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Mulheres torcedoras: a busca por visibilidade em um ambiente marcante pela masculinidade

Quando o Ibercom (Congresso Iberoamericano de Comunicação) divulgou o tema para a edição deste ano, que acontece no final de novembro, em Bogotá (Colômbia), conversei com meu orientador de mestrado, Ronaldo Helal, sobre a possibilidade de escrevermos um artigo. O tema do congresso este ano é “Comunicação, violências e transições”, e eu, como torcedora e agora pesquisadora, observo o quanto este tema é urgente quando pensamos em futebol e representatividade das mulheres nas arquibancadas.

Fizemos um resumo, no qual abordamos a cobertura midiática referente ao tema e submetemos ao congresso.  Tendo a aprovação, fomos a campo entrevistar integrantes de torcidas organizadas (TOs). Para este pequeno post, apresento a vocês uma prévia das entrevistas com estas mulheres. Vamos denomina-las de acordo com os seus times: torcedora do Flamengo, integrante da Nação 12; do Fluminense, integrante da Garra Tricolor; da Ponte Preta, pertencente à Torcida Jovem Amor Maior; e do Remo, pertencente à torcida Camisa 33. Tentamos contato com integrantes de torcidas de diferentes estados, justamente para termos ideia se realmente a violência existia e se ela era um fenômeno regional. Todas as entrevistadas relataram histórias bem parecidas envolvendo assédio, abuso físico e abuso de poder.

As mulheres ficaram proibidas de jogar futebol pelo decreto lei 3.199, até 1979, quando ele foi revogado. Durante estes anos, restaram a elas jogarem de forma marginal ou irem às arquibancadas. Surgiram, assim, figuras marcantes do universo do futebol como Dulce Rosalina, primeira mulher presidente de uma torcida organizada, a TOV – Torcida Organizada do Vasco, em 1956. Ainda na década de 1950, o Corinthians tinha uma torcedora símbolo, Elisa, que chegou a ganhar ingresso permanente da Federação Paulista de Futebol. Em 1961, Dulce também ganha o concurso de melhor torcedor do país.

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Fonte: Casaca.

Naquela época, as torcedoras símbolo eram vistas quase como mães de jogadores, já que elas tinham participação ativa, frequentando treinos e aconselhando os atletas. De lá para cá, muitas outras mulheres estão presentes no universo do futebol e não com a mesma figura que Rosalina e Elisa. Elas tentam conquistar papel de destaque nas organizadas e participar ativamente do espetáculo realizado nas arquibancadas. “Em março, as meninas da minha torcida quiseram fazer uma ação sobre a semana da mulher. Torcedores de outros times e até do Remo disseram que ali não era lugar para a gente e queríamos era repercussão na internet”, conta a torcedora do clube do Pará.

Desta forma, percebemos que as mulheres não costumam ocupar cargos de liderança em torcidas justamente pelo ambiente ser predominantemente masculino e a maioria das TOs terem sido criadas por homens. A torcedora da Ponte-Preta também apontou o quanto é difícil para uma mulher estar em organizada: “Mulheres geralmente cuidam da responsabilidade social, do setor kids, das redes sociais e geralmente é com um homem na supervisão. Mulher em cargos de direção é muito raro. Só conheci três mulheres presidentes de torcida, vice-presidente não conheci nenhuma e diretora também não. Porque não se tem o entendimento que a mulher é como o cara. Na minha torcida, por exemplo, temos um espaço interessante. Não é perfeito, mas perto do que acontece por aí”. Ela afirma ainda que, em alguns casos, há também disputa entre as mulheres por espaço. “Quando o homem falha na organizada tudo bem, mas quando é mulher, falhou porque é mulher. É quase um mantra. A gente tem que se cuidar mais. Temos que nos policiar, a mulher que quer o progresso das mulheres tem que uma ajudar a outra”.

Além da busca de representatividade nas organizadas, as mulheres também querem respeito quando frequentam os estádios. “Quando a gente fala que é de organizada, acham que somos vagabundas por estarmos no meio de um monte de homem”, conta a torcedora do Flamengo. A torcedora do Fluminense traz ainda mais elementos do universo das arquibancadas. “Já tive cabelo e braços puxados, passada de mão no corpo, policial falando gracinha. Tem gente que acha que jogo é micareta e que as mulheres estão ali só para ‘pegar’ homem e não por gostar de futebol. Às vezes a gente tem que fingir que é namorada de outra menina para ir ao banheiro para ter um pouco de respeito quando estiver passando. Se a gente fala que tem namorado, eles dizem: ‘ué, cadê o namorado?’ Então é a primeira coisa que a gente faz para se proteger. Já cheguei a dar tranco em cara dizendo que minha amiga era minha namorada.  Mas quando os amigos ou namorado estão juntos,  respeitam muito mais”.

A torcedora do Remo apresentou um relato mais grave ainda: “uma conhecida recebeu bebida com algo e ela apagou no estacionamento do estádio depois de um jogo e acordou na vala. Mas ela afirma que não sofreu abuso sexual”, conta.

Podemos observar ainda que nem todas as torcedoras têm noção que sofrem preconceito e contribuem para este ambiente no qual os homens têm mais destaque. É como se elas estivessem gratas aos homens por terem algum espaço nas torcidas.  “Eu acredito que algumas meninas não têm sequer a consciência do tamanho do machismo que enfrentamos em uma organizada. Eu já ouvi frases do tipo: ‘se você fosse homem, poderia ser presidente da torcida’. Eu nunca almejei isto porque eu não tô disponível a suportar certas coisas, como ter que ficar provando as coisas para alguém o tempo todo. Já ouvi também ‘você é uma mulher que afronta um homem’. Quantas e quantas vezes ouvi: ‘E seu marido?’, ‘por que você não vai fazer o jantar para seu marido?’, ‘Ce é loko, se minha mulher fosse assim…’ Como se viajar com minha torcida fosse um adultério conjugal que precisava ser julgado, como nos tempos de Jesus no Oriente Médio,  que a mulher era apedrejada até a morte”, desabafa a torcedora da Ponte Preta.

As mulheres entrevistadas apresentaram ainda outros relatos sobre como são tratadas como consumidoras pelas marcas patrocinadoras dos clubes e deram mais detalhes dos seus papéis como torcedoras. Mas estas histórias vocês poderão ler em nosso artigo, que será publicado nos anais do congresso em breve. Nesta quarta (13/11), vocês podem ouvir o 4º episódio do podcast do LEME, o Passes e Impasses, disponível em todas as plataformas (Spotify, Deezer, iTunes), no qual o tema foi justamente as mulheres no futebol, com enfoque nas coberturas da mídia, na visibilidade das atletas e do quanto é difícil ser atleta, jornalista e torcedora.

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Fonte: Redação Mackenzie.
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Fonte: Justiça de Saia.
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Linguagem, ser e futebol

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**/El Furgón

Há alguns meses o escritor e jornalista Mempo Giardinelli publicou uma nota no jornal matutino portenho Página 12 na qual lamentava o “empobrecimento e desnaturalização” da nossa língua. Tal deterioração – que inclui a crescente utilização de angliscismos desnecessários –, argumenta Giardinelli, é perigosa porque a língua de um povo é “sua mais poderosa marca de identidade”. Ou seja, a linguagem não somente nos permite pensar, comunicarmos e entendermos, mas, como também indica Giardinelli, é a maneira mais genuína de ser. Portanto, perder a língua – seja consentindo, ou pior ainda, atiçando sua distorção – equivale a perder a identidade (ou perder-se) como povo.

Coincidentemente, poucas semanas depois, o poeta e ensaísta Rodolfo Alonso publicou no mesmo matutino outra nota refletindo sobre a “desoladora prostituição da linguagem”. Alonso lamenta que na sociedade de consumo em que vivemos a linguagem se desvaloriza como eixo civilizacional, como “limiar irrevogável da condição humana”. Alonso ressalta a importância da linguagem afirmando que “não usamos a linguagem, somos a linguagem”. Dessa maneira, a língua cotidiana de uma comunidade constitui e define essa comunidade e seus membros. Tanto para Alonso como para Giardinelli, cultivar a língua implica em cultivar uma identidade, ser o que somos.

A ideia de que a linguagem e o ser estão intimamente entrelaçados tem ilustres defensores dos quais provavelmente se nutrem Giardinelli e Alonso. Um deles é o filósofo Martin Heidegger. Segunda uma famosa formulação da “Carta sobre o Humanismo”, escrita por Heidegger, “A linguagem é a casa do ser. Em sua morada habita o homem. Os pensadores e poetas são os guardiões dessa morada”. Sob essa posição, a linguagem permite a manifestação do ser. Existimos dizendo (fazendo uso da linguagem). Como diria Aristóteles, o ser humano é o ser com razão, com linguagem. Heidegger indicaria que ao utilizar a palavra, o ser acontece, aparece, e, portanto, reside na linguagem. Daí, a preocupação de Giardinelli e Alonso por sua deterioração, pois isto causa deterioração ou ao menos o impedimento, da manifestação plena do ser. Neste sentido, Heidegger adverte que a “devastação da linguagem, que se estende por todas as partes, […] nasce de uma ameaça contra a essência do [ser humano]”, que consiste em perguntar sobre o significado do mundo que habita e seu lugar nele.

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Beckenbauer e Cruyff. Fonte: Wikipedia Commons.

A preocupação de Heidegger com a linguagem e com o questionamento do significado do mundo e de nosso lugar nele próprio enquanto seres humanos (ou, parafraseando-o, para permitir que sejamos livremente dispostos na clareza do ser), é uma das dimensões mais populares do seu pensamento. Não tão conhecido é seu amor pelo futebol. Segundo Rüdiger Safranski, um de seus biógrafos mais importantes, durante sua infância em Messkirch, Heidegger foi um bom ponta esquerda. De volta à sua cidade natal, e entre os anos, Heidegger ia a casa de um vizinho para ver pela televisão partidas da Copa Europa (atualmente conhecida como Liga dos Campões). Sanfranski relata uma anedota que demonstra a importância do futebol para Heidegger. Um dia ele se encontrou em um trem com o diretor de teatro de Friburgo, em cuja universidade Heidegger havia estudado e ensinado. Ele estava determinado a falar sobre literatura e teatro, mas Heidegger, impactado com uma partida internacional recente, preferia falar sobre Franz Beckenbauer. Heidegger, inclusive, tentou demonstrar a delicadeza do jovem defensor diante de seu espantado interlocutor. De fato, para Heidegger, Beckenbauer era um jogador inspirado e invulnerável.

Heidegger não considerou se o ser pode habitar no futebol. No entanto, a partir da análise heideggeriana da relação entre linguagem e ser, assim como de sua paixão pelo futebol, é possível sugerir que esse é o caso. A chave está em conceber o futebol como linguagem, como meio pelo qual tentamos responder à pergunta sobre o significado de nossa existência no mundo. O escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini se posiciona entre os que afirmam que o futebol “é um idioma com seus poetas e prosadores”. Se uma língua é um sistema de sinais – assinala Pasolini – o futebol é um sistema de sinais não-verbais. Para ele, a pessoa que desconhece “o código do futebol [seus sinais não-verbais] não entende o ‘significado’ de suas palavras (os passes) nem o sentido de seu discurso (um conjunto de passes)”. Pasolini ressalta que as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque assim são as possibilidades de combinação de passes em um jogo. A sintaxe, continua, “se expressa na ‘partida’, que é um autêntico discurso dramático”. À sintaxe, deve ser acrescentada a pragmática, pois o discurso incorporado no futebol recebe sentido apenas levando em consideração o relacionamento com os demais participantes, os espectadores e suas circunstâncias.

Muitas personalidades proeminentes consideram o futebol não apenas como um idioma, mas como um idioma ecumênico. O jornalista Jean Eskenasi sustenta que “O único denominador comum a todo o mudo, o único esperanto universal, é o futebol. É uma linguagem universal, cuja gramática não muda do Polo Norte ao Equador; que é falado em cada esquina com seu sotaque particular”. Tambén o escritor Fredrik Ekelund denomina o futebol como o “esperanto do pé”, e seu colega Mario Vargas Llosa acredita que é “o esperanto de nosso tempo”. Por sua vez, Eduardo Galeano, amante das letras e do esporte, afirma que “o futebol é um idioma universal”. Ainda que possa ser exagerado afirmar que o futebol é o único idioma universal, considerando a extensão de sua prática e o imenso apego pela mesma, não parece exagerado considerá-lo como uma linguagem ecumênica.

Como linguagem ecumênica, o futebol responde à pergunta sobre o sentido do ser e pode ser entendido como morada do ser. Damos conta de quem somos praticando futebol. Ao fazê-lo, o ser acontece, aparece e, portanto, vive no futebol. Seus poetas e prosistas – na realidade, todos os seus cultivadores e seguidores – são os guardiões dessa morada. Assim, deveríamos nos preocupar com a degradação do futebol tanto como Giardinelli e Alonso se preocupam com a deterioração da linguagem. Um futebol deteriorado e mal jogado ameaça uma maneira fabulosa de entendermos e comunicarmos, de identificarmos e de ser.

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Fonte: Flickr

Essa perspectiva permite compreender completamente uma confissão de Galeano feita há mais de duas décadas em razão do jogo triste, simples e medroso que ele acreditava ter sido incentivado pela tecnocracia do futebol profissional. “Passados os anos, e em longo prazo, acabei assumindo minha identidade: Eu não sou nada mais que um mendigo do bom futebol”. Mendigava pela plena manifestação do ser por meio do futebol; reivindicava o futebol para ser plenamente. Pode-se aduzir, parafraseando Heidegger, que, para Galeano, os jogadores, através de suas (boas) jogadas, levam a manifestação de ser ao futebol e o guardam lá. Por isso, celebramos, e esperamos, o futebol de jogadores excepcionais como Lionel Messi e Marta Vieira, Kylian Mbappé e Megan Rapinoe, entre muitos outros. Eles nos lembram, com seu alto desempenho, que, novamente segundo Heidegger, a verdade de ser também se manifesta no e através do futebol. E isso sugere, ou até indica, que temos uma responsabilidade ética e estética de enriquecer a linguagem que o futebol é.

* Texto originalmente publicado em El Fúrgon no dia 3 de novembro de 2019.

**Doutor em filosofia e história do esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

**Doutor em filosofia. Professor na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park)

Tradução livre: Fausto Amaro e Marina Mantuano (LEME/UERJ)

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O senso comum no jornalismo esportivo

Após a conclusão da nona rodada do Campeonato Brasileiro, com o Palmeiras liderando a competição invicto e com cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Santos, e oito pontos sobre o terceiro, o Flamengo, o comentarista da Fox Esportes Fábio Sormani indagou, durante o programa Fox Sports: “Tem competição neste campeonato?” Para, em seguida, ele mesmo decretar: “Acho que não. Acho que o Palmeiras só perde este campeonato para ele mesmo”.

Apenas três rodadas depois, o Santos, abriu dois pontos de vantagem sobre o então campeão virtual, assumindo a liderança, condição que, quatro rodadas adiante, seria tomada pelo Flamengo. O exemplo, longe de inédito, constitui-se em caso exemplar da subjetividade no jornalismo esportivo, que tem como um dos seus pontos constituintes o senso comum que guia grande parte dos profissionais dessas editorias, como parece confirmar o silêncio e/ou a concordância dos demais integrantes daquela mesa.

Embora subjetividade e senso comum também compareçam em todas as editorias do jornalismo, eles são mais facilmente identificados ou identificáveis nas de esportes. Talvez, por serem consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais, as páginas de esporte da mídia são pródigas para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem do jornalismo, mas justamente para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Tal subjetivismo mais explicitado pode ser atribuído à relação estabelecida com o público, fortemente baseada em discursos mitológicos na representação de ídolos e fãs, o que, de certa forma, desculparia a existência de um texto abertamente mais opinativo e de forte caráter emocional. O senso comum de que “todo brasileiro gosta de futebol” também ajuda o jornalista a expor suas opiniões sobre o tema, sem necessidade de escudar-se na objetividade. É justamente o maior relaxamento na defesa da objetividade que ajuda a jogar luzes no processo de construção do discurso jornalístico nas editorias de esporte.

Fonte: torcedores.com

No entanto, em que se escora tal subjetivismo numa prática social que tem na objetividade sua pedra angular que garantiria sua autorreivindicada neutralidade e seu afastamento dos fatos? E o que teria autorizado o jornalista a proclamar um campeão antes mesmo que um terço do campeonato fosse disputado? Em 2018, na mesma nona rodada, o líder era o Flamengo, com um ponto de vantagem sobre o então vice-líder, São Paulo, e três sobre o então quarto colocado, o Palmeiras, vantagem que não impediu a conquista do título por este último.

A explicação não estaria ancorada, portanto, sequer no histórico recente da competição, embora aquele não seja garantia de acerto de qualquer previsão. Para a teoria construcionista do jornalismo, de  um ponto de vista sociológico, pode-se considerar os procedimentos que servem à busca pela objetividade como rituais, entendido aqui esse conceito como um procedimento de rotina que relativamente tem pouca importância ou importância tangencial para o fim procurado.

Tais procedimentos estratégicos, de acordo com a socióloga Gaye Tuchman – uma das principais representantes da corrente construcionista – seriam agrupados em cinco itens: apresentação de possibilidades conflituosas (ouvir os dois lados); a técnica do lead; provas auxiliares; uso de aspas; e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro dos primeiros em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda.

Para tentar minimizar o risco de que a objetividade possa ser apropriada para justificar a produção de dois leads, igualmente objetivos, porém, com abordagens distintas em assuntos delicados para os interesses editoriais e/ou econômicos das empresas, estas recorrem as suas políticas editoriais, para reforçar o controle profissional da mídia sobre os jornalistas (SOLOSKI in Traquina, 1993). Para ser mais eficiente, no entanto, a política editorial deve estar articulada com o profissionalismo exigido de cada jornalista. Soloski considera tal método mais eficiente e econômico como forma de controle do que, por exemplo, a censura explícita. Já que esta é contrária ao profissionalismo, sendo capaz de causar estranhamentos e vazamentos, estes hoje mais prováveis e viáveis com a presença das redes sociais e mídias alternativas.

Entende-se aqui profissionalismo como o estabelecimento de normas e padrões – formato mais flexível do que o de regras gerais – e a institucionalização de sistemas de recompensa profissional, vital numa instituição piramidal como os jornais. Apesar de mitificações difundidas em contrário, jornalistas, em geral, não têm perspectivas ideológicas mais definidas e tendem a buscar fontes na estrutura do sistema político-econômico, o que facilita a naturalização de interlocutores ligados à defesa do status quo, sem que isso seja considerado antiprofissional.

Fonte: cruzeirodosul.edu.br

A construção do profissionalismo sustenta-se fortemente na defesa do senso comum. Independentemente do maior ou menor grau de consciência do jornalista, o processamento de qualquer notícia envolve conjecturas. Dessa forma, a maneira mais eficaz de um profissional defender sua matéria diante de superiores hierárquicos, fontes ou, eventualmente nos tribunais, é recorrer à objetividade. Nessa construção social fundante do jornalismo moderno, a objetividade é a norma profissional mais importante. Ela, no entanto, está fortemente ancorada no senso comum e, como este guarda fortes raízes com a defesa do status quo, a investigação sobre como o jornalismo trata times e jogadores de futebol revela muito da sociedade da qual eles são parte influente.

Por isso, ao analisar-se as razões que levaram o jornalista Fábio Sormani a decretar o Palmeiras campeão com apenas nove rodadas de antecedência, deve-se ter presente alguns dos elementos subjetivos lidos pelos profissionais como objetivos e, portanto, neutros. Com R$ 81 milhões em patrocínio de camisa, R$ 15 milhões em luvas e R$ 6,8 milhões em propriedades de marketing (inclui salários de jogadores), num total de R$ 102,8 milhões (cerca de € 24 milhões de euros, no início de 2019), o Palmeiras, alcançou, graças ao acordo com a Crefisa, a condição de um dos maiores patrocínios do mundo.

O acordo estaria atrás apenas “dos gigantes espanhóis (Barcelona e Real Madrid), da potência alemã (Bayer de Munique), do novo rico francês (Paris Saint-Germain) e do top 6 inglês (Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham).

Para reforçar a afirmação de Sormani, outro integrante da mesa redonda, citando números da Footstats – empresa que, com apoio de soluções de inteligência analítica, produz dados e estatísticas sobre esportes – projetou que, ao fim da última rodada do campeonato, a diferença seria ainda mais avassaladora a favor do clube paulista, que atingiria 82 pontos, seguido de Internacional, com 59, e Flamengo, com 52. Além disso, o senso comum, no jornalismo brasileiro, associa, automaticamente, maior capacidade financeira a títulos, e o Palmeiras fora campeão no ano anterior.

Afinal, “lá fora” – leia-se, nos principais campeonatos da Europa – é assim. Não por acaso, outro integrante do mesmo programa vislumbrava a possibilidade de o Palmeiras – clube com origens italianas – tornar-se o “Juventus do seu campeonato”. A referência era ao fato de este time ter sido campeão das últimas oito edições do Campeonato Italiano, distanciando-se, em número de títulos de Milan e Internazionale, seus perseguidores mais próximos.[1] Como nos ensina a sociologia, no entanto, toda tentativa de transplantação cultural para sociedades de realidades diferentes é, no mínimo, problemática, estando sujeita a equívocos metodológicos e de análise, como o mecanicismo.

Na Itália, antes mesmo da atual hegemonia do clube de Turim sobre seus dois adversários, a competição, como regra, limitava-se aos três clubes citados. O último campeão não pertencente ao trio fora o Roma, no distante 2001. Com variações escassas, o número reduzido de reais competidores aos títulos nacionais repete-se, como regra, em Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha e França.

A única exceção é a Inglaterra, onde após uma maior redistribuição das cotas pagas pela televisão, em parcelas mais equânimes, passou a existir uma menor assimetria entre os clubes, permitindo que, nos últimos dez anos, quatro agremiações conquistassem o título da Premier League.[2] Os números ingleses, porém, também, são um tanto borrados pelos grandes investidores que compraram Manchester City e Chelsea, que, antes dessa mudança societária, encontravam-se distantes dos principais competidores do país.

Os dados apresentados reforçam a advertência da necessidade de cautela quando setores do jornalismo esportivo tentam transplantar mecanicamente paradigmas de centros futebolísticos marcados pelo duopólio ou pouco mais do que isso para uma realidade como a do futebol brasileiro, com diferentes e complexas identidades culturais.  Portadora de um caldeirão de possibilidades, esta permitiu que, entre 1959 e 2002 – último ano antes da era dos pontos corridos – 17 clubes fossem, ao menos uma vez, campeões brasileiros.

Mesmo a partir de 2003, quando, com a mudança para pontos corridos, o número de competidores efetivos ao título, foi afunilado, sete equipes venceram, ao menos uma vez, em 16 das edições realizadas até 2018. Tanto os números que contam o conjunto da história da competição, quanto os que se restringem ao período mais curto pós-2003 apontam para  inexistência de uma clara hegemonia, no futebol brasileiro, de um único clube ou da constituição de um duopólio, nos moldes europeus.

Brasil não é Europa

É verdade, porém, que esse maior pluralismo começa a ser desafiado a partir do aporte de recursos que ficam atrás apenas “dos gigantes europeus”, e da ampliação da assimetria na distribuição das cotas de TV, que se concentram em dois clubes.[3] Assim, nas edições entre 2015 e 2018, apenas Corinthians e Palmeiras revezaram-se no pódio. Se a análise estender-se para as primeiras posições, que asseguram classificação direta à Libertadores, se verá que a fatia de clubes de São Paulo pode, de fato, sinalizar uma concentração das equipes mais competitivas no estado mais rico da federação.

Uma exceção seria o Flamengo, um dos dois detentores – ao lado do Corinthians – da maior cota paga pela TV Globo – até 900% superior aos clubes mais tradicionais da última faixa constituída pela emissora. No entanto, pelo menos até 2018, o maior poder econômico desta equipe carioca não foi convertido em títulos no Brasileiro – apenas um na era dos pontos corridos – nem muito menos em conquistas internacionais, que não são, porém, o alvo deste artigo.

Tem-se, então, que buscar outras fontes para justificar a profecia peremptória do jornalista. Talvez, a junção de novos patamares econômicos com o antigo cacoete de comparar o futebol do Brasil com o da Europa, mas sempre, ou quase sempre, a partir do olhar europeu. Tal enviezamento já resultou em outros prognósticos,como o risco da espanholização do futebol brasileiro, que se reduziria a Flamengo e Corinthians; ou a constituição de um hegemon a partir de valores “mercantilistas”, como tamanho da torcida e do poderio econômico.

Fonte: exame.abril.com.r

Todos esses fenômenos, já examinados por mim e outros autores, embora devam ser observados com a devida atenção, no entanto, até o momento, ainda, não passaram por um processo de institucionalização que autorize uma equiparação, imediata e definitiva, com o paradigma hegemônico na Europa. O descompasso entre as profecias do jornalismo baseadas no senso comum e a realidade, no entanto, não servem de impedimento para que essas continuem sendo produzidas em série e alimentem, não raro, como dado de realidade, os debates das mesas esportivas e dos torcedores.

Um dos mais recorrentes é “Não pode deixar o Flamengo chegar, que é campeão”. Tal crença, aparentemente baseada no intervalo entre 1980 e 1983, quando o clube conquistou três dos quatro títulos em disputa, era reforçada, ainda, pela fraca performance do time nos anos em que não foi campeão, entre 1959 e 1980, com classificações que variaram entre o 24º lugar, em 1973 – pior posição no perído – e o 5º lugar, em 1976 – melhor posto no mesmo intervalo. A reivindicação de que o time se tornaria imbatível “quando chegasse” se sustentaria, assim, não apenas entre os títulos entre 1980 e 1983 – era mais vitoriosa da história do clube – como seria reforçada pelo parâmetro do “tudo ou nada”.

Após a década de 1980, porém, tal combinação não se sustentou nos fatos. Tanto o clube alcançou boas colocações quando não foi campeão – terceiro lugar (em 2016) e vice-campeão (2018) – como, em competições eliminatórias, nas quais ficaria mais acentuado o dístico “Não pode deixar chegar…”, tal profecia malogrou.

Para ficarmos apenas em exemplos mais recentes, em 2017, o clube foi derrotado pelo Cruzeiro, na disputa de pênaltis, na final da Copa do Brasil; no mesmo ano, perdeu o título da Sul-Americana para o argentino Independiente, após empate em 1 x 1, no Maracanã, que seguira à derrota, por 2 x 1, no primeiro jogo na Argentina. Em 2018, foi eliminado pelo Cruzeiro, nas quartas de final da Libertadores, após perder a primeira partida por 2 x 0, no Maracanã, e vencer o adversário por 1 x 0, no Mineirão. E, em 2019, foi a vez de o Athetico-PR eliminar o rubro-negro carioca, também, no Maracanã, na disputa de pênaltis.

Sustentar, porém, que tais descompassos entre a realidade e as convicções dos jornalistas em suas conjecturas seriam impeditivos a que o Palmeiras pudesse ser campeão do Brasileiro de 2019 e que o Flamengo possa ir adiante em jogos decisivos constituiria, em ordem inversa, um novo paradigma assentado também no senso comum.

Fonte: pretextouel.com

Uma das dificuldades de origem na crítica de outros ramos das ciências humanas ao texto jornalístico é a tendência a tratá-lo como uma espécie de sociologia mal posta ou mera propaganda ideológica. Tal abordagem peca por ignorar especificidade fundamental do jornalismo. Enquanto o texto sociológico busca dissecar os processos sociais, a notícia intenciona ajudar a familiarizar os leitores com os acontecimentos diários.

O exame dos exemplos que tratamos – e existem inúmeros outros equivalentes –  nos alertam, no entanto, para outro tipo de risco: ao elevar o senso comum à única, ou à principal, categoria de realidade, o jornalismo e os jornalistas aproximam-se, e fundem-se, com o entretenimento. Ao fazerem isso, misturam-se com papel mais talhado à jocosidade das torcidas, território a que também não deveriam filiar-se. Pois ao recusarem-se a manter a devida cautela em relação à excessiva aproximação do entretenimento, atuam, por exemplo, mais como personagens e/ou torcedores. Com isso, jornalismo e jornalistas correm o risco de contribuírem para a descontituição de um campo próprio construído longamente, ao longo dos séculos, desde a autonomização do jornalismo em relação à literatura.

Referências

GAYE, Tuchman. A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.

SOLOSKI, John. O jornalismo e o profissionalismo: alguns constrangimentos no trabalho jornalístico In TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993

SOUTO, Sérgio Montero. E 1987 não acabou – penta ou hexa: diferentes memórias sobre a hegemonia no futebol brasileiros quando o “mercado” entra em campo. . Joinville: 41º Intercom, 2018.

Notas de fim

[1] Com 35 conquistas, o Juventus tem quase o dobro de títulos nacionais sobre Milan e Internazionale, ambos com 18.

[2] Entre 2010 e 2019, Manchester City (quatro vezes), Chelsea (três), Manchester United (duas) e Leicester City (uma) revezaram-se nas conquistas.

[3] Para uma comparação entre a assimetria entre audiência, números de transmissões de partidas e distribuição de cotas de TV veja SOUTO, 2018.

Eventos · Produção bibliográfica

LEME marca presença no lançamento do livro “Tragédia Esportiva”

Na próxima quinta-feira (07) às 18h na Livraria da FGV, será lançado o livro Tragégia esportiva: o acidente aéreo que abalou o mundo do futebol. Organizado por Bernado Buarque de Hollanda, o livro conta com artigos do coordenador do LEME, Ronaldo Helal, e dos pesquisadores do laboratório Filipe Mostaro e Édison Gastaldo.

A obra analisa as representações e repercussões da queda do avião que transportava jogadores da Chapecoense e vários jornalistas esportivos em 2016, um acidente aéreo que abalou o mundo.

Na ocasião, o time catarinense estava indo disputar a final da Sul-americana, em busca do seu primeiro título internacional. O destino final era Medellín, na Colômbia, contra o time Atlético de Medellín, que após o acidente prontamente aceitou que o título fosse dado a Chapecoense.

No livro, os autores investigam diversos temas, dentre eles a comoção internacional em torno do caso, as circunstâncias do desastre, o processo de divulgação midiática e a construção da memória coletiva.

Produção audiovisual

Está no ar o terceiro episódio do podcast Passes e Impasses

Acesse o terceiro episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple Podcasts, PocketCasts e Anchor.

O tema do nosso terceiro episódio é “Estilos de jogo, técnicos e treinamentos”. Com apresentação de Filipe Mostaro, recebemos no nosso estúdio Próspero Brum Paoli, professor titular na Universidade Federal de Viçosa e coordenador metodológico do Vasco, e Mattheus Reis, pesquisador do LEME e jornalista da Rádio Globo.

Podcast #3

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o terceiro episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “Fio Maravilha”, composição de Jorge Ben Jor. Ao longo do programa, também trouxemos algumas referências bibliográficas, que listamos abaixo:

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Roteiro e Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro
Convidados: Mattheus Reis e Próspero Brum Paoli

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A guerra, o esporte de alto rendimento, e a sociedade competitiva. Os limites do esporte como prática saudável.

Nasci em 1971. Cresci ouvindo em todo canto que esporte é saúde. De fato, para o atleta recreacional que respeita os seus limites, esporte é não só saúde física, pois, comprovadamente, a atividade física é profilaxia de um sem número de doenças: diabetes, infarto, obesidade, câncer, entre outras; mas também é saúde mental, uma vez que a atividade física carreada pela prática esportiva secreta um conjunto de agentes bioquímicos que impacta diretamente em fatores que, sabemos, são importantes para a boa saúde da mente, tais como o humor, a sensação de prazer fisiopsicológica, e a gratificação pessoal, além do aumento da autoestima pela sensação do atleta de ter sido capaz de, meritoriamente, cumprir a sua tarefa.

O famoso dístico clássico, originário da Grécia pré-cristã, “corpo são, mente sã”, nunca encontrou tanto acolhimento e ratificação como nas conquistas das pesquisas médicas das últimas décadas. Não é sem razão que a maioria dos pais com bom nível instrucional anseie pôr o seu filho, desde cedo, para praticar alguma atividade esportiva. Até aqui, ok. Nada de novo. Sim, esporte é saúde. Sempre. Será?

Desde tempos imemoriais o homo sapiens se organiza, coletivamente, para realizar atividades que envolviam uma competição com regras bem estatuídas. Essas primeiras práticas que hoje chamaríamos de esportes – ou de algo correlato ao sentido moderno dessa palavra – envolviam várias dimensões da vida, como o lúdico, a interação com o outro para distender o espírito; o simbólico, que diz respeito às representações coletivas, e também de cada um, em uma dada comunidade; e o competitivo, onde impõe-se saber quem é o mais forte, o mais rápido, de melhor engendramento de estratégias ou com mais presteza de raciocínio sob pressão. O esporte constituía assim uma dimensão importante na geração de conhecimento sobre cada um em uma dada comunidade de pessoas aldeadas. Em decorrência de tudo isso, o esporte preparava, também, para a guerra. Precisávamos conhecer cada membro da nossa sociedade, a fim de saber como melhor poderíamos aproveitá-lo em combate. De forma curiosa, esporte e guerra sempre estiveram ligados – entendam, não como um vínculo direto e necessário, mas como algo que é dado pela nossa historicidade, como ocidentais.

Fonte: infoescola.com

O capitalismo, nos ensina o eminente historiador Fernand Braudel, se inicia, em sua forma comercial, ainda na baixa Idade Média, e avança através da relação da Europa com outros continentes a partir do século XV, aprofundando esse movimento nos três séculos seguintes. Durante esse período, designado como Idade Moderna, o capitalismo comercial, em sua fase mercantilista, teve como característica a vinculação da guerra à atividade econômica. Assim se deram as diversas conquistas dos povos Europeus nas mais diversas regiões do Globo, tais como as Américas, a Península indiana, o litoral chinês e o Sudeste da Ásia, entre outras. Mesmo no capitalismo industrial da Idade Contemporânea – a grosso modo, século XIX adiante – não faltaram guerras e invasões territoriais motivadas pelos imperativos desse sistema, do que dão farta nota as guerras imperialistas ocorridas na África e na Ásia desde o século XIX, atravessando o século XX em sua maior parte, a I Guerra Mundial, fortemente vinculada às disputas territoriais na África e na Ásia, a II Guerra Mundial, detonada pela invasão territorial da Polônia, e expandindo para a conquista de diversos territórios intra e extra-europeus, já que Hitler se orientava pela teoria do espaço vital do geógrafo alemão Friedrich Ratzel, pois reputava que a conquista territorial era um elemento indispensável na atividade guerreira. Os séculos XX e XXI mantiveram a guerra atrelada aos interesses da economia capitalista, como nos indicam as invasões norte-americanas ao Iraque neste século, vinculadas diretamente aos negócios do petróleo com o qual a família Bush e toda a alta camarilha do seu governo estavam profundamente e diretamente envolvidos.

Notem que não pretendo fazer aqui um inventário, que seria bastante vasto, das guerras e invasões territoriais motivadas pelos interesses capitalistas na Era Contemporânea. O que pretendo com esse breve excurso é mostrar como, desde o século XV, a guerra sempre esteve presente como um elemento inseparável da economia capitalista após o “desencravamento planetário”, para usar um termo do também historiador francês Pierre Chaunu, que indica o início da interação entre as diversas regiões do globo através da chave do capitalismo em sua fase de expansão territorial mercantilista. Isso supôs uma presença da guerra em nosso cotidiano. Ou porque invadíamos, ou porque éramos invadidos em nosso território. Não obstante, nos mostra o sociólogo estudioso da violência, Michel Misse, os séculos XIX e XX foram os mais pacíficos do Ocidente, se vistos como aqueles com menor incidência de guerras. Nada mais dentro do novo momento do capitalismo pós Revolução Industrial, e que superou o paradigma do capitalismo comercial mercantilista, o que o permitiu ser menos dependente da conquista territorial para o seu desenvolvimento. Com o passar do tempo, a guerra passou a ser vista como algo inconveniente por grande parte das elites econômica e política, para não falar, claro, do conjunto das populações de cada país. Não sem razão, foi no contexto desse movimento de diminuição de ocorrência de guerras, próprias de uma nova fase do capitalismo, que surgiu a febre da prática esportiva, no século XIX. Não queremos aqui explicar as razões do surgimento da voga da prática esportiva no Oitocentos, mas apenas notar que foi nele que ela surgiu. Essa voga do esporte se traduziu em grandes eventos internacionais, iniciados desde fins do século XIX, do que dá nota o início dos Jogos Olímpicos modernos, em 1896. O século seguinte aprofundou a realização de grandes eventos esportivos internacionais, como o agigantamento progressivo dos Jogos Olímpicos, o surgimento e agigantamento progressivo da Copa do Mundo de Futebol, entre diversos outros grandes eventos esportivos pelo mundo.

Fonte: ebc.com.br

Tomando por base esse desenrolar das coisas no Ocidente, alguns antropólogos desenvolveram a ideia de que a voga da prática esportiva na Idade Contemporânea e das grandes e pequenas competições que se disseminaram nela seriam representações da guerra e, muitas vezes, das guerras de conquista do território do inimigo. Nem todo esporte envolve conquista territorial, como são os casos do atletismo, natação, vela, ciclismo, ginásticas, entre outros; mas vale notar que entre os dez esportes mais populares do mundo somente dois não envolvem a conquista do território, sendo que entre os três mais populares, todos envolvem conquista territorial. O esporte mais popular do mundo, e que envolve a maior competição esportiva internacional, a Copa do Mundo, é claramente um esporte de domínio e conquista territorial, além, claro, no caso desse esporte, de defesa do seu território contra o “inimigo”. Os Estados Unidos, a nação mais rica e poderosa do mundo desde os últimos cem anos, também tem entre os seus esportes prediletos, esportes dessa natureza, como o basquete, o beisebol e o futebol americano. Com o avançar do século XX, o esporte foi se vinculando cada vez mais, e com um peso cada vez maior, à ideia de conquista. Ao que parece, o esporte seguiu a lógica do capitalismo de sua época, cada vez mais ligado a ideia de competitividade e de conquista sobre o outro, com regras, e sem derramamento de sangue.

Fonte: diarioav.com.br

Para alguns antropólogos, os esportes de conquista territorial seriam uma representação da guerra, sua tradução civilizada, com regras bem sedimentadas e, quase que totalmente, sem mortes. Mas a ideia de embate/combate ficou bem preservada, do que dão nota os jargões esportivos, como “A batalha dos Aflitos”, para indicar um jogo disputado e emocionante, ou o “matador”, para aludir a um centroavante goleador, que também é conhecido como “artilheiro”, ou mesmo a ideia de “tiro”, para indicar a cobrança de uma falta no futebol, tiro livre direto ou indireto, ou o “tiro” de três (pontos) no basquete. A própria palavra gol, se percebermos bem, vem do inglês goal, e designa objetivo, ou seja, conseguir executar um objetivo previamente estabelecido, algo inerente às estratégias de guerra. No basquete, os pivôs são as “torres de defesa” e, nos EUA, encontramos o toque de sopro de cavalaria em estádios e ginásios, em alguns jogos desses esportes. Na América do Sul e na Europa, infelizmente, as chamadas torcidas uniformizadas (está aí mais um elemento da atividade militar, o uniforme que nos distingue do outro), entoam funestos cantos de guerra, afirmando que vão matar os fulanos, do time adversário. Algumas torcidas organizadas cantam hinos de caráter político ou religioso, como no futebol escocês, onde aparecem as disputas entre católicos e protestantes, históricas nesse país. No Brasil, algumas torcidas organizadas se subdividem fazendo uso de termos militares, como pelotão ou falange, entre outros. E é impossível não lembrar como o conflito físico direto entre as torcidas de futebol e basquete se fazem presentes no Brasil e em outras partes do mundo, não raro levando alguns de seus torcedores a óbito.

Fiz todo esse excurso histórico e evidenciei a associação entre alguns dos esportes mais populares e a guerra, para falar da evolução do esporte no mundo, cada vez mais, em direção ao chamado esporte de alto rendimento, e eu acrescentaria, de alta competitividade. Esse primeiro movimento teve o fito de preparar o terreno para respondermos aquela primeira pergunta, que fiz no início desse artigo, a saber: esporte é saúde sempre?

Ora, para além dessa presença estrutural do signo da guerra nos esportes mais populares, cabe notar que, conforme o esporte foi se imbricando com o capitalismo, a fim de ser mais um produto para consumo apropriado por esse, ele foi absorvendo o ethos de alta competitividade dessa ordem econômica, pois aparecem mais as marcas vencedoras, porquanto são elas as mais exibidas sob as luzes dos holofotes dos mass media, e vinculadas a uma emoção de vitória. Os estudos neurolinguísticos mostram a importância da associação da marca com uma experiência de emoção intensa positiva. Não é sem razão que nos estádios e ginásios esportivos os anúncios pagos mais caros estão postados em setores em que há a maior probabilidade do jogador passar ostentando diversas marcas em seu corpo após realizar um gol, cesta, touch down ou êxito que o valha em outro esporte qualquer.

Fonte: si.com

Os atletas nunca se esfalfaram tanto em rotinas de treinamentos de dar inveja no treinamento e exigências físicas de muitos militares, quando não chegam às raias da obsessão, compulsão e excesso, como dão nota os casos de Cristiano Ronaldo no futebol, de Michael Phelps, na natação e de Novak Jokovic, no tênis. Mesmo um ídolo nacional associado à caridade e à figura do “bom moço”, como foi Airton Senna, treinava se esganiçando com o Prof. Nuno Cobra, sempre com a perspectiva exauriente de superação dos próprios limites.

Todo atleta competitivo que disputa os grandes certames internacionais necessita hoje de uma camarilha de fisiologistas, médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, especialistas em preparação física e, mais do que nunca, psicólogos. A competitividade chegou a um limite tal que ficou impossível triunfar em grandes competições sem esse staff de apoio. A relação entre as trocas iônicas entre sódio e potássio devem estar ajustadas para o seu ponto optimum durante a competição, dado o desgaste físico descomunal a que é submetido o atleta de hoje, tempos de estupenda competitividade do capitalismo neoliberal globalizado. Rotinas de dietas e exercícios físicos escorchantes, seja para aquisição de mais massa muscular ou resistência e treinamentos técnicos intensos, fazem parte de anos, por vezes de décadas de trabalho duro e sacrificante por parte do atleta de alto rendimento. O atleta de hoje não pode ser um homem, deve ser um super-homem programado para o triunfo sobre o adversário, tal como vivemos hoje em nossa competitividade junto ao mercado de trabalho ou no empreendedorismo. Temos todos que ser fluentes em inglês e espanhol. Logo será a vez do chinês mandarim. Temos que ter o terceiro grau completo, mas com pós-graduação, que fique bem claro, de preferência uma MBA, além de dominarmos diversas linguagens de informática e estarmos up to date com as inovações advindas da tecnologia, e um grande preparo físico e mental para corrermos para lá e para cá e respondermos a qualquer hora do dia, ou dia da semana, as nossas mensagens de whatsapp, e-mail, messenger do facebook, além, é claro, do LinkedIn. E ai de quem esquecer qualquer desses detalhes! Será que é só a arte que imita a vida?

Fonte: br.jetss.com

O resultado dessa roda viva literalmente insana que tomou de assalto a nossa vida diária e a prática esportiva de alto rendimento é um invariável comprometimento de nosso bem-estar, de nossa saúde, física, mental e psíquica. Não é pequeno o número de ex atletas de alto rendimento que passaram a necessitar de acompanhamento médico por toda a vida. Problemas nos joelhos, púbis, tornozelo, ombro e ligamentos os mais diversos são chagas que esses atletas carregam, por vezes, por uma vida inteira, para não falar das privações emocionais próprias de quem deve se isolar em concentração para jogos e/ou por longas competições inteiras. Recentemente, muitos puderam ver em seus smartphones o vídeo de um técnico de basquete europeu, questionado em sua conduta profissional por um repórter, que achou equivocada a liberação de um jogador de basquete – por um acaso um brasileiro, Augusto Lima – para viajar ao Brasil, a fim de ver o nascimento de seu filho. Não pode. O jogador deve se sacrificar pelo time como o funcionário de hoje deve fazê-lo pela competitividade da empresa, ou o soldado pelo seu exército na guerra.

O que pode pagar um pai impedido de ver o seu filho nascer? Ou de estar ao lado de sua mãe ou pai em seu leito de morte? O que pode pagar as dores crônicas, consequência de um estresse do organismo pelo excesso de solicitação física? O que paga a subtração do atleta do meio de afeto familiar e dos amigos? A fome pelo controle do peso associado a super doses de exercícios físicos? O que paga o estresse, a ansiedade e a angústia de se viver em competição, viver para competir ?

Viver em competição é viver em estado de guerra constante, não somente na vida esportiva, como na vida social ou afetiva. Quem vive no constante e frenético movimento da competitividade para superar o outro não pode viver em boa saúde, em situação de bem-estar. Esta requer ciclos equilibrados de atividade laboral e descanso, de foco no trabalho e fruição dos afetos de familiares e de amigos, entre a boa conduta alimentar e momentos de celebração da vida, onde, reparem, a comida está sempre presente e pede distensão da regra em nome da celebração da vida.

Fonte: youtube.com

Esporte e trabalho regulamentado fazem bem à saúde. Já o esporte de alto rendimento e alta competitividade assim como o trabalho constante e competitivo, cheio de metas e conceitos desumanos de produtividade, não só não fazem bem algum, como, para aqueles mais críticos, põem em causa a própria razão e sentido de fazermos as atividades que fazemos. Ser campeão é a única maneira de cada um ser feliz? Só há lugar de reconhecimento para aqueles poucos que sobem ao podium? Essa é uma pergunta que deve balizar as nossas reflexões sobre o sentido do emprego cotidiano de nossas energias, sejam elas consumidas no esporte, ou em qualquer outra atividade humana, como no trabalho ou na qualidade das relações que entabulamos com outras pessoas.

Talvez a aquisição incessante de competitividade, a busca do triunfo a qualquer custo como valor maior orientador do que fazemos, não seja o melhor caminho para o ideal grego antigo de “corpo são, mente sã”. Talvez a consecução desse ideal não passe por esses conceitos, mas por outros, como perseverança, senso coletivo, solidariedade, colaboração, constância, autocuidado e afinidade. O movimento de tudo o que se pretende produtivo e competitivo, ou sequioso de triunfar sobre o outro, é antagônico a nossa presença de fato em todas as diversas dimensões constitutivas da vida, que nos engrandecem. Nesse caso, repensar os rumos que os esportes andaram assumindo nas últimas décadas seja repensar o próprio fundamento daquilo que nos engrandece. Algo que une atletas e não atletas, fãs e gente distante do esporte: a nossa condição humana, onde o jogo está para além dos enquadramentos dos esportes de alta competitividade e das práticas sociais hegemônicas. Repensar o esporte e os valores a serem cultivados na vida em sociedade deve ser uma marca da tomada de consciência de que a vida humana em seu conjunto é onde o jogo é para valer.

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Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil?

Graças especialmente à entrada do DAZN na transmissão de eventos esportivos em 2018, uma pergunta comum que venho recebendo em palestras, apresentações de trabalhos e aulas (enquanto estudante de doutorado ou professor) é sobre a situação da transmissão do futebol no Brasil.

Apresentaremos a situação atual considerando a defrontação de capitais, seguindo adaptação da Economia Política da Comunicação dos estudos heterodoxos de análise de concorrência para análise dos mercados comunicacionais, entendendo, a partir de Possas (1987, p. 173, grifos do autor), que a concorrência é considerada como o “motor básico da dinâmica capitalista”, em que as estruturas de mercado representam a busca por derrubada e manutenção das barreiras à entrada e o alcance da liderança.

Quando comecei a estudar a apropriação midiática do futebol, em 2010, tínhamos um cenário claro. Controle do Grupo Globo (então “Organizações Globo”) na TV aberta, na TV fechada e na oferta do pay-per-view dos direitos dos torneios nacionais e da Seleção brasileira. Na TV fechada, a ESPN Brasil (Disney) transmitia os principais torneios europeus. Enquanto a Rede Record havia adquirido os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos (Verão e Inverno) por dois ciclos.

De lá para cá, a Record foi perdendo o fôlego na disputa por direitos esportivos, acabando praticamente com qualquer disputa na TV aberta, após a Globo atuar de forma muito forte para assegurar a transmissão exclusiva do Brasileiro a partir de 2012.

Entretanto, na TV paga, entraram os canais Fox Sports, com o bônus dos direitos da Libertadores, e o investimento do grupo Warner Media (então “Time Warner”) nos canais Esporte Interativo, que adquiriram por dois triênios seguidos os direitos da Liga dos Campeões da Europa. Isso acabou com o duopólio de concentração de direitos, gerando batalhas para a entrada nas duas principais distribuidoras do país (Net e Sky).

Assim, viveu-se uma década de grande aumento nos direitos de transmissão, numa tentativa de novos agentes de derrubar as barreiras de mercado presentes e se colocarem como líderes. É nesse âmbito que já em 2012 o Esporte Interativo desenvolve o EI Plus enquanto plataforma que poderia ser adquirida à parte (OTT – Over The Top), com a transmissão de todos os campeonatos que a empresa detinha os direitos, com alguns jogos em exclusividade apenas pela plataforma.

Porém, a tendência de crescimento de assinantes de TV paga mudou a partir de 2014, com crise econômica, aumento do desemprego e diminuição do salário real (descontada a inflação) e a maior oferta de plataformas de internet mais baratas. O efeito mais visível foi ver que a transmissão de eventos de forma exclusiva mudou para uma negociação por divisão e troca de direitos, com alguns deles não sendo adquiridos (casos dos campeonatos italiano e francês na temporada 2018/2019) e caindo no colo de novas plataformas.

Outros efeitos mais estruturais no mercado de TV fechada foram o fim dos canais Esporte Interativo em 2018; e a venda dos canais Fox para a Disney, forçando uma compra dos canais Fox Sports por outra empresa que não seja a própria Disney ou o Grupo Globo, o que pode redundar numa volta ao duopólio na TV fechada.

Enquanto isso, cada grupo produtor de conteúdo audiovisual passou a isolar a sua plataforma de streaming. Focando nos esportes, o Grupo Globo possibilitou a assinatura dos canais Combate e do Premiere FC apenas para mídias móveis, sem a necessidade de ser assinante de operadora de TV fechada; a Fox criou o Fox Premium; o EI Plus é ofertado também para clientes da Tim, da Nextel e da Vivo, dentre outros parceiros; enquanto surgiram diversas novas plataformas: DAZN; Live FC (Copa do Nordeste); My Cujoo (plataforma de transmissão de futebol com poucas câmeras e em acordos com a CBF e outras federações); TVN Sports (sociedade com o Grupo Netshoes) para esportes como futsal, basquete feminino e automobilismo; além das transmissões em Twitter e Facebook – com as quatro últimas sendo gratuitas.

Quando a CBF resolveu transmitir dois amistosos da Seleção (contra Austrália e Argentina) na TV Cultura e pelo Facebook, tentando aumento nos valores recebidos para amistosos e jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo FIFA 2022 da seleção masculina principal, eu já via isso como um problema de limitação de acesso, pois a maior parte da população brasileira tem acesso à internet pelo pacote de dados de telefonia móvel, que não suporta por muito tempo transmissão de vídeo.

Além disso, a evolução tecnológica na transmissão de imagens (da TV digital à internet) trouxe mais demora para que o sinal seja exibido nas nossas casas, o que faz com que jogos na TV aberta ou anúncio de gols em aplicativos possam ser mais rápidos, podendo mudar a lógica de acompanhamento.

Mas o grande problema se vê neste momento, não só para o caso do nicho esportivo. A maior “oferta” de canais para acompanhar futebol faz com que o torcedor tenha que ser assinante de diversas plataformas, o que, na soma, pode dar mais que o pacote básico da TV fechada. Lembrando que não houve uma difusão de conteúdos esportivos relevantes (Brasileiros de Séries A e B, Liga dos Campeões da Europa, jogos de Seleção etc.) em plataformas de empresas diferentes, mas restritos àquelas de determinado conglomerado ou empresa. Num futuro próximo, isso pode se tornar um modelo inviável financeiramente para o mercado brasileiro – como já ocorreu na própria TV paga ao atingir seu ápice de assinantes.

A lógica já utilizada pelo EI Plus (Warner Media) nos parece ser uma solução possível em médio prazo, em que, além da venda direta para o cliente, o acesso a determinados torneios possa ser vendido em bloco por uma intermediária. O DAZN, por sinal, assinou acordo em agosto deste ano com a TIM para o Campeonato Italiano entrar no serviço de audiovisual da gigante de telefonia.

Assim, é importante olhar isso com cuidado, entendendo que estamos vivenciando um processo de mudanças e é difícil ter uma definição sobre o futuro. Basta olhar o que mudou no que se pensava há 5 anos, auge da Netflix na oferta de conteúdo audiovisual – viu-se nos últimos anos uma pluralidade de empresas atuantes no setor. Esses casos confirmam a seguinte afirmação de Possas (1980, p. 108):

Este [processo competitivo] aparece como um processo de ruptura da “estrutura competitiva” estabelecida, via de regra através da introdução de inovações (tecnológicas, de produtos, de novos mercados) ou da centralização de capitais existentes (em termos gerais, modificação na distribuição das parcelas do mercado, o que abrange a entrada ou saída de capitais no ramo considerado). O impacto desta alteração da “estrutura competitiva” tenderá a difundir-se ou a acomodar-se em maior ou menor rapidez, em função da própria origem e intensidade da ruptura inicial e das características estruturais (tecno-produtivas e de concorrência) do ramo em questão.

No caso da produção de bens simbólicos em plataformas midiáticas, as mudanças se dão cada vez num tempo menor e, inclusive, exigem mudanças na legislação – a Ancine esteve até o dia 14/10 com consulta pública sobre o impacto regulatório no VOD (Vídeo Sob Demanda). Resta acompanhá-las até o momento em que a estrutura possa vir a se acomodar.

Nota de fim

¹ Em agosto, eu participei de um episódio do podcast 45 de Acréscimo sobre “Novas formas de transmissão”.

Referências bibliográficas

POSSAS, Mário Luiz. Dinâmica e concorrência capitalista: uma interpretação a partir de Marx. São Paulo: Hucitec, 1989.

POSSAS, Mário Luiz. Estruturas de mercado em oligopólio. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1987.