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No futebol uma mentira repetida várias vezes… não qualifica nem se torna verdade

Algumas construções midiáticas, muito difundidas no Brasil, como  “a maior indústria automobilística da América Latina” ou “o país autossuficiente em petróleo”, deveriam ser para o jornalismo sério motivo de análise e crítica e não de multiplicação ou amplificação . O mesmo serve para o tal epíteto de “país do futebol”.

Uma indústria não é uma montadora, uma indústria pressupõe outros requisitos vitais como: desenvolvimento de produtos, investimento em tecnologia, pesquisas laboratoriais de novos materiais, estudo de processos métodos e tempos, desenvolvimento de ferramental, etc. Fora disso só podemos dizer que o Brasil tem a maior “montadora” da indústria automobilística da América Latina.

Um país que explora e exporta petróleo cru, mas depende da importação de gasolina e derivados do petróleo, para colocar sua frota de automóveis e caminhões em movimento, ou importação de termoplásticos para tocar a indústria de transformação, nunca será autossuficiente.

O Brasil foi, é e será, se não mudarem as políticas públicas de educação e de desenvolvimento industrial, no que tange à formação de elementos da área técnica, em todos os níveis, e de tecnologia e pesquisa, um país dependente das oscilações das commodities , um exportador de matéria-prima e mão de obra barata.

No futebol não poderia ser diferente. Exportamos “pé de obra” (Arlei Damo), que carece de alto investimento material e econômico, e importamos o espetáculo pronto, junto com a repatriação de atores em final de carreira. Técnicos e staff  executivo não entram nesse rol de exportações, só pé de obra, e às vezes em formação ainda.

O fato de saber jogar futebol não significa excelência no gerenciamento de grupos, nem qualidade na arte de obter o máximo de cada peça, assim como dominar um instrumento não converte nenhum  músico num maestro.

O Brasil  é o maior exportador de jogadores de futebol do mundo, mas relativamente é o que menos jogadores tem atuando nas 6 maiores ligas da Europa. Quando falamos em técnicos ou treinadores o índice é nulo: não existem técnicos brasileiros nas 10 maiores ligas do futebol mundial.

Pesquisando sobre a nacionalidade dos técnicos das equipes da última edição da Copa Libertadores de América, verifiquei que das doze seleções, 6 eram treinadas por argentinos, dos quais 4 levaram suas equipes às quartas de final: Argentina (Gerardo Tata Martino); Paraguai (Ramon Diaz); Chile (Jorge Sampaoli) e Peru (Ricardo Gareca), somando  os eliminados nas oitavas de final: Colômbia (José Pekerman) e na fase de grupos: Equador (Gustavo Quinteros).

Essa  supremacia não é evidente somente no nosso continente, ela se repete entre os técnicos das seleções classificadas para Rússia 2018. Os técnicos argentinos são a maioria: Argentina (Jorge Sampaoli); Colômbia (José Pekerman); Egito (Héctor Cuper) e Peru (Ricardo Gareca). Fora os argentinos, os países com 2 técnicos são: Portugal, Espanha, Bósnia, Colômbia e França.

Esse  panorama deixa claro que algo acontece com os técnicos e com as autoridades do país do futebol, em primeira instância, já que os cursos de treinador da CBF não têm o reconhecimento dos órgãos com maior prestígio do futebol mundial. Nem a UEFA nem a FIFA reconhecem que os cursos ministrados no Brasil tenham nível para que seus formandos tenham aceitação nas principais ligas do futebol mundial.

A contratação de Luxemburgo pelo Real de Madrid e Felipão pelo Chelsea passaram por um expediente diferenciado, de caráter excepcional. Foram liberados sem a Licença Pró e não deixaram títulos nem saudades.

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Fonte: Rádio Cultura

Inicialmente, lancei o desafio nas redes sociais em busca de pistas, e foram várias as opiniões proferidas sobre o assunto. A barreira idiomática e o fato da CBF não possuir um curso certificado pela FIFA ou UEFA seriam os maiores empecilhos para que os técnicos brasileiros atuassem nas  maiores ligas da Europa.

A barreira idiomática existe para todos os técnicos, se fosse esse um motivo, a China e o Oriente Médio não seriam mercados tão explorados por técnicos brasileiros; e, em compensação,  deveríamos ter vários técnicos brasileiros em Portugal ou nos países de língua portuguesa na África.

Não obtive opiniões que levantassem outros motivos, portanto algumas especulações pertinentes geradas nas minhas observações serão trazidas à tona neste artigo com o propósito de tentar entender  esse contraste , entre elas:

–  a falta de rigidez tática por parte dos técnicos e jogadores brasileiros, basta o time ir perdendo para que cada um decida ser o herói da virada e  se esqueça da tática, do conjunto, enfim do time;

–  a classe dos técnicos brasileiros é composta na sua quase totalidade por ex-jogadores – medíocres, com raras exceções – todos oriundos de classes sociais com baixa escolaridade, que na sua maioria não tem curso superior ou se tem é na área de Educação Física; a gestão de grupos humanos e a liderança exigidos de um comandante passam longe desse curriculum;

– o culto ao individualismo, em detrimento do conjunto, onde “a qualquer momento o craque faz um gol” e ganhamos o jogo, também conta negativamente.

Enfim, me parece que o fato de o  Brasil ter ganho 5 campeonatos mundiais, num esporte onde ganhar nunca significou ser o melhor – vide a Hungria de 1954, a Holanda de 1974, o Brasil de 1982 ou a Argentina de 1994  –, não é  . Hoje comprovadamente, sabemos que existem corrupção e manipulação política na FIFA – comandada num período de 24 anos por um brasileiro – somadas a uma promiscua relação com os grandes conglomerados da mídia. Caberia à CBF como entidade maior, buscar recursos e conhecimento na área acadêmica para promover um curso cujo curriculum  se adequasse às exigências da Licença Pró. Por outro lado, se os técnicos formassem uma classe unida poderiam somar forças e obter os resultados esperados. À mídia hegemônica, caberia – se a seus interesses atendesse – dar força ou não a esta iniciativa.

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Ela está chegando…

Aguardada pelos amantes do futebol, a Copa do Mundo é um objeto amplamente estudado nas pesquisas voltadas para o esporte no campo acadêmico. Antropólogos, sociólogos, historiadores, geógrafos, publicitários e jornalistas encontram um ambiente fértil na produção de símbolos que esta competição oferece, desde a sua primeira edição em 1930. Seja na produção de mitos, heróis e vilões, seja como uma arena de disputa entre narrativas que procuram se tornar hegemônicas, suas edições marcam contextos onde se pode observar a metamorfose deste esporte ao longo de suas 21 edições. Especificamente no Brasil, ela é um momento ritualístico (como Simoni Guedes e Édison Gastaldo destacam), que possui um tempo próprio, uma atmosfera característica e que apesar de se adaptar a cada edição, ainda mantém o sentido de “duelo entre nações”.

Nosso grupo de pesquisa tem nesta competição um dos seus maiores focos de investigação. Dentre alguns dos questionamentos levantados por nós, temos a construção sociológica deste torneio no imaginário nacional, a formação de ídolos nacionais em consequência de sua participação positiva pela seleção brasileira e como a imprensa nacional formula suas narrativas associando futebol e brasilidade. Sustentamos que tal construção tem seu embrião na Copa de 1938. Muito se fala da emblemática coluna do sociólogo Gilberto Freyre chamada Football Mulato, publicada no dia 17 de junho de 1938 no jornal Diário de Pernambuco. Ela se tornou um objeto de análise frequente para compreender a vinculação do que seria “o tipicamente nacional” estar representado na seleção brasileira de futebol. Freyre argumenta que o estilo nacional de se praticar este esporte estaria imbricado à nossa miscigenação, enfatizando a presença do negro, índio e branco na equipe que ficou em terceiro lugar na Copa da França. A argumentação que antes pairava como “ilusão” e uma “mera” elaboração intelectual com intuito de fortalecer uma nova visão do Brasil, teve no sucesso da equipe na competição uma “prova concreta” de que “nossa mistura” era a causa do sucesso do time e, consequentemente, seria o motivo do eminente êxito da própria nação.

O texto de Freyre encontrou uma atmosfera amplamente favorável para que essa “prova” emergisse na sociedade e construísse este ritual Copa do Mundo. Capturar essa atmosfera foi um grande feito de Freyre. O Estado Novo interveio nas disputas políticas da CBD e “unificou” a seleção com a chegada de Luiz Aranha a entidade, instituiu a profissionalização dos atletas (seguindo sua política trabalhista) e teve nas transmissões radiofônicas o impulso que precisava para expandir a ideia de associação seleção-nação pelo país. O contexto era favorável para sustentar a Copa do Mundo como um ritual efusivo de nacionalidade. Criava-se também um quadro social no qual jogadores, imprensa e público saberiam e ajustariam seus papéis ao longo das edições.

Além destes fatores, um que considero essencial é a atmosfera de sentidos que a competição proporciona. Nesta atmosfera “aceitamos” determinados comportamentos: o choro efusivo na vitória ou derrota da seleção, o “feriado” nacional nos dias de jogo do Brasil e vestir verde amarelo num patriotismo cíclico. Essas ações podem ser relacionadas a um impulso, algo presente no imaginário social, no pathos, que nos faz agir, indo direto ao emocional. De modo direto: é xingar irracionalmente alguém durante uma partida de futebol na qual nos envolvemos de modo profundo. Pesquisar e falar sobre Copas do Mundo sem compreender essa atmosfera é algo complicado.

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Fonte: Metro

As ações daqueles que participam do frame Copa do Mundo, inclusive os jornalistas, tem sua base nesta atmosfera que circunda a competição no Brasil. É impossível se deslocar de tudo isso para se buscar uma objetividade e neutralidade. Tanto nós pesquisadores, quanto jornalistas se movem em alguma atmosfera, como a que Freyre estava imerso nos anos 1930. Em nossas pesquisas levamos em conta exatamente este mundo construído pelos profissionais da comunicação, colunistas e cronistas. Durante esse processo de formatação da competição como ritual nacional, não seria imprudente considerar que cobrir uma Copa do Mundo é o “sonho de criança” da grande maioria dos jornalistas. Suas escolhas refletem esta atmosfera na qual eles participam e que inevitavelmente os influencia bastante. O 7 a 1 de 2014, a derrota de 1950 e de 1982, a conquista em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002, todos estes acontecimentos fazem parte de determinadas atmosferas. Todos eles criam um mosaico, um processo narrativo que estará no ar em 2018, pronto para ser capturado e usado no mundo criado pelo jornalista de acordo com o contexto da competição na Rússia. Independentemente do que Neymar, Tite e Cia façam, eles já estão inseridos neste processo narrativo. Assim, associações, inovações e comparações, além de comuns, servem para manter e adaptar o fio condutor do mito país do futebol, recontado a cada ritual Copa do Mundo.

Ela está chegando…com todo seu imaginário, com todo seu simbolismo, com toda essa “ambiência”. Por mais que a ideia seleção-nação tenha perdido sua robustez, seu ritual e ações ainda permanecem vivos no imaginário social brasileiro. Buscar a emoção com lucidez é o ponto chave para o jornalista não escorregar durante a competição, já que tal atmosfera não exclui a possibilidade de reflexão dos fatos e acontecimentos.

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“Prensa, decime que se siente…”

“Desde manhã que são nossos hóspedes os bravos argentinos que vêm jogar com os nossos foot-ballers três partidas do impressionante e empolgante jogo. O valor dessa visita […] É uma approximação intelligente entre os dous paízes, sem diplomacia mas com a forte correnteza das sympathias que nos arrastam para grandes amisades para os grandes fervores.… Continuar lendo “Prensa, decime que se siente…”

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Márcio Guerra e suas perspectivas para os Jogos Olímpicos

O jornalista e pesquisador da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Márcio Guerra comenta nesta terceira parte da entrevista concedida ao Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte suas impressões acerca de como será a cobertura da imprensa brasileira dos Jogos Olímpicos antes, durante e após as competições. Para Márcio Guerra, há a possibilidade… Continuar lendo Márcio Guerra e suas perspectivas para os Jogos Olímpicos

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Publicidade olímpica

O Globo de hoje (19/01), em seu caderno de economia, publica uma notícia dando conta da publicidade envolvendo os Jogos Olímpicos de 2016. Versando sobre o uso que as marcas já começam a fazer do evento que ocorrerá em agosto, o texto explora a figura dos garotos-propaganda. Interessante observar na matéria como os personagens escolhidos… Continuar lendo Publicidade olímpica

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O eterno debate do estilo brasileiro

“Dizer que o futebol brasileiro precisa voltar à sua essência e privilegiar o drible e a improvisação, como se tivéssemos vários Garrinchas, agrada à maioria, mas está fora da realidade. O futebol e o mundo mudaram”. Em crônica publicada no último 25 de outubro na Folha de São Paulo o craque Tostão apresenta uma percepção… Continuar lendo O eterno debate do estilo brasileiro

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