Artigos

Quando Armando imaginou Kissinger como sócio honorário do Boca

Em 1976, o Boca contava com 360 sócio honorários. De acordo com seu estatuto, essa distinção pode ser concedida “em favor de pessoas que, pertencendo ou não ao Clube, tenham lhe prestado serviços excepcionais”. Essa distinção havia sido concedida pela última vez em 1972, quando receberam-na 45 homens pelos seus favoráveis “pronunciamentos administrativos inerentes às obras do Grande Estádio da Cidade Desportiva, com benefícios inestimáveis para o Boca Juniors”. Quatro anos depois, Alberto J. Armando, presidente da entidade entre 1954-1955 e entre 1960-1980, tentou aumentar a lista de sócios honorários com um personagem tão inusitado quanto ardiloso: Henry Kissinger, secretário de Estado dos Estados Unidos entre 1973-1977, durante as presidências de Richard Nixon e Gerald Ford e defensor da Junta Militar que governou o país depois do golpe cívico-militar de 1976 que derrubou Isabel Martínez de Perón.

A motivação de Armando, promotor do que seria o “futebol espetáculo” no final da década de cinquenta e começo da de sessenta, parece ter sido mais propagandística do que política. Kissinger poderia ter impulsionado a visibilidade internacional do Boca. Em 14 de junho de 1976, a menos de dois meses do golpe, Armando enviou uma carta a Kissinger, preservada em seu arquivo pessoal, manifestando o agrado do clube em saber, através da imprensa, de sua simpatia pela instituição que presidia. “O Clube mais popular da Argentina”, prosseguia a carta, “tem a partir de agora entre seus membros uma das figuras mais relevantes do governo dos Estados Unidos da América e campeão da paz mundial”, o que constituía uma “uma honra imensa”.

Junto com a carta, Armando enviou a Kissinger uma flâmula e uma insígnia do Boca, assim como uma credencial para que pudesse presenciar na famosa Bombonera as partidas da equipe principal. Dando-lhe as boas-vindas “à grande família boquense”, Armando antevia que ela [a família boquense] demonstraria seu afeto e sua alegria quando, em sua próxima visita ao país, Kissinger se sentasse no lugar de honra do estádio. Armando se despedia até “tão feliz momento”, anunciando que na próxima Assembleia Geral de Representantes “proporemos a designação do Senhor Secretário de Estado como Sócio Honorário do Clube”.

A carta de Armando foi traduzida no Departamento de Estado e respondida seis semanas depois. A assistente pessoal de Kissinger fez isso em seu nome. Ela disse a Armando que agradecia muito à flâmula, à insígnia e à credencial. Além disso, dizia saber o quanto Kissinger gostaria de presenciar a uma partida de futebol em sua próxima viagem ao país, se sua agenda o permitisse. A assistente pessoal também disse que Kissinger estaria muito honrado de ser proposto como um sócio honorário. O entusiasmo era verdadeiro, já que Kissinger adorava o futebol, esporte que praticou em sua juventude e promoveu nos Estados Unidos. Em outubro de 1978, foi nomeado presidente da Junta Diretiva da Liga da North American Soccer League (NASL) – Liga de Futebol da América do Norte –, que funcionou entre 1968-1984. Ele podia ser visto nas partidas do New York Cosmos, equipe da NASL, e se envolveu nas negociações que permitiram a Pelé jogar nessa equipe entre 1975-1977. Também teria um papel destacado na bem-sucedida candidatura dos Estados Unidos para ser sede da Copa do Mundo de 1994. O jornalista Daryl Grove argumenta que Kissinger tem sido uma das pessoas mais influentes no desenvolvimento do futebol nesse país.

Apesar do entusiasmo de Kissinger pela carta de Armando e suas credenciais futebolísticas, o Boca não lhe concedeu o título de sócio honorário. A Assembleia Geral Ordinária de Representantes, posterior à carta de Armando, foi realizada em 10 de setembro de 1976, mas o Relatório e o Balanço Geral do ano administrativo que terminava no final daquele mês mostrou que o número de sócios seguia sendo o mesmo: 360. Esse documento não especifica se Kissinger não foi proposto como sócio honorário ou se houve resistência à dita proposta. É provável que alguns sócios desejassem considerar os “serviços excepcionais”, como reza o estatuto do clube, prestados por Kissinger para merecer a distinção.

Ainda que não tenha sido aceito como membro honorário do Boca, Kissinger se relacionou sordidamente com o futebol argentino. Foi um convidado de honra da Junta Militar durante a Copa do Mundo de 1978. Ele até apareceu com Jorge Videla, o presidente da Junta Militar, posteriormente condenado por crimes contra a humanidade, no vestiário da equipe peruana antes da controversa partida que disputou, em Rosario, contra a Argentina pelas semifinais do torneio. No ano anterior, Videla havia entregado a Kissinger uma foto sua cuja legenda dizia: “Ao senhor HENRY KISSINGER, com particular estima e respeito”. Dado o apoio que concedeu à ditadura cívico-militar, a estima e o respeito eram mútuos. Videla estava convencido de que, como secretário de Estado, Kissinger havia defendido as ações de seu governo “contra o comunismo”. Sua presença na Copa do Mundo de 1978 foi encarada como legitimadora e, ao mesmo tempo, como contrapartida à posição de Jimmy Carter, que pressionava, desde sua posse na presidência, em fevereiro de 1977, a Junta Militar a respeitar os direitos humanos. De fato, em 1978, Raúl Castro, embaixador dos Estados Unidos na Argentina, escreveu estar preocupado com a visita de Kissinger para a Copa do Mundo, porque seus elogios à luta “contra o terrorismo” podiam ter subido à cabeça dos ditadores e porque existia a possibilidade de que eles se utilizassem disso para justificar um endurecimento das ações repressivas.

Qualquer que tenha sido o motivo para a frustração da ideia inicial de Armando, para o Boca foi benéfico não contar com Kissinger entre seus sócios honorários. Suas temerosas ações políticas estenderam-se a outros países da América Latina e também a outras zonas geográficas. Sua carreira no serviço público foi tão controversa que o cientista político Marcelo Cavarozzi afirmou que Kissinger é “produto de uma mente superior que não necessariamente trabalhava para encontrar o funcionamento e o desenvolvimento de sociedades mais justas, pacíficas e igualitárias”. Por sua vez, o jornalista Jon Lee Anderson se perguntou, à luz de novos documentos que confirmam seu apoio aos ditadores latino-americanos, se Kissinger tem consciência. Boa parte da família boquense, ao falar de Armando, pode ter se perguntando a mesma coisa. Ao menos eles não tiveram que se perguntar o que deveriam ter feito se tivessem concedido a Kissinger a distinção de sócio honorário do clube. Ao contrário da previsão de Armando, a Bombonera nunca demonstrou a Kissinger seu afeto e sua alegria.

Fonte: Página12

Texto originalmente publicado no site Página12 no dia 15 de fevereiro de 2021.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

Artigos

Os bastidores de partidas de futebol: relações que cresceram no afastamento social

Há uma crescente aproximação entre jogadores e torcedores conectados às redes sociais – em especial o Youtube, o Instagram e o Facebook. Nesse cenário, os vídeos dos bastidores das partidas dos clubes brasileiros têm sido prato cheio no consumo de informação clubística para os aficionados, principalmente com a caótica situação da pandemia, que afastou os fãs de seus ídolos.

 Desdobram-se, sobretudo nos últimos meses, mais e mais comentários, nas plataformas mencionadas, por parte de torcedores, com manifestações de apoios, críticas e, até mesmo, feedbacks positivos/negativos sobre o conteúdo que está sendo exposto nos vídeos de bastidores. Essas nem tão novas formas de interação floresceram diante da impossibilidade de os torcedores estarem nos estádios, apoiando seus clubes do coração. Mais um dos vários sintomas de uma pandemia que perdura e causa impactos claros também nos esportes.

Falta, assim, recordando o que diz o teórico Hans Ulrich Gumbrecht, a troca e a proximidade possibilitada pela simbiose dentro de um estádio, local que possui, segundo ele, uma “aura”, tornando-se “sagrado”. No estádio, é onde ocorre a performance do esporte, a presença, ou, ainda mais, a produção dela. Eis que a ferramenta comunicacional, que já vinha crescendo ano a ano, ganha novos contornos: sua função de aproximar os atores do futebol se alicerça, agora, numa urgência da produção de presença que necessariamente limita-se ao espaço virtual. Os já mencionados bastidores das partidas, gravados e editados pelos profissionais de comunicação dos clubes, tornaram-se os elos perdidos – e possíveis – num obrigatório relacionamento à distância.

Vale destacar que a exibição, pelos clubes, dos bastidores só se faz, em geral, nas ocasiões de vitórias. A exceção se dá quando ocorrem empates que carregam certo grau de dramaticidade; um empate que coloca o clube na liderança ou o livra da zona de rebaixamento, por exemplo.  

Essa fruição de espectadores e da audiência em geral se deu, pode-se dizer, desde os primeiros momentos de retorno da bola rolando no Brasil pandêmico, em junho de 2020. Juntou-se a esse caldeirão as polêmicas envolvendo alguns clubes e emissoras de tevê sobre direitos de transmissões de partidas. Alguns jogos – incluindo finais, vide o Fla-Flu do Campeonato Carioca – migraram para a transmissão no YouTube e levaram muitos torcedores aos canais oficiais dos clubes na plataforma, num engajamento superior a outros momentos.

O boom nos números de inscritos nas “tevês personalizadas” de cada instituição foi visível, principalmente se olharmos para o crescimento exponencial da taxa de seguidores no canal do Fluminense Football Club, por exemplo. O clube agora possui, com a sua “Flu TV”, mais de 600 mil inscritos no YouTube. Número seis vezes maior ao período anterior a toda essa trama que se desenrolou a partir da quarentena, na esteira de exibições ao vivo de jogos decisivos pela referida plataforma de vídeos.

É uma aproximação do torcedor, em outra esfera, com a marca, com o clube. Os departamentos de comunicação das marcas, responsáveis por essa relação, pareciam já perceber essa nova dinâmica bem antes. Está dentro de uma gama de estratégias de marketing, relacionamento e fidelização de seus públicos. A penetração dessas estratégias nos nichos encontrou, na pandemia, uma viabilidade ainda maior. E os bastidores de partidas tornaram-se essenciais na expansão do consumo do espetáculo.

Fazendo um recorte curto de uma edição do Campeonato Brasileiro para outra, num espaço de rodadas próximas, tomando o Fluminense como exemplo, nota-se a diferença de audiência. Na 35ª rodada do Brasileirão de 2019, no dia 29 de novembro de 2019, o vídeo dos bastidores da partida contra o Palmeiras, vencida pelo tricolor carioca por 1 a 0, soma – até o dia de produção deste texto, 08/02/2021 – pouco mais de 73 mil visualizações.

Já o vídeo dos bastidores da vitória sobre o Botafogo na 32ª rodada – bem próxima da rodada do primeiro caso – do Brasileirão 2020, lançado mais de um ano depois do exemplo comparativo, no dia 26 de janeiro de 2021, alcançou, em menos de um mês, quase o dobro do número dito alhures: 125 mil visualizações. Número que continua avançando a cada dia.

A manifestação do espectador aficionado

Tal importância pode ser notada pela leitura dos comentários em vídeos desse tipo. Pegando o exemplo de outro vídeo de bastidores de outra vitória do Fluminense, dessa vez sobre o Bahia por 1 a 0, na 34ª rodada do Brasileirão de 2020, conseguimos dimensionar o valor dado por parcela considerável da torcida do tricolor. Ela sintomatiza a relevância pungente; é quem sente e vivencia o impacto da distância de forma mais nítida, por ter sua presença barrada. Logo, a torcida é o ponto focal da estratégia diferenciada de aproximação que são os bastidores de partidas.

Há espaço, inclusive, para manifestações nessa relação. Alguns torcedores, por exemplo, cobram maior tempo para momentos que mostram o vestiário, a concentração nesse espaço. Estes fazem críticas, nas caixas de comentários dos vídeos inseridos no Youtube, cobrando justamente uma maior imersão nesse sentido, como nos exemplos abaixo:

Comentário de torcedor do Fluminense, no vídeo dos bastidores da vitória sobre o Bahia, com muitas curtidas. (Reprodução).
Comentário de outro torcedor do Fluminense, no mesmo vídeo dos bastidores da vitória sobre o Bahia, também com muitas curtidas. (Reprodução).

O propósito da ferramenta de comunicação fica explícito nestes comentários, que carregam, inclusive, reivindicação e feedback aos produtores. Ao que parece, a busca latente dos torcedores é, cada vez mais, o contato maior com seus ídolos, e isso parece estar sendo atenuado pelo contexto da pandemia.

Voltando a lembrar do que diz Gumbrecht, percebe-se uma possibilidade a mais de reencantamento secular que o esporte pode proporcionar com o novo cenário, ocasionado pelo aparente aumento da relevância de vídeos de bastidores de partidas em tempos de distanciamento social. Mais uma possibilidade numa realidade de desencantamento moderno, que vai permeando o tecido social a cada ano, e exacerba-se numa súbita pandemia.  

Indo um pouco mais na direção do teórico alemão, é em tal dinâmica que a gratidão pelo “herói” se manifesta nas expressões dos fãs do esporte, e as reações intensas e vagas não poderiam deixar de aparecer. Vagas – ele aponta –, pois, a princípio, ainda não há uma expectativa do interlocutor por uma resposta de seus ídolos. A resposta do ídolo com um agradecimento a possíveis elogios à sua performance é uma exceção para Gumbrecht. Mas esse novo cenário de muitas exceções pode também estar ressignificando essa possibilidade. Vamos pensar brevemente numa fala do jogador Felipe Melo, do Palmeiras.

Há um diálogo e uma nova dimensão de performance sendo construídos?

Pensando nesse processo de expansão na relação marca-torcedor, podemos lembrar de uma entrevista dada por Felipe Melo, jogador do Palmeiras, logo após o clube conquistar o título da Copa Libertadores, ainda no campo. Na entrevista, concedida à Fox Sports, o atleta já deixava subentendida a atenção e a importância que despendia aos vídeos de bastidores dos jogos, fazendo referência às suas falas ditas dentro de um futuro episódio no dispositivo que o replicava. Ele disse:

“Eu antes do jogo – na verdade não gosto de falar isso, se sair na TV Palmeiras, se colocarem lá, ótimo – mas vou falar hoje: Antes do jogo eu tava (no vestiário) procurando o que dizer para nossos atletas, e Deus me deu uma palavra (…)”, disse o atleta, citando diretamente a tevê personalizada de seu clube, mostrando uma preocupação com o que foi e com o que será veiculado por lá.

Continua sendo improvável que os heróis de epifanias temporais, que começam a se diluir no momento em que surgem, retribuam gratidões e elogios acalorados dos fãs do esporte, mas é notável que eles também sentem as novas dimensões de interação que a ferramenta de marketing vem proporcionando com sua consolidação no imaginário das torcidas. Estaria uma nova possibilidade de performance pelos atletas diante de câmeras que os miram fora do palco, na coxia do verdadeiro espetáculo?

Há espaço para respostas, diálogos, frases motivacionais inspiradoras, danças, brincadeiras com e sem a bola, e muitas outras coisas. A extensão da presença de um ídolo, que possibilita o vislumbre do cotidiano em ações espontâneas – ou não –, idênticas às de uma pessoa comum.

Nota-se clara relevância nessa ferramenta não tão nova. É interessante pensar sobre esse aumento de relevância num momento de não-presença das torcidas, um momento de relacionamento diferenciado, assim como perceber que as estratégias de engajamento, de alguns departamentos de comunicação de clubes, parecem estar cada vez mais alinhadas a isso. Os jogadores, pelo visto, também. A torcida anseia por mais vestiário, por mais minutos imersos no ambiente interno, na coxia do espetáculo. Por mais presença, materialidade. O conteúdo dos vídeos de bastidores de partidas recebe, como vimos, feedbacks para se enquadrarem em tais aspirações dos fãs de futebol. E, assim, o futebol – e tudo que permeia esse mágico esporte – continua nos mostrando que não é um fenômeno inalterável; ele está em constante mudança.

Fonte: Explosão Tricolor

Artigos

Sobre clubismo, resultadismo e ausência de craques

Poucas questões expõem, de forma tão didática, os vazamentos da objetividade no jornalismo esportivo do que as previsões daqueles que, nesse campo, apresentam-se como comentaristas de esporte. A recente contrição a que grande parte desses sujeitos foi levada pela rememoração de que, no início do Campeonato Brasileiro, apontavam o Santos como um dos candidatos ao rebaixamento foi apenas um dos, não poucos, capítulos em que, sob a capa de previsões ou palpites, deixam escapar o que muitos torcedores identificam como clubismo.

O clubismo, na editoria de esportes, seria o equivalente ao partidarismo na seção de política ou à defesa do rentismo nas páginas de economia. Uma diferença relevante, porém, é que, raramente, um jornalista dessas duas últimas editorias cogitaria a hipótese de explicitar as suas preferências político-partidárias ou de modelos econômicos. Essas têm de serem inferidas por leitores detentores de cardápio que vá além do senso comum ou da mera ignorância dos complexos interesses que envolvem aqueles dois campos.

Na seção de esportes, no entanto, não é incomum que jornalistas revelem suas preferências clubísticas, embora existam exceções em estados de polarização binária e radicalizada, como o Rio Grande do Sul. Tal explicitação de preferências, porém, raramente é acompanhada do reconhecimento de que elas podem implicar alinhamento profissional com os clubes pelos quais torcem. Ao contrário, o ordinário é a proclamação de que elas não interferem em suas análises e opiniões. Curiosa e emblematicamente, tal declaração de fidelidade à objetividade jornalística é diamentralmente oposta à percepção que um numeroso grupo de torcedores tem sobre esses profissionais.

Aqui, faz-se necessário ressalvar a crescente intolerância dos torcedores a qualquer crítica e/ou opinião que contrarie as suas próprias convicções sobre o seu clube e sobre os adversários. Certamente, a intolerância a opiniões divergentes não é um fenômeno que tenha surgido contemporaneamente. No entanto, a crescente polarização da nossa sociedade e o amplo acesso às mídias sociais potencializaram tal sentimento. Mas, para além da negação à alteridade, a atitude dos torcedores também é alimentada pela percepção de que muitos jornalistas são clubistas. Por essa ótica, não haveria grande distinção entre eles e os torcedores que, ao menos, explicitariam sua adesão incondicional a um clube sem qualquer compromisso profissional ou com a objetividade.

Tal percepção por parte de parcelas numerosas do público é potencializada pelo acesso que os torcedores têm às mídias sociais nas suas diferentes plataformas. Na batalha para defender seus clubes e atacar aqueles que consideram adversários das suas agremiações, os torcedores não se valem apenas da paixão. Não raro, como tratamos em artigo anterior[1], também recorrem à gramática jornalística, cobrando dos jornalistas coerência com opiniões pretéritas adotadas, em situações comparáveis, em relação a clubes adversários. Seja no tratamento da derrota numa partida importante ou na análise da atuação do VAR em lances capitais.

E, como confirma vasto material empírico disponível na internet, parte dele encontrável no texto anteriormente mencionado, torcedores céticos em relação à neutralidade do jornalismo esportivo têm fortes motivos de reafirmação da sua (des)crença. No entanto, não apenas a identificação de jornalistas ao clubismo e a negação à alteridade alimentam a descredibilização do jornalismo esportivo.

Dominada pelo resultadismo, a imprensa, e não apenas a brasileira, nos dizeres de Marcelo Bielsa, “se especializou em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”. Em encontro promovido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2018, Bielsa justificou seu diagnóstico: “O mesmo comportamento que se utiliza para amplificar (o reconhecimento)  na vitória é o que se utiliza para condenar o comportamento na derrota”.

Ele exemplificou sua afirmação observando que, se Neymar retoma a bola de um adversário e a seleção brasileira ganha oito partidas seguidas, Tite seria elogiado por ter feito o atacante jogar coletivamente, e não apenas individualmente. No entanto, à primeira derrota, o mesmo treinador seria atacado pela imprensa porque, em vez de pôr Neymar mais perto da área adversária, optara por colocá-lo para perseguir o marcador rival.

Essa gramática esquizofrênica da imprensa apontada por Bielsa já fora sintetizada, no século passado, de forma mais crua pelo também treinador Oto Glória: “Se vences, és bestial. Agora, se perdes, és uma besta, mesmo.” Em essência, ela converge com a lógica passional do torcedor, que, em poucos minutos, pode passar da perseguição a determinado jogador do seu time, a gritar com entusiasmo o nome do mesmo jogador, após este marcar o gol da vitória.

Fonte: UOL

A diferença entre o resultadismo do torcedor e o do jornalista é que o primeiro, assumidamente, é amador, e o segundo, reivindica-se profissional e defensor da objetividade. Obviamente, como em qualquer esporte de competição, a vitória é o principal combustível do futebol. No entanto, deveria existir algum espaço para aqueles que se pretendem comentaristas ou analistas enxergarem além do resultado imediato e/ou não serem pautados pelas mídias sociais.

Embora o clubismo não confesso tenha origem bem mais distante da contemporaneidade, existe um elemento que tem contribuído para desmoralizar precocemente as previsões dos jornalistas: a ausência de craques nos gramados brasileiros. Num futebol cada vez mais nivelado por baixo, as diferenças salariais, ainda que substantivas, não se materializam, na mesma proporção, no campo.  Ainda que clubes com mais recursos possam, por exemplo, pagar salários até sete vezes superiores aos seus atletas em relação a jogadores dos adversários, os primeiros não conseguem jogar sete vezes mais do que os jogadores de um time que faça da entrega tática do seu elenco seu principal ativo.

Como, embalada pelo resultadismo e, não raro, resvalando no clubismo, a imprensa esportiva superfatura o futebol de bons jogadores, tornou-se comum que, em partidas decisivas, quando tensão, cobrança e marcação adversária são mais intensas, os “craques” da mídia esportiva não correspondam à construção dos personagens que ela própria criou.

Foi o que aconteceu, apenas para mencionar exemplo que, na montanha russa que marca o tempo no futebol, parece longínquo, ocorreu há menos de um mês e meio, nas semifinais da Copa do Brasil, entre Grêmio e São Paulo. Nesse confronto, “craques” como o veterano Daniel Alves não conseguiram desequilibrar as partidas a favor do São Paulo, particularmente, no segundo jogo, embora o clube paulista tivesse maior controle da partida, mas sem ameaçar o Grêmio. Resultado: em vez de constatar que, num futebol nivelado e sem craques, as partidas tendem a serem muito equilibradas e podem ser decididas por lampejos ou falhas individuais, a imprensa optou por…criticar Fernando Diniz. O mesmo que, na ótica de Bielsa, seria incensado se o São Paulo vencesse a partida, como esteve mais próximo de fazer no primeiro jogo em Porto Alegre. Enquanto isso, Renato Gaúcho era exaltado pelo mesmo jornalismo esportivo que, mais uma vez na gramática de Bielsa, o criticaria por recorrer à mesma tática que o levou à vitória, caso o vencedor fosse o time de Diniz.

Pouco mais de um mês depois, foi a vez de Cuca ser eleito “a besta” pelo jornalismo esportivo, após o Santos ser derrotado por 1 x 0, pelo Palmeiras, quase no último minuto de uma partida arrastada, em que os goleiros dos dois times não fizeram uma única defesa. Dessa vez, o “bestial”, para os jornalistas esportivos, foi o português Abel Ferreira, também candidato a ser execrado caso, a bola alçada à área poucos instantes antes da prorrogação parasse dentro do gol do Palmeiras.

Tal dicotomia impôs-se à questão que mais saltou aos olhos dos que veem além do resultado. Se os dois clubes com as duas melhores campanhas da Libertadores produzem uma final tão sem brilho e sem que nenhum único “craque” se destaque, isso não deveria sinalizar um diagnóstico mais amplo do nível do futebol praticado no Brasil e no continente para muito além dos dois times em campo? Ou a melhor síntese é mesmo que, entre Cuca e Abel Ferreira, deve-se escolher o segundo, como pregou, por exemplo, Juca Kfouri? Pelo menos, até o segundo ser derrotado pelo Tigres, do México, no Mundial de Clubes, numa partida em que sua equipe acertou apenas uma finalização na direção do gol do adversário.

Fonte: Gandula FC

[1] Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes –  Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa (https://comunicacaoeesporte.com/2020/02/27/internet-x-imprensa-um-jogo-paralelo-no-mundial-de-clubes/)

Artigos

O retorno de Mato Grosso à primeira divisão do futebol nacional

Em 4 de agosto de 1968, o Operário de Várzea Grande estreou na Taça Brasil. Venceu o Atlético Goianiense por 2 a 0. Foi a primeira partida de futebol que um time de Mato Grosso disputou em uma competição nacional de clubes. Começou bem.

O Operário disputou mais três partidas naquela Taça Brasil. Venceu uma e perdeu duas. Ficou em segundo lugar no seu grupo. Classificou-se para a fase seguinte apenas o primeiro colocado (o Atlético Goianiense). O futebol de Mato Grosso teve que esperar cinco anos para voltar a disputar uma competição nacional de primeira divisão.

Vagas garantidas para Mato Groso até 1986

O Esporte Clube Comercial (da cidade de Campo Grande) foi incluído no Campeonato Brasileiro de 1973 porque a CBD queria ampliar o número de Estados com representantes na competição. O número de clubes participantes subiu para 40 em 1973, depois 42 em 1975, 54 em 1976, 62 em 1977. Chegou a 94 em 1979. Assim, os mato-grossenses tiveram vagas garantidas pela CBF na primeira divisão do Campeonato Brasileiro de 1973 a 1986.

Vagas garantidas, mas resultados nada animadores. Nenhum clube do Estado chegou a ficar entre os dez primeiros colocados durante todo esse período. O melhor desempenho foi o do Mixto Esporte Clube no campeonato de 1985. Ficou em 14º lugar. Já o Mato Grosso do Sul se destacava com o Operário de Campo Grande, que ficou em terceiro lugar no ano de 1977 e quinto em 1979. Os torcedores do Estado recém-criado podiam fazer galhofa: a separação de 1977 deixou o bom futebol no sul e os maus resultados no norte.

Jogadores do Mixto em 1985. 14º lugar no Campeonato Brasileiro. Fonte: Trivela

1987: o futebol de Mato Grosso fora da primeira divisão nacional

Em 1987, o futebol brasileiro passou por uma de suas maiores crises (a maior, na opinião do autor desse artigo) e o Campeonato Brasileiro teve o seu formato bruscamente modificado. Na Copa União (que a CBF também denominou de módulo verde), estavam os grandes clubes do país (congregados no Clube dos 13) e mais três clubes convidados. No módulo amarelo, estavam mais 16 clubes. Segundo a CBF, um desses 32 clubes (dos módulos verde e amarelo) seria o campeão brasileiro. E não havia nenhum clube de Mato Grosso entre os 32. Podia-se dizer, portanto, que pela primeira vez desde 1973 o futebol mato-grossense não estava incluído na primeira divisão nacional. E assim continuaria sendo por muito tempo após 1987.

No ano 2000, uma exceção. O Campeonato Brasileiro daquele ano foi realizado pelo Clube dos Treze e não teve divisão principal e divisão inferiores. Foi uma competição única com 116 participantes, em razão de uma outra crise que abalou o futebol nacional (a crise do rebaixamento do Gama em 1999). Ainda assim, esse campeonato excepcional, chamado Copa João Havelange, dividiu os clubes em quatro módulos e o único clube de Mato Grosso inscrito na competição (o União Rondonópolis) foi colocado em um dos módulos inferiores. Todos sabiam, de fato, que os módulos verde e branco equivaliam à terceira divisão e era no módulo branco que estava o representante do futebol mato-grossense.

Depois do ano 2000, Mato Grosso ficou vários anos sem representantes não só na primeira divisão (Série A), mas também na segunda (Série B). Além disso, os clubes mato-grossenses não conseguiam boas colocações na terceira divisão (Série C). Sequer chegavam à fase final. Foi assim até o campeonato de 2010. No campeonato de 2011, a situação começou a mudar.

Luverdense e Cuiabá: a nova geração do futebol mato-grossense

O Luverdense Esporte Clube ficou entre os oito melhores da Série C de 2011. Disputou a segunda fase, que era a fase semifinal, mas não conseguiu ficar entre os quatro clubes que ascenderam à Série B do ano seguinte. Em 2012, o Luverdense novamente superou a primeira fase e enfrentou a Chapecoense nas quartas-de-final. Caso vencesse essa disputa, subiria para a Série B de 2013. Não venceu, mas o acesso à Série B parecia estar cada vez mais perto.

Aconteceu, enfim, em 2013. O adversário nas quartas-de-final, dessa vez, foi o Caxias, do Rio Grande do Sul. O Luverdense venceu os dois jogos da disputa. Por 2 a 1 em Caxias do Sul e por 2 a 0 em Lucas do Rio Verde. “A cidade está em festa”, declarou o site do Globo Esporte de Mato Grosso.

O Luverdense ficou na Série B por quatro anos (2014 a 2017). Sua melhor colocação foi o nono lugar em 2016. No ano seguinte, foi rebaixado para a Série C. Mas o futebol mato-grossense não ficou muito tempo ausente da Série B. Já no ano de 2018 o Cuiabá Esporte Clube chegou às quartas-de-final da Série C. O adversário nessa fase decisiva da competição foi o Atlético do Acre. O Cuiabá, após vencer a primeira partida na Arena Pantanal e empatar a segunda no Estádio Florestão (Rio Branco), se classificou para a Série B de 2019.

Luverdense e Cuiabá, os dois clubes de Mato Grosso que chegaram à Série B na década de 2010, eram clubes novos, profissionalizados depois do ano 2000. Eram a nova geração do futebol profissional mato-grossense, que surgiu após a crise dos clubes tradicionais (Mixto, Dom Bosco e Operário de Várzea Grande).

Essa nova geração enfatizava a ideia de que um clube de futebol profissional precisava ser uma empresa desportiva eficiente e devia abandonar os improvisos típicos do amadorismo. O Cuiabá, por exemplo, foi comprado em 2009 pelo grupo empresarial Dresch e passou a ser tratado exatamente como uma empresa desportiva. Aliás, orgulha-se por ser o primeiro clube-empresa do futebol de Mato Grosso. Em entrevista à ESPN, o vice-presidente do Cuiabá, Cristiano Dresch, referiu-se à agremiação como uma “empresa saneada e enxuta”, não um clube saneado e enxuto. Uma empresa sem atraso no pagamento de salários, sem acúmulo de dívidas e sem outros problemas que marcaram os clubes tradicionais por tantos anos. As expectativas, então, eram boas.

Na Série B de 2019, o Cuiabá ficou em oitavo lugar com 52 pontos. Causou boa impressão e, no ano seguinte, a confiança cresceu. Thiago Mattos, do canal mato-grossense Chaco Bola (YouTube), arriscou que o Cuiabá chegaria a 60 pontos na Série B. Errou por pouco. O Cuiabá somou 61 pontos (17 vitórias e 10 empates em 38 partidas), ficou em quarto lugar e subiu à Série A de 2021.

Festa no vestiário: Cuiabá subiu à Série A. Fonte: G1 Mato Grosso

Cuiabá em festa

A grande festa do Cuiabá Esporte Clube aconteceu na penúltima rodada da competição. Em Maceió, o CSA enfrentou o Brasil de Pelotas. Esse jogo terminou com o placar de 1 a 1, o que garantiu a classificação do clube cuiabano entre os quatro melhores da Série B. A ótima notícia foi dada aos atletas do Cuiabá quando eles ainda estavam se aquecendo para enfrentar o Sampaio Corrêa naquela mesma noite. Jogadores e dirigentes comemoraram no gramado da Arena Pantanal e, minutos depois, o time estava pronto para mais uma partida oficial. Os torcedores, impedidos de entrar no estádio em razão da pandemia da Covid-19, vibraram e soltaram fogos de artifício nas ruas próximas ao local da partida.

O feito do Cuiabá foi tamanho que até os rivais o parabenizaram. Operário de Várzea Grande, Dom Bosco, União de Rondonópolis e Luverdense publicaram na internet as suas felicitações pelo êxito. O governador do Estado se manifestou entusiasmado: “Que alegria! Que alegria! Que alegria! (…) Estou muito alegre. Se Deus quiser, vamos fazer bonito no ano que vem”. O prefeito de Cuiabá também saudou a ascensão do clube da cidade à Serie A. A rede hoteleira cuiabana começou a rever suas projeções para 2021.

Dom Bosco parabeniza o Cuiabá. Fonte: internet

Em 5 de outubro de 1986, o Operário de Várzea Grande foi derrotado pelo Vasco da Gama no Estádio de São Januário. Derrotado com goleada: 6 a 0. Foi a última partida disputada por um time mato-grossense na primeira divisão nacional. A próxima será em breve. E o Cuiabá Esporte Clube acredita que pode obter resultado bem melhor.

Artigos

Estaria Portugal recolonizando o Brasil?

Todo mundo já deve ter respondido a pergunta “quem descobriu o Brasil?” alguma vez na vida. A resposta certeira, “Pedro Álvares Cabral”, confirma o laço incontornável que une terras lusitanas e tupiniquins.

A história, em geral, é contada de forma romantizada colocando os colonizadores na posição de heróis, quando, na verdade, sabemos que não foi bem assim. O que se firmou em 1500 foi um vínculo entre colonizadores e colonizados que perdurou durante séculos anos a fio. Mesmo depois da Independência decretada por D. Pedro II, essa noção de atraso e subserviência continuou – e continua – marcante na atmosfera nacional. Não à toa uma das máximas de Nelson Rodrigues para justificar o comportamento brasileiro continua a fazer sentido até hoje. Sofríamos, segundo o escritor, de um “complexo de vira-latas”.

Se a relação entre Brasil e Portugal é marcada por certo ar de superioridade português, no futebol essa situação é diferente. Em vinte confrontos entre as duas seleções, são treze vitórias canarinhas e apenas quatro lusitanas. O Brasil, em número de grandes jogadores revelados e nível de dificuldade dos campeonatos nacionais é muito superior a Portugal. Entretanto, em 2019, “o jogo virou”. Devido ao meteórico e inquestionável sucesso do português Jorge Jesus a frente do Flamengo, os caminhos de Brasil e Portugal voltaram a se cruzar de forma mais intensa. Começou-se um questionamento imediato da qualidade dos técnicos brasileiros e uma corrida pela contratação de comandantes estrangeiros.

E foi exatamente mais um português que, no dia 30 de janeiro de 2021, sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América. Torneio cujo nome é uma homenagem à libertação das nações da América do Sul. Irônico, não? As duas últimas conquistas da Libertadores tiveram como protagonistas duas figuras portuguesas colocando suas mãos na taça. Mãos diferentes das que chegaram aqui séculos atrás para nos colonizar, mas com o mesmo objetivo: a conquista da América.

cnnbrasil.com.br

A vitória agora não era a única coisa que importava. Entrou em jogo a nova palavra da moda – performance. Uma das novas palavras da moda entrou em jogo. Encantar, vibrar, marcar. Todos em busca do modelo que JJ implantou no Flamengo em poucos meses de trabalho. Com essa expectativa, o olhar do Brasil se voltou novamente para a Europa em busca de outro técnico que repetisse o sucesso de Jesus. Na temporada de 2020, a série A do Campeonato Brasileiro bateu o recorde de técnicos estrangeiros. Um quarto dos times foi comandado por profissionais de outra nacionalidade. Foram eles: Eduardo Coudet (Internacional); Jorge Sampaoli (Atlético-MG); Domenéc Torrent (Flamengo); Ricardo Sá Pinto (Vasco) e Abel Ferreira (Palmeiras). Todos, exceto Sá Pinto, têm (ou tiveram), em seus clubes um aproveitamento superior a 60%. E, destaca-se, dois desses cinco técnicos estrangeiros são portugueses.

A minha posição nesse texto não é, de forma alguma, criar uma espécie de “nós contra eles”. Eu acho, sinceramente, maravilhosa e necessária a abertura de olhar do mercado brasileiro para o estrangeiro. Entretanto é inevitável a pergunta: ficaremos olhando técnicos estrangeiros dominarem nosso futebol? Novamente, não proponho esse questionamento por ser contra nenhum técnico estrangeiro. A questão não é de onde vêm, mas sim o que fazem. Entristece-me perceber que, quando olhamos para os técnicos que temos, não consigamos listar mais do que cinco (se tanto) que sejam de alto nível. Tite? Diniz? Cuca? Renato? Ceni? Nenhum é consenso. Com todo respeito aos “professores” brasileiros que comandam seus times, está na hora de fazer uma autocrítica, de entender que o futebol requer trabalho, que o modelo “paizão” está ultrapassado, que variações táticas são necessárias, que respeitar as características de cada jogador é essencial, e, principalmente, que estudar é parte importantíssima do ofício. E não é apenas sobre estudar o time adversário. É estudar o futebol. E de forma contínua.

Os técnicos estrangeiros são uma realidade. Resta ver o que os técnicos brasileiros farão diante disso. Ficaremos sentados sobre o famoso complexo de vira-latas ou absorveremos novas fontes como potência e estudo para termos um mercado nacional de técnicos igualmente competitivo? Espero que o Campeonato Brasileiro continue a ser fonte de um intercâmbio de ideias, estilos e técnicos, mas que isso também venha a fortalecer o nosso mercado interno. Nem todos os técnicos de outros países terão sucesso. Nem todos os brasileiros deixarão de ser campeões. Teremos trabalhos bons e ruins para todos os lados, mas inevitavelmente de 2019 para cá o olhar para esse grupo mudou. Não é sobre a busca desesperada por um técnico de outro país. E nem sobre a necessidade de algum brasileiro ser melhor do que eles. É sobre refletir o que estamos fazendo por aqui. Na coletiva depois da conquista da Libertadores, Abel Ferreira disse: “não há bons treinadores sem bons jogadores”. É uma daquelas frases que entra para o clube do ovo e da galinha. Bons jogadores nós temos. E muitos. Talvez nos faltem os treinadores…

Se for para o bem do futebol e felicidade geral dos torcedores, que os portugueses (e técnicos de quaisquer nacionalidades) possam ficar por aqui. E que possamos estabelecer uma relação de troca e simetria em prol do espetáculo.

Artigos

Maradona – uma reverência além do Bem e do Mal

Maradona morreu. Tristeza no mundo futebolístico, comoção em diversos locais do planeta, pauta midiática em todos jornais e programas televisivos, o eterno retorno de polêmicas insolúveis e por vezes fatigantes como o gol de mão contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, a comparação com Pelé, a questão das drogas, a rivalidade entre brasileiros e argentinos, suas relações pessoais com diversas personalidades etc.

Temas importantes da vida desse grande personagem real que foi o craque argentino, um ídolo que transcende o universo esportivo na Argentina e entre apaixonados por futebol. Entretanto nesse post não pretendo continuar reproduzindo mais do mesmo ou estereótipos como fizeram recentemente diversos jornalistas e até mesmo pesquisadores da área. De uma conversa com um aluno sobre Nietzsche em sala de aula virtual na semana da morte do jogador, veio a ideia de escrever algo distinto sobre esse super-homem real, cheio de virtudes, contradições, vícios e paixões.

Paulo César Caju afirmou em interessante artigo que Maradona não está acima do bem e do mal e que a idolatria, inclusive de brasileiros, seria exagerada. Se colocou na contramão da maior parte das reverências feitas com a coragem que lhe é peculiar. Filosoficamente, não necessariamente pode estar acima, mas pode ter ido além, em outra esfera, assim como, na minha opinião, o próprio Garrincha, que ele, Paulo César, menciona como referência de gênio e ídolo nacional.

Para alguns, ele seria um Deus, como julgam os adeptos da Igreja Maradoniana, para outros um símbolo pueril de resistência progressista anti-mercantilização. Apesar de ter sido amigo de Fidel, ter apoiado no Brasil Lula, na Bolívia Evo Morales, também esteve próximo de Carlos Meném, da máfia italiana e se utilizou muito do marketing mercadológico para vender produtos na Argentina e no mundo todo e para alavancar uma carreira de técnico sem nunca ter sido efetivamente reconhecido pela sua qualidade para essa profissão. Eu tenho na minha coleção a camisa abaixo que foi comprada em um bar de esportes “Locos por Fútbol’ que ficava localizado na frente do cemitério Recoleta em 2000. Vejam que belo símbolo de mercantilização progressista.

Camisa de Maradona / Che – Fútbol Revolución – Acervo pessoal do autor

Para mim, Maradona foi um gênio que, a partir da perspectiva filosófica de Nietzsche, se coloca além do bem e do mal, ou seja, uma fusão de Apolo e Dionísio que teria sido quebrada pelo Sócrates filósofo, um homem que não seguiu nenhuma moral de rebanho na sua vida pessoal e que profissionalmente se destaca pela sua arte ao jogar futebol de forma lúdica, improvisada, técnica, mas também pela sua grande força física.

Passou pelas três metamorfoses de Zaratustra: camelo em 1978 suportando o corte da seleção campeã na Copa realizada no seu país, leão ao lutar bastante durante a Copa da Espanha em um momento de luto do país com a traumática derrota na Guerra das Malvinas e o espírito de uma criança para trazer a esperança de uma vida nova e conquistar a épica Copa do Mundo de 1986.

Após ter passado uma infância difícil e uma careira futebolística brilhante transformou-se em um crítico veemente de alguns valores burgueses e de instituições poderosas como a FIFA, associando sua popular imagem a diferentes líderes políticos, mas continuou a viver intensamente suas paixões, seus vícios, as amizades e o futebol.

Podemos considerá-lo um niilista moderno que inspirou até uma seita de adoradores que ainda não acredita que “Deus está morto”, pois não foram os homens que mataram Maradona. Seria o Anticristo por inspirar uma nova seita marginal mas midiática?

A idolatria por esse verdadeiro homem que rompeu os valores impostos pela sociedade, que não se acomodou com a glória das conquistas, que superou sempre a dicotomia maniqueísta agostiniana do Bem e o Mal, é legítima. A maior parte dos indivíduos permanecem carneiros no rebanho em função de uma submissão irrefletida aos valores dominantes da civilização moderna. Maradona não foi carneiro, também não foi Deus, nem diabo, vilão e nem mesmo herói, por mais que venham citar a trajetória de Joseph Campbell em trabalhos acadêmicos sobre ele.

Diego foi um ser humano que viveu intensamente seus sonhos e pesadelos, autêntico e apaixonante não só pela sua habilidade em campo ou pelo número de gols e scouts modernos, mas pela representação simbólica de seus atos fora de campo. Seus gols e declarações eram como aforismas de Nietzsche – “Ouse conquistar a si mesmo” talvez tenha sido sua maior derrota em função das drogas, mas sua vida foi repleta de vitórias brilhantes.

Para muitos, ele não é um exemplo de moralidade, seria um viciado, ex-presidiário, que ao longo da sua vida teve diversos comportamentos anômicos; para outros, ele é um deus, gênio, até um símbolo de resistência revolucionária. Maradona não pode ser visto apenas por um lado da moeda da existência , ele não está acima de tudo, mas está além do bem e do mal como jogador e ser humano.

Não descanse em paz. Parta para algum lugar com serenidade, mas também com a mesma intensidade que viveste.

– Deus está morto. Viva perigosamente! Qual o melhor remédio? Vitória! (Friedrich Nietzsche)

Como a morte de Maradona está repercutindo nas redes sociais | Exame
Artigos

Relembrando a primeira Copa do Brasil

Ricardo Teixeira e as Federações Estaduais

Depois do polêmico Campeonato Brasileiro de 1987, consolidou-se a ideia de que a primeira divisão do futebol nacional deveria ter apenas 20 participantes (ou pouco mais do que isso). A CBF e os grandes clubes concordavam também que era preciso adotar o sistema de ascenso e descenso entre divisões. Assim surgiu o que hoje é a Série A. A própria CBF chegou a promover, um tanto constrangida, algumas viradas de mesa depois, mas aquela ideia básica permaneceu inabalável e acabou se impondo definitivamente após o ano 2000.

Para a maioria das Federações filiadas à CBF, a situação se mostrou dramática. Os seus campeonatos estaduais perderam o maior atrativo: não classificavam mais os campeões (e os vice-campeões, em alguns casos) para a grande disputa nacional. Qual seria a importância desses campeonatos, então? Apenas a tradição? Muitos temiam que aquelas antigas competições caíssem em decadência rápida e fulminante.

Os clubes menores também se viram em situação crítica. Quase todos entenderam que passariam vários anos tentando subir para a primeira divisão. Seriam anos de desprestígio, de jogos sem importância, de arquibancadas vazias, poucas rendas e apequenamento ainda maior. A falência talvez fosse inevitável em muitos casos.

Tudo isso foi resolvido (amenizado, pelo menos) com a criação da Copa do Brasil. Ricardo Teixeira assumiu a presidência da CBF em de 16 janeiro de 1989. No dia seguinte, as Federações estaduais apresentaram a proposta da nova competição, que seria disputada por 22 campeões estaduais e 10 vice-campeões. Proposta aceita rapidamente: o novo torneio foi anunciado oficialmente sete dias depois. Naquele mesmo ano, foi realizada a primeira Copa do Brasil. Todos sabiam, obviamente, que Ricardo Teixeira era muito grato às Federações estaduais pelo apoio que recebeu durante o processo eleitoral (um processo concluído com a sua vitória por aclamação).

O que mais impressionou foi a decisão de garantir ao campeão da Copa do Brasil a indicação para a disputa da Taça Libertadores da América. Na época, o Brasil só indicava dois clubes para aquela competição (o campeão e o vice-campeão do Campeonato Brasileiro). Era uma mudança radical: antes condenados a lutar arduamente pelo difícil acesso à primeira divisão nacional, agora os clubes pequenos e médios tinham diante de si um atalho para a principal competição da América do Sul.

19 de julho: o início

Apenas cinco Estados não tinham representantes na primeira Copa do Brasil. Os cinco ainda não haviam profissionalizado o seu futebol e eram da região Norte: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. Os outros 22 Estados inscreveram os seus campeões. Os 10 Estados que tiveram maior renda nos campeonatos estaduais de 1988 puderam inscrever também os seus vice-campeões.

As disputas eram eliminatórias. Havia confrontos diretos de duas partidas entre dois clubes. Assim eram eliminados na primeira fase 16 clubes, depois oito, quatro, dois e, por fim, havia a decisão. Foi adotado como critério de desempate nessas disputas eliminatórias o gol qualificado (gol no campo do adversário), que não era desconhecido do futebol brasileiro, pois já havia sido utilizado na Taça Libertadores da América.

A primeira rodada da fase inicial foi marcada para o dia 19 de julho. Todos os clubes participantes jogaram naquela data. Dezesseis partidas espalhadas pelo território nacional.

Houve surpresas. Em Manaus, o Rio Negro empatou com o Vasco da Gama por 1 a 1. O Internacional, jogando em Porto Alegre, empatou com o CSA em zero a zero. O Cruzeiro empatou com o Botafogo da Paraíba jogando em Belo Horizonte (zero a zero). O Corinthians, campeão paulista de 1988, foi a São Luís do Maranhão e perdeu para o Sampaio Corrêa, campeão maranhense, por 3 a 2. Mas todos esses grandes clubes conseguiram se classificar para a fase seguinte.

Classificação sofrida foi a do Cruzeiro, que empatou duas vezes com os botafoguenses paraibanos, mas passou à fase seguinte por ter marcado um gol em João Pessoa, isto é, classificou-se pelo critério do gol qualificado. O Corinthians se classificou pelo mesmo critério: após perder por 3 a 2 na capital do Maranhão, venceu em São Paulo por 1 a 0.

O surpreendente Goiás

Um time que surpreendeu foi o Goiás. Após superar, na primeira fase, o Ferroviário (do Ceará) com duas vitórias, o clube goianiense enfrentou dois gigantes do futebol nacional: o Internacional e o Atlético Mineiro

Contra os gaúchos, o Goiás empatou a primeira partida em 0 a 0 na cidade de Porto Alegre. Depois, venceu de modo arrasador. O placar final da segunda partida, no Estádio Serra Dourada, foi uma goleada de 4 a 0 com gols de Josué, Uidemar, Túlio e Péricles. Túlio, aliás, seria o jogador com mais gols marcados no Campeonato Brasileiro daquele ano de 1989, disputado de setembro a dezembro.

Na terceira fase, contra o Atlético Mineiro, o Goiás jogou a primeira partida em Goiânia e, mais uma vez, venceu com vantagem folgada: 3 a 0. O Atlético venceu a segunda partida, mas apenas por 2 a 0. Assim, o Goiás chegou à semifinal da competição cercado de respeito e como favorito para chegar à final. Mais ainda: a campanha do Goiás ajudou a derrubar a previsão de vitórias fáceis dos grandes clubes do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Logo ficou claro que, durante a Copa do Brasil, alguns clubes médios e pequenos se esforçariam ao máximo para surpreender. E alguns realmente surpreenderam. 

Sport x Guarani: coincidência

Um dos duelos da segunda fase foi entre Sport Recife e Guarani. Era a mesma partida que, para a CBF, havia sido a decisão oficial do Campeonato Brasileiro de 1987 (e que até hoje ainda é motivo de discussão). E o interessante é que os resultados foram exatamente os mesmos da decisão de dois anos antes. Em Campinas, houve empate em 1 a 1. Três dias depois, em Recife, o Sport venceu por 1 a 0.

A imprensa não comentou a coincidência. A crise em torno do Campeonato Brasileiro de 1987 repercutiu muito no ano de 1988, mas em 1989 o assunto esfriou. O Flamengo protestou por não ter podido participar da Taça Libertadores da América de 1988, mas contentou-se com o apoio da Rede Globo, que o tratava como o legítimo campeão brasileiro repetidas vezes. O Sport Recife, por sua vez, não discutia mais o assunto porque estava satisfeito: havia participado da Libertadores e era reconhecido oficialmente pela CBF como o campeão de 1987. Para a CBF, o imbroglio desmoralizava a sua imagem e era melhor evitar a polêmica. E como todos haviam se desinteressado de discutir o tema, a imprensa também se desinteressou.

Talvez uma disputa entre Flamengo e Sport Recife (que poderia acontecer na final da competição) pudesse recrudescer os ânimos e reavivar a polêmica naquele ano de 1989.

Flamengo x Corinthians: um jogo emocionante

Um dos jogos mais emocionantes daquela primeira Copa do Brasil (talvez o mais emocionante) foi a segunda partida entre Corinthians e Flamengo na terceira fase da competição.

Na primeira partida, realizada no Estádio do Maracanã, o Flamengo foi muito superior e venceu por 2 a 0 (gols de Zico e Nando). Uma semana depois, os dois times se enfrentaram no Estádio do Pacaembu.

O Corinthians marcou o primeiro gol, mas ainda no primeiro tempo o Flamengo empatou, com um gol de Zico. Os corinthianos, então, precisavam chegar ao placar de 4 a 1 para se classificarem. E chegaram. Foram três gols no segundo tempo: um de Giba, outro de Eduardo e o último de Neto, aos 39 minutos. A torcida foi ao delírio e a classificação já era dada como certa. Mas eis que o flamenguista Júnior, três minutos após o gol de Neto, recebe passe perfeito na grande área do time adversário e marca mais um gol. A torcida corinthiana, emudecida, viu os jogadores do Flamengo comemorarem eufóricos o gol salvador. Com o resultado final de 4 a 2, o Flamengo passou à semifinal.

Quem criticava a Copa do Brasil dizia que aquele seria um torneio de importância menor no futebol brasileiro. Uma competição cheia de times com nível técnico inferior e fadada a fracassar e a desaparecer em poucos anos. Não percebiam que as disputas eliminatórias em dois jogos (o sistema que é chamado de mata-mata) muitas vezes se convertiam em disputas com enorme carga de emoção, atraindo o interesse da torcida, da imprensa e dos patrocinadores. Aquele jogo entre Flamengo e Corinthians já mostrava que esse poderia ser o maior mérito da competição.

Júnior comemora o gol da classificação do Flamengo contra o Corinthians nas quartas-de-final (fonte: copadobrasil1989.blogspot.com)

Goleadas do Grêmio

O Grêmio se destacou por castigar três dos seus adversários com goleadas. Na primeira fase, os gremistas derrotaram o Ibiraçu, campeão do Espírito Santo, duas vezes: 1 a 0 na primeira partida (realizada na cidade de Cariacica) e 6 a 0 na segunda partida (em seu próprio Estádio, o famoso Olímpico). Na segunda fase, o clube gaúcho foi a Cuiabá e aplicou outra goleada: 5 a 0 no Mixto, o campeão mato-grossense. A segunda partida nem aconteceu. A diretoria do Mixto alegou que estava com dificuldade para se deslocar, por transporte aéreo, até a cidade de Porto Alegre. A CBF declarou o Grêmio vencedor por WO.

Na terceira fase, não houve goleada. Mas o Grêmio passou com certa facilidade pelo Bahia, que havia se sagrado campeão brasileiro seis meses antes. Os gremistas venceram em Salvador por 2 a 0 e em Porto Alegre por 1 a 0. Assim, o clube gaúcho chegou à semifinal com 15 gols marcados e nenhum sofrido (seis vitórias, incluindo o WO, e nenhum empate ou derrota).  

Foi na semifinal que o Grêmio impôs a goleada mais impressionante. A primeira partida contra o Flamengo, no Estádio do Maracanã, começou com o clube carioca fazendo 2 a 0, mas terminou empatada em 2 a 2. Jogo disputado. A expectativa era a de que seria assim também no Rio Grande do Sul. Mas aconteceu o que ninguém esperava: vitória gremista por 6 a 1. “Grêmio massacra Fla”, informou a Folha de São Paulo. “Flamengo sai humilhado do Olímpico”, noticiou o Jornal dos Sports.

Com sete vitórias em oito jogos, nenhuma derrota e uma goleada sobre um dos maiores clubes do país, o Grêmio chegou à decisão na condição de favorito, obviamente.

Na outra semifinal, Sport e Goiás se equilibraram: 2 a 1 para os goianos em Goiânia e 1 a 0 para os pernambucanos em Recife. O clube recifense se classificou pelo critério do gol qualificado. A decisão não realizada de 1987 (Sport X Flamengo) quase aconteceu em 1989, o que certamente provocaria novos debates sobre a grande crise de dois anos antes. Os gremistas, porém, não deixaram. Estavam interessados em escrever outra história naquela Copa do Brasil.

Assis, do Grêmio, vibra após marcar o primeiro gol da final contra o Sport
(fonte: pelotadetrapoblog.wordpress.com/)

A final

Apesar do favoritismo gremista, o Sport não podia ser menosprezado. Estava há quase um ano sem sofrer derrota em seu estádio. O Grêmio, por outro lado, tinha melhor retrospecto (em nove partidas contra o adversário recifense, havia vencido cinco e empatado quatro). E estava muito claro o que aconteceria naquela primeira partida da decisão: o Sport partiria ao ataque em busca de uma vitória para poder jogar em condições vantajosas sete dias depois, no Estádio Olímpico.

Foi exatamente assim. Principalmente no segundo tempo. O Grêmio, porém, soube se defender como queria o seu técnico, Cláudio Duarte. O resultado final foi zero a zero

No dia 2 de setembro de 1989, Grêmio e Sport Recife entraram em campo, no Estádio Olímpico, para decidir a primeira Copa do Brasil. O público era de 62.807 torcedores. Um número muito animador. Havia, de fato, um assunto futebolístico mais importante naquele fim de semana. Era o jogo entre Brasil e Chile, no dia seguinte, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990 (caso fosse derrotado, a seleção brasileira estaria fora da Copa pela primeira vez na história). Mas era inegável a importância daquela final, que definiria o primeiro clube brasileiro classificado para a Taça Libertadores da América do ano seguinte. A Rede Globo transmitiu o jogo para todo o país.

Quando o primeiro tempo terminou, o placar era 1 a 1 e favorecia o Sport, que seria o campeão (pelo critério do gol qualificado), caso o resultado final fosse aquele. Por isso, o gol de Cuca, aos 7 minutos do segundo tempo, entrou para a história do Grêmio. Foi o gol da vitória, relembrada e comemorada pelos gremistas até hoje. O Grêmio participaria da Taça Libertadores da América pela quarta vez em sua história no ano de 1990. Em Recife, os jornalistas esportivos criticavam o ataque do Sport por não conseguir sufocar a defesa do Grêmio, mas ressaltavam que o clube pernambucano havia sido um finalista valente, não uma presa fácil.

A Copa e as críticas

Zico, o ídolo flamenguista, fez duras críticas à Copa do Brasil naquele ano de 1989. O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, também criticou. O jogador disse que a competição era deficitária e que havia sido criada para “pagar” o que Ricardo Teixeira devia às Federações estaduais.

Zico chegou a dizer que o Vasco da Gama havia forçado a sua desclassificação diante do Vitória (vice-campeão baiano) para poder disputar um outro torneio, o Ramón de Carranza (Espanha), que era mais rentável. Mas negou ter chamado a Copa do Brasil de torneio “caça-níqueis”. Declaração muito grave: afirmar que um clube havia forçado a própria desclassificação, ou seja, se deixado vencer. Ricardo Teixeira reagiu dizendo que as acusações eram injustas, que os países da Europa realizavam copas semelhantes e que a competição havia sido criada com o intuito único de promover a integração futebolística das cinco regiões do país (poucos acreditaram nessa última afirmação). Em razão de suas declarações, Zico foi julgado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, que o absolveu por nove votos a um.

As críticas à Copa do Brasil continuaram e a situação piorava quando a CBF tomava decisões desastradas, como a de marcar para junho o início da competição em 1990, ou seja, iniciá-la com a Copa do Mundo sendo disputada na Itália. Mas a competição já havia demonstrado seus méritos em 1989 e oferecia um prêmio que não podia ser menosprezado: a classificação para a Taça Libertadores da América. A revista Placar, em junho de 1990, foi certeira: “Apesar das reclamações, os clubes sabem que a Copa do Brasil vale muito”.

Ao longo da década de 1990, a Copa do Brasil se remodelou. O número de clubes inscritos começou a crescer em 1995 (a pressão para aumentar o número de participantes revelava um interesse cada vez maior na competição). Dez anos depois da primeira Copa do Brasil, não havia mais dúvidas: a competição havia ganhado prestígio e se consolidado. “Pode não ser a competição com o melhor nível técnico do país, mas ao se deparar com a campanha dos quatro semifinalistas de 1999, uma coisa é certa: nada supera a Copa do Brasil em emoção” (Placar, jun.1999). Emoção conhecida desde 1989 e que continuava a atrair os torcedores e a imprensa.

Havia tanto interesse em participar da Copa do Brasil que no ano 2000 surgiu a proposta de transformá-la em um grande torneio com 200 inscritos (um modelo inspirado na Copa da Inglaterra, que tem mais de 500 clubes inscritos). A ideia sofreu um bombardeio de críticas e foi abandonada. Mas o número de participantes, alguns anos depois, foi aumentado e chegou a 91 (esse é o número atual de clubes inscritos).

Em 2019, uma pesquisa da Sport Track mostrou que, entre os brasileiros, o apreço pela Copa do Brasil só perde para o Campeonato Brasileiro e para a Taça Libertadores da América. Está à frente de competições importantes, como a Champions League (UEFA) e o Mundial de Clubes da FIFA.

E tudo começou naquela criticada Copa do Brasil de 1989.

Quais campeonatos de futebol você prefere? (fonte: Pesquisa – Sport Track, 2019)
Artigos

O Futebol e “O Psicológico”

Por Laura Quadros e Leticia Quadros

Que atire a primeira pedra quem, no meio do esporte, nunca falou do “Psicológico” de algum atleta ou de algum time: “A equipe tem de controlar seu Psicológico”; “Fulano tem o Psicológico forte”… São apenas dois exemplos, de vários, que trazem essa referência em forma de entidade, como se fosse um ser independente, e que às vezes parece ter vontade própria. Mas afinal, quem é o tal “O Psicológico”?

De uma maneira bem simples, talvez a primeira coisa que venha à cabeça é que o Psicológico é o que atua na nossa mente, nosso poder de concentração, foco, pensamentos e até sensações. Há também a ideia dele ser uma expressão emocional, muitas vezes algo à parte, independente do jogador e seu universo mais imediato. Se nos voltarmos para a visão mais clássica, o predomínio da dicotomia razão-emoção, indivíduo-sociedade, natureza-cultura traz alguns equívocos na compreensão dessa misteriosa atuação do tal psicológico em nossas vidas.

Recentemente, o atacante do Fluminense Caio Paulista deu uma entrevista depois do jogo contra o Atlético Mineiro, no qual marcou seu primeiro gol como profissional, mencionando o trabalho da psicóloga do clube, Emily Gonçalves. Seguem as palavras de Caio:

“Foi a psicóloga do clube que conversou bastante comigo. Falou para mim durante a noite pensar no gol, pensar na jogada, respirar a cada movimento no jogo. Hoje acho que foi muito disso”.

Nessa fala espontânea e entusiasmada, percebemos que, provavelmente, há uma relação de confiança entre o jogador e a profissional que o acompanha no clube. Talvez, mais do que a ideia de pensar no gol, esteja ali envolvida uma gama de bons afetos que produzem um vínculo acolhedor entre esse atleta e a psicóloga do Fluminense, que procura acionar as potências nessa difícil tarefa que é a busca pela vitória.

Então, a questão que levantamos é: existe esse psicológico fora de uma relação? Se o atacante do Fluminense não acreditasse no processo com a psicóloga do clube, se ele não confiasse no trabalho que se dá no campo (e aqui não nos referimos ao campo de jogo, mas ao campo relacional), será que bastaria ele imaginar, que o gol iria sair? Não estamos aqui descartando, é claro, o trabalho feito nos treinos físicos e táticos, mas, se apenas pensar no gol fosse suficiente, qualquer um poderia fazê-lo, não é? Estamos, menos ainda, desqualificando qualquer recurso técnico utilizado pela psicóloga de acordo com as abordagens oriundas de estudos e pesquisas nessa área. O que estamos querendo colocar é que, para além do próprio esforço do atleta, a confiança na relação profissional, a aposta no trabalho com a psicóloga foram pontos chave para que ele ganhasse confiança. Seria ilusório dizer que o gol saiu exclusivamente pela técnica de mentalização aplicada, assim como seria leviano descartá-la totalmente do mérito no gol.

Sabemos que poucos times da séria A do Brasileirão contam com uma/um profissional de psicologia em seu plantel. Em 2019, apenas 8 clubes, entre os 20, dispunham desse trabalho. Sabemos também a enorme pressão que um atleta sofre dentro e fora de campo. Nesse sentido, a ideia de uma mente “forte” ou “fraca” constitui-se em um reducionismo, visto que são múltiplos os fatores que atravessam esse campo (sem trocadilhos) e afetam o rendimento dos atletas. Aliado a isso, mesmo em pleno século XXI, ainda há um preconceito muito grande, e não apenas no esporte, com a atuação da psicologia. Não é raro que ela seja considerada somente em situações extremas ou de adoecimento instalado.

A importância do reconhecimento da psicologia pelos clubes de futebol pode legitimar a noção de que o trabalho não deve se dar só em partes, mas sim privilegiar um todo. Isso inclui treinamentos táticos, físicos, nutrição, fisiologia, interação social, família, torcida, remuneração, bom ambiente de trabalho, enfim, toda vivência que afeta a vida do atleta e que acontece de forma integrada e não dicotomizada. Portanto, mais que um simples elogio, a declaração de Caio traz a público a força de um trabalho diário de afirmação de potências, de acolhimento aos temores, de desenvolvimento de recursos e, sobretudo, de reconhecimento de si mesmo em relação ao mundo.

Assim, o tal psicológico acontece num campo de forças coletivas e não sozinho como, às vezes, parece ser. Vimos, por exemplo, excelentes atletas perderem um pênalti, bem como jovens estreantes acertarem de primeira. Podemos atribuir apenas ao psicológico? Podemos excluir fatores como condicionamento físico, treinamento, vontade de bater, salários em dia, questões familiares, questões políticas, dentre outros?

Fonte: Wikipedia

Acreditamos que, nesse contexto, colocar na conta do psicológico o que não conseguimos discutir de forma ampla pode ser tanto uma injustiça, quanto uma estratégia de invisibilizar outros problemas mais indigestos.  Antes de culpar “o psicológico”, que tal dar uma olhadinha no que está em volta? Antes de criticar o psicológico do seu time, que tal procurar saber se, de fato, há um profissional da psicologia atuando no seu clube?

Se o psicológico fosse uma entidade autônoma, coitado dele! Viver sendo cobrado, enquanto a verdadeira cobrança por um trabalho sério da psicologia é sempre jogada para escanteio e esquecida pela imprensa, comissão técnica, torcida, atletas… A questão do futebol e o psicológico não é um embate entre duas entidades, mas sim uma aproximação de áreas que devem dialogar como um todo. Afinal, retomando nossa indagação inicial, o psicológico se constitui numa rede de relações que inclui pessoas, objetos, procedimentos, enfim, processos de vida que acontecem num movimento incessante. Destacar uma parte e tomá-la como todo empobrece a questão.  Afinal, como no futebol, um jogador, isoladamente, não ganha um jogo. É preciso trocar passes e manter a bola rolando para o melhor resultado. Parafraseando o poeta João Cabral de Melo Neto, “Um galo sozinho não tece uma manhã”. Então, vamos deixar o tal psicológico vestir a camisa do time e integrar a equipe. Quem sabe assim o jogo não fica mais interessante?

Artigos

Garrincha

É uma postura altiva. Garrincha está parado. Pernas eretas e afastadas uma da outra. Braços um pouco inclinados para trás. Tronco do corpo sutilmente projetado para frente para facilitar o momento exato em que a inércia momentânea será quebrada.

É, sem dúvida alguma, uma posição de ataque.  De enfrentamento. De quem, em algum momento incerto, vai dar o bote certeiro.

O adversário sabe disso. Ainda que não imagine em que microssegundo para frente isso acontecerá. Ainda que não saiba qual dos milhares de botes possíveis o outro vai escolher.

Indeciso, pois, o tal adversário se posiciona de forma defensiva a cerca de um metro de distância. Será dele o dever de conter aquele homem, de dar o primeiro combate, enfim. Mas a mão direita levemente erguida para a frente, como que tateasse o nada em busca de algum tipo de amparo, o denuncia. O rival está titubeante. Não aparenta saber bem o que deverá fazer para conseguir parar o imparável.

A descrição da cena é retirada de um videoteipe em preto e branco. O jogo é entre Botafogo e Flamengo. E ainda que eu não tenha certeza absoluta, minha suspeita é a de que seja a final do Campeonato Carioca de 1962.

Se isso for mesmo verdade, o impacto é ainda maior.

Porque o desorientado, o tolo que não sabia o que fazer, não é outro senão Gerson. Ainda jovem, é bem verdade, mas aquele que viria a ser tricampeão do mundo em 1970.

Aliás, o próprio Gerson já deu inúmeras entrevistas falando daquele dia em que foi um dos “Joãos” de Garrincha, o que reforça minha suspeita.

Mas, isso não importa tanto aqui.

Fato mesmo é que estão, frente a frente, Garrinha e João – chamemo-lo assim, afinal.

Garrincha veste calção negro. Camisa do Botafogo listrada em preta e branca, de mangas compridas, número 7 às costas.

João veste uma camisa escura, que é difícil de distinguir os detalhes. O calção é branco.

Estão no Maracanã. Lado direito do campo de jogo. Na imagem dá para ver a linha lateral à direita e os limites da grande área numa diagonal à esquerda. Pouco mais atrás, um segundo defensor (Jordan, um dos maiores nomes da história flamenguista, acaso minhas suspeitas estiverem corretas).

Uma cena épica está prestes a acontecer.

Garrincha e João se olham de frente, mas não chegam a se encarar. Têm as visões meio abaixadas, mirando as pernas um do outro.

Próximo ao pé de Mané, a bola, alvo de desejo dos dois.

O repertório de Garrincha é incalculável. E a paralisia de João mostra o respeito que tem ao rival.

É uma cena comovente, até. Poética. Rara. Engraçada também.

Por alguns segundos, parece que o jogo está suspenso.

Garrincha está imóvel. Não toca na bola. Como que convidando o outro para avançar inadvertidamente.

João não avança. Aguarda. Teme, acima de tudo.

Se nada mais acontecesse, o jogo acabaria ali mesmo. Garrincha convidando, João vacilando. Até o apito final do árbitro.

Mas, a poesia acontece.

Garrincha dá um impulso para a direita, numa cena que lembraria uma largada de 100m rasos, não fosse o detalhe de que ele dá apenas um passo e retorna exatamente para onde estava.

João, na certeza absoluta de que a corrida era para valer, tenta acompanhar o adversário, e somente muito atabalhoadamente percebe o blefe e consegue retornar para onde estava.

O que torna a cena única, contudo, é que, nos segundos seguintes, Garrincha vai repetir exatamente o mesmo movimento mais duas vezes, e em ambas as oportunidades vai conseguir ludibriar o adversário da mesma forma que a primeira.

Dá para entender?

Seis segundos, três dribles idênticos e bem sucedidos em cima do mesmo marcador, zero vezes a bola incomodada.

Até que Garrincha se cansa da brincadeira.

A impressão é que ele poderia repetir o movimento quantas vezes quisesse e em todas elas João cairia no engodo.

Mas ele se cansa, toca a bola de lado, deixa João zonzo sem saber bem o que danado aconteceu.

Os tolos vão dizer, talvez, que o lance não é tudo isso, visto que não levou a nenhum resultado mais efetivo.

Mas esses são o que são: tolos.

O lance, muito pelo contrário, representa toda a essência, toda a habilidade, toda a irreverência, toda a genialidade do homem que esta semana completaria 87 anos se estivesse vivo.

Parabéns, Garrincha.

Fonte: YouTube
Artigos

Jornalismo esportivo precisa debater sobre a falta de negros em cargos de gestão

Novembro já bate na porta e com ele teremos um dos poucos momentos que o jornalismo volta seus olhares para as questões raciais com mais densidade de produção noticiosa e tempo e espaço para se dedicar ao tema. Influenciado pelo 20 de novembro, quando celebra-se o Dia da Consciência Negra, muito provavelmente veremos mais um ano onde os casos de racismo individuais e os relatos de profissionais que passaram por situações discriminatórias tomarão a mídia. No jornalismo esportivo, uma tendência comum é pautar o aumento de casos de suspeita de racismo no futebol – que graças ao trabalho formidável do Observatório da Discriminação Racial no Futebol fornece dados quantitativos objetivos sobre a situação no Brasil -. Isso por si só não é um problema, longe disso. Porém, esse não deve ser o único assunto a ser discutido. Os racismos enfrentados dentro de campo devem sim ser noticiados, com profundidade e responsabilidade, mas o racismo fora de campo, no setor administrativo e em cargos de liderança e comando não devem ser ignorados.

Racismo estrutural no futebol

O advogado, filósofo e professor Silvio Almeida enfatiza que o racismo estrutural pode atuar impedindo, dificultando ou excluindo pessoas negras de cargos de gerências nas estruturas organizacionais. No futebol, mesmo sendo um espaço comumente aceito e esperado para que uma pessoa no Brasil esteja inserido, assim como o samba, como destaca o historiador Joel Rufino dos Santos, existe uma barreira que impossibilita que os jogadores negros extrapolem a maioria existente dentro de campo para as posições de gestão e administração do esporte. Joel Rufino enfatiza que a sociedade branca naturalmente tem dificuldade de aceitar que pessoas negras possuam um intelecto suficiente para desempenhar funções de gerência e liderança, o que também influencia para que não exista representação negra nos cargos administrativos do futebol brasileiro.

Com a demissão de Roger Machado, do Bahia, agora entre os 20 clubes da Série A do Campeonato Brasileiro, mais precisamente em outubro de 2020, não existe nenhum treinador negro que esteja a frente de uma equipe da elite do futebol brasileiro. Dentre eles, apenas Goiás e Grêmio mantêm departamentos de futebol comandados por pessoas negras. No time do centro-oeste, a diretoria está a cargo do ex-volante Túlio Lustosa. Já no time do sul, Deco Nascimento divide a posição com Alberto Guerra e Duda Kroeff. Em outros níveis administrativos, o Corinthians tem André Luiz de Oliveira, ex-vice-presidente, como diretor administrativo enquanto seu arquirrival Palmeiras conta com o ex-meia Zé Roberto como assessor técnico responsável pela integração entre categorias de base e profissional.

Na principal organização que rege o futebol brasileiro, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a representatividade negra em cargos eletivos é inexistente. Não há nenhum presidente negro à frente das 27 federações vinculadas à CBF.

É fundamental analisar esses dados e fazer um paralelo com a disparidade e desigualdade do Brasil, o futebol é um elemento que vai refletir essas realidades, ele não está descolado do pano de fundo social que fundamenta a sociedade brasileira.

Fonte: EC Bahia / Divulgação

Racismo e desigualdade social

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o rendimento médio domiciliar per capita de pretos e pardos era de R$ 934 em 2018. No mesmo ano, os brancos ganhavam, em média, R$ 1.846 – quase o dobro. Em 2018, 3,9% da população branca era analfabeta, percentual que se eleva para 9,1% entre negros, valor mais que o dobro em relação ao primeiro. O estudo “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, também do IBGE, aponta que em 2018, no estrato dos 10% com maior rendimento per capita, os brancos representavam 70,6%, enquanto os negros eram 27,7%. Entre os 10% de menor rendimento, isso se inverte: 75,2% são negros, e 23,7%, brancos.

Muitos ex-jogadores negros confiam no empirismo de sua vivência de dentro de campo para assegura-lo em cargos de gestão e administração no futebol, entretanto na grande maioria das vezes isso não é suficiente para dar continuidade a sua trajetória no futebol. A necessidade de se profissionalizar e fazer cursos de capacitação em gestão acaba se tornando a única opção e esta está longe de ser uma alternativa barata. O curso de formação de treinadores da CBF, requisito para exercer a profissão, é caro. Para tirar todas licenças exigidas na elite, o investimento a ser feito é de aproximadamente R$ 50.000.00 e fazer eles não é uma garantia que o profissional negro conquistará posições de poder no futebol.

Por exemplo, o pentacampeão brasileiro Roque Júnior, que fez MBA em gestão e marketing esportivo, estágios na Europa e com Luiz Felipe Scolari, no Palmeiras e também obteve licenças do mais alto nível para poder comandar equipes brasileiras e europeias, até hoje não recebeu oportunidades de comandar cargos de gestão ou de treinador nos grandes clubes. O ex-jogador conseguiu apenas treinar o XV de Piracicaba e Ituano, clubes de menor expressão, onde existe uma maior dificuldade de ascensão. Outros exemplos, temos Lula Pereira, Andrade (campeão brasileiro com o Flamengo em 2009) e Cristóvão Borges que depois de trabalhos em clubes de elite, não conseguiram sequência e caíram no ostracismo.

A importância de trazer o debate à tona

Seja a expressão racista que diz que negros não possuem a competência para ocupar cargos de gestão e liderança no futebol, fato que é um reflexo de um país onde apenas 5% dos cargos executivos em grandes empresas são ocupados por negros, seja pelo fator social que coloca ex-jogadores e população negra como um todo vários degraus atrás quando o assunto é acúmulo de capital, necessários para a aquisição dos cursos e treinamentos da CBF, é fundamental que essa discussão ganhe força e preponderância.

O que mais vi nos últimos meses foi personagens midiáticos e colegas jornalistas apontando o dedo para os jogadores que não tinham se posicionado abertamente sobre o “Black Live Matters” ou sobre casos de racismo no futebol vivenciado por eles e por seus companheiros. Entretanto, uma das causas para a falta de tal postura ativista pode também ser um reflexo da falta de representatividade racial nos seus clubes. Qual garantia de respaldo esses atletas terão quando nem suas próprias instituições e muito menos a CBF possuem o desenvolvimento de práticas antirracistas e a abertura de espaço para a capacitação de grupos minoritários?

A branquitude ainda entende o problema como se fosse dos negros e recusa assumir quaisquer privilégios e vantagens sociais, econômicas, políticas, onde aqui surge o argumento pífio e desleal da meritocracia. Muniz Sodré reflete que a forma como a mídia e o jornalismo constrói identidades virtuais sobre o negro em suas narrativas condiciona esses grupos a estereótipos e as folclorizações. Será que ao não discutir a fundo a ausência de negros em cargos de gestão no esporte, não intencionalmente, o jornalismo esportivo não naturaliza tais questões?

O jornalismo esportivo precisa debater sobre a falta de negros em cargos de gestão e liderança no futebol.