Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo terceiro episódio é “Futebol e nacionalismos”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos o Professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro Victor Andrade de Melo e o doutor em História Comparada pelo Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ Maurício Drumond.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Sou brasileiro”, composta por Nelson Biasoli e cantada pela torcida em época de Copa do Mundo

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Letícia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Victor Melo e Maurício Drumond

Artigos

As estátuas e o esporte caem do pedestal

Represada por séculos, a onda antirracista conseguiu, finalmente em 2020, romper os diques que mantinham, sob conforto e segurança, os privilégios de uma sociedade discriminatória.

A derrubada e a retirada de monumentos de personalidades identificadas com o racismo têm sido rotineira nos recentes protestos de rua que vêm exigindo justiça racial. Uma por uma, essas estátuas caem dos seus pedestais e geram o debate em torno da reinterpretação da história. E o caso de uma delas, no estádio olímpico de Amsterdã, mostra que essa onda pode causar transformações sem precedentes no esporte.

Turistas desavisados que até pouco tempo atrás passavam pelo estádio na capital holandesa invariavelmente se sentiam constrangidos.

Isso porque, desde 1928, estava lá uma estátua de bronze em que um homem saudava a todos com o braço direito retilíneo e esticado para frente. Ela foi idealizada pela escultora holandesa Gerarda Rueb na reforma do estádio para os Jogos daquele ano e em homenagem ao Barão Van Tuyll van Serooskerken, fundador do Comitê Olímpico da Holanda.

A intenção do monumento era recordar e exaltar uma suposta saudação da Antiguidade Romana, um dos berços da formação cultural do Ocidente. No entanto, apesar de ter sido erguida 5 anos antes da ascensão de Hitler, a estátua passou a ser associada, ao longo do tempo, ao nazismo, que influencia até hoje grupos racistas, como a Ku Klux Klan nos Estados Unidos. 

Estátua com o braço esticado para frente na entrada do Estádio Olímpico de Amsterdam causou polêmica. Foto: Evert Elzinga/EFE.

 

Diante das cobranças para a estátua ser removida, a Fundação do Estádio Olímpico de Amsterdã consultou um grupo de historiadores e concluiu que a saudação aos romanos é um mito. Não há relatos da época que comprovem que ela, de fato, existiu. Além disso, a estátua com a saudação acabou se tornando uma coincidência acidental e – por que não – trágica: o mesmo gesto com o braço esticado para frente tinha sido introduzido pelo Barão de Coubertin, fundador do Comitê Olímpico Internacional, nos Jogos Olímpicos de 1924, como símbolo de desportividade e respeito entre os atletas (VAN DER VOOREN, 2018).

Anos depois, os nazistas incorporaram o gesto aos seus rituais culturais, e a história fez desaparecer a saudação em meio ao constrangimento coletivo perante o terror causado pelo regime. Mas restava a estátua, bem intencionada no início, porém anacrônica, e que, por isso, já foi removida para um museu dentro do estádio

O esporte pouco havia feito para combater o racismo nas últimas três décadas em que se tornou um espetáculo global, bilionário e, por isso, um produto com grande capacidade de mobilização coletiva. Políticas afirmativas para negros foram raríssimas em clubes e outras entidades esportivas. Em meio às incontáveis injúrias sofridas por atletas negros, o que havíamos visto, no máximo, foi uma faixa “Diga não ao racismo” em estádios ou a frase “Vidas negras importam” em uniformes. Mas nada disso adiantou. 

Portanto, boicotar jogos da NBA e remover estátuas já compõem um avanço sem precedentes, embora ainda tímido. O esporte, em troca de lucros bilionários, frequentemente traçou estratégias para evitar debates raciais e de outros temas de ordem política. Para não desagradar patrocinadores, atletas foram compelidos a manter um comportamento “manso” em meio aos pedidos por engajamento social. Mas a impressão agora é a de que o silêncio da falsa normalidade e que, um dia, taxou o esporte de “alienado” definitivamente acabou.

 

Referências:

VAN DE VOOREN, J. Amsterdam 1928: Het onbekende verhaal van de Nederlandse Olympische Spelen. Balans, Uitgeverij, 2018.

Saluting statue to be removed from Amsterdam Olympic Stadium. Associated Press, Amsterdam, 14 de agosto de 2020. Acesso em: 04 set. 2020.

Produção bibliográfica

Coordenador do LEME publica capítulo em coletânea sobre futebol

 “O triste fim do ‘Canarinho Pistola’: a cobertura da Copa do Mundo de 2018 no jornal Meia Hora”, artigo de Ronaldo Helal e Leda Costa, coordenador e pesquisadora do LEME respectivamente, acaba de ser publicado no livro O futebol nas ciências humanas no Brasil. Organizada pelos professores Sérgio Settani Giglio e Marcelo Proni da Universidade Estadual de Campinas, a obra já está disponível on-line para compra no site da Editora Unicamp.

O objetivo do artigo escrito por Ronaldo e Leda é analisar a cobertura do jornal Meia Hora sobre a participação da seleção brasileira masculina de futebol na Copa do Mundo da Rússia. Os pesquisadores elegeram esse jornal popular por identificarem nele um tipo de cobertura diferente dos demais. A não-produção de heróis ou vilões por parte da mídia levantou questões sobre a falta de identificação entre a seleção e a nação brasileira, tão comum em outras épocas.

O futebol nas ciências humanas no Brasil, que está dividido em oito partes (Política; História; Sociologia; Antropologia; Comunicação e literatura; Outras áreas; Gênero, torcidas e racismos; Prorrogação), conta com outros nomes importantes da literatura esportiva, como Antônio Jorge Soares, Bernardo Buarque de Hollanda, Victor Melo, Gilmar Mascarenhas e Simoni Lahud Guedes.

Serviço

Título: O futebol nas ciências humanas no Brasil

Editora: Editora da Unicamp

Ano de Lançamento: 2020

Organizadores: Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt Proni

Sumário

Parte 1 – Política

1 – Futebol e política

Luiz Carlos Ribeiro

2 – Entre políticos e paredros: As relações políticas do futebol brasileiro na primeira metade do século XX

Maurício Drumond

3 – “A minha preocupação era jogar futebol”: Relações entre futebol e ditadura

Sérgio Settani Giglio

4 – A dimensão política do futebol-arte

José Paulo Florenzano

5 – Copa do Mundo de 1982: Ventos democráticos na Espanha e no Brasil

Alvaro Vicente do Cabo

6 – O F. C. Barcelona e o catalanismo: Apontamentos sobre as origens históricas da transcendentalidade política de um clube de futebol

Euclides de Freitas Couto

Parte 2 – História

7 – Futebol e história

João Manuel Casquinha Malaia Santos

8 – Entre a evidência e a especulação: A “origem” do futebol no Rio de Janeiro e em Niterói

Victor Andrade de Melo

9 – O nascimento do Sport Club Corinthians Paulista

Plínio Labriola Negreiros

10 – Mitos, futebol e identidade nacional (1930-1983)

Denaldo Alchorne de Souza

Parte 3 – Sociologia

11 – Esporte e sociedade em escritos de Roberto DaMatta

Alexandre Fernandez Vaz

12 – Fried, o futebol e a individualização do sportman

Ricardo Lucena

13 – Futebol e capitalismo global: Mercadorização do esporte e a formação de uma cultura neoliberal

Michel Nicolau Netto e Sávio Cavalcante

14 – Futebol bom é o europeu?! Sobre as teses do atraso e do desvio na
leitura do processo modernizador futebolístico brasileiro

Juliano de Souza e Wanderley Marchi Jr.

15 – A cooptação estratégica dos Brics pela Fifa: Análise da África do Sul, do Brasil e da Rússia

Marco Bettine

Parte 4 – Antropologia

16 – Sentidos, significados e rede de relações em torno do futebol: Exemplos analíticos

Simoni Lahud Guedes

17 – Futebol e antropologia

Arlei Sander Damo

18 – Futebol e antropologia, um jogo etnográfico “de categoria”

Enrico Spaggiari

19 – Garrincha, Pelé e Maradona: O sagrado esportivizado em tempos de iconoclastia futebolística

Luiz Henrique de Toledo

20 – Quando começa e termina o evento Copa do Mundo 2014?

Martin Curi

Parte 5 – Comunicação e literatura

21- Futebol e estudos de comunicação no Brasil: Caminhos e encruzilhadas de um campo indisciplinar

Édison Gastaldo

22 – Esporte e os meios de comunicação no Brasil: Vícios e virtudes de um matrimônio secular

José Carlos Marques

23 – Futebol e literatura no Brasil

Elcio Loureiro Cornelsen

24 – Poéticas do futebol: Formas do jogo no papel

Gustavo Cerqueira Guimarães

25 – Quem não faz leva: Futebol, linguagem e história

Raul Milliet Filho

26 – “O triste fim do canarinho pistola”: A cobertura da Copa do Mundo de 2018 no jornal Meia Hora

Leda Costa e Ronaldo Helal

Parte 6 – Outras áreas

27 – A geografia das Copas: O Brasil urbano em 1950

Gilmar Mascarenhas

28 – Estádios e arenas como lentes privilegiadas para capturar as transformações do espaço urbano

Fernando da Costa Ferreira

29 – O futebol-empresa no Brasil

Marcelo Weishaupt Proni

30 – Das “cinco estrelas” que ninguém tem ao 7 a 1 que ninguém levou:
A gestão como instrumento para o futebol brasileiro voltar a vencer

Leandro Carlos Mazzei e Ary José Rocco Jr.

31 – Pedagogia não linear no futebol: Uma busca por estratégias pedagógicas que possam nortear o processo de criação de tarefas representativas

João Cláudio Machado e Alcides José Scaglia

Parte 7 – Gênero, torcidas e racismos

32 – Dimensões de gênero e os múltiplos futebóis no Brasil

Wagner Xavier de Camargo

33 – Projetos de vida, mulheres e futebol

Osmar Moreira de Souza Júnior e Heloisa Helena Baldy dos Reis

34 – O Brasil é hexa: A trajetória esportiva de Marta

Cláudia Samuel Kessler e Silvana Vilodre Goellner

35 – A palavra e a voz no futebol: Apontamentos sobre mulheres e narração esportiva

Leonardo Turchi Pacheco

36 – Ordem & progresso nas arquibancadas: Jornalismo esportivo e a gênese das torcidas uniformizadas de futebol durante o regime político do Estado Novo (1937-1945)

Bernardo Buarque de Hollanda e Aníbal Chaim

37 – Futebol, violências e a política democrática no Brasil

Heloisa Helena Baldy dos Reis e Mariana Zuaneti Martins

38 – Narrativas sobre violência no futebol: (Des)construindo a categoria “torcedor violento”

Felipe Tavares Paes Lopes

39 – A experiência do torcer no (dito) “futebol moderno”

Silvio Ricardo da Silva e Priscila Augusta Ferreira Campos

40 – O “racismo à brasileira” no futebol

Bruno Otavio de Lacerda Abrahão e Antonio Jorge Gonçalves Soares

41 – “Essa é uma realidade”: Os racismos vividos e narrados por negros em várias áreas de atuação no futebol brasileiro

Marcel Diego Tonini

Parte 8 – Prorrogação

A polêmica sobre o VAR e suas consequências no futebol

Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt Proni

Eventos · Parcerias

Jornada de pós-graduandos recebe inscrições de pesquisas sobre Comunicação e Futebol no Nordeste

Divulgar as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por estudantes de mestrado e
doutorado nordestinas/os em programas pós-graduação que versam sobre futebol no
campo da Comunicação e em áreas afins. Esse é o objetivo da Jornada nordestina de
pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol, que será realizada de 9 a 11 setembro
de 2020 de maneira virtual, com transmissão online pelo canal do portal Ludopédio no
Youtube.

A partir desta segunda-feira, 10 de agosto, está aberta a chamada de inscrições de
resumos de pesquisas em desenvolvimento ou que tenham sido concluídas como
dissertação ou tese em 2019 ou 2020, tendo como objeto de estudo o Futebol. A
inscrição é gratuita e pode ser feita com o preenchimento do formulário que deve
conter um resumo de 15 linhas, em que o discente deve informar, pelo menos, objetivo
e metodologia de sua pesquisa. Todos os congressistas que apresentarem trabalhos
receberão certificados de participação.

As submissões seguem abertas até o dia 21 de agosto (sexta-feira). Após essa data, a
organização do evento formará as mesas de apresentação dos trabalhos de acordo
com as temáticas e suas relações com o campo do futebol, comunicação e áreas afins.
Após as apresentações orais das pesquisas, haverá um tempo reservado ao debate,
com participação aberta do público, que poderá interagir através do chat da
transmissão no Youtube.

O evento é uma iniciativa da Rede nordestina de Estudos em Mídia e Esporte
(ReNEme), que será lançada oficialmente por ocasião da jornada. O grupo já conta
com representações de discentes e docentes vinculados a universidades públicas de
estados como Alagoas, Ceará, Paraíba, Pernambuco e Sergipe. A Jornada conta ainda
com a organização do grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da
Comunicação (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e tem também os apoios do capítulo Brasil do União Latina de Economia Política da Informação, Comunicação e da Cultura (Ulepicc-Brasil), com a jornada sendo um dos pré-eventos do 8° Encontro Ulepicc-Brasil; Laboratório de Estudos em Esporte e Mídia (LEME), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e do Ludopédio, portal de produção e divulgação científica sobre futebol.

SERVIÇO

Jornada nordestina de pós-graduandas/os de estudos de futebol na Comunicação e
áreas afins
Data: 9 e 11 de setembro
Local: canal do Youtube do portal Ludopédio (https://bit.ly/3ilCvxV)
Período de inscrições: 10 a 21 de agosto de 2020
Link de submissão de resumos: https://bit.ly/2C8F7zT

Artigos

Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

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Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

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pinterest.com

De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros

Eventos

Simoni Guedes é homenageada nesta sexta

Luiz Henrique de Toledo, Rosana da Câmara Teixeira, Nicolás Cabrera e Filipe Mostaro já estão a postos para o Encontros Leme edição especial de amanhã, em homenagem à Simoni Guedes, às 19h, com transmissão pelo Youtube. “Esta live pretende prestar uma homenagem à Simoni Guedes, suas contribuições de vida, teóricas e metodológicas daquela que foi a precursora dos estudos sobre o esporte no Brasil. Contribuições que transcenderam o campo das pesquisas esportivas e cujos impactos podem ser demonstrados na experiência de trabalhos que continuam a recriar abordagens e práticas científicas que dialogam com o legado de Simoni Guedes”, conta Leda Costa, integrante do LEME e idealizadora da iniciativa.

A antropóloga Simoni Guedes, falecida no ano passado, foi professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), tendo sido uma das coordenadoras do Programa de Pós-graduação de Antropologia da mesma instituição. Simoni foi a primeira pesquisadora a realizar trabalhos referentes ao futebol, como explica o coordenador do LEME, professor Ronaldo Helal: “Simoni Guedes é a precursora dos estudos acadêmicos sobre futebol no país. Em 1977, ela defendeu a dissertação O Futebol Brasileiro – Instituição Zero. Já em 1982, ela foi uma das autoras do livro Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira, organizado por Roberto DaMatta. Foi a partir dessa obra que tivemos o pontapé inicial para a formação estrutural dos estudos acadêmicos sobre o futebol no país, utilizando-se de uma perspectiva ritualística. Na década de 90, tive a oportunidade de conhecer Simoni pessoalmente e aí percebi que, além de dotada de inteligência e sagacidade extraordinárias, ela cativa por sua simpatia, simplicidade e generosidade”, conta Helal, que realizou homenagem à Simoni, antes de sua partida, no artigo “Simoni Guedes, a precursora” (disponível no blog do LEME).

Ao contrário dos outros Encontros, não será necessário se inscrever previamente, já que a transmissão será aberta.

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Produção bibliográfica

LEME lança novo livro organizado por seus pesquisadores

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) acaba de lançar um novo livro. Organizado pelo coordenador do grupo, Ronaldo Helal, e pelo pesquisador do LEME, Filipe Mostaro, o livro Narrativas do Esporte na Mídia – Reflexões e Pesquisas do LEME traz uma coletânea de dez artigos, todos assinados por mestres, doutores, pós-doutores e pesquisadores que fizeram ou fazem parte do Laboratório.

O livro começou a ser pensado em 2017, quando houve o convite de Helal e Filipe para os autores fazerem parte da coletânea. Com uma boa troca de passes e um time em sintonia, o resultado final ficou pronto agora, em 2020. Trazendo diferentes recortes dentro do universo da relação esporte-mídia, os artigos apresentam um conjunto de pesquisas denso, fruto de um trabalho sério de cada pesquisador, que contribuem para um debate mais profundo sobre esse campo, ajudando a compreender e ressignificar o papel do jornalismo esportivo na produção de narrativas.

Os textos fazem um percurso que vai desde o início do século até os dias atuais, passando por diferentes meios de comunicação e mostrando a intensa relação do esporte com a mídia. O time que compõe o livro é formado por Ronaldo Helal, Fausto Amaro, Francisco Brinati, Alvaro do Cabo, Juan Silvera, Leda Costa, Carol Fontenelle, Irlan Simões, Anderson Gomes, Tatiane Hilgemberg e Filipe Mostaro.

O lançamento presencial já está acertado com a editora Appris, mas ainda não tem data para acontecer, por conta da pandemia e das consequentes medidas de restrição.

Enquanto isso, os interessados podem comprar o livro direto no site da editora.

Serviço

Título: Narrativas do Esporte na Mídia – Reflexões e Pesquisas do LEME

Editora: Appris

Ano de Lançamento: 2020

Organizadores: Ronaldo Helal e Filipe Mostaro

Preço sugerido para venda: R$66,00 (versão impressa); R$29,00 (versão digital)

Sumário

  1. Futebol, mídia e nação: um breve relato do campo acadêmico
    Ronaldo Helal
  2. O olhar da imprensa carioca sobre o esporte olímpico nacional na década de 1910
    Fausto Amaro
  3. Maracanazo e Mineiratzen: imprensa e representação da Seleção Brasileira nas      derrotas das copas do mundo de 1950 e 2014
    Francisco Brinati
  4. Futebol força x futebol arte. O debate em torno do “estilo” brasileiro no mundial da Argentina em 1978
                Alvaro Vicente do Cabo
  5. O mito Pelé: nacionalismo, fanatismo ou religião, fatos bons para pensar
    Juan Silvera
  6. Quem diz não ao futebol moderno. Juventude, mídia, contracultura e imagens da resistência
                Leda Maria da Costa
  7. Futebol e consumo: hábitos e paixões de jovens da Baixada Fluminense
    Carol Fontenelle e Ronaldo Helal
  8. A invenção do “Nordestão” e o futebol-arte: investigações a partir do jornal dos      sports
    Irlan Simões e Anderson dos Santos
  9. Jogos Paralímpicos de 2012: a perspectiva individual dos atletas paralímpicos e          a sua representação na mídia
                Tatiane Hilgemberg
  10. De “professor” a “comandante”: os rumos narrativos sobre os técnicos da Seleção Brasileira de futebol na primeira metade do século XX
    Filipe Mostaro
Produção audiovisual

Já está no ar o décimo segundo episódio do Passes e Impasses

Acesse o décimo segundo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo segundo episódio é “Esporte e Cinema”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, pesquisador do LEME e jornalista da Rádio Globo, gravamos remotamente com Victor Andrade de Melo, professor do Programa de Pós-graduação em Educação da UFRJ e também do programa de Estudos do Lazer da Universidade Federal da Minas Gerais, e Ronaldo Helal, coordenador do LEME e professor titular da UERJ.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo segundo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Na cadência do samba”, de Luis Bandeira.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS E LIVROS

FILMES

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Carol Fontenelle e Letícia Quadros

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis

Convidados: Ronaldo Helal e Victor Andrade de Melo

Produção bibliográfica

Revista do AGCRJ abre chamada para dossiê com temática esportiva

Até o dia 30 de abril de 2020, a Revista do AGCRJ receberá textos para compor os dois dossiês, a área de artigos livres e resenha da sua primeira edição do ano. O primeiro dossiê é sobre “Práticas corporais, espaços públicos e vida urbana no Rio de Janeiro” e o segundo é sobre “Deslocamentos nacionais e internacionais de mulheres que fixaram residência na capital carioca”.

O primeiro, organizado por Luiz Rocha, pretende refletir sobre a relação entre o crescimento das cidades, notadamente o Rio de Janeiro, e as práticas esportivas no alvorecer da Modernidade. A ideia é discutir as práticas corporais, a cultura de valorização do físico, da masculinidade, do culto ao corpo, relacionando-os com as atividades esportivas realizadas por toda a cidade. Já o segundo, organizado por Cláudia Calmon, pretende discutir a vinda de mulheres sozinhas ou acompanhadas para se fixarem na cidade do Rio de Janeiro, local que sempre teve uma importância central na história nacional. Procurar-se-á pensar os deslocamentos femininos em novos arranjos espaciais e políticos liderados por essas (i)migrantes.

Se sua pesquisa se encaixa em alguns dos dossiês ou se seu estudo abrange a cidade do Rio de Janeiro nas áreas de História, Geografia, Arquitetura e Urbanismo, Arquivologia e ciências afins, encaminhe seu texto para a publicação. Para conhecer as normas, prazos e ler as antigas edições, acesse o site do AGCRJ.

Principal - www.rio.rj.gov.br

Artigos

Quanto importa o esporte?

Por César R. Torres* e Francisco Javier López Frías**/ El Furgón***

Rory Smith é um correspondente esportivo do The New York Times especializado em futebol. Em sua coluna de domingo 15 de março, quando o coronavírus já havia paralisado todo tipo de competências esportivas ao redor do mundo e confinado grande parte da humanidade em suas casas, expressou que, em relação a uma pandemia que pode custar numerosas vidas, o futebol não importa em um sentido real. Agregou que há coisas mais importantes em que pensar e que o futebol é, no final das contas, um esporte.

Leme tradução 1
Rory Smith (Fonte: Twitter)

No domingo seguinte, Smith voltou a refletir sobre a importância do esporte. Reconheceu, admitindo ter sido influenciado pela correspondência que recebeu do público leitor durante a semana, que para muitas pessoas o esporte é importante e que isso é bom. Entretanto, insistiu que não importa tanto como outras coisas. Embora não seja a prioridade de ninguém neste tempo funesto, o esporte importa, elaborou, como indústria e economia, mas também como algo para o qual dedicamos muito tempo. Concluiu sua opinião sobre o tema estipulando: “Mais de uma coisa pode ser importante. Nem todas as coisas têm que ter igual importância”.

 

Leme tradução 2
Coluna de Smith no site do New York Times

As colunas de Smith remetem a uma frase atribuída a várias personalidades futebolísticas: “O futebol é a mais importante das coisas menos importantes da vida”. Este julgamento axiológico se estende ao esporte em geral. Seguindo essa posição, bastante propagada, o esporte ocupa um lugar importante nas atividades que consideramos trivais. Isso seria ainda mais aparente em tempos de coronavírus, em que a satisfação das necessidades básicas para sobrevivência prevalece. Assim, o esporte, no melhor dos casos, teria um valor secundário.

Contudo, a emergência sanitária e suas consequências destacam, ao impedi-los, o valor de um conjunto de atividades, entre as quais figura o esporte. Ao contrário do que afirmou Smith, o esporte não é importante principalmente por seu dinamismo como indústria e economia, mas por sua natureza e pelas possibilidades existenciais que oferece. Aquela e estas, conjuntamente, elucidam seu valor e a fervente adesão de milhões de pessoas.

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Coluna de Smith no New York Times

A partir do trabalho do filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se dizer que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade estabelecida socialmente, coerente, complexa e de caráter cooperativo com ganhos internos (aqueles que só se materializam por meio de sua prática contínua) e padrões de excelência. A peculiaridade do esporte reside no fato de que é um problema artificial estabelecido e regulado por regras que requerem a implementação de habilidades físicas menos eficientes para alcançar o objetivo especificado simplesmente para torná-lo possível. Dito de outra maneira, o esporte é um jogo regido pela “lógica da gratuidade” no qual os participantes tentam resolver um problema desnecessário por meio de habilidades físicas simplesmente com o objetivo de resolver o problema.

Ao testar seus praticantes, o esporte abre a possibilidade de demonstrar aptidão e alcançar algo que é provado com afinco. O filósofo Thomas Hurka argumenta que a realização – assim como a tentativa de alcançar – é intrinsecamente boa porque tem a capacidade de unificar a vida em um todo coerente. De acordo com sua visão, os objetivos abrangentes que se estendem no tempo e são complexos, que demandam cooperação, planejamento e precisão, como os que oferece o esporte, são mais valiosos que os objetivos que sofrem com essas condições. Hurka ressalta o valor de alcançar algo difícil só porque é difícil e não porque é agradável, correto ou esperado. Isso, por sua vez, destaca a “importância trivial” – ou artificialidade – do esporte como plano de vida.

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Site do River Plate

Além disso, envolver-se em uma prática social como o esporte implica tanto em reconhecer seus valores internos e padrões de excelência como em comprometer-se a cultivá-los e a enobrece-los, a aceitar ser julgado de acordo com eles e a respeitar a comunidade de praticantes que também permite sua existência, manutenção e avanço. Nesse sentido, poderia se dizer que o esporte representa um “estilo de vida perfeccionista” marcado pela busca da excelência atlética e, consequentemente, pelo exercício e extensão das capacidades e virtudes necessárias para alcançá-la. Já afirmava o filósofo John Rawls que o perfeccionismo exige que todos os esforços sejam dirigidos para maximizar a realização da excelência humana. O esporte facilita a nobre aspiração de um rendimento excelente.

O tipo de relação com o esporte que exige o perfeccionismo manifesta um compromisso de todo coração. Segundo o filósofo William J. Morgan, este compromisso é apaixonado, consciente, atento e comunitário. A boa vida inclui alguma atividade com que as pessoas se comprometam de todo coração, porque esse compromisso guia e enriquece a vida. Morgan enfatiza que o esporte é uma das poucas atividades na qual esse compromisso é visível e valorizado. E é especialmente adequado o compromisso sincero porque ao focar nos atributos internos e padrões de excelência sua lógica reverte o instrumentalismo vigente na sociedade. Novamente, o potencial emerge de sua artificialidade. Talvez por isso o filósofo José Ortega y Gasset escreveu que o desinteresse instrumental na filosofia e no esporte era um “dom de generosidade que floresce apenas na mais alta altitude vital” e recomendou não levar a vida muito a sério “antes bem, com o temperamento do espírito que leva (ao) exercício de um esporte”. Em suas palavras, o esporte, o jogo enérgico, é “um esforço espontâneo, luxuoso […] que se tira prazer em si mesmo”, praticá-lo é tomar a vida vigorosamente.

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Site do real Madrid

Os diferentes valores do esporte sinalizam sua força humanizadora. Quando as pessoas tomam o caminho do esporte, elas colocam em ação e preservam a capacidade de dar forma e sentido a suas próprias vidas. As pessoas se humanizam elegendo e construindo significados em relação a suas escolhas. Optar por ser um desportista abre a possibilidade de cumprir com o que o poeta Píndaro enigmaticamente prescreveu: “Torne-se o que és”.  Se os seres humanos estão determinados por algo, é para autodeterminar e tentar se tornar quem eles querem ser. Ao eleger desportivamente, moldamos o ser. A vida desportiva, portanto, induz a forjar, nesse enorme esforço de autodeterminação, uma identidade. Esse processo tem uma dimensão comunitária. Como mostrou o antropólogo Clifford Geertz, o esporte forma um conjunto de significados que estruturam uma história que as comunidades humanas contam a si mesmas sobre si mesmas. Em outras palavras, o esporte também gera uma identidade comum. Nós nos entendemos como uma comunidade, exercendo-a.

Suas qualidades e suas potencialidades permitem-nos sustentar que o esporte se encontra entre as coisas mais importantes da vida. Nada do que foi dito aqui deve ser interpretado como justificação para aliviar a proibição do esporte. Por outro lado, tudo deve ser interpretado como uma defesa do valor e da importância do esporte, assim como de seu cultivo apaixonado. Também deve ser interpretado como explicação de porquê sente-se falta dele. Enquanto enfrentamos a pandemia e sentimos sua falta, vamos tentar, dentro dos limites do confinamento atual, mantermo-nos desportivamente ativos e replicar, mesmo que imperfeitamente, sua altitude vital.

*Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park)

**** Texto originalmente publicado em El Fúrgon no dia 29 de março de 2020.

Tradução livre: Leticia Quadros e Fausto Amaro (LEME/UERJ).