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Os cinco lutadores da foto: peronismo, esporte e diplomacia

Por César R. Torres* y David M. K. Sheinin **

No dia 23 de maio de 1954, um ano e quatro meses antes do golpe de estado que derrubaria Juan Domingo Perón, o jornal havanês Diario de la Marina publicou uma foto da equipe argentina de luta em sua chegada a Tóquio para participar do campeonato mundial desse esporte. A foto tinha sido tirada ates, já que o evento aconteceu entre os dias 22 e 25 de maio. Entre os quinze países participantes, a Argentina era o único latino-americano. Talvez esse tenha sido o motivo, junto a seu excelente desempenho nos primeiros Jogos Panamericanos organizados pelo peronismo em Buenos Aires três anos antes, pelo qual o Diario de la Marina incluíra a fotografia da equipe argentina. Essa mostrava os cinco integrantes – elegantemente vestidos – junto ao avião no qual haviam chegado à Tóquio. A imagem foi localizada na parte superior de uma página de esporte e ocupava três das oito colunas. Qualquer que tenha sido o motivo para publicá-la ali, a foto projetava vários eixos da reconfiguração de significados desportivos e cidadãos promovidos por Perón durante a década em que governou e que cimentaram alguns traços da Argentina contemporânea.

Os cinco lutadores da fotografia marcaram a interseção de vários temas chaves no desenvolvimento e na promoção da argentinidade sob o peronismo. Entretanto, dois desses lutadores, Omar Blebel, um argentino de ascendência árabe, e León Genuth, um argentino judeu, o fizeram de forma ainda mais evidente que os destacados Juan Rolón e Alberto Longarela, supostamente de origem espanhola e italiana, respectivamente. A presença de Zdzislaw Pielach no grupo de lutadores que viajou a Tóquio também é significativa. Ainda que dele se saiba muito pouco, pode-se especular que era de origem polaca.

Blebel e Genuth, além de Pielach, simbolizam o reconhecimento e a inclusão de identidades até então marginalizadas da polis nacional. Segundo o historiador Raanan Rein, diferentemente de outros regimes políticos, o peronismo legitimou os cidadãos de comunidades étnicas, raciais e/ou religiosas minoritárias. Pela primeira vez na Argentina, Perón estabeleceu que era compatível para os cidadãos serem leais ao projeto argentino (e peronista) e manterem fortes laços com suas comunidades de ascendência. As comunidades judaica e árabe, entre outras, formaram grupos peronistas no reconhecimento de tamanha mudança sociopolítica e expressaram sua identidade argentina (e peronista) de novas maneiras. Um exemplo é a presença sem precedentes de membros da comunidade árabe nas instituições da sociedade civil do norte do país. Blebel e Genuth, assim como os outros três lutadores, chegaram ao auge de suas carreiras desportivas nesse contexto de crescente inclusão e reconhecimento e no marco da forte associação entre o peronismo e o esporte.

Fonte: Imagem retirada do site El Furgón

No fomento do esporte de todo nível – desde clubes de bairro até os Jogos Panamericanos de 1951 –, assim como no interesse de Perón em atletas de destaque, como o boxeador José María Gatica, e no apoio de Evita ao “obrero” Club Atlético Banfield no campeonato de futebol de 1951, e em muitas outras circunstâncias, o peronismo reconheceu a importância do esporte para promover a ideia de uma Argentina forte, sã e peronista a nível nacional e internacional. Sem militância política aparente, com seus triunfos desportivos, Blebel e Genuth representavam esse novo país. Ambos ganharam medalhas de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, enquanto a equipe argentina terminou a competição com quatro medalhas de ouro e oito no total. Blebel e Genuth se transformaram em visíveis representantes da integração do argentino judeu e do argentino árabe à nação imaginada por Perón.

Genuth nasceu na província de Entre Ríos em 1931 e se formou como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da Cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente e em 1850 competiu na terceira Macabeada em Israel, ganhando duas medalhas de ouro, que dedicou a Perón. De volta à Argentina, Perón lhe entregou um troféu, não por ser um campeão judeu, mas por ser um campeão argentino em Israel. No ano seguinte de seu triunfo nos Jogos Panamericanos de 1951, se classificou em sexto lugar nos Jogos Olímpicos de Helsinque. Os meios de comunicação anunciaram as conquistas internacionais de Genuth “como triunfos argentinos”, solidificando sua integração à nação. Em 1953, ele competiu na quarta Macabeada em Israel, conquistando novamente duas medalhas de ouro. Naquele ano, o semanário Mundo Deportivo ressaltou “a grande qualidade deste lutador argentino e ratifica também o alto nível alcançado por nossa luta”. Segundo esse semanário, Genuth encabeçava o que considerava uma grande recuperação da luta nacional.

Ainda que Blebel, nascido na província de Santa Fe, fosse nove anos mais velho que Genuth, ele também fazia parte dessa recuperação. Participou dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, e nos de Helsinque, em 1952, classificando-se em décimo terceiro e décimo quarto lugar, respectivamente. Antes de ganhar a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, Blebel recebeu uma carta, bem como todos os membros da delegação argentina, na qual o presidente da Confederação Argentina de Desportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), Rodolfo Valenzuela, dizia: “todo o país tem depositado sua fé no seu comprovado espírito de desportista nato, como corresponde a um verdadeiro argentino. Creem em ti como desportista. Mas deve crer, convencer-se intimamente, que és um patriota”. Valenzuela acrescentou, depois de mencionar a obra de Evita e de sua fundação em prol da preparação da delegação argentina, que “todos eles [..] merecem que você, amigo desportista, represente um argentino nos Jogos, se sinta identificado com a causa comum”. Depois do evento, o Mundo Deportivo ressaltou que Blebel “era uma das esperanças de nossa equipe” e que “fez honra à confiança”. Assim, esse lutador argentino árabe era plenamente integrado à nação e ao peronismo. O semanário El Gráfico anunciou no mês anterior ao campeonato mundial em Tóquio que “se a luta teve progresso foi precisamente por esse escasso contato internacional que seus praticantes tiveram por não mais que cinco anos”. Era um reconhecimento oblíquo a Blebel, a Genuth e ao resto da equipe de luta, assim como ao peronismo e sua política desportiva.

Perón considerava que o esporte e os atletas podiam disseminar internacionalmente a imagem e as conquistas de sua nova Argentina. Nesse sentido, a revista Olimpia, publicada pela CADCOA, afirmou em 1954: “quando uma delegação desportiva viaja para o exterior, automaticamente se convertem em embaixadores com placet[1] popular” e acrescentou que os atletas “vêm para robustecer o trabalho diplomático que desenvolviam os diplomatas de carreira”.  A união da diplomacia tradicional e do esporte, prosseguia a revista, “conduzem a uma só meta: fazer sobressair o nome da Pátria para além de suas fronteiras físicas”. Dessa maneira, a equipe argentina que viajou à Tóquio naquele ano para o campeonato mundial constituiu uma embaixada desportiva argentina (e peronista). Antes de sua partida, El Gráfico argumentou que se podia estar certo de que “a equipe de lutadores argentinos […] é superior em experiência e qualidade a todos aqueles que até o momento defenderam nossas cores em lonas de outras terras. São de se esperar os acontecimentos”.

Os acontecimentos não foram favoráveis desportivamente. Em Tóquio, os lutadores argentinos foram superados pelos representantes das potências mundiais desse esporte. De todo modo, a viagem serviu como preparação para os Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1955, onde Genuth e Blebel ratificariam sua qualidade com medalhas de ouro. Longarela também conquistaria um ouro e Rolón uma prata. Pielach não representou a Argentina nesse evento. Para além do benefício desportivo, a presença argentina em Tóquio, como demonstra a fotografia publicado pelo Diario de la Marina, projetou a imagem, nas palavras de Rein, da legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (raciais e/ou religiosos)” e do esporte como prática integradora privilegiada. Os cinco lutadores argentinos, mas fundamentalmente Blebel e Genuth, corporizavam a ideia de uma Argentina inclusiva e respeitosa da diversidade de sua cidadania. Ou seja, nessa foto podemos perceber a base do que tempos depois seria a Argentina multicultural contemporânea. O fato de ter sido publicado em um jornal de Havana foi uma pequena conquista da diplomacia desportiva peronista.

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de abril de 2021.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

** Doutor em história. Docente na Universidade de Trent.


[1] Termo que designa a aprovação que um Governo concede a uma determinada pessoa para exercer, em seu território, a representação diplomática de outro país.

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Quando Armando imaginou Kissinger como sócio honorário do Boca

Em 1976, o Boca contava com 360 sócio honorários. De acordo com seu estatuto, essa distinção pode ser concedida “em favor de pessoas que, pertencendo ou não ao Clube, tenham lhe prestado serviços excepcionais”. Essa distinção havia sido concedida pela última vez em 1972, quando receberam-na 45 homens pelos seus favoráveis “pronunciamentos administrativos inerentes às obras do Grande Estádio da Cidade Desportiva, com benefícios inestimáveis para o Boca Juniors”. Quatro anos depois, Alberto J. Armando, presidente da entidade entre 1954-1955 e entre 1960-1980, tentou aumentar a lista de sócios honorários com um personagem tão inusitado quanto ardiloso: Henry Kissinger, secretário de Estado dos Estados Unidos entre 1973-1977, durante as presidências de Richard Nixon e Gerald Ford e defensor da Junta Militar que governou o país depois do golpe cívico-militar de 1976 que derrubou Isabel Martínez de Perón.

A motivação de Armando, promotor do que seria o “futebol espetáculo” no final da década de cinquenta e começo da de sessenta, parece ter sido mais propagandística do que política. Kissinger poderia ter impulsionado a visibilidade internacional do Boca. Em 14 de junho de 1976, a menos de dois meses do golpe, Armando enviou uma carta a Kissinger, preservada em seu arquivo pessoal, manifestando o agrado do clube em saber, através da imprensa, de sua simpatia pela instituição que presidia. “O Clube mais popular da Argentina”, prosseguia a carta, “tem a partir de agora entre seus membros uma das figuras mais relevantes do governo dos Estados Unidos da América e campeão da paz mundial”, o que constituía uma “uma honra imensa”.

Junto com a carta, Armando enviou a Kissinger uma flâmula e uma insígnia do Boca, assim como uma credencial para que pudesse presenciar na famosa Bombonera as partidas da equipe principal. Dando-lhe as boas-vindas “à grande família boquense”, Armando antevia que ela [a família boquense] demonstraria seu afeto e sua alegria quando, em sua próxima visita ao país, Kissinger se sentasse no lugar de honra do estádio. Armando se despedia até “tão feliz momento”, anunciando que na próxima Assembleia Geral de Representantes “proporemos a designação do Senhor Secretário de Estado como Sócio Honorário do Clube”.

A carta de Armando foi traduzida no Departamento de Estado e respondida seis semanas depois. A assistente pessoal de Kissinger fez isso em seu nome. Ela disse a Armando que agradecia muito à flâmula, à insígnia e à credencial. Além disso, dizia saber o quanto Kissinger gostaria de presenciar a uma partida de futebol em sua próxima viagem ao país, se sua agenda o permitisse. A assistente pessoal também disse que Kissinger estaria muito honrado de ser proposto como um sócio honorário. O entusiasmo era verdadeiro, já que Kissinger adorava o futebol, esporte que praticou em sua juventude e promoveu nos Estados Unidos. Em outubro de 1978, foi nomeado presidente da Junta Diretiva da Liga da North American Soccer League (NASL) – Liga de Futebol da América do Norte –, que funcionou entre 1968-1984. Ele podia ser visto nas partidas do New York Cosmos, equipe da NASL, e se envolveu nas negociações que permitiram a Pelé jogar nessa equipe entre 1975-1977. Também teria um papel destacado na bem-sucedida candidatura dos Estados Unidos para ser sede da Copa do Mundo de 1994. O jornalista Daryl Grove argumenta que Kissinger tem sido uma das pessoas mais influentes no desenvolvimento do futebol nesse país.

Apesar do entusiasmo de Kissinger pela carta de Armando e suas credenciais futebolísticas, o Boca não lhe concedeu o título de sócio honorário. A Assembleia Geral Ordinária de Representantes, posterior à carta de Armando, foi realizada em 10 de setembro de 1976, mas o Relatório e o Balanço Geral do ano administrativo que terminava no final daquele mês mostrou que o número de sócios seguia sendo o mesmo: 360. Esse documento não especifica se Kissinger não foi proposto como sócio honorário ou se houve resistência à dita proposta. É provável que alguns sócios desejassem considerar os “serviços excepcionais”, como reza o estatuto do clube, prestados por Kissinger para merecer a distinção.

Ainda que não tenha sido aceito como membro honorário do Boca, Kissinger se relacionou sordidamente com o futebol argentino. Foi um convidado de honra da Junta Militar durante a Copa do Mundo de 1978. Ele até apareceu com Jorge Videla, o presidente da Junta Militar, posteriormente condenado por crimes contra a humanidade, no vestiário da equipe peruana antes da controversa partida que disputou, em Rosario, contra a Argentina pelas semifinais do torneio. No ano anterior, Videla havia entregado a Kissinger uma foto sua cuja legenda dizia: “Ao senhor HENRY KISSINGER, com particular estima e respeito”. Dado o apoio que concedeu à ditadura cívico-militar, a estima e o respeito eram mútuos. Videla estava convencido de que, como secretário de Estado, Kissinger havia defendido as ações de seu governo “contra o comunismo”. Sua presença na Copa do Mundo de 1978 foi encarada como legitimadora e, ao mesmo tempo, como contrapartida à posição de Jimmy Carter, que pressionava, desde sua posse na presidência, em fevereiro de 1977, a Junta Militar a respeitar os direitos humanos. De fato, em 1978, Raúl Castro, embaixador dos Estados Unidos na Argentina, escreveu estar preocupado com a visita de Kissinger para a Copa do Mundo, porque seus elogios à luta “contra o terrorismo” podiam ter subido à cabeça dos ditadores e porque existia a possibilidade de que eles se utilizassem disso para justificar um endurecimento das ações repressivas.

Qualquer que tenha sido o motivo para a frustração da ideia inicial de Armando, para o Boca foi benéfico não contar com Kissinger entre seus sócios honorários. Suas temerosas ações políticas estenderam-se a outros países da América Latina e também a outras zonas geográficas. Sua carreira no serviço público foi tão controversa que o cientista político Marcelo Cavarozzi afirmou que Kissinger é “produto de uma mente superior que não necessariamente trabalhava para encontrar o funcionamento e o desenvolvimento de sociedades mais justas, pacíficas e igualitárias”. Por sua vez, o jornalista Jon Lee Anderson se perguntou, à luz de novos documentos que confirmam seu apoio aos ditadores latino-americanos, se Kissinger tem consciência. Boa parte da família boquense, ao falar de Armando, pode ter se perguntando a mesma coisa. Ao menos eles não tiveram que se perguntar o que deveriam ter feito se tivessem concedido a Kissinger a distinção de sócio honorário do clube. Ao contrário da previsão de Armando, a Bombonera nunca demonstrou a Kissinger seu afeto e sua alegria.

Fonte: Página12

Texto originalmente publicado no site Página12 no dia 15 de fevereiro de 2021.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

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Lutador e Peronista


Por Cesar Torres* e David M. K. Sheinin**

Nascido em 1976 no bairro portenho de La Paternal, F relata uma experiência muito comum na comunidade judaica argentina. Seu pai morreu quando tinha oito anos. Entretanto, foi na vida adulta que tomou conhecimento de um segredo profundo do qual seus familiares haviam falado apenas em sussurros: seu pai, um operário industrial, havia sido peronista.

Não foi simplesmente como se seu pai tivesse se “equivocado” como seguidor judeu de Juan Domingo Perón, mas sim que sua identidade peronista envergonhava aos familiares. Este trabalhador industrial representou a antítese à ascensão da classe média judaico-portenha. A história que F contou corresponde com a imagem do jornalista Jacobo Timerman no livro Timerman: el periodista que quiso ser parte del poder. A autora, Graciela Mochkofsky, conecta a identidade judaica de Timerman (e de outros judeus argentinos) à modernidade do século XX, associada com os ideais liberais do século anterior, originados na França napoleônica, e aos princípios de cidadania completa e livre para os judeus na Europa.

Em seu livro Los muchachos judíos peronistas, o historiador Raanan Rein demonstra que a distância entre os judeus e o peronismo era um mito. Enquanto muitas pessoas ainda associam Perón com o antissemitismo, antes de Rein não havia sido apresentado de forma tão contundente que dentro da comunidade judaica houve um apoio notável a Perón. Levando em conta a insistente associação do peronismo com a identidade argentina, o mito do distanciamento entre a comunidade judaica e o peronismo constata o tom preconceituoso quando ela é apresentada como estrangeira. Los muchachos judíos peronistas explica que o peronismo é também parte da história da comunidade judaica argentina no século XX. Perón declarou explicitamente que a etnia judaica – assim como a árabe ou a japonesa – não diminuiria a identidade argentina. Ao contrário, o peronismo representou o primeiro movimento político argentino que afirmou a argentinidade das diferentes comunidades étnicas e religiosas. Para muitos argentinos judeus, o peronismo ofereceu uma entrada livre de dúvidas à nova sociedade argentina – a Nova Argentina de Perón na fórmula partidária – forjada a partir dos anos quarenta.

Fonte: eraseperonia.com

O esporte peronista

Perón praticou todo tipo de esporte, desde boxe à esqui, desde esgrima ao motociclismo. Mais do que reforçar sua própria masculinidade com o cultivo de uma imagem pública de atleta vigoroso, Perón chegou à presidência com uma visão de inclusão social que incorporava o esporte para beneficiar as classes populares. Os dez anos peronistas foram, segundo o antropólogo Eduardo Archetti, “exemplares e não houve, posteriormente, outras intenções sistemáticas de vincular o esporte com a nação através de políticas estatais claras e articuladas”. Além da participação de milhares de jovens nos Jogos Evita e da organização de espetáculos desportivos como os primeiros Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 e da construção de infraestrutura esportiva como o Autódromo Municipal, Perón apoiou a muitos atletas, desde boxeadores de bairros até automobilistas famosos. O boxeador José María Gatica, por exemplo, era o favorito de Perón. Seu laço com o peronismo ia mais além desse apoio, Gatica se autoidentificou com o movimento e a noção de que o público o percebia como peronista marcou um pertencimento social e cultural que excedia a política que o movimento promovia. Como lutador, como trabalhador e como uma pessoa que buscava a vida bem-sucedida, Gatica representava a esperança que a classe trabalhadora associava com a Argentina do futuro sob a tutela do peronismo. Da mesma forma, quando Evita Perón apoiou a equipe do Club Atlético Banfield no campeonato de futebol masculino da primeira divisão de 1951, essas mesmas qualidades foram reconhecidas em jogadores pouco conhecidos do subúrbio de Buenos Aires: lutadores, trabalhadores e batalhadores.

León Genuth um lutador judeu argentino que se destacou a nível nacional e interacional durante o peronismo exemplificou as qualidades citadas. Relembrando seus treinamentos do começo dos anos cinquenta, disse que “convivia com muito entusiasmo e sacrifício”. Manifestou, por exemplo, que “se a eletricidade fosse cortada, sem acovardar-se, as velas eram colocadas ao redor dos tapetes nas cadeiras, para não parar a atividade e continuar o treinamento; também, na maioria das vezes, tínhamos que tomar banho frio em pleno inverno”; Genuth admitiu que “sempre tomei como meu o lema macabeu ‘¡Jazaak Veematz!’ (seja forte e valente), que guiou minha vida e minha atividade desportiva”. Essa dedicação estava em consonância com a ideia que Perón tinha do esporte. Em uma carta enviada aos desportistas argentinos que participariam nos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951, grupo do qual Genuth fazia parte, Perón expressou aos atletas que “defender as cores sagradas da nossa bandeira em um evento esportivo pressupõe a mesma honra e o mesmo sacrifício que fazê-lo em qualquer outra ocasião. A pátria se defende de uma só maneira: com toda a alma, com toda a vida”. E completou: “lembre companheiro que nessa defesa você é a síntese de todo um povo”, para salientar que “nos esportes, como em todas as coisas da vida, se vence com a cabeça, se chega com o coração e se chega ainda mais longe com a vontade tenaz e inflexível de vencer”.

A carreira esportiva de León Genuth

Ainda que tenha nascido na Província de Entre Rios em 1931, Genuth se desenvolveu como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente tanto no estilo livre como no greco-romano. Em 1949, ainda tendo idade da categoria juvenil, foi campeão argentino de peso médio em ambos os estilos, título que manteve por vários anos. Por esse rendimento foi selecionado para competir no ano seguinte na Terceira Macabeada, a primeira celebrada no Estado de Israel, estabelecido em 1948. Era a estreia argentina nesse festival, que promove as tradições, a identidade e a solidariedade judaica através do esporte. Genuth obteve o primeiro lugar em seu peso, em ambos estilos. De acordo com o testemunho do lutador, Pablo Manguel, dirigente da Organização Israelita Argentina, e embaixador argentino em Israel entre 1949 e 1954, dedicou seus triunfos sobre o tatame a Perón, quem o havia designado para o cargo. O historiador Ignacio Klich afirma que Manguel, o primeiro latino-americano com cargo de embaixador naquele país, fazia parte “de um pequeno grupo de judeus peronistas”.

Na volta à Argentina, Genuth conheceu Perón através de Rodolfo Valenzuela, presidente da Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino. Perón entregou-lhe um troféu e perguntou se o lutador estava concentrado em Ezeia, onde havia sido erguido um centro de treinamento descrito como “um laboratório do triunfo”, com o plantel que competiria nos Jogos Desportivos Pan-americanos no começo de 1951. Como não fazia parte desse plantel, Valenzuela disse-lhe que passaria umas férias com a equipe de luta. Genuth respondeu que não lhe interessavam as férias, mas sim ter a possibilidade de participar das provas seletivas que determinariam a confirmação final da equipe. Foi lhe dada a permissão, Genuth foi selecionado e ganhou a medalha de ouro no estilo livre na divisão de 79kg. No ano seguinte, Genuth foi membro da delegação argentina nos Jogos Olímpicos de Helsinki, onde obteve o sexto lugar no mesmo estilo e divisão. Seu último combate foi em 22 de julho, quatro dias antes do falecimento de Evita Perón. El Gráfico anunciou “que a delegação argentina recebeu um duro golpe com a notícia”. Já o Mundo Deportivo informou que “em Helsinki se chorou a porta-bandeira dos humildes” e que aqueles “dias nebulosos e tristes, foram desconcertantes e angustiantes para os jovens integrantes da delegação argentina”.

Em 1953, Genuth competiu na Quarta Macabeada, organizada pela segunda vez em Israel, onde manteve os títulos obtidos em 1950. Da mesma maneira, nos segundos Jogos Desportivos Pan-americanos, organizados em 1955 na Cidade do México, Genuth defendeu com sucesso o título obtido em Buenos Aires quatro anos antes. Tudo indicava que tinha grandes chances de se destacar nos Jogos Olímpicos de 1956 que seriam realizados em Melbourne. O mesmo lutador recordou tempos depois que figurava em primeiro no ranking nacional para representar a Argentina no evento. Entretanto, a destituição de Perón pela ditadura civil-militar autodeterminada Revolução Libertadora, quase seis meses depois de sua volta do México, frustraria suas aspirações. Os líderes da Revolução Libertadora pretendiam expulsar o peronismo da vida nacional, incluindo o esporte. Para isso, formaram uma comissão que investigou supostas irregularidades no funcionamento das federações desportivas nacionais e atos considerados em violação ao código amador durante a década peronista. Desta maneira, foram suspendidos, por um processo irregular, arbitrário e vingativo, um grande número de dirigentes e atletas. Até outubro de 1956, Genuth figurava como membro da delegação que viajaria a Melbourne. Porém, a poucos dias de embarcar na viagem, foi excluído dela. Genuth explicou que “a desculpa foi que ao ter ganhado no ano anterior os Jogos Pan-americanos no México, teriam que investigar se (os melhores representantes de vários esportes) estavam competindo por regalias”. Segundo o jornalista Dante Panzeri, “de León Genuth não existiam provas de ter recebido a quarta parte de um carro dos que foram distribuídos aos campeões pan-americanos no México”. Mas, prosseguia Panzeri, quem apoiava, em suas palavras, a “Revolução que há mais de um ano pôs fim a uma longa noite da vida argentina”, como “(Alberto) Longarella (outro lutador que também havia ganhado uma medalha de ouro no México) declarou que teria repartido com pessoas entre as quais estava Genuth, e ali ele caiu”.

Para o historiador Roberto Baschetti, após a amarga provação, Genuth “foi para o exílio empurrado pelos ‘libertadores’”. Entre 1957 e 1959, Genuth trabalhou no México e nos Estados Unidos ensinando luta e em sua volta à Argentina assumiu o comando na Sociedade Hebraica Argentina. Em pouco tempo, a Federação Argentina de Luta o designou como treinador da seleção nacional, preparando equipes para vários eventos internacionais. Em 1967, Genuth foi contratado para desenvolver a luta livre no Peru, onde morou por dez anos. Ao retornar à Argentina, se encarregou da luta livre na Organização Hebraica Argentina Macabi, e a Federação Argentina de Luta o designou como treinador de todas as seleções nacionais.

Um lutador peronista

A vitoriosa carreira desportiva de Genuth, assim como seu final repentino, coincidiu com a década peronista. Dessa maneira, esteve marcada pelas diretrizes, políticas e dificuldades do governo de Perón. Genuth foi o desportista judeu argentino de maior relevância durante esse período e, talvez, um dos mais transcendentes da história nacional. Não se tem conhecimento de pronunciamentos públicos sobre sua posição a respeito do peronismo. Em relação a sua exclusão, pela Revolução Libertadora, da delegação que competiria nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956, Genuth declarou criticamente “que se afastou do amadorismo (e não seguiu competindo) por dar-se conta da politização do esporte”. Qualquer que tenha sido sua posição a respeito do peronismo, sua figura representou, nas palavras de Rein, a legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (e religiosos) no seu país” e a semelhança, por exemplo, entre ser um bom argentino e ser um bom judeu. A coincidência de sua visão de esporte com a de Perón não é surpreendente. É nesse sentido que Genuth pode considerar-se como um lutador peronista. Assim, foi símbolo da integração social promovida pelo peronismo sem ter que renunciar ao componente judaico de sua identidade. Com Genuth, e a partir do impulso do peronismo, os esportistas judeus passaram a formar parte da polis desportiva argentina. Uma crônica do Mundo Deportivo sobre o torneio de luta dos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 mencionava sua medalha de ouro e destacava sua atuação no ano anterior na Terceira Macabeada. A revista também ressaltava que, graças à destreza dos lutadores nacionais e ao estímulo do público, “a vitória geral foi nossa”. Genuth, um lutador argentino judeu peronista, era um deles.

Texto originalmente publicado no site Erase Una Vez En Peronia no dia 27 de janeiro de 2021.

* Cesar Torres Doutor em filosofia e história do deporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** David M. K. Sheinin Duotor em história. Docente ma Universidade de Trent.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo quarto episódio do Passes & Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo quarto episódio é “Rivalidade Brasil x Argentina no futebol”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos Ronaldo Helal, coordenador do LEME e professor titular da UERJ, e Pablo Alabarces, que é professor de Cultura Popular da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires. Alabarces coordenou, entre 1999 e 2003, o Grupo de Trabalho “Esporte e Sociedade” no Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO).

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo quarto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Bad Moon Rising“, canção da banda Creedence Clearwater Revival, de 1969.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Ronaldo Helal e Pablo Alabarces.

Artigos

A Invenção das Barras

A série “Porta 7” quis ficcionar um mundo e ficou na metade do caminho. Alguns de seus personagens não parecem barras: usam tacos de hóquei e não entram em “paravalanchas”. Tampouco convence o abecedário sem “eses“. Mas, ainda assim, sem “reflexão”, chega-se ao estereótipo.

Aí está o coração deste artigo. Não em criticar o conteúdo do último produto argentino para exportação, mas sim em reconstruir suas condições de previsibilidade. Importa o processo, não o produto. Proponho um percurso histórico sobre como as barras tem sido descritas, e, portanto, prescritas, pelos discursos de poder. Quando digo poder aponto para os meios de comunicação, as ficções artísticas ou literárias e para o Estado e suas leis. Porque as “barras bravas” são uma invenção nascida de um pânico moral tão antigo quanto a bola de couro.

Nico1
panamarevista.com

No dia 21 de outubro de 1922, aconteceu o primeiro homicídio em um estádio argentino. No campo de Tiro Federal, Rosario, Francisco Campá, dirigente do Newell’s Old Boys, e Enrique Battcock, trabalhador e ex-jogador do Tiro Federal, brigaram no intervalo. Minutos depois o primeiro dispara uma bala letal sobre o segundo. A violência convertida em morte, no futebol argentino masculino, está em sua própria origem.

A crescente violência da década de vinte leva que grande parte da imprensa comece a chamar os “torcedores fanáticos”, que protagonizavam tumultos ou episódios “antidesportivos”, de “barras” ou “muchachada”. O historiador Julio Frydenberg assinala que, a partir de 1920, o jornal Última Hora começa a utilizar o termo “barra”. Em fevereiro de 1925, o jornal Crítica publica uma nota intitulada “Barras Bravas” definindo esse grupo de torcedores como “energúmenos que só vão aos campos com o objetivo de manifestar seus instintos primitivos”. De sua parte, o jornal La Cancha, em novembro de 1928, propõe a expulsão dos sócios identificados como “torcedores selvagens, os barras mais agressivos, brutais, fanáticos e antidesportivos”.

A mesma cobertura midiática acontece com o segundo homicídio vinculado ao futebol argentino. Em 1924, depois de um Argentina x Uruguai, pela Copa América, que terminou 0 a 0, na Cidade Velha de Montevideo, houve uma briga entre as torcidas de cada país. A confusão se torna tragédia quando o uruguaio de 22 anos, Pedro Demby, sangra até a morte com o cheiro de pólvora. A imprensa aponta como responsável um tal de “Petiso”, líder de “uma barra argentina” residente em La Boca.

É entre os anos vinte e trinta do século XX, então, quando a imprensa constrói a noção de “barras”. Isso é feito em meio a um pânico moral pela crescente violência. Nessa conjuntura nasce uma associação que existe até hoje: os “barras” são os criadores de todos os males que afligem o futebol argentino. Aquele pânico moral começa a se expandir como uma mancha de tinta por todo tecido social, tanto que Roberto Arlt, o “literário do submundo”, nas suas  “aguasfuertes porteñas” de 1931, escreveu “são como esquadrões rufiões, brigadas de bandidos, quintos de canalhas, barras que como expedições punitivas semeiam o terror nos estádios… esses barras são os que em alguns bairros chegaram a constituir uma máfia, algo assim como uma “camorra”, com suas instituições, suas lutas armadas”.

A origem do pânico moral que associa “violência”, “máfia” e “barras” deve ser entendida como uma reação das classes dominantes diante da iminente popularização do futebol masculino. Não é por acaso que se inicia na década de vinte, quando as classes populares – em sua maioria homens – se juntam em massa nos estádios; e que se expande definitivamente nos anos trinta, momento em que a apropriação “desde baixo” é concluída, como disse o sociólogo Pablo Alabarces. Se por um lado as elites se resguardam em cargos de dirigentes, associações ou imprensa desportiva; as classes populares se incorporam ao futebol como jogadores ou torcedores. Há condições materiais que possibilitam esse fato. Primeiro, a profissionalização do futebol masculino em 1931, que permite que jogadores, de origem pobre, façam daquele esporte um trabalho. Posteriormente, a institucionalização do “sábado inglês” em 1932 possibilita que o tempo livre do trabalhador seja tingido com as cores de algum clube.

O pânico moral que origina a invenção das barras não é outra coisa senão um espanto de classe. O pavor das elites diante de uma invasão “bárbara”. Os barras serão, desde há um século até hj, os “selvagens inadaptados de sempre”, não só pelo seu comportamento, mas também por estarem onde não pertencem.

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Outro momento crucial em torno das narrativas sobre as barras se dá entre a década de cinquenta e sessenta do século passado. Nesses anos emergem os primeiros grupos de torcidas organizadas que se autoidentificam como barras de alguma equipe: Boca, Racing, San Lorenzo, Huracán, Rosario Central e Belgrano de Córdoba são alguns exemplos. Quem lê esse artigo já notará uma obviedade histórica nem sempre dita: as mortes violentas no futebol se contam desde a década de vinte e os grupos que se autorreconhecem barras aparecem nos anos cinquenta e sessenta. Em outras palavras: a “violência no futebol” não nasce com as “barras bravas”.

São por esses mesmos anos que a indústria cinematográfica nacional estreia vários filmes centrados na “torcida” de futebol: El hincha (1951); Somos los mejores (1968); Pasión dominguera (1969); Vamos a soñar con el amor (1971) y Tango desde el tablón (1971). Essas produções vão moldando um “verdadeiro torcedor” associado à fidelidade incondicional, o amor desinteressado, o sacrifício, o trabalho honrado, o clube como herança familiar e um comportamento tão passional quanto pacífico. Forja-se um protótipo ideal de torcedor – onde as mulheres não têm lugar – que tem como antagonismo moral “as barras”, e a imprensa ecoa tal divisão. O jornal Crítica, em 1959, ao mesmo tempo que define o “torcedor” como aquele “que vai com o simples e puro propósito de passar uma tarde sã de emoção, realizando por ele  mil sacrifícios”; também diz que nos estádios estão aqueles que “se dizem torcedores, mas na realidade são fanáticos perigosos que amalgamam essa condição com a de delinquentes e se mostram perversos quando vão ao jogo”. O “são” e “puro” nos torcedores, o “perigo” e a “delinquência” nas barras. Diferenças que se tornam desigualdades alimentando um perdurável pânico moral.

Amílcar Romero, precursor nas investigações sobre a “violência do futebol” e as “barras”, diz que, na década de sessenta, nasce o “Futebol Espetáculo”. É o começo da “violência institucional”, ou seja, de formas autoritárias que encontram em matar ou morrer um desenlace possível. Romero destaca a morte de Alberto Linker, em 19 de outubro de 1958, em um “Vélez x River”, como sintoma de uma época. Por um lado, o caso expõe a impunidade de uma repressão policial que se torna moeda corrente nos estádios argentinos, porque Linker morre por bombas de gás lançadas pela guarda de infantaria. Por outro lado, o caso resulta em um editorial do jornal La Razón no qual se denuncia a existência de “barras fortes” vinculadas com dirigentes de clubes e políticos influentes.

No entanto, sem dúvida, o caso mais emblemático desta era é o do torcedor do Racing de Avellaneda, Héctor Souto, assassinado por barras do Huracán, em 1967. Para começar, a morte de Souto é resultado de uma emboscada da barra do Huracán a torcedores do Racing como consequência do roubo de um guarda-chuva por parte dos segundos aos primeiros. Naquela “armadilha”, Souto é atacado por uma dezena de barras do Huracán. A investigação judicial descobre que os responsáveis pelo homicídio haviam entrando no jogo sem ingressos, com cartões de jogadores da Associação de Futebol Argentino (AFA). Romero também conta, analisando o caso, que a certidão de óbito de Souto expedida por um médico de Huracán e a perícia forense não registram nenhuma marca de golpe no cadáver. Além disso, os barras envolvidos contaram com um staff de advogados importantes. As condenações foram mínimas: o autor principal recebeu seis anos e os instigadores, dois.

Amílcar Romero traça uma linha interpretativa de enorme impacto nas narrativas futuras: há um tom de denúncia em relação às “barras bravas”, que já não atuam sozinhas ou isoladas, mas sim dentro de uma complexa trama de favores e atores que pactuam para garantir a impunidade e extrair recursos econômicos dentro de um futebol cada vez mais mercantilizado e violento. Assim, em um de seus últimos trabalhos, Romero afirmava que “um barra brava por excelência vive disso. Vive dos bilhetes, dos ganhos ou lucros que tiram dos bilhetes, a segunda fonte de ingressos, embora punhais sejam esfaqueados, é a porcentagem que os jogadores e diretores técnicos lhes passam, além disso são um fator de decisão política, decidem até turnês de jogos.. decidem até a compra de jogadores… decidem a vida e a morte de diretores técnicos. Tem um poder efetivo real”.

A Boca Juniors' fan holds a flare during their Argentine First Division soccer match against River Plate in Buenos Aires
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O retorno à democracia e a década de noventa são outras variáveis no que diz respeito às representações sobre as barras. O pânico moral contra “as máfias do futebol” chega ao seu ápice. Em parte, porque o registro de mortes dispara rapidamente. Entre a segunda metade dos anos oitenta e durante todo os anos noventa, se concentram mais da metade do total de vítimas fatais vinculadas ao futebol até aquele período. Em outras palavras, nos 17 anos que vão desde 1983 até 2000, se mata e se morre mais do que em todo o período que vai desde o primeiro assassinato em 1922 até o retorno da democracia.

Nessa época também há uma reação contra as barras porque percebe-se os restos de um autoritarismo em revisão diante da nova “primavera democrática” alfonsinista. Dois exemplos. O primeiro é a estreia do filme Las Barras Bravas dirigido por Enrique Carreras e lançado em 1985. O filme condensa todos os prejuízos e estereótipos sedimentados contra esses grupos. A primeira cena mostra recortes de jornais que retratam as diferentes barras sob os títulos “terror e sangue”, “o retorno da violência” ou “incêndio, roubos e caos”. Na cena seguinte, uma barra de uma equipe qualquer é filmada indo a uma partida em um vagão, cantando “Evita, el bombo, el tren es un quilombo” e “los vamos a reventar, los vamos a reventa”. Esse mesmo grupo, minutos depois, irá atacar homens, estuprar mulheres, amassar carros, romper alambrados, vender drogas, portar armas e roubar idosas. Os barras dos anos oitenta são retratados como estupradores, violentos, traficantes, ladrões, assassinos, saqueadores e… peronistas.

O outro exemplo vem do Estado, são as primeiras leis destinadas a intervir no “flagelo da violência do futebol”. Em 21 de junho de 1985, é aprovada a normativa 23.184 intitulada “Regime penal e contravencional para a violência em espetáculos esportivos, conhecida como ‘Lei da Rua’”. O regulamento inaugura marcadas continuidades que perdura até hoje. A “violência no futebol” passa a ser vista menos como um fenômeno a ser regulado e mais como um problema a ser erradicado, e para isso o que se deve fazer é extinguir os “grupos” responsáveis. O diagnóstico é centrado na rivalidade entre torcidas de diferentes equipes sem mencionar, por exemplo, a repressão policial que havia sido uma das principais causas de morte na época. Com as primeiras intervenções pontuais do Estado na questão, se instaura um modelo de segurança repressivo e focado de vez em quando na prevenção.

A norma 23.184 não apenas não surte nenhum efeito nos índices de violência, como também durante toda a década de noventa os números atingem níveis inéditos. A resposta estatal é insistir, com mais tolamente que diagnosticamente, pelo mesmo caminho. Em março de 1993, é sancionada a lei 24192 que modifica parcialmente o regulamento anterior. A culpa das barras é acentuada, definindo-as como um tipo social que “atenta contra a harmonia e a paz nos estádios de futebol”. Ao mesmo tempo, avança-se na criação de um Registro Nacional de Infratores à Lei do Esporte. Busca-se proibir o ingresso dos jogos aos torcedores com antecedentes penais. Enfatiza-se a associação entre violência no futebol e delinquência social.

Na virada do século as barras são o que sempre foram: as principais culpadas de uma “violência no futebol” crescente e letal. A novidade está no fato de que, desde o retorno à democracia, elas se tornaram objeto de legislação, e sempre sob o selo de um punitivismo tão declarado na retórica como inviável na prática, pois, apesar das proibições, detenções, julgamentos, adjetivações midiáticas, as barras continuam povoando os campos argentinos.

Hinchas de Boca agreden con gas pimienta a los jugadores del River
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Nos primeiros anos do novo século, aparecem alguns casos de fortes enfrentamentos entre “facções” internas de barras do mesmo time. Algumas brigas são dentro dos estádios e outras fora. A violência anterior não desaparece. As mortes entre torcedores de equipes diferentes e a repressão policial continuam, ainda que se veja uma diminuição em seu peso relativo em relação às mortes intra-barras.

Entre 2007 e 2013, com os vai-e-vem típicos de uma agenda de Estado espasmódica e improvisada, chega-se à proibição da torcida visitante. Como vários trabalhos acadêmicos têm demonstrado, nos últimos anos os cenários dos enfrentamos e seus protagonistas mudaram. Observa-se uma relação inversamente proporcional entre as brigas de barras de times diferentes e as brigas de barras de um mesmo clube. Se os enfrentamentos entre torcedores – não só barras – com camisas diferentes foi a principal causa de morte desde o retorno da democracia até o princípio do século XXI, as brigas entre barras do mesmo clube representam 56% do total de mortes vinculadas ao futebol entre 2006 e 2017, como demonstraram Diego Murzi e Ramiro Segura. E essas brigas se desenvolvem principalmente em espaços e tempos alheios ao cenário do futebol público por excelência: os estádios durante os dias de jogo. A violência é “privatizada”: acontece em bares, praças, esquinas, boliches, recitais, atos políticos e em dias sem partidas de futebol. Ao desenvolverem-se longe das operações de segurança, aumentam as possibilidades de arma de fogo. Resultado: maior letalidade.

Esse último cenário, marcado por uma sensação de onipresença e imprevisibilidade da violência, e, portanto, das barras, leva o pânico moral a níveis estratosféricos. Um contexto propício para a expansão sem limites da “Grabiologia”, uma fobia travestida de análise que caminha sobre dois pés: por um lado, todas as barras e os barras são reduzidos a um mesmo modelo, o de mafiosos, milionários e violentos. A figura de Di Zeo o Bebote é universalizada. Por outro lado, essa mesma fobia leva a encontrar esse modelo de barras em qualquer grupo organizado dos setores populares – sindicatos, movimentos sociais, “piqueteros”, economias populares -. É daí que surge a expressão “uma sociedade barra brava”. E então voltamos, mais uma vez, à origem: um pânico moral que nunca deixou de ser um espanto de classe.

Este olhar tornou-se comum. Predomina na imprensa desportiva com as colunas cotidianas do jornalista de mesmo nome; as editorias mais famosas publicam ficções como “El Barra Brava” de Fernando Gonzales, no qual todas as ações desses grupos se reduzem ao código penal; os deputados e senadores propõem como única política pública integral para enfrentar o complexo fenômeno da “violência no futebol”  uma monstruosidade legal chamada… “lei anti-barra”. A Netflix simplesmente se juntou a um trem em marcha e encontrou um pacote de exportação perfeito.

Nico5
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Ninguém nega que algumas “barras bravas” argentinas encontram na violência uma experiência tão agradável quanto útil; nem que façam de certos mercados ilegais uma caixa de poupança. O problema é o recorte e suas consequências. Primeiro, porque ao sobredimensionar sua responsabilidade, outros atores são eximidos de culpa. Segundo, porque em toda descrição sempre há uma prescrição. Como dizia Norbert Elias, “dê a um grupo um nome ruim, e viverá segundo ele”. Terceiro porque este olhar julga mais do que compreende. Definir as barras pela violência é confundir a parte com o todo, em qualquer desses grupos há muito mais que ataques, tiros ou pontapés. Caracterizá-las como “máfias” é forçar um círculo dentro de um quadrado. Bebote não é Vitor Corleone. E reduzir uma filiação à busca de dinheiro é mais uma confissão projetada do que uma escolhe alheira. Assim, chega-se a uma noção de “barra” mais acusatória do que explicativa. O resto é previsível, porque até os algoritmos têm uma história.

Texto originalmente publicado no site Panamá.

Tradução: Leticia Quadros.

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A divulgação do livro será no dia 1 de agosto, quarta-feira, às 19h, na Livraria Folha Seca (Rua do Ouvidor, 37 – Centro, RJ).

A programação completa do lançamento do livro encontra-se disponível no blog.

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