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Jornalismo esportivo precisa debater sobre a falta de negros em cargos de gestão

Novembro já bate na porta e com ele teremos um dos poucos momentos que o jornalismo volta seus olhares para as questões raciais com mais densidade de produção noticiosa e tempo e espaço para se dedicar ao tema. Influenciado pelo 20 de novembro, quando celebra-se o Dia da Consciência Negra, muito provavelmente veremos mais um ano onde os casos de racismo individuais e os relatos de profissionais que passaram por situações discriminatórias tomarão a mídia. No jornalismo esportivo, uma tendência comum é pautar o aumento de casos de suspeita de racismo no futebol – que graças ao trabalho formidável do Observatório da Discriminação Racial no Futebol fornece dados quantitativos objetivos sobre a situação no Brasil -. Isso por si só não é um problema, longe disso. Porém, esse não deve ser o único assunto a ser discutido. Os racismos enfrentados dentro de campo devem sim ser noticiados, com profundidade e responsabilidade, mas o racismo fora de campo, no setor administrativo e em cargos de liderança e comando não devem ser ignorados.

Racismo estrutural no futebol

O advogado, filósofo e professor Silvio Almeida enfatiza que o racismo estrutural pode atuar impedindo, dificultando ou excluindo pessoas negras de cargos de gerências nas estruturas organizacionais. No futebol, mesmo sendo um espaço comumente aceito e esperado para que uma pessoa no Brasil esteja inserido, assim como o samba, como destaca o historiador Joel Rufino dos Santos, existe uma barreira que impossibilita que os jogadores negros extrapolem a maioria existente dentro de campo para as posições de gestão e administração do esporte. Joel Rufino enfatiza que a sociedade branca naturalmente tem dificuldade de aceitar que pessoas negras possuam um intelecto suficiente para desempenhar funções de gerência e liderança, o que também influencia para que não exista representação negra nos cargos administrativos do futebol brasileiro.

Com a demissão de Roger Machado, do Bahia, agora entre os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, mais precisamente em outubro de 2020, não existe nenhum treinador negro que esteja a frente de uma equipe da elite do futebol brasileiro. Dentre eles, apenas Goiás e Grêmio mantêm departamentos de futebol comandados por pessoas negras. No time do centro-oeste, a diretoria está a cargo do ex-volante Túlio Lustosa. Já no time do sul, Deco Nascimento divide a posição com Alberto Guerra e Duda Kroeff. Em outros níveis administrativos, o Corinthians tem André Luiz de Oliveira, ex-vice-presidente, como diretor administrativo enquanto seu arquirrival Palmeiras conta com o ex-meia Zé Roberto como assessor técnico responsável pela integração entre categorias de base e profissional.

Na principal organização que rege o futebol brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a representatividade negra em cargos eletivos é inexistente. Não há nenhum presidente negro à frente das 27 federações vinculadas à CBF.

É fundamental analisar esses dados e fazer um paralelo com a disparidade e desigualdade do Brasil, o futebol é um elemento que vai refletir essas realidades, ele não está descolado do pano de fundo social que fundamenta a sociedade brasileira.

Fonte: EC Bahia / Divulgação

Racismo e desigualdade social

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio domiciliar per capita de pretos e pardos era de R$ 934 em 2018. No mesmo ano, os brancos ganhavam, em média, R$ 1.846 – quase o dobro. Em 2018, 3,9% da população branca era analfabeta, percentual que se eleva para 9,1% entre negros, valor mais que o dobro em relação ao primeiro. O estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, também do IBGE, aponta que em 2018, no estrato dos 10% com maior rendimento per capita, os brancos representavam 70,6%, enquanto os negros eram 27,7%. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos.

Muitos ex-jogadores negros confiam no empirismo de sua vivência de dentro de campo para assegura-lo em cargos de gestão e administração no futebol, entretanto na grande maioria das vezes isso não é suficiente para dar continuidade a sua trajetória no futebol. A necessidade de se profissionalizar e fazer cursos de capacitação em gestão acaba se tornando a única opção e esta está longe de ser uma alternativa barata. O curso de formação de treinadores da CBF, requisito para exercer a profissão, é caro. Para tirar todas licenças exigidas na elite, o investimento a ser feito é de aproximadamente R$ 50.000.00 e fazer eles não é uma garantia que o profissional negro conquistará posições de poder no futebol.

Por exemplo, o pentacampeão brasileiro Roque Júnior, que fez MBA em gestão e marketing esportivo, estágios na Europa e com Luiz Felipe Scolari, no Palmeiras e também obteve licenças do mais alto nível para poder comandar equipes brasileiras e europeias, até hoje não recebeu oportunidades de comandar cargos de gestão ou de treinador nos grandes clubes. O ex-jogador conseguiu apenas treinar o XV de Piracicaba e Ituano, clubes de menor expressão, onde existe uma maior dificuldade de ascensão. Outros exemplos, temos Lula Pereira, Andrade (campeão brasileiro com o Flamengo em 2009) e Cristóvão Borges que depois de trabalhos em clubes de elite, não conseguiram sequência e caíram no ostracismo.

A importância de trazer o debate à tona

Seja a expressão racista que diz que negros não possuem a competência para ocupar cargos de gestão e liderança no futebol, fato que é um reflexo de um país onde apenas 5% dos cargos executivos em grandes empresas são ocupados por negros, seja pelo fator social que coloca ex-jogadores e população negra como um todo vários degraus atrás quando o assunto é acúmulo de capital, necessários para a aquisição dos cursos e treinamentos da CBF, é fundamental que essa discussão ganhe força e preponderância.

O que mais vi nos últimos meses foi personagens midiáticos e colegas jornalistas apontando o dedo para os jogadores que não tinham se posicionado abertamente sobre o “Black Live Matters” ou sobre casos de racismo no futebol vivenciado por eles e por seus companheiros. Entretanto, uma das causas para a falta de tal postura ativista pode também ser um reflexo da falta de representatividade racial nos seus clubes. Qual garantia de respaldo esses atletas terão quando nem suas próprias instituições e muito menos a CBF possuem o desenvolvimento de práticas antirracistas e a abertura de espaço para a capacitação de grupos minoritários?

A branquitude ainda entende o problema como se fosse dos negros e recusa assumir quaisquer privilégios e vantagens sociais, econômicas, políticas, onde aqui surge o argumento pífio e desleal da meritocracia. Muniz Sodré reflete que a forma como a mídia e o jornalismo constrói identidades virtuais sobre o negro em suas narrativas condiciona esses grupos a estereótipos e as folclorizações. Será que ao não discutir a fundo a ausência de negros em cargos de gestão no esporte, não intencionalmente, o jornalismo esportivo não naturaliza tais questões?

O jornalismo esportivo precisa debater sobre a falta de negros em cargos de gestão e liderança no futebol.

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A era de ouro do rádio é agora

Nunca participei de uma roda de samba. Nunca tive o ouvido musical que gostaria. Nunca trabalhei em rádio. Mas o som, a música, sempre exerceram um poder de sedução sobre mim. Ouvir uma determinada canção pode me fazer chorar ou, como num toque de mágica, arrancar um sorriso do meu rosto e me remeter a um tempo que hoje só existe na memória.

Nesse momento de tantas incertezas e questionamentos sobre o que realmente importa, ganhei um rádio de presente. Não aquele pequeno aparelho transistorizado de comunicação ponto a ponto, mas um vovô-garoto, um rádio reconfigurado que, no auge do seu centenário, se apresenta expandido, capaz de transmitir em diferentes plataformas ondas de emoção jamais imaginadas. Estudar rádio com um time de especialistas  como Marcelo Kischinhevsky, Debora Cristina Lopez e Lena Benzecry fez com que, enfim, o som entrasse pra ficar na minha vida.

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Fonte: br.pinterest.com

Mas, como sou da área de comunicação e, durante um tempo trilhei um caminho na área esportiva, o estudo do rádio imediatamente me remeteu às noites passadas atrás do gol em que dividia espaço com os colegas de rádio. Eles acompanhavam as partidas sempre ávidos por um furo de reportagem e por levar ao ouvinte aquela notícia de última hora sobre o time do coração que todo apaixonado por futebol está louco pra saber.

Não posso dizer que foram noites fáceis pra mim. Como mãe de filhas na época pequenas e mulher numa seara ainda cultivada por um machismo estrutural, não podia dar bola fora, o que certamente me fazia gramar mais do que muitos dos meus colegas radialistas.

No entanto, agora, com olhar de fora e talvez mais isento, consigo observar que o jornalismo esportivo assim como todo o fazer radiofônico passou por uma metamorfose nos últimos anos. Mudaram os modos de fazer,  de circular e, também, de produzir conteúdos.

Talvez essas mudanças não sejam totalmente perceptíveis para a maior parte da audiência. Principalmente para aqueles que ouvem rádio de forma desatenta, apenas como uma trilha de som do cotidiano. No entanto, alguns ouvintes, entre eles, amantes de futebol, têm uma relação meio ritualística com o rádio. Chegam até mesmo a acompanhar a narração das partidas pelo rádio independentemente de estarem no estádio ou diante da televisão com um delay que torna impossível a sincronia perfeita entre o som do rádio e a imagem da tv. A sonoplastia, muito adotada pelo rádio, principalmente no geladão, quando os narradores transmitem a partida de seus estúdios, reforça o hábito e dá ao torcedor a sensação de não estar perdendo nenhum detalhe.

Arriscaria dizer que é mais do que isso. Trata-se de laços de afeto tecidos durante anos através de relatos e diálogos que misturam o real e a imaginação. E é exatamente aí, nesse terreno dos bens intangíveis, que futebol e rádio se encontram num casamento perfeito. Mas, como qualquer outro casamento,  também está sujeito a crises. E o pivô das últimas crises tem sido a distância.

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Fonte: Clip Gallery Word

O jornalista Whashington Rodrigues, há 18 anos líder de audiência na Rádio Tupi com o Show do Apolinho, lembra da coletiva comandada pela FLA TV após a conquista do último campeonato carioca pelo Flamengo. Assim como ele, milhões de torcedores de todo Brasil, queriam saber se Jorge Jesus permaneceria, ou não, no comando do Flamengo. O jogador convocado para coletiva foi o meia Arrascaeta e, a pergunta que não queria calar, não foi ouvida.

A exemplo do que já acontecia na Europa, os clubes brasileiros adotaram a onda da privacidade. Os treinamentos sem a presença da imprensa tem sido cada vez mais frequentes, assim como a suspensão do direito dos jornalistas de escolherem o jogador a ser entrevistado nas coletivas. A mudança não é nova mas continua gerando muita polêmica.

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Fonte: Foto enviada pelo comunicador.

“Repórter hoje é a internet. Você vai a Vargem Grande e fala de fora, não pode ver nada. Então, o repórter acaba ficando na emissora mesmo. Até 1980 repórter entrava no vestiário, ficava perto das suas fontes. Hoje não pode nem entrar em campo porque a televisão exige um produto limpo. Com isso, a cobertura está se deteriorando”, lamenta o radialista.

Mas apesar do saudosismo de alguns radialistas, definitivamente não  dá pra dizer que a era de ouro do rádio ficou lá atrás. Muito pelo contrário. A era de ouro do rádio, segundo Apolinho, é agora. Com uma penetração que em muitos mercados varia entre 75 e 90% da população acima de 12 anos, o rádio se vê diante do desafio de integrar-se rapidamente às novas tecnologias e a cultura da convergência. Isso, é claro, inclui o trabalho dos radialistas de todos os setores. Os radialistas esportivos precisam agora encontrar novas pautas para driblar as proibições dos clubes e dos detentores dos direitos de transmissão. E, mais do que isso, entender que é possível fazer jornalismo de qualidade com fontes confiáveis sem necessariamente estar in loco.

Como bem coloca Débora Cristina Lopez, é preciso repensar o rádio como um todo, compreender sua inserção nesse novo ambiente, assim como as relações estabelecidas com  o ouvinte, as fontes e as ferramentas de construção da informação.

Considerado um dos meios de comunicação mais inclusivos por ser democrático e também portátil, o rádio deve continuar acompanhando a vida dos ouvintes tanto nas cidades como nas zonas rurais, mesmo nas mais distantes. Essa tendência  pode ser potencializada com a adoção do rádio digital no Brasil. A internet, que já foi vista como uma ameaça pelas emissoras de rádio, entra em campo como uma aliada no fazer jornalístico. Ela possibilita, por exemplo, que o comunicador use as ferramentas digitais para interagir com o público e, ao mesmo tempo, fazer pesquisa de informações atualizadas. Em alguns casos, pode recorrer ao próprio banco de dados da emissora. A Rádio BandNews FM, por exemplo,  possui um banco de dados comum, que congrega o conteúdo produzido por todo o grupo Bandeirantes.

Com a disseminação das conexões em banda larga, a rádio online passou a ser uma extensão das emissoras com a vantagem do baixo custo de funcionamento. Ouvintes do Brasil e de outras partes do mundo passaram  a buscar na web rádio conteúdos variados, sonoros, ou não. O que aponta para a necessidade cada vez maior das emissoras fazerem uma escuta ativa do seu ouvinte. Afinal, a própria concorrência exige esse olhar diferenciado para a audiência.

As pesquisas de audiência se tornaram ferramentas importantes para identificar o perfil dos ouvintes e buscar saídas para lidar melhor com os atuais problemas ligados à concorrência  e ao envelhecimento da audiência. Se as emissoras de rádio e seus comunicadores souberem extrair o valor dessas pesquisas, que podem fornecer, entre outras informações relevantes, o perfil do ouvinte, o tempo que passa ouvindo determinada programação, além do lugar em que se encontra, certamente o futuro do rádio continuará promissor por mais um século e, qualquer conjectura sobre uma possível extinção motivada pelo determinismo tecnológico, terá que ser definitivamente descartada.

Referências Bibliográficas

LOPEZ, D. C. Radiojornalismo Hipermidiático: tendências e perspectivas do jornalismo de rádio all news brasileiro em um contexto de convergência tecnológica. Covilhã: Labcom Books, 2010.

KISCHINHEVSKY, M., DE MARCHI, Leonardo. Expanded radio. Rearrangements in Brazilian audio media markets. Radio, Sound & Society Journal, v. 1, n. 1, 75-89.

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Jornalista esportivo pode falar pra que time torce?

Neste mês de agosto, fez dois anos que defendi minha dissertação de mestrado na Universidade Federal de Santa Catarina. A minha intenção com o trabalho era identificar de que maneiras as preferências clubísticas dos jornalistas esportivos gaúchos interferiam na cobertura da rivalidade GreNal em Porto Alegre. Embora essa questão das subjetividades na editoria esportiva já esteja bem (de)batida, fiz o exercício de reler o tópico “Jornalista esportivo pode falar pra que time torce?” da minha dissertação para tentar compreender porque alguns jornalistas que entrevistei no jornal Zero Hora foram tão hostis comigo às vésperas de eu defender o trabalho. Chegaram a me dizer, entre e-mails e ligações em tom de ameaça, que a minha irresponsabilidade na pesquisa colocaria fim à minha carreira de jornalista – que mal tinha começado, por sinal.

Hoje, dois anos após o ocorrido, já consigo falar com mais maturidade sobre o que aconteceu: em algum momento nas minhas quatrocentas páginas de dissertação, eu deixei bem claro para que time cada um dos jornalistas entrevistados torcia. Se fazer isso na imprensa esportiva do Rio de Janeiro ou de São Paulo já soaria uma afronta, imaginem no Rio Grande do Sul, onde a grenalização beira a irracionalidade. Eu, na boa fé de quem está fazendo um favor às fontes, enviei à pesquisa aos meus informantes antes de protocolar o pedido de defesa na universidade. Foi quando seis dos sete jornalistas que eu havia entrevistado em dois dias intensos de pesquisa na redação da Zero Hora, me responderam de uma forma que julguei desproporcional à situação e muito desagradável com quem estava prestes a obter sua conquista profissional mais importante até então – e que tinha trabalhado duro pra isso.

Pode ser que esses jornalistas tenham se sentido ludibriados porque cheguei na Redação querendo falar sobre a rivalidade GreNal e saí de lá sabendo o time de todo mundo, um segredo de estado no Rio Grande do Sul. E para mim uma bobagem tão grande quanto um jornalista que faz crítica de música na Rolling Stone, mas não pode ter seu top 10 de discos na estante. O professor Celso Unzelte explica melhor esse raciocínio: “como ser objetivo e imparcial (mas sem perder a paixão, jamais!) nessa que é, talvez, a mais subjetiva e passional de todas as áreas do jornalismo?” (UNZELTE, 2009, p.12). Pois é, era essa uma das perguntas que eu tentava responder na minha dissertação. Tanto é que lendo as matérias da Zero Hora logo percebi uma série de indícios clubísticos nas entrelinhas, os quais suponho que gremistas e colorados também percebessem. Tudo bem que eu estava analisando matérias e reportagens de um período ímpar na história secular de Grêmio e Inter: um deles sendo campeão na quarta e o outro sendo rebaixado no domingo. Então, naquele momento apocalíptico, até mesmo quem estava apenas de passagem por Porto Alegre vestia azul ou vermelho.

É lógico que tomar partido sendo repórter esportivo é mais complicado, vai ver por isso o único dos sete jornalistas que não questionou minha conduta – e inclusive quis ter o seu nome (e o seu time) divulgados na pesquisa – era alguém que há um tempo havia deixado o caderno de esportes. Afinal, mais do que os fundamentos do jornalismo em si, o assunto envolve questões óbvias de segurança, nem tão óbvias assim para mim naquele momento, mas que foram motivo suficiente para eu rever minha escrita e defender o trabalho sem tocar na ferida. Ainda que durante as entrevistas não tenha ficado claro um pedido de off, depois de todo esse impasse na Redação concordei com as fontes em omitir suas identidades, substituindo-as por “A” “B”, “C”, “D”, “E”, e “F” para protegê-las dos depoimentos* que transcrevo a seguir, os quais compõem a versão final do trabalho e resultaram de  muito vai-e-vem nas entrevistas até que eu chegasse direto ao ponto:

Trecho da entrevista com o jornalista C:

Thalita Neves (T.N.): Aqui na Zero Hora vocês têm essa coisa de o setorista do Grêmio ser alguém que torce pro Grêmio e do Inter alguém que torce pro Inter?

Jornalista C (J.C.): Não, não necessariamente. Eu, por exemplo, sou paulista. Eu não sou nem gaúcho.

T.N.: Bom que você escapa de qualquer tipo de julgamento…

J.C.: Não, não escapo. As redes sociais não nos perdoam. Por qualquer coisa, sério, por indício, eles apontam: “lá você falou isso, aqui você falou aquilo…”.

Trecho da entrevista com o jornalista B:

Jornalista B (J.B.): A maioria não identifica o clube pra qual torce porque sabe que isso é uma questão problemática aqui.

Thalita Neves (T.N.): Vocês recebem críticas por e-mail ou isso é mais comum nas redes sociais?

J.B.: Tá cada vez menos comum por e-mail e mais comum em redes sociais. Inclusive, com táticas, entre aspas, de descontextualizar coisas que tu escreve. […] E aí eles vão lá e esquadrinham o teu perfil do Twitter pra buscar tweets antigos pra denunciar uma suposta parcialidade.

T.N.: E pra que time você torce?

J.B.: Eu sou colorado.

T.N.: Aqui o setorista do Inter é um colorado e do Grêmio um gremista ou isso independe?

J.B.: Independe. Isso independe.

Trecho da entrevista com o jornalista F:

Thalita Neves (T.N.): Eu vejo que aqui os jornalistas não gostam de falar pra que time torcem.

Jornalista F (J.F.): Eu acho isso uma besteira, na real, tá? […] Todo mundo que nasceu no Rio Grande do Sul ou 90% das pessoas que nasceram no Rio Grande do Sul ou torcem pro Inter ou torcem pro Grêmio. Alguns torcem pro Brasil [de Pelotas], de verdade, outros torcem pra alguns times do interior… São Paulo de Rio Grande, enfim. A maior parte torce, de fato. Eu não conheço ninguém que torce pro juiz. Ninguém nasceu torcendo pro juiz. A não ser o filho do juiz que é um, dois, dez, vinte.

T.N.: E eu não conheço ninguém que entrou no jornalismo esportivo e não tem um time, né?

J.F.: Porque provavelmente o cara gosta, se não o cara ia se torturar, estando aqui todo dia falando disso. […] Eu evito falar. Mas não acho que mancharia a minha credibilidade.

T.N.: E você é colorado?

J.F.: Eu não tenho problema nenhum, eu sou sócio. Porque durante trinta anos eu não cobri o Inter. E obviamente eu gosto de ir no estádio. […] Mas eu te confesso que eu acho uma besteira assim, sabe. Se eu não tivesse essa questão da segurança eu não teria problema nenhum em dizer. Eu não acho que o meu trabalho seja comprometido por eu torcer pro Inter. Primeiro porque eu não vou mudar, não conheço ninguém que mudou de time, mesmo em bom ou mau momento.

T.N.: E aqui vocês têm essa coisa de quem torce pro Inter cobre Inter e quem torce pro Grêmio cobre Grêmio ou independe?

J.F.: Não sei, te confesso que eu não sei.

Trecho da entrevista com o jornalista A:

Jornalista A (J.A): As pessoas que aparecerem com foto minha no estádio, não tem problema, eu vou assumir. Se a pessoa me disser: “ah tu torce pra esse time”, eu vou assumir, eu não escondo.

Thalita Neves (T.N.): Então, se você for perguntado, você não vai negar?

J.A.: Se a pessoa vier com uma foto: “olha aqui, tô te vendo aqui”, tudo bem. Eu não vou sair falando que eu torço pra A ou B. Não vou. […] Mas é engraçado, pois como eu faço Inter há bastante tempo, as pessoas já acham que eu sou colorado.

T.N.: E você é colorado?

J.A.: Sim.

T.N.: Eu ia perguntar se tinha essa coisa de os setoristas cobrirem o time deles…

J.A.: Eles te disseram?

T.N.: Não. Eu supus.

J.A.: Mas não, não tem. É coincidência.

Trecho da entrevista com o jornalista E:

Jornalista E (J.E.): A seriedade é básica em qualquer setor da vida. Mas aqui, a seriedade, e aí tu junta no jornalismo a isenção, de não pender pra nenhum dos lados, né? Porque se tu fica marcado como gremista ou como colorado…

Thalita Neves (T.N.): Vai estar sujeito a mais julgamentos e até ameaças.

J.E.: É. E depois eu acho que o básico para o jornalista esportivo é estar bem informado, e saber contar a história […]. Eu tenho que fazer as pessoas entenderem aquilo que eu tô querendo dizer, e com a melhor qualidade e com o melhor padrão de texto possível. Eu acho que é mais ou menos por aí.

T.N.: E informalmente você pode me dizer se você é Grêmio ou Inter?

J.E.: Não, não posso.

T.N.: Que pena, todo mundo me disse.

J.E.: Todo mundo tem um time. Eu era colorado.

Trecho da entrevista com o jornalista D:

Thalita Neves (T.N.): Pelo o que eu vi dos setoristas aqui, o pessoal prefere ficar na defensiva pra não estar sujeito a julgamentos o tempo inteiro.

Jornalista D (J.D.): É… Entra nesse tipo de coisa que não contribui em nada pro nosso trabalho também.

T.N.: Mas informalmente você pode falar se eu te perguntar pra que time você torce?

J.D.: Posso. Eu torço pro Inter, mas eu sou muito mais crítico do que oba-oba.

T.N.: E aqui o setorista do Inter é alguém que torce pro Inter e do Grêmio alguém que torce pro Grêmio?

J.D.: Não, não. Coincidência só.

Confesso que essa coincidência me deixou intrigada, inclusive porque o único jornalista do meu corpus de análise que se negou a me conceder entrevista era exatamente o que fugia ao acaso. Este se mostrou incomodado com a minha presença na Redação desde o início. Os demais foram todos muito solícitos – pelo menos até virem o trabalho pronto. Entre as minhas fontes da editoria esportiva, apenas uma era mulher. E acho importante ressaltar que em muitos aspectos foi esta a entrevista mais enriquecedora. Cheguei a pensar que a veemência com que um dos jornalistas questionou minha conduta, dizendo que estraguei minha carreira, podia soar um tanto abusivo, afinal, talvez ele se ressentisse por ter revelado para alguém que julgasse estar num patamar inferior aquilo que não poderia jamais ser revelado. Cheguei a pensar também se alguns deles agiriam com a mesma rispidez no posterior pedido de omissão caso fosse um jornalista homem quem tivesse descoberto o que eles queriam esconder a todo custo.

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jornalismoderno.wordpress.com

Fato é que, dos seis entrevistados, partiu da jornalista mulher o argumento que me pesou a consciência por não ter protegido as identidades. Depois de ver o trabalho pronto e sem medir palavras, ela exigiu que eu omitisse seu nome da minha pesquisa porque tinha muito medo de ser violentada por simplesmente torcer para um time de futebol. Sobretudo por que somos mulheres, acatei o pedido de imediato. Repito que, durante as entrevistas, ninguém me pediu claramente para manter a informação em off – vai ver que isso já estivesse subentendido por se tratar de Grêmio e Inter ou porque em alguns casos eu, muito ingênua, perguntei em tom informal. Naquele momento, não percebi o quanto a divulgação daqueles nomes poderia ser problemática, até porque eu não estava escrevendo nenhum best-seller. As dissertações tendem a ficar restritas ao universo acadêmico. E eu realmente acho que ninguém vai atrás de pesquisa científica para descobrir time de jornalista.

Toda aquela confusão me deixou muito receosa para a defesa, que ocorreria dali duas ou três semanas. Meu orientador me confortou dizendo que era justamente essa a grande sacada da minha pesquisa. Embora saber o time dos meus informantes fosse crucial para o objetivo do meu trabalho, esse mal-entendido me fez perceber que o que estava em jogo ali eram bem mais do que as discussões sobre (im)parcialidade jornalística e sua relação com o caderno de esportes, mas sim o peso de uma rivalidade que, além de colocar pessoas em risco, se constrói sob aspectos socioculturais bastante característicos, como a suposta marginalidade do futebol gaúcho em relação ao restante do país – refletida pela marginalidade geográfica do Rio Grande do Sul – e as particularidades da história de Grêmio e Inter: dois grandes clubes, com grandes títulos, estádios próprios e os programas de sócio-torcedor mais bem-sucedidos do país, mas que, a meu ver, ainda buscam motivos para fazer páreo aos times do “eixo” e não se sentirem longe demais das capitais. Isso de os jornalistas esportivos gaúchos ostentarem que guardam a sete chaves a resposta para “qual seu time do coração” me parece apenas uma dessas facetas que às vezes me sugere um bairrismo inconsciente.

Enfim, de qualquer forma, deixei explícito na minha dissertação que o fato de os jornalistas da Zero Hora terem seus respectivos times para torcer não intervém nas matérias a ponto de comprometê-las quanto aos fundamentos jornalísticos, pelo menos não no material que analisei. Inclusive, os conteúdos analisados preservam boa parte daquilo que autores como Kovach & Rosentiel (2004) consideram os princípios básicos do jornalismo, como a obrigação com a verdade, o compromisso com a apuração e o empenho para apresentar de forma interessante o que é mais significativo na notícia – além do respeito ao off-the-record, é claro! Se eu posso tirar mais alguma lição disso tudo, acho que convém usar esse episódio para ilustrar alguma aula que eu venha a dar sobre informação em off no jornalismo, assim como faziam meus professores na Universidade Federal de Ouro Preto, exemplificando as teorias e o código de ética da profissão com suas ânsias e tropeços de início de carreira. Sobre a defesa, a banca aprovou o trabalho sem alterações e me recomendou publicá-lo. Quem sabe um dia!

 

Referências

KOVACH, Bill; ROSENSTIEL, Tom. Os elementos do jornalismo. Trad. Wladir Dupont. São Paulo: Geração Editorial, 2004.

NEVES, Thalita. Jornalismo esportivo: Jornalismo esportivo e a cobertura da rivalidade GreNal em 2016: o título do Grêmio e o rebaixamento do Inter. 431 f. Dissertação (Mestrado em Jornalismo), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.

UNZELTE, Celso. Jornalismo esportivo: relatos de uma paixão. São Paulo: Saraiva, 2009.

*Os depoimentos aqui transcritos são parte das entrevistas em profundidade realizadas pela autora na Redação da Zero Hora, em Porto Alegre, nos dias 26 e 27 de abril de 2018.

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo sexto episódio do Passes & Impasses

Acesse o décimo sexto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo sexto episódio é “Jornalismo esportivo e covid-19”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Letícia Quadros, gravamos remotamente com o Sérgio Souto, jornalista e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e o Guilherme Oliveira, jornalista e produtor da TV Globo.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo sexto episódio do Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi  “O dia em que a Terra parou” a canção de Raul Seixas, apesar de ter sido lançada há quase 30 anos, representa exatamente o que estamos vivendo hoje.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Leticia Quadros e Carol Fontenelle

Produção: Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Leticia Quadros

Convidados: Sérgio Souto e Guilherme Oliveira.

Artigos

O jornalismo esportivo em tempos de Coronavírus

Como uma jovem jornalista em formação, apaixonada por esporte, esse novo modo de viver que nos foi imposto me fez refletir. Refletir acerca do papel do jornalista, do papel do esporte e do nosso papel enquanto pessoas. Para uma pessoa que gosta de esporte e está cursando jornalismo, essas três variáveis são quase indissociáveis. Enquanto… Continuar lendo O jornalismo esportivo em tempos de Coronavírus

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Renato e os recalcados da imprensa esportiva

Arlei Damo (2006) entende que o futebol de espetáculo se divide em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os profissionais seriam os jogadores, treinadores e preparadores envolvidos com os jogos. Os torcedores se constituem no público com variados graus de interesse e envolvimento durante as partidas. Os… Continuar lendo Renato e os recalcados da imprensa esportiva

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