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Balanço: Seminário Mulheres Esportivas

Se durante muito tempo as propagandas contribuíram imensamente para a manutenção e reforço, recentemente algumas têm investido na quebra de estereótipos relativos ao papel da mulher no universo esportivo. Em um recente comercial de carro, ao som da música “Heroes” de David Bowie, uma menina realiza o sonho de lutar Boxe, seguindo os passos do pai, Mohamed Ali. Em outra propaganda um rapaz representando um jogador da seleção brasileira entrega sua camisa a uma menininha, indicando que futebol não é coisa somente de homens, mas também é parte componente do imaginário e da vida de muitas mulheres, desde pequena.

A presença da mulher nos esportes é matéria que mereceu atenção de pesquisadores que nos últimos anos têm se debruçado sobre essa questão a partir de arcabouços teóricos diversos, vindos da Antropologia, Sociologia, História, Comunicação entre outros. E apesar de a produção ter se expandido bastante, sobretudo, no que se refere à presença das mulheres no universo do futebol, ainda há muito a ser dito, pesquisado e debatido. Em grande medida porque há muito que se conquistar em um ambiente que sempre foi um palco de exaltação de masculinidade no singular.  Isso implicou certamente no cerceamento da participação não somente da mulher, mas de masculinidades desviantes daquela considerada normativa cujo perfil era delineado a partir da das concepções de virilidade, brutalidade e violência.

A mulher, culturalmente concebida como “bela, maternal e feminina” – para fazer uso do título de um importante livro de Silvana Goelnner, demorou a poder participar de algumas práticas esportivas, sobretudo as consideradas mais brutas, como boxe e o futebol. Nos primeiros jogos Olímpicos Modernos, a participação feminina foi vetada e mesmo quando liberada, sua aceitação não foi plena como mostra o texto de Fausto Amaro, aqui publicado.[1]

Esse não reconhecimento e legitimação levaram diversos embates e um dos mais emblemáticos foi protagonizado pela atleta Alice Milliat que, em 1921, liderou a criação dos  I Jogos Femininos e da Federação Internacional Desportiva Feminina. No ano seguinte os jogos que também eram autodenominados de Olímpicos tiveram sua segunda edição sendo rebatizados de “Jogos Mundiais Femininos”. Como demonstra Katia Rubio[2] esses jogos forçaram a um acordo entre a Federação Internacional de Atletismo que se comprometeu a incluir, de modo completo, o programa de atletismo feminino proposto por Milliat.

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Legenda: Alice Milliat Fonte: Storie di Sport

No que diz respeito aos Jogos Olímpicos, a participação da mulher enquanto atleta tem aumentado, como se pode verificar no gráfico abaixo.

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Fonte: Firmino (2014, p. 18).

Porém, essa presença ainda é alvo de estranhamento, manifestações contrárias e preconceito, ainda notáveis, por exemplo, na representação midiática das atletas. Outro aspecto a ser considerado é a pouca ocupação da mulher em espaços representativos de Federações, como dirigentes esportivas, árbitras, torcedoras etc.

Além disso, em alguns esportes a presença das mulheres ainda se mostra problemática como é o caso do futebol brasileiro. O futebol feminino no Brasil ainda carece de uma estrutura esportiva que lhe sustente e dê possibilidade de atuação profissional às jogadoras. Poucos são os clubes que de fato investem na modalidade. No que se refere à seleção Brasileira, os recentes problemas envolvendo a demissão da treinadora Emly Lima, dão mostras do quão o futebol praticado por mulheres no Brasil é pouco levado a sério

Se no campo o panorama não é dos melhores, fora dele, assistimos a uma melhora, em termos quantitativos, da participação das mulheres no jornalismo esportivo. Seria muito bem-vinda uma ampliação do número de comentaristas e narradoras. Recentemente a rádio Independência se tornou a primeira a ter uma mulher narrando um jogo da série B. Isabelly Morais entrou para a história ao narrar a partida entre América-MG x ABC.  Nos EUA recentemente Beth Mowins foi a primeira a narrar uma partida da NFL em cadeia nacional. As críticas e manifestações contrárias foram muitas, algumas afirmando que se tratava de uma atividade que não podia ser ocupada por mulheres. Frases como “É horrível ver mulher narrando futebol” invadiram as redes sociais.

No Uruguai em ação de marketing promovida por uma empresa farmacêutica possibilitou que pela primeira vez uma equipe de mulheres narrasse um jogo da seleção celeste, durante as eliminatórias da Copa de 2018.

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Fonte: Blog dibradoras.

São conquistas recentes que dão mostras de que ainda há mais a ser feito e ainda é necessário debater e pesquisar a respeito da presença da mulher nos esportes. E pensando nisso, o Leme, em parceria com o PPGCOM e com o NEPPES, da UFF, organizou o Seminário Mulheres Esportivas. Mídia Memória e representação, realizado nos dias 06 e 07 de Novembro de 2017.

O Seminário reuniu pesquisadores de diversas partes do país que trabalham com temáticas variadas vinculadas à presença da mulher nos esportes em suas diversas esferas. A organização das mesas objetivou contemplar de modo panorâmico questões relativas à história das mulheres no esporte, a presença feminina nas arquibancadas e a prática do jornalismo esportivo.

A primeira mesa contou com a presença de Aira Bonfim (FGV), Mariane Pisani (USP), Pamella Lima (UERJ) e Leda Costa (UERJ). As falas foram perpassadas pela tentativa de mostrar parte do percurso das mulheres no futebol, tendo como fonte principal a representação na imprensa. As apresentações abarcaram um arco temporal que ia dos anos de 1940 até os dias atuais.

Aira Bonfim apresentou sua pesquisa, ainda em andamento, sobre alguns clubes de futebol feminino do subúrbio carioca que no ano de 1940 foram fortemente noticiadas por participarem de jogos, um dos quais realizado no Pacaembu na preliminar do jogo que inauguraria os refletores desse estádio. Aira fez um levantamento das matérias publicadas sobre essas equipes e tentará ao longo de sua pesquisa, reconstruir essas histórias indo em busca de informações a respeito de quem eram aquelas mulheres precursoras, seus clubes etc. Mariane Pisani fazendo uso de um viés antropológico nos mostrou relatos coletados entre jogadoras de futebol enfatizando o entrelaçamento das questões de gênero, raça e classe social como fatores que precisam ser considerados para, desse modo, se lançar uma perspectiva menos homogênea e mais problematizadora sobre a relação mulheres e futebol.

Leda Costa tentou mostrar que embora o papel da imprensa tenha sido problemático no que se refere a reiteração de estereótipos a respeito da participação das mulheres no futebol, é valido destacar que entre as décadas de 1970 e 1980, a imprensa teve participação importante no questionamento acerca da proibição do futebol feminino no Brasil. Esse questionamento foi tematizado nas páginas de veículos como Jornal do Brasil, O Globo e Jornal dos Sports. A discussão foi além das páginas esportivas adentrando o importante Caderno B, do Jornal do Brasil, o que é indicativo de que havia um diálogo entre a necessidade de liberação do futebol feminino com as reivindicações de igualdade de gênero da época.  Pamella Lima enfocou a representação da esposa de Suárez feita em alguns livros publicados sobre esse jogador cujas polêmicas vêm acompanhadas – e suavizadas – por declarações românticas direcionadas a mulher com quem namora desde a adolescência. Se por um lado Suárez tem sua face demoníaca criada a partir de suas constantes brigas e punições por conta de seu comportamento em campo, por outro, Suárez demonstra ser um indivíduo cujo equilíbrio e felicidade se fundam não nos milhares de dólares que ganha, mas sim em seu casamento.

No dia 07, duas mesas compuseram o Seminário. Tivemos a fala de Rosana da Câmara cujo trabalho sobre as torcidas jovens do Rio de Janeiro, ocupa lugar precursor nas pesquisas sobre o futebol. Rosana nos mostrou um pouco de seu trabalho e como se deu sua entrada no campo das torcidas organizadas, as dificuldades derivadas do fato de ser mulher e transitar em um ambiente tão marcadamente masculino. Já Gustavo Bandeira, pesquisador da UFRGS problematizou as falas de torcedores ouvidas durante pesquisa de campo no estádio do Grêmio. Nessas falas evidenciava-se, mesmo que de modo disfarçado, reações preconceituosas e ambíguas a respeito da presença da mulher no futebol. Trazendo um contexto fora do eixo Rio e São Paulo, a fala de Gustavo se mostrou muito interessante por se tratar de um pesquisador que costuma abordar os estádios como espaços em que se faz notar uma pedagogia masculina e heteronormativa. Afinal tratam-se de dois elementos diretamente vinculados a manifestações machistas que, por sua vez, sustentam os diversos problemas enfrentados por mulheres. Martin Curi fez uma apresentação demonstrando a “guerra dos sexos” presente no discurso de frequentadores de algumas mídias sociais que mobilizaram discussões em torno do desempenho das seleções femininas e masculinas de futebol, durante os Jogos Olímpicos de 2016. Por fim, contamos com a presença de Penélope Toledo, uma das líderes do Movimento Mulheres de Arquibancada que recentemente reuniu mais de 500 torcedoras no Museu do Futebol em São Paulo. As dificuldades de juntar, no mesmo local, diferentes torcedoras representantes de agrupamentos rivais e a importância dessa iniciativa são elementos que permearam a fala da convidada.

Por fim, na última mesa recebemos as jornalistas Martha Esteves e Carla Mattera que são personagens importantes da história das mulheres no jornalismo esportivo. As dificuldades e enfrentamentos por elas vividos foram narrados e compartilhados com uma plateia formada por alunos de dentro e de fora da UERJ, assim como de professores e pesquisadores da área.

É de se destacar a importância da realização desse evento na UERJ dando mostras de que essa instituição é local de produção e divulgação de conhecimento científico de excelência e aberto à participação pública. O evento mostrou-se relevante, também, por trazer à cena debates sobre um assunto atual que diz respeito à sociedade como um todo.

O Seminário foi válido para mostrar mais uma vez como o esporte pode ser veículo capaz de nos fazer refletir sobre questões que não lhes são exclusivas. Sendo assim, falar da mulher e sua presença no esporte é falar também do papel da mulher e de todos nós na sociedade.

Notas de fim

[1] As mulheres e os Jogos Olímpicos – alguns pontos para reflexão. Publicado dia 17/10/2017

[2] As identidades da atleta brasileira: os “pontos de apego temporários” da mulher na vida esportiva Disponível em : http://seer.ufrgs.br/Movimento/article/viewFile/21106/19072

Referências

Firmino, Carolina Bortoleto. “Sou atleta, sou mulher”: a representação feminina sob análise das modalidades mais noticiadas nas olimpíadas de Londres 2012. Dissertação de Conclusão (Mestrado em Comunicação Midiática) – FAAC – Unesp, sob orientação do prof. Dr. Mauro de Souza Ventura, Bauru, 2014. p. 18.

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