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Sanções esportivas: Rússia hoje, outros antes

Contra a invasão russa na Ucrânia, impõem-se sanções. Várias. Inclusive esportivas.

Sanções esportivas não têm tanto impacto quanto sanções econômicas, claro. A escassez de recursos econômicos é muito mais grave do que a impossibilidade de disputar competições esportivas. Mas quando há o objetivo de isolar e desmoralizar um determinado país ou região, sanções esportivas internacionais podem ser decisivas, porque explicitam esse isolamento e desmoralização, ou seja, explicitam que aquele país ou região se tornou um pária para a comunidade de nações (ou está a caminho de se tornar). O caso mais lembrado, evidentemente, é o da África do Sul, que sofreu sanções de quase todas as entidades esportivas globais como reação ao seu regime de apartheid, condenado universalmente.

África Do Sul: o país que foi um pária do esporte mundial

Em 1964, a África do Sul foi impedida de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio. O mesmo aconteceu em 1968, nos Jogos Olímpicos da cidade do México. Em 1970, o país foi definitivamente expulso do COI. Uma expulsão com enorme impacto simbólico, sem dúvida. O COI, afinal, era uma das entidades mais conhecidas e respeitadas do planeta.

Já na FIFA, houve um pouco mais de dificuldade. Em 1961, a FIFA suspendeu a África do Sul pela primeira vez, mas o presidente da entidade, Stanley Rous, discordava dessa suspensão. Achava melhor buscar outra solução e reintegrou os sul-africanos em 1963. No ano seguinte, uma nova suspensão foi aprovada pela Assembleia Geral. O assunto era um foco de divergências entre os membros da FIFA. A expulsão, enfim, foi aprovada apenas em 1976, dois anos depois de João Havelange ser eleito presidente da FIFA (com amplo apoio dos representantes africanos, que exigiam aquela expulsão).

Até o fim da década de 1970, a maioria das entidades esportivas internacionais impôs punições específicas, suspensões ou expulsões à África do Sul. Envolver-se em competições com outros países passou a ser cada vez mais difícil para os sul-africanos. Em 1976, a seleção de rugby da Nova Zelândia disputou partidas na África do Sul. Em reação, vários países africanos exigiram do COI que os neozelandeses fossem expulsos das Olimpíadas daquele ano, com sede na cidade de Montreal. O COI, sustentando-se em argumentos jurídicos, não atendeu à exigência, o que provocou um grande boicote aos Jogos Olímpicos, com a adesão de 25 países africanos, acompanhados por Iraque e Guiana. Logo no ano seguinte, a comunidade britânica de nações chegou a um acordo interno que recomendava com veemência um boicote esportivo de todos os seus membros à África do Sul. Foi o chamado Acordo de Gleneagles. 

Em 1980, já havia sido atingido o objetivo de tornar a África do Sul um país-pária na comunidade esportiva mundial. Os sul-africanos participavam de poucos eventos esportivos internacionais e, quando conseguiam participar, era comum que houvesse protestos, como no ano de 1981, quando a seleção de rugby do país disputou uma série de partidas na Nova Zelândia e nos Estados Unidos. As manifestações contra essas partidas foram tamanhas que a última disputa foi realizada quase em segredo, em uma pequena cidade do Estado de Nova York, com a presença de apenas 30 torcedores. Consolidando ainda mais toda a pressão contra o regime segregacionista sul-africano, a ONU aprovou, em 1985, uma Convenção Internacional contra o Apartheid nos Esportes.

Protesto de neozelandeses contra a excursão da seleção sul-africana de rugby em 1981. Fonte: internet

Com a extinção do regime de apartheid, entre 1990 e 1994, a África do Sul passou a ser aceita em todas as entidades esportivas internacionais. Em 1992, esteve presente nas Olimpíadas de Barcelona, após 32 anos de sua última participação.

Rodésia: expulsa das Olimpíadas em votação apertada

Um caso menos conhecido é o da Rodésia na década de 1970.

Em 1965, um governo rodesiano, amparado pela minoria de origem britânica, proclamou a independência da região. Em 1970, adotou o regime republicano. A comunidade internacional, porém, não reconheceu o novo país, pois estava consolidada a ideia de dar respaldo, no continente africano, apenas a governos formados pela maioria nativa.

Mesmo sem ser reconhecida internacionalmente, a Rodésia foi admitida pelo COI nos Jogos Olímpicos de 1972, com algumas condições (entre elas, a de que participassem como um território colonial britânico e sob a antiga bandeira colonial da Rodésia do Sul). As condições foram aceitas.

Os países africanos protestaram. Alegaram que a Rodésia era um Estado ilegal, não reconhecido internacionalmente e de viés racista. Sua delegação, portanto, deveria ser expulsa dos Jogos Olímpicos. Caso contrário, haveria um boicote das nações africanas. O presidente do COI, Avery Brundage, resistiu à pressão, mas o assunto foi à votação no comitê executivo da entidade faltando apenas quatro dias para a abertura do evento. Em decisão apertada, foi aprovada a expulsão da Rodésia: 36 votos a favor, 31 contra e três abstenções. Avery Brundage se mostrou indignado: “As pressões políticas no esporte estão se tornando intoleráveis”. Para alguns dirigentes do COI, a delegação da Rodésia, formada por atletas brancos e negros, era um exemplo de bom convívio entre etnias e deveria ser protegida, não expulsa.

Avery Brundage, Presidente do COI em 1972. Fonte: internet

A expulsão da Rodésia dos Jogos Olímpicos de 1972 ajudou a isolar o país, que se dissolveu no fim daquela mesma década de 1970. Após diversas negociações diplomáticas, foi oficializada, em 1980, a República do Zimbábue, um novo Estado independente, com governo formado pela maioria nativa africana e reconhecido internacionalmente.

Naquele mesmo ano de 1980, o Zimbábue participou das Olimpíadas de Moscou. Conquistou uma medalha de ouro no hóquei sobre a grama feminino.

Iugoslávia: “geração roubada pela guerra”

Em 1992, o conflito envolvendo as repúblicas que formavam a Iugoslávia deu origem a um caso de sanção esportiva internacional que chamou muita atenção à época.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, no fim de maio, a Resolução 757, que impunha sanções ao governo iugoslavo sediado em Belgrado. Parte da resolução abordava a exclusão dos iugoslavos de competições esportivas. Estava comprometida, então, a participação da Iugoslávia na Eurocopa daquele ano, cuja sede seria a Suécia. O início da competição estava marcado para poucos dias depois de aprovada a sanção.

Os dirigentes da FIFA e da UEFA preferiam manter os iugoslavos na Eurocopa. Discordavam da interferência política em assuntos esportivos e havia uma situação relevante a considerar: apesar do técnico e de alguns atletas terem abandonado a delegação em razão do conflito militar, a seleção iugoslava continuava pluriétnica. O técnico substituto era croata e havia jogadores sérvios, montenegrinos, eslovenos e bósnios. Aquela equipe podia ser considerada um símbolo de tolerância e convívio, ao contrário dos ódios que moviam o conflito na Iugoslávia. 

Seleção da Iugoslávia (1992). Fonte: internet

Apesar das preferências dos dirigentes, a resolução do Conselho de Segurança da ONU não podia ser ignorada. A delegação iugoslava, que já estava hospedada na Suécia, foi excluída da Eurocopa. Os jogadores e a comissão técnica, após receberem a notícia, se prepararam para deixar o país, mas encontraram dificuldades, já que o tráfego aéreo rumo a Belgrado estava proibido, em razão do isolamento político e diplomático da Iugoslávia. Depois de algum esforço de negociação, puderam viajar, sentindo-se injustiçados e um tanto humilhados. A seleção da Dinamarca foi convocada às pressas para substituir o time excluído.

Foi convocada às pressas e surpreendeu. Terminou campeã, vencendo a Alemanha na final por 2 a 0.

A sanção esportiva contra a Iugoslávia permaneceu em vigor até abril de 1996. Foi considerada pela comunidade internacional uma sanção legítima, tendo em vista as atrocidades que chocaram o mundo durante o conflito entre as repúblicas iugoslavas. Mas também sofreu críticas. Os defensores da separação entre política e esporte ficaram extremamente contrariados nesse caso. Os atletas que foram impedidos de jogar pela Iugoslávia em 1992 reclamaram amargamente nos anos seguintes. Considerado um time de grande qualidade, com chance de entrar para a história do futebol mundial, já foram chamados de “geração roubada pela guerra”.

Em 1998, com a seleção da Iugoslávia classificada para a Copa do Mundo da França, novas sanções esportivas foram exigidas por parte da opinião pública europeia. O motivo para essas novas sanções seria o conflito do Kosovo. Dessa vez, porém, os iugoslavos foram mantidos na competição. Chegaram às oitavas-de-final e terminaram em décimo lugar.

Rússia: o novo pária do esporte internacional

A invasão russa à Ucrânia teve início em fevereiro. Rapidamente, foram impostas sanções esportivas. O COI proibiu a participação da Rússia em suas competições. Atletas e equipes russos ainda poderão ser admitidos, mas como participantes individuais, não como representantes do seu país. Diversas outras entidades esportivas internacionais aprovaram suas próprias sanções: ginástica, ciclismo, tênis, atletismo, judô, automobilismo e outras.

A FIFA impôs sanções severas. Nas Eliminatórias da Europa para a Copa do Mundo de 2022 (Catar), a seleção da Rússia estava classificada para a fase de repescagem. Seu adversário seria a Polônia. A partida, porém, foi cancelada e a Rússia foi sumariamente desclassificada. A seleção feminina também foi excluída de todas as competições, assim como todos os clubes de futebol do país.

O esporte russo, em cerca de dois meses, foi reduzido à situação de pária internacional.

As sanções estão em sintonia com o clamor antirrusso que se ergueu poderosamente na comunidade internacional depois de iniciada a invasão. Mas também há críticas e questionamentos. Alguns comentaristas perguntam por que outros países, que também se envolvem em conflitos armados e desrespeitam violentamente os direitos humanos, não sofrem sanções semelhantes. A Arábia Saudita e o Irã, por exemplo, estão envolvidos (inclusive militarmente) na guerra civil do Iêmen, que atormenta a população local há oito anos. Há denúncias graves de crimes de guerra. As seleções saudita e iraniana estão classificadas para a Copa do Mundo do Catar e, evidentemente, participarão sem qualquer objeção por parte da FIFA. Outros questionam a sustentação legal para se impor sanções a entidades esportivas russas que não tiveram absolutamente nenhuma responsabilidade pela decisão de invadir a Ucrânia. Os dirigentes esportivos russos pretendem levar esse questionamento à Corte Arbitral do Esporte.

Separar o esporte da política é uma atitude pluralista, pois se baseia na ideia de que a comunidade esportiva deve acolher atletas de todas as convicções (e também de todos os países, independentemente da ideologia ou do sistema político que os regem). Mas quando a realidade se agita, as tensões se aguçam e surge uma onda de indignação, esse pluralismo pode recuar (e dizem alguns que se trata de um recuo muito justo e sadio). As autoridades esportivas da Rússia continuarão defendendo a louvável separação entre esporte e política, mas já perceberam o tamanho do recuo que os colocou em posição de isolamento quase total. E sabem que enquanto houver invasão, esse recuo não muda. Talvez piore.

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“Nível Europa”

Semana passada uma discussão tomou conta das redes sociais e dos debates nas mesas redondas esportivas. A declaração do atacante do Flamengo Gabriel Barbosa após o empate contra o Palmeiras, em jogo adiantado pela quarta rodada do Campeonato Brasileiro, falando que precisamos de uma arbitragem “nível Europa” provocou reflexões sobre a qualidade do jogo e de todos os atores envolvidos.

“ A gente fez um bom jogo, acho que fomos melhores em todos os momentos. Eles não nos assustaram em nenhum lance. Tivemos um gol impedido, perdemos outras chances, mas creio que fizemos um bom jogo. O juiz atrapalhou muito. A gente fala muito que quer um futebol nível europeu, mas o árbitro também precisa ser nível Europa. Escolheram uma pessoa que não deixava a bola rolar, toda hora parou o jogo”.

Foto: Delmiro Junior

Há aqueles que questionaram se também não precisamos de jogadores nível Europa. Outros concordaram com o atacante. Alguns ficaram em cima do muro e, no fim, sobrou até para imprensa com torcedores pedindo “jornalistas nível Europa”.  

Estendendo o debate poderíamos dizer que precisamos de gramados nível Europa, VAR nível Europa, treinadores nível Europa, torcedores nível Europa, e assim chegaríamos à conclusão de que é mais fácil ligar a televisão e assistir a uma partida europeia. 

Lá trás, Nelson Rodrigues já alertava para o nosso complexo de vira-latas. A frase já é batida, um clichezão e às vezes até um pouco cafona, já que é usada nos mais variados contextos. Esse poderia ser mais um, e, talvez para a sua decepção, ou costume, meio que é.  

Mais do que almejar esse padrão, porém, é preciso entender o que faz o “nível Europeu” ser “nível Europeu”. Logo o Brasil, pátria das chuteiras (ou agora ex?), tendo que buscar lá, o que nós ensinamos daqui, dentro das quatro linhas do gramado. Precisando olhar para fora, para enxergar problemas extra-campo que dizem respeito da nossa sociedade, muito mais do que sobre o nosso futebol. 

Nós queremos ser como eles?

Que fase! Como diria Milton Leite. Que fique claro, eu não acho que está tudo bem com o futebol brasileiro, nem que o nível da arbitragem seja excepcional. Estamos vivendo um futebol precário, em todos os sentidos. Banalização da violência, qualidade baixíssima da arbitragem, maus exemplos em campo, desrespeito a jornalistas, respostas evasivas de quem deveria dar uma satisfação ao torcedor.  

É necessário, com ou sem nível europeu, tratar o esporte de forma séria, em sua totalidade. Regulamentar a profissão de árbitro, oferecer punições justas em caso de infrações, coibir todos e quaisquer tipos de violência, inclusive aquelas que não contém agressão física, afinal, considerar apenas um tapa como violência abre perigosos precedentes.  

Para quem defende essa tese, um lembrete, transferir responsabilidades, ao invés de assumi-las não é “nível Europa”. 

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Atlético de Alagoinha: o bicampeão improvável e o seu polêmico presidente

Vem da Bahia uma das histórias mais surpreendentes do futebol brasileiro atual. Mais especificamente, de uma cidade chamada Alagoinhas.

O Atlético de Alagoinhas (cujo nome oficial é Alagoinhas Atlético Clube) foi fundado como clube profissional em 1970 e não demorou para chegar à decisão do Campeonato Baiano. Em 1973, disputou o título de campeão estadual contra o Bahia, que venceu a final por 2 a 0. Os atleticanos só voltariam a uma decisão estadual 47 anos depois. Fez história nas décadas seguintes como um time pequeno do interior nordestino. Uma história de poucos recursos, muita dificuldade e resultados pífios, como é comum de acontecer com os times de cidades menores.

Ser dirigente de um clube como esse não é o grande sonho de nenhum futebolista. Tanto é assim que o Atlético, em 2019, passou por uma eleição sem candidatos para a sua presidência. A situação foi contornada com um acordo interno, que deu origem à candidatura única de Albino Leite.

Aqui a história começa a ficar interessante.

Albino Leite não se destaca por ser um dirigente de ideias muito modernas. Não é um gestor de clube-empresa. Seu estilo é mais parecido com o de Eurico Miranda. Está longe de ser um gerente frio e calculista que faz a análise ponderada da conjuntura e toma decisões racionais. Albino é passional, polêmico, brigão e vive se metendo em confusão.

Em pleno ano de 2020, quem apostaria em um dirigente desse tipo?

Mas o Atlético de Alagoinhas surpreendeu naquele ano e, pela segunda vez em sua história, chegou à decisão do Campeonato Baiano. Na final, novamente o Bahia, assim como em 1973. Foram dois empates nas duas partidas decisivas e as equipes partiram para a disputa por pênaltis. O Bahia venceu por 7 a 6. E logo depois o presidente Albino polemizou: reclamou da arbitragem e cogitou uma anulação da partida decisiva.

“Eu não posso falar que foi garfado. Solicitei as imagens do VAR. Enquanto não tiver isso na mão, não posso ter um resultado do meu ponto de vista. Preciso analisar. Mas se essa bola [do gol do Bahia] tiver realmente 100% fora, meu irmão (sic), aí as ações jurídicas e esportivas vão ter de trabalhar, trabalhar direitinho”.

Albino Leite, após a final do Campeonato Baiano de 2020

E lá foi o Atlético de Alagoinhas disputar a Série D de 2020. O vice-campeão baiano, passando por dificuldades econômicas (como de costume), não chegou às fases finais. Albino Leite resolveu desabafar. Em um vídeo, após uma partida contra o Bahia de Feira, o presidente reclamou da torcida do próprio time, que chamava de amadora a diretoria do Atlético. Em seguida, anunciou a conta bancária do clube e pediu dinheiro: 50 reais de cada torcedor.

Albino Leite no dia em que pediu 50 reais para cada torcedor do Atlético de Alagoinhas.

“É a hora de ajudar nossos atletas, que são pais de família. Eu já não estou aguentando mais, eu preciso pagar a folha dos jogadores”.

Albino Leite, após vitória diante do Bahia de Feira na Série D de 2020

Fácil perceber que o Atlético de Alagoinhas, mesmo sendo vice-campeão estadual, continuava sendo uma aposta arriscada.

Aposta arriscada, mas em 2021 lá estava o clube, novamente, na final do Campeonato Baiano. O Atlético enfrentou o Bahia de Feira. Empatou a primeira partida, venceu a segunda e se sagrou campeão baiano pela primeira vez em sua história. Albino Leite, consagrado, entrou em confusão poucos dias depois.

Segundo um radialista da cidade de Alagoinhas, os jogadores campeões de 2021 não haviam recebido a premiação conforme combinado. Albino foi à rádio falar do assunto, discutiu com o radialista, o bate-boca viralizou na internet e aumentou a fama do presidente do Atlético fora da Bahia.

Atlético e Albino seguiram em frente. Na primeira Copa do Nordeste do clube, em 2022, as perspectivas não eram muito otimistas, mas o time conseguiu passar da primeira fase. Um êxito que foi bastante comemorado. O Atlético foi desclassificado logo em seguida, ao enfrentar o Fortaleza, quarto colocado da Série A de 2021 e classificado para a Libertadores da América de 2022. O Fortaleza, aliás, foi o campeão daquela Copa do Nordeste. Confusão envolvendo Albino Leite? Sim, a Copa do Nordeste também teve. Após a partida entre Atlético de Alagoinhas e Ceará, em fevereiro, o presidente do clube baiano foi denunciado por ter invadido o vestiário dos árbitros e os ameaçado de morte. Albino negou que isso tivesse ocorrido. Segundo uma nota divulgada à imprensa, ele assumiu que “cobrou, sim, com veemência a arbitragem”, mas sem invadir vestiário ou fazer ameaças de morte.

Doze dias depois da desclassificação na Copa do Nordeste diante do Fortaleza, lá estava o Atlético, pela terceira vez seguida, na final do Campeonato Baiano. O adversário dessa vez era o Jacuipense. Na primeira partida da decisão, em Alagoinhas, houve empate em 1 a 1. Logo no dia seguinte, foi anunciada a demissão do diretor de futebol do Atlético, Luiz Matos. Como era de se esperar, surgiram comentários de crise interna, mas o clube declarou oficialmente que o diretor se demitiu por questões pessoais.

A situação era um tanto problemática: diretor de futebol recém-demitido, suspeita de crise interna e partida decisiva no estádio do adversário (que havia sido o primeiro colocado na primeira fase da competição). O Atlético, mais uma vez, parecia ser a aposta mais arriscada. Pois bem: o time foi ao município de Riachão do Jacuípe, venceu a decisão por 2 a 0 e se tornou o primeiro clube do interior baiano a ser campeão estadual duas vezes seguidas.

Atlético de Alagoinhas, campeão baiano de 2021.

O Atlético de Alagoinhas, certamente, não está muito acima dos outros clubes baianos. Falta-lhe dinheiro, sobram incertezas. Diante do Bahia e do Vitória, continua sendo um nanico. Inspira pouca confiança. E quem imaginaria que o clube presidido pelo agitado Albino Leite acumularia êxitos por três anos consecutivos?

O Atlético acumulou: chegou a três decisões seguidas do campeonato estadual e venceu duas. Quem puder que explique.

Albino Leite, aliás, poderia ser reeleito com alguma facilidade para a presidência do clube. Já declarou que não se candidatará. Talvez surja alguma polêmica em razão dessa declaração. Tudo bem: de polêmica, ele entende.

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Chamada de resumos da ReNEme para II Jornada nordestina de pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol

Divulgar as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por estudantes de mestrado e doutorado nordestinas/os em programas de pós-graduação que versam sobre futebol e outros esportes no campo da Comunicação, sendo altamente estimulados diálogos com outras áreas das humanidades. Esse é o objetivo da II Jornada nordestina de pós-graduandas/os em Comunicação e Futebol. O período de chamada de resumos iniciou-se dia 10 de agosto e as submissões seguem abertas até o dia 29 de abril (sexta-feira).

Após essa data, a organização do evento formará as mesas de apresentação dos trabalhos de acordo com as temáticas e suas relações com o campo do futebol, comunicação e áreas afins. Depois das apresentações orais das pesquisas, haverá um tempo reservado ao debate, com participação aberta do público, que poderá interagir através do chat da transmissão no Youtube.

São aceitos resumos de pesquisas em desenvolvimento ou que tenham sido concluídas como dissertação ou tese em 2021 ou 2022, tendo como objeto de estudo o Futebol.

O envio deve ser feito pelo preenchimento de formulário (https://forms.gle/NJ822KQVoiJfLBUD6), que deve conter um resumo de até 15 linhas (sem contar possíveis referências bibliográficas), em que deve informar, pelo menos, objetivo, metodologia de sua pesquisa e mini-currículo. Todos os congressistas que apresentarem trabalhos receberão certificados de participação.

O evento será realizado pela Rede Nordestina de Estudos em Esporte e Mídia (ReNEme) de 16 a 20 maio de 2022 de maneira virtual, com transmissão online pelo canal do portal Ludopédio no Youtube.

As inscrições para ouvintes receberem certificados pela participação no evento estão sendo feitas até o início do evento via SIGAA da UFAL (final da página): http://sigaa.sig.ufal.br/sigaa/link/public/extensao/visualizacaoAcaoExtensao/6736

A Jornada conta ainda com a organização do grupo de pesquisa Crítica da Economia Política da Comunicação" (CEPCOM), da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e tem os apoios do Laboratório de Estudos em Esporte e Mídia (LEME), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ); e do Ludopédio, portal de produção e divulgação científica sobre futebol.

ReNEme

A Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme) foi criada em agosto de 2020 com a finalidade de apresentar e colocar em contato discentes e docentes nordestinas/os que estudam esporte e mídia.

SERVIÇO

Jornada nordestina de pós-graduandas/os de estudos de futebol na Comunicação e áreas afins

Data: 16 a 20 de maio

Local: canal do Youtube do portal Ludopédio (https://bit.ly/3ilCvxV)

Período de submissão de resumos: até 29 de abril

Período de inscrição para ouvintes: até 16 de maio

Link de submissão de resumos: https://forms.gle/NJ822KQVoiJfLBUD6

Link para inscrição para ouvintes: http://sigaa.sig.ufal.br/sigaa/link/public/extensao/visualizacaoAcaoExtensao/6736

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Inscrições abertas para XVI Encontro Nacional de História Oral

A Associação Brasileira de História Oral (ABHO) convida professores, pesquisadores de todas as áreas de conhecimento humano e público interessado de todas as regiões do Brasil para participar do XVI Encontro Nacional de História Oral. As inscrições de trabalhos já podem ser feitas no site (www.even3.com.br/xviencontronacionaldehistoriaoral/). A chamada foi iniciada dia 20 de fevereiro e será encerrada na próxima semana, dia 20 de abril.

O evento conta com simpósios temáticos nas mais diversas áreas, sendo uma delas a esportiva. Nomeado de “Esportes, narrativas orais e memória”, o simpósio temático 3 tem por objetivo reunir trabalhos que investiguem a História do Esporte e das Práticas Corporais por meio de fontes e narrativas orais.

O XVI Encontro Nacional de História Oral acontecerá de 25 a 28 de julho e terá como sede a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Como fazer sua inscrição

1. Na página principal do evento (www.even3.com.br/xviencontronacionaldehistoriaoral/), clique, no canto superior direito da tela, em Login;

2. Caso já tenha login no sistema Even3, utilizar seu e-mail e senha. Caso não possua, clique em “Não tem uma conta? Cadastre-se”. Se este for o caso, crie sua conta e guarde a senha, que será necessária para acessar a área de inscrito, submeter trabalhos, entre outras funções;

3. Retorne à página do evento e clique no botão “Realizar inscrição”. Escolha a categoria de inscrição pessoal e, em seguida, clicando em “Realizar inscrição” novamente;

4. Preencha os seus dados, completando o formulário e, se for associado da ABHO em dia com a anuidade 2022, anexando o comprovante ao final e indicando o código de afiliado;

5. Caso deseje adquirir itens de souvenir do encontro, adicione em sua cesta. Você também pode optar por “Não selecionar itens e continuar”;

6. Ao final desse processo, deverá aparecer a informação “Inscrição confirmada”, caso você seja filiado à ABHO. Caso não, deverá proceder com o pagamento da taxa de inscrição, que é indispensável para que a submissão de propostas seja feita. Do contrário, a área de submissão estará inacessível.

Como submeter suas propostas

1. Após fazer seu login na plataforma Even3 (www.even3.com.br), verificar no topo da tela se o evento correto (XVI Encontro Nacional de História Oral) está selecionado;

2. Clicar em “Realizar submissão” (botão na cor azul escuro);

3. Clicar no botão “Submeter” (botão na cor azul escuro);

4. Escolher a modalidade para a qual você está enviando uma proposta;

5. Preencher os dados completos da proposta, prestando atenção para adicionar co-autores (se for o caso) utilizando o botão “Adicionar autor”;

6. Ao final do preenchimento do formulário, clicar em Submeter;

7. Caso a submissão tenha sido bem-sucedida, você será direcionado à página de suas submissões no evento. Caso encontre uma mensagem de erro, favor verificar o formulário, atentando para as regras de preenchimento.

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Paulo André e a polêmica do bolsa atleta 

Paulo André Camilo, jovem de 23 anos, nasceu em Santo André, no ABC Paulista, mas cresceu em Vila Velha, no Espírito Santo. Velocista multipremiado, atleta olímpico, recordista sul-americano sub-18 dos 100m rasos, terceiro homem mais veloz da história do Brasil e campeão no Mundial de Revezamento no 4x100m rasos de 2019.

Fonte: Veja

Embora referência no seu esporte, antes de sua entrada no reality Big Brother Brasil, Paulo André não era um rosto conhecido pelo povo brasileiro. Após aceitar o desafio de ingressar no BBB, o atleta passou a ser citado e muitos dos seus feitos no esporte vieram à tona nas redes sociais – e foram recebidos por muitos com curiosidade e surpresa.

Muitos dos usuários das redes sequer tinham ouvido falar no atleta enquanto outros o conheciam mas não sabiam do seu destaque no atletismo. Atualmente, Paulo é assunto constante, seja por sua atuação no reality, seja por sua aparência ou por notícias relacionadas ao esporte.

Polêmica

Durante a estada na casa, o ministro da Cidadania, João Roma (Republicanos), questionou a bolsa atleta paga mensalmente ao velocista Paulo André, gerando diversos comentários nas mídias sociais, principalmente no Twitter.

Fonte: Twitter

Na última semana, o Governo Federal suspendeu o pagamento da bolsa ao velocista após entender que, uma vez que o atleta estava confinado, não estava cumprindo o programa anual de treinamento apresentado em janeiro de 2021 para aquele ano.

O que é o bolsa atleta?

Segundo o governo federal, o investimento anual no esporte é de R$ 750 milhões. Esse valor é destinado majoritariamente para atletas olímpicos e paraolímpicos – através da Lei das Loterias, do Bolsa Atleta e Lei de Incentivo ao Esporte.

Dos 302 atletas olímpicos convocados ao Japão, 242 (80%) fazem parte do programa Bolsa Atleta. Ainda assim, 41 fizeram algum tipo de vaquinha (financiamento coletivo) para arrecadar dinheiro. E 33 atletas não se sustentam unicamente com o esporte.

Segundo o site da Caixa Econômica, responsável pelos pagamentos, “o Bolsa-Atleta é um programa do Governo Federal, gerido pelo Ministério da Cidadania, que visa garantir a manutenção pessoal aos atletas de alto rendimento que não têm patrocínio. O programa dá as condições necessárias para que eles se dediquem ao treinamento esportivo e possam participar de competições que permitam o desenvolvimento de suas carreiras”.

O valor do benefício varia entre parcelas de R$370,00/mês (para Atleta Estudantil) e R$ 15.000,00/mês (para Atleta Pódio). Veja a lista abaixo:

Valor do benefício:

Atleta Estudantil: R$ 370,00/mês.

Atleta de Base: R$ 370,00/mês.

Atleta Nacional: R$ 925,00/mês.

Atleta Internacional: R$ 1.850,00/mês.

Atleta Olímpico e Paralímpico: R$ 3.100,00/mês.

Atleta Pódio: até R$ 15.000,00/mês.

E o que isso revela sobre a atual situação do esporte brasileiro?

Como o investimento financeiro em esporte é concentrado nos atletas de alto rendimento, a formação de talentos entre crianças e adolescentes torna-se escassa no Brasil. Esse cenário exibe não só o desperdício do potencial da juventude, mas também a ignorância em não pensar o esporte como fator importante para a geração de empregos.

“O discurso de usar o esporte para tirar a molecada da rua é ultrapassado. A gente precisa pensar no esporte como carreira e profissão. Ele emprega não só o atleta, mas cerca de 30 tipos diferentes de profissionais envolvidos”. (comentou Diogo Silva, ex-atleta olímpico e campeão panamericano no taekwondo, em live sobre iniciativas públicas para formação de atletas)

Fonte: Vírgula

Além de gerador de empregos, o esporte atua como forma de prevenção de doenças – impedindo gastos evitáveis na área da saúde, melhora a concentração, reduz o estresse, estimula o desenvolvimento cognitivo, colabora para socialização e contribui para a formação física e psíquica. 

Referências:

BBB 22: conheça Paulo André, campeão mundial e atleta olímpico | atletismo | ge (globo.com)

CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo

https://www.gov.br/cidadania/pt-br/noticias-e-conteudos/esporte/noticias_esporte/com-mais-de-r-750-milhoes-de-investimento-anual-governo-federal-se-consolida-como-maior-patrocinador-do-olimpismo-no-brasil

Bolsa-Atleta, Apoio aos Atletas de Alto Rendimento (caixa.gov.br)

(1) Novo ciclo olímpico: iniciativas públicas para formação de atletas | Interolímpico – YouTube

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Quem foi o primeiro ídolo dos 4 grandes cariocas? Por que os pioneiros do processo da idolatria no futebol são desconhecidos por torcedores, imprensa, dirigentes e pesquisadores?

Garrincha, Zico, Roberto Dinamite e Castilho ou Telê ou Fred. Com a solitária exceção do Fluminense, que não forjou um claro ocupante do ponto mais alto do Olimpo, torcedores dos demais clubes grandes do Rio de Janeiro não têm dúvidas em apontar o maior ídolo da história, respectivamente, de Botafogo, Flamengo e Vasco. Tal reconhecimento é acolhido pela imprensa e, inclusive, pelos fãs dos times adversários. No entanto, se – feita a ressalva à singular situação do Fluminense – inexistem dúvidas sobre o mais importante ídolo histórico dos clubes cariocas, a coisa muda muito de figura se a pergunta tiver como alvo quem foi o primeiro ídolo de cada um.

Tal apagamento não se resume a mera questão esportiva. Ele parece dar pistas importantes sobre a formação, e a retenção, da memória e das identidades na sociedade brasileira. O ídolo histórico reúne, no nosso entendimento, ao menos três características comuns: excelência técnica, conquistas históricas e identificação com o clube. Esta última ajuda a entender por que um mesmo jogador identificado como ídolo numa agremiação não merece o mesmo reconhecimento em outra, ainda que, nesta, possa ter atuado tão ou mais tempo e cumprido papel relevante.

Garrincha: ídolo histórico
Fonte: ebiografia

E como explicar que os mesmos torcedores que, em sua grande maioria, sequer viram seus ídolos históricos atuar garantirem um continuum à idolatria de gerações precedentes e incorporarem aqueles aos pavilhões que constituem a memória coletiva afetiva dos estádios, mas não terem pálida noção dos ídolos inaugurais dos seus clubes? Que pistas essa amnésia coletiva pode nos dar sobre como foi constituído incialmente o futebol no Brasil? Seria a origem aristocrática dos primeiros sportmen e do próprio futebol razão suficiente para esse apagamento? Mas não foi justamente o espetáculo inicial proporcionado por aqueles sujeitos que inspirou milhares de outros atores sociais excluídos dos clubes e das arquibancadas pelos valores elevados das mensalidades e dos preços dos ingressos a observarem, apreenderem e se apropriarem da novidade que se desenvolvia nos gramados?

Ainda que tenha tido seus sentidos ressignificados por esses outros sujeitos, a inspiração inicial para que os cariocas lotassem estádios e quaisquer lugares acessíveis ao redor deles vinha das façanhas dos primeiros jogadores dos clubes. Então, por que temos escasso material empírico, inclusive entre pesquisadores da área, que nos permita avançar para além das subjetividades? Foi para tentar responder essas complexas questões que iniciamos a nossa pesquisa “O primeiro ídolo”, o trabalho inaugural do Grupo de Pesquisa Esportes, Ídolos E Identidades (GEII), coordenado por mim, e integrado por um aguerrido e dedicado grupo de alunos da graduação do Departamento de Jornalismo da Uerj.

Como recorte, escolhemos o período que vai de 1900, poucos anos antes da criação de Fluminense e Botafogo, respectivamente, em 1902 e 1904, e seis anos antes do primeiro Campeonato Carioca, em 1906, até 1932, última edição antes da instituição do profissionalismo no Brasil. Como o quarteto não teve origem simultânea, o período inicial captura a historiografia de Botafogo e Fluminense, além de revisitar, em suas linhas mais gerais, o ambiente do país pré-surgimento do futebol por aqui. Para acompanhar a do Flamengo, o intervalo inicia-se em 1915, quando dissidentes do Fluminense fundam o Departamento de Futebol rubro-negro; enquanto a do Vasco foi escrutinada a partir de 1923, quando, ao tornar-se campeão da segunda divisão, o clube conquista o direito de participar, pela primeira vez, da primeira divisão, amplificando as luzes da imprensa sobre a agremiação, que, até então, recebia escassa cobertura jornalística.

A principal fonte foram jornais da época, que foram submetidos à análise crítica, considerando particularmente o quadro socioeconômico e cultural do início do século XX. Também recorreremos a material dos arquivos dos clubes e, complementarmente, a entrevistas com historiadores das quatro agremiações. Embora a pesquisa ainda esteja em desenvolvimento, o material já coletado indica algumas pistas e sinaliza para duas hipóteses iniciais não necessariamente excludentes.

A primeira está ligada à má memória nacional de um país de cultura imediatista e a histórica, em que, não raro, os fenômenos sociais, dentro e fora do futebol, são tratados aos saltos, sem que os sujeitos consigam identificar continuidade entre eles e/ou espaços dialógicos. Essa hipótese, a ser confirmada ou não pelo avanço da análise do material empírico e à luz da leitura crítica, pode explicar porque ídolos iniciais que deram contribuição decisiva para os primeiros pontapés que transformaram o futebol em parte integrante da identidade nacional não são identificados por torcedores, dirigentes e o jornalismo esportivo contemporâneos como ícones fundadores dessa paixão.

A segunda hipótese, também a ser confirmada ou não pela continuidade do trabalho, parece insinuar, pela análise do material empírico já acessado, que, por ser encarado inicialmente mais como entretenimento do que como esporte pelos sportmen pioneiros, tal condição desfavoreceria a condição de idolatria. Ressalve-se que essa percepção não impediu que alguns jogadores em especial, como Mimi Sodré (Botafogo), Kunz (Flamengo), Marcos Carneiro (Fluminense) e Nelson (Vasco), merecessem maior ênfase na cobertura da imprensa, e admiração dos torcedores do período pré-profissionalismo.

Os quatro, porém, não foram os únicos a serem menções mais enfáticas da imprensa, por isso, por enquanto, não nos sentimos autorizados a identificá-los como os primeiros ídolos do quarteto dos grandes clubes cariocas. Será preciso avançarmos mais para reduzirmos nossas incertezas.

Compartilhamos o entendimento de que, em analogia com o processo do percurso do herói, como acompanhado por Campbell, ídolos, também, precisam passar por um processo de decantação que permita que sua condição se cristalize para muito além das conquistas observadas por seus contemporâneos. Ao menos três características comuns são necessárias para que a subida ao Olimpo dos deuses do futebol seja alcançada e lá permaneçam: excelência técnica, conquistas históricas e identificação com o clube.

Nesse sentido, é preciso verificar, se, ao fim da pesquisa, os nomes aqui mencionados sustentam a condição que a cobertura contemporânea da imprensa parece insinuar até aqui. Ou se, em sequência, outros jogadores do período pré-profissional os suplantam na idolatria inaugural, assim como jogadores que pareciam destinados a serem os ídolos históricos foram substituídos por outros capazes de façanhas percebidas como mais elevadas e alcançaram uma identificação mais profunda com as suas agremiações.

Umas das pré-condições alçadas pelos primeiros ídolos já confirmada pelo material coletado foi contribuírem para que o nascente futebol brasileiro se sobrepusesse ao remo e ao turfe, amplamente dominantes na cobertura do início do século passado nas páginas dedicadas aos esportes pelos jornais da época. Vista em perspectiva, essa comparação parece não fazer sentido, tal a hegemonia avassaladora do futebol masculino na cobertura esportiva em todas as plataformas já há longas décadas.

No entanto, na origem, a atenção dedicada pela imprensa nacional ao futebol limitava-se a mero registro dos resultados das partidas ou, no máximo, da súmula com as escalações e os autores dos gols. E, sempre, em espaços secundários em comparação aos outros dois esportes, então, favoritos dos brasileiros. Foi justamente a relação construída com os ídolos pelos torcedores, incluindo as extensas camadas populares excluídas dos estádios pelo valor elevado do preço dos ingressos, que foi indicando à imprensa que o novo esporte devia merecer cobertura mais nobre se os donos dos veículos quisessem atrair a atenção dos leitores aficionados em esportes.

Os ídolos pioneiros tiveram papel-chave nessa constituição dos primeiros torcedores, ainda que, já na origem, houvesse diferentes apropriações e ressignificações no modo torcedor. Identificar e tentar constituir padrões metodológicos e analíticos são as próximas metas da pesquisa à medida que nos aproximamos do período limite previamente fixado: o fim – ainda que formal – do período do amadorismo. Nosso trabalho detém-se, assim, em 1932, por considerarmos que, ainda que passível de releituras e aportes de material empírico inédito, o período do profissionalismo é bem mais coberto pelas pesquisas do campo e pela imprensa do que a fase sobre a qual nos debruçamos.

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O traço e os traçados da bola

Quem pensa que futebol é só o que acontece dentro do campo, entre o pontapé inicial e o apito final do juiz, não sabe, da missa, o terço. A bola é demasiado redonda para que seus caprichos sejam compreendidos dessa forma. O futebol transborda dos gramados, passa pelo imaginário das narrações, pelas análises técnicas, pelas crônicas, mas também pelas artes como a fotografia, o cinema, a literatura e as artes plásticas.

Sou um aficionado das charges e quando a tabelinha se dá entre craques da bola e do traço, o resultado é sempre delicioso. Neste texto vou reverenciar alguns deles tendo como gancho o recente lançamento de uma coletânea da trabalhos do chargista Mário de Oliveira Mendes, que usava o pseudônimo de Mendez. Falecido em 1996 aos 88 anos, consagrou-se como um dos grandes nomes na caricatura do Brasil  entre os anos de 1930 e 1980. No livro “Mendez – mestre da caricatura” o historiador cearense Levi Jucá mostra a abrangência do trabalho do desenhista como uma testemunha de seu tempo e, como não poderia deixar de ser, o futebol também está presente em sua obra. “Com o aparecimento do rádio e dos campeonatos de futebol profissional, jogadores como Heleno de Freitas e cantores como Orlando Silva se tornaram verdadeiros ídolos das massas. Pouco antes da Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, da primeira conquista da seleção no Mundial de 1958 e de eventos televisionados, responsáveis pela popularização do esporte como paixão nacional, Mendez já fazia caricaturas dos jogadores nos palcos dos programas de rádio da década de 1940”, lembra Jucá.

São 250 páginas com o melhor do trabalho de Mendez.
O “cabecinha de ouro” na capa de A Noite mostra o prestigio de Mendez.
Nessa charge a paixão do vascaíno Mendez falou mais alto e a chegada de Heleno de Freitas a São Januário rendeu uma charge biográfica.
A longa trajetória de Mendez fez com que ele retratasse craques que brilharam nas décadas de 1970 e 1980 como o “Doutor” Sócrates e Zico, o “Galinho de Quintino”.

Jornais e revistas, esportivas ou não, sempre abusaram das charges e desenhos, primeiro por falta de recursos fotográficos, depois porque os traços caricatos dos chargistas sempre faziam muito sucesso. E, se falarmos em esportes, o futebol sempre foi o carro-chefe, fosse para retratar os craques de cada momento, fosse para fazer analogias com problemas da vida nacional. O craque J.Carlos não foi exceção. Suas clássicas melindrosas passaram a dividir espaço com os marmanjos que corriam através da bola.

Duas capas de O Malho por J.Carlos: uma com o time do Paulistano e outra com o prefeito do Distrito Federal Prado Junior impondo mais um “gol” sobre o Legislativo Municipal.

A política sempre sofreu com a marcação cerrada dos chargistas, que o diga o imperador Pedro II desenhado dormindo sobre o trono por Angelo Agostini. Mas aliar a crítica com o futebol passou a funcionar muito bem, afinal somos um país de quase 220 milhões de técnicos. E não importava se as “tretas” eram nacionais ou internacionais.

O mundo vira “bola dividida” entre americanos e soviéticos no traço do cartunista Belmonte.
Já o chargista Théo mostrava a goleada que o ditador Getúlio Vargas sofria com o final do Estado Novo, em 1945. A torcida comemorava.

Mas, aos poucos, outros aspectos da vida nacional foram ganhando espaço nas charges. O traço desses artistas visava, antes de mais nada, retratar um país cada vez mais urbano. De acordo com o pesquisador Levi Jucá, “ao contrário da charge e da caricatura dos tempos do império e da primeira república, estritamente voltadas para a crítica política e social, os representantes da geração de caricaturistas modernos como Mendez, Álvarus, Augusto Rodrigues e Nássara passariam a estampar na imprensa os seus ‘bonecos’ das estrelas do rádio, cinema e futebol.”

Lamartine Babo, autor dos hinos populares dos principais times do Rio de Janeiro no traço de Antônio Nássara.

Já nos anos 1960 e 1970, com a época de ouro do futebol brasileiro e a sequência de títulos mundiais, Ziraldo vai investir não só nos cartuns de humor inspirados na bola, mas também na poesia que envolve o jogo.

Paixões nacionais, segundo Mestre Zira.
  
Personagens, como Jeremias, o Bom e a Supermãe também não escapavam do tema.

Outro grande trabalho desse mineiro de Caratinga se deu no final dos anos 1980. O Clube dos 13, organização de clubes brasileiros, solicitou ao cartunista que desenhasse os mascotes dos times que participariam da Copa União de 1987, campeonato organizado pela “liga” que surgia em oposição à CBF. Na época, em uma reportagem da revista Placar, o cartunista ressaltou a importância da tarefa: “A garotada de hoje não entende mais por que o marinheiro Popeye foi o símbolo do Flamengo ou como o Pato Donald pode representar o Botafogo. Por isso, uma de minhas maiores preocupações neste trabalho foi rejuvenescer as mascotes.”

Criador e criaturas em nome de um novo futebol brasileiro que acabou não decolando.

Quem também criou mascotes para os times do Rio foi o cartunista Henfil. Com eles atraia a atenção dos torcedores/leitores para o Jornal dos Sports, onde suas tirinhas eram publicadas. Retratando a expectativa para os jogos ou repercutindo os resultados das partidas, os personagens interagiam entre si com humor e com a provocação que as torcidas tanto gostavam. Eram eles: o Urubu (Flamengo, o Bacalhau (Vasco), o Pó-de-Arroz (Fluminense), o Cri-Cri (Botafogo) e o Gato Pingado (América).

Os personagens bem-humorados de Henfil brincavam com os estereótipos dos torcedores cariocas e ajudaram a derrubar preconceitos.

Mas se tivéssemos que escolher um cartunista como o mais importante para o futebol, pelo menos no Rio de Janeiro, onde vive este autor, sem dúvida seria Otelo, o caçador. Jornalista, humorista e flamenguista roxo, começou com suas tirinhas em 1947, no Jornal dos Sports, mas pouco tempo depois se transferiu para o jornal O Globo, onde ganhou de Roberto Marinho uma página inteira, às segundas-feiras. Durante 33 anos a coluna Penalty repercutiu as rodadas, brincou com times e jogadores e fez todo mundo rir.

Digamos que a paixão pelo rubro-negro sempre falava mais ato na coluna.

O artigo escrito pelo jornalista André Felipe de Lima e publicado no site do Museu da Pelada lembra que nem todo mundo encarava bem as brincadeiras de Otelo. E cita uma entrevista do cartunista em que ele dizia que humorismo e futebol era uma combinação perigosa. Mesmo assim, gostava de se “arriscar”, tanto que lançou o Livro Negro do Penalty, em dois volumes, vendendo mais de 25 mil exemplares. Dizia ele: “Já fui ameaçado de morte e reclamação é uma constante. Enfrentar personagens como Yustrich, Moisés, Renê, Brito, Paulo Amaral, não é fácil. Anatole France disse que livros históricos que não contêm mentiras são extremamente tediosos. Meu livro tem muita coisa de história do futebol e muita mentira. Certa época, inventei que o técnico Feola dormia durante os jogos e Havelange contratara um garoto para ficar soltando foguetes perto do ‘gordo’, a fim de mantê-lo acordado. Durante a partida, muitos torcedores olhavam o túnel onde o técnico ficava para ver se o doce Feola estava dormindo mesmo.” Para André, Otelo foi mais do que um chargista, embora seus desenhos fossem tão próprios: “É dele também as célebres frases e termos futebolísticos como: ‘Montinho artilheiro’, ‘Todo campeonato tem um campeão moral’, ‘Pênalti não é coisa que se perca’, ‘A torcida do Botafogo cabe numa Kombi’, ‘Coração de torcedor pobre não bate. Apanha’ e, claro, ‘Zico: joia de família do Flamengo’ e o ‘Manto sagrado’. Mas a frase mais célebre, sem dúvida é a ‘Brasileiro que não entende de futebol já nasceu morto’”.

Não há a menor dúvida que sem as charges, cada vez mais escassas tanto no papel quanto no online (exceções como o talentosíssimo Mario Alberto, do Globo.com, só confirmam a regra), o futebol perde um pouco de sua graça e de sua arte, porque mais do que ferinos críticos e perspicazes humoristas, todos esses cartunistas citados, e muitos outros que estão ou estiveram por aí, são artistas de qualidade e com suas criações só fazem com que nossa paixão pelo futebol seja ainda maior.

Mané e Pelé, dois gênios da bola no genial traço de Otelo.
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Melina Guardabascio Vita: uma pioneira esquecida da esgrima argentina

Roberto Larraz foi um notável esgrimista que representou a Argentina em quatro Jogos Olímpicos consecutivos entre 1924 e 1936, fazendo parte da equipe que conquistou a medalha de bronze no Campeonato das Nações de Florete de 1928, em Amsterdã. Em 1941, por ocasião do vigésimo aniversário da fundação da Federação Argentina de Esgrima (FAE), publicou uma “revisão da atividade de esgrima em nosso país” no jornal La Nación. A revisão histórica de Larraz é exclusivamente masculina. Da mesma forma, a história da esgrima argentina no site da FAE apenas menciona a esgrima feminina em sua referência aos Jogos Pan-Americanos de 1951 em Buenos Aires. Lá, Elsa Irigoyen conquistou a medalha de ouro no campeonato individual de florete.

As narrativas de Larraz e da FAE invisibilizam o desenvolvimento da esgrima feminina argentina nas primeiras décadas do século XX e revelam a ordem genérica vigente naquele período, cujas características ainda persistem. Embora Larraz sustentasse que a esgrima “é um esporte que não reconhece idades”, esse esporte legitimava a atual matriz heteronormativa e a pressão que ela exercia para impedir a expansão do esporte feminino. Assim, o jornalista Luis Pozzo Ardizzi afirmou na revista Caras y Caretas em 1935 que vários esgrimistas haviam abandonado o esporte porque seus namorados argumentavam que “a esgrima faz uma mulher se ridicularizar. Que adota posições não femininas”. Para contrariar a situação, este jornalista propôs: “Guerra ao namorado!” para “destruir preconceitos”.

Melina Guardabascio Vita¹ foi uma pioneira que trabalhou arduamente para promover a esgrima feminina e desfazer esses preconceitos. Aparece como professora de esgrima da Academia Nacional de Esgrima da Itália em 1922. Aparentemente ela chegou à Argentina em 1923, causando grande atenção. Em fevereiro do ano seguinte, o Cercle de L’Epée realizou um festival esportivo em Buenos Aires em sua homenagem, no qual ela deu uma palestra sobre esgrima e lutou com dois ilustres esgrimistas. Meses depois, em outra palestra, ela falou sobre “A esgrima e os benefícios que ela traz para as mulheres” no Club Marcelo T. de Alvear, também em Buenos Aires. Nesse mesmo ano, Augusto Bolognini, outro expatriado italiano que fundou, dirigiu e ensinou na Academia Argentina de Bellas Artes Perugino, pintou um retrato de Guardabascio Vita em trajes de esgrima, que enfeitou a capa de uma edição da revista Fray Mocho. A mesma revista publicou fotografias nas quais ela é vista em ação com um estudante e com Oscar Viñas, então presidente da FAE. Sua presença e seu trabalho na Argentina geraram “grandes reportagens [e] profusão de fotografias em jornais e revistas”.

Segundo uma crônica jornalística, Guardabascio Vita havia chegado ao país com a intenção de “realizar exposições públicas, não em espaços de ‘varietés’, como um ‘número artístico’, mas nas arquibancadas de nossos principais clubes”. Em outras palavras, ela queria que a esgrima feminina fosse levada a sério e divulgada. A mesma crônica explicava que Guardabascio Vita “lutou vários meses, um ano, dois, três… mas não conseguiu popularizar a esgrima entre nossas mulheres… havia preconceitos demais na época”. Desta forma, “cansada de lutar”, Guardabascio Vita “acabou por se dedicar a um negócio totalmente alheio à esgrima”. O fato de ter tentado outros caminhos profissionais não significa que tenha se afastado da esgrima. No início da década de 1940, Guardabascio Vita figurava como professora de esgrima, “exclusivamente para senhoras”, no Racing Club, em Avellaneda, onde estava sediada, e do qual fora sócia. No final de 1941, o jornal La Opinion destacava: “a manifestação oferecida ontem no C. Racing à senhora Guardabascio obteve contornos marcantes”, provavelmente referindo-se a um torneio interno.

A carreira de Guardabascio Vita no Racing foi reconhecida em 1974, quando a diretoria decidiu homenagear sua memória batizando a sala de esgrima do clube “com o nome de quem foi nossa ilustre representante”. No entanto, os esforços de Guardabascio Vita tiveram efeitos além de Avellaneda. Como postulava Pozzo Ardizzi, já nas décadas de 1920 e 1930, a mestra da esgrima “plantou sementes” e “conseguiu despertar a curiosidade” por esse esporte entre as mulheres. Coincidentemente, Larraz “colocou seu vasto conhecimento a serviço das primeiros entusiastas”, formando em 1930 a primeira equipe feminina do Clube de Ginástica e Esgrima de Buenos Aires. Três anos depois, segundo o mesmo jornalista, foi organizado o primeiro campeonato feminino promovido pela FAE. Em 1933, também começaram as “partidas” femininas, e Guardabascio Vita atuou como juíza no primeiro júri feminino.

Em 1935, Pozzo Ardizzi enfatizou que já havia mais de 100 mulheres esgrimistas no país, a maioria delas em Buenos Aires, mas também em Córdoba, La Plata, Mendoza, Rosario e Tucumán. Três anos antes, a revista Caras y Caretas havia publicado um artigo intitulado “Esgrima: esporte para mulheres”, que defendia que esse esporte deveria ser “uma das práticas esportivas preferidas das mulheres modernas”, já que suas muitas “vantagens para as mulheres são tantas como são para os homens”. Embora a nota não estivesse assinada, considerando sua natureza e finalidade, poderia muito bem ter sido escrita por Guardabascio Vita, cujos esforços começavam a dar frutos, embora sem alarde.

Refletindo sobre a situação da esgrima feminina na década de 1930, Pozzo Ardizzi escreveu, de forma excessivamente otimista e replicando um vocabulário sexista, que “o feminismo avança e avança… folha na mão… Em guarda, cavalheiros do sexo forte!”, já que “o muro do preconceito [de gênero] começou a ser destruído”. Guardabascio Vita foi uma pioneira que, ao promover a esgrima feminina, contribuiu para distorcer a feminilidade estabelecida na sociedade para a qual emigrou, ampliando os horizontes das mulheres e imaginando uma proxêmica mais inclusiva e justa. Seu nome, assim como sua luta por maior igualdade de gênero e emancipação feminina, são dignos de ocupar um lugar de destaque na história da esgrima e do esporte argentino.

¹ Em algumas das fontes consultadas, o nome também aparece como Melina Vita Guardabascio e como Evelina Guardabascio Vitta.


Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de março de 2022.

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro

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Texto adiado

Na minha organização de envio de textos para os queridos amigos do LEME tinha pensado em discutir o que chamei inicialmente de falácia da meritocracia. Queria problematizar como o rebaixamento do Grêmio incomodou a imprensa esportiva uma vez que o clube tinha uma folha de pagamento muito elevada, supostamente a terceira da série A, e era cumpridor de suas obrigações. O esporte, que muitas vezes é utilizado para ilustrar a lógica da meritocracia em que os competidores partiriam de condições idealmente igualitárias, parece não admitir o fracasso dos “ricos” (a falta de títulos do Flamengo em 2021 também entraria na escrita). Mas não, este texto não sairá agora. Assim como não se jogou o Grenal no último sábado, 26 de fevereiro, este texto está suspenso, adiado ou será mandado para algum julgamento em instância competente. Um ditado muito comum e recorrente é que “uma imagem vale mais do que mil palavras”. Paradoxalmente, é impossível dizer esta frase sem usar as palavras. Com essa armadilha da linguagem precisarei escrever um texto para não o escrever.

Durante a semana anterior ao clássico conversei com meu amigo José Paulo. Trocamos curtas provocações sobre o clássico. Na realidade como estávamos muito desconfiados do início de temporada dos nossos times, o Grêmio, recentemente rebaixado e já com troca de treinador, e o Internacional, com um novo treinador que não consegue boas atuações no fraco campeonato estadual, mais colocávamos o favoritismo no adversário do que qualquer outra coisa. É uma estratégia comum para justificar uma eventual derrota. Com o professor Diogo retomei nossas apostas. Entre nós, antes da pandemia, Grenal valia vinho. Ele ainda me deve um, tivemos uma boa hegemonia nos últimos anos, então meu risco era muito pequeno, mesmo com o que joga esse time do Grêmio. Infelizmente, tive minhas brincadeiras com meus amigos adiadas.

No sábado, pouco antes de chegar ao estádio Beira-Rio para disputa de mais um Grenal, o ônibus com os atletas, trabalhadores, do Grêmio sofreu um ataque e uma das pedras atiradas acabou rompendo o vidro e acertando o paraguaio Villasanti que precisou ir ao hospital. Após adiar o jogo por 2 horas, a Federação Gaúcha de Futebol, o Sport Club Internacional e o Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense decidiram suspender a partida naquela data. O presidente gremista não quis participar da coletiva conjunta com o rival e a federação por discordar da narrativa do adversário.

Reprodução: Diário Carioca

Esse foi mais um dos “cotidianos” casos isolados de violência no esporte brasileiro. Somente na semana passada foram quatro contra jogadores, três dos quais contra jogadores do mesmo clube dos torcedores agressores. Faço esse registro pela curiosidade, não para autorizar a violência entre adversários. Não é nenhuma novidade que a violência é uma importante forma de socialização entre os torcedores. Ela também é uma importante forma de socialização masculina. Aqui a formação dos torcedores e dos homens acaba acontecendo concomitantemente. Desde a década de 1990 os estudos sobre violência e o torcer fazem coro contra a criminalização das Torcidas Organizadas. Das TOs sempre se escuta que se deve punir o CPF e não o CNPJ. Sim, me parece que ainda é necessário trabalhar contra a criminalização desses coletivos. Entretanto, me parece que as instituições, sim, precisam ser responsabilizadas.

Sim, os clubes não são responsáveis pela segurança pública, mas me parece que a responsabilização deles por eventos praticados por suas torcidas e torcedores pode ter um produtivo efeito pedagógico. Antes que alguém possa imaginar que se trate de um gremismo enrustido já deixo o link para o texto em que solicito que o Grêmio, clube que eu torço, fosse punido por invasão de campo e racismo. Segue valendo, ainda mais para o novo caso flagrado no último Grenal. Torcedores do Brasil de Pelotas expulsaram um torcedor com símbolos nazistas das arquibancadas sabendo que o clube poderia ser punido. Por que os torcedores do Grêmio não denunciam ou expulsam os torcedores que insistem em reproduzir os xingamentos racistas? Por que os torcedores do Internacional não evitaram que um dos seus atirasse a pedra? Ou a pedra só foi noticiada porque rompeu o vidro do ônibus?

Juridicamente posso estar falando uma aberração, mas meu texto não é jurídico. Já fui acusado de pertencer a esquerda liberal punitivista por proposições como esta, mas me parece que algo precisa ser, no mínimo, tentado. Alguém poderá dizer, e eu concordei alguns parágrafos acima, que a violência não é nova, por que agora isso deveria ser feito? Primeiro porque nunca foi, não sistematicamente. Segundo, porque não se trata nem mesmo da tal cultura de “pista”, os trabalhadores estão sendo agredidos. Sim, existem aqueles que não lembram, mas jogadores são, antes de mais nada, trabalhadores. Além disso, poucas coisas são mais reacionárias do que não fazer nada escondido na complexidade, real, dos fenômenos. Com isso as agressões físicas, xingamentos racistas, homofóbicos e machistas continuem sendo ditos sem problemas.

Aos que quiserem argumentar que isso faz parte da “cultura torcedora” nem venham. A violência faz parte da cultura torcedora, sim, mas é de uma parte e concorre com outras. Cada processo histórico tolera algumas práticas e não tolera outras. Isso é sempre uma disputa, nunca um consenso. Mais do que qualquer coisa esse não texto serve para marcar minha posição. Estou entre aqueles que querem colocar essas violências como intoleráveis dentro da cultura torcedora.


Referências:

Violência no futebol: em 3 dias, capitais brasileiras têm 4 casos graves de agressões contra atletas

Um clube de futebol pode ser racista?