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O jornalismo esportivo em tempos de Coronavírus

Como uma jovem jornalista em formação, apaixonada por esporte, esse novo modo de viver que nos foi imposto me fez refletir. Refletir acerca do papel do jornalista, do papel do esporte e do nosso papel enquanto pessoas. Para uma pessoa que gosta de esporte e está cursando jornalismo, essas três variáveis são quase indissociáveis.

Enquanto tentava entender tudo o que estava acontecendo, me senti profundamente tocada pela crônica de Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 20/03/2020, no programa “Faixa especial” do SporTV. Compartilho aqui ela na íntegra:

A rua é a casa do repórter. Quando uma crise mundial bate à porta, a mais humana das reações é não deixar ninguém entrar. Seja em tempos de guerra, seja em tempos de pandemia. No presente, aquele que ninguém jamais pediu, a batalha é contra o coronavírus. De dentro do laboratório elas mandaram avisar o mais rápido possível medidas simples, porém eficientes, para conter o avanço da doença: “evite falar com as pessoas a menos de um metro de distância”; “nada de abraços, mãos ao rosto, aperto de mão”. Basicamente, é isso que milhares de repórteres têm dito durante as últimas semanas. Claro, as paralisações de competições esportivas e países inteiros, andam em pauta. Os trágicos números de vítimas da doença do século, também. É inevitável pensar. Não ir pra rua é não ir pra casa, pois de que vale a mensagem trazida pelo repórter se ele não falou com ninguém, não viu as estações de metrô fecharem, não teve nos restaurantes sem clientes, não sentiu o estrondoso vazio dos cenários mais famosos do planeta, como num filme apocalíptico. Para alguns, em certos países como a Grã-Bretanha, como o Brasil, pisar na rua ainda é permitido. Ainda. Um alento para o repórter e uma preocupação para o ser humano que habita o mesmo corpo. Porque, realizar o ofício que a gente tanto ama, significa por os nossos maiores amores em risco. Pensando assim, estar longe do nosso país, das pessoas mais importantes da nossa vida deveria ser bom, mas não é. Longe, sozinho, a cabeça começa a trair a razão. Melhor estar perto dos nossos, tomando conta um do outro. Melhor se prevenir de um jeito solidário, com responsabilidade, conhecimento, mas um olhar terno ao próximo. Só assim ainda seremos repórteres. Ainda seremos o que um dia já fomos.

Ouvi uma, duas, três… dez vezes… Mudei o texto que originalmente publicaria no blog. Transcrevi e trouxe aqui, pois achei de extrema sensibilidade e sensatez. Fico emocionada de maneiras diferentes cada vez que ouço ou leio. Tenho acompanhado diariamente a programação do SporTV, e como eles estão se reinventando para tentar evitar o inevitável. Tentar não ficar sem assunto quando o seu assunto já não existe mais. Aquilo que talvez a gente nunca imaginasse, aconteceu. O futebol parou. O esporte parou. Já ouvi que o futebol havia parado uma guerra, que parou um país, vários países… mas nunca, nunca tinha ouvido que o futebol havia parado. Em praticamente todo o mundo, a bola já não rola mais. A famosa frase do técnico vice-campeão mundial pela seleção italiana na Copa de 94, Arrigo Sacchi, “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”, faz cada vez mais sentido. Nesse momento não há espaço para as coisas menos importantes.

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O jornalista é um flâneur – do francês: caminhante, errante, observador. Flanar sem rua é quase como a música da Adriana Calcanhoto “Fico Assim Sem Você”. A palavra agora, porém, é outra: navegar. Navegar pelas ondas da internet, trabalhar de home office, ainda que alguns jornalistas ainda sejam vistos em seu habitat natural, a fim de levar as informações para quem não pode – e não deve – sair de casa. Adaptação. Palavra que entrou no dicionário de todo mundo. De uma vez só. Quem é da rua sabe se adaptar. Quem faz reportagem ao vivo, sabe correr riscos. Quem busca informação, sabe se prevenir. Quem gosta de esporte, sabe driblar. E assim se reinventam os jornalistas esportivos. Adaptando-se, correndo riscos, prevenindo-se, e driblando – com responsabilidade (como já diria Felipe Melo) – o Covid-19.

Os noticiários dos canais de esporte e dos canais de informação se misturam. Não há escapatória. Vê-se, porém, luz no fim do túnel, nem tudo está perdido. Há notícia!! Atletas que foram infectados, esportistas que passam recados reforçando a importância de ficar em casa, como os clubes estão lidando com a quarentena e a decisão do COI – ainda que tardia – de  adiar as Olimpíadas de Tóquio 2020. Os repórteres, de casa, trazem as informações necessárias ao que restou dos programas ao vivo, que, nesse momento, se reduzem a apenas três (do que antes eram, no mínimo seis programas da grade regular do SporTV). Decisão sensata a mudança na programação. Pela questão da saúde dos funcionários, respeitando o isolamento social proposto pelo governo, mas não só por isso. A informação, que já é escassa, começa a se repetir. De noite, você ouve o que já ouviu de tarde, e o que já ouviu de dia, mas na voz de pessoas diferentes. Assim, manter a grade normal torna-se insustentável.

No ar, uma mistura de luto e desânimo, intercaladas com piadas e brincadeiras que os jornalistas, repórteres e ex-jogadores fazem entre eles. “Pra descontrair”, eles avisam. O que mais me chamou atenção, entretanto, era a fala de não só um, mas alguns jornalistas esportivos – e não só no SporTV – reafirmando aquele espaço como, praticamente, o que restou aos amantes do esporte, e de como eles se sentiam honrados em poder levar, ainda que apenas um pouco, de entretenimento para a casa das pessoas. E não é mentira. Vídeos divertidos de narrações de afazeres doméstico; análise de como cada clube estava jogando antes dessa – necessária – parada; e vídeos de profissionais de educação física mostrando alguns treinos viáveis de serem feitos em casa, foram algumas das estratégias para que o isolamento social – nome chique para “ficar em casa” – seja colorido pelo esporte, mesmo que em tons pastéis.

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Fui descobrindo, dessa maneira, novas funções que essa profissão pode ter. Nunca tinha parado para pensar em como seria ser uma jornalista esportiva em um mundo em que não há esporte. É claro, antes de ser “jornalistas esportivos”, somos “jornalistas”; se um dia o esporte acabasse para sempre – bate na madeira três vezes!! – migraríamos para outras editorias e cada um seguiria sua vida. Ela, porém, nunca mais seria a mesma. Quando perguntaram à teóloga Dorothee Sölle como ela explicaria a felicidade a uma criança, ela respondeu: “Não explicaria. Daria uma bola para ela brincar”. Seguiríamos nossas vidas sem saber mais o que é felicidade.

Por sorte o cenário não é tão desolador – no sentido de o esporte acabar para sempre. Ele há de voltar. Um dia. Esperaremos o tempo que for necessário, ficando em casa o máximo possível, lavando as mãos e passando álcool gel. Enquanto isso podemos retornar com os jogos de futebol de botão, jogos de videogame, relembrar partidas memoráveis… Se não podemos, por hora, brincar com a bola, pelo menos nós conhecemos a felicidade. E isso já é muito. Que possamos voltar a flanar o mais rápido possível pelas quatro linhas do campo, por entre os dribles dos jogadores, dentro do movimento das torcidas. Não só os jornalistas, mas todos os que amam Futebol.

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Renato e os recalcados da imprensa esportiva

Arlei Damo (2006) entende que o futebol de espetáculo se divide em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os profissionais seriam os jogadores, treinadores e preparadores envolvidos com os jogos. Os torcedores se constituem no público com variados graus de interesse e envolvimento durante as partidas. Os dirigentes poderiam ser profissionais ou amadores filiados aos clubes ou às federações. Os mediadores especializados, por sua vez, são os profissionais que trabalham na espetacularização do futebol e produzem narrativas sobre os eventos futebolísticos. Esses mediadores são responsáveis por grande parte dos espaços jornalísticos na televisão, rádios, internet e jornais impressos. Eles podem ser profissionais da comunicação ou ex-atletas e ex-dirigentes que teriam a função de ‘explicar’ os eventos para o público que, de alguma maneira, não seria ‘apto’ a lê-los sozinho, “a imprensa (falada, escrita, televisada) produz, de fato, as leituras autorizadas dos eventos que ocorrem no futebol, muitas vezes, consagrando determinadas versões” (GUEDES, 2011, p. 6). Esses mediadores, apesar de suas diferentes origens, são chamados, costumeiramente, de cronistas esportivos e são os principais atores do que se pode nomear de jornalismo esportivo ou de imprensa esportiva. “A crônica jornalística é, em essência, uma informação interpretativa e valorativa de feitos noticiosos atuais ou atualizados, em que se narra algo ao mesmo tempo que se julga o que é narrado” (MARQUES, 2014, p. 201).

Neste texto, apresentarei algumas considerações a partir de uma disputa entre o treinador e ídolo gremista Renato Portaluppi (ou Gaúcho para o restante do Brasil) e alguns jornalistas a quem o treinador classificou como recalcados.

Fonte: meiahora.ig.com.br

No início de 2020, o Grêmio repatriou Diego Souza, 13 anos após o, então, meia, hoje centroavante, se destacar na campanha do vice-campeonato da Libertadores. Além dele, Thiago Neves apontado como um dos principais responsáveis pelo inédito rebaixamento do Cruzeiro para a série B do Campeonato Brasileiro, também chegou ao tricolor gaúcho beirando os 35 anos. Mais do que a idade, o comportamento de Thiago Neves que perdeu uma penalidade no mesmo dia em que cobrou salários atrasados de um dirigente do Cruzeiro (para os que não lembram, esse dirigente teve um helicóptero suspeito aterrizando em sua propriedade há alguns anos) e foi visto em um festival no estádio Mineirão em seu dia de folga acabou ocupando protagonismo no noticiário esportivo local.

Em um programa televisivo regional, um jornalista comentou que com a chegada desses reforços, as casas noturnas da capital do Rio Grande do Sul precisariam de reforços. Outro jornalista que participava do “debate” “informou” que um amigo mineiro estava pensando em transferir seu empreendimento de entretenimento de Belo Horizonte para Porto Alegre.

Fonte: globoesporte.globo.com

No dia 29 de janeiro, em entrevista coletiva, Renato reclamou da postura de integrantes da imprensa esportiva, 1 ou 2% que seriam recalcados ao não fazerem críticas do trabalho dos profissionais, mas de suas vidas pessoais. Nas palavras do treinador: “Não tenho culpa se os caras têm uma profissão maravilhosa, se o futebol dá tudo pra eles, e esse cara de repente não venceu como jogador ou não venceu na profissão. Mas não fica atirando em quem venceu[1]”. O ídolo tricolor ainda sugeriu que os torcedores gremistas não acompanhassem o programa.

No dia seguinte, no mesmo programa, ao repercutirem a manifestação do treinador, um dos jornalistas o chamou de covarde ao não citar o nome dos prováveis recalcados. No mesmo dia, após partida pelo Campeonato Gaúcho, esse mesmo jornalista questionou o treinador sobre quem seriam os “recalcados”. Sem titubear, Renato afirmou: “um é você”. O treinador argumentou que existia uma série de desrespeitosas manifestações contra os profissionais, especialmente por não respeitarem as famílias de jogadores e do próprio treinador. Renato ainda afirmou que covardia era falar da vida privada dos jogadores na televisão sem que os mesmos estivessem ali para se defender. Ele ainda finalizou que coragem era a discussão que ele fazia com o repórter naquele momento “olho-no-olho”.

Ainda na repercussão, o diretor do programa entendia que discussões como essas seriam normais. O jornalista, nomeado por Renato como um dos recalcados, fez questão de reforçar que o próprio treinador disse que ele não tinha sido covarde por ter feito seu questionamento ao treinador. Ele ainda informou que o treinador não citou o episódio de desrespeito (aquele que citei algumas linhas acima) porque ele não existiu.

Como lembra Miquel Rodrigo Alsina “o discurso da mídia não é somente informativo, não pretende só transmitir o saber, mas também pretende fazer sentir” (2009, p. 49). Eugênio Bucci (2001) acredita que quando o jornalismo passa a emocionar mais do que informar, cria-se um problema ético, uma vez que a função do jornalismo seria justamente o de promover o debate de ideias no espaço público. O jornalismo esportivo pretende fazer sentir. Eventualmente, essa relação pode aparecer antes mesmo da transmissão da informação, de um determinado saber ou do “debate de ideias”, “não existe, no jornalismo factual, informação sobre os esportes, existe propaganda sobre o esporte, publicidade de marcas e logos, propaganda ideológica sobre suas relações de poder. Sensacionalismo e merchandising” (MESSA, 2005, p. 3). Essa característica, inclusive, poderia ser uma das explicações para a série de restrições empregadas aos jornalistas esportivos por jornalistas de outras áreas. Bueno (2005) argumenta que, apesar do espaço privilegiado na mídia, o jornalismo esportivo está afastado de uma experiência madura do “fazer jornalístico” e da excelência profissional.

Mesmo que as manifestações dos investigadores possam ser um tanto genéricas e, provavelmente, injustas com a totalidade dos profissionais e do fazer jornalismo esportivo, inclusive atravessado por certo preconceito a cobertura de temas da cultura popular, me parece que a discussão entre jornalistas e treinadores ou a acusação de que um jogador A ou B frequenta casas noturnas efetivamente pode se enquadrar em um espaço pouco nobre na construção noticiosa sobre um fenômeno esportivo ou não. Quem circula com maior ou menor intensidade no meio do futebol profissional sabe que os atletas participam de atividades noturna constantemente, curiosamente (ou nada curiosamente assim) esse fenômeno somente aparece quando as possibilidades técnicas de um jogador são colocadas em questão ou quando a equipe apresenta uma série de atuações ruins.

Talvez sejam essas práticas que autorizariam a “normalidade” de uma discussão entre um profissional do futebol e os mediadores especializados. Teriam os profissionais do futebol capacidade técnica para definir o que é um trabalho jornalístico adequado ou não? Discutir com o treinador de uma equipe importante do circuito local poderia ajudar a aumentar a audiência em um jornalismo que descreve um de seus contratados como um dos jornalistas que mais repercute. Seria esse jornalismo de “polêmicas”, “embates” e “repercussão” informativo?

Por fim, também me chamou a atenção a necessidade do jornalista chamado de recalcado por Renato de reforçar o entendimento de que não foi covarde. Apesar das diferenças apontadas por Arlei Damo que abre esse texto, me parece que o dispositivo pedagógico dos estádios de futebol e seu currículo de masculinidade (BANDEIRA, 2019) atravessam a todos os atores, mesmo que de modos distintos. A mesma covardia que ofendeu Renato poderia ofender os jornalistas. O treinador precisa armar a equipe, vencer partidas e ser corajoso. O jornalista não pode ser recalcado, ter boas fontes, informar, ganhar cliques e likes e ser corajoso. Ao menos parece fundamental não ser covarde.

 

Notas de Rodapé

[1] Disponível em: https://www.correiodopovo.com.br/esportes/gr%C3%AAmio/renato-portaluppi-critica-coment%C3%A1rios-recalcados-da-imprensa-1.396365. Acesso em 09/02/2020, às 9h48.

 

Referências

ALSINA, Miquel Rodrigo. A construção da notícia. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009.

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Uma história do torcer no presente: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol. Curitiba: Appris editora, 2019.

BUCCI, Eugênio. O vício e a virtude. In: BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 129-87.

BUENO, Wilson da Costa. Chutando pra fora: os equívocos do jornalismo esportivo brasileiro. In: MARQUES, José Carlos; CARVALHO, Sérgio; CAMARGO, Vera Regina T. (Orgs.). Comunicação e esporte-tendências. 1 ed. Santa Maria: Editora Pallotti, 2005, v. 1, p. 13-27.

DAMO, ArleiSander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, SimoniLahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

GUEDES, Simoni Lahud. Discursos autorizados e discursos rebeldes no futebol brasileiro. In: Esporte e Sociedade. Ano 6, n. 16, nov. 2010/fev. 2011, p. 1-11.

MARQUES, José Carlos. A crônica de esportes no Brasil: algumas reflexões. In: CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela. (Orgs.). Futebol objeto das ciências humanas. São Paulo: Leya, 2014, p. 185-205.

MESSA, Fábio de Carvalho. Jornalismo Esportivo não é só entretenimento. In: 8Forum Nacional de Professores de Jornalismo, 2005, Maceió/AL. 8 Forum de Professores de Jornalismo: Produção Laboratorial Impressa, 2005, p. 1-8.

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A representação midiática do CSA na Série A do Brasileiro

Tratar da representação midiática do futebol no Brasil possibilita diferentes perspectivas de comentários e análise. Mas há quase que um consenso que os principais veículos de comunicação que se propõem a ser nacionais partem de uma base do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, onde se encontram as sedes das redes nacionais de TV aberta e fechada, rádio e internet. Isso é reproduzido quando o assunto é o futebol.

Enquanto torcedor do CSA, time que teve acessos consecutivos da Série D, em 2016, até jogar a Série A em 2019, os efeitos da falta de difusão e, em alguns casos, da desinformação sobre o clube sempre me chamaram atenção. Este texto se trata mais de um ensaio sobre o que acompanhei enquanto torcedor que pesquisador – se é possível separar as coisas – da volta de um time alagoano à Série A após mais de três décadas.

Foto do autor (CSA 3-2 Jaciobá, 2020)

Campo midiático

Como Vasconcelos (2014) aponta ao estudar a formação dos torcedores mistos no Nordeste, o capital econômico foi fundamental para o desenvolvimento das forças que têm maior destaque na disputa do futebol enquanto campo social, com maior capital político sobre a organização do esporte profissional, maior difusão pela mídia (capital midiático) e maior capital simbólico (com mais títulos visibilizados e maior torcida).

Em artigo escrito com Irlan Simões (2020) para um livro do LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) a ser publicado este ano, analisamos a representação do Nordeste no Jornal dos Sports, dos anos 1940 até os anos 1970, com um dos casos estudados sendo as publicações sobre os times nordestinos no período de 1968 a 1970, quando foi realizado o Torneio Norte-Nordeste. Da observação inicial, surgiram 5 categorias: resultados de jogos; notícias sobre a parte burocrática do torneio; dificuldades de participação e comentários de dirigentes; notas curtas sobre jogos; ligação com os “grandes” do país, com ex-jogadores ou amistosos; e matérias que trazem o pitoresco (fait divers, na linguagem jornalística).

Da década de 1970 até agora, o futebol brasileiro e o nordestino, em especial, passaram por diversas fases, com destaque para a organização das divisões a partir dos anos 1990, que se consolida com a criação da Série D em 2009. O torneio regional que nos interessava naquele momento foi criado em 1994, com edições contínuas de 1997 a 2003. A Copa do Nordeste, com 7 estados nordestinos representados – menos Piauí e Maranhão, situados na região Norte na “geografia” da CBF – foi o único sucesso de público, renda e competitividade entre os regionais disputados no período, mas interrompido pela falta de êxito dos demais, especialmente o Rio-São Paulo de 2002.

Nos últimos sete anos, coincidindo com o ressurgimento da Copa do Nordeste e a sequência de boa representação nordestina na Série A (4 equipes nas edições de 2018 a 2020), passou-se a tentar fazer uma melhor cobertura, para além do pitoresco, sobre a região, mas o destaque é para o que é produzido e reverberado nas mídias alternativas, especialmente as mídias sociais e os podcasts. Ainda assim, distante da repercussão da cobertura sobre os times do eixo Rio-São Paulo, com alguns casos que reproduzem elementos do “pitoresco” (gol do Campeonato Piauiense para o “Inacreditável F.C” do Globo Esporte) ou da referência à equipe “maior” (a utilização de “time do Ceni” em muitas manchetes de noticiários esportivos para tratar do Fortaleza em 2018 e 2019).

Importante ao retratar o caso do CSA é que mesmo dentro do Nordeste a repercussão é diferente. Ao contrário do que vemos em novelas e outros produtos, o desenvolvimento social, cultural e econômico de cada local é diferente, incluindo aí as divisões dentro dos Estados, cujo domínio da capital tende a ser maior – considerando o peso de Campina Grande “contra” a capital João Pessoa, na Paraíba. Sotaques e demais representações fenotípicas são diferentes, sem uma “cara de nordestino”; do mesmo jeito que, dentro do desenvolvimento desigual e na lógica da interferência do capital econômico no futebol, na estrutura deste esporte.

Maiores PIB (Produto Interno Bruto) da região, o futebol também se desenvolve inicialmente em Bahia e Pernambuco, e os clubes desses Estados conseguiram furar o eixo do futebol para conquistar títulos nacionais de primeiro escalão, casos da Série A e da Copa do Brasil. Desta forma, mesmo nas formas de representação midiática sobre o Nordeste, as equipes de Bahia e Pernambuco, especialmente, têm maior reverberação midiática da cobertura esportiva nacional para além do pitoresco.

Foto do autor (Corinthians 1-0 CSA, 2019)

Casos jornalísticos sobre o CSA

Com o CSA da 4ª rodada da Série B até a 37ª no grupo de classificados para a Série A, sendo vice-campeão ao final, o clube começou a chamar a atenção de torcedores de outros times e da mídia nacional. Em 8 de setembro de 2018, Alex Sabino e Luiz Cosenzo (2018) publicaram na Folha de S. Paulo a reportagem “Ascensão do CSA e queda do Joinville passam por participação de mecenas”, comparando os seguidos acessos do time alagoano com o que ocorreu com a equipe catarinense que subiu à A em 2015 e caiu para a D, cheio de dívidas, em 2018. A reportagem escuta o presidente azulino Rafael Tenório, que assume que colocou dinheiro do próprio bolso nas Séries D e C, mas que o clube se sustentava a partir de então.

Na véspera do Natal daquele ano, Diogo Magri (2018) publica no El País a reportagem “CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas”. Relação política com presidente que sofreu impeachment, mas que comandou o clube do final dos anos 1970 ao início dos 1980 – o filho no início dos anos 2000 –, com o fato de Rafael Tenório, em sua primeira tentativa eleitoral, ter se tornado suplente do senador Renan Calheiros, conhecido nacionalmente.

Se o Joinville chegou até a ganhar prêmio de consultoria esportiva em 2015 por “eficiência na gestão do futebol”, como inicia a matéria da Folha, o histórico do CSA era justificado pelo “mecenas” e suas relações políticas. Essas duas reportagens destacam muito bem as expectativas de cobertura midiática com o holofote da Série A.

A eliminação na primeira fase da Copa do Brasil para o Mixto e erros de planejamento que fizeram com que o clube contratasse 46 novos jogadores em 2019, tornaram o rebaixamento à Série B como algo certo, com algumas pessoas nas mídias sociais cravando que seria a pior campanha da história dos pontos corridos – do outro time nordestino fora de Bahia, Pernambuco e Ceará a jogar o torneio neste período, o América-RN, em 2007 – e, durante o torneio, que o CSA perdera a chance de se estruturar, dada a quantidade de contratações.

Em julho de 2019, após a derrota contra o Corinthians por 1 a 0, em São Paulo, o ex-jogador Muller comentou no programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, que o CSA era “medíocre”, perguntando “o que o CSA veio fazer na Série A?”. Ele se retratou e disse que o problema foi a forma que a equipe alagoana atuou, mas serve como exemplo do que apontamos acima (ROMA; MÉLO, 2019). O CSA venceria o Corinthians na partida de volta por 2 a 1, mas com áudio do Premiere mais alto para a torcida adversária que o que se ouviu na transmissão da TV Globo.

As derrotas para o campeão Flamengo foram em jogos disputados (2 a 0 e 1 a 0). No primeiro, realizado no dia 12 de junho em Brasília, porque o CSA vendeu o mando de campo por R$ 1,5 milhão, gerou repercussão na imprensa nacional. Ainda que eu tenha sido contrário, a reação não foi a mesma que a da venda de mando por Vasco (contra o Corinthians, para Manaus, em 4 de maio) e por Botafogo (contra o Palmeiras, para Brasília, em 25 de maio). Pesava, no caso da TV fechada, a disputa entre times paulistas com o Flamengo pelo título, o que poderia interferir na tabela.

Além da melhora dentro de campo, com possibilidades matemáticas de se manter na Série A até a penúltima rodada do torneio, outro fator do capital simbólico que permeia o futebol no Brasil fez com que a opinião pública mudasse o direcionamento sobre o time: equipes “grandes” na beira do rebaixamento. De um lado, o Fluminense, que caiu em 1996, mas permaneceu na A em 1997; em 2000, graças à Copa João Havelange, não jogou a Série B; e, em 2012, graças aos erros de escalações de Portuguesa e Flamengo não foi rebaixado. Do outro, o Cruzeiro, uma das poucas equipes que não havia jogado a Série B. A torcida “anti” se juntou a uma das equipes que poderia empurrar outras. Cresceu ainda a admiração pela festa da torcida azulina no Trapichão – mesmo que já fosse algo comum até em outras divisões nacionais.

O CSA cairia, com 32 pontos, em 18º lugar, à frente de Chapecoense e Avaí, que em momento algum tiveram comentários tão negativos quanto os nossos. Pese-se o carinho à Chapecoense após o acidente de 2016, mas o clube atrasou pagamentos e o presidente precisou se afastar em agosto 2018 para focar na busca de recursos (DEBONA, 2019). Enquanto isso, em novembro, o “mecenas” do CSA anunciava que as dívidas trabalhistas do clube haviam sido pagas (PRESIDENTE, 2019).

O Centro de Treinamento Gustavo Paiva estava sendo reestruturado até abril de 2019, quando se confirmou que o bairro em que fica, o Mutange, era um dos que estavam afundando devido à extração de sal-gema pela Braskem. A “falta de oportunidade” nada mais era que a impossibilidade de investir no aprimoramento de algo que deve ser abandonado nos primeiros meses de 2020 por questões de segurança (NASCIMENTO, 2019). Isso também não foi tão comentado na mídia nacional, como o que afeta milhares de famílias de 4 bairros de Alagoas desde o primeiro semestre de 2018, talvez pela força financeira da empresa pertencente ao grupo Odebrecht.

Foto do autor (CT Gustavo Paiva, 2019)

Considerações

A desinformação é um fenômeno contemporâneo marcado pela dúvida até mesmo de fatos comprovados cientificamente, com a “verdade” voltada ainda mais aos efeitos gerados pelas mensagens e por quem a fala que à comprovação sobre o que se diz. Problema grave é quando isso vem por quem deveria prezar pelo que é apresentado.

Num ano em que o Twitter, incluindo alguns jornalistas, acusaram perseguição de canais esportivos ao Flamengo, briga dentro do eixo político, econômico e simbólico que demarca o futebol brasileiro, este ensaio mostra que havia quem deveria reclamar mais de diferentes construções narrativas formadas pela cobertura esportiva nacional.

Referências

DEBONA, Darci. NSC Total, Florianópolis, 23 ago. 2019. Disponível em: <https://www.nsctotal.com.br/noticias/presidente-da-chapecoense-pede-afastamento-temporario&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

MAGRI, Diogo. CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas. El País Brasil, São Paulo, 24 dez. 2018. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/18/deportes/1545165765_862713.html&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

NASCIMENTO, Jean. Direção do CSA anuncia saída do Mutange após 97 anos e transferência para Nelsão. Gazetaweb, Maceió, 21 nov. 2019. Disponível em: <https://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2019/11/rafael-tenorio-confirma-saida-do-centro-de-treinamentos-do-mutange-em-dezembro_91055.php&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

PRESIDENTE do CSA anuncia fim da dívida trabalhista do clube: “Quitamos 100% do passivo”. Globoesporte.com, Maceió, 14 nov. 2019. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/al/futebol/times/csa/noticia/presidente-do-csa-anuncia-fim-da-divida-trabalhista-do-clube-quitamos-100percent-do-passivo-em-quatro-anos.ghtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

ROMA, Denison; MÉLO, Victor. CSA diz que comentário de Müller sobre o clube foi preconceituoso, e ex-jogador pede perdão. Globoesporte.com, Maceió, 16 jul. 2019. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/al/futebol/times/csa/noticia/csa-diz-que-comentario-de-muller-sobre-o-clube-foi-preconceituoso-e-ex-jogador-pede-perdao.ghtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

SABINO, Alex; COSENZO, Luiz. Ascensão do CSA e queda do Joinville passam por participação de mecenas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 8 set. 2018. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/09/ascensao-do-csa-e-queda-do-joinville-passam-por-participacao-de-mecenas.shtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

SANTOS, Irlan Simões; SANTOS, Anderson David Gomes dos. A invenção do “Nordestão” e o futebol-arte: investigações a partir do Jornal dos Sports. In: HELAL, Ronaldo; MOSTARO, Felipe. Narrativas e representações do esporte na mídia: reflexões e pesquisas. Curitiba: Editora Appris, 2020. No prelo.

VASCONCELOS, Arthur Alves de. “Eu Tenho Dois Amores que em Nada São Iguais”: Bifiliação Clubística no Nordeste. Ponto Urbe – Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, v. 14, 2014.

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Ainda sobre machismo, futebol e jornalismo esportivo

No post passado, Clara Quintaneira falou – e muito bem – sobre o machismo presente no jornalismo esportivo, explicitado no caso da repórter Bruna Dealtry do Esporte Interativo que durante uma entrevista foi beijada – contra sua vontade – por um torcedor do Vasco. Corro o risco de parecer pouco criativa ou repetitiva. Mas acontece… Continuar lendo Ainda sobre machismo, futebol e jornalismo esportivo

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Machismo, futebol e jornalismo

Após o assédio contra a repórter de TV do Esporte Interativo Bruna Dealtry durante a transmissão do jogo do Vasco, na última quarta, dia 14, me senti no dever de falar sobre a posição da mulher perante o machismo no futebol e no jornalismo. Outro caso recente foi o da jornalista Renata de Medeiros, da… Continuar lendo Machismo, futebol e jornalismo

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O que o “esporte espetáculo” ignora

O americano Tommie Smith cruza a linha de chegada em alta velocidade na pista de atletismo do Estádio Universitário da Cidade do México. Em meio à euforia da torcida e ao esforço esperado de quem dá um pique de 200 metros em 19 segundos, o olhar de Smith se concentra, por um instante, em tentar… Continuar lendo O que o “esporte espetáculo” ignora

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Balanço: Seminário Mulheres Esportivas

Se durante muito tempo as propagandas contribuíram imensamente para a manutenção e reforço, recentemente algumas têm investido na quebra de estereótipos relativos ao papel da mulher no universo esportivo. Em um recente comercial de carro, ao som da música “Heroes” de David Bowie, uma menina realiza o sonho de lutar Boxe, seguindo os passos do… Continuar lendo Balanço: Seminário Mulheres Esportivas

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