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Quanto importa o esporte?

Por César R. Torres* e Francisco Javier López Frías**/ El Furgón***

Rory Smith é um correspondente esportivo do The New York Times especializado em futebol. Em sua coluna de domingo 15 de março, quando o coronavírus já havia paralisado todo tipo de competências esportivas ao redor do mundo e confinado grande parte da humanidade em suas casas, expressou que, em relação a uma pandemia que pode custar numerosas vidas, o futebol não importa em um sentido real. Agregou que há coisas mais importantes em que pensar e que o futebol é, no final das contas, um esporte.

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Rory Smith (Fonte: Twitter)

No domingo seguinte, Smith voltou a refletir sobre a importância do esporte. Reconheceu, admitindo ter sido influenciado pela correspondência que recebeu do público leitor durante a semana, que para muitas pessoas o esporte é importante e que isso é bom. Entretanto, insistiu que não importa tanto como outras coisas. Embora não seja a prioridade de ninguém neste tempo funesto, o esporte importa, elaborou, como indústria e economia, mas também como algo para o qual dedicamos muito tempo. Concluiu sua opinião sobre o tema estipulando: “Mais de uma coisa pode ser importante. Nem todas as coisas têm que ter igual importância”.

 

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Coluna de Smith no site do New York Times

As colunas de Smith remetem a uma frase atribuída a várias personalidades futebolísticas: “O futebol é a mais importante das coisas menos importantes da vida”. Este julgamento axiológico se estende ao esporte em geral. Seguindo essa posição, bastante propagada, o esporte ocupa um lugar importante nas atividades que consideramos trivais. Isso seria ainda mais aparente em tempos de coronavírus, em que a satisfação das necessidades básicas para sobrevivência prevalece. Assim, o esporte, no melhor dos casos, teria um valor secundário.

Contudo, a emergência sanitária e suas consequências destacam, ao impedi-los, o valor de um conjunto de atividades, entre as quais figura o esporte. Ao contrário do que afirmou Smith, o esporte não é importante principalmente por seu dinamismo como indústria e economia, mas por sua natureza e pelas possibilidades existenciais que oferece. Aquela e estas, conjuntamente, elucidam seu valor e a fervente adesão de milhões de pessoas.

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Coluna de Smith no New York Times

A partir do trabalho do filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se dizer que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade estabelecida socialmente, coerente, complexa e de caráter cooperativo com ganhos internos (aqueles que só se materializam por meio de sua prática contínua) e padrões de excelência. A peculiaridade do esporte reside no fato de que é um problema artificial estabelecido e regulado por regras que requerem a implementação de habilidades físicas menos eficientes para alcançar o objetivo especificado simplesmente para torná-lo possível. Dito de outra maneira, o esporte é um jogo regido pela “lógica da gratuidade” no qual os participantes tentam resolver um problema desnecessário por meio de habilidades físicas simplesmente com o objetivo de resolver o problema.

Ao testar seus praticantes, o esporte abre a possibilidade de demonstrar aptidão e alcançar algo que é provado com afinco. O filósofo Thomas Hurka argumenta que a realização – assim como a tentativa de alcançar – é intrinsecamente boa porque tem a capacidade de unificar a vida em um todo coerente. De acordo com sua visão, os objetivos abrangentes que se estendem no tempo e são complexos, que demandam cooperação, planejamento e precisão, como os que oferece o esporte, são mais valiosos que os objetivos que sofrem com essas condições. Hurka ressalta o valor de alcançar algo difícil só porque é difícil e não porque é agradável, correto ou esperado. Isso, por sua vez, destaca a “importância trivial” – ou artificialidade – do esporte como plano de vida.

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Site do River Plate

Além disso, envolver-se em uma prática social como o esporte implica tanto em reconhecer seus valores internos e padrões de excelência como em comprometer-se a cultivá-los e a enobrece-los, a aceitar ser julgado de acordo com eles e a respeitar a comunidade de praticantes que também permite sua existência, manutenção e avanço. Nesse sentido, poderia se dizer que o esporte representa um “estilo de vida perfeccionista” marcado pela busca da excelência atlética e, consequentemente, pelo exercício e extensão das capacidades e virtudes necessárias para alcançá-la. Já afirmava o filósofo John Rawls que o perfeccionismo exige que todos os esforços sejam dirigidos para maximizar a realização da excelência humana. O esporte facilita a nobre aspiração de um rendimento excelente.

O tipo de relação com o esporte que exige o perfeccionismo manifesta um compromisso de todo coração. Segundo o filósofo William J. Morgan, este compromisso é apaixonado, consciente, atento e comunitário. A boa vida inclui alguma atividade com que as pessoas se comprometam de todo coração, porque esse compromisso guia e enriquece a vida. Morgan enfatiza que o esporte é uma das poucas atividades na qual esse compromisso é visível e valorizado. E é especialmente adequado o compromisso sincero porque ao focar nos atributos internos e padrões de excelência sua lógica reverte o instrumentalismo vigente na sociedade. Novamente, o potencial emerge de sua artificialidade. Talvez por isso o filósofo José Ortega y Gasset escreveu que o desinteresse instrumental na filosofia e no esporte era um “dom de generosidade que floresce apenas na mais alta altitude vital” e recomendou não levar a vida muito a sério “antes bem, com o temperamento do espírito que leva (ao) exercício de um esporte”. Em suas palavras, o esporte, o jogo enérgico, é “um esforço espontâneo, luxuoso […] que se tira prazer em si mesmo”, praticá-lo é tomar a vida vigorosamente.

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Site do real Madrid

Os diferentes valores do esporte sinalizam sua força humanizadora. Quando as pessoas tomam o caminho do esporte, elas colocam em ação e preservam a capacidade de dar forma e sentido a suas próprias vidas. As pessoas se humanizam elegendo e construindo significados em relação a suas escolhas. Optar por ser um desportista abre a possibilidade de cumprir com o que o poeta Píndaro enigmaticamente prescreveu: “Torne-se o que és”.  Se os seres humanos estão determinados por algo, é para autodeterminar e tentar se tornar quem eles querem ser. Ao eleger desportivamente, moldamos o ser. A vida desportiva, portanto, induz a forjar, nesse enorme esforço de autodeterminação, uma identidade. Esse processo tem uma dimensão comunitária. Como mostrou o antropólogo Clifford Geertz, o esporte forma um conjunto de significados que estruturam uma história que as comunidades humanas contam a si mesmas sobre si mesmas. Em outras palavras, o esporte também gera uma identidade comum. Nós nos entendemos como uma comunidade, exercendo-a.

Suas qualidades e suas potencialidades permitem-nos sustentar que o esporte se encontra entre as coisas mais importantes da vida. Nada do que foi dito aqui deve ser interpretado como justificação para aliviar a proibição do esporte. Por outro lado, tudo deve ser interpretado como uma defesa do valor e da importância do esporte, assim como de seu cultivo apaixonado. Também deve ser interpretado como explicação de porquê sente-se falta dele. Enquanto enfrentamos a pandemia e sentimos sua falta, vamos tentar, dentro dos limites do confinamento atual, mantermo-nos desportivamente ativos e replicar, mesmo que imperfeitamente, sua altitude vital.

*Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park)

**** Texto originalmente publicado em El Fúrgon no dia 29 de março de 2020.

Tradução livre: Leticia Quadros e Fausto Amaro (LEME/UERJ).

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Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

Em julho de 1985, duas partidas de futebol deram aspecto bizarro ao Campeonato Brasileiro daquele ano. A primeira partida foi disputada em 18 de julho, na cidade de Pelotas. A outra ocorreu três dias depois, em 21 de julho, na cidade de Porto Alegre. No dia 18, enfrentaram-se Brasil de Pelotas e Flamengo. No dia 21, foi a vez de Internacional contra Bangu.

Ninguém imaginava que dois clubes pequenos, um de subúrbio e outro do interior, pudessem chegar à fase semifinal. Depois daquelas duas partidas, o inimaginável tornou-se realidade. E isso faz daquele campeonato um dos mais interessantes da história do futebol brasileiro.

A primeira partida (dia 18): Brasil de Pelotas x Flamengo

O Flamengo, naquele mês de julho de 1985, estava em estado de euforia. Zico, o maior ídolo da história do clube, havia voltado ao clube após passar dois anos no Udinese, da Itália.

O clube disputava a terceira fase da Taça de Ouro (nome dado ao Campeonato Brasileiro daquele ano) e, no dia 14 de julho, venceu o Bahia no Maracanã por 3 a 0, com um gol de Zico. Era o seu gol de número 691. A revista Placar registrou:

Na volta do craque, que chega perto do 700º gol, o Fla reencontra o antigo fascínio (Placar, n. 791).

A mesma revista, naquela mesma edição, referiu-se assim ao Brasil de Pelotas: “Uma zebra rubro-negra?” (Placar, n. 791).

A pergunta era pertinente. Apenas o Brasil poderia superar o Flamengo no grupo F da terceira fase. Caso acontecesse, desclassificaria o clube carioca e passaria à semifinal.
Seria, realmente, uma zebra das mais impressionantes.

Depois de vencer o Bahia, o Flamengo viajou para o sul do país onde enfrentaria justamente o Brasil de Pelotas na penúltima rodada do grupo F. O clube do Rio de Janeiro estava um ponto à frente do adversário.

Um dado mostra bem a distância que havia entre o gigante e a zebra naquela disputa. A folha salarial do Brasil de Pelotas totalizava 70 milhões de cruzeiros. Menos do que ganhava apenas Zico (75 milhões).

O Flamengo era o favorito, claro. Mas no jogo do dia 18 esse favoritismo se dissipou no ar. O Brasil se defendeu bem, neutralizou Zico e, quando teve a chance de marcar gols, não desperdiçou. Venceu por 2 a 0.

“Flamengo perde de 2 a 0 e está quase eliminado”, noticiou o Jornal do Brasil no dia seguinte. O jornal também falou da euforia dos torcedores do Brasil: “Toda a cidade de Pelotas vibrou e festejou intensamente a vitória” (Jornal do Brasil, 19.07.1985).

No dia seguinte, os torcedores do Brasil faziam graça pelas ruas de Pelotas:

“Rumo a Tóquio?”, saudava um. “Rumo a Tóquio”, respondia o outro (Placar, n. 792).

Aquela vitória foi decisiva. O Brasil de Pelotas passou a liderar o grupo F e lhe faltava apenas mais uma partida. Bastava preservar a sua posição. O jogo seguinte seria em Salvador contra o Bahia, um time desclassificado e que estava em último lugar no grupo.

Depois do jogo do dia 18, o Flamengo ainda nutria esperanças de se classificar. Zico, logo após a derrota em Pelotas, disse a um jornalista TV RBS: “Eu acho que se hoje tava tudo errado, quem sabe domingo as coisas não podem virar totalmente favoráveis ao Flamengo?”.

O Flamengo precisava vencer o Ceará no Maracanã e torcer por uma derrota ou empate do Brasil no jogo contra o Bahia. Antes da partida no Maracanã, no vestiário do Flamengo havia “a impressão de total confiança” e “esperava-se goleada” (Placar, n. 792).

O Flamengo empatou em 2 a 2 com o Ceará. O Brasil de Pelotas, por sua vez, venceu o Bahia em Salvador. E assim o pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul chegou à semifinal do campeonato.

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Brasil de Pelotas X Flamengo (fonte: YouTube).

A segunda partida (dia 21): Internacional x Bangu

No grupo H da terceira fase, Internacional e Bangu chegaram à última rodada invictos. O Bangu era considerado um clube pequeno. Havia sido campeão carioca apenas duas vezes (em 1933 e em 1966). No Campeonato Brasileiro, seu melhor desempenho o levara às quartas-de-final em 1982, sendo desclassificado nessa fase pelo Corinthians. Já o Internacional havia sido campeão nacional em 1975, 1976 e 1979.

Naquela rodada final do grupo, os dois times fariam uma partida decisiva no dia 21 de julho. Havia uma pequena vantagem para o Bangu, que tinha 8 pontos, enquanto o Internacional tinha 7. Quem vencesse a partida, passaria à semifinal. Em caso de empate, o classificado seria o Bangu.

O Bangu estava há 25 jogos sem perder. Era uma das surpresas do campeonato. Seu patrono, Castor de Andrade, era um bicheiro conhecido e poderoso. Estava convicto de que seria campeão brasileiro e dizia isso abertamente.

O clube de Porto Alegre também estava confiante. Seus atletas tinham certeza de que, na partida decisiva, teriam o apoio de uma “imensa torcida” no Estádio Beira-Rio. O centroavante Marcelo disse à imprensa que o ataque do time havia desencantado e que já estava superada a “síndrome dos gols perdidos”. E disse mais: “O toque de bola, que é o forte do Bangu, não vai ser aplicado contra nós” (Jornal do Brasil, 21.07.1985).

Enfrentar o Internacional no Estádio Beira-Rio é dificílimo. Ainda mais para um clube pequeno. Mas o Bangu não se intimidou. Jogou bem, venceu por 2 a 1 e se classificou. Após o jogo, Moisés, o técnico do Bangu, desabafou: “Veja o Inter, posou de favorito e se quebrou, mesmo porque os favoritos éramos nós, que liderávamos a tabela” (Placar, n. 792).

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Time do Bangu com o patrono Castor de Andrade (fonte: site Trivela).

A semifinal impensável

A semifinal dos favoritos seria Flamengo X Internacional. Dois clubes que já haviam sido campeões brasileiros seis vezes.

Mas, naquela segunda-feira, dia 22 de julho de 1985, o país amanheceu com uma semifinal impensável no Campeonato Brasileiro: Brasil de Pelotas X Bangu. Um clube que nunca havia sido campeão estadual e outro que era tratado como o quinto ou o sexto melhor da sua cidade.

Quem imaginou que isso pudesse acontecer? Bangu e Brasil de Pelotas fazem as semifinais da Taça [de Ouro] e um deles já está garantido na próxima Libertadores (Placar, n. 792).

Aquele campeonato já podia ser considerado único. Esdrúxulo.

Alguns chegaram a dizer que aquilo já era resultado da Nova República, o novo regime político do país que iria transformar a nação por inteiro.

O Atlético Mineiro foi o último favorito a cair. Na semifinal, foi desclassificado pelo Coritiba, que tornou-se o primeiro clube paranaense a chegar em uma final do Campeonato Brasileiro.

Na outra semifinal (a impensável), o Bangu venceu o Brasil de Pelotas duas vezes: 1 a 0 em Porto Alegre e 3 a 1 no Rio de Janeiro.

A história da final é mais conhecida. Foi disputada em jogo único, no Maracanã. Uma partida emocionante. Terminou empatada em 1 a 1. Na disputa por pênaltis, o Coritiba venceu por 6 a 5.

Uma parte da imprensa se mostrou insatisfeita com aquela exótica semifinal. A final entre Bangu e Coritiba também não foi muito bem vista. Alguns jornalistas e comentaristas achavam péssimo que os grandes clubes fizessem enormes investimentos e depois fossem desclassificados em razão de apenas uma ou duas derrotas (isoladas e acidentais). Defendiam a adoção de um modelo que dificultasse ao máximo (e até evitasse) esses “acidentes”. Um modelo que desse maior garantia aos grandes investimentos. O interessante é que essa argumentação pró-investimentos (pró-capital) partia de jornalistas e comentaristas que se consideravam de “esquerda”.

Os dirigentes dos grandes clubes, obviamente, concordavam com aquela argumentação. E resolveram agir dois anos depois. Em 1987, houve o grande levante do chamado Clube dos Treze em defesa de um novo formato para o Campeonato Brasileiro e de um novo modelo geral para o futebol brasileiro. Modelo que se consolidou ao longo dos anos seguintes.

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O jornalismo esportivo em tempos de Coronavírus

Como uma jovem jornalista em formação, apaixonada por esporte, esse novo modo de viver que nos foi imposto me fez refletir. Refletir acerca do papel do jornalista, do papel do esporte e do nosso papel enquanto pessoas. Para uma pessoa que gosta de esporte e está cursando jornalismo, essas três variáveis são quase indissociáveis.

Enquanto tentava entender tudo o que estava acontecendo, me senti profundamente tocada pela crônica de Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 20/03/2020, no programa “Faixa especial” do SporTV. Compartilho aqui ela na íntegra:

A rua é a casa do repórter. Quando uma crise mundial bate à porta, a mais humana das reações é não deixar ninguém entrar. Seja em tempos de guerra, seja em tempos de pandemia. No presente, aquele que ninguém jamais pediu, a batalha é contra o coronavírus. De dentro do laboratório elas mandaram avisar o mais rápido possível medidas simples, porém eficientes, para conter o avanço da doença: “evite falar com as pessoas a menos de um metro de distância”; “nada de abraços, mãos ao rosto, aperto de mão”. Basicamente, é isso que milhares de repórteres têm dito durante as últimas semanas. Claro, as paralisações de competições esportivas e países inteiros, andam em pauta. Os trágicos números de vítimas da doença do século, também. É inevitável pensar. Não ir pra rua é não ir pra casa, pois de que vale a mensagem trazida pelo repórter se ele não falou com ninguém, não viu as estações de metrô fecharem, não teve nos restaurantes sem clientes, não sentiu o estrondoso vazio dos cenários mais famosos do planeta, como num filme apocalíptico. Para alguns, em certos países como a Grã-Bretanha, como o Brasil, pisar na rua ainda é permitido. Ainda. Um alento para o repórter e uma preocupação para o ser humano que habita o mesmo corpo. Porque, realizar o ofício que a gente tanto ama, significa por os nossos maiores amores em risco. Pensando assim, estar longe do nosso país, das pessoas mais importantes da nossa vida deveria ser bom, mas não é. Longe, sozinho, a cabeça começa a trair a razão. Melhor estar perto dos nossos, tomando conta um do outro. Melhor se prevenir de um jeito solidário, com responsabilidade, conhecimento, mas um olhar terno ao próximo. Só assim ainda seremos repórteres. Ainda seremos o que um dia já fomos.

Ouvi uma, duas, três… dez vezes… Mudei o texto que originalmente publicaria no blog. Transcrevi e trouxe aqui, pois achei de extrema sensibilidade e sensatez. Fico emocionada de maneiras diferentes cada vez que ouço ou leio. Tenho acompanhado diariamente a programação do SporTV, e como eles estão se reinventando para tentar evitar o inevitável. Tentar não ficar sem assunto quando o seu assunto já não existe mais. Aquilo que talvez a gente nunca imaginasse, aconteceu. O futebol parou. O esporte parou. Já ouvi que o futebol havia parado uma guerra, que parou um país, vários países… mas nunca, nunca tinha ouvido que o futebol havia parado. Em praticamente todo o mundo, a bola já não rola mais. A famosa frase do técnico vice-campeão mundial pela seleção italiana na Copa de 94, Arrigo Sacchi, “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”, faz cada vez mais sentido. Nesse momento não há espaço para as coisas menos importantes.

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O jornalista é um flâneur – do francês: caminhante, errante, observador. Flanar sem rua é quase como a música da Adriana Calcanhoto “Fico Assim Sem Você”. A palavra agora, porém, é outra: navegar. Navegar pelas ondas da internet, trabalhar de home office, ainda que alguns jornalistas ainda sejam vistos em seu habitat natural, a fim de levar as informações para quem não pode – e não deve – sair de casa. Adaptação. Palavra que entrou no dicionário de todo mundo. De uma vez só. Quem é da rua sabe se adaptar. Quem faz reportagem ao vivo, sabe correr riscos. Quem busca informação, sabe se prevenir. Quem gosta de esporte, sabe driblar. E assim se reinventam os jornalistas esportivos. Adaptando-se, correndo riscos, prevenindo-se, e driblando – com responsabilidade (como já diria Felipe Melo) – o Covid-19.

Os noticiários dos canais de esporte e dos canais de informação se misturam. Não há escapatória. Vê-se, porém, luz no fim do túnel, nem tudo está perdido. Há notícia!! Atletas que foram infectados, esportistas que passam recados reforçando a importância de ficar em casa, como os clubes estão lidando com a quarentena e a decisão do COI – ainda que tardia – de  adiar as Olimpíadas de Tóquio 2020. Os repórteres, de casa, trazem as informações necessárias ao que restou dos programas ao vivo, que, nesse momento, se reduzem a apenas três (do que antes eram, no mínimo seis programas da grade regular do SporTV). Decisão sensata a mudança na programação. Pela questão da saúde dos funcionários, respeitando o isolamento social proposto pelo governo, mas não só por isso. A informação, que já é escassa, começa a se repetir. De noite, você ouve o que já ouviu de tarde, e o que já ouviu de dia, mas na voz de pessoas diferentes. Assim, manter a grade normal torna-se insustentável.

No ar, uma mistura de luto e desânimo, intercaladas com piadas e brincadeiras que os jornalistas, repórteres e ex-jogadores fazem entre eles. “Pra descontrair”, eles avisam. O que mais me chamou atenção, entretanto, era a fala de não só um, mas alguns jornalistas esportivos – e não só no SporTV – reafirmando aquele espaço como, praticamente, o que restou aos amantes do esporte, e de como eles se sentiam honrados em poder levar, ainda que apenas um pouco, de entretenimento para a casa das pessoas. E não é mentira. Vídeos divertidos de narrações de afazeres doméstico; análise de como cada clube estava jogando antes dessa – necessária – parada; e vídeos de profissionais de educação física mostrando alguns treinos viáveis de serem feitos em casa, foram algumas das estratégias para que o isolamento social – nome chique para “ficar em casa” – seja colorido pelo esporte, mesmo que em tons pastéis.

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Fui descobrindo, dessa maneira, novas funções que essa profissão pode ter. Nunca tinha parado para pensar em como seria ser uma jornalista esportiva em um mundo em que não há esporte. É claro, antes de ser “jornalistas esportivos”, somos “jornalistas”; se um dia o esporte acabasse para sempre – bate na madeira três vezes!! – migraríamos para outras editorias e cada um seguiria sua vida. Ela, porém, nunca mais seria a mesma. Quando perguntaram à teóloga Dorothee Sölle como ela explicaria a felicidade a uma criança, ela respondeu: “Não explicaria. Daria uma bola para ela brincar”. Seguiríamos nossas vidas sem saber mais o que é felicidade.

Por sorte o cenário não é tão desolador – no sentido de o esporte acabar para sempre. Ele há de voltar. Um dia. Esperaremos o tempo que for necessário, ficando em casa o máximo possível, lavando as mãos e passando álcool gel. Enquanto isso podemos retornar com os jogos de futebol de botão, jogos de videogame, relembrar partidas memoráveis… Se não podemos, por hora, brincar com a bola, pelo menos nós conhecemos a felicidade. E isso já é muito. Que possamos voltar a flanar o mais rápido possível pelas quatro linhas do campo, por entre os dribles dos jogadores, dentro do movimento das torcidas. Não só os jornalistas, mas todos os que amam Futebol.

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Mais uma gelada, por favor

O Diário Oficial do Estado da Paraíba, em sua edição de 19 de fevereiro de 2020, trouxe a publicação da Lei 11.644, de 11 de fevereiro do mesmo ano, que delibera sobre a “liberação do comércio e do consumo de bebida alcoólica em estádios e arenas no Estado da Paraíba”.

Pela lei, pois, que já está em vigor em todo o território paraibano, seguindo, aliás, exemplos de outros estados brasileiros, a velha – e boa – cerveja nas arquibancadas está regulamentada depois de pouco mais de dez anos de “lei seca”.

Isso não significa, contudo, que o processo é pacífico. Ou livre de conflitos.

Tão logo a lei foi promulgada, o Ministério Público da Paraíba anunciou que vai até o Supremo Tribunal Federal pedir a inconstitucionalidade da lei. E o procurador que encabeça as ações que tratam sobre futebol no MP local chegou a chamar de “idiota” todo aquele que defende a liberação do consumo de bebida alcoólica em jogos de futebol realizados na Paraíba.

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Fonte: Lance!

A alegação é sempre a mesma: “álcool gera violência”.

Ponto final. Fim do debate. Quem discorda, é “idiota”.

O pior, é que muitas vezes a mídia local adota o discurso simplista. Compra o argumento oficial. Dissemina a ideia de que as brigas, os conflitos, os problemas eventuais, são motivados – só e somente só – pela bebida alcoólica. Referenda uma versão que é completamente destituída de análise científica, de observação empírica.

É sobre isso que eu quero falar aqui.

Antes, porém, quero iniciar com uma crítica à própria lei.

O Artigo 1º autoriza exclusivamente “o comércio e o consumo de bebida alcoólica fermentada cujo teor alcoólico não seja superior a 15%”.

Mais específico impossível.

Para mim, pois, fica claro um lobby das grandes cervejarias. Que exclui, por exemplo, a cachaça, extremamente popular na Paraíba e preferida dos torcedores mais pobres, sem condições de pagar tanto pelo consumo da cerveja.

A lei, assim, tem dois problemas graves: (1) beneficia apenas as classes média e alta da sociedade, deixando de lado os pobres; e (2), de certa forma, referenda o discurso do MP da Paraíba e da Polícia Militar de que o álcool é sim o gerador de violência. É como quem diz, em claro tom preconceituoso: “estamos liberando, mas apenas as bebidas mais leves”.

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Fonte: Folha de SP.

Mas, falemos sobre o mérito da questão.

Ao longo de dois anos, durante minha pesquisa de mestrado, acompanhei torcedores do Botafogo-PB. Pela cidade, nos dias de jogos, em viagens pelo Brasil.

E, nas minhas análises antropológicas, identifiquei dois motivos principais para classificar como despropositadas o veto à venda e ao consumo de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. Trato, claro, do contexto paraibano, mas me parece que essa realidade pode ser aplicada a outras realidades brasileiras.

Primeiro de tudo é que é um equívoco tremendo, um desconhecimento total da pluralidade existente numa arquibancada, colocar na conta da bebida alcoólica todas as formas de violência, de conflito, de indisposição mesmo de um com o outro no contexto futebolístico.

Fazer isso, afinal, é negar as múltiplas identidades, as distintas formas de torcer, as rivalidades e diferenças que estão postas no ambiente do futebol. Não só entre torcedores de clubes diferentes, mas entre as próprias torcidas de um mesmo clube (sempre pensadas no plural). É colocar na conta da bebida algo que é muito mais complexo, muito mais rico do ponto de vista antropológico, inclusive.

A propósito, fazia mais de dez anos que o consumo de bebida alcoólica estava proibido na Paraíba, e ao longo desse tempo não há absolutamente nenhuma evidência que comprove que a violência diminuiu, que os conflitos ou as diferenças cessaram por causa do veto.

Qualquer análise empírica mais séria, qualquer investigação científica mais cuidadosa, qualquer debate que aceite seguir para além do discurso fácil e do preconceito barato provará que praticamente as mesmas questões existentes em 2008, por exemplo, antes do veto, seguiam existindo em 2019, mais de uma década depois do veto ser instituído.

O debate tem que ser mais embasado. O debate não pode se limitar aos lugares comuns, aos achismos, à criminalização prévia do consumo de bebida alcoólica.

Mas tem um segundo ponto: o veto é completamente ineficaz. Porque, ao menos na Paraíba, ninguém que gosta de beber, de se embriagar, que seja, deixou de fazer isso ao longo desses dez anos.

Se a ideia era a de que com menos álcool haveria menos violência, a medida se tornou completamente inócua.

Foi outro ponto extremamente perceptível em minha pesquisa.

Nenhum torcedor, que gosta de beber, deixou de beber por causa do veto. As torcidas, na verdade, não fizeram mais do que mudar suas dinâmicas. A se readequarem aos novos tempos. Começaram a se reunir mais cedo antes dos jogos, a prolongar suas farras e bebedeiras depois da partida, a atrasar ao máximo a hora de entrar no estádio.

Tudo isso para beber onde era possível. Onde era permitido. Onde era legalizado. Ninguém passou a assistir a jogo sóbrio por mero decreto.

Novas estratégias para driblar uma coercibilidade do Estado. Novas formas e novos lugares de encontros em nome da potência que a bebida proporciona nas sociabilidades dos grupos torcedores.

No fim das contas, a medida, que supunha diminuir a violência nos estádios paraibanos, não a diminuiu e ainda trouxe problemas não previstos pelas autoridades públicas.

Cito dois: encontros de torcedores rivais em bares localizados longe do estádio de futebol, onde o policiamento em regra não está presente; e tumulto na entrada do estádio nos cinco minutos que antecedem o início da partida, visto que os bebedores passaram a atrasar ao máximo a entrada no estádio para seguirem bebendo até o limite do possível. No fim de tudo, eram poucos os portões para tanta gente que queria entrar exatamente no mesmo momento e o tumulto tornava-se inevitável.

Enfim, o Ministério Público da Paraíba, a Polícia Militar, parte da mídia, tantos outros, erram feio ao defender uma postura mais conservadora, uma política mais proibitiva, baseado em puro preconceito, ao invés de se debruçar em estudos sérios que analisam as dinâmicas dos torcedores de futebol.

Afinal, tais dinâmicas são muito mais complexas do que o discurso simplista tenta fazer parecer.

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Mohamed Salah, o novo faraó do Egito

Houve um tempo em que a única oportunidade de assistir a um jogo internacional pela TV era no domingo pela manhã, quando a TV Bandeirantes exibia, no Show do Esporte, uma única partida da rodada do Campeonato Italiano. O chamariz para os brasileiros era a eventual participação de ídolos nacionais que, a partir dos anos 1980, começaram a se transferir para o torneio mais competitivo de então. Ídolos como Falcão, Zico, Júnior, Toninho Cerezo, só para citar alguns integrantes do time canarinho de 1982 tinham ido jogar na “bota”.

Não era um mundo globalizado. Nem se sonhava com Internet para meros mortais. Os mundiais eram praticamente a única grande oportunidade de admirar craques de outros países, outras táticas. Não foi à toa que o Carrossel Holandês de Rinus Mitchel pegou a todos de surpresa na Copa da Alemanha, em 1974. Cruyff era um desconhecido para nós que estávamos abaixo da linha do Equador.

Hoje a história é outra. Há uma enorme diversidade de campeonatos disponíveis na TV por assinatura ou nos canais de streaming. Os principais torneios do mundo, com seus milionários investimentos, se tornaram comuns em todos os tipos de tela à nossa disposição. A disputa da UEFA Champions League, no Brasil, dependendo da faixa etária, repercute mais do que o Campeonato Brasileiro, afinal, lá estão os craques que os jovens torcedores aprenderam a admirar.

O professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Ronaldo Helal, estuda o surgimento e a formação de ídolos e heróis representativos de espetáculos de massa e suas relações com a Indústria Cultural. Em seu artigo “Mídia, Ídolos e heróis do futebol”, disponível no portal da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, ele nos lembra que  “um fenômeno de massa não se sustenta sem a presença de ‘estrelas’. São elas que atraem as pessoas aos eventos e transformam-se em um referencial para os fãs”. E é justamente a imagem desses ídolos que ajuda a mover uma poderosa engrenagem de negócios, gerando lucros estratosféricos. De acordo com a Football Money League, da consultoria norte-americana Deloitte, só o Barcelona faturou cerca de 840 milhões de euros na temporada 2018/2019 (algo em torno de 4 bilhões de reais). O argentino (ou já seria catalão?) Lionel Messi, o português Cristiano Ronaldo, o brasileiro Neymar Jr. são os nomes mais representativos desse seleto clã, mas há espaço para muitos outros nos holofotes midiáticos globais.

Este artigo é dedicado justamente a um desses jogadores que, a princípio, integrariam um segundo escalão, mas que em seu país é considerado um rei, ou melhor, um faraó: Mohamed Salah Hamed Mahrous Ghaly, ou simplesmente Mo Salah, como é apelidado na Premier League inglesa, onde atua pelo Liverpool. O atacante de 27 anos é o maior jogador da história do futebol egípcio.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.

De norte a sul do Nilo, a figura de Salah está presente e nos locais mais inusitados, como uma fachada de salão de barbeiro em Memphis, dando nome a um pequeno barco que transporta turistas na cidade de Aswan ou estampando papiros em uma loja em Giza. Adesivos em carros ou tuk-tuks (espécie de moto-táxi) se vê às centenas. Algo que chama a atenção até mesmo de quem não está habituado com o mundo do futebol.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.
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Fonte: Acervo pessoal do autor.

Durante uma recente viagem ao Egito, perguntei a várias pessoas de lá o que achavam de Mohamed Salah, e os elogios ao jogador foram uma unanimidade, não houve sequer uma queixa, um senão. E o mais curioso de tudo é que, apesar de o ponta ter sido um dos maiores responsáveis por levar o selecionado egípcio ao mundial da Rússia, em 2018, raros eram os elogios que passavam por seu desempenho nas quatro linhas. A maior qualidade de Salah era sempre a ligação com suas origens e a constante preocupação com seus compatriotas.

O nosso guia no Cairo, Abdel Kader El Araby, nasceu na mesma região que o atacante do Liverpool, no delta do Rio Nilo. O entusiasmo para falar de Salah superava as dificuldades que tinha com o “portunhol” que usava para nos explicar as atrações que visitávamos. Orgulhoso, Abdel nos contou que todos os anos o jogador volta ao povoado de Nagrig, na Província de Garbia. Disse que o jogador dispensa qualquer proteção e que se desloca pela cidade como nos tempos em que lá vivia. Nosso guia também fez questão de ressaltar como Salah ajudou e ainda ajuda a região.

As boas ações de Salah viraram lendas numa terra tão acostumada a elas nos últimos cinco mil anos, algumas reais e, outras, frutos da imaginação popular. É fato que Salah mandou construir uma quadra de esportes na escola que ganhou seu nome, em Nagrig, que ajudou a reformar o hospital de Basyoun, onde foram construídas salas de atendimento para recém-nascidos, além da compra de ambulâncias. Também é correto afirmar que faz contribuições mensais para centros comunitários e outras bem mais vultosas, como o repasse de cerca de um milhão e meio de reais para o Tahya Masr Fund, uma instituição que presta atendimento de saúde a 900 mil crianças matriculadas no sistema público de educação do Egito. No entanto, outras supostas atitudes beneficentes acabaram se propagando pelo país sem que fossem de fato tomadas, como, por exemplo, a ajuda que teria dado a milhares de casais que não tinham condições financeiras para se casar ou a construção de uma grande estação de tratamento de água em sua região natal.

A religião muçulmana é baseada em cinco pilares, e um deles é justamente a caridade, ou seja, todo seguidor dos ensinamentos de Alá deve doar um percentual de seus ganhos aos necessitados, mas nenhuma das pessoas com que conversei acredita que o motivo das doações feitas pelo jogador seja religioso, já que Mohamed Salah é muçulmano, como cerca de 90 por cento da população egípcia. Para todas essas pessoas, a caridade praticada por ele é fruto de sua índole, o que o faz ser ainda mais admirado.

Não se pode classificar Mohamed Salah como um jogador engajado, mas seria errado, também, dizer que ao se transferir para o exterior ficou alheio aos graves problemas enfrentados por seu país. Quando atuou pela Fiorentina da Itália, por exemplo, passou a usar a camisa número 74. Esse foi o número de mortes na tragédia do estádio de Port Said que aconteceu no dia primeiro de fevereiro de 2012. Tudo por causa de um confronto entre “ultras” (grupos de torcedores violentos) do time local, o Al-Masry e da equipe do Al-Ahly, do Cairo.

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Fonte: ANSA.

Em 2013, se recusou a apertar a mão de jogadores do time israelense do Maccabi, por discordar da política sionista em relação à Palestina. Outro exemplo da preocupação com assuntos extra campo foi uma doação de dois milhões e meio de libras esterlinas (14 milhões de reais) para o Instituto Nacional do Câncer, que teve parte das instalações atingida por um atentado terrorista em agosto de 2019. Além disso, Salah é o rosto de uma campanha antidrogas no país.

Em um texto para o jornal The New Arab, em maio de 2018, Mohamed El Meshad, jornalista com foco na economia política da mídia, questionou: “Mo Salah é um herói necessário ou um ópio para as massas?”. El Meshad entende que o craque egípcio deveria se manifestar mais em relação a temas do Oriente Médio, como as agressões na Faixa de Gaza, por exemplo. “Dado seu passado, Salah poderia usar seu status de craque mundial e se manifestar, especialmente em um momento em que grupos de defesa pública e ação política independente foram esmagados pelo Estado.  Mas certamente é pedir demais a um jogador de futebol de 26 anos que sempre tome a decisão correta sobre o que dizer e o que não dizer, quando falar e quando não falar”.

No artigo citado no começo deste texto, Ronaldo Helal destaca a visão de dois pensadores que muito se encaixa com a imagem que a população egípcia tem de Mohamed Salah: “Edgar Morin (1980) e Joseph Campbell (1995) chamam a atenção para a diferença entre celebridades e heróis. Enquanto os primeiros vivem somente para si, os heróis devem agir para ‘redimir a sociedade’. A saga clássica do herói fala de um ser que parte do mundo cotidiano e se aventura a enfrentar obstáculos intransponíveis, os vence e retorna à casa. Conforme colocou Campbell (1995:36) ‘o herói parte do mundo cotidiano e se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes’”.

Para Mohamed El Meshad, “Salah é um produto do presente que representa um futuro no qual muitos estão desesperados para acreditar, um egípcio bem-sucedido contra todas as probabilidades”. O fato é que o ídolo egípcio conseguiu em meio a uma fase tão difícil, unir o país, ainda que através do futebol. Depois da Primavera Árabe e os violentos protestos na praça Tahrir, cujo nome significa liberdade, o ditador Hosni Mubarak, que estava há 30 anos no poder, foi deposto. Mas a transição para a democracia se mostrou turbulenta e entrou em colapso quando o presidente Mohamed Morsi, democraticamente eleito, foi derrubado pelos militares com apoio popular em 2013.  Desde então o Egito está sob o comando do presidente Abdel Fatah al-Sisi, ex-chefe das forças armadas, e vive um regime de severa repressão a qualquer tipo de oposição.

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Fonte: Acervo pessoal do autor.

Em junho de 2018, pouco antes da Copa da Rússia, o jornal inglês The Guardian publicou um texto com o título: “Como Mohamed Salah conseguiu o impossível: unir o Egito”. A reportagem buscou depoimentos de várias pessoas ligadas ao futebol egípcio para tentar retratar o fenômeno. A fala mais emblemática, que chama a atenção pelo tom tão ufanista quanto exagerado, é de Mohamed Farag Amer, então chefe do Comitê Parlamentar de Esportes e Juventude do Egito. Para ele, “Mohamed Salah é realmente importante porque ele é um símbolo como Tutancâmon, como as pirâmides”.

A imagem de Mohamed Salah, mesmo depois do decepcionante desempenho do Egito na Copa de 2018, com três derrotas, seis gols sofridos e dois marcados, não foi abalada. As conquistas pelo Liverpool, com os títulos da Champions League e do Mundial Interclubes da FIFA, fazem com que sua reputação permaneça intocada, até porque, daqui a dois anos, há um novo mundial e os egípcios só pensam em, mais uma vez, disputar a Copa do Mundo. Um sonho que só parece possível graças a Mohamed Salah. Portanto, vida longa ao “Faraó”.

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Primeira edição dos Encontros LEME 2020

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No primeiro Encontro de 2020, vamos receber Luiz Guilherme Burlamaqui, que apresentará a pesquisa “A dança das cadeiras: como João Havelange se tornou presidente da FIFA em 1974”.
Luiz Burlamaqui é doutor em História Social pela USP e professor de história no Instituto Federal de Brasília.

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

Local: Auditório do PPGCom/UERJ
Horário: 16h
Não é necessária inscrição prévia.
Em todas as palestras teremos certificado para alunos para horas complementares.

Os próximos Encontros agendados são:
> 06/04 16h – Diano Albernaz Massarani
> 27/04 16h – Alberto Filgueiras
> 11/05 16h – Irlan Simões
> 27/05 16h – Isabella Trindade
> 08/06 16h – Carlus Augustus
> 22/06 16h – Jimmy Medeiros

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Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes

Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa.

A final da Copa do Mundo da Fifa 2019, entre Liverpool x Flamengo, expôs uma curiosa, e interessante, disputa de narrativas entre o discurso, quase uníssono da imprensa, e o das mídias sociais. Embora marcado, também, pela (saudável) jocosidade das torcidas, as narrativas fora do campo da imprensa apresentaram um fator que parece indicar uma inversão de papéis. Enquanto, não raro, o discurso que exaltava a participação da agremiação carioca soava clubístico, com direito a contagem regressiva do voo, internautas faziam jornalismo, ocupando papel que deveria ser o da imprensa. Entendida essa prática como a busca de contrapontos, a indicação de contrastes no tratamento dedicado ao Flamengo e a outros clubes brasileiros que participaram do mesmo evento em outras edições e a exposição de contradições importantes – eventualmente constrangedoras – entre a fala de veículos e jornalistas e os fatos.

Para colocar a cobertura em perspectiva, eventualmente, foi necessário recuar no tempo, para tentar mostrar como, já na cobertura da conquista da Libertadores, havia fortes contrastes com a gramática dedicada, por exemplo, ao título do mesmo torneio pelo Vasco, em 1998. Assim, por exemplo, em 23 de julho daquele ano, o jornal O Globo anunciava, sem qualquer ilustração, numa discreta coluna de rodapé de página: “Vasco está na final da Taça Libertadores”. O mesmo jornal, 21 anos depois, manchetou, em cinco colunas: “Goleada histórica põe Fla na final da Libertadores”. A matéria era acompanhada por uma foto, em quatro colunas, do Gabigol celebrando um dos dois gols que marcara na vitória de 5 x 0 sobre o Grêmio. No caso do Vasco, a classificação para a final veio após empatar, na Argentina, em 1 x 1, com o River Plate, a quem vencera por 2 x 1, em São Januário.

O tratamento distinto provoca maior estranheza por tratar-se de dois times do Rio, mesma praça do jornal responsável pelos dois títulos. Talvez por isso, embora a comparação entre as duas edições tenha partido da internet, sua forte repercussão nas mídias sociais acabou reverberando em programas como o “Redação SporTV”, que exibiu a cobertura realizada pelo jornal da mesma empresa do programa. O jornalista André Rizek, que comanda o “Seleção SporTV” – umas das principais mesas esportivas da emissora –, foi ao Twitter para chamar a atenção para a contradição exibida pelo programa, e protestou: “É ultrajante a diferença no tratamento dispensado aos dois clubes, em situações muito parecidas”.

Paulista radicado há alguns no Rio, Rizek, em outras ocasiões, já manifestara seu descontamento com o que considera a assimetria do tratamento da imprensa carioca em relação ao Flamengo e aos outros três times grandes do Rio: Botafogo, Fluminense e Vasco. Nas suas palavras: “Tem a cultura que o Flamengo tem de ser soberano. Para o Flamengo ser soberano, tem de ridicularizar os outros. Os feitos dos outros são menos comemorados, são menos vibrados, menos enaltecidos.”

Glamourização da derrota x Orgulho do torcedor

Apesar do papel relevante que ocupa no jornalismo esportivo do Rio, Rizek, no entanto, parece ser voz quase isolada no questionamento a esse comportamento. Ao menos, esse parece ser o entendimento das vozes que se levantaram nas mídias sociais para se contrapor aos jornalistas que enalteceram o vice-campeonato do Flamengo, em contraposição ao tratamento dispensado a outros clubes em situações semelhantes. Em junho de 2019, quando o  Corinthians foi eliminado pelo Flamengo, nas quartas de final da Copa do Brasil, também por 1 x 0, o portal Terra exaltou a atuação do time paulista, apesar da derrota: “O dia em que o Corinthians ganhou sem ter vencido. No jogaço contra o Flamengo, Timão lava a alma da torcida e traz esperanças de dias melhores”. No Twitter, Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, reproduziu o tweet do Terra, mas encabeçado pela crítica: “Glamourização da derrota.”

O mesmo jornalista, no entanto, tuitou sobre a derrota do Flamengo para Liverpool: “Grande partida do Flamengo, com coragem, com a bola e, enquanto tinha gás, chegou a dominar a partida contra um campeão europeu com força máxima”. E decretou: “Vitória justa do Liverpool, atuação digna do Flamengo. Orgulhoso deve ficar o torcedor”. O tweet foi amplamente replicado nas redes sociais, ao lado do texto anterior de Pereira sobre o Corinthians, acrescido, porém, do mesmo cabeçalho anterior: “A glamourização da derrota”.

Fonte: https://www.terra.com.br/

Exemplos equivalentes repetiram-se à profusão nas redes sociais, antes, e, principalmente, após a vitória do Liverpool. Vários comparavam a exaltação ao “melhor vice-campeão sul-americano contra um europeu” ao tratamento desdenhoso destinado ao Vasco, contra o Real Madri, em 1998. Naquela ocasião, o jornal “Extra” titulou: “Flamengo em festa com o vice do Vasco”. Vinte e um anos depois, o mesmo veículo manchetou: “Orgulho do tamanho do mundo”.

No primeiro caso, além de introduzir a comemoração do rival no título, a matéria era ilustrada pela foto de um jogador do Vasco com as mãos na cabeça, expressando dor. No segundo, a fotografia exibia atletas do Flamengo aplaudindo a própria atuação e a torcida. Como é pouco provável que os rivais estivessem tristes com a derrota rubro-negra, os editores do jornal, dificilmente, poderiam se escudar na objetividade para justificar a ausência da jocosidade clubística que abrigara no outro caso. E, como recordam lances editados e exibidos na internet, o time de São Januário fez um jogo muito mais parelho – para muitos, superior – com o rival espanhol, como mostram as inúmeras chances claras de gol. Já o goleiro do Liverpool, Alisson fez uma solitária defesa ao longo dos 120 minutos, entre o tempo regulamentar e a prorrogação.

Ainda que toda a narrativa das mídias sociais exibida nesse episódio tenha em seu DNA a paixão clubística, como mostra a sua forte replicação por torcedores não rubro-negros, ela se distingue da jocosidade das torcidas, também fortemente presente, aí do lado dos rivais e dos torcedores do Flamengo – neste caso, brincando com a clara superioridade do clube em relação aos concorrentes exibida ao longo do ano passado.

Diferentemente desta, cujo principal combustível é a paixão clubística e não tem qualquer compromisso com fatos, apuração, contexto, as críticas jornalísticas deixam o jornalismo esportivo numa posição incômoda. Ao compararem – e comprovarem – como os mesmos veículos e jornalistas agem de formas assimétricas diante de fatos semelhantes quando vivenciados por atores diferentes, elas expõem uma subjetividade, que, ao menos em tese, deveria limitar-se ao universo dos torcedores, em contraponto, à objetividade reivindicada pelo jornalismo.

É sabido – e admitido pelo próprio universo jornalístico – que as editorias de esporte são consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais. Mas, justamente, por esse relaxamento, também são um território privilegiado para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem da objetividade jornalística, mas, exatamente, para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Analogias entre as preferências esportivas exibidas nessas editorias podem ser encontráveis, por exemplo, nas seções de política e economia, mostrando que, se os interesses das empresas podem ser mais explicitados nas primeiras, também comparecem nas outras duas, ainda que de formas menos identificáveis pelo público leigo nesses temas. Eles estão presentes no tratamento distinto destinado a políticos e partidos em temas equivalentes. Como exemplo pouco sutil: o mensalão do PT x o mensalão mineiro – enquanto este envolvesse um partido, o PSDB, e não um estado como um todo.

O mesmo vale, nas páginas de economia, para a cobertura sobre as mudanças na Previdência. No vasto espaço destinado ao tema, o “Jornal Nacional”, principal telejornal do país, não ouviu um só entrevistado contrário à redução dos direitos à aposentadoria. Ou seja, o famoso ouvir os dois lados, um dos cinco procedimentos estratégicos que servem à busca pela objetividade jornalística. Sendo os demais a técnica do lead; o recurso a provas auxiliares; o uso de aspas e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro da primeira em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda (TUCHMAN, 1993).

Se no passado, a subjetividade das editorias esportivas contava com maior complacência do público – ou, ao menos, este tinha canais menos estridentes para manifestar divergências – as redes sociais mostram que, quando recorrem à mesma metodologia reivindicada pelo jornalismo, podem produzir contrapontos objetivos às narrativas das empresas que vão muito além da jocosidade das torcidas. A análise desse fenômeno pode ser uma pista e um incentivo para que possa ser estendido às outras editorias.

 

Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 2002.

TUCHMAN, Gaye. “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas”. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.