juan Rolón e Alberto Longarela, supostamente de origem espanhola e italiana, respectivamente. A presença de Zdzislaw Pielach no grupo de lutadores que viajou a Tóquio também é significativa. Ainda que dele se saiba muito pouco, pode-se especular que era de origem polaca.

Blebel e Genuth, além de Pielach, simbolizam o reconhecimento e a inclusão de identidades até então marginalizadas da polis nacional. Segundo o historiador Raanan Rein, diferentemente de outros regimes políticos, o peronismo legitimou os cidadãos de comunidades étnicas, raciais e/ou religiosas minoritárias. Pela primeira vez na Argentina, Perón estabeleceu que era compatível para os cidadãos serem leais ao projeto argentino (e peronista) e manterem fortes laços com suas comunidades de ascendência. As comunidades judaica e árabe, entre outras, formaram grupos peronistas no reconhecimento de tamanha mudança sociopolítica e expressaram sua identidade argentina (e peronista) de novas maneiras. Um exemplo é a presença sem precedentes de membros da comunidade árabe nas instituições da sociedade civil do norte do país. Blebel e Genuth, assim como os outros três lutadores, chegaram ao auge de suas carreiras desportivas nesse contexto de crescente inclusão e reconhecimento e no marco da forte associação entre o peronismo e o esporte.

Fonte: Imagem retirada do site El Furgón

No fomento do esporte de todo nível – desde clubes de bairro até os Jogos Panamericanos de 1951 –, assim como no interesse de Perón em atletas de destaque, como o boxeador José María Gatica, e no apoio de Evita ao “obrero” Club Atlético Banfield no campeonato de futebol de 1951, e em muitas outras circunstâncias, o peronismo reconheceu a importância do esporte para promover a ideia de uma Argentina forte, sã e peronista a nível nacional e internacional. Sem militância política aparente, com seus triunfos desportivos, Blebel e Genuth representavam esse novo país. Ambos ganharam medalhas de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, enquanto a equipe argentina terminou a competição com quatro medalhas de ouro e oito no total. Blebel e Genuth se transformaram em visíveis representantes da integração do argentino judeu e do argentino árabe à nação imaginada por Perón.

Genuth nasceu na província de Entre Ríos em 1931 e se formou como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da Cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente e em 1850 competiu na terceira Macabeada em Israel, ganhando duas medalhas de ouro, que dedicou a Perón. De volta à Argentina, Perón lhe entregou um troféu, não por ser um campeão judeu, mas por ser um campeão argentino em Israel. No ano seguinte de seu triunfo nos Jogos Panamericanos de 1951, se classificou em sexto lugar nos Jogos Olímpicos de Helsinque. Os meios de comunicação anunciaram as conquistas internacionais de Genuth “como triunfos argentinos”, solidificando sua integração à nação. Em 1953, ele competiu na quarta Macabeada em Israel, conquistando novamente duas medalhas de ouro. Naquele ano, o semanário Mundo Deportivo ressaltou “a grande qualidade deste lutador argentino e ratifica também o alto nível alcançado por nossa luta”. Segundo esse semanário, Genuth encabeçava o que considerava uma grande recuperação da luta nacional.

Ainda que Blebel, nascido na província de Santa Fe, fosse nove anos mais velho que Genuth, ele também fazia parte dessa recuperação. Participou dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, e nos de Helsinque, em 1952, classificando-se em décimo terceiro e décimo quarto lugar, respectivamente. Antes de ganhar a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, Blebel recebeu uma carta, bem como todos os membros da delegação argentina, na qual o presidente da Confederação Argentina de Desportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), Rodolfo Valenzuela, dizia: “todo o país tem depositado sua fé no seu comprovado espírito de desportista nato, como corresponde a um verdadeiro argentino. Creem em ti como desportista. Mas deve crer, convencer-se intimamente, que és um patriota”. Valenzuela acrescentou, depois de mencionar a obra de Evita e de sua fundação em prol da preparação da delegação argentina, que “todos eles [..] merecem que você, amigo desportista, represente um argentino nos Jogos, se sinta identificado com a causa comum”. Depois do evento, o Mundo Deportivo ressaltou que Blebel “era uma das esperanças de nossa equipe” e que “fez honra à confiança”. Assim, esse lutador argentino árabe era plenamente integrado à nação e ao peronismo. O semanário El Gráfico anunciou no mês anterior ao campeonato mundial em Tóquio que “se a luta teve progresso foi precisamente por esse escasso contato internacional que seus praticantes tiveram por não mais que cinco anos”. Era um reconhecimento oblíquo a Blebel, a Genuth e ao resto da equipe de luta, assim como ao peronismo e sua política desportiva.

Perón considerava que o esporte e os atletas podiam disseminar internacionalmente a imagem e as conquistas de sua nova Argentina. Nesse sentido, a revista Olimpia, publicada pela CADCOA, afirmou em 1954: “quando uma delegação desportiva viaja para o exterior, automaticamente se convertem em embaixadores com placet[1] popular” e acrescentou que os atletas “vêm para robustecer o trabalho diplomático que desenvolviam os diplomatas de carreira”.  A união da diplomacia tradicional e do esporte, prosseguia a revista, “conduzem a uma só meta: fazer sobressair o nome da Pátria para além de suas fronteiras físicas”. Dessa maneira, a equipe argentina que viajou à Tóquio naquele ano para o campeonato mundial constituiu uma embaixada desportiva argentina (e peronista). Antes de sua partida, El Gráfico argumentou que se podia estar certo de que “a equipe de lutadores argentinos […] é superior em experiência e qualidade a todos aqueles que até o momento defenderam nossas cores em lonas de outras terras. São de se esperar os acontecimentos”.

Os acontecimentos não foram favoráveis desportivamente. Em Tóquio, os lutadores argentinos foram superados pelos representantes das potências mundiais desse esporte. De todo modo, a viagem serviu como preparação para os Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1955, onde Genuth e Blebel ratificariam sua qualidade com medalhas de ouro. Longarela também conquistaria um ouro e Rolón uma prata. Pielach não representou a Argentina nesse evento. Para além do benefício desportivo, a presença argentina em Tóquio, como demonstra a fotografia publicado pelo Diario de la Marina, projetou a imagem, nas palavras de Rein, da legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (raciais e/ou religiosos)” e do esporte como prática integradora privilegiada. Os cinco lutadores argentinos, mas fundamentalmente Blebel e Genuth, corporizavam a ideia de uma Argentina inclusiva e respeitosa da diversidade de sua cidadania. Ou seja, nessa foto podemos perceber a base do que tempos depois seria a Argentina multicultural contemporânea. O fato de ter sido publicado em um jornal de Havana foi uma pequena conquista da diplomacia desportiva peronista.

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de abril de 2021.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

** Doutor em história. Docente na Universidade de Trent.


[1] Termo que designa a aprovação que um Governo concede a uma determinada pessoa para exercer, em seu território, a representação diplomática de outro país.