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Show do Esporte

Para aqueles leitores com mais tempo de janela como eu, a associação do título é inevitável, porém é necessária uma explicação aos mais novos. No começo dos anos 1980 do século passado, o locutor esportivo Luciano do Valle comandava, todos os domingos, na TV Bandeirantes, uma maratona esportiva com diversas modalidades, muitas delas sem qualquer tradição na televisão brasileira, era o Show do Esporte. O jornalista, que chegou a ser chamado de Luciano do Vôlei, por sua importância no desenvolvimento da popularidade da modalidade no país, também trouxe para a telinha a Fórmula Indy, o campeonato italiano, o futebol master, o futebol feminino e até o futebol americano. Também ajudou a criar ídolos, um tanto quanto efêmeros, é verdade, como Rui Chapéu (sinuca) ou Maguila (boxe), mas a maior virtude da atração foi acreditar na força do esporte como entretenimento de massa bem além dos tradicionais gramados do velho esporte bretão e, isso, muito antes das TVs por assinatura e seus canais esportivos 24 horas.

Quem se interessa por Comunicação Social já ouviu falar, em algum momento, do termo infotenimento. Surgido também nos anos 1980, ele é uma tentativa de denominação para um tipo de conteúdo informativo menos formal, no qual jornalismo e entretenimento se mesclam. Os talk shows logo surgiram como seu principal exemplo, mas a tentação de aumentar audiências através dessa fusão fez com que os telejornais e outros programas de conteúdo informativo adotassem essa linha, digamos assim, mais leve, pelo menos para os conteúdos que assim o permitiam.

 O jornalismo esportivo embarcou de “mala e cuia” no trem do entretenimento. Não bastava mais informar, era quase que obrigatório descontrair, jogar com as palavras, fazer piadas, criar personagens, caçar emoções. O jornalista alagoano Márcio Canuto, que nessa época era um dos poucos a se aventurar por esse lado histriônico do noticiário de esportes, passou a fazer escola. E seus alunos, mesmo moderando o tom circense do colega, passaram a se tornar verdadeiros entertainers. Não é à toa que um dos maiores representantes dessa nova linha, o ex-repórter paulista Tiago Leifert, acabou se tornando apresentador de reality shows e programas de variedades na TV Globo.

Márcio Canuto, o “pioneiro”. (reprodução TV Globo)

 Impulso digital

Se essa tabelinha entre esporte e entretenimento já dava bons resultados antes da internet, depois da popularização dos PCs e dos smartphones, passou a ser forma de sobrevivência. A concorrência é pesada demais para os antes hegemônicos meios de comunicação tradicionais. Os elevados custos da produção para suprir a exigência de alta qualidade técnica tornaram as emissoras de TV em pesados brontossauros que tentam competir diariamente com os ágeis velociraptors digitais (como estamos falando em infotenimento, nada como uma citação de Jurassic Park). E pra complicar ainda mais a situação, o mercado consumidor da informação também mudou. A velocidade informacional dos meios digitais nos contaminou.  

De acordo com uma pesquisa apresentada pela Kantar/IBOPE, 80% dos brasileiros assistiram vídeos online gratuitos em 2020. Em outros países a média foi de 65%. A mesma desproporção vale para vídeos em redes sociais (72% x 57%) e vídeos em serviços por assinatura (62% x 50%). Um desafio para os grandes grupos de telecomunicação nacionais que, por enquanto, ainda resistem, como mostra o mesmo estudo. Mais de 204 milhões de brasileiros consumiram conteúdo em vídeo na televisão em 2020. E o tempo que cada pessoa passou em frente à TV foi 37 minutos maior do que em 2019, totalizando 7h09 horas diárias – recorde dos últimos cinco anos.

Só que não é preciso ser um profeta para ver que a diluição da oferta de conteúdo em vídeo vai ser cada vez maior e com isso dilui-se também o investimento publicitário que, no fim das contas, é o que faz a roda da comunicação girar.  Vejam essa declaração de Arthur Bernardo Neto, Diretor de Desenvolvimento de Negócios para Media Owners: “Em um mundo onde a interação entre pessoas passa a ser cada vez mais virtual, marcas e anunciantes buscaram novas formas de se aproximar do público. Apesar do distanciamento físico, estamos próximos. A interatividade está em alta. Em agosto, por exemplo, 8% dos brasileiros disseram ter escaneado um QR Code pela primeira vez na pandemia”.

Para continuar faturando é preciso aprender os novos passos dessa dança, porque em nenhum momento a “música” vai parar de tocar.

Transmídia sem limites

Os grandes grupos de comunicação já se deram conta há um bom tempo de que precisavam estar presentes além de suas plataformas originais. Uma emissora de TV que não conversasse com seu público através das mídias sociais, achando que seu histórico de audiência a garantiria, certamente já teria sucumbido. E não basta ter perfis no Instagram e Facebook ou material disponível no YouTube ou TikTok. É preciso que o conteúdo seja atraente, diverso e agregador.

É aí que entra a transmídia, utilizando todas os arranjos midiáticos disponíveis de forma estratégica, na qual conteúdos se completam e oferecem um mar de entretenimento e informação ao consumidor.

Em tempos de grandes conglomerados de mídia, essas possibilidades crescem em progressão geométrica, porque todos os empreendimentos desses gigantes midiáticos podem se cruzar, se complementar.

Como estamos falando mais especificamente de esportes trago dois exemplos. O primeiro deles mostra a ligação entre o grupo ViacomCBS com a NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos.

Além da rede de TV CBS, a Viacom também é proprietária do canal infanto-juvenil americano Nickelodeon e, neste ano de 2021 propôs à NFL a transmissão de uma partida dos playoffs, entre Chicago Bears e New Orleans Saints nos dois canais. Sendo que no canal alternativo, a partida teria características muito mais voltadas ao entretenimento do que ao jornalismo esportivo. A transmissão teve a inclusão de efeitos de desenhos animados da Nickelodeon sobre a imagem e ainda contou com comentários de artistas do canal, como Gabrielle Green e Lex Lumpkin.

A partida ganhou design gráfico próprio. (reprodução Nickelodeon)
Os touchdowns ganharam jatos virtuais de slime. (reprodução Nickelodeon)
E o Bob Esponja foi parar no meio das traves. (reprodução Nickelodeon)

A estratégia foi lucrativa para ambas as partes. A Viacom usou seus direitos de transmissão para atingir um público maior que o normal e aumentou seu faturamento com espaços publicitários, já que muitos anunciantes voltados ao público infanto-juvenil tiveram um novo produto à disposição. Para a NFL também foi proveitoso; além do faturamento extra, ganhou com a exposição de seu produto a um público novo e potenciais consumidores no futuro.

A Disney não ficou atrás e usou a ESPN, seu selo de esportes, para divulgar personagens da Marvel, empresa que também pertence ao grupo, em uma partida da NBA, a liga de basquete profissional norte-americana. E abusou da criatividade para contextualizar a experiência que recebeu o título de Arena de Heróis.

Jogadores transformados em heróis de quadrinhos. (reprodução ESPN)

De acordo com o roteiro, depois de uma vitória apertada sobre um exército alienígena invasor, os Vingadores recebem uma nova ameaça, o inimigo promete retornar com reforços. Reconhecendo as habilidades físicas superiores, agilidade e tenacidade dos atletas da Terra, o Pantera Negra e o Homem de Ferro decidem realizar uma série de competições para selecionar quem vai lutar ao lado deles como Campeões da Marvel.

Na partida entre Warriors e Pelicans, competiram três estrelas de cada equipe. No time da Califórnia, Stephen Curry representou a Capitã Marvel; Draymond Green, o Doutor Estranho e Andrew Wiggins, o Pantera Negra. Já pela equipe de Nova Orleans, a estrela da nova geração Zion Williams, representava o novo Capitão América; Brandon Ingram, a Viúva Negra e Lonzo Ball, o Homem de Ferro. A disputa entre eles se deu através de seus desempenhos em quadra, com uma pontuação paralela à do jogo, na qual acertos e erros somavam e diminuíam a contagem. Os detalhes podem ser conferidos clicando aqui

Pontuação paralela dos jogadores selecionados. (reprodução ESPN)

Como na outra iniciativa citada, a transmissão nos EUA foi feita em dois canais da ESPN, uma normal e outra com diversos efeitos visuais e com o acompanhamento da disputa paralela. No estúdio, vários elementos do universo Marvel estavam presentes, como o martelo de Thor ou a luva de Thanos com as Joias do Infinito. A transmissão também contou com a participação do ator Anthony Mackie, que interpreta o novo Capitão América em série recém-lançada pela plataforma de streaming Disney +. No Brasil apenas a transmissão especial foi exibida.

Cenário temático para os apresentadores. (reprodução ESPN)

Esses são apenas dois exemplos da ampla possibilidade de ações envolvendo mídia, entretenimento e esporte. Em nosso país esse tipo de iniciativa ainda é bastante incipiente. Quando muito, emissoras de TV colocam estrelas de seus elencos participando de reportagens, transmissões ou programas esportivos. Mas isso terá que mudar. Afinal, é como afirma o velho jargão do mundo dos espetáculos: The show must go on (O show não pode parar).

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Uma provocação: as cotas mudaram o ranking do Brasileiro?

Com o rebaixamento de Botafogo e Vasco, no Brasileiro de 2020, e o não retorno do Cruzeiro à primeira divisão em 2021, pela primeira vez, três das 12 equipes mais tradicionais do país [1] vão disputar, numa mesma edição, a série B. O fato de 1/4 dos integrantes do que chamamos aqui de tradicionais nacionalmente (TN) estarem excluídos, ao menos provisoriamente, da elite do futebol brasileiro ensejou diversas tentativas de explicação e hipóteses.

Má gestão e incompetência são as mais recorrentes. O diagnóstico tecnicista parece ganhar maior densidade explicativa quando contraposto a um reivindicado maior profissionalismo dos clubes que têm se mantido no topo do ranking do Brasileiro. Sem desconsiderarmos ambas, queremos analisar outro ângulo que parece negligenciado, principalmente pelo jornalismo esportivo: os efeitos da implosão do Clube dos 13, em 2011, com a consequente concentração das cotas de televisão em apenas dois clubes.

Fábio Koff, ex-presidente do Clube dos 13
Fonte: Trivela

Pergunta-se se o novo paradigma deflagrou um processo de reconfiguração do TN, instaurando novo patamar de competitividade, em que, da multiplicidade de candidatos a campeão nacional, tem-se padrão próximo ao da maioria dos principais campeonatos europeus, restritos a dois ou, no máximo, três concorrentes ao título. Para responder a essa hipótese, comparou-se a classificação nos noves Brasileiros seguintes ao fim do Clube dos 13, de 2012 a 2020 – o novo modelo de contrato da TV Globo só começou a vigorar em 2012 – com as nove edições imediatamente anteriores, de 2003 a 2011. Vamos nos abster de uma historiografia da criação e do fim do Clube dos 13 [2]. O que nos mobiliza aqui são as consequências, nos níveis de competitividade, dos times TN a partir da negociação individual da Globo com as equipes.

Optou-se por uma visão panorâmica, em que não se cotejou apenas os campeões do Brasileiro nos dois períodos. A comparação estendeu-se aos que, num intervalo e outro, alcançaram as quatro primeiras posições – o G4 – com vaga automática à Libertadores, competição que se tornou o principal foco de clubes, torcedores e imprensa. Analisou-se, ainda, os rebaixados à segunda divisão – o Z4 – o que, também, dá pistas sobre a reconfiguração em curso. Neste último recorte, subdividiram-se as equipes entre os 12 tradicionais nacionalmente (TN) e as não integrantes desse grupo, os tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

O primeiro intervalo de nove anos tem início em 2003, quando instaura-se o sistema de pontos corridos no Brasileiro. A partir dessa edição, os quatro primeiros classificados garantem vaga à Libertadores. Não se considerou, na comparação, nem o campeão da Copa do Brasil nem o da Sul-Americana, ambos com vaga à Libertadores – no caso da segunda apenas a partir de 2010. Por se tratar de competições que envolvem jogos mata-mata, estão sujeitas a maior imprevisibilidade, diferentemente do campeonato por pontos corridos, o que distorceria o objetivo aqui buscado.

Descartou-se, ainda, a inclusão, no comparativo, do quinto e do sexto lugares do Brasileiro, que, a partir de 2016, quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) ampliou o número de vagas na Libertadores para Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, asseguram vaga à fase eliminatória da Libertadores. Pensa-se que nossa opção metodológica dá uma percepção mais nítida sobre o caráter competitivo dos clubes, antes e depois, da implosão do Clube dos 13.

Cotas (quase) iguais no TN até 2011

Concentrou-se, basicamente, no valor pago pela TV aberta, ainda a principal plataforma do país e a mais valorizada por grande parte dos anunciantes de futebol. Da criação da Copa União, em 1987, até 2000, a cota da TV era dividida em partes iguais pelos filiados ao Clube dos 13, com quantias inferiores aos “convidados”. Segundo cálculo do jornalista Mauro Beting, citado no blog do jornalista Allan Simon, em 1987, cada integrante da associação recebeu 12,8 milhões de cruzados, equivalente a quase R$ 2 milhões em valores atualizados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre dezembro de 1987 e dezembro de 2019. (SIMON, 2000).

A partir de 2001, a entidade separou Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Vasco em um grupo que ganharia mais, e outro com Botafogo, Fluminense, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético-MG, Cruzeiro e Bahia, com valores menores. Outros ajustes ocorreram até que, em 2011, a última divisão antes do fim do Clube dos 13 contemplava quatro grupos distintos:

Fonte: LEITE JR (2015, P.61) [4]

Com tal distribuição de valores, tivemos, entre 2001 e 2010, seis clubes campeões: São Paulo (3 títulos), Corinthians (2), Flamengo, Fluminense, Cruzeiro e  Santos (1 cada). Classificaram-se para o G4, nesse novênio, 13 equipes: São Paulo (6 vezes); Santos e Cruzeiro (4 cada); Grêmio, Palmeiras, Internacional, Flamengo e Fluminense (3), Corinthians, Vasco, Athletico-PR, São Caetano e Goiás (1). Foram rebaixados à segunda divisão, nesses nove anos, quatro clubes do TN: Vasco, Corinthians, Grêmio e Atlético-MG – todos com uma única queda. Entre as equipes fora desse grupo, 25 caíram de série: Fortaleza, América-MG, Coritiba, Vitória, Avaí e Guarani (2 vezes cada); Bahia, Ceará, Portuguesa-SP, Sport, Santa Cruz, Paraná, Juventude, Figueirense, Ipatinga, Santo André, Náutico, Goiás, Barueri, São Caetano, Ponte Preta, Payssandu, Crisciúma, Brasiliense, Athletico-PR (1).

Vê-se, assim, uma briga bastante competitiva pelo título, com apenas dois clubes, São Paulo (3) e Corinthias (2), vencendo mais de uma vez a competição, e com seis campeões diferentes em nove anos. O G4 também mostra grande pluralidade: dez dos 12 TN – Botafogo e Internacional são as exceções – participaram, ao menos uma vez, em nove anos, da Libertadores, assim como três equipes TR: São Caetano, Athletico-PR e Goiás. Os clubes TN rebaixados no período – 4 – só caíram uma vez de divisão em nove anos, com todos retornando à série A após apenas um ano na B.

Com o fim do Clube dos 13, o contrato para o triênio 2012 a 2015 já ampliou consideravelmente a assimetria do pagamento pelas partidas na TV aberta:

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 83)

No triênio 2016 a 2018, a concentração se acentuou ainda mais.

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 84)
* Demais clubes: negociações anuais com a Globo, a depender da participação na Série A

Com isso, a partir de 2016, Flamengo e Corinthians elevam a diferença de R$ 30 milhões sobre o São Paulo para R$ 60 milhões. Em relação a Vasco e Palmeiras, avança de R$ 40 milhões para R$ 70 milhões. Sobre o Botafogo, que na transição do Clube dos 13 para as negociações individuais, vira sua cota avançar de R$ 16 milhões para R$ 45 milhões, a distância para o Flamengo saltou, de R$ 9 milhões em 2011, “para inacreditáveis R$ 110 milhões”. (LEITE JR, p 85).[5]

Nesse modelo, entre 2012 a 2020 temos cinco campeões brasileiros: Corinthians (3 vezes); Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo (2 cada) e Fluminense (1). Classificaram-se para o G4, no período, 12 equipes: Grêmio e Flamengo (5 vezes); São Paulo, Corinthians, Atlético-MG e Palmeiras (4); Internacional e Santos (3), Cruzeiro, Fluminense e Athletico-PR (2); Vasco e Botafogo (1). O número de rebaixados do TN avançou de quatro para cinco – Vasco (3 vezes); Botafogo (2); Internacional, Cruzeiro e Palmeiras (1 cada). Entre os clubes fora do TN foram 20: Avaí (3); América-MG, Vitória, Goiás, Figueirense, Coritiba e Ponte Preta, Atlético-GO e Sport (2); Crisciúma, Joinville, Santa Cruz, Paraná, CSA, Chapecoense, Athletico-PR, Ceará, Portuguesa-SP [6], Náutico e Bahia (1).

Vê-se que, entre um período e outro, o número de campeões recuou de seis para cinco. Para além dessa redução, parece mais significativo que, nos últimos seis anos, apenas dois times de São Paulo – Corinthians e Palmeiras (2 vezes cada) – e um do Rio – Flamengo (2) venceram o Brasileiro. Se na década anterior, houve seis campeões diferentes em nove edições, no intervalo seguinte, em seis dos últimos anos, foram só três os vencedores, sinalizando concentração rara na história do futebol brasileiro. O número de times no G4 caiu só de 13 para 12, sendo 11 do TN – a exceção foi o Vasco – contra dez no intervalo anterior. A estabilidade no número de frequentadores da Libertadores permite duas leituras complementares. Por um lado, à parte Flamengo e Corinthians, temos seis dos outros dez clubes do TN em ao menos três das nove edições – Grêmio (5) São Paulo, Palmeiras e Atlético-MG (4), Internacional e Santos (3). Isso pode indicar que, com a emblemática exceção do Palmeiras [7], os demais, sem condições de brigar pelo título, tiveram de se contentar com a ida à Libertadores.

Simultaneamente, o número de quedas de alguns integrantes do TN deu salto importante: de uma vez para três (Vasco) e de zero para duas (Botafogo). E, pela primeira vez desde o início dos pontos corridos, em 2003, um integrante do grupo – o Cruzeiro, campeão do primeiro ano da segunda década – não logrou retornar à série A no ano seguinte [8]. Também pela primeira vez, três TN – Cruzeiro, Botafogo e Vasco, 1/4 daquele universo – vão disputar a série B. Fora do TN, a presença no G4 caiu de dois para um, embora este – Athletico-PR – tenha se classificado duas vezes, sinalizando que o time paranaense pode ter encontrado um modelo competitivo superior ao de outros mais tradicionais, mas insuficiente para disputar, e vencer, o Brasileiro.

Expostos os dados comparativos, nos limitamos a deixar uma provocação à reflexão dos que pensam o futebol como manifestação cultural e identitária para além do clubismo: seria a gestão explicação suficiente e única para a nova configuração de competividade no TN?



[1] Considera-se aqui como tais 12 clubes: quatro do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco); quatro de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos); dois de Minas Gerais (Atlético-MG e Cruzeiro); e dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional). Serão doravante nomeados tradicionais nacionalmente (TN), em contraponto aos tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

[2] Para uma análise detalhada do Clube dos 13 ver SANTOS, 2019; LEITE JR, 2015 e CHRISTOFOLETTI, 2015.

[3] Por estar na segunda divisão, recebeu apenas 50%.

[4] Os clubes que não faziam parte do Clube dos 13 tinham que negociar diretamente com a entidade e não recebiam mais do que 45% do valor do Grupo 3.

[5] Em 2019, um ano após o Grupo Turner, via Esporte Interativo, entrar na disputa da TV fechada, a Globo mudou a fórmula de cotas da TV aberta: 40% dos valores passaram a ser distribuídos igualmente pelos clubes, 30% pela colocação no campeonato e 30% pelo número de partidas exibidas. Embora essa mudança aparentasse reduzir as assimetrias, a Globo ampliou o número de partidas do Corinthians na TV aberta e, aproveitando o ano excepcional do Flamengo, priorizou transmitir os jogos deste time via pay-per-view. Com essas duas opções, elevou ainda mais a diferença dos valores pagos à dupla. O detalhamento das consequências dessa mudança ampliaria excessivamente o espaço desta comunicação. Consideramos que os números já expostos já dão conta do foco aqui escolhido.

[6] O rebaixamento da Portuguesa-SP, em 2013, ocorreu por fatores extracampo. Sob a alegação de que, quase ao fim do último jogo – 0 x 0 contra o Grêmio –, a equipe paulista colocou em campo o meia Heverton, suspenso por duas partidas, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu a Lusa com a perda de quatro pontos (três da partida disputada mais o ponto do empate). Com isso, a equpe caiu de 48 pontos, no 12º lugar, para 44 pontos, no 17º lugar, salvando o Fluminense, que, com 46 pontos, ocuparia essa posição, sendo rebaixado no campo. O STJD também retirou quatro pontos do Flamengo, por escalar o lateral esquerdo André Santos, suspenso por um jogo. Com isso, o rubro-negro caiu de 49 pontos, na 11º posição, para 45 pontos, na 16ª colocação.

[7] Com uma injeção de € 24 milhões (cerca de R$ 153 milhões) desde 2015 até 2021, o time paulista passou a deter um dos maiores patrocínios do mundo, atrás apenas dos espanhóis Barcelona e Real, do alemão Bayern de Munique, “do novo rico francês Paris Saint-Germain e do top 6 inglês: Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham”.

[8] Sobre a crise financeira do Cruzeiro

Referências bibliográficas

CHRISTOFOLETTI, Danilo Fontanetti. O fim do Clube dos 13: Como a Rede Globo controla o futebol brasileiro. São Paulo, Monografias Brasil Escola UOL, 2015.

LEITE JR., Emanuel. Cotas de televisão “apartheid futebolístico” e risco de “espanholização”. Recife, Ed. do Autor, 2015.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol. Curitiba: Appris, 2019

SIMON, Allan. Brasileirão: como o dinheiro da TV foi distribuído entre os fundadores do C!3 desde 2001, São Paulo: https://allansimon.com.br/2020/01/12/brasileirao-como-o-dinheiro-da-tv-foi-distribuido-entre-os-fundadores-do-c13-desde-2001 acessado in 12/05/2021

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A História feminina do esporte argentino

Há mais de 100 anos, em seu relatório anual de 1918, P.P Phillips, diretor de educação física da Asociación Cristiana de Jóvenes (ACJ) de Buenos Aires, escreveu: “Ao contrário de sua tendência tradicional, os argentinos agora estão desenvolvendo uma sede insaciável pela educação física e os esportes estrangeiros”. Por outro lado, ressaltou que em um rápido olhar para os estudantes em seu ginásio, podia observar “os tipos de homens e crianças bem educados” que a ACJ atraía, assim como “o clima democrático, gentil” que se mantinha nelas. Para mostrar a aprovação que geravam as iniciativas da instituição, Phillips citou um médico local, para quem seus colegas portenhos poderiam enviar mulheres jovens o suficiente para abrir uma seção feminina se a ACJ estivesse disposta a realizar o mesmo trabalho “para nossas meninas gordas”.

O Relatório de Phillips demonstra a crescente importância do esporte na Argentina no começo do século XX e a ordem genérica que prevalecia. O esporte estava reservado e era controlado por homens, que estavam habilitados para beneficiarem-se de todos os valores atribuídos à sua prática. Entretanto, como indica a prescrição do médico, as mulheres tinham permissão para participar dos esportes se isso resultasse na melhora da saúde (sobretudo reprodutiva), e não alterasse o ideal feminino estabelecido. Vale a pena destacar que a Asociación Cristiana Femenina (ACF) de Buenos Aires teve seu início em 1890, sendo uma das instituições femininas mais antigas do país. O fato do médico citado por Phillips ignorá-la também expõe as enormes dificuldades que enfrentava, e ainda enfrenta, o esporte feminino. 

A história da ACF demonstra que, apesar dos discursos esportivos dominantes que durante muito tempo o silenciaram ou minimizaram, e que ainda o fazem, sempre houve, e há, mulheres e instituições que favoreceram, materializaram e exemplificaram a emancipação e o empoderamento feminino através da prática esportiva. Se pode, e deve, considerá-las como pioneiras no sentido de que eram, e muitas ainda seguem sendo, as primeiras a ingressarem em um espaço novo. Da mesma forma que se pode, e deve, considerá-las lutadoras e militantes no sentido de que nesse corajoso ingresso, criaram novos espaços participativos por meio dos quais se questionaram estereótipos de gênero e se imaginaram visões políticas alternativas. Teria mencionado algo sobre isso Alicia Moreau quando a ACJ a convidou para falar sobre “O feminismo como problema social” em seu ciclo de conferências de 1919?

Sabe-se relativamente pouco da vida dessas mulheres e instituições pioneiras, lutadoras e militantes do campo do esporte, visto que elas estão em grande parte ausentes da narrativa histórica e jornalística tradicional. Felizmente, o trabalho paciente de várias colegas começa a interpretar o complexo processo pelo qual as mulheres e instituições pioneiras, lutadoras e militantes, em suas buscas, suas conquistas, e seus fracassos, contribuíram para resistir, negociar e ressignificar a ordem genérica que operava no esporte ao longo do último século. Ao torná-las visíveis, percebemos sua larga e importante, mas agora latente, presença no esporte nacional. 

O exemplo de Lilian Harrison é norteador. Anos depois de converter-se como a primeira pessoa a cruzar a nado o Río de la Plata em 1923, declarou:

“Nunca posso me esquecer que um dos presentes [em Colonia] não se cansava de dizer que eu estava louca e que não chegaria nem ao penhasco. Veja que estranho, quando toquei a terra, em Punta Colorada, próximo de Punta Lara, a primeira coisa que me aconteceu foi pensar naquela pessoa que havia comentado de minha loucura um dia antes”.

Lilian Harrison

Se nos interessa a produção de discursos e de sentidos genéricos, assim como a igualdade de gênero no esporte, nem a fala e nem a vida de figuras como Harrison, nem o seu significado, deveriam ser esquecidos. Resgatá-las, mantê-las presentes e problematizá-las ajuda a tornar visível o papel vital da mulher no esporte e em outros espaços sociais.


Texto originalmente publicado no site El Equipo no dia 29 de maio de 2021

Tradução: Abner Rey e Fausto Amaro

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Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo quinto episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo quinto episódio é “O futebol na obra de Nelson Rodrigues”. Com apresentação de Mattheus Reis e Leticia Quadros, gravamos remotamente com Zeca Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru).

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo quinto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “A Vida Como Ela É, Bonitinha, Mas Ordinária… Assim Falou Nelson Rodrigues”, samba-enredo da escola de samba Viradouro no Carnaval de 2012, homenageando o centenário do escritor e dramaturgo.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Fla-Flu… E As Multidões Despertaram! – organizado por Oscar Maron Filho e Renato Ferreira [livro]

O boca de ouro [peça teatral de Nelson]

A vida como ela é – Nelson Rodrigues [livro]

O futebol em Nelson Rodrigues – José Carlos Marques [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Leticia Quadros
Convidado: Zeca Marques

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As limitações da cobertura esportiva da Globo em campeonatos não transmitidos

No início deste mês, escrevi para a coluna da ReNEme (Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte) no Ludopédio sobre o fato de o Fantástico não ter dado a música para o atacante Gilberto, do Bahia, após ter feito 4 gols contra o Altos, em partida válida pela Copa do Nordeste.

Naquele texto optei por focar nas opções de transmissão da Liga do Nordeste para o torneio regional nos últimos anos, que não passava pela Globo. Neste, tratarei exclusivamente da cobertura esportiva do conglomerado comunicacional.

Fonte: Perfil da Copa do Nordeste no Instagram

Critérios de noticiabilidade

Quando se fala em “critérios de noticiabilidade” ao estudar ao que leva à transformação de determinado fato em acontecimento jornalístico, logo, sob mediação de profissionais, sintetizamos que não é notícia se “um cachorro morde um homem”, por ser algo corriqueiro. Apenas será se fugir do que deveria ser natural, ou seja, “quando um homem morde um cachorro”.

Mas também é necessário lembrar que, mesmo na segunda possibilidade, depende de quem era o homem, quem era o dono do cachorro e qual o local em que ocorreu. Dependendo ainda do nível de poder das pessoas envolvidas, até mesmo o como e o porquê podem ter versões a se apresentarem de formas diferentes – se é que só isso não baste para que o fato não se torne notícia.

A discussão sobre o entretenimento na cobertura esportiva é bastante realizada, mas é necessário destacar que as opções editoriais do jornalismo (esportivo) também passam por questões político-econômicas, com maior ou menor efeito no que é difundido.

Fonte: O Planeta TV – A Globo foi patrocinadora dos Jogos Rio 2016

Os negócios na transmissão de eventos esportivos

O século XXI é o que consolida no Brasil os efeitos da liderança do Grupo Globo na transmissão de eventos esportivos muitas vezes de forma isolada na TV aberta, gratuita, ou em plataformas midiáticas sob pagamento (Sportv e Premiere).

A forma incisiva de atuar no mercado ficou marcada especialmente no Campeonato Brasileiro da Série A. Além da construção das barreiras para transmiti-lo, a possibilidade de concorrência via licitação a partir do torneio de 2012 abriu espaço para um modelo de negociação individual, acabando com a “União dos Grandes Clubes do Brasil”, o Clube dos 13 – ver mais em Santos (2019).

Este processo não ocorreu sem estratégias de concorrentes para trazer para si o potencial de audiência deste tipo de programa. A Record tentou enfrentar a líder de mercado e, se não conseguiu sucesso com torneios de futebol importantes no final da década de 2000, adquiriu exclusividade para transmissão de Jogos Pan-Americanos e Jogos Olímpicos.

Anos mais tarde, o então Esporte Interativo, atual TNT Sports, conseguiu fechar contrato com alguns clubes para transmissão de jogos da Série A, em TV fechada, a partir da edição de 2019. Isso gerou alguns jogos sem transmissão e mudanças nas possibilidades de transmissões pelas plataformas do Grupo Globo.

Mas o que a Globo faz na sua cobertura esportiva, seja nos programas específicos (Globo Esporte e Esporte Espetacular) ou nos telejornalísticos gerais, para tratar de torneios que estão sendo transmitidos por concorrentes?

Sem veto, mas sem grande atenção

Eu me recordo de num Globo Esporte gerado de São Paulo no início da década de 2010, ainda apresentado por Thiago Leifert, de ele comentar que era opção editorial da Globo não tratar de eventos esportivos com direitos de outras emissoras – acredito que possa ter sido sobre vitória de piloto brasileiro nas 500 Milhas de Indianápolis, da Fórmula Indy, que tinha transmissão da Band.

A lógica era simples: não chamar a atenção para um produto que poderia levar a audiência da Globo, líder, para a outra emissora. Podemos dizer que um dos critérios de noticiabilidade para a cobertura esportiva era a difusão de conteúdo de propriedade da rede.

A venda de qualquer pacote de publicidade para torneios esportivos sempre contou com entrega da emissora em telejornalísticos generalistas. Os gols da rodada têm destaque, por exemplo, no Jornal Nacional e no Fantástico, mas com a vinheta do pacote “Futebol 2021” passando antes do bloco.

Enquanto líder, com audiência maior em outros momentos que na transmissão do jogo em si, por muito tempo isso foi uma barreira importante no mercado de TV: maior visibilidade das marcas envolvidas – ainda que com o contrapeso de não abrir espaço para as específicas de torneios, especialmente se concorrentes das parceiras do pacote.

Segundo Bolaño (2000), a mercadoria audiência é o foco da empresa de TV por ser principal fonte geradora de receitas, pois é ela que é vendida aos anunciantes a partir da publicidade. Assim, na concorrência com outros grupos econômicos, isso é considerado para a linha editorial.

O cenário mudou nos últimos anos. Por um lado, houve a necessidade de flexibilizar nas negociações com clubes pelos direitos da Série A a partir da edição de 2018, com concorrência numa das mídias.

Além disso, há alteração no perfil do conglomerado, seguindo para ser uma mediatech, com redução de custos e direcionamento melhor de investimentos – caso das mudanças de contratos com seu corpo de artistas. A pandemia da Covid-19 acentuou o processo de mudança, com a perda de transmissão de torneios para concorrentes.

Fonte: Reprodução do site RD1

Casos de 2021

Com toda a disputa do Flamengo com a Globo, os efeitos da Medida Provisória 984/2020 do governo federal sobre a transmissão do Campeonato Carioca fizeram com que a emissora deixasse de transmitir o estadual, que foi para a Record TV. Além disso, Flamengo e Fluminense também estão na Libertadores, torneio que passou ao SBT.

Tratarei aqui da minha experiência de quem recebe o Globo Esporte produzido para a rede a partir do Rio de Janeiro, após um primeiro bloco local (de Alagoas).

A cobertura sobre os times do estado segue no mesmo formato do mesmo período do ano passado, com reportagens sobre a preparação para os jogos do Carioca e da Libertadores e a repercussão deles. O que mudou é a logomarca de uma das concorrentes na tela ao tratar dos resultados – ainda que no Carioca a Globo tenha tentado usar apenas o crédito da agência responsável pelo torneio, a Sportsview.

Reproduziu em escala nacional o que acontece no local, com a cobertura esportiva seguindo de acordo com a atuação dos times do estado, independente se tem ou não o direito de transmitir os jogos ao vivo.

No caso da rede, ainda teve o percalço da paralisação do Campeonato Paulista por algumas semanas, ou seja, sem conteúdo considerado “nacional” de torneios que o grupo ou alguma de suas afiliadas podem transmitir – além dele, Catarinense, Gaúcho, Goiano, Mato-grossense, Mineiro e Pernambucano.

O que mudou foi na estratégia de programação para concorrer com os jogos ao vivo, ainda que as concorrentes tenham fugido dos horários tradicionais da Globo (quarta à noite e domingo à tarde).

Seguindo a definição de 5 tipos de estratégias de programação de TV elaborada por Brittos (2001), a Globo atuou com “contra-programação”. “A efetivação desta estratégia implica também em desprogramação, no sentido de alterar o horário e o conteúdo em si previamente anunciado, conforme as ações dos demais agentes” (BRITTOS, 2001, p. 158). Assim, a emissora buscou superar a concorrente com conteúdo de grande audiência, casos do reality-show Big Brother Brasil e da novela das 21h.

Enquanto isso, a Copa do Nordeste só apareceu, creio eu, para tratar do título do Bahia contra o Ceará. Por isso, escrevi no Ludopédio que “não há surpresa de um jogo de primeira fase da Copa do Nordeste, especialmente, não ter os gols reproduzidos”. Por isso também destaquei o “local”, mais acima, como um dos critérios, pois está presente no jornalismo que tem difusão nacional – e que merece bastante crítica.

Observar como os critérios de noticiabilidade são definidos é algo bastante interessante para quem se interessa em estudar a cobertura esportiva, considerando ainda que críticas mais diretas a torneios que determinada emissora transmite, mesmo nos telejornais generalistas, podem interferir no interesse do público em determinada competição e trazer prejuízos comerciais ao conglomerado comunicacional.

A atenção a possíveis limitações no que é, porque é e como é demonstrado, especialmente considerando as questões político-econômicas, é importante para não nos surpreendermos com omissões em coberturas midiáticas.

Referências

BOLAÑO, C. R. S. Indústria Cultural, Informação e Capitalismo. São Paulo: HUCITEC, 2000.

BRITTOS, V. C. Capitalismo contemporâneo, mercado brasileiro de televisão por assinatura e expansão transnacional. 2001. 425f. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Culturas Contemporâneas, Universidade Federal da Bahia – UFBA, Salvador, BA, 2001.

SANTOS, A. D. G. dos. A visibilidade midiática buscada e conquistada pela Copa do Nordeste. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 7, 2021.

SANTOS, A. D. G. dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Curitiba: Appris, 2019.

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Dizer não ao assédio também é um ato de resistência

Volta e meia assisto e ainda fico chocada com as cenas de violência que são exibidas nos noticiários locais. Constato com tristeza que de tão frequentes em grandes cidades como o Rio de Janeiro, crimes nas favelas envolvendo populações vulneráveis são banalizados, relegados ao lugar do comum. Em relação ao assédio sexual as coisas não são diferentes. Embora considerado crime pela Lei 10.224/2001, na prática, o tipo penal quase não é usado e os casos de assédio acabam sendo solucionados por outros ramos do ordenamento jurídico.

No ambiente de trabalho as histórias de assédio e impunidade se repetem. Segundo dados publicados pelo G1 de uma pesquisa feita pelo LinkedIn em parceria com a consultoria de inovação social Think Eva que, no fim do ano passado ouviu 414 profissionais de todo Brasil, quase metade das mulheres já sofreu algum assédio sexual no trabalho.

No último dia primeiro de abril, em uma atitude inédita, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) determinou  a perda temporária do mandato do deputado Fernando Cury (Cidadania) que, durante uma sessão extraordinária, vergonhosamente passou a mão no seio da deputada Isa Penna (PSOL). O futebol coleciona atitudes vexaminosas como a desse deputado.

Nos estádios, nos clubes e em ambientes tidos no passado como redutos masculinos, há anos jornalistas esportivas são desrespeitadas. E, por incrível que pareça, isso não surpreende com a frequência que deveria surpreender. Muitos assistem impassíveis às provocações e ouvem os coros nas arquibancadas dos estádios que repetem em alto e bom som xingamentos como “piranha, vagabunda, etc”. Como se o simples fato de trabalharem e, por que não, gostarem de futebol,  pudesse colocá-las num patamar de igualdade com as chamadas Marias-chuteiras, mulheres que se aproximam de jogadores de futebol com interesse em engatar um romance ou algum tipo de relação em troca de visibilidade ou vantagem financeira.

Vale lembrar que o próprio termo Maria-chuteira nasceu lá atrás impregnado de preconceitos machistas em relação à presença feminina nos estádios. Esse personagem carrega estereótipos que associam malícia e astúcia ao feminino.

Driblando o machismo estrutural

Mesmo depois do futebol ter perdido a fidalguia que levava apenas as mulheres das classes mais abastadas às arquibancadas, a presença feminina resistiu às interdições e está cada vez mais atuante nas torcidas dos estádios.  Mas nem mesmo lá, no espaço de quem olha, sente e vibra com o espetáculo do futebol elas estão livres de comportamentos masculinos inadequados. Tampouco as jornalistas esportivas.  Nos seus mais diferentes papéis, seja como repórteres, comentaristas ou narradoras elas também vivenciam no dia-a-dia esses comportamentos sexistas. Mesmo assim, não são todas que associam essas atitudes com preconceito em relação a participação da mulher no jornalismo esportivo.  É o caso, por exemplo, de Marluci Martins, que começou a cobrir futebol no início dos anos 90. Nessa época as entrevistas em vestiário eram comuns, o que não deixava nem a jornalista nem os jogadores à vontade.

Com seis copas do mundo no currículo, Marluci acredita que a estranheza e as dúvidas em relação a competência das mulheres eram motivadas pela quantidade reduzida de mulheres no jornalismo esportivo. Elas sempre tinham que provar alguma coisa.

 “Teve jogador entrando no meu quarto. Mas acho que isso não é nem preconceito, é outra coisa muito mais grave. Um assédio horroroso. Mas sempre compreendi que fui vítima disso tudo por ser uma das pioneiras. Naquela época a gente nem sabia que aquilo era preconceito. Hoje em dia a gente tem uma percepção muito maior desses fatos. Eu era muito nova e não gostava que duvidassem da minha competência. Queria provar que podia fazer como os homens faziam. Era um desafio pra mim.”

Marluci Martins

Marluci provou por diversas vezes que tinha competência para estar ali. Foram mais de 30 anos enfrentando cobranças em jornais populares como O Dia, Extra, O Globo e em programas dos canais por assinatura SporTV e Fox Sports.  Como conseguiu se impor e chegar aonde queria, não acha que foi vítima de preconceito. Ficava muito mais incomodada com fato de ser chamada para dar palestras sempre para falar de preconceito e nunca sobre temas como técnicas de reportagem e táticas de futebol, assuntos sobre os quais tinha pleno domínio.

Por ter trabalhado a maior parte da carreira em jornal, Marluci se livrou da terrível experiência de ouvir xingamentos entoados em coro pelo público no Maracanã e em outros estádios.  Como repórter de televisão, não tive a mesma sorte. Gostaria de pensar que esses foram ecos de um tempo que ficou para trás.  Mas, infelizmente, o que vivi no passado se repetiu muitas vezes com jornalistas que atuaram depois de mim e com as que estão hoje na linha de frente.

Fonte: Imagem enviada pela autora

A diferença é que atualmente a voz das jornalistas ecoam com mais força e rapidez. A consciência por parte das mulheres aumentou e elas hoje se  organizam em coletivos como o Jornalistas Contra o Assédio, criado no Facebook em 2016, e botam a boca no trombone para denunciar abusos em todos os espaços. As redes sociais ajudam a dar peso a essas denúncias.  Em 2015 a repórter do SporTV Gabriela Moreira, então na ESPN, fez um desabafo no Facebook depois de constatar com indignação o que na época ela chamou de licença poética para o machismo no futebol.

Depois de passar cinco anos como repórter policial, Gabriela não imaginou que enfrentaria preconceito de gênero justamente na editoria de esportes. Acostumada a ter chefes mulheres em outras editorias, Gabriela de cara se surpreendeu com a quantidade diminuta de mulheres em cargos de comando na editoria de esportes. Mas a surpresa maior viria depois.

Eu conheço o machismo de perto. Ontem pude sentir o bafo dele. Úmido, quente. Não pisquei o olho. Não me movi. Eu conheço o pior do ser humano e não é de hoje.

Na morte do Gaguinho, miliciano, grávida, vi a perícia levantar a pele que sobrava do rosto dele entre os 20 buracos de bala de fuzil do qual foi alvo. Ouvi de perto também os prantos da mãe de Matheus, que aos 4 anos fora morto no Complexo da Maré. Nas mãos da criança, uma moeda de R$ 1 que usaria para comprar pão. Os prantos da mãe de Matheus ainda não consigo esquecer.

Por ter visto o pior do ser humano de tão perto é que não me abalo quando vejo um machista pela frente. Ao contrário, respiro o mesmo ar que ele. De preferência, bem de perto. O machismo não se instala somente no futebol. É que aqui, ele ganha ares de licença poética.

 O machismo que vi na polícia e na política é o mesmo. Mas aqui, ele sai entre um “olê, olê, olá” e vez em quando, depois de um “Chupa”. Se o ouvinte é um homem, o “chupa” é “verbo” sem complemento. Para nós, mulheres, ele sempre vem acompanhado. E ontem, ele foi acompanhado de muitas coisas mais, durante muito tempo.

 “Você vai ver eu te chupando todinha, sua vagabunda”, foi um dos gritos que ouvi por longos 40 minutos. Gritado por dezenas de torcedores, na frente de pessoas com as quais me relaciono diariamente. Não pisquei, não desviei o olhar. Respirei bem de perto.

Para que entenda o machista que nem o ar que ele respira eu não posso ter. Nada terão eles que nós não possamos ter. Ouvir o que ouvi hoje é para os fortes. Falar o que disseram, não.

 Aos covardes, um aviso: essa luta já está perdida. Pelo filho que eu crio, que nós criamos. Pela força dos que estão porvir. Não tenham dúvida, esse título já é nosso!”

Gabriela Moreira (texto publicado pela jornalista no Facebook)

Segundo a jornalista, diferentemente da cobertura policial onde o machismo existe mas é velado pelo fato dos policiais saberem o que é crime e conduta imprópria, no esporte o assédio ainda é  normal e, o que é pior, existe uma omissão por parte dos próprios colegas jornalistas. Chegou a essa constatação na época da publicação do desabafo acima, depois de ser agredida por torcedores com palavras obscenas na final da Copa do Brasil entre Palmeiras e Santos, em 2015.

O preconceito, não apenas o de gênero, está de tal forma entranhado na nossa sociedade, que muitas vezes o teor sexista de determinadas ações passa despercebido. Para Marluci as mulheres estão dando um show de competência no jornalismo esportivo. Ela não sente que haja mais qualquer diferença nem na forma como o trabalho delas é feito nem recebido. Mas, num ato falho, repetiu: “Tem gente que fala assim: elas estão fazendo jornalismo como homem.” Riu e, depois, emendou:  “Frase preconceituosa, né? Elas fazem como homem fazia antigamente. Hoje em dia é normal.”

Referências bibliográficas

COSTA, Leda M da. Marias-chuteiras x  torcedoras “autênticas”. Identidade feminina e futebol, Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro – APERJ

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O jormachismo esportivo precisa entrar em pauta

O Esporte Espetacular, da Rede Globo de Televisão, exibiu durante os domingos 10[1] e 17[2] de janeiro de 2021 uma série de reportagens assinada por Henrique Arcoverde e produzida por Amanda Kestelman, Bárbara Mendonça e Renata de Medeiros sobre a Violência contra mulher. Ainda antes do início da matéria, a apresentadora Bárbara Coelho contextualizou o cenário nacional de violência contra a mulher no Brasil mostrando como acusações de agressões, estupros e assassinatos têm aparecido no cenário do futebol brasileiro.

O assassinato de Eliza Samúdio foi lembrado e ilustrado com uma fala do, então, goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, em 2010, naturalizando agressões entre casados. A agressão do, atualmente, goleiro do Atlético GO, Jean, sobre a ex-mulher Milena Bemfica, em 2019, também apareceu na matéria. Apesar de ter seu contrato suspenso com o São Paulo, o goleiro seguiu atuando na série A do Campeonato Brasileiro. A ex-esposa criticou que seu agressor possa seguir sua trajetória futebolística como se nada tivesse acontecido.

A matéria argumentou que o caso Robinho marcava um novo momento na relação entre o futebol e a violência contra a mulher. O jogador condenado na Itália por violência sexual de grupo, em 2017, foi contratado pelo Santos, em 2020, enquanto aguardava julgamento de recurso. A divulgação de escutas telefônicas de conversas do jogador sobre o episódio com seus amigos fez com que torcida, imprensa e, especialmente, patrocinadores pressionassem o clube que suspendeu o contrato do jogador condenado novamente em dezembro de 2020 ainda tendo um último recurso na justiça italiana disponível.

No segundo domingo de apresentação da matéria, além de uma rápida definição sobre o que seria “ser homem”, a reportagem questionou a importância da intervenção nos clubes em que muitos postulantes a atletas acabam convivendo em ambientes de pouco contato com a diferença de gênero dificultando a criação da empatia nas relações com as mulheres. Existiu certo consenso na fala dos entrevistados e das entrevistadas na responsabilidade das instituições em procurar criar um ambiente que permita o surgimento de outro tipo de masculinidade desde as categorias de base.

A narrativa da reportagem encerrou apostando na necessidade de uma maior valorização da presença das mulheres no futebol com cargos de destaque. Se evidencia como hipótese que uma maior presença de mulheres permite a criação de espaços com menos machismo. Regiani Ritter, repórter de campo na década de 1980 e 1990, lembrou que ao contrário dos homens que tinham seus erros transformados em piadas, os erros dela eram associados a seu sexo/gênero seguido das ordens de retorno ao fogão ou à cozinha. A árbitra FIFA Edina Alves, que será a primeira mulher da história a apitar uma partida do campeonato mundial de clubes de futebol masculino em 2021, afirmou que ainda tem seus erros justificados por ser uma mulher.

Me parece muito importante que um programa tão relevante de nosso jornalismo esportivo consiga pautar temas tão urgentes em nossa cultura. Nas linhas que seguem, porém, quero pensar o quanto esse mesmo jornalismo esportivo, entendendo-o como espaço de disputa e não como um espaço homogêneo, ajuda a construir essa narrativa masculina e machista no ambiente do futebol de espetáculo jogado por homens em nosso país.

Com Arlei Damo (2006) entendo que o futebol de espetáculo pode ser dividido em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os mediadores especializados são os profissionais que trabalham na espetacularização do futebol e produzem narrativas sobre os eventos futebolísticos. Eles podem ser profissionais da comunicação ou ex-atletas e ex-dirigentes que teriam a função de “explicar” os eventos para o público que, de alguma forma, não seria “apto” a lê-los sozinho. Esses mediadores, apesar de suas diferentes origens, são chamados, costumeiramente, de cronistas esportivos e são os principais atores do que se pode nomear de jornalismo esportivo ou de imprensa esportiva.

As narrativas construídas pelo jornalismo esportivo produzem significados diversos e ampliam o fenômeno futebolístico. Segundo as teorias literárias e culturais, as narrativas possuem centralidade na cultura. São as histórias que nos permitem entender as coisas e pensar no mundo e em nossas vidas como certa progressão lógica que leva a algum lugar (CULLER, 1999). As narrativas possuem a potencialidade de nos ensinar diferentes pontos de vista e de entender as posições dos outros. Ao mesmo tempo, as narrativas policiam autorizando ou desautorizando a construção de significados, por exemplo, sobre a masculinidade.

No primeiro domingo de exibição, a reportagem lembrou a acusação de 4 ex-jogadores – Henrique, Fernando, Eduardo e Cuca (atual treinador do Santos) – do Grêmio que em uma excursão à Europa, em 1987, mantiveram relações sexuais com uma menina de treze anos. O jornalista Cláudio Dienstimann que acompanhou a excursão reconheceu, passados mais de trinta anos, que, infelizmente, a cobertura não pensou no ponto de vista da menina agredida. Segundo ele, o foco da reportagem era ver os atletas em liberdade para retornarem ao Brasil. A reportagem lembrou que a época parte da torcida apoiou a atitude dos jogadores. Podemos ler esse apoio em um diálogo muito estreito entre clubismo e machismo, não necessariamente nesta ordem. Carmen Rial lembrou que a imprensa esportiva gaúcha fez o mesmo. Junto com Miriam Grossi ela publicou um texto na revista Mulherio em que mostrava algumas das impressões dos torcedores e da imprensa gaúcha naquela oportunidade. Acompanhando o retorno dos quatro agressores, elas afirmaram que a “crônica esportiva (…) conseguiu em um mês transformar os quatro acusados de crime em vítimas de um ‘juiz nazista’ e o estupro de uma menina de 13 anos por três dos jogadores em uma ‘travessura’ inconsequente” (1987, p. 3). Em uma das falas, o jornalista Lauro Quadros tentou “ensinar” para o público o que poderia se imaginar ser certo consenso cultural da época (ou ainda estaria entre nós?):

(…) eu sou pai, você que é mãe ou pai vai me entender, não é a mesma coisa um filho ou uma filha. Todo pai quer que o seu filho fature todas as meninas do bairro, quer que ele seja o garanhão da turma. Já com a filha é diferente. Não se deve culpar os rapazes do Grêmio por terem feito o que todo pai gostaria de ver o seu filho fazer (GROSSI; RIAL, 1987, p. 4).

Em 2020, o ex-jogador Caio Ribeiro, hoje comentarista esportivo, se autorizou a dar o “benefício da dúvida” a Robinho afirmando que apenas a justiça deveria julgá-lo. Aparentemente ele não se sentia confortável em criticar a conduta do jogador, naquele momento já condenado em primeira instância. Após acesso a novas reportagens o comentarista modificou sua percepção: “Na hora que eu vejo, ainda mais eu que tenho uma filha menina, a forma como ele se dirige à vítima, a forma baixa como ele fala do estado da menina… Cara, me caiu mal. Me deu dor de estômago”[3]. Curiosamente o reforço de seu posicionamento aparece na sua posição enquanto homem, pai de menina. A percepção de violência ainda aparece na relação entre homens. A lógica dessa justificativa que aproxima a agressão de um homem ao sofrimento de outro homem, pai de menina, não estabelece a plenitude da humanidade para as meninas ou mulheres. Se ele não fosse pai de uma menina, não seria possível criar empatia e condenar a violência contra mulheres?

Muito mais do que as opiniões sobre casos de violência extrema, o problema de nosso jormachismo esportivo está em suas ações cotidianas. Ele vai da absurda defesa do comportamento machista de um treinador como realizada por Maurício Saraiva:

Guto Ferreira gosta de mulher, é casado, não sei se tem filha, mas certamente não tem nada contra mulheres. (…). O mundo da bola ainda é assim. Muito homem junto, mulheres recém começando a ocupar a arquibancada e muitas ainda mais atentas ao bonitinho do que ao bom jogador. Também as mulheres estão na transição de gostar do futebol pelo futebol, capazes de ir ao futebol sem marido, amigo ou namorado. Então, todos em aprendizado. [4]

E também é alimentado pelas “brincadeiras” do Carlos Cereto que pergunta sobre novela para Ana Thaís Matos[5], o Peninha Bueno mandando a Eduarda Streb[6] voltar para a cozinha… Escondidas atrás de “piadas”, essas manifestações dão pouca margem para que a violência apareça. Para as ofendidas acaba sendo oportunizado apenas o lugar de mal humoradas. Nas redes sociais os torcedores cobram engajamento de jornalistas mulheres que “ousaram” reclamar do machismo em alguma oportunidade ao mesmo tempo em que o silêncio dos jornalistas homens não é colocado em questão.

Após classificar o Grêmio para final da Copa do Brasil nesse interminável 2020, Renato Gaúcho – machista quando perde “até mulher grávida faria gol na gente” – voltou a fazer uma manifestação machista, desta vez após uma vitória. Questionado sobre ter menos posse de bola que o adversário, Renato contou uma “historinha”:

Teve um cara que pegou uma mulher bonita e levou ela para jantar. Levou para jantar à luz de velas, conversou bastante. Saiu do restaurante, foi na boate e ficou até às 5 horas da manhã com ela. Gastou uma saliva monstruosa. Aí, na boate, chegou um amigo meu, conversou com ela 15 minutos e levou ela para o motel. Entendeu? Se não entendeu outra hora eu explico. Meu amigo ganhou o jogo [7]

Para Cosme Rímoli, do R7, “Este é Renato Portaluppi, finalista da Copa do Brasil 2020…”[8]. Na conta do Instagram do Fox Sports Brasil a fala foi acompanhada de risos:

No Programa Redação Sportv, o apresentador Marcelo Barreto chamou a jornalista Renata Mendonça para tentar entender se a escolha das palavras de Renato foi boa ou ruim. Renata reforçou como a frase do treinador objetificava as mulheres ao definir que o objetivo dos homens seria apenas levá-las ao motel mostrando que a única importância da mulher seria satisfazer o homem, e pelo exemplo do treinador, sexualmente. Ela reforçou que não seria possível “inverter” a “piada” uma vez que os homens, em nossa cultura, não são entendidos como objetos para satisfação dos desejos das mulheres[9]. Ao mesmo tempo em que é bastante produtiva a participação das mulheres nessa discussão, essa metodologia acaba desconvocando os homens para o debate sobre o machismo. Um homem não seria qualificado para ver o machismo presente nesta manifestação?

A frase de Renato parece fazer tanto sentido dentro da lógica desse jormachismo esportivo que a conta do Instagram da Fox Sports Brasil já a replicou ao ilustrar a vitória de uma equipe com menor posse de bola.

Situações como essa mostram que esse machismo atravessa as narrativas do futebol de espetáculo no Brasil. Frases como a de Renato, Lauro Quadros, Caio Ribeiro, Carlos Cereto, Peninha Bueno e tantos outros não são atitudes individuais de sujeitos desajustados. Ao contrário, elas fazem sentido nessa péssima lógica machista da nossa cobertura esportiva.

Esse é mais um espaço de enfrentamento contra as desigualdades de nossa cultura. Pautar esse jormachismo esportivo é urgente. E ela é uma luta de todos os que militamos neste espaço como profissionais, pesquisadores e torcedores. Nós, homens, não temos o direito de terceirizar o protagonismo deste enfrentamento às mulheres. Precisamos nos posicionar ao lado delas nesta trincheira e não podemos abrir mão de agir quando situações como essa, infelizmente, se repetirem.


[1] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/9166660/. Acesso em 23/01/2021, às 13h34.

[2] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/9185792/. Acesso em 23/01/2021, às 16h44.

[3] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/caio-ribeiro-fala-sobre-o-caso-robinho-tem-que-pagar-como-qualquer-outra-pessoa.ghtml. Acesso em 24/01/2021, às 9h32.

[4] Disponível em: http://globoesporte.globo.com/rs/blogs/especial-blog/vida-real/post/guto-e-mulheres.html. Acesso em 24/01/2021, às 11h22.

[5] Disponível em: https://www.lance.com.br/fora-de-campo/ana-thais-matos-incomoda-com-pergunta-machista-apresentador.html. Acesso em 24/01/2021, às 11h13.

[6] Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2018/04/27/peninha-pede-desculpas-apos-piada-machista-e-comentarista-chora-ao-lembrar.htm. Acesso em 24/01/2021, às 11h16.

[7] Disponível em: https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/renato-compara-posse-de-bola-a-pagar-jantar-e-nao-levar-mulher-ao-motel-31122020. Acesso em 24/01/2021, às 11h31.

[8] Ver nota anterior.

[9] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sportv/programas/redacao-sportv/video/renata-mendonca-sobre-fala-de-renato-nao-seria-nem-engracado-se-ele-fizesse-o-contrario-9143513.ghtml. Acesso em 24/01/2021, às 11h56.

Referências:

CULLER, Jonathan. Teoria literária – uma introdução. São Paulo: Beca Produções, 1999.

DAMO, Arlei Sander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, Simoni Lahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

GROSSI, Mirian; RIAL, Carmem. Os estupradores que viraram heróis. In: Mulherio. Fundação Carlos Chagas, outubro 1987, p.3-4.

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Jornalismo esportivo precisa debater sobre a falta de negros em cargos de gestão

Novembro já bate na porta e com ele teremos um dos poucos momentos que o jornalismo volta seus olhares para as questões raciais com mais densidade de produção noticiosa e tempo e espaço para se dedicar ao tema. Influenciado pelo 20 de novembro, quando celebra-se o Dia da Consciência Negra, muito provavelmente veremos mais um ano onde os casos de racismo individuais e os relatos de profissionais que passaram por situações discriminatórias tomarão a mídia. No jornalismo esportivo, uma tendência comum é pautar o aumento de casos de suspeita de racismo no futebol – que graças ao trabalho formidável do Observatório da Discriminação Racial no Futebol fornece dados quantitativos objetivos sobre a situação no Brasil -. Isso por si só não é um problema, longe disso. Porém, esse não deve ser o único assunto a ser discutido. Os racismos enfrentados dentro de campo devem sim ser noticiados, com profundidade e responsabilidade, mas o racismo fora de campo, no setor administrativo e em cargos de liderança e comando não devem ser ignorados.

Racismo estrutural no futebol

O advogado, filósofo e professor Silvio Almeida enfatiza que o racismo estrutural pode atuar impedindo, dificultando ou excluindo pessoas negras de cargos de gerências nas estruturas organizacionais. No futebol, mesmo sendo um espaço comumente aceito e esperado para que uma pessoa no Brasil esteja inserido, assim como o samba, como destaca o historiador Joel Rufino dos Santos, existe uma barreira que impossibilita que os jogadores negros extrapolem a maioria existente dentro de campo para as posições de gestão e administração do esporte. Joel Rufino enfatiza que a sociedade branca naturalmente tem dificuldade de aceitar que pessoas negras possuam um intelecto suficiente para desempenhar funções de gerência e liderança, o que também influencia para que não exista representação negra nos cargos administrativos do futebol brasileiro.

Com a demissão de Roger Machado, do Bahia, agora entre os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, mais precisamente em outubro de 2020, não existe nenhum treinador negro que esteja a frente de uma equipe da elite do futebol brasileiro. Dentre eles, apenas Goiás e Grêmio mantêm departamentos de futebol comandados por pessoas negras. No time do centro-oeste, a diretoria está a cargo do ex-volante Túlio Lustosa. Já no time do sul, Deco Nascimento divide a posição com Alberto Guerra e Duda Kroeff. Em outros níveis administrativos, o Corinthians tem André Luiz de Oliveira, ex-vice-presidente, como diretor administrativo enquanto seu arquirrival Palmeiras conta com o ex-meia Zé Roberto como assessor técnico responsável pela integração entre categorias de base e profissional.

Na principal organização que rege o futebol brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a representatividade negra em cargos eletivos é inexistente. Não há nenhum presidente negro à frente das 27 federações vinculadas à CBF.

É fundamental analisar esses dados e fazer um paralelo com a disparidade e desigualdade do Brasil, o futebol é um elemento que vai refletir essas realidades, ele não está descolado do pano de fundo social que fundamenta a sociedade brasileira.

Fonte: EC Bahia / Divulgação

Racismo e desigualdade social

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio domiciliar per capita de pretos e pardos era de R$ 934 em 2018. No mesmo ano, os brancos ganhavam, em média, R$ 1.846 – quase o dobro. Em 2018, 3,9% da população branca era analfabeta, percentual que se eleva para 9,1% entre negros, valor mais que o dobro em relação ao primeiro. O estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, também do IBGE, aponta que em 2018, no estrato dos 10% com maior rendimento per capita, os brancos representavam 70,6%, enquanto os negros eram 27,7%. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos.

Muitos ex-jogadores negros confiam no empirismo de sua vivência de dentro de campo para assegura-lo em cargos de gestão e administração no futebol, entretanto na grande maioria das vezes isso não é suficiente para dar continuidade a sua trajetória no futebol. A necessidade de se profissionalizar e fazer cursos de capacitação em gestão acaba se tornando a única opção e esta está longe de ser uma alternativa barata. O curso de formação de treinadores da CBF, requisito para exercer a profissão, é caro. Para tirar todas licenças exigidas na elite, o investimento a ser feito é de aproximadamente R$ 50.000.00 e fazer eles não é uma garantia que o profissional negro conquistará posições de poder no futebol.

Por exemplo, o pentacampeão brasileiro Roque Júnior, que fez MBA em gestão e marketing esportivo, estágios na Europa e com Luiz Felipe Scolari, no Palmeiras e também obteve licenças do mais alto nível para poder comandar equipes brasileiras e europeias, até hoje não recebeu oportunidades de comandar cargos de gestão ou de treinador nos grandes clubes. O ex-jogador conseguiu apenas treinar o XV de Piracicaba e Ituano, clubes de menor expressão, onde existe uma maior dificuldade de ascensão. Outros exemplos, temos Lula Pereira, Andrade (campeão brasileiro com o Flamengo em 2009) e Cristóvão Borges que depois de trabalhos em clubes de elite, não conseguiram sequência e caíram no ostracismo.

A importância de trazer o debate à tona

Seja a expressão racista que diz que negros não possuem a competência para ocupar cargos de gestão e liderança no futebol, fato que é um reflexo de um país onde apenas 5% dos cargos executivos em grandes empresas são ocupados por negros, seja pelo fator social que coloca ex-jogadores e população negra como um todo vários degraus atrás quando o assunto é acúmulo de capital, necessários para a aquisição dos cursos e treinamentos da CBF, é fundamental que essa discussão ganhe força e preponderância.

O que mais vi nos últimos meses foi personagens midiáticos e colegas jornalistas apontando o dedo para os jogadores que não tinham se posicionado abertamente sobre o “Black Live Matters” ou sobre casos de racismo no futebol vivenciado por eles e por seus companheiros. Entretanto, uma das causas para a falta de tal postura ativista pode também ser um reflexo da falta de representatividade racial nos seus clubes. Qual garantia de respaldo esses atletas terão quando nem suas próprias instituições e muito menos a CBF possuem o desenvolvimento de práticas antirracistas e a abertura de espaço para a capacitação de grupos minoritários?

A branquitude ainda entende o problema como se fosse dos negros e recusa assumir quaisquer privilégios e vantagens sociais, econômicas, políticas, onde aqui surge o argumento pífio e desleal da meritocracia. Muniz Sodré reflete que a forma como a mídia e o jornalismo constrói identidades virtuais sobre o negro em suas narrativas condiciona esses grupos a estereótipos e as folclorizações. Será que ao não discutir a fundo a ausência de negros em cargos de gestão no esporte, não intencionalmente, o jornalismo esportivo não naturaliza tais questões?

O jornalismo esportivo precisa debater sobre a falta de negros em cargos de gestão e liderança no futebol.

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A era de ouro do rádio é agora

Nunca participei de uma roda de samba. Nunca tive o ouvido musical que gostaria. Nunca trabalhei em rádio. Mas o som, a música, sempre exerceram um poder de sedução sobre mim. Ouvir uma determinada canção pode me fazer chorar ou, como num toque de mágica, arrancar um sorriso do meu rosto e me remeter a um tempo que hoje só existe na memória.

Nesse momento de tantas incertezas e questionamentos sobre o que realmente importa, ganhei um rádio de presente. Não aquele pequeno aparelho transistorizado de comunicação ponto a ponto, mas um vovô-garoto, um rádio reconfigurado que, no auge do seu centenário, se apresenta expandido, capaz de transmitir em diferentes plataformas ondas de emoção jamais imaginadas. Estudar rádio com um time de especialistas  como Marcelo Kischinhevsky, Debora Cristina Lopez e Lena Benzecry fez com que, enfim, o som entrasse pra ficar na minha vida.

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Fonte: br.pinterest.com

Mas, como sou da área de comunicação e, durante um tempo trilhei um caminho na área esportiva, o estudo do rádio imediatamente me remeteu às noites passadas atrás do gol em que dividia espaço com os colegas de rádio. Eles acompanhavam as partidas sempre ávidos por um furo de reportagem e por levar ao ouvinte aquela notícia de última hora sobre o time do coração que todo apaixonado por futebol está louco pra saber.

Não posso dizer que foram noites fáceis pra mim. Como mãe de filhas na época pequenas e mulher numa seara ainda cultivada por um machismo estrutural, não podia dar bola fora, o que certamente me fazia gramar mais do que muitos dos meus colegas radialistas.

No entanto, agora, com olhar de fora e talvez mais isento, consigo observar que o jornalismo esportivo assim como todo o fazer radiofônico passou por uma metamorfose nos últimos anos. Mudaram os modos de fazer,  de circular e, também, de produzir conteúdos.

Talvez essas mudanças não sejam totalmente perceptíveis para a maior parte da audiência. Principalmente para aqueles que ouvem rádio de forma desatenta, apenas como uma trilha de som do cotidiano. No entanto, alguns ouvintes, entre eles, amantes de futebol, têm uma relação meio ritualística com o rádio. Chegam até mesmo a acompanhar a narração das partidas pelo rádio independentemente de estarem no estádio ou diante da televisão com um delay que torna impossível a sincronia perfeita entre o som do rádio e a imagem da tv. A sonoplastia, muito adotada pelo rádio, principalmente no geladão, quando os narradores transmitem a partida de seus estúdios, reforça o hábito e dá ao torcedor a sensação de não estar perdendo nenhum detalhe.

Arriscaria dizer que é mais do que isso. Trata-se de laços de afeto tecidos durante anos através de relatos e diálogos que misturam o real e a imaginação. E é exatamente aí, nesse terreno dos bens intangíveis, que futebol e rádio se encontram num casamento perfeito. Mas, como qualquer outro casamento,  também está sujeito a crises. E o pivô das últimas crises tem sido a distância.

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Fonte: Clip Gallery Word

O jornalista Whashington Rodrigues, há 18 anos líder de audiência na Rádio Tupi com o Show do Apolinho, lembra da coletiva comandada pela FLA TV após a conquista do último campeonato carioca pelo Flamengo. Assim como ele, milhões de torcedores de todo Brasil, queriam saber se Jorge Jesus permaneceria, ou não, no comando do Flamengo. O jogador convocado para coletiva foi o meia Arrascaeta e, a pergunta que não queria calar, não foi ouvida.

A exemplo do que já acontecia na Europa, os clubes brasileiros adotaram a onda da privacidade. Os treinamentos sem a presença da imprensa tem sido cada vez mais frequentes, assim como a suspensão do direito dos jornalistas de escolherem o jogador a ser entrevistado nas coletivas. A mudança não é nova mas continua gerando muita polêmica.

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Fonte: Foto enviada pelo comunicador.

“Repórter hoje é a internet. Você vai a Vargem Grande e fala de fora, não pode ver nada. Então, o repórter acaba ficando na emissora mesmo. Até 1980 repórter entrava no vestiário, ficava perto das suas fontes. Hoje não pode nem entrar em campo porque a televisão exige um produto limpo. Com isso, a cobertura está se deteriorando”, lamenta o radialista.

Mas apesar do saudosismo de alguns radialistas, definitivamente não  dá pra dizer que a era de ouro do rádio ficou lá atrás. Muito pelo contrário. A era de ouro do rádio, segundo Apolinho, é agora. Com uma penetração que em muitos mercados varia entre 75 e 90% da população acima de 12 anos, o rádio se vê diante do desafio de integrar-se rapidamente às novas tecnologias e a cultura da convergência. Isso, é claro, inclui o trabalho dos radialistas de todos os setores. Os radialistas esportivos precisam agora encontrar novas pautas para driblar as proibições dos clubes e dos detentores dos direitos de transmissão. E, mais do que isso, entender que é possível fazer jornalismo de qualidade com fontes confiáveis sem necessariamente estar in loco.

Como bem coloca Débora Cristina Lopez, é preciso repensar o rádio como um todo, compreender sua inserção nesse novo ambiente, assim como as relações estabelecidas com  o ouvinte, as fontes e as ferramentas de construção da informação.

Considerado um dos meios de comunicação mais inclusivos por ser democrático e também portátil, o rádio deve continuar acompanhando a vida dos ouvintes tanto nas cidades como nas zonas rurais, mesmo nas mais distantes. Essa tendência  pode ser potencializada com a adoção do rádio digital no Brasil. A internet, que já foi vista como uma ameaça pelas emissoras de rádio, entra em campo como uma aliada no fazer jornalístico. Ela possibilita, por exemplo, que o comunicador use as ferramentas digitais para interagir com o público e, ao mesmo tempo, fazer pesquisa de informações atualizadas. Em alguns casos, pode recorrer ao próprio banco de dados da emissora. A Rádio BandNews FM, por exemplo,  possui um banco de dados comum, que congrega o conteúdo produzido por todo o grupo Bandeirantes.

Com a disseminação das conexões em banda larga, a rádio online passou a ser uma extensão das emissoras com a vantagem do baixo custo de funcionamento. Ouvintes do Brasil e de outras partes do mundo passaram  a buscar na web rádio conteúdos variados, sonoros, ou não. O que aponta para a necessidade cada vez maior das emissoras fazerem uma escuta ativa do seu ouvinte. Afinal, a própria concorrência exige esse olhar diferenciado para a audiência.

As pesquisas de audiência se tornaram ferramentas importantes para identificar o perfil dos ouvintes e buscar saídas para lidar melhor com os atuais problemas ligados à concorrência  e ao envelhecimento da audiência. Se as emissoras de rádio e seus comunicadores souberem extrair o valor dessas pesquisas, que podem fornecer, entre outras informações relevantes, o perfil do ouvinte, o tempo que passa ouvindo determinada programação, além do lugar em que se encontra, certamente o futuro do rádio continuará promissor por mais um século e, qualquer conjectura sobre uma possível extinção motivada pelo determinismo tecnológico, terá que ser definitivamente descartada.

Referências Bibliográficas

LOPEZ, D. C. Radiojornalismo Hipermidiático: tendências e perspectivas do jornalismo de rádio all news brasileiro em um contexto de convergência tecnológica. Covilhã: Labcom Books, 2010.

KISCHINHEVSKY, M., DE MARCHI, Leonardo. Expanded radio. Rearrangements in Brazilian audio media markets. Radio, Sound & Society Journal, v. 1, n. 1, 75-89.

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Jornalista esportivo pode falar pra que time torce?

Neste mês de agosto, fez dois anos que defendi minha dissertação de mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina. A minha intenção com o trabalho era identificar de que maneiras as preferências clubísticas dos jornalistas esportivos gaúchos interferiam na cobertura da rivalidade GreNal em Porto Alegre. Embora essa questão das subjetividades na editoria esportiva já esteja bem (de)batida, fiz o exercício de reler o tópico “Jornalista esportivo pode falar pra que time torce?” da minha dissertação para tentar compreender porque alguns jornalistas que entrevistei no jornal Zero Hora foram tão hostis comigo às vésperas de eu defender o trabalho. Chegaram a me dizer, entre e-mails e ligações em tom de ameaça, que a minha irresponsabilidade na pesquisa colocaria fim à minha carreira de jornalista – que mal tinha começado, por sinal.

Hoje, dois anos após o ocorrido, já consigo falar com mais maturidade sobre o que aconteceu: em algum momento nas minhas quatrocentas páginas de dissertação, eu deixei bem claro para que time cada um dos jornalistas entrevistados torcia. Se fazer isso na imprensa esportiva do Rio de Janeiro ou de São Paulo já soaria uma afronta, imaginem no Rio Grande do Sul, onde a grenalização beira a irracionalidade. Eu, na boa fé de quem está fazendo um favor às fontes, enviei à pesquisa aos meus informantes antes de protocolar o pedido de defesa na universidade. Foi quando seis dos sete jornalistas que eu havia entrevistado em dois dias intensos de pesquisa na redação da Zero Hora, me responderam de uma forma que julguei desproporcional à situação e muito desagradável com quem estava prestes a obter sua conquista profissional mais importante até então – e que tinha trabalhado duro pra isso.

Pode ser que esses jornalistas tenham se sentido ludibriados porque cheguei na Redação querendo falar sobre a rivalidade GreNal e saí de lá sabendo o time de todo mundo, um segredo de estado no Rio Grande do Sul. E para mim uma bobagem tão grande quanto um jornalista que faz crítica de música na Rolling Stone, mas não pode ter seu top 10 de discos na estante. O professor Celso Unzelte explica melhor esse raciocínio: “como ser objetivo e imparcial (mas sem perder a paixão, jamais!) nessa que é, talvez, a mais subjetiva e passional de todas as áreas do jornalismo?” (UNZELTE, 2009, p.12). Pois é, era essa uma das perguntas que eu tentava responder na minha dissertação. Tanto é que lendo as matérias da Zero Hora logo percebi uma série de indícios clubísticos nas entrelinhas, os quais suponho que gremistas e colorados também percebessem. Tudo bem que eu estava analisando matérias e reportagens de um período ímpar na história secular de Grêmio e Inter: um deles sendo campeão na quarta e o outro sendo rebaixado no domingo. Então, naquele momento apocalíptico, até mesmo quem estava apenas de passagem por Porto Alegre vestia azul ou vermelho.

É lógico que tomar partido sendo repórter esportivo é mais complicado, vai ver por isso o único dos sete jornalistas que não questionou minha conduta – e inclusive quis ter o seu nome (e o seu time) divulgados na pesquisa – era alguém que há um tempo havia deixado o caderno de esportes. Afinal, mais do que os fundamentos do jornalismo em si, o assunto envolve questões óbvias de segurança, nem tão óbvias assim para mim naquele momento, mas que foram motivo suficiente para eu rever minha escrita e defender o trabalho sem tocar na ferida. Ainda que durante as entrevistas não tenha ficado claro um pedido de off, depois de todo esse impasse na Redação concordei com as fontes em omitir suas identidades, substituindo-as por “A” “B”, “C”, “D”, “E”, e “F” para protegê-las dos depoimentos* que transcrevo a seguir, os quais compõem a versão final do trabalho e resultaram de  muito vai-e-vem nas entrevistas até que eu chegasse direto ao ponto:

Trecho da entrevista com o jornalista C:

Thalita Neves (T.N.): Aqui na Zero Hora vocês têm essa coisa de o setorista do Grêmio ser alguém que torce pro Grêmio e do Inter alguém que torce pro Inter?

Jornalista C (J.C.): Não, não necessariamente. Eu, por exemplo, sou paulista. Eu não sou nem gaúcho.

T.N.: Bom que você escapa de qualquer tipo de julgamento…

J.C.: Não, não escapo. As redes sociais não nos perdoam. Por qualquer coisa, sério, por indício, eles apontam: “lá você falou isso, aqui você falou aquilo…”.

Trecho da entrevista com o jornalista B:

Jornalista B (J.B.): A maioria não identifica o clube pra qual torce porque sabe que isso é uma questão problemática aqui.

Thalita Neves (T.N.): Vocês recebem críticas por e-mail ou isso é mais comum nas redes sociais?

J.B.: Tá cada vez menos comum por e-mail e mais comum em redes sociais. Inclusive, com táticas, entre aspas, de descontextualizar coisas que tu escreve. […] E aí eles vão lá e esquadrinham o teu perfil do Twitter pra buscar tweets antigos pra denunciar uma suposta parcialidade.

T.N.: E pra que time você torce?

J.B.: Eu sou colorado.

T.N.: Aqui o setorista do Inter é um colorado e do Grêmio um gremista ou isso independe?

J.B.: Independe. Isso independe.

Trecho da entrevista com o jornalista F:

Thalita Neves (T.N.): Eu vejo que aqui os jornalistas não gostam de falar pra que time torcem.

Jornalista F (J.F.): Eu acho isso uma besteira, na real, tá? […] Todo mundo que nasceu no Rio Grande do Sul ou 90% das pessoas que nasceram no Rio Grande do Sul ou torcem pro Inter ou torcem pro Grêmio. Alguns torcem pro Brasil [de Pelotas], de verdade, outros torcem pra alguns times do interior… São Paulo de Rio Grande, enfim. A maior parte torce, de fato. Eu não conheço ninguém que torce pro juiz. Ninguém nasceu torcendo pro juiz. A não ser o filho do juiz que é um, dois, dez, vinte.

T.N.: E eu não conheço ninguém que entrou no jornalismo esportivo e não tem um time, né?

J.F.: Porque provavelmente o cara gosta, se não o cara ia se torturar, estando aqui todo dia falando disso. […] Eu evito falar. Mas não acho que mancharia a minha credibilidade.

T.N.: E você é colorado?

J.F.: Eu não tenho problema nenhum, eu sou sócio. Porque durante trinta anos eu não cobri o Inter. E obviamente eu gosto de ir no estádio. […] Mas eu te confesso que eu acho uma besteira assim, sabe. Se eu não tivesse essa questão da segurança eu não teria problema nenhum em dizer. Eu não acho que o meu trabalho seja comprometido por eu torcer pro Inter. Primeiro porque eu não vou mudar, não conheço ninguém que mudou de time, mesmo em bom ou mau momento.

T.N.: E aqui vocês têm essa coisa de quem torce pro Inter cobre Inter e quem torce pro Grêmio cobre Grêmio ou independe?

J.F.: Não sei, te confesso que eu não sei.

Trecho da entrevista com o jornalista A:

Jornalista A (J.A): As pessoas que aparecerem com foto minha no estádio, não tem problema, eu vou assumir. Se a pessoa me disser: “ah tu torce pra esse time”, eu vou assumir, eu não escondo.

Thalita Neves (T.N.): Então, se você for perguntado, você não vai negar?

J.A.: Se a pessoa vier com uma foto: “olha aqui, tô te vendo aqui”, tudo bem. Eu não vou sair falando que eu torço pra A ou B. Não vou. […] Mas é engraçado, pois como eu faço Inter há bastante tempo, as pessoas já acham que eu sou colorado.

T.N.: E você é colorado?

J.A.: Sim.

T.N.: Eu ia perguntar se tinha essa coisa de os setoristas cobrirem o time deles…

J.A.: Eles te disseram?

T.N.: Não. Eu supus.

J.A.: Mas não, não tem. É coincidência.

Trecho da entrevista com o jornalista E:

Jornalista E (J.E.): A seriedade é básica em qualquer setor da vida. Mas aqui, a seriedade, e aí tu junta no jornalismo a isenção, de não pender pra nenhum dos lados, né? Porque se tu fica marcado como gremista ou como colorado…

Thalita Neves (T.N.): Vai estar sujeito a mais julgamentos e até ameaças.

J.E.: É. E depois eu acho que o básico para o jornalista esportivo é estar bem informado, e saber contar a história […]. Eu tenho que fazer as pessoas entenderem aquilo que eu tô querendo dizer, e com a melhor qualidade e com o melhor padrão de texto possível. Eu acho que é mais ou menos por aí.

T.N.: E informalmente você pode me dizer se você é Grêmio ou Inter?

J.E.: Não, não posso.

T.N.: Que pena, todo mundo me disse.

J.E.: Todo mundo tem um time. Eu era colorado.

Trecho da entrevista com o jornalista D:

Thalita Neves (T.N.): Pelo o que eu vi dos setoristas aqui, o pessoal prefere ficar na defensiva pra não estar sujeito a julgamentos o tempo inteiro.

Jornalista D (J.D.): É… Entra nesse tipo de coisa que não contribui em nada pro nosso trabalho também.

T.N.: Mas informalmente você pode falar se eu te perguntar pra que time você torce?

J.D.: Posso. Eu torço pro Inter, mas eu sou muito mais crítico do que oba-oba.

T.N.: E aqui o setorista do Inter é alguém que torce pro Inter e do Grêmio alguém que torce pro Grêmio?

J.D.: Não, não. Coincidência só.

Confesso que essa coincidência me deixou intrigada, inclusive porque o único jornalista do meu corpus de análise que se negou a me conceder entrevista era exatamente o que fugia ao acaso. Este se mostrou incomodado com a minha presença na Redação desde o início. Os demais foram todos muito solícitos – pelo menos até virem o trabalho pronto. Entre as minhas fontes da editoria esportiva, apenas uma era mulher. E acho importante ressaltar que em muitos aspectos foi esta a entrevista mais enriquecedora. Cheguei a pensar que a veemência com que um dos jornalistas questionou minha conduta, dizendo que estraguei minha carreira, podia soar um tanto abusivo, afinal, talvez ele se ressentisse por ter revelado para alguém que julgasse estar num patamar inferior aquilo que não poderia jamais ser revelado. Cheguei a pensar também se alguns deles agiriam com a mesma rispidez no posterior pedido de omissão caso fosse um jornalista homem quem tivesse descoberto o que eles queriam esconder a todo custo.

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jornalismoderno.wordpress.com

Fato é que, dos seis entrevistados, partiu da jornalista mulher o argumento que me pesou a consciência por não ter protegido as identidades. Depois de ver o trabalho pronto e sem medir palavras, ela exigiu que eu omitisse seu nome da minha pesquisa porque tinha muito medo de ser violentada por simplesmente torcer para um time de futebol. Sobretudo por que somos mulheres, acatei o pedido de imediato. Repito que, durante as entrevistas, ninguém me pediu claramente para manter a informação em off – vai ver que isso já estivesse subentendido por se tratar de Grêmio e Inter ou porque em alguns casos eu, muito ingênua, perguntei em tom informal. Naquele momento, não percebi o quanto a divulgação daqueles nomes poderia ser problemática, até porque eu não estava escrevendo nenhum best-seller. As dissertações tendem a ficar restritas ao universo acadêmico. E eu realmente acho que ninguém vai atrás de pesquisa científica para descobrir time de jornalista.

Toda aquela confusão me deixou muito receosa para a defesa, que ocorreria dali duas ou três semanas. Meu orientador me confortou dizendo que era justamente essa a grande sacada da minha pesquisa. Embora saber o time dos meus informantes fosse crucial para o objetivo do meu trabalho, esse mal-entendido me fez perceber que o que estava em jogo ali eram bem mais do que as discussões sobre (im)parcialidade jornalística e sua relação com o caderno de esportes, mas sim o peso de uma rivalidade que, além de colocar pessoas em risco, se constrói sob aspectos socioculturais bastante característicos, como a suposta marginalidade do futebol gaúcho em relação ao restante do país – refletida pela marginalidade geográfica do Rio Grande do Sul – e as particularidades da história de Grêmio e Inter: dois grandes clubes, com grandes títulos, estádios próprios e os programas de sócio-torcedor mais bem-sucedidos do país, mas que, a meu ver, ainda buscam motivos para fazer páreo aos times do “eixo” e não se sentirem longe demais das capitais. Isso de os jornalistas esportivos gaúchos ostentarem que guardam a sete chaves a resposta para “qual seu time do coração” me parece apenas uma dessas facetas que às vezes me sugere um bairrismo inconsciente.

Enfim, de qualquer forma, deixei explícito na minha dissertação que o fato de os jornalistas da Zero Hora terem seus respectivos times para torcer não intervém nas matérias a ponto de comprometê-las quanto aos fundamentos jornalísticos, pelo menos não no material que analisei. Inclusive, os conteúdos analisados preservam boa parte daquilo que autores como Kovach & Rosentiel (2004) consideram os princípios básicos do jornalismo, como a obrigação com a verdade, o compromisso com a apuração e o empenho para apresentar de forma interessante o que é mais significativo na notícia – além do respeito ao off-the-record, é claro! Se eu posso tirar mais alguma lição disso tudo, acho que convém usar esse episódio para ilustrar alguma aula que eu venha a dar sobre informação em off no jornalismo, assim como faziam meus professores na Universidade Federal de Ouro Preto, exemplificando as teorias e o código de ética da profissão com suas ânsias e tropeços de início de carreira. Sobre a defesa, a banca aprovou o trabalho sem alterações e me recomendou publicá-lo. Quem sabe um dia!

 

Referências

KOVACH, Bill; ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. Trad. Wladir Dupont. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

NEVES, Thalita. Jornalismo esportivo: Jornalismo esportivo e a cobertura da rivalidade GreNal em 2016: o título do Grêmio e o rebaixamento do Inter. 431 f. Dissertação (Mestrado em Jornalismo), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.

UNZELTE, Celso. Jornalismo esportivo: relatos de uma paixão. São Paulo: Saraiva, 2009.

*Os depoimentos aqui transcritos são parte das entrevistas em profundidade realizadas pela autora na Redação da Zero Hora, em Porto Alegre, nos dias 26 e 27 de abril de 2018.