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O que a nova gramática do futebol nos revela sobre as escolhas desse esporte?

Reprodução: Internet

Já vai longe o tempo em que o lazaronês[1], com sua fala complicada era alvo da jocosidade do jornalismo esportivo e das torcidas. Cerca de 40 anos depois daquilo que era, majoritariamente, tratado como sinônimo de falar empolado para encobrir deficiências táticas, a nova gramática dos treinadores foi elevada ao estado da arte para explicar o futebol. E, não apenas no meio de técnicos e da boleirada, mas, também do jornalismo, antes bem menos permeável a tais retóricas esvaziadas de sentidos.

Se adotarmos um olhar mais cético e mais crítico, podemos desconfiar fortemente que, na verdade, estamos diante de uma operação discursiva que ressignifica antigas expressões futebolísticas, para que, nessa metaformose linguística, se amplifique o poder dos treinadores, e torcedores e jornalistas deixem de debater, e cobrar, a essência do que se passa em campo.

Entre neologismos ou palavras que tiveram seus significados originais reconfigurados, citamos: linha alta; linha baixa; último terço do campo; verticalizar o jogo; atacar a bola; extremo, 4-2-1-2-1… Em tempos não tão remotos, tais palavras e expressões eram facilmente compreendidas, por público e imprensa, como, respectivamente: adiantar a marcação; marcar no seu próprio campo; proximidade da área, jogar para frente; não ficar parado esperando a bola; ponta (direita ou esquerda). Já sobre a sopa de números, a aparente sofisticação da numerologia treineira pode nos dar outras pistas.

Embora o futebol seja esporte dinâmico, nem sempre traduzível ou reduzível a números, as antigas numerações davam conta de explicitar que, entre as três faixas em que se divide o campo de futebol – defesa, meio-campo e ataque – determinados times jogavam, em geral, com quatro defensores; e alguns poucos, no Brasil, recorriam a um terceiro zagueiro, somando, assim, cinco na defesa. No meio-campo, entre jogadores mais marcadores – cabeça de área, volante – e de criação – armadores – havia time que optava por três ou quatro nessa posição. Com isso, no ataque, tinha-se, respectivamente, três ou dois atacantes.

Tudo isso, teoricamente, porque, com a bola rolando, uma série de fatores imponderáveis e a dinâmica da partida é que iam definir se a rigidez tática seria mantida ou moldada pelos acontecimentos. Apesar disso, a sinalização era clara: quem jogava com quatro no meio-campo buscava fortalecer esse setor, sem, no entanto, garantias de que o desejado fosse confirmado no gramado. Já quem priorizava o ataque, optava por escalar mais um atacante, renunciando a um jogador no meio. Dentro dessas configurações táticas, abria-se uma miríade de possibilidades, a depender, em grande medida da qualidade dos escalados para cada função e da imprevisibilidade inerente a um jogo de futebol.

Um meio-campo marcador que, também, soubesse sair para o jogo, poderia, como no Brasil x Uruguai, da Copa de 1970, trocar de posição com o armador e aparecer na frente, não apenas para municiar o ataque, como para marcar um gol, como ilustrou a troca de posições entre o volante Clodoaldo e o armador Gerson, muito marcado pelos uruguaios naquela altura da partida.

Também o clube que, na prancheta do treinador, desfilava o 4-3-3, poderia deslocar um atacante, geralmente o ponta-esquerda, para compor o meio-campo quando seu time não tinha a bola. Ou ainda quem entrava com quatro no meio, quase sempre com mais marcadores do que criadores, podia liberar os laterais – em algum momento, rebatizados de alas, embora continuem a ser cobrados, centralmente, por suas funções defensivas (?) – para ajudarem a apoiar o ataque.

Mais uma vez, era a dinâmica da partida que confirmaria ou reconfiguraria as estratégias do treinador. No entanto, quando a gramática hodierna dos técnicos anuncia esquemas como 4-2-1-2-1 ou afins, tais numerologias são quase automaticamente naturalizadas pelo jornalismo esportivo como questões dadas, sem que se deem conta de contradição emblemática: por trás de uma suposta camada de modernidade, o que os técnicos estão defendendo é ser possível, em plena era da necessidade de compactação em campo, seccionar tanto o meio quanto o ataque.

Assim, se o 2-1-2 inicial significaria que, em teoria, a equipe teria dois jogadores mais próximos da área, um mais livre, em tese, e, se tiver talento, para armar o time, e dois que encostariam no solitário jogador que seria o único atacante explícito. Ora, esquemas táticos dependem da quantidade de talento dos que o executam. Então, se poderia perguntar: nessa pretensa modernidade, Iniesta, no seu tempo de Barcelona, antes e depois da dupla com Xavi, seria volante (um dos 2 à frente da zaga ou ainda o 1, se a configuração definida pelo treineiro for 4-1-3-3 ou seria armador?

Se a resposta for a primeira, como explicar a constante presença dele próximo da área adversária, inclusive, no momento em que este tinha a bola. Caso se fixe na segunda possibilidade, qual a explicação para quando, também recorrentemente, iniciava o ataque do time catalão a partir da entrada da sua área? Não seria Inieta a personificação da desconstrução da “muderna” numerologia treineira, ao mostrar que, no futebol contemporâneo, resta pouco espaço para meio-campistas que se limitem a marcar ou que, sabendo jogar, se recusem a participar da marcação? E que a principal preocupação de um treinador deve ser evitar que sua equipe atue com três setores estanques, para não conceder espaços generosos ao adversário?

Assim, ao se concentrar em números que empiricamente raramente são confirmados em campo, o jornalismo esportivo deixa de questionar se essa nova gramática não serve para encobrir visíveis inconsistências táticas dos nossos treinadores. Na nova gramática treineira ou “delírios táticos”, na expressão de Tostão, poucas sintetizam tal indigência como a popularizada “saber sofrer”. Traduzida na prática, significa que, sem opções de ataque, um time vai ficar submetido à sorte de, entre os constantes ataques do adversário, torcer para não sofrer um gol. Assim, a cada bola cruzada na área ou chute desferido de perto do goleiro, a torcida desse clube deve, entre unhas roídas e respiração acelerada, celebrar a genialidade tática do seu treinador.

Se a essa nova definição de defensivismo somar-se a celebrada “jogar por uma bola”, o jornalismo crítico não deveria vacilar, a exemplo do que fazia em tempo não tão remoto, em qualificar tal opção como “retranca”, “futebol covarde” ou “time sem opções”. No entanto, como disse Marcelo Bielsa, ao utilizar o mesmo comportamento mobilizado para amplificar o reconhecimento na vitória para condenar o comportamento na derrota, a imprensa – e não apenas a brasileira – “especializou-se em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”.

E tal comportamento não se limita à defesa do resultadismo, como criticava o treinador argentino, mas, também, serve para naturalizar uma gramática que, ironizada em momento mais brilhante do nosso futebol, passou a ser reproduzida acriticamente. Fica a provocação: a perda de qualidade levou à necessidade de colocar camadas retóricas esvaziadas de sentidos aos discursos dos treinadores ou foi o inverso? Ou será que ambos caminharam juntos?


[1] No período em que dirigiu a seleção brasileira, entre 1989 e 1990, Sebastião Lazaroni, além de anunciar o início da “era Dunga”, que substituiria o “futebol-espetáculo”, notabilizou-se por explicações como: “galgar parâmetros”; “lastro físico”, “pijama-training”  e “intenção sinergética”. Várias delas soam como primas da “treinabilidade” e do “oportunizar”, do titês, este, no entanto, idioma assumido, sem ironias, pelo jornalismo esportivo.

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Redes Sociais: desvendando o Instagram e o YouTube

Profissionais de Produto Digital do GNT conversam sobre as redes sociais do canal
Reprodução: equipe organizadora do evento

A palestra “Redes Sociais: desvendando o Instagram e o YouTube”, produzida pela equipe de Estágio Supervisionado II, em parceria com o Laboratório de Comunicação Integrada (LCI), da UERJ, acontecerá no dia 28 de outubro, quinta-feira, às 16h. Os convidados são Camila Peres e Viktor Kotkiewicz, profissionais da área de Produto Digital do GNT, da Globo.

O evento tem como objetivo ampliar os conhecimentos dos alunos da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, e demais interessados, sobre produção de conteúdo digital de grandes marcas. Métricas, processo criativo e copywriting estão entre os temas discutidos pelos convidados, que também vão falar sobre suas trajetórias profissionais e mercado de trabalho.

A transmissão será pelo Google Meet. Os participantes receberão, posteriormente ao evento, certificado e hora complementar.

Inscrições pelo Sympla

Mais informações: 

Raffaella Napoli – raffabelcastro@gmail.com | (21) 98394-2726

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O fardo de Ramírez

O jogador Ramírez. Reprodução: Internet

O racismo é uma atitude detestável.

E precisa ser combatido.

Dito isso (são as duas primeiras frases deste artigo), é importante dizer também que a luta contra o racismo não se faz com injustiças.

O atleta colombiano Juan Pablo Ramírez Velásquez (também conhecido como Índio Ramírez), do Esporte Clube Bahia, carrega um fardo de injustiça que já não devia mais estar em suas costas.

Foi acusado, em dezembro de 2020, de ter praticado racismo em uma partida contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Teria ofendido com injúria racial o jogador Gerson. Ramírez negou.

O colombiano foi afastado do time pela direção do próprio Bahia. O clube, sem demora, contratou peritos para analisar o caso. Esses peritos não encontraram nenhuma prova de que houve injúria racial. O presidente do Bahia, diante disso, reintegrou o atleta ao time. “A gente se esforçou, esforçou e não conseguiu identificar uma outra prova ou circunstância além da palavra da vítima”.

Nem os peritos contratados pelo Bahia, nem qualquer outra investigação comprovou a prática de racismo por parte de Ramírez. O STJD, então, fez o óbvio: arquivou o caso por falta de provas.

Ramírez poderia respirar aliviado. Ou não?

O fardo continua. No último dia 9 de outubro, o GE (mais especificamente, o GE São Paulo) produziu uma matéria televisiva que foi veiculada nacionalmente. O assunto era um relatório sobre casos de racismo no esporte em 2020.

A matéria de 3 minutos e 16 segundos dedicou meio minuto à denúncia contra Ramirez.

Disse a reportagem:

  • na súmula da partida, o árbitro declara que não ouviu nenhuma ofensa
  • o atleta Gerson prestou queixa e foi registrado um boletim de ocorrência, mas o Ministério Público solicitou o arquivamento do inquérito (solicitação atendida por um juiz)

Evidência contra Ramírez, além da acusação de Gerson, nenhuma.

Eis a situação: para o árbitro da partida, para os peritos contratados pelo Bahia, para o STJD, para o Ministério Público e para a Justiça comum, não se pode dizer que Ramírez praticou racismo. Para o GE, a denúncia contra Ramírez pode ser chamada (como foi) de “caso de discriminação racial no futebol”, desprezando-se a palavra “denúncia” e sem qualquer ênfase para o fato dessa denúncia não ter sido comprovada.

Por quanto tempo mais a denúncia contra Ramírez (não comprovada e judicialmente arquivada) será exposta nacionalmente em matérias recheadas de casos de racismo (esses outros, sim, documentados e comprovados)?

Por quanto tempo mais Ramírez carregará esse fardo?

GUILHERME BELLINTANI (Presidente do E. C. Bahia). Afastou Ramírez do time e o reintegrou três dias depois. Reprodução: Internet

Para completar, algumas palavras sobre o princípio da presunção de inocência.

O Esporte Clube Bahia, em nota oficial publicada horas depois da denúncia contra Ramírez, declarou que o seu atleta negava “veementemente” a acusação, mas seria afastado assim mesmo, pois “a voz da vítima” deveria ser preponderante nesses casos.

Passaram-se dez meses e ainda não se comprovou que houve um ofensor e, portanto, um ofendido (ou seja, uma “vítima”). Já o Bahia, muito apressado, chamou Gerson de “vítima” menos de seis horas depois de encerrada a partida contra o Flamengo e o fez em uma nota oficial divulgada pela internet.

Alguém poderia ter advertido o presidente do Bahia que, se Gerson já era considerado “vítima”, Ramírez já era considerado “culpado”. E poderia também, logo em seguida, lembrar-lhe que isso afrontava o princípio da presunção de inocência, consolidado ao longo de muitas décadas e à custa de muito esforço intelectual.

Talvez até alguém o tenha feito, já que o presidente decidiu reintegrar Ramírez quatro dias depois daquela famigerada partida contra o Flamengo.

Atualmente, Ramírez ainda é atleta do Bahia e disputa partidas normalmente.

Parte da imprensa (dita progressista e que adotou a bizarra tese do “a voz de quem denuncia é a voz da vítima e deve predominar desde o momento em que a denúncia é feita”) poderia seguir o exemplo do presidente do Bahia e retirar das costas de Ramírez esse fardo que não lhe cabe.

Talvez aconteça algum dia. O GE, por enquanto, ainda acha que não é o momento, apesar do que já decidiu o STJD e a Justiça comum.

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A faculdade de comunicação social da UERJ apresenta a próxima semana de comunicação – 25, 26 e 27 de outubro

Com duração de 3 dias, o evento conta com a participação de palestrantes convidados para falar sobre a saúde mental dentro das universidades.
Reprodução: Semana de Comunicação

Sucesso desde seu lançamento, a Semana de Comunicação traz inovação e novos convidados para os alunos da UERJ.

Neste ano, o assunto abordado a vida on-line, como foco na saúde mental dentro da universidade, os processos de adaptação das rotinas, muitas vezes com duas jornadas, o trabalho e os estudos. Um momento repleto de relações e encontros com o novo, de descoberta de novos caminhos sem saber para onde seguir. Como é possível em meio a isso tudo, ter um olhar para os sentimentos e entender os sinais que o corpo da.

O evento conta com a participação da Juliana Hampshire, que é psicóloga e consultora pedagógica do LIV. Mestra em Teoria Psicanalítica pela UFRJ, traçou seu percurso pela pesquisa e pela clínica, atuando em consultório particular e no SUS. Também haverá a contribuição da Naiara Ambrósio, que é Graduada em Engenharia Química pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) no ano de 2019, Naiara tem atuado nos últimos 3 anos na área de gestão e tecnologia e esteve envolvida com projetos de construção e gestão de produto digital, condução de operação M&A, redesenho de modelo de operação, transformação de processos e dimensionamento de força de trabalho. Além disso, também terá a participação dos palestrantes José Alessandro, com todo seu renome na área de Marketing educacional e o workshop do ator Claudio Cinti & muito mais!

Reprodução: Semana de Comunicação

Sobre a semana de comunicação UERJ

A Semana de Comunicação Uerj é um evento consagrado pela Faculdade de Comunicação Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que há mais de 20 anos tem proporcionado a enriquecedora troca entre alunos e profissionais já inseridos no mercado de trabalho. Ao longo das edições contou com participações e parcerias de renome como B2W, Agência Lupa, Wizard, Som Livre, o artista Hélio de La Peña e os jornalistas Fernando Molica, da CNN Brasil, e Aline Midlej, apresentadora da GloboNews.

Contato para imprensa

Turma de produção de eventos:

(21) 987857507

Ana Oliveira- olivanaoliveira@hotmail.com

(21) 964908658

Brunna Barbosa – balvesbarbosa0505@gmail.com

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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

Reprodução: Internet

Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.

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Pensar transmissões esportivas mais plurais

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É bastante recorrente que sujeitos mais associados as lógicas conservadoras em nossa sociedade reiterem a afirmação, no mínimo equivocada, de que política e esportes não se misturam. O raciocínio que sustenta este tipo de argumento é o mesmo que afirma que não se pode discutir política nas escolas ou em outras instituições que deveriam, por sua natureza, ser “apolíticas”. Todos os conceitos normativos que ordenam os entendimentos nos esportes ou na escola, por exemplo, são resultado de disputas por significação que possuem um acordo extremamente pontual e limitado que nos permitem ler os entendimentos que possuem status de senso comum. Negar a participação e a disputa política nesse espaço é um esforço para naturalizar esses acordos tirando os de seu espaço de construído politicamente para transformá-los em conceitos naturalizados.

Desde a década de 1980, talvez mais explicitamente a partir da hegemonia das democracias representativas burguesas, os movimentos de política identitária têm ganhado destaque nas formas de organização das diferentes militâncias. Nas próximas linhas pretendo problematizar algumas das formas com que essa política identitária tem aparecido nas transmissões esportivas. Como as emissoras têm utilizado algumas identidades e de que maneira a representatividade já começa a produzir efeitos nestes espaços.

Com um ano de atraso os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2020 foram realizados em Tóquio, mesmo que sem público. É lugar comum nas transmissões dos megaeventos esportivos a contratação de comentaristas especializados, quase sempre atletas ou ex-atletas, para ajudarem na transmissão esportiva, podendo estabelecer alguma informação mais qualificada de alguma modalidade ou traduzir para um público leigo ou para os jornalistas algum vocabulário específico dos praticantes. Para a transmissão dos Jogos Paralímpicos, dentro dessa perspectiva, foram convocados e convocadas paratletas e ex-paratletas que teriam essa função. Verônica Hipólito extrapolou, e muito, o que se espera desses comentaristas. A paratleta, medalhista no Rio em 2016, mostrou um conhecimento sobre os participantes e as modalidades que causaram fortíssimo constrangimento entre comentaristas consagrados que insistentemente repetem lugares comuns e indicam que uma equipe poderia melhorar seu desempenho a partir da entrada de um atleta lesionado… Minha impressão neste caso é de telespectador e me faltam elementos técnicos que atravessam as decisões das direções das emissoras, mas Verônica subiu a vara de qualidade das transmissões. É inaceitável que os demais comentaristas não estudem como ela e, o mais importante para meu argumento, é inaceitável que ela comente apenas jogos paralímpicos. Verônica foi brilhante por ter realizado um trabalho jornalístico de excelência, não por ser paratleta. Isso não é a exaltação da meritocracia, mas uma reclamação pela falta de estudo de outros profissionais com espaços midiáticos muito maiores.

Não são apenas paratletas que são chamados para comentar o paradesporto. Quando eclodem casos de racismo ou machismo, pessoas negras e mulheres são chamadas para opinar. Alguns dos especialistas convidados falam somente destes conteúdos. Isto gera um problema duplo. A partir dos processos de políticas identitárias se transformam sujeitos marcados como pertencentes as “minorias” como identitários enquanto outros não teriam identidade. Ou seja, as mulheres falariam de problemas de mulheres, mas os homens não falam dos problemas dos homens, falam da humanidade, falam de tudo. E aí aparece o segundo problema: eles falam de tudo, mas nesse tudo não se incluem violências contra essas chamadas “minorias”. Neste caso, essas violências não são um problema da humanidade, mas acabam sendo reportados como problemas identitários ou, o que seria ainda pior, problemas de identidade. O muito utilizado e pouco estudado conceito de “lugar de fala” reporta justamente essa dificuldade de quem está e de quem não está autorizado a falar sobre qual assunto.

As comentaristas mulheres no futebol jogado por homens trabalham com uma lógica inclusiva distinta. Ali elas estão autorizadas a falar sobre futebol, sem gênero. Mulheres, da mesma forma que os homens, são capazes de falar sobre qualquer assunto para os quais tenham se preparado. O mesmo vale para pessoas negras que possuem capacidade de discorrer sobre qualquer assunto para o qual estudaram e não somente para relatar suas vivências. Então não faria diferença se quem comenta é homem ou mulher, branco ou negro? Sim, segue fazendo diferença. A presença das mulheres obriga a um esforço reflexivo maior dos homens (ao menos deveria exigir). Machismo travestido em piadas começam a ser menos oportunos. Nosso chamado país do futebol por muito tempo excluiu as mulheres. Quando elas entram seja no campo, nos microfones e até na direção do futebol de mulheres da CBF (conduzidas graças a luta das mulheres no mandato de um presidente afastado por acusação de assédio sexual), inevitavelmente elas apresentam novas pautas. E isso fará o país do futebol ser mais país do futebol. Um país que exclui as mulheres não é um país. Quando muito é a metade de um país. Acredito que se tivéssemos mais mulheres ou homens não brancos em nossas transmissões esportivas ou mesas redondas, seria mais difícil ouvir ridículos argumentos que associam o mal desempenho esportivo com o esforço estético para a manutenção de um penteado afro.

É a partir da ampliação da participação de diferentes sujeitos atravessados por diferentes marcadores identitários com o aumento de representatividade que poderemos colocar a disputa política no centro dos nossos esportes e das nossas transmissões esportivas. É lugar comum (em alguns lugares de forma equivocada) entender que os esportes em geral e, no caso sul-americano, o futebol em específico, como microcosmos ou espelho da sociedade (eu sigo preferindo pensá-lo como integrado com). Ampliarmos a participação de atores e desnaturalizarmos a posição normativa dos homens cisgênero brancos, heterossexuais é ampliar a democracia. Poderia ser um catalisador para qualificarmos as discussões desses mesmos problemas em outros espaços de nossa cultura.

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Raducanu: uma campeã entre a diversidade e a exceção

Reprodução/Redes sociais

Restringir a chegada de imigrantes ao Reino Unido esteve no cerne da campanha a favor do Brexit, vitoriosa em 2016. O controle migratório foi o principal argumento daqueles que queriam se divorciar da União Europeia e que flertavam, sem pudor, com a xenofobia. Portanto, quando uma tenista nascida no Canadá, filha de mãe chinesa, de pai romeno e naturalizada britânica vence um Grand Slam, acabando com um jejum de 44 anos, o discurso do “troco” já está pronto.

Foi o que aconteceu com Emma Raducanu, que chegou ao Reino Unido aos 2 anos de idade e conquistou, duas semanas atrás, o US Open, aos 18. Desde 1977, uma representante do Reino Unido não conseguia o feito. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, não perdeu tempo. Filho de imigrantes paquistaneses, o político, provavelmente emocionado e relembrando sua própria história de vida, tuitou: “Aqui em Londres, abraçamos e celebramos nossa diversidade. E se você trabalhar duro e conseguir uma mão amiga, você pode conseguir qualquer coisa”. Quase um conto de fadas.

A pergunta, no entanto, é inevitável, por mais hipotética que seja: isso tudo aconteceria se Raducanu não fosse campeã, ou não fosse finalista?

Parece coerente supor que a repercussão seria menor. Logo, a valorização, o respeito e a aceitação do imigrante e do multiculturalismo representados por Raducanu estariam, nesse caso, mais atrelados ao sucesso do que ao que realmente importa: a diversidade em si, o ser humano. E “sucesso” como sinônimo de vencer. Nada menos do que isso.

Usar vitórias de imigrantes e de outros grupos sociais minorizados como exemplo de integração bem-sucedida pode invisibilizar questões que precisam ser debatidas.

A seleção brasileira masculina de futebol na Copa do Mundo de 1938 foi a primeira a dar protagonismo ao País nos gramados. Um time em que, pela primeira vez, negros e brancos atuaram juntos, algo visto corretamente, à época, como um avanço civilizatório. No entanto, as narrativas em torno da característica multiétnica daquela equipe acabaram por transmitir a falsa sensação da existência de igualdade racial no Brasil, o que infelizmente nunca foi alcançado até hoje. Desde então e por muito tempo, o racismo estrutural chegou a ser até negado por aqui.

O mesmo pode se dizer da seleção francesa masculina de futebol em 1998. O título mundial inédito sob o protagonismo de um descendente de argelinos parecia um ponto final nas desavenças entre brancos, negros e árabes ainda oriundas dos tempos da colonização francesa na África. Zidane, porém, não tem super poderes, e menos de dez anos depois, em 2005, uma série de protestos liderados por imigrantes e franceses descendentes de imigrantes nos subúrbios de Paris mostrou que não estava tudo bem.

É esta reflexão que deve ser feita quando Raducanu ou a seleção multiétnica francesa vencem: seus pares imigrantes e descendentes estão bem? Terão eles oportunidades para, de fato, fazerem o mesmo que Zidane e Raducanu? Ou a idolatria é apenas fruto de casos isolados e esporádicos? Refletir perante essas indagações é o primeiro passo para políticas e comportamentos que, de fato, promovam a inclusão.

Da mesma forma, até que ponto a própria tenista deseja “carregar” essa associação com a diversidade? É preciso estar atento ao que se coloca nos ombros dos atletas, ainda mais em início de carreira. Afinal, o foco deve ser na própria afirmação de Raducanu no tênis ou em qualquer causa que ela representa? Ídolos, como o heptacampeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton, se sentem muito confortáveis em debater abertamente questões sociais, mas é importante lembrar que posicionamentos dessa natureza aconteceram de forma frequente somente após o piloto ter uma carreira sólida, em que não mais precisava provar nada a ninguém. Por outro lado, Simone Biles e sua experiência nos Jogos Olímpicos de Tóquio mostram o fardo de lidar com cobranças além da performance esportiva.

Esses são dilemas para os quais nem Raducanu tenha respostas ainda. No entanto, as redes sociais da tenista são um indício. Na “Bio”, a atleta apenas colocou as cidades que fazem parte da sua história: Londres (onde vive), Toronto (onde nasceu), Bucareste (origem do pai romeno) e Shenyang (lar da mãe chinesa). Nada de “tenista”; nada de “campeã de Grand Slam”. Talvez seja “apenas” isso que Raducanu espera: ser vista e respeitada como ser humano por onde passar pelo mundo, independentemente de ter títulos ou não nas quadras.

Eventos

LEME divulga instituição beneficiada pelo Seminário “Agora é com elas”

A taxa de inscrição para o Seminário Internacional “Agora é com elas” será direcionada para a ACAFF – Academia de Futebol Feminino, um projeto social que atende mulheres e meninas em São Bernardo do Campo, São Paulo.

A iniciativa conta com mais de 300 atletas de diversas idades e cerca de 20 voluntários, dentre eles professores e profissionais de apoio. Os treinos são gratuitos e acontecem, principalmente, no Centro Esportivo Baetinha, graças à parceria com a secretaria de Esportes de São Bernardo do Campo. 

Imagem extraída do perfil no Instagram da ACAFF.

Autores com resumos expandidos aprovados devem realizar o pagamento diretamente para a instituição e enviar o comprovante para os seguintes endereços de e-mail:

acaff.oficial@gmail.com

seminariocopadomundodemulheres@gmail.com

Caso um mesmo resumo expandido seja escrito por mais de uma pessoa, todos os autores devem efetuar o pagamento da inscrição se desejarem receber certificado de participação. Cada trabalho terá até 15 minutos para ser apresentado, podendo esse tempo ser dividido entre um ou mais autores do resumo. Ao final das sessões, haverá discussão dos trabalhos entre os autores presentes na sala de reunião do Meet.

Os autores receberão certificado digital de participação.

Valores das taxas

Estudantes de graduação: R$ 10

Demais: R$20 ou mais (fica à critério dos autores)

Novo prazo de pagamento

22 de setembro a 15 de outubro

Dados bancários da ACAFF

Banco Santander

Agência 0060

C/C 130093264

CNPJ 28.805.082/0001-60 (caso deseje efetuar o pagamento por PIX, use esse número)

Mais informações sobre a instituição podem ser obtidas nos perfis do Instagram e Facebook.

Artigos

Música brasileira e esporte: uma combinação de ouro    

Há mais proximidade entre a música e o esporte do que muita gente pode imaginar. Minha hipótese é de que existe uma relação visceral entre esses dois objetos de estudo. Uma harmonia que foi percebida pelo Barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. A pedido dele, música, pintura, literatura, escultura e arquitetura foram inseridas nos Jogos como modalidades olímpicas. Isso mesmo. Entre 1912 e 1948, essas modalidades artísticas se misturavam às esportivas e valiam medalhas numa proposta de integração entre corpo, mente e intelecto. Alguns competidores eram também atletas e disputavam medalhas tanto em modalidades artísticas quanto esportivas. As Artes não tiveram longevidade nos Jogos, mas a música, com a sua onipresença e onipotência, permaneceu, ainda que não mais como modalidade competitiva. Os Jogos seguiram brindando os expectadores do maior evento esportivo do mundo com um pot-pourri de estilos musicais.

As Olimpíadas de Tóquio 2020, disputadas em 2021 por causa do coronavírus, trouxeram uma miscelânea de estilos musicais para agradar a gregos e troianos. Nas cerimônias de abertura, de encerramento e, também, durante as disputas esportivas, as múltiplas sonoridades representavam a cultura do país sede e das diversas nações a competir. Já na abertura dos Jogos, a entrada dos atletas e federações teve como pano de fundo hits populares entre os gamers, como Kingdom Hearts, Final Fantasy, Chrono Trigger e outras. Eu, que tenho uma filha fã de animes e mangás, também não poderia deixar de citar a trilha de abertura do anime de Demon Slayer, usada no encerramento dos Jogos.

Foto tirada da internet do anime Demon Slayer

O pop brasileiro, por sua vez, embalou as disputas nas arenas esportivas. O DJ austríaco Stari, admirador confesso da música brasileira, escolheu hits de Anitta, Barões da Pisadinha, Israel & Rodolfo e Pabllo Vittar para animar as disputas. O ponteiro da seleção brasileira de vôlei Douglas Souza, que viralizou nas redes sociais com as postagens olímpicas, tinha até  uma música especial quando pontuava – do album “Batidão Tropical” de Vittar – a “Zap Zum”. Outra música do cantor e drag queen brasileiro teve destaque na apresentação de Laura Zeng, da ginástica rítmica dos Estados Unidos – “Energia” é uma colaboração com o duo americano Sofi Tukker.

A música que mais representou o Brasil nessas olimpíadas, porém, foi “Baile de favela”, do MC João. Não só porque a canção veio acompanhada de duas medalhas inéditas da ginástica feminina, uma de prata e uma de ouro, conquistadas pela ginasta Rebeca Andrade, mas porque representa muito da cultura brasileira, da negritude do nosso país e, acima de tudo, da garra e criatividade verde-amarela. Nesses últimos quesitos, dá para listar pelo menos 15 pessoas que fazem parte da equipe multidisciplinar que ajudou na conquista dessas medalhas, além, é claro, do talento e concentração incríveis de Rebeca.

Gostaria de citar aqui uma pessoa em especial: o coreógrafo Rhony Ferreira. Rhony se valeu de um misto de sensibilidade e astúcia para escolher a música que “vestiu” a coreografia da medalhista. E isso foi lá atrás, durante os Jogos de 2016, no Rio.  Em um dos intervalos da ginástica, quando o DJ coloca música para distrair, “Baile de Favela” levantou a torcida.  Rhony, que na época vivia mais em Curitiba, onde o funk ainda não era moda, ficou extasiado com o ritmo e a reação do público com a música. Na mesma hora, sacou o pen drive pequenininho, que está sempre com ele num cordão, e foi até o DJ perguntar sobre a música e pedir que a colocasse no pen drive. A letra mesmo só foi conhecer há um ano e meio.

Foto do acervo pessoal de Rhony Ferreira

“O cara copiou e eu guardei na manga. Sempre que eu escuto alguma coisa diferente ou que me traz alguma emoção, eu gravo no pen drive, ponho no meu computador e deixo lá até achar alguém com uma personalidade que combine com a música. Eu precisava ter a sorte de entrar uma menina na seleção brasileira com aquelas características. Foi aí que pensei: essa música combina com a Rebeca. Ela só foi saber da música quando já estava pronta”.

A questão da música na ginástica não é tão simples quanto na dança. Ela precisa vestir e acompanhar o movimento e a acrobacia que a ginasta aprende primeiro. Além disso, tem a questão da duração. Precisa ter um minuto e meio. “Baile de Favela” repetia vários trechos, o que obrigou Rhony a escolher apenas uma pequena parte e a achar outra melodia para fazer a junção. Depois de procurar em vão por outros funks que combinassem, decidiu fazer o oposto, buscar um clássico. Ele queria mostrar para as pessoas que tinham visto Rebeca dançando uma música de Beyoncé toda melindrosa em 2016 que ela era capaz também de fazer um clássico.

Depois de muita pesquisa e algumas tentativas frustradas com músicas de orquestra, chegou à conclusão de que teria que optar por uma música de um instrumento só. Foi quando chegou em “Tocata e Fuga”, de Johann Sebastian Bach e, com a ajuda do maestro Misa Jr. e da diretora musical Angela Molteni,  com quem trabalha há muitos anos, foi fazendo os ajustes necessários.

Com Daiane dos Santos e o Brasileirinho, de Waldir Azevedo, o processo não tinha sido diferente. Era preciso cronometrar cada uma das quatro diagonais e fazer muitas idas e vindas ao maestro para os ajustes. Alguns acordes de Brasileirinho entravam nos pequenos intervalos de descanso entre uma diagonal e outra sem dar ao expectador a chance de decifrar a música, que só entrava do meio para o final da coreografia.

A música deve se adaptar à evolução da ginasta. “Baile de Favela”, por exemplo, passou por oito versões até chegar a que Rebeca apresentou nas olimpíadas. O curioso é que a atleta ainda poderia ter feito uso de uma outra versão, que estava na cartola, a depender de qual estratégia seria adotada na competição.  Na ordem do sorteio para apresentação final, Rebeca ficou em penúltimo. O treinador Francisco Porath Neto, o Chico, teve a oportunidade de assistir as apresentações das outras meninas e, a partir dos erros delas, sabia que Rebeca não precisaria arriscar.

“Claro que é o treinador que assiste e fala o que ela tem que fazer e eles entram num consenso. É uma estratégia. A coreografia não é engessada.”

Foto do acervo pessoal de Rhony Ferreira

Rhony mais uma vez sentiu um frio na barriga. Já tinha batido na trave duas vezes em finais olímpicas. De longe, só restava a ele torcer. Por causa da pandemia, apenas o treinador estava em Tóquio.

“Nós latinos temos sangue quente, a gente se emociona muito. A parte psicológica, alias, era uma grande deficiência que tínhamos. Os psicólogos têm ajudado muito, inclusive aos treinadores, que antigamente faziam muitas vezes o papel de pai, amigo, médico e psicólogo das atletas. Hoje, graças ao trabalho multidisciplinar e à ajuda deles, os treinadores também conseguem se blindar, não fraquejar diante da pressão e passar segurança para as atletas”, explica Rhony.

Foto do acervo pessoal de Rhony Ferreira

Rebeca é um exemplo da evolução conquistada no último ciclo olímpico. Na primeira olimpíada, em 2016, estava nervosa. Já em Tóquio, manteve a concentração, mas o semblante demonstrava que estava se divertindo. O resultado? Um baile de favela de raiz com repertório coreográfico para nenhum jurado botar defeito. Com um estilo próprio, a seleção brasileira conquistou um lugar entre as melhores do mundo.

Tudo indica que a música nacional também ditará o ritmo da ginástica nas olimpíadas de 2024, em Paris. A parceria musical de Rhony agora é com o produtor de Anitta e Ludmilla, em busca de mais notas e acordes em tons de bronze, prata e, principalmente, ouro.

Artigos

Práticas de incentivo ao Futebol Feminino

Sabemos que a realidade do futebol feminino brasileiro ainda não é nada acolhedora e inclusiva. Muitas são as barreiras que as mulheres driblam todos os dias para conseguirem praticar sua paixão e perseverarem no esporte. Além do preconceito, a escassez de incentivos prejudica o desenvolvimento do modo de jogar e, consequentemente, o resultado nos campeonatos e a formação de novas atletas.

O Brasil conta hoje com relativamente pouco estímulo ao futebol de mulheres, em comparação com o futebol masculino, fazendo com que a curiosidade e a atração pela modalidade acabem não sendo desenvolvidas em muitas meninas. Afinal, quem não conhece, não tem como amar. Nosso país necessita, portanto, despertar cada vez mais o interesse pelo esporte em jovens mulheres, a fim de que novas atletas sejam formadas.

Felizmente, já podemos enumerar alguns inspiradores projetos que buscam promover o esporte feminino. Aqui falamos de escolinhas profissionalizantes de meninas, como as do Flamengo, PSG e Corinthians. Conseguimos observar um pequeno, mas significativo, aumento na criação de turmas femininas em clubes renomados e em pequenos clubes periféricos. As redes sociais também são grandes aliadas, e certos perfis, como o @dribradoras e o @futdelasbr, colaboram para a promoção do interesse e da prática do esporte por mulheres.

Dentre as instituições de memória, o Museu do Futebol de São Paulo tem acervos e parte do seu projeto voltado exclusivamente para o impulsionamento do futebol feminino, trazendo visibilidade para a causa por meio de história e informação. Um bom exemplo é o podcast “Audioguia Mulheres no Futebol” e exposições sobre o tema, como “Visibilidade para o futebol feminino de 2015” e “Contra-Ataque: as mulheres do futebol de 2019”.
E é com a parceria do Museu do Futebol que vamos contar no nosso “V Seminário Internacional do LEME – Agora é com elas: 30 anos da Copa do Mundo de Futebol de Mulheres”. Juntos, LEME e Museu, vão contribuir para a disseminação do conhecimento sobre o futebol de mulheres. O evento ocorre nos dias 08 e 09 de novembro. Para acompanhar as atualizações sobre o evento, siga o LEME no Instagram e fique de olho na aba do evento aqui no blog.

E para começarmos a aquecer antes do Seminário, indicamos algumas leituras que irão te deixar por pro dentro do tema. Confira!

  • ALMEIDA, Caroline. “Boas de bola”: um estudo sobre o ser jogadora de futebol no Esporte Clube Radar durante a década de 1980. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2013.
  • BONFIM, Aira. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). Dissertação – FGV, 2019. Dissertação (mestrado) – Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas, Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais.
  • GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.19, n.2, p.143-51, abr./jun. 2005
  • SALVINI, Leila. MARCHI JÚNIOR, Wanderley Uma história do futebol feminino nas páginas da Revista Placar entre os anos de 1980-1990. Movimento. Porto Alegre, v. 19, n. 01, p. 95-115, jan/mar de 2013.
  • KESSLER, Claudia. Mulheres na área gênero, diversidade e inserções no futebol. RS: Editora da URFGS.
  • KESSLER, Claudia. COSTA, Leda; PISANI, Mariane. As mulheres no universo do futebol brasileiro. Santa Maria: Editora UFSM, 2020