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O que a nova gramática do futebol nos revela sobre as escolhas desse esporte?

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Já vai longe o tempo em que o lazaronês[1], com sua fala complicada era alvo da jocosidade do jornalismo esportivo e das torcidas. Cerca de 40 anos depois daquilo que era, majoritariamente, tratado como sinônimo de falar empolado para encobrir deficiências táticas, a nova gramática dos treinadores foi elevada ao estado da arte para explicar o futebol. E, não apenas no meio de técnicos e da boleirada, mas, também do jornalismo, antes bem menos permeável a tais retóricas esvaziadas de sentidos.

Se adotarmos um olhar mais cético e mais crítico, podemos desconfiar fortemente que, na verdade, estamos diante de uma operação discursiva que ressignifica antigas expressões futebolísticas, para que, nessa metaformose linguística, se amplifique o poder dos treinadores, e torcedores e jornalistas deixem de debater, e cobrar, a essência do que se passa em campo.

Entre neologismos ou palavras que tiveram seus significados originais reconfigurados, citamos: linha alta; linha baixa; último terço do campo; verticalizar o jogo; atacar a bola; extremo, 4-2-1-2-1… Em tempos não tão remotos, tais palavras e expressões eram facilmente compreendidas, por público e imprensa, como, respectivamente: adiantar a marcação; marcar no seu próprio campo; proximidade da área, jogar para frente; não ficar parado esperando a bola; ponta (direita ou esquerda). Já sobre a sopa de números, a aparente sofisticação da numerologia treineira pode nos dar outras pistas.

Embora o futebol seja esporte dinâmico, nem sempre traduzível ou reduzível a números, as antigas numerações davam conta de explicitar que, entre as três faixas em que se divide o campo de futebol – defesa, meio-campo e ataque – determinados times jogavam, em geral, com quatro defensores; e alguns poucos, no Brasil, recorriam a um terceiro zagueiro, somando, assim, cinco na defesa. No meio-campo, entre jogadores mais marcadores – cabeça de área, volante – e de criação – armadores – havia time que optava por três ou quatro nessa posição. Com isso, no ataque, tinha-se, respectivamente, três ou dois atacantes.

Tudo isso, teoricamente, porque, com a bola rolando, uma série de fatores imponderáveis e a dinâmica da partida é que iam definir se a rigidez tática seria mantida ou moldada pelos acontecimentos. Apesar disso, a sinalização era clara: quem jogava com quatro no meio-campo buscava fortalecer esse setor, sem, no entanto, garantias de que o desejado fosse confirmado no gramado. Já quem priorizava o ataque, optava por escalar mais um atacante, renunciando a um jogador no meio. Dentro dessas configurações táticas, abria-se uma miríade de possibilidades, a depender, em grande medida da qualidade dos escalados para cada função e da imprevisibilidade inerente a um jogo de futebol.

Um meio-campo marcador que, também, soubesse sair para o jogo, poderia, como no Brasil x Uruguai, da Copa de 1970, trocar de posição com o armador e aparecer na frente, não apenas para municiar o ataque, como para marcar um gol, como ilustrou a troca de posições entre o volante Clodoaldo e o armador Gerson, muito marcado pelos uruguaios naquela altura da partida.

Também o clube que, na prancheta do treinador, desfilava o 4-3-3, poderia deslocar um atacante, geralmente o ponta-esquerda, para compor o meio-campo quando seu time não tinha a bola. Ou ainda quem entrava com quatro no meio, quase sempre com mais marcadores do que criadores, podia liberar os laterais – em algum momento, rebatizados de alas, embora continuem a ser cobrados, centralmente, por suas funções defensivas (?) – para ajudarem a apoiar o ataque.

Mais uma vez, era a dinâmica da partida que confirmaria ou reconfiguraria as estratégias do treinador. No entanto, quando a gramática hodierna dos técnicos anuncia esquemas como 4-2-1-2-1 ou afins, tais numerologias são quase automaticamente naturalizadas pelo jornalismo esportivo como questões dadas, sem que se deem conta de contradição emblemática: por trás de uma suposta camada de modernidade, o que os técnicos estão defendendo é ser possível, em plena era da necessidade de compactação em campo, seccionar tanto o meio quanto o ataque.

Assim, se o 2-1-2 inicial significaria que, em teoria, a equipe teria dois jogadores mais próximos da área, um mais livre, em tese, e, se tiver talento, para armar o time, e dois que encostariam no solitário jogador que seria o único atacante explícito. Ora, esquemas táticos dependem da quantidade de talento dos que o executam. Então, se poderia perguntar: nessa pretensa modernidade, Iniesta, no seu tempo de Barcelona, antes e depois da dupla com Xavi, seria volante (um dos 2 à frente da zaga ou ainda o 1, se a configuração definida pelo treineiro for 4-1-3-3 ou seria armador?

Se a resposta for a primeira, como explicar a constante presença dele próximo da área adversária, inclusive, no momento em que este tinha a bola. Caso se fixe na segunda possibilidade, qual a explicação para quando, também recorrentemente, iniciava o ataque do time catalão a partir da entrada da sua área? Não seria Inieta a personificação da desconstrução da “muderna” numerologia treineira, ao mostrar que, no futebol contemporâneo, resta pouco espaço para meio-campistas que se limitem a marcar ou que, sabendo jogar, se recusem a participar da marcação? E que a principal preocupação de um treinador deve ser evitar que sua equipe atue com três setores estanques, para não conceder espaços generosos ao adversário?

Assim, ao se concentrar em números que empiricamente raramente são confirmados em campo, o jornalismo esportivo deixa de questionar se essa nova gramática não serve para encobrir visíveis inconsistências táticas dos nossos treinadores. Na nova gramática treineira ou “delírios táticos”, na expressão de Tostão, poucas sintetizam tal indigência como a popularizada “saber sofrer”. Traduzida na prática, significa que, sem opções de ataque, um time vai ficar submetido à sorte de, entre os constantes ataques do adversário, torcer para não sofrer um gol. Assim, a cada bola cruzada na área ou chute desferido de perto do goleiro, a torcida desse clube deve, entre unhas roídas e respiração acelerada, celebrar a genialidade tática do seu treinador.

Se a essa nova definição de defensivismo somar-se a celebrada “jogar por uma bola”, o jornalismo crítico não deveria vacilar, a exemplo do que fazia em tempo não tão remoto, em qualificar tal opção como “retranca”, “futebol covarde” ou “time sem opções”. No entanto, como disse Marcelo Bielsa, ao utilizar o mesmo comportamento mobilizado para amplificar o reconhecimento na vitória para condenar o comportamento na derrota, a imprensa – e não apenas a brasileira – “especializou-se em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”.

E tal comportamento não se limita à defesa do resultadismo, como criticava o treinador argentino, mas, também, serve para naturalizar uma gramática que, ironizada em momento mais brilhante do nosso futebol, passou a ser reproduzida acriticamente. Fica a provocação: a perda de qualidade levou à necessidade de colocar camadas retóricas esvaziadas de sentidos aos discursos dos treinadores ou foi o inverso? Ou será que ambos caminharam juntos?


[1] No período em que dirigiu a seleção brasileira, entre 1989 e 1990, Sebastião Lazaroni, além de anunciar o início da “era Dunga”, que substituiria o “futebol-espetáculo”, notabilizou-se por explicações como: “galgar parâmetros”; “lastro físico”, “pijama-training”  e “intenção sinergética”. Várias delas soam como primas da “treinabilidade” e do “oportunizar”, do titês, este, no entanto, idioma assumido, sem ironias, pelo jornalismo esportivo.

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O fardo de Ramírez

O jogador Ramírez. Reprodução: Internet

O racismo é uma atitude detestável.

E precisa ser combatido.

Dito isso (são as duas primeiras frases deste artigo), é importante dizer também que a luta contra o racismo não se faz com injustiças.

O atleta colombiano Juan Pablo Ramírez Velásquez (também conhecido como Índio Ramírez), do Esporte Clube Bahia, carrega um fardo de injustiça que já não devia mais estar em suas costas.

Foi acusado, em dezembro de 2020, de ter praticado racismo em uma partida contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Teria ofendido com injúria racial o jogador Gerson. Ramírez negou.

O colombiano foi afastado do time pela direção do próprio Bahia. O clube, sem demora, contratou peritos para analisar o caso. Esses peritos não encontraram nenhuma prova de que houve injúria racial. O presidente do Bahia, diante disso, reintegrou o atleta ao time. “A gente se esforçou, esforçou e não conseguiu identificar uma outra prova ou circunstância além da palavra da vítima”.

Nem os peritos contratados pelo Bahia, nem qualquer outra investigação comprovou a prática de racismo por parte de Ramírez. O STJD, então, fez o óbvio: arquivou o caso por falta de provas.

Ramírez poderia respirar aliviado. Ou não?

O fardo continua. No último dia 9 de outubro, o GE (mais especificamente, o GE São Paulo) produziu uma matéria televisiva que foi veiculada nacionalmente. O assunto era um relatório sobre casos de racismo no esporte em 2020.

A matéria de 3 minutos e 16 segundos dedicou meio minuto à denúncia contra Ramirez.

Disse a reportagem:

  • na súmula da partida, o árbitro declara que não ouviu nenhuma ofensa
  • o atleta Gerson prestou queixa e foi registrado um boletim de ocorrência, mas o Ministério Público solicitou o arquivamento do inquérito (solicitação atendida por um juiz)

Evidência contra Ramírez, além da acusação de Gerson, nenhuma.

Eis a situação: para o árbitro da partida, para os peritos contratados pelo Bahia, para o STJD, para o Ministério Público e para a Justiça comum, não se pode dizer que Ramírez praticou racismo. Para o GE, a denúncia contra Ramírez pode ser chamada (como foi) de “caso de discriminação racial no futebol”, desprezando-se a palavra “denúncia” e sem qualquer ênfase para o fato dessa denúncia não ter sido comprovada.

Por quanto tempo mais a denúncia contra Ramírez (não comprovada e judicialmente arquivada) será exposta nacionalmente em matérias recheadas de casos de racismo (esses outros, sim, documentados e comprovados)?

Por quanto tempo mais Ramírez carregará esse fardo?

GUILHERME BELLINTANI (Presidente do E. C. Bahia). Afastou Ramírez do time e o reintegrou três dias depois. Reprodução: Internet

Para completar, algumas palavras sobre o princípio da presunção de inocência.

O Esporte Clube Bahia, em nota oficial publicada horas depois da denúncia contra Ramírez, declarou que o seu atleta negava “veementemente” a acusação, mas seria afastado assim mesmo, pois “a voz da vítima” deveria ser preponderante nesses casos.

Passaram-se dez meses e ainda não se comprovou que houve um ofensor e, portanto, um ofendido (ou seja, uma “vítima”). Já o Bahia, muito apressado, chamou Gerson de “vítima” menos de seis horas depois de encerrada a partida contra o Flamengo e o fez em uma nota oficial divulgada pela internet.

Alguém poderia ter advertido o presidente do Bahia que, se Gerson já era considerado “vítima”, Ramírez já era considerado “culpado”. E poderia também, logo em seguida, lembrar-lhe que isso afrontava o princípio da presunção de inocência, consolidado ao longo de muitas décadas e à custa de muito esforço intelectual.

Talvez até alguém o tenha feito, já que o presidente decidiu reintegrar Ramírez quatro dias depois daquela famigerada partida contra o Flamengo.

Atualmente, Ramírez ainda é atleta do Bahia e disputa partidas normalmente.

Parte da imprensa (dita progressista e que adotou a bizarra tese do “a voz de quem denuncia é a voz da vítima e deve predominar desde o momento em que a denúncia é feita”) poderia seguir o exemplo do presidente do Bahia e retirar das costas de Ramírez esse fardo que não lhe cabe.

Talvez aconteça algum dia. O GE, por enquanto, ainda acha que não é o momento, apesar do que já decidiu o STJD e a Justiça comum.

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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

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Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo segundo episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo segundo episódio é A Copa do Mundo de 1930. Com apresentação de Fausto Amaro e Abner Rey, gravamos remotamente com Alvaro do Cabo, doutor em História Comparada pela UFRJ, mestre em Comunicação Social pela UERJ e professor.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo segundo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi Uruguay nomás” de Jorge Drexler.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Fútbol, identidad y poder – Andreas Morales [livro]

Maracanã: Os labirintos do caráter – Franklin Morales [livro]

Textos do pesquisador Gaston Laborido [artigos]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Fausto Amaro e Abner Rey
Convidado: Alvaro do Cabo

Eventos

LEME divulga instituição beneficiada pelo Seminário “Agora é com elas”

A taxa de inscrição para o Seminário Internacional “Agora é com elas” será direcionada para a ACAFF – Academia de Futebol Feminino, um projeto social que atende mulheres e meninas em São Bernardo do Campo, São Paulo.

A iniciativa conta com mais de 300 atletas de diversas idades e cerca de 20 voluntários, dentre eles professores e profissionais de apoio. Os treinos são gratuitos e acontecem, principalmente, no Centro Esportivo Baetinha, graças à parceria com a secretaria de Esportes de São Bernardo do Campo. 

Imagem extraída do perfil no Instagram da ACAFF.

Autores com resumos expandidos aprovados devem realizar o pagamento diretamente para a instituição e enviar o comprovante para os seguintes endereços de e-mail:

acaff.oficial@gmail.com

seminariocopadomundodemulheres@gmail.com

Caso um mesmo resumo expandido seja escrito por mais de uma pessoa, todos os autores devem efetuar o pagamento da inscrição se desejarem receber certificado de participação. Cada trabalho terá até 15 minutos para ser apresentado, podendo esse tempo ser dividido entre um ou mais autores do resumo. Ao final das sessões, haverá discussão dos trabalhos entre os autores presentes na sala de reunião do Meet.

Os autores receberão certificado digital de participação.

Valores das taxas

Estudantes de graduação: R$ 10

Demais: R$20 ou mais (fica à critério dos autores)

Novo prazo de pagamento

22 de setembro a 15 de outubro

Dados bancários da ACAFF

Banco Santander

Agência 0060

C/C 130093264

CNPJ 28.805.082/0001-60 (caso deseje efetuar o pagamento por PIX, use esse número)

Mais informações sobre a instituição podem ser obtidas nos perfis do Instagram e Facebook.

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo episódio é Futebol e colecionismo. Com apresentação de Mattheus Reis e Fausto Amaro, gravamos remotamente com Daniela Alfonsi e Paulo Pires. Daniela é doutora em Antropologia Social pela USP, colaboradora da EXPOMUS, e curadora da exposição temporária “Tempo de Reação 100 anos do Goleiro Barbosa”, no Museu do Futebol, onde foi diretora de conteúdo até 2020. Paulo é colecionador de camisas e outros itens de futebol, participou do documentário do LEME “Segunda Pele Futebol Clube” e é dono do canal “Museu Vascaíno” no Youtube.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Volver a comenzar“, interpretada pela banda mexicana Café Tacvba.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Exposições on-line do Museu do Futebol – Google Arts and Culture [exposição]

Sagrada Arte de Colecionar Figurinhas – Luiz Henrique de Toledo [artigo]

Do 1 ao 11 – Dario Lourenço Junior [livro]

Museu Vascaíno [Canal no Youtube]

Memórias da Bola FC [Canal no Youtube]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Fausto Amaro
Convidados: Daniela Alfonsi e Paulo Pires

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Práticas de incentivo ao Futebol Feminino

Sabemos que a realidade do futebol feminino brasileiro ainda não é nada acolhedora e inclusiva. Muitas são as barreiras que as mulheres driblam todos os dias para conseguirem praticar sua paixão e perseverarem no esporte. Além do preconceito, a escassez de incentivos prejudica o desenvolvimento do modo de jogar e, consequentemente, o resultado nos campeonatos e a formação de novas atletas.

O Brasil conta hoje com relativamente pouco estímulo ao futebol de mulheres, em comparação com o futebol masculino, fazendo com que a curiosidade e a atração pela modalidade acabem não sendo desenvolvidas em muitas meninas. Afinal, quem não conhece, não tem como amar. Nosso país necessita, portanto, despertar cada vez mais o interesse pelo esporte em jovens mulheres, a fim de que novas atletas sejam formadas.

Felizmente, já podemos enumerar alguns inspiradores projetos que buscam promover o esporte feminino. Aqui falamos de escolinhas profissionalizantes de meninas, como as do Flamengo, PSG e Corinthians. Conseguimos observar um pequeno, mas significativo, aumento na criação de turmas femininas em clubes renomados e em pequenos clubes periféricos. As redes sociais também são grandes aliadas, e certos perfis, como o @dribradoras e o @futdelasbr, colaboram para a promoção do interesse e da prática do esporte por mulheres.

Dentre as instituições de memória, o Museu do Futebol de São Paulo tem acervos e parte do seu projeto voltado exclusivamente para o impulsionamento do futebol feminino, trazendo visibilidade para a causa por meio de história e informação. Um bom exemplo é o podcast “Audioguia Mulheres no Futebol” e exposições sobre o tema, como “Visibilidade para o futebol feminino de 2015” e “Contra-Ataque: as mulheres do futebol de 2019”.
E é com a parceria do Museu do Futebol que vamos contar no nosso “V Seminário Internacional do LEME – Agora é com elas: 30 anos da Copa do Mundo de Futebol de Mulheres”. Juntos, LEME e Museu, vão contribuir para a disseminação do conhecimento sobre o futebol de mulheres. O evento ocorre nos dias 08 e 09 de novembro. Para acompanhar as atualizações sobre o evento, siga o LEME no Instagram e fique de olho na aba do evento aqui no blog.

E para começarmos a aquecer antes do Seminário, indicamos algumas leituras que irão te deixar por pro dentro do tema. Confira!

  • ALMEIDA, Caroline. “Boas de bola”: um estudo sobre o ser jogadora de futebol no Esporte Clube Radar durante a década de 1980. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), 2013.
  • BONFIM, Aira. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). Dissertação – FGV, 2019. Dissertação (mestrado) – Escola de Ciências Sociais da Fundação Getulio Vargas, Programa de Pós-Graduação em História, Política e Bens Culturais.
  • GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Rev. bras. Educ. Fís. Esp., São Paulo, v.19, n.2, p.143-51, abr./jun. 2005
  • SALVINI, Leila. MARCHI JÚNIOR, Wanderley Uma história do futebol feminino nas páginas da Revista Placar entre os anos de 1980-1990. Movimento. Porto Alegre, v. 19, n. 01, p. 95-115, jan/mar de 2013.
  • KESSLER, Claudia. Mulheres na área gênero, diversidade e inserções no futebol. RS: Editora da URFGS.
  • KESSLER, Claudia. COSTA, Leda; PISANI, Mariane. As mulheres no universo do futebol brasileiro. Santa Maria: Editora UFSM, 2020

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Como é que faz pra sair da ilha? Hierarquias urbanas e disputa de classes no duelo catarinense Avaí x Figueirense

A ponte é muito, muito iluminada
O pôr-do-sol numa visão privilegiada
O povo quer passar, vê nela algo místico
A ponte virou ponto turístico.
Esse lugar é uma maravilha
No horizonte, no horizonte
Mas como é que faz pra sair da ilha?
Pela ponte, pela ponte.

Apesar de não fazerem referência à capital catarinense, os versos da música “A Ponte”1, composta por Lenine e Lula Queiroga e parafraseada em versão posterior pelo rapper GOG2 – desta vez fazendo alusão à superfaturada Ponte JK em Brasília – me remetem a um imaginário que persiste no cotidiano de Florianópolis desde 1926, quando foi inaugurado o cartão postal mais famoso da cidade: a Ponte Hercílio Luz, maior ponte pênsil do Brasil e primeira ligação terrestre entre a ilha de Santa Catarina e o continente. Com 821 metros de comprimento, duas torres que medem 75 metros a partir do nível do mar e estrutura de aço que pesa aproximadamente 5 mil toneladas, a Hercílio Luz foi projetada por engenheiros norte-americanos – e executada por mão de obra operária catarinense – durante o mandato do governador que lhe deu nome em homenagem póstuma. Fechada por motivo de segurança em 1982, a ponte foi reaberta somente em 2019, a princípio para pedestres e ciclistas.

Ponte Hercílio Luz na década de 1960. Foto: Reprodução/Portal Floripa
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Nesse entremeio em que deixou de ser utilitária para se tornar o principal ponto turístico do estado, foram inauguradas as pontes Colombo Salles, em 1975, e Pedro Ivo Campos, em 1991, ambas interligando a ilha ao continente, como o fazem até hoje. Já a Hercílio Luz – que em 2021 voltou a ser liberada para o tráfego de veículos – foi oficialmente tombada como patrimônio histórico, artístico e arquitetônico de Florianópolis em 1997, coincidentemente o ano de lançamento da canção metafórica do recifense Lenine. Muito antes, em 1938, o violonista e compositor catarinense Luiz Henrique Rosa3 homenageara o patrimônio da capital na canção “Ponte Hercílio Luz”, posteriormente interpretada pelo sambista carioca Martinho da Vila. É também de autoria de Luiz Henrique (em parceria com Fernando Bastos) o hino do Avaí Futebol Clube, fundado na ilha em 1923, cerca de um ano depois de iniciadas as obras da ponte.

Naquela ocasião, o comerciante Amadeu Horn presenteara um grupo de jovens futebolistas da Pedra Grande (atual Bairro da Agronômica) com camisas listradas em azul e branco, dando origem ao então Avahy Football Club, em referência à batalha homônima de 1868 durante a Guerra do Paraguai. Dois anos antes da fundação do Avaí, surgia o Figueirense Futebol Clube. Embora tenha transferido sua sede para o lado de lá da ponte em 1945, o Figueirense também se originou na porção insular de Florianópolis, no popular bairro da Figueira, localizado à beira-mar, na porção oeste da ilha. Era ali que se estabelecia a população carente da cidade, grupos de pequenos comerciantes locais, marinheiros, estivadores e outros trabalhadores do mar, conforme narrado pelos pesquisadores Paulino de Jesus Cardoso e Karla Leandro Rascke (2014) em obra sobre as origens dos clubes catarinenses.

Assim como a maioria das agremiações futebolísticas no Brasil, Avaí e Figueirense também rivalizam para além dos limites do gramado. Esse embate geográfico entre o time da ilha e o time do continente alimenta o imaginário do torcedor catarinense desde que o clube do bairro da Figueira transferiu sua sede para o Estreito – bairro da porção continental da cidade – na década de 1940. Esse imaginário carrega ainda uma disputa social bem demarcada, na qual o Avaí é comumente associado ao estereótipo de time de elite e o Figueirense ao estereótipo de clube do povo. A memória histórica e geográfica de Florianópolis eleva o embate clubístico entre os dois principais clubes de futebol da cidade a esse patamar de disputa de classes – o que, não raro, é fomentado pelos torcedores e pela própria mídia esportiva.

No entanto, tais construções muitas vezes permeiam a ótica das tradições inventadas (HOBSBAWN; RANGER, 2008), ou seja, que se perpetuam desde a fundação dos clubes, mas que não necessariamente condizem com o contexto atual das agremiações. Em debate sobre a rivalidade entre os clubes catarinenses, veiculado em 2020 no Portal Ludopédio4, o historiador Felipe Matos (2020) pondera que a construção desses estereótipos – e sua propagação pelo jornalismo esportivo – é problemática porque deturpa a história dos clubes e perpetua trajetórias que não mais correspondem às agremiações.

Eu não tenho dúvidas de que a origem do Figueirense é muito mais popular do que a origem do Avaí. O Avaí surgiu em 1923 como um grupo de jovens filhos da classe média, estudantes do Colégio Catarinense, que é o colégio das elites da cidade. […] Mas a questão é: até quando o Figueirense foi popular? E por que o Avaí é considerado um time de elite mesmo quando o pessoal do Morro do Céu fazia história jogando pelo clube? […] Fala-se muito da oligarquia Ramos no Avaí, mas se o Avaí tinha os Ramos do PSD, o Figueirense tinha a UDN. Tinha Thomas Chaves de Cabral, tinha o Charles Edgard Moritz, tinha a família Ferrari, a família Galotti. São família populares? O Avaí tinha a família Amin, o Figueirense tinha a família Bornhausen. […] Até hoje, há muitas famílias tradicionais de Florianópolis que compram esse discurso estereotipado. Mas, ao longo de sua história, o Avaí não pode ser considerado um time de elite – pelo menos não o Avaí de muita gente da Costeira, do mangue, do Morro da Caixa, do Morro do Céu. (MATOS, 2020, s/p.).

Desde sua fundação em 1923, o Avaí contemplava em seus domínios essas oligarquias tradicionais de Florianópolis que ocupavam espaços de poder no clube, como as famílias Ramos e Amin. A memória do Figueirense, por sua vez, remete ao já extinto bairro da Figueira, situado nas proximidades do porto. Segundo Cardoso e Rascke (2016), esse pequeno território, considerado pelas elites locais como um antro de prostituição, reunia centenas de marinheiros, praças da Marinha de Guerra, estivadores e tantos outros populares que representavam um cenário afrontoso às elites dirigentes da época. Vale lembrar ainda que, até sua modernização na década de 1940, o bairro da Figueira constituía um dos locais com a maior presença de pessoas de origem africana em Florianópolis. Foi também na década de 1940 que o Figueirense transferiu sua sede para o bairro do Estreito, onde em 1960 inaugurou o Estádio Orlando Scarpelli, passando a mandar seus jogos definitivamente na porção continental de Florianópolis, que agora representava a “casa” do clube.

O bairro da Figueira, local de marcante presença africana e de seus descendentes extinguiu-se como território negro nos anos de 1940, quando a cidade estava transformada, conformando uma capital que deveria seguir os rumos do progresso, segundo aspirações das elites políticas dirigentes. A região central passara a ser espaço da administração pública, dos comércios estabelecidos, da prestação de serviços (CARDOSO; RASCKE, 2014). As classes populares tiveram que construir suas vidas nas regiões periféricas da cidade, nos contornos dos morros ou em áreas mais afastadas do perímetro central e suas bordas. (CARDOSO & RASCKE, 2016, p. 103).

Essa transformação se deu no contexto em que as elites portuguesas – colonizadoras do território que hoje corresponde à capital catarinense – foram suplantadas por elites germânicas nas primeiras décadas do século XX, forjando um modelo de urbe que atendesse aos anseios da República. Como resultado desse modelo, os populares de origem africana, bem como os demais pobres e desvalidos, foram empurrados para os morros adjacentes ao centro urbano, em um processo que se intensificou ainda mais com a inauguração da Ponte Hercílio Luz em 1926. Nesse aspecto, a estrutura planejada para ligar a porção insular à porção continental de Florianópolis também delimitava a segregação espacial. Não à toa, com a transferência do Figueirense para o Estreito a trajetória do clube ganhou novos contornos de popularidade, agora por integrar a porção continental da cidade, não mais dividindo território com a elite beira-mar da ilha.

Estádio Orlando Scarpelli inaugurado em 1960 no bairro do Estreito, em
terreno cedido pelo empresário e esportista que lhe deu nome. Foto: Memorial
Figueirense Futebol Clube

É importante situar a inauguração dos estádios de Avaí e Figueirense nesse contexto de disputa de classes e de territórios justamente porque a configuração geográfica de Florianópolis contribui para evidenciar tais marcações sociais. A origem dos dois principais clubes de futebol do estado, suas relações com as hierarquias urbanas da capital e o pertencimento clubístico de Avaí e Figueirense materializado na construção de seus respectivos estádios – Ressacada e Orlando Scarpelli – ajudam a compreender a consolidação dos estereótipos de time do povo e time de elite que se perpetuam até os dias de hoje, seja pelas narrativas do jornalismo esportivo, seja pela cultura torcedora em si.

Na década de 1970, o Avaí toma posse do estádio Adolfo Konder, de estrutura bastante acanhada, porém situado numa área muito valorizada da cidade: a Avenida Beira-Mar Norte. Nessa mesma época, o clube fez uma permuta com a construtora que ergueria o Beiramar Shopping no local. O Avaí então entrega a área do Adolfo Konder à essa construtora e inicia as obras do Estádio da Ressacada na Aderbal Ramos da Silva, inaugurado em 1983 sobre uma área de mangue no bairro Carianos. No citado debate do Portal Ludopédio, os pesquisadores Alexandre Vaz, Danielle Torri e Felipe Matos contextualizam esse cenário, apontando para as contradições evidentes entre a inauguração da Ressacada e o distanciamento de um clube que dialoga pouco com a comunidade do entorno que hoje lhe serve de casa.

O estádio do Avaí sai de uma área absolutamente valorizada, que é o primeiro shopping da ilha, o Beiramar Shopping, e vai para a Ressacada, que era também uma área muito rural naquele momento, uma área de mangue, mas lá se torna um estádio de elite. Então existe uma contradição interessante aí: quando se situava em um bairro central, era um estádio que atendia o Morro da Caixa D’água, que recebia um público muito popular. Inclusive,
vários jogadores do Avaí saíram dali. Agora, o estádio vai para um bairro muito afastado e se transforma em um lugar de elite. É muito difícil, por exemplo, chegar na Ressacada de ônibus. Sair, então, nem pensar. (VAZ,
2020, s/p).

Outra contradição que se pode pensar a partir desse raciocínio da invenção de tradições e da construção de estereótipos se evidencia na maneira como os torcedores do Figueirense usualmente provocam o rival, referindo-se ao Avaí de forma pejorativa como o “time do mangue”. Ora, se os manguezais são tidos como territórios suburbanos, por que o Figueirense reivindicaria para si o título de “time do povo” enquanto seus torcedores fazem chacota do rival que ergueu seu estádio nesse território essencialmente popular entre os bairros Costeira e Carianos? “A Costeira é um bairro de passagem. Ninguém vai para a Costeira se não mora na Costeira. Tu passas pela Costeira para ir pro sul da ilha, para ir ao aeroporto. É um bairro popular, assim como Carianos”, reforça o historiador Felipe Matos (2020, s/p.).

Estádio Aderbal Ramos da Silva, erguido sob o mangue da Ressacada
e inaugurado em 1983. Foto: Reprodução/Mercado do Futebol

Nesse sentido, convém destacar ainda o que Matos (2020) pondera sobre a identidade do Avaí em relação ao manguezal, referindo-se ao fato de o clube não reforçar essa política identitária junto à comunidade que o recebeu de braços abertos na década de 1980: “Hoje na Costeira a maioria da população é avaiana, não sei se era antes dos anos 80, antes de o Avaí chegar. Essa comunidade abraçou o clube e dialoga-se muito pouco com ela.”. Segundo o pesquisador Alexandre Vaz (2020), o fato de o Avaí não aproveitar esse diálogo com a comunidade que dá sustentação urbana à Ressacada também é fruto do atual processo de elitização do futebol: “É como se o Avaí saltasse a Costeira, saltasse o Carianos e chegasse ao centro direto. Por isso, por não ter perfil de torcida, o clube vai tomando um perfil de camadas médias e vai se afastando do elemento popular.”.

Isso, de certa maneira, talvez o Figueirense preserve um pouco mais, afinal, o clube está mesmo encravado numa confluência de bairros, sobretudo a Vila São João e a Coloninha – que são bairros populares – e até pelas ligações do clube com a escola de samba também, a Unidos da Coloninha. Então o diálogo com o elemento popular é quase que obrigatório ali. Não há como o Figueirense saltar. (VAZ, 2020, s/p.).

Quanto à construção dos estereótipos de povo e elite em si, Vaz é categórico: “origem não é destino”. E complementa: “As duas grandes oligarquias catarinenses uma basicamente adotou um time e, a outra, adotou o outro.”. Esse imaginário que fica na cidade e que é fomentado pela configuração geográfica da capital nos mostra que entender Florianópolis passa por conhecer o Avaí e o Figueirense, como bem salientou a pesquisadora Danielle Torri também no referido debate do Portal Ludopédio. Retomando os trechos da canção que ilustra o início deste texto, podemos refletir sobre o refrão em que o compositor Lenine se pergunta “como é que faz pra sair da ilha”. Nessa metáfora, estar ilhado não significa estar do lado insular da ponte, mas sim alienar-se em determinada zona de conforto, ancorando-se a imaginários que muitas vezes não condizem com a realidade e que nos impedem de enxergar o que há do outro lado – coisa que nós jornalistas fazemos com certa frequência. Portanto, nunca é demais lembrar que para sair da ilha é preciso cruzar a ponte.

*Uma versão mais completa deste texto integrou o GT Historiografia da Mídia, pertencente ao 8º Encontro Regional Sul de História da Mídia, promovido remotamente pela Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia (ALCAR) em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em abril de 2021.


Referências bibliográficas

CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco; RASCKE, Karla Leandro. Figueirense: o bairro da Figueira e o nascimento de um clube. In: VAZ, Alexandre Fernandez; DALLABRIDA, Norberto (orgs). O futebol em Santa Catarina. Histórias dos clubes (1910-2014). Florianópolis: Insular, 2014. p. 17-45.

CARDOSO, Paulino de Jesus Francisco; RASCKE, Karla Leandro. Cidadania e expectativas no bairro da Figueira: o surgimento do Figueirense Foot Ball Club (Florianópolis/SC, 1921- 1951). Vozes, Pretérito & Devir, v.5, n. 1, p. 77-98, 2016.

HOBSBAWM, Eric; RANGER, Terence (org.). A invenção das tradições. 6. ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2008.

MATOS, Felipe. Ludopédio em Casa #30: Rivalidades Catarinenses: Avaí x Figueirense. Portal Ludopédio.

VAZ, Alexandre. Ludopédio em Casa #30: Rivalidades Catarinenses: Avaí x Figueirense. Portal Ludopédio.


1 “A Ponte” integra o terceiro álbum de estúdio do cantor e compositor Lenine, “O Dia em que Faremos Contato”, lançado em 1997. Uma segunda versão da canção foi gravada com a orquestra holandesa Martin Fondse Orchestra, compondo o CD/DVD “The bridge: Lenine & Martin Fondse – live at Bimhuis”, lançado em outubro de 2016.

2 “Eu e Lenine (A Ponte)” foi composta pelo rapper brasiliense Genival Oliveira Gonçalves (GOG) e lançada em 2004 no álbum “Tarja Preta”. A letra é uma crítica à superfaturada Ponte Juscelino Kubitschek inaugurada em Brasília no ano de 2002, bem como à segregação espacial evidente na cidade e ao processo de gentrificação no curso da obra. Ao saber que sua canção foi parafraseada pelo rapper GOG, Lenine o convidou para cantá-la com ele em versão que integra seu segundo álbum ao vivo, o Acústico MTV, gravado no Auditório Ibirapuera em 2006. Esta história pode ser conferida em: https://youtu.be/p_SJ1Hlr738&t=1s.

3 Luiz Henrique Rosa foi um cantor, violonista e compositor brasileiro de bossa nova e MPB. Morreu aos 46 anos, em 1985, quando completaria 25 anos de carreira, vítima de um acidente automobilístico. Em 2003 foi organizado o CD “A Bossa Sempre Nova de Luiz Henrique”, no qual os músicos Martinho da Vila, Elza Soares, Ivan Lins, Luiz Melodia, Sandra de Sá, Biá Krieger e Toni Garrido interpretam as composições do homenageado, entre elas a citada canção “Ponte Hercílio Luz”.

4 O Ludopédio é a principal referência brasileira em divulgação científica sobre futebol da América Latina. Criado em 2010, trata-se de um portal independente composto por pesquisadores que visam propor uma ponte entre a produção acadêmica e a sociedade. Em março de 2020, no início da pandemia de Covid-19 no Brasil, o Portal lançou o quadro semanal “Ludopédio em Casa”, compondo mesas virtuais com jornalistas, pesquisadores e especialistas da área para debater diversos temas que envolvem o futebol para além das quatro linhas, como racismo, homofobia, política e torcidas.

Eventos

LEME divulga os aprovados para o Seminário “Agora é com elas”

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) divulga hoje, 6 de setembro, a lista de trabalhos aprovados para o Seminário Internacional “Agora é com elas: 30 anos da Copa do Mundo de Futebol de Mulheres”.

O seminário faz referência aos 30 anos da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino. Além de palestras, teremos dois GTs: 1 – História, memórias e resistências e 2 – Futebol feminino nos rastros da profissionalização.

As apresentações dos resumos aprovados irão acontecer via Google Meet, nos dias 8 e 9 de novembro. 

Acesse os trabalhos aprovados e os seus respectivos autores aqui.

Artigos

Mário Filho: um ministro sem pasta do futebol brasileiro

A frase que intitula esta crônica foi dita por Ruy Castro em referência a Mário Filho. No primeiro semestre deste ano, colocou-se em pauta na ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) um projeto de lei para alterar o nome do Maracanã. Retirar o nome de Estádio Jornalista Mário Filho e colocar Estádio Rei Pelé em homenagem ao atleta Edson Arantes do Nascimento. Na ocasião, o projeto foi aprovado pelos deputados e só precisava da sanção do governador. No entanto, a forte reação por vários setores da sociedade civil fez com que os autores recuassem e retirassem o projeto de pauta. Em virtude deste acontecimento, cabe a nós refletirmos e recordarmos a importância de Mário Filho para a crônica esportiva, que culminou em se tornar o nome oficial do Maracanã, um dos principais estádios do país.

Nascido em uma família de jornalista, logo começou a carreira em uma redação de jornal. Conforme destaca Antunes (2004), Filho inicia sua trajetória como gerente no jornal de seu pai, em 1926. Dois anos depois, assume a seção dos esportes, considerada, naquele período, a seção menos importante. “A época, o espaço que os jornais destinavam às notícias do esporte era reduzido, limitando-se o repórter a informar o resultado de jogos ou divulgar eventos que iriam ocorrer” (ANTUNES, 2004, p.124).

A primeira mudança, de acordo com Antunes (2004), foi a entrevista que Mário Filho fizera com o então goleiro do Fluminense Marcos Mendonça, em que este anunciava a volta aos gramados. O impacto da matéria, que ocupou meia página, com uma linguagem simples, que conversava com o público, “dava indícios de que a época dos acadêmicos estava chegando ao fim” (ANTUNES, 2004, p. 124). Isto é, iniciava-se ali uma maneira de escrita simples e de fácil conexão com público, “lembrando a língua falada nas ruas e nas arquibancadas dos estádios de futebol” (ANTUNES, 2004, p.1 24).

Com o crescimento da popularidade do esporte no país, as novidades que Mário Filho trouxe para a cobertura esportiva jornalística começam a ser copiadas por outros jornais. Neste sentido, Antunes (2004) destaca as inúmeras inovações que Filho fizera dentro do jornalismo esportivo, como, por exemplo, as fotos que “mostravam jogadores em ação durante as partidas e não mais perfilados e engravatados como costumavam aparecer até então. As manchetes atraíam a curiosidade do leitor” (ANTUNES, 2004, p. 126). 

Em 1931, Roberto Marinho, herdeiro do jornal O Globo, convida o jornalista para dirigir o setor esportivo do jornal. Nesta época, a discussão em voga era sobre a profissionalização do futebol no país. Mário Filho se envolveu no debate e foi a favor da profissionalização. “Acreditava que os jogadores deveriam ser pagos para jogar […] sabia que o jornalismo seria beneficiado com o desenvolvimento do futebol profissional e com o aumento do público interessado (ANTUNES, 2004, p.128). Logo, já em 1933, o futebol se profissionaliza e muda de patamar com a criação, no Rio de Janeiro, da Liga Carioca de Futebol. Dessa maneira, na medida em o futebol se desenvolvia, Mário Filho dava suas contribuições jornalísticas para potencializar a visibilidade do esporte como um espetáculo de massas. Nesse caminho, em 1936, o jornalista compra o Jornal dos Sports, que se torna um dos mais importantes jornais de seu segmento no país.

Fonte: Jornal O Globo

Com o passar dos anos, Mário Filho se tornou junto à opinião pública uma das referências no meio esportivo. Seus escritos reunidos são publicados em forma de livro, em 1947, com o título O negro no futebol brasileiro, contando com prefácio escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre. Ter Freyre escrevendo o prefácio é algo simbólico, dada a contribuição literária que Freyre realizou para o entendimento da cultura brasileira. Tudo isso a partir de uma narrativa, conforme destaca Antunes (2004), que misturaria os fatos históricos calcados em documentos oficiais, jornais e revistas, mas também a oralidade, das entrevistas e conversas informais que obteve na época. É essa mesma postura, combinando fatos históricos com a oralidade e as narrativas da rua, que Filho também adotava na redação de suas colunas.

Na visão da autora, Filho sempre buscou uma identidade nacional mirando no futebol. Suas investigações perpassavam disposições psicológicas da alma brasileira (ANTUNES, 2004), que, segundo o próprio Mário Filho, conforme destaca Antunes (2004), era carente de autoconhecimento. Neste caminho, “o cronista vê o caráter brasileiro oscilar entre a valentia exibida na Copa de 1938 e a covardia da final de 1950” (ANTUNES, 2004, p. 201).

Em 1966, após falecer de um ataque cardíaco, aos 58 anos, o então Estádio Municipal passa a ser chamado de Estádio Jornalista Mário Filho. Para Antunes (2004), Filho foi um dos grandes expoentes da crônica de futebol da época. Cronista, ao lado de seu irmão Nelson Rodrigues, os dois reformaram a literatura acerca do assunto e, como consequência, a forma como o brasileiro se relaciona com o futebol. Mário Filho, portanto, tem um papel fundamental tanto para a propagação do esporte enquanto notícia como também para a cultura brasileira. Fato que se mostrou determinante, no campo simbólico, para a construção do Maracanã e a relação que possuímos com o estádio.

Referências Bibliográficas:

ANTUNES, Fatima Martin R. Ferreira. “Com brasileiro, não há quem possa!”: Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. 1. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2004. 304 p. v. 1.