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A Superliga de 48 horas e uma nova posição sobre a polêmica de 1987

Imagine que um grupo de clubes europeus (uns 12 ou 16) encaminham, em conjunto, a seguinte mensagem para a UEFA:

“Não temos mais interesse em fazer parte do sistema sob a sua gestão. Vamos fundar uma liga à parte e passaremos o ano disputando um campeonato nosso. Podem excluir os nomes de nossos clubes de suas competições: Champions League, Europa League, FA Cup, Copa do Rei, etc”.

Evidentemente, é um direito deles.

Mas se esses clubes, ao fazerem isso, provocam uma onda de revolta em seus próprios torcedores, podemos concordar que trata-se de uma decisão pouco inteligente.

Foi mais ou menos o que aconteceu com o anúncio da superliga europeia, no último dia 18 de abril. 

Formar uma liga à parte, do modo como foi ensaiado, significa pôr-se fora de competições tradicionais, que despertam sentimentos poderosos nos torcedores. Foi essa perspectiva que fez eclodir até manifestações de rua (em especial, dos britânicos).

Tabela 1
Fonte: Imagem enviada pelo autor

Escrevi um artigo sobre a ideia de uma superliga global, que estava sendo cogitada. Foi publicado neste blog no dia 5 de abril. Nesse artigo, está dito que “a tendência na governança esportiva global é a da unidade” e, seguindo essa tendência, a superliga global “provavelmente não será afrontosa à FIFA”. De modo surpreendente, optaram por serem afrontosos. Muito afrontosos. Liderados pelo presidente do Real Madri, os doze clubes decidiram apressar a marcha e pisar duro. Repentinamente, anunciaram a criação de uma superliga europeia não negociada com a UEFA ou FIFA. A superliga global viria depois de algum tempo, talvez. 

Importante repetir: repentinamente e não negociada. Isto é, foram à guerra. Mas sem apoiadores poderosos que estivessem dispostos a se manifestar abertamente e, pior, sem contar sequer com a adesão de suas próprias torcidas. Parece que algum estrategista não calculou bem. O vídeo em que o proprietário do Liverpool se desculpa com torcida foi o momento mais constrangedor da derrocada dessa superliga, que existiu por 48 horas ou menos.

Tabela 2
Fonte: Imagem enviada pelo autor

Entre os atletas também houve preocupação. Perceberam que poderiam ser alijados de competições importantes, o que diminuiria a sua visibilidade e seus ganhos econômicos. Sentiram-se inseguros.O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também se manifestou contra a superliga. Tudo desabou em torno de Florentino Perez, que permanece, insistente, acreditando no projeto que acalentou. 

As desistências dos clubes da superliga vieram rapidamente, uma após a outra. E essas desistências fizeram o projeto recuar, é claro. Mas recuar não é se extinguir. Não é impossível criar uma superliga europeia que consagre a superioridade quase permanente (vide tabelas 1, 2 e 3) dos maiores clubes do continente europeus. E quando se fala em maiores clubes do continente europeu é preciso incluir os alemães, que não estavam presentes nesse primeira tentativa de superliga. Mas criar essa superliga sem antes consolidar o apoio de seus torcedores, sem dar segurança aos atletas, sem garantir o apoio de empresas poderosas (grandes empresas internacionais de comunicação, principalmente) e sem uma boa negociação com a UEFA e a FIFA, será extremamente difícil. Florentino Perez escolheu justamente esse caminho mais difícil.

Tabela 3
Fonte: Imagem enviada pelo autor

* * *

No Brasil, uma repercussão interessante da confusão europeia: surgiu (mais uma vez) um debate sobre o polêmico ano de 1987.

Um número restrito de clubes decide criar uma liga com campeonato próprio e faz isso em afronta a uma entidade reconhecida pela FIFA. Eis o que se passou nesse caso da superliga europeia de 2021 e assim aconteceu também no caso da Copa União de 1987 no Brasil. Uma semelhança visível. Ou não?

Na internet, essa semelhança foi abordada em vários sites. O assunto ganhou visibilidade. E até a Rede Globo decidiu tocar no assunto.

No programa Esporte Espetacular do dia 25 de abril, após uma reportagem sobre o fracasso da superliga europeia, o apresentador Lucas Gutierrez anunciou uma “top 5 de ideias furadas de competições no futebol brasileiro e mundial”. O top 4 foi a Copa União.

A Globo, que por vários anos tratou o Flamengo como o campeão brasileiro oficial de 1987, assumiu outra postura no programa do dia 25. Lucas Gutierrez perguntou: “Diz aí: quem é o campeão brasileiro de 87?”. Logo depois, o mesmo Lucas Gutierrez completou: “Eu não vou meter o meu bedelho nessa história”.

E disse mais: “A verdade é que a Copa União de 1987 foi uma bagunça”. Isso foi dito em um programa da empresa televisiva que mais apoiou a Copa União. Seria uma autocrítica velada?

Foi citada até a esdrúxula situação do Guarani em 1987: o clube, que foi vice-campeão brasileiro de 1986, foi jogado pelo Clube dos Treze no módulo amarelo, que era tratado pelo próprio Clube dos Treze como uma segunda divisão. O apresentador Lucas Gutierrez também fez graça com esse absurdo: “Entendeu? Eu também não”.

E assim o Flamengo perdeu mais uma batalha nessa disputa que pode ser chamada de “Guerra de 87”. O clube de maior torcida do Brasil dizia-se campeão brasileiro daquele ano, mas não disputou a Taça Libertadores da América de 1988 (disputá-la era um direito do campeão brasileiro) e viu a Justiça confirmar, em diversas instâncias, o título de campeão dado pela CBF ao Sport Recife. O que ainda restava aos flamenguistas era o apoio da Rede Globo. Um apoio importantíssimo, por razões óbvias. O Esporte Espetacular nos mostrou que até isso se esvaiu.

Mas há algo que Florentino Perez pode aprender com Márcio Braga e Carlos Miguel Aidar, os dois dirigentes com maior destaque no Clube dos Treze em 1987. Antes de afrontarem a CBF, garantiram o apoio convicto de patrocinadores poderosos e da maior emissora de TV do país (enquanto a Confederação, por outro lado, estava em crise). Foi assim que a Copa União, mesmo em atrito com um órgão reconhecido pela FIFA, se mostrou tão relevante e por tanto tempo. Bem mais tempo que a superliga europeia de 48 horas.

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O protagonismo do jogador negro em casos de racismo no futebol

O futebol tangencia o que seria, para o oficialismo brasileiro, o Brasil ideal. Isto significa dizer que o esporte mais popular do país constitui, aos olhos do senso comum, a harmonia entre as raças sobre a qual se traduz na idolatria por jogadores negros. Com suas performances dentro de campo, estes jogadores trazem títulos para a seleção brasileira e clubes. O resultado desta dinâmica é a utilização destes atletas e a idolatria que a população brasileira possui por eles para impulsionar a proposta de democracia racial. Neste prisma, o racismo no Brasil não existe ou é mais ameno do que em outros países como os EUA. Afinal, argumentariam algumas pessoas, tendo o futebol como referência: “Temos ídolos negros no maior esporte do país. Eles jogam em nossos clubes do coração e torcemos muito por todos eles dentro de campo”.

A fim de entendermos como os jogadores negros foram e são utilizados como ferramentas para a manutenção do status quo, é preciso explorarmos a ideia de cordialidade racial, desenvolvida por Sales Jr (2006). Trata-se de refletir o modo como se acomodaram as relações raciais fruto de códigos de sociabilidades, onde tolera-se a presença de pessoas negras, calcados na ideia do clientelismo e do patrimonialismo (SALES JÚNIOR, 2006). Diante deste prisma há um ar de altruísmo em ajudar e estar com pessoas negras. A cordialidade racial, portanto, se torna uma consequência perversa da democracia racial. Segundo o autor, ela é uma superfície que tratou de escamotear os problemas raciais no Brasil, se materializando na ideia do “ela é quase da família”, corroborando com a hierarquia racial da sociedade brasileira.

Não obstante, o insulto racial, neste cenário, na visão de Sales Júnior (2006), tem o objetivo de legitimar esta hierarquia racial. “O insulto, assim, vem lembrar o lugar (identidade) do insultado e a distância social que o separa do agressor” (SALES JÚNIOR, 2006, p.237).

Neste aspecto, o insulto racial dentro dos estádios, seja proferido por outros jogadores, ou pela torcida, se constitui como uma ferramenta poderosa de subordinação dos jogadores negros. A única, ou um dos poucos ferramentais capazes de subordiná-los, justamente para lembrá-los de onde eles vêm e quem eles são. Tendo em vista que, na sociedade em que estamos inseridos, jogadores negros que alcançam a elite do futebol possuem dois pontos muito importantes: prestígio social e condições econômicas sólidas. No entanto, sua derme é preta. Realizar insultos racistas é uma das poucas alternativas que os racistas possuem para subordinar jogadores negros, haja vista que ter prestígio social e dinheiro não podem ser vistos como uma imunidade simbólica de acusações racistas.

Fonte: Factual900

Sendo assim, há uma cordialidade racial capaz de suportar jogadores negros nesta posição tendo em vista que são, inegavelmente os melhores, e que produzem benefícios ao oficialismo brasileiro. Porque, caso paire no ar alguma dúvida sobre seu desempenho, a alcunha de ídolo se recaí para dúvidas e incertezas, recorrendo à justificativas racialistas que são, em grande parte, estapafúrdias.

Neste caminho, Sales Jr (2006) destaca que pessoas negras não podem ousar desestabilizar esta hierarquia racial, pois estariam gerando conflitos raciais que, até então, são considerados inexistentes ou irrelevantes na sociedade brasileira. Este conceito de cordialidade racial é fundamental para entendermos a dinâmica que ocorre entre os jogadores negros e como eles são tratados por outros participantes da indústria do futebol. Isto é, jogadores negros foram fundamentais para que a ideia de democracia racial fosse instalada no Brasil, na medida em que torce e vibra-se com eles. E hoje, quando as questões raciais no Brasil estão latentes, dentro e fora do futebol, o protagonismo dos jogadores negros de forma ativa a estas questões é fundamental para que, de fato, haja o combate ao racismo e aos racistas, tendo em vista seu prestígio social.

O caso de Gerson e o debate do racismo

“Cala boca, negro!”. Esta foi a frase que, segundo Gerson, jogador do Flamengo, foi dita por Ramirez, meia-atacante do Bahia, em uma partida válida pela 26º rodada do Brasileirão. 

Com uma reação que chocou muitas pessoas, Gerson foi para cima com a intenção de tirar satisfação da frase ouvira (“Cala boca, negro!”), interrompendo a partida e mobilizando grande parte dos jogadores dentro de campo, além dos técnicos de ambas as equipes.

Ao final da partida, Gerson deu seu depoimento visivelmente abalado:

“Tenho vários jogos pelo profissional e nunca vim na imprensa falar nada porque nunca tinha sofrido preconceito, nem sido vítima nenhuma vez. O Ramirez, quando tomamos acho que o segundo gol, o Bruno fingiu que ia chutar a bola e ele reclamou com o Bruno. Eu fui falar com ele e ele falou bem assim para mim: ‘Cala a boca, negro’. Eu nunca falei nada disso, porque nunca sofri. Mas isso aí eu não aceito.”

Gerson, jogador do Flamengo

Houve um extenso debate nas redes sociais, nas mesas redondas dos canais esportivos e dentro dos bares. Em larga medida, a sociedade civil discutiu o “caso Gerson”. O técnico do Bahia, Mano Menezes, comparou o gesto de Gerson à malandragem e foi amplamente criticado, fato que culminou na demissão do técnico (apesar de o Bahia justificar a demissão também por motivos esportivos relacionados ao desempenho da equipe no campeonato). O Flamengo prometeu levar o caso para uma resolução final no campo jurídico.

O caso foi arquivado no início de abril pelo Ministério Público por “falta de provas”, mas do ponto de vista simbólico, o ato de Gerson dentro de campo, em uma transmissão da TV Globo, foi fundamental para fomentar o debate.  Além de reavivar a memória de jogadores negros que hoje estão aposentados. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, o jogador Roque Júnior, vítima de racismo em um jogo de futebol em 2004, reforça que, se fosse nos dias atuais, não continuaria em campo como forma de protesto em relação àquele acontecimento.

Ao ouvir “Cala boca, negro”, Gerson mobilizou um intenso debate sobre o racismo no futebol brasileiro. Deixou visível a falta de conhecimento da população brasileira diante do tema, fruto de negligência por décadas a fio, apontando as fragilidades das instituições esportivas que não possuem medidas sérias e eficazes junto a organizações civis que lideram o tema, além da lentidão da justiça brasileira no que tange os crimes de cunho racial.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

Por fim, como dito, do ponto de vista simbólico, Gerson ocupou o protagonismo: um dos principais atletas em um dos principais clubes do país reportando em rede nacional, o caso de racismo que o atingira. Não é fácil. Certamente mais pessoas desacreditaram do que acreditaram no atleta, tendo em vista a complexidade que o seu caso possui, em decorrência da falta de imagens, produzindo um lugar perigoso para pessoas negras (o da confiança e credibilidade), apesar do prestígio que o atleta possui. Afinal, assim como eu, Gerson também escutara desde pequeno: “é a sua palavra contra a minha, e agora?”

Ao falarmos de um cenário onde jogadores negros confrontam, dentro de campo, de forma direta, insultos raciais, advindos de outros jogadores ou da torcida, isto requer o entendimento macro da indústria esportiva, levando em consideração que eles também são produtos que se atrelam a marcas de relevância internacional muitas vezes com contratos relevantes do ponto de vista financeiro. Mas o primeiro passo foi dado. Não só por Gerson, mas também por muitos outros, como Neymar e Taison que, possivelmente, com casos anteriores ao do atleta do Flamengo, podem ter encorajado o jogador a não ficar calado.

Que seja um efeito dominó se as estruturas raciais, ainda engessadas no que tange a discussão do tema dentro do futebol, comecem a se abalar por aqueles que são os principais produtores do espetáculo: os jogadores, sobretudo os negros.  

Referências bibliográficas:

SALES Jr., Ronaldo. Democracia racial: o não-dito racista. Tempo Social: revista de sociologia da USP, v. 18, n. 2, nov. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ts/v18n2/a12v18n2. Acesso: 20/09/19.


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A Superliga global: o futuro do futebol está chegando?

Ao caminhar pela cidade de Manaus, não será difícil encontrar alguém usando a camisa de um clube de futebol europeu, como o Barcelona, o Juventus ou o Manchester United. Alguns, além de usar a camisa, se dirão até torcedores do clube, com seu modo próprio de torcer por uma agremiação que não se comunica em língua portuguesa e possui sede e estádio a milhares de quilômetros de distância.

O mesmo acontecerá em Teresina, Cuiabá, Uberlândia e milhares de outras cidades brasileiras. Mas o Brasil possui um futebol forte e o predomínio, entre os seus torcedores, ainda é dos clubes do próprio país. O apreço por clubes europeus mostra-se muito mais intenso em outras regiões, de futebol menos desenvolvido. A superpopulosa China, os riquíssimos países árabes e toda a África, por exemplo. 

É o futebol globalizado do século 21, com clubes globais, suas torcidas globais e acompanhamento diário por uma imprensa global, com destaque para os sites da internet e canais de TV internacionais (ESPN, Fox Sports e outros). Falta apenas que surja uma liga e um campeonato global de clubes. A ideia, pelo menos, já existe. A princípio, cogitou-se uma superliga de clubes europeus. Depois, a proposta evoluiu para uma superliga global, que seria disputada pelos clubes mais ricos da Europa, alguns grandes clubes da América do Sul e clubes convidados de outros continentes. A Associação Mundial de Clubes, recém-fundada, é a principal defensora do projeto.

Seria uma liga fechada, ou seja, participaria da competição promovida por essa entidade apenas os seus membros e convidados. Não haveria um direito assegurado à participação por razões de mérito. O clube campeão continental da África, por exemplo, não teria, em razão desse título, direito a ingressar no campeonato da superliga.

Que título deveria ser dado ao campeão dessa superliga global? O impulso óbvio é o de chamá-lo de campeão global ou de campeão mundial. Esse impulso, porém, se choca frontalmente com um princípio que se tornou inquestionável para a FIFA e pode ser expresso assim: campeão mundial é o vencedor de uma competição que incluiu todo o mundo. Uma liga fechada, que pode excluir por inteiro um ou mais continentes, está longe disso. É baseado nesse princípio da FIFA que são realizadas as fases preliminares continentais das Copas do Mundo (fases preliminares que são chamadas no Brasil de “eliminatórias”).

O princípio defendido pela FIFA tem lógica e é considerado “muito justo”, mas não se impôs em alguns casos históricos. Um exemplo é o da competição que foi a antecessora do atual campeonato mundial de clubes da FIFA. De 1960 a 2004, foi realizada uma disputa anual entre o campeão continental europeu e o campeão continental sul-americano. Era chamada oficialmente de Copa Intercontinental (denominada também de Copa Europeia-Sul-Americana). Na grande maioria das vezes, o vencedor dessa disputa foi tratado pela imprensa e pelos torcedores como campeão mundial de clubes. A ausência de clubes de outros continentes em uma disputa que se considerava “mundial” provocou críticas, mas elas não abalaram a sua relevância. A competição, aliás, ganhou prestígio renovado de 1980 em diante, principalmente entre os sul-americanos. Até a FIFA a tratava com respeito. Os títulos dos “campeões mundiais de clubes” (conquistados de 1960 a 2004) continuam sendo reconhecidos como tal, com algumas exceções apenas em alguns países europeus. Algo parecido pode acontecer com a superliga global.

Florentino Perez – Presidente do Real Madrid, primeiro presidente da Associação Mundial de Clubes e defensor da superliga global.

Outro caso que pode (e merece) ser citado: a fase final do campeonato promovido pela liga de beisebol dos Estados Unidos (MLB) é chamada até hoje de World Series (Série Mundial), embora seja a fase final de um campeonato nitidamente nacional, com a participação de apenas uma franquia canadense. Críticas podem ser feitas a essa designação, mas nenhum impacto tiveram até hoje. A World Series continua sendo uma das mais ricas e prestigiadas disputas esportivas do planeta.

Se a superliga global de futebol vier a alcançar poder econômico e prestígio semelhante ao da MLB, poderá chamar o seu campeão de “campeão mundial” e suportar as contestações (ou desprezá-las). Mas as contestações, nesse caso, provavelmente virão da FIFA. Essas, parece óbvio, não poderão ser ignoradas, suportadas ou desprezadas.

Outra situação possível: o surgimento de uma segunda liga global, com clubes que sejam relevantes em seus países e tenham alguma projeção internacional (mas não possam, apesar disso, ingressar de modo permanente na superliga, que será fechada, como já foi dito). Pode acontecer, então, de termos dois clubes tradicionais e poderosos sendo igualmente chamados de “campeões mundiais” no mesmo ano. Estabelece-se, então, uma disputa simbólica, às vezes sem vencedor consensual.

Mas o que começa com aparência de crise depois pode se transformar em oportunidade: caso haja muito interesse em decidir qual desses dois campeões globais é mais merecedor do título, uma disputa pode ser promovida, com boas perspectivas de divulgação e lucro. Caso semelhante pode ser citado na história esportiva dos Estados Unidos. De 1960 a 1969, o futebol americano teve duas ligas rivais (a AFL e a NFL). A cada ano, duas franquias festejavam o título de “grande campeã”, sem definir qual das duas deveria ser tratada como a autêntica campeã daquela temporada. Em janeiro de 1967, foi realizada pela primeira vez uma disputa entre as campeãs das duas ligas. A partida ganhou o nome de Super Bowl e é disputada até hoje. Tornou-se o evento esportivo de maior magnitude dos Estados Unidos e está entre os mais valiosos do mundo.

Para evitar desavenças, contestações e duplicidade de campeões (que geram dúvidas entre os espectadores e diminuem o prestígio das competições), a tendência na governança esportiva global é a da unidade. Poucos esportes ainda não possuem confederações internacionais e nacionais unificadas, como exige o COI. A superliga global, seguindo essa tendência, provavelmente não será afrontosa à FIFA. Também não deve ter interesse em ser tão fechada e excludente a ponto de estimular o surgimento de uma liga rival. Mesmo com todas essas cautelas, a superliga provocará mudanças gigantescas no futebol mundial, caso seja realmente instituída e conte com clubes que não disputem campeonatos nacionais. Será o futebol global chegando à sua plenitude. Um grande clube alemão que seja membro da superliga e não dispute o campeonato de futebol da Alemanha se tornará um clube do mundo, com torcedores de todo o planeta. E assim, em algumas décadas, poderá existir uma torcida organizada (e apaixonada) do Borussia na cidade de Maceió, que se reunirá para torcer por seu clube “do coração” em uma partida da superliga contra o brasileiríssimo Flamengo. Uma aberração para os tradicionalistas. Uma possibilidade que a interconexão global já anuncia?

As seis confederações continentais da FIFA.
Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo episódio é “O futebol na obra de José Lins do Rego”. Com apresentação de Mattheus Reis e Marina Mantuano, gravamos remotamente com Bernardo Buarque de Hollanda, professor adjunto da Escola de Ciências Sociais, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e André Capraro, professor associado da Universidade Federal do Paraná e também professor permanente do programa de Pós-Graduação em Educação Física da mesma universidade.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Diamante Negro”. A canção, escrita por David Nasser e Marino Pinto e interpretada pelo conjunto Vocalistas Tropicais.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

A crônica esportiva de José Lins do Rego: política, paizão e relações de força – André Capraro [artigo]

Política, cidade e cotidiano nas crônicas de José Lins do Rego (1944-1956) – Bernardo Buarque de Holanda [artigo]

O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixões esportivas em José Lins do Rego – Bernardo Buarque de Holanda [dissertação]

Rua do Ouvidor, 110 uma história da livraria José Olympio – Lucila Soares [livro]

Fotballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro – Leonardo Pereira [livro]

“Com brasileiro não há quem possa” – Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues – Fátima Antunes [livro]

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Carol Fontenelle, Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Marina Mantuano
Convidados: Bernardo Buarque de Holanda e André Capraro

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Meu nome é M-Á-R-I-O F-I-L-H-O

No dia três de fevereiro deste ano, fui pego de surpresa: queriam mudar meu nome. Logo eu! Mundialmente conhecido. Cartão postal do Rio. Meu nome é minha identidade! Ele está estampado nos jornais, livros, músicas… meu nome está nos jantares de família. Na memória dos torcedores. Eu sou a saudade de muitos dos meus frequentadores e o desejo daqueles que ainda não me conhecem. Meu nome é a interseção entre flamenguistas e tricolores. Já abrigou botafoguenses, vascaínos, corintianos, santistas… meu nome é a interseção entre a terra e o céu, com as saudosas presenças de Sobrenatural de Almeida, Nossa Senhora dos Gols Perdidos, Gravatinha, Santo dos Gols Impossíveis, Nelson e Mário.

Eu sou setentão… ano passado não me faltaram homenagens… e agora, justo nesse momento em que eu vivo uma solidão sem tamanho, me aparecem com mais essa. Eu figuro no coração de milhões de torcedores. No sonho de milhares de jogadores. Eu sou parte daquelas histórias de “primeira vez” que ninguém esquece.

Não querem me apagar totalmente! Ufa! A ideia, pelo que fiquei sabendo, é colocar o meu nome no Complexo Esportivo. Mas eu não sou complexo. Eu sou simples. Tão simples quanto os pulos de alegria que as torcidas dão quando comemoram um gol. E, toda vez que uma torcida vibra, eu vibro junto. Porque essa é a minha essência.

Aliás, vocês conhecem a minha história? Eu nasci no dia dezesseis de junho de 1950. Waldir Pereira, mas conhecido como Didi, meio-campo da Seleção Carioca foi o primeiro a ter a honra de fazer um gol em aqui. Mas não pensem que foi fácil me erguerem. E é justamente aqui que a história fica mais interessante.

A intenção do pessoal daquela época era construir um grande estádio para a Copa de 50. E assim começaram a pensar no projeto que daria origem a mim. Uma parte dos idealizadores e apoiadores queriam me colocar láaaa em Jacarepaguá. Quem defendeu com unhas e dentes que eu fosse erguido perto do rio Maracanã foi Mário Filho. Ele queria que eu ficasse em um lugar acessível para todos. Já imaginaram se eu tivesse parado lá em Jacarepaguá? Nem Mário Filho e nem Maracanã…. sabe-se lá como iam me chamar…

O papel de Mário não para por aí. Ele era um entusiasta do futebol! Vocês sabiam que foi ele quem criou o termo “Fla-Flu”? Pois é! Ele é o dono do apelido do clássico mais charmoso que é disputado em mim. Além disso, Mário fez parte de uma comissão que pensou na minha existência como um todo. Desde onde eu ficaria até o preço dos ingressos que seriam vendidos. E, por influência do meu criador, só uma conclusão era possível: eu tinha que ser um estádio do povo. O futebol, que começou como um esporte de elite, aos poucos se tornava mais popular. E Mário Filho teve um papel fundamental nisso, sobretudo no Rio. Aliás, Filho que nada! Filho sou eu! Ele é o Mário Pai!

Tanta História… tantas estórias… tantos afetos… e ainda querem mudar meu nome. Querem me dar nome de Rei. Uma ironia do destino, né? Eu vi esse menino crescer! Seu milésimo gol, esse que todos falam, foi marcado aqui. Para que criarem essa rivalidade entre nós agora? Eu nunca pedi para entrar para a realeza. Pelo contrário! Eu disse a vocês – fui criado para ser um estádio do povo. Assim fui imaginado. Assim permanecerei.

Então, meus caros, aqueles que quiserem mudar o meu nome que lutem! Mais do que processos burocráticos, eles terão que enfrentar a História. Eu sou palco de duas finais de Copa do Mundo. Eu já abriguei, em uma única partida, 178.850 amantes do futebol. Esse pessoal, que teve essa ideia desnecessária, pode até querer mudar o futuro. Mas eles não têm como mudar o passado. Eu sou a história. E eu nunca serei esquecido. A minha voz, que é a voz de milhares de torcedores, vai ecoar na eternidade. E então, quando perguntarem meu nome, eu direi: meu nome é Mário Filho.

Fonte: Wikipedia
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Sobre o que é a segurança nos estádios em tempos de pandemia?

No dia 25 de fevereiro de 2021, acabou o campeonato brasileiro de 2020, com o título do Flamengo. Essa data não é marcante somente pelo bicampeonato do time rubro-negro; mas pelo fato de o Brasil ter atingido seu recorde diário de mortes até aquele momento e também por ser o dia em que o país chegou ao número de 250 mil mortos por COVID-19. A temporada de 2020 foi repleta de campeonatos controversos e ficou marcada pelo retorno apressado do futebol (no início de agosto de 2020). Mais de 300 atletas contaminados na série A do campeonato brasileiro, partidas adiadas… como foi realizada a segurança no futebol no ano de 2020? Como pensar a segurança em eventos esportivos em meio a uma pandemia?

Quando se pensa sobre segurança em eventos esportivos, especificamente no futebol, o senso comum já a relaciona ao controle de torcidas (principalmente as torcidas organizadas); mas, em um momento pandêmico, a torcida não está presente. Se um dos principais (se não o principal) atores do futebol não se faz presente, como pensar a segurança desses jogos?

A ideia de segurança nos eventos esportivos é convencionalmente ligada ao controle dos modos de torcer. Esse controle, comumente exercido por efetivos policiais, permanece evidente, mesmo no contexto da pandemia, e o consequente afastamento de torcedores nos estádios. O caso da tentativa da Polícia Militar de São Paulo, que cumpriu a recomendação do Ministério Público estadual, a fim retirar um mosaico realizado pela torcida do Corinthians para o clássico com o Palmeiras, sob o argumento de provocação à torcida adversária, é um exemplo dessa atuação. O mosaico fazia menção aos dois anos em que o clube alvinegro se sagrou campeão mundial (2000 e 2012) seguido da frase “nunca serão”. Vale ressaltar que ambas as torcidas não estavam presentes no estádio, por questões sanitárias. Ainda assim houve uma tentativa de controle e limitação da liberdade de expressão da torcida, em uma frase em que não havia uma ofensa ou algum tipo de violência para com os integrantes da torcida adversária. Houve a tentativa de controle das expressões torcedoras mesmo na ausência de torcida (presencialmente). Tais ações vislumbram o silenciamento das torcidas partindo da falsa premissa de que as provocações são a razão para ações de violência nos estádios.

No caso do Rio de Janeiro, a segurança nas praças desportivas ocorreu (quase) normalmente. Apesar da ausência de público no interior dos estádios, o Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE, antigo GEPE), vinculado à Polícia Militar do Rio de Janeiro, continuou realizando suas atividades, atuando nos jogos do campeonato brasileiro, copa do Brasil, Sul-americana, Libertadores… inclusive a final do torneio mais importante do continente, na temporada de 2020, ocorreu no estádio do Maracanã. Esse evento contou com a presença da torcida, algo que destoou dos jogos profissionais do Brasil ao longo deste ano.

Fonte: globoesporte.com

Apesar do público restrito, aproximadamente 2.500 convidados, houve uma recomendação da CONMEBOL para que os torcedores ficassem concentrados somente em um setor do Maracanã (sem a separação das torcidas), o que gerou aglomeração; além do fato de que muitos torcedores utilizaram a máscara de modo inadequado. Durante a transmissão deste jogo, foi possível observar torcedores em comemoração tentando o contato com os jogadores e os stewards (operadores da segurança privada) tendo que conter a torcida pela preservação da integridade do campo e também dos jogadores, ao passo que se expunham à contaminação por COVID-19.

O fato é que no contexto em que um vírus é transmitido mais facilmente pelo contato entre pessoas, a divisão de torcida e a acomodação desses torcedores em mais um ou dois setores poderia impedir a aglomeração que foi gerada.

Outro caso em que houve aglomeração foi antes do jogo da 37ª rodada do campeonato brasileiro entre Flamengo x Internacional quando os torcedores foram acompanhar e motivar a delegação do clube carioca antes da partida. O BEPE atuou na dispersão destes torcedores. As motivações, diferenças e consequências destes dois casos de aglomeração precisam ser destrinchadas em outro momento, mas em ambas as situações houve aglomeração dos torcedores e um risco para eles mesmos e para os que promovem o policiamento e a segurança nos eventos esportivos.

No dia 09 de março, teve início a primeira rodada da Copa Brasil de 2021, competição na qual os clubes de todas as regiões nacionais se deslocam para realização de jogos. No dia 17 do mesmo mês, a FIOCRUZ apresentou uma série de gráficos com as taxas de leitos de UTI ocupadas por adultos com COVID-19 no SUS – somente os estados de Roraima e Rio de Janeiro estão na categoria de alerta médio, todos os demais estados, incluindo o Distrito Federal, figuram no alerta crítico, isto é, não há estados em alerta baixo.

Os protocolos divulgados pela CBF datam de junho de 2020 e não foram revisados ou atualizados desde então. Segundo esse documento, os atletas não necessitam realizar testes antes dos jogos; nessa ocasião, para os atletas só são necessários a aferição da temperatura, a utilização de máscaras até o aquecimento para o jogo e o “inquérito epidemiológico” quatro horas antes do início da partida, para saber se o olfato está afetado ou não. A equipe técnica também participa do aferimento de temperatura corporal, obrigatoriedade do uso de máscaras e a necessidade de responder ao mesmo “inquérito epidemiológico”.

Os exames laboratoriais são realizados somente em pacientes sintomáticos para permitir o retorno dos treinamentos em grupo, de acordo com as recomendações da CBF. Em quadro assintomático ou em membros da equipe técnica e outros funcionários do clube, segundo essa mesma recomendação, os exames laboratoriais e de imagem ficam “a critério de cada Departamento Médico” (CBF, 2020). É difícil imaginar que clubes, principalmente os de menor investimento, testam de modo recorrente seus atletas e ainda mais os funcionários, como massagistas e roupeiros, que recebem menos e, por isso, são os mais afetados em caso de um surto de COVID-19 nos clubes em que trabalham.

No dia 15 de março de 2021 foi instituída a nova fase de restrições do estado de São Paulo, a fim de reduzir o número de pessoas circulando e aumentar as medidas de isolamento social foram instituídas obrigatoriedade de home office em alguns setores, escalonamento da saída do trabalho almejando reduzir o número de pessoas em transporte público, fechamento de bares e restaurantes com o funcionamento somente para delivery e drive-thru, cancelamento das aulas por 15 dias e também a suspensão de atividades esportivas coletivas profissionais e amadoras do dia 15 ao dia 30 de março.

A partir dessa restrição do governo de São Paulo, a Federação Paulista de Futebol (FPF) divulgou uma nota em conjunto com o sindicato dos atletas e da arbitragem que aponta a possibilidade de jogos do Paulistão em outros estados e também “2-) A partir da falta de argumentos científicos e médicos que sustentem a paralisação das referidas rodadas neste momento, os clubes delegaram à FPF também a possibilidade de judicialização do caso para garantir a continuidade da competição no Estado de São Paulo neste período de Fase Emergencial.” (Nota FPF, 2021 [grifo nosso]).

A primeira medida sugerida em nota está sendo reavaliada após a negativa de Minas Gerais em receber o jogo do campeonato paulista, dada às condições do estado mineiro, o qual aumentou as restrições e suspenderam por 15 dias atividades esportivas, como futebol e vôlei. Quanto à segunda medida houve uma reunião no dia 18 de março da FPF com os clubes, na qual desistiram de prosseguir com a judicialização e não haverá rodada durante esse final de semana. É preciso refletir sobre algumas questões acerca desta temática.

O prosseguimento dos jogos de outros estaduais e da Copa do Brasil expõem os funcionários dos clubes, principalmente entre os clubes de menor investimento. Para analisar a conjuntura é necessário refletir para além da esfera dos atletas, pois com protocolos de segurança frágeis, os funcionários do clube, de modo geral tornam-se suscetíveis ao contágio e o risco da doença, no entanto, diferentemente dos atletas, estes funcionários podem ser mais velhos e com comorbidades.

Se por um lado há esta preocupação, a fala do goleiro Marcão, do clube Sergipe, ao final da partida contra o Cuiabá pela primeira fase da Copa do Brasil aponta para o desamparo financeiro sofrido pelos clubes de menor investimento, outro ponto desta realidade que deve ser discutido. Durante a entrevista o goleiro informou que defendia a continuidade do campeonato, pois ano passado receberam com atraso os pequenos salários, em comparação aos clubes de maior investimento. O time sergipano compareceu a essa partida com apenas seis atletas no banco de reservas (dentre os seis, três eram goleiros), pois nove atletas e o técnico testaram positivo para COVID. É preciso refletir qual o papel da CBF e das Federações de futebol frente a esta situação. Este é um fenômeno percebido para além da esfera esportiva, muitos trabalhadores se expõem ao vírus para continuar em um trabalho e garantir a segurança financeira para ao menos terem o quê comer. Devemos refletir sobre o papel das federações, da confederação e do Estado para a garantia da segurança destes cidadãos.

Quais são os termos da segurança nos estádios em tempos pandêmicos? Não é possível restringi-los a medidas de prevenção e controle quanto ao conflito e à violência, já que não há presença física de torcida. A maior preocupação deve, então, estar na segurança relativa à saúde de jogadores e demais profissionais presentes ao estádio. A segurança sanitária tornou-se uma preocupação mais patente e uma questão de saúde pública nesse contexto. Será que as organizações de todos esses campeonatos estão atentas a este modelo de segurança do modo devido? Será que os clubes estão prezando pela segurança dos funcionários que podem sofrer os danos dessa doença de modo mais significativo? Qual é o papel da entidade máxima do futebol brasileiro perante esse cenário? Será que é viável a continuação de um campeonato que conta com a presença de 80 clubes e prevê o deslocamento das delegações em um momento em que o número de leitos disponíveis no país estão cada vez menores? É possível continuar um campeonato onde o clube não possui atletas suficientes por conta do surto de COVID? Quais as garantias e seguridades ofertadas a esses funcionários que trabalham com o futebol (sejam atletas ou não)? Quais os limites esperados para a continuidade ou a interrupção das atividades esportivas brasileiras? Se houver a interrupção, quais serão as seguridades ofertadas para os clubes de menor investimento? As respostas para essas questões ainda estão em aberto, mas se faz necessária à reflexão sobre a realização dos campeonatos em face da conjuntura nacional, um contexto de agravamento da crise da saúde pública brasileira e à disseminação cada vez maior e mais descontrolada do vírus.

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo nono episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo nono episódio é “A Arbitragem no Futebol”. Com apresentação de Mattheus Reis e Leticia Quadros, gravamos remotamente com José Carlos Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru) e ex-árbitro da Federação Paulista de Futebol.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo nono episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “E o juiz apitou“, composta por Antonio Almeida e Wilson Batista.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Conto Abril , no Rio , em 1970” – Rubem Fonseca

Boleiros – Era uma Vez o Futebol… – Ugo Giorgetti (diretor)

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Fausto Amaro e Leticia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Leticia Quadros
Convidado: Ronaldo Helal

Artigos

Qual a punição para racismo no futebol brasileiro?

Mais uma temporada do futebol brasileiro se iniciou. Mesmo com atraso ocasionado pelo aperto do calendário da temporada 2020, por conta da Covid-19, a bola já está rolando pelos campeonatos estaduais ao redor do país. Além das discussões táticas e técnicas do esporte, um tema que certamente será recorrente em mais um ano será o racismo. Pensando na gravidade dessa situação, resolvo escrever esse artigo abordando principalmente o que diz a legislação da Justiça Desportiva do Brasil no combate desse crime. É sempre importante salientar o caráter criminoso que o racismo tem no Brasil, descrito tanto na vara civil/criminal, quanto na desportiva.

Ao final, trarei alguns dados referentes a aplicação da lei referente ao ano de 2019, com base na pesquisa sistêmica produzida pelo Observatório da Discriminação Racial no futebol e publicada no “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2019”.

Justiça Desportiva

A Justiça Desportiva brasileira atua apenas na área administrativa e não pertence diretamente ao Poder Judiciário brasileiro. Ela tem o objetivo de fazer cumprir o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que é formado por um conjunto de instâncias autônomas e independentes das entidades de administração do esporte. A existência da Justiça Desportiva está prevista no artigo 217 da Constituição Federal e seu funcionamento é similar ao dos órgãos do judiciário brasileiro, que julga casos de acordo com denúncias realizadas por procuradores, por exemplo.

Diferentemente da legislação criminal brasileira, a Confederação Brasileira de Justiça Desportiva (CBJD), não faz a distinção dos crimes de injúria racial (art. 140, § 3º do Código Penal) e Racismo (Lei n. 7.716/1989). No Art. 243-G ele descreve “Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”.

Desde 2009, a Justiça Desportiva passou a julgar os casos de racismo de acordo com o esse artigo. Isso revogou a previsão de infrações individuais físicas e morais, criando outras condutas puníveis, incluídos pela resolução CNE nº 29 de 2009. Os casos são encaminhados à Justiça Desportiva (TJD e STJD) através de denúncias dos Procuradores, geralmente são baseados nas súmulas das partidas.

A pena por praticar um ato discriminatório no futebol brasileiro, de acordo com o STJD é suspensão de cinco a dez partidas, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de cento e vinte a trezentos e sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código, além de multa, de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais).

Caso um torcedor seja denunciado por prática racista no futebol, por exemplo, ele será julgado e poderá ser suspenso de 120 a 300 dias e poderá pagar uma multa de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais). A Justiça Desportiva ainda prevê outras punições a depender das circunstâncias que a situação ocorra.

1º Caso a infração prevista neste artigo seja praticada simultaneamente por considerável número de pessoas vinculadas a uma mesma entidade de prática desportiva, esta também será punida com a perda do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente, e, na reincidência, com a perda do dobro do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente; caso não haja atribuição de pontos pelo regulamento da competição, a entidade de prática desportiva será excluída da competição, torneio ou equivalente.

2º A pena de multa prevista neste artigo poderá ser aplicada a entidade de prática desportiva cuja torcida praticar os atos discriminatórios nele tipificados, e os torcedores identificados ficarão proibidos de ingressar na respectiva praça esportiva pelo prazo mínimo de setecentos e vinte dias.

3º Quando a infração for considerada de extrema gravidade, o órgão judicante poderá aplicar as penas dos incisos V, VII e XI do art. 170.

Das espécies de penalidades

V – perda de pontos;

VII – perda de mando de campo;

XI – exclusão de campeonato ou torneio.

Registros de punições em 2019

Segundo o Relatório Anual da Discriminação Racial do Futebol de 2014 e 2019 houve um aumento de 235% nos casos denunciados de suspeita de racismo no futebol. Dos 67 casos registrados como “suposto caso de racismo”, até o fechamento do relatório, 53 (cinquenta e três) casos aconteceram nos estádios de futebol e poderiam ser julgados pela Justiça Desportiva quando a competição tem realização da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que possui prazo de até sessenta dias para tomar uma decisão, se houver denúncia, e/ou pela Justiça Comum (Cível e/ou Criminal). Um mesmo caso pode ser julgado nas duas esferas da Justiça, sendo que na Justiça Penal, processo Cível e/ou Criminal, nos casos de injúria racial, a vítima deve entrar com representação.

Dos 53 casos registrados nos estádios e identificados pelo Observatório da Discriminação Racial, em 13 o relatório obteve informações de julgamento pela Justiça Desportiva. Em 10 casos os julgamentos levaram a punições que foram de multa de R$ 400,00 + atleta suspenso por três partidas – a mais branda – até seis jogos de suspensão para o atleta julgado. Os outros três casos foram julgados e absolvidos pelo TJD ou STJD.

O Relatório apontou que em 2019 foram identificados 10 casos os quais existem a informação de que os incidente racistas constam na súmula do jogo, mas não foram encontradas informações de julgamentos dos incidentes raciais. Houve outro caso que o Relatório não encontrou informação que o incidente constasse na súmula, porém foi encontrado a publicação de uma “Manifestação de Repúdio”, da Federação o que comprova que a mesma teve ciência do fato, contudo não se encontrou informação de julgamento pelo TJD.

Já em outros dois casos os incidentes não constam na súmula da partida, porém manifestações do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) foram encontradas ao qual dizia que iria abrir inquérito para analisar as denúncias. Em um caso a investigação foi aberta pela entidade, mas não foi encontrado o resultado do processo pelo Relatório.

Dos sete casos que ocorreram via internet, em um houve registro de Boletim de Ocorrência que foi registrada no artigo 140 do Código Penal, como injúria, e o processo está em andamento na justiça. Em um caso o agressor foi identificado e suspenso pelo conselho do clube, ainda não de forma definitiva, neste mesmo caso a polícia civil abriu inquérito para investigar a situação, mas o documento não encontrou informações do andamento do processo. Nas outras cinco ocorrências não foram encontradas informações de qualquer procedimento por parte das vítimas, clubes ou autoridades

Em relação aos sete casos que ocorreram fora dos estádios e da internet, em cinco não foram encontradas informações sobre registro de ocorrência e/ou alguma punição aos envolvidos. Em um caso o Ministério Público, de São Paulo, denunciou o agressor, mas o Observatório não encontrou informações sobre o andamento do processo. Em um caso o clube expulsou o agressor do seu quadro de associados.

Foto: Reprodução

Fonte:

CÓDIGO BRASILEIRO DE JUSTIÇA DESPORTIVA, 2009.

Relatório da Discriminação Anual do Futebol 2019: https://observatorioracialfutebol.com.br/Relatorios/2019/RELATORIO_DISCRIMINCACAO_RACIAL_2019.pdf, acesso em 07 de março.

Artigos

“Arnaut Report”: há 15 anos a União Europeia elaborou ideias para o futebol. Pouco mudou

O ano de 2021 marca os 15 anos do lançamento do chamado “Arnaut Report”, um documento de grande importância histórica para o futebol global, a despeito dos seus poucos efeitos práticos.

Trata-se do “Independent European Sport Review 2006”, extenso documento encomendado pela União Europeia – mais precisamente pelos ministros dos esportes da França, Alemanha, Itália, Espanha e Reino Unido – para traçar propostas concretas para o futuro do futebol no continente, frente aos problemas visíveis já naquele contexto.

O documento leva tal alcunha porque foi coordenado e apresentado por José Luís Arnaut, político português que se destacou na realização da Euro 2004, quando era Ministro Adjunto do Primeiro-Ministro no seu país de origem.

O objetivo geral do relatório era criar as bases para uma regulação conjunta do futebol europeu, visando a atacar os efeitos colaterais da “rápida e irreversível tendência de mercantilização do esporte”, nas próprias palavras do autor. Pontos que iam desde a entrada de investidores suspeitos nos clubes; à manipulação de partidas pela indústria das apostas; ao tráfico de jovens jogadores; até a regulação da atividade dos agentes de jogadores e o equilíbrio financeiro da atividade.

Entretanto, o ponto principal do relatório, exatamente pelo impacto direto que tem nas questões anteriormente listadas, se referia à propriedade dos clubes europeus. O “Relatório Arnaut” fazia apontamentos claros e objetivos à necessidade de criação de mecanismos de controle de gastos nos clubes e, por outro lado, mecanismos de participação dos torcedores no controle dos seus clubes.

Pelo sim ou pelo não, a existência de um esforço institucional por parte da União Europeia influenciou inúmeros debates e foi capaz de impulsionar alterações no estado das coisas da indústria global do futebol. Alguns desses tópicos ainda possuem força, outros se tornaram regulações reais e outros, no mínimo, ensejam debates frequentes sobre o futuro do jogo. Vale observar os princípios daquele documento, e pensa-los em perspectiva histórica.

Controle financeiro

Uma das grandes preocupações sobre o futebol do então novo milênio era como a ultra-mercantilização do jogo e o rápido processo de globalização da transmissão dos jogos de futebol dos clubes europeus alteraram consideravelmente as correlação de forças dessa indústria. Na altura de 2006, o chamado “G-14”, grupo que reunia os cubes europeus mais ricos do momento, já gozava de prestígio e poder, afetando as estruturas tradicionais de controle e regulação do futebol, como a UEFA.

Essa organização daria origem, ainda em 2008, à chamada European Club Association (ECA), a mesma que atualmente mobiliza os principais clubes do continente pela criação da European Super League – uma liga independente do controle da UEFA.

Parte do impulso encontrado pelos atores políticos envolvidos na elaboração da Independent European Sport Review consistia nessa realidade. O futebol estava ganhando nova configuração e as antigas estruturas reguladoras estavam ameaçadas.

O Arnaut Report apontava como a necessidade de criação de regras mais rígidas para o controle dos gastos dos clubes era indispensável para a própria atratividade de investidores: com o descontrole e consequente inflação salarial que o futebol já apresentava à época, aponta Arnaut, a instabilidade financeira era uma regra.

Não era à toa que tantos clubes estavam indo à falência ou abrindo processos formais de recuperação judicial; nem era coincidência que tantos investidores bilionários passaram a comprar clubes nesse período.

Diferente do que se projetou ao longo das décadas de 1980 e 1990 – quando diversos países adotaram legislações que obrigavam clubes a se transformarem em empresas (Itália, França, Espanha, Portugal, etc…) -, o fato era que a atividade financeira de um clube de futebol já era percebida como invariavelmente deficitária.

A nova leva de proprietários de clubes dos anos 2000 deixava nítida a relação de mera utilidade publicitária dos clubes. Com altos riscos, pouco ou nenhum retorno financeiro e diversas barreiras naturais de entrada para investidores (gastos anuais na ordem dos 300 milhões de euros); clubes de futebol tornaram-se ferramentas poderosas para grupos financeiros e políticos. Situação já destrinchada no artigo “Os donos no futebol”. 

O relatório sugeriu métodos de avaliação mais rígida quanto à origem da riqueza dos proprietários dos clubes. Medidas nesse sentido foram adotadas nos diversos países em questão, sem grande resultado, entretanto. O problema não era apenas o dinheiro ilícito que entrava no futebol, mas principalmente os objetivos desses compradores endinheirados.

Outra medida amplamente adotada foi a que sugeria o impedimento de que um mesmo grupo financeiro fosse proprietário de mais de um clube em uma mesma competição, sob o argumento de que isso feria a integridade esportiva de uma competição. O conceito ganha força nos anos seguintes, mas cai no primeiro grande teste: a UEFA autorizou os dois clubes da Red Bull – o Leipzig e o Salzburg – a comporem o mesmo grupo da Champions League de 2017/2018.

Já o Fair Play Financeiro, política adotada pela UEFA a partir de 2010 – com longo processo de adaptação e diversas regras graduais – possui grande influência do “Arnaut Report”. A política utilizada pela UEFA para autorizar a entrada de clubes em suas competições prevê punições aos clubes que gastem mais do que arrecadam em circunstâncias normais.

Indubitavelmente o ponto mais relevante e efetivo do relatório, a política de fair play financeiro de fato conseguiu conter a gastança desenfreada dos proprietários, ainda que não tenha passado alheia aos movimentos políticos de bastidores: Paris Saint-Germain, propriedade do Fundo Soberano do Catar, e o Manchester City, pertencente ao Fundo Soberano de Abu Dhabi, foram dois casos de clubes que descumpriram regras e não foram devidamente punidos. 

Esse mecanismo é muito contestado pelo efeito colateral de “engessamento” do futebol. Uma vez que clubes de menor porte tendem a arrecadar menos do que os mais ricos ou mais populares (aqueles capazes de se capitalizar sobre públicos de todo o mundo), reduziram-se drasticamente as chances de que algum novo clube consiga atingir postos de destaque ou disputar títulos.

Por fim, o relatório sugeria a concepção de um sistema regulatório comum a todos os países, de uma forma capaz de dirimir as discrepâncias financeiras externas (entre as ligas) e internas (entre os clubes). Essa proposta vem na esteira da sugestão de um sistema bem definido de “salary cap”, também conhecido como “teto salarial”, muito comum nas ligas esportivas norte-americanas. É curioso notar como, apesar de movimentar recursos de ordem semelhante ao futebol, as ligas esportivas norte-americanas pagam valores muito menores às suas principais estrelas.

Como se sabe, essa foi outra medida que não se aplicou, mas persiste como uma ideia possível de contenção da inflação salarial cíclica do futebol, e consequente restabelecimento da sustentabilidade financeira dessa indústria (em tese…).

Participação dos torcedores

No outro extremo das discussões viabilizadas ou ensejadas pelo Relatório Arnaut, está o debate que segue crescente no futebol europeu: a importância e as vantagens decorrentes do maior grau de participação dos torcedores nos processos decisórios dos seus clubes.

A própria iniciativa da Independent European Sport Review tem suas raízes em um programa real, e até então muito bem avaliado, no futebol inglês: a Supporters Direct.

A Supporters Direct [Diretório dos Torcedores] foi uma organização impulsionada pelo governo do trabalhista Tony Blair, que visava estimular, impulsionar e dar suporte à existência de “supporters trusts”. As “trusts” consistiam em iniciativas onde um grande número de torcedores se juntava para levantar fundos e comprar participações acionárias nos seus clubes de coração.

O princípio básico era garantir o direito de participação de grupos de torcedores nessas sociedades empresariais, de modo a inserí-los nas decisões mais importantes defendendo o interesse coletivos dos torcedores em geral, contribuírem com a instituição e, de forma mais precisa, possuírem direitos constituídos e não apenas “simbólicos” de propriedade sobre seus clubes.

O movimento começou originalmente no Northampton Town, clube que atravessava grande crise em 1992. Apesar de já serem corriqueiros os casos de mobilização de torcedores do futebol inglês pelo socorro financeiro aos clubes de suas comunidades, os torcedores do Northampton entenderam que era preciso criar uma estrutura que lhes conferisse maiores garantias de participação. Com foi bem sucedida – com a conquista de cadeiras no conselho de administração do clube –, essa experiência pioneira acabou estimulando torcedores de toda Inglaterra.

Em 1998 o movimento chegou a um dos maiores clubes do país, o Manchester United, que vivia sob a ameaça de compra do magnata australiano das comunicações Rupert Murdoch. Cerca de 200 mil torcedores dos Reds se uniram, garantiram a aquisição de partes relevantes das ações do clube e mantiveram o seu controle na cidade (até 2005, quando a família Glazer adquire o clube após violenta estratégia de aquisição do controle acionário).

O futebol inglês já era alvo de grandes interesses mercadológicos dessa ordem, uma vez que os direitos de transmissão de competições esportivas ganhava grande valor, na carona dos avanços tecnológicos das transmissões e das TVs a cabo. A globalização do futebol passou a colocar os clubes no radar de grandes grupos financeiros e políticos, o que acontece de forma mais agressiva a partir dos anos 2000.

Poucos anos após a criação da Supportes Direct enquanto política de estado, o futebol inglês já contava com mais de 110 supporters trusts, ainda que isso não se apresentasse como um avanço concreto do controle acionário dos clubes pelas mãos dos seus torcedores. Acontece que há mais de um século os clubes ingleses já eram controlados por números reduzidos de acionistas minoritários e a ideia de participação concreta na gestão desses era praticamente impensável até os anos 1990.

Esse nunca foi exatamente o caso dos clubes dos países vizinhos, dos quais a Espanha talvez seja o caso mais ilustrativo. Como em 1992 a Ley de Deportes obrigou todos os clubes espanhóis a deixarem de ser associações civis sem fins lucrativos (como são os clubes brasileiros), só então os clubes se transformaram em sociedades anônimas desportivas.

Aqueles então sócios com direitos políticos de voto até tiveram a prioridade na compra de ações, mas como parece óbvio apontar, a concentração de poder acabou ficando na mão de poucas das mais abastadas famílias vinculadas a essas agremiações. Para o caso espanhol, uma “supporter trust” não consistia no mesmo movimento que representou para o futebol inglês, ainda formas organizativas semelhantes sejam vistas em muitos clubes atuais.

De todo modo, a criação de uma “Supporters Direct Europe” teve seu valor. A ideia gestada no Relatório Arnaut logo foi recebida pela UEFA como uma política da gestão de Michel Platini, a partir de 2009, igualmente apoiadas pelos governos locais. Uma ampla rede de organizações torcedoras agora se articulava com um financiamento constante, visibilidade midiática e intercâmbio de modelos de organização e publicidade.

A “SD Europe” ensejou bons estudos e criação de casos onde torcedores retomaram poder de participação em seus clubes, ou ao menos acionou uma espécie de ativismo torcedor que parecia adormecido em um momento de alto nível de clientelização da relação entre torcedores e clubes, própria desse processo de mercantilização do futebol.

Se a ideia geral era buscar reverter o distanciamento cada vez maior entre os proprietários dos clubes e as comunidades que lhes compunham, é possível dizer que essa iniciativa teve algum valor. Apesar disso, consistia a imensa dificuldade de disputar em termos financeiros com proprietários que se deslocavam de todas as partes do mundo, carregando fortunas impensáveis mesmo para um número de dezenas de milhares de torcedores organizados e coesos.

Outra política elaborada pela Supporters Direct foi a criação dos “Supporter liaison office” (SLO), uma espécie de “oficial de relação com torcedores”. Quando a UEFA adota essa política como um dos seus critérios de licenciamento de clubes – espécie de certificado de qualidade obrigatório para a participação em competições continentais -, a criação desse cargo se tornou comum nos clubes. A proposta consistia em disponibilizar um profissional remunerado e legitimado a fazer o diálogo entre torcedores e o comando dos clubes.

O SLO deveria acolher as demandas dos torcedores e elaborar políticas para resolvê-las. Isso teve importante impacto na luta de muitos torcedores contra o aumento abrupto do preço dos ingressos, os direitos dos torcedores visitantes, e inclusive o retorno ou preservação das culturas festivas a alguns estádios europeus.

Da ideia para a prática

A relevância do Relatório Arnaut é indiscutível apesar de suas propostas resultarem em mudanças pouco consideráveis, principalmente em contraste com o crescimento abrupto dos valores que envolvem a indústria do futebol nos tempos atuais. Por se tratar de um objeto tão poderoso de manipulação política, há uma grande dificuldade natural de aplicação de políticas reguladoras sobre clubes de futebol, com os proprietários dos clubes hoje se colocando em uma escala de poder muito superior ao que jamais foi visto.

Tratam-se de grandes conglomerados financeiros, líderes de partidos políticos populares, monarcas teocráticos, interesses geopolíticos de grande proporção, e muitas outras forças conflitantes. A desregulamentação da indústria do futebol tende a favorecer esses grupos, mas principalmente atletas e seus agentes, que enriquecem como nunca, enquanto clubes fora do epicentro financeiro dessa indústria global do futebol tendem a sofrer com os efeitos inflacionários desse grande parque de diversões do poder global.

Por outro lado, sem a mobilização orgânica e constante dos torcedores, dificilmente essas políticas conseguem se sustentar. Uma vez que o público consumidor desses grandes clubes já está há muito tempo consolidado para além das fronteiras do país de origem – ou mesmo para além dos oceanos que separam os continentes – a organização que representa dezenas de milhares de torcedores locais mobilizados é cada vez menos impactante na realidade dessas empresas.

No mesmo sentido, o próprio processo de clientelização dos torcedores já perdura triunfal há muito tempo. O esvaziamento do sentido de pertencimento e identidade é uma política promovida pelo futebol há muitas gerações, ainda que volta e meia sejamos surpreendidos com indícios contrários.

Fonte: Getty Images
Artigos

O Inesgotável Pelé (contém spoilers)

A imagem de um ídolo pode permanecer eterna? Em tempos onde megacomputadores e nuvens armazenam uma infinidade de dados, a resposta parece ser obviamente positiva, pelo menos quando se trata da preservação de dados ou imagens sobre ele. Mas é possível ir além de ser apenas mais um verbete numa imensa enciclopédia virtual? Nesse caso a situação é mais delicada, pois exigiria que esse ídolo, independentemente de sua área de atuação, estivesse mais presente no dia-a-dia das pessoas. É o caso de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé; primeiro jogador a alcançar o patamar de ídolo mundial e que, por isso mesmo, se notabilizou com a alcunha de Rei do Futebol. Sua grandeza nos gramados foi de tal monta que até hoje tem a majestade eternizada graças a filmes, documentários, livros, histórias em quadrinhos e até videogames. Mesmo quase cinco décadas após “pendurar as chuteiras”, o Atleta do Século XX, mantém seu prestígio.

1981: Pelé recebe o título de atleta do século (fonte: L’Equipe)

O menino e a lenda

O brilho da carreira de Pelé, com suas atuações acima da média, conquistas e gols, muitos gols, gerou, evidentemente, um enorme interesse em torno do garoto talentoso que despontava no Santos Futebol Clube. Após a conquista do sonhado primeiro título mundial pela Seleção, em 1958, na Suécia, o jovem craque, de apenas 17 anos se tornou, então, o centro das atenções.

O franzino herói mal alçava a glória e sua trajetória já começava a ser contada, nem sempre, todavia, se baseando apenas na fidelidade jornalística dos fatos, como no caso do filme dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen. A abertura do filme “O Rei Pelé”, de 1962 relata a seguinte frase, que teria sido dita pela parteira que trouxe o bebê Edson ao mundo: “O filho de vosmecê vai ser rei. Rei do mundo!”, numa clara alusão a uma suposta predestinação de Pelé. O longa metragem filmado em parceria com o produtor Fábio Cardoso se preocupava em reforçar a questão da superação da pobreza e “derrapava” no ufanismo ao descrever o Brasil como uma terra sem preconceito de cor, de raça ou de religião. Terra onde um menino como Pelé podia se tornar rei.

Cartaz do filme de 1962 (fonte: Internet)

Discursos assim estavam muito em voga nos anos 1960, os chamados “Anos Dourados”. No livro “Viagem em Torno de Pelé”, de 1963, o jornalista Mario Filho também tratou de narrar a vida daquele que classificou como “o primeiro cidadão do mundo que o Brasil já produziu” (esquecendo-se, propositalmente, de nomes como Carmen Miranda ou Santos Dumont, por exemplo). O enredo narra a saga de seu protagonista: um menino pobre e negro, que passa por uma série de dificuldades, mas, no final, conquista o seu reinado. A clássica trajetória do herói.

Não faltaram, em todos esses anos, livros e filmes sobre Pelé. Publicações chegam a quase 20, inclusive escritas por autores estrangeiros. Também há uma autobiografia publicada em 2006. Nas telas, além do filme citado acima, outras três produções foram realizadas sobre o jogador: “Isto é Pelé” (1974), “Pelé Eterno” (2004) e “Once in a lifetime” (“O mundo a seus pés”), sobre a passagem pelo New York Cosmos. Pelé também participou de alguns filmes como ator, interpretando papéis de ficção e até aparecendo como ele próprio, como no caso do filme “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” (1986).

Um novo olhar

Independente de tudo o que já se falou e já se mostrou de Pelé, o tema parece nunca se esgotar. É o exemplo do mais recente documentário sobre o Rei, lançado recentemente pelo portal de streaming Netflix. Com o título “Pelé”, o documentário de 108 minutos de duração, dirigido pelos britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas proporciona novas experiências, mesmo para aqueles que já conhecem mais profundamente a carreira de Edson Arantes do Nascimento.

 A chegada do ex-jogador para o local onde seria conduzida a entrevista já nos choca. Um frágil Pelé caminha com a ajuda de um andador até a cadeira situada em meio a uma sala vazia. Uma imagem que é o oposto de todas aquelas que nos acostumamos a guardar na memória.

Talvez por ser dirigido por dois estrangeiros e, provavelmente, para agradar um público mais amplo, “Pelé” se atém a analisar o personagem e não apenas por seu impressionante desempenho nos gramados, mas dando espaço ao Edson (como o próprio Rei gosta de se referir a si próprio; na terceira pessoa).

Mesmo em quase duas horas de filme, fica claro que é impossível abordar todos os aspectos necessários para um perfil completo. No entanto, o documentário nos traz questionamentos que muitas vezes relevamos, levados pela crença de sua predestinação para o talento. As cenas de um Pelé bem menino já envergando a camisa do Santos e revolucionando a história de um clube através de suas jogadas e gols, por exemplo, me fizeram refletir sobre como tal carga de responsabilidade poderia ser absorvida por aquele imberbe adolescente. Como lidar com cobranças e idolatria tamanhas? E para nosso espanto e de todos os que tiveram o privilégio de acompanhar o surgimento de um gênio da bola, a tarefa lhe parecia suave, talvez porque acreditasse piamente na frase dita por seu pai e ex-jogador Dondinho: “Não há o que temer. Dentro de campo todos são iguais”. Tanto que em seus primeiros 4 anos de carreira já havia marcado mais de 350 gols.

O menino que já era craque. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

Da glória da conquista de 58 à frustração da contusão na Copa de 1962, no Chile, o documentário trata de mostrar como a vida do jovem de pouco mais de 20 anos havia mudado, com compromissos de carreira sendo mais implacáveis do que zagueiros “botinudos”. Pelé se transformara no mais requisitado garoto-propaganda e figura obrigatória em grandes eventos. A carreira e a vida pessoal sentiram.

Após o fiasco na Inglaterra, em 1966, onde mais uma vez saiu contundido, Pelé dava entrevistas afirmando que não dava sorte em Mundiais e que aquela seria sua última Copa, mesmo tendo apenas 26 anos.

O (a)político Pelé

Um dos motes do documentário era traçar um paralelo entre a carreira do Rei com o período da Ditadura Militar no Brasil. Tanto no depoimento para os diretores quanto em entrevistas ntigas fica claro que Pelé nunca se atreveu a questionar o cenário além das quatro linhas. Afirmava que não tinha como saber o que acontecia ao certo e que o papel dele era jogar futebol.

Após marcar o gol mil, que aliás contou com cenas que nunca tinha visto, inclusive com entrevistas antes e após a partida concedidas à jovem jornalista Cidinha Campos, Pelé foi convidado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici para ir a Brasília. Foi levado do aeroporto ao Palácio do Planalto em carro aberto e lá recebeu os cumprimentos do ditador pelo feito.

O Rei e o ditador. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

É claro que atitude foi mal vista por quem se opunha ao regime de opressão que, nos finais dos anos 1960, após a promulgação do AI-5, se encontrava mais sanguinário do que nunca. Exigiam do jogador uma postura mais combativa, como a tomada pelo boxeador americano Muhammad Ali, preso por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã. Mas, em uma entrevista para o documentário, o jornalista Juca Kfouri lembra que eram situações bem diferentes. Segundo ele, Ali não seria morto na prisão, porém o mesmo não se podia dizer de Pelé. “Só quem já viveu numa Ditadura Militar sabe onde arde”, lembrou Juca.

O governo queria, a todo custo, que o Brasil vencesse a Copa do México e Pelé fazia parte dessa estratégia. O filme não deixa claro que tenha havido qualquer tipo de pressão para que ele revogasse a promessa de não mais jogar Mundiais, mas fica subentendido que havia uma cobrança sobre o Rei para a conquista da Taça. A comissão técnica era basicamente formada por militares e o treinador João Saldanha (um militante comunista), após classificar suas “Feras” nas eliminatórias, foi devidamente substituído por Zagallo. Mais um ponto para o documentário em relação à narrativa desse período turbulento; são apresentadas entrevistas raras de Saldanha que ajudam a mostrar como era clara sua postura beligerante em relação às normas que o Regime exigia, uma “briga” que respingou até para Pelé, acusado por Saldanha de ter um problema de visão que comprometeria suas atuações.

 Ao desembarcar de volta do México, com a taça em mãos, a primeira parada da Seleção foi na Capital Federal. O roteiro planejado tinha sido cumprido com louvor. E não apenas Pelé, mas todos aqueles jogadores, contrafeitos ou não, tiveram que participar da cerimônia.

Nas ruas, tanto durante o Mundial, quanto na recepção aos campeões, se deu uma espécie de hiato cívico, mesmo quem sabia que a vitória contava pontos para a Ditadura, acabou não resistindo à magia daquela seleção e comemorou.  Ao fim do documentário, numa rara opinião sobre essa questão, Pelé afirmou: “A Copa de 70 foi importante para o País. Se perdêssemos, poderia piorar tudo. O fato de a gente ser campeão fez com que o país todo desse uma respirada. Eu acho que 70 foi mais pro país do que pro futebol”.

A riqueza de um reinado

Um dos maiores méritos do documentário “Pelé” está na bela pesquisa de imagens e áudios que ajudou a resgatar pérolas da tão decantada carreira do Rei do Futebol e que se mantinham praticamente inéditas. Cenas que nos surpreendem, encantam e emocionam.

A fragilidade de Edson se contrapõe à vitalidade de cada lance, cada gol mostrado. Suas falas são curtas e não me parece que essa tenha sido uma opção da edição. Apesar de ainda ter 81 anos, o Rei parece um nobre cansado de tantas batalhas e se atém, quase todo tempo, apegado às mesmas respostas estudadas como fez durante toda a carreira, evitando riscos que julgue desnecessários à sua imagem.

Contudo, surpreendentemente, o documentário de Tryhorn e Nicholas nos traz um presente. Um outro Pelé, sorridente e descontraído, ao participar de um encontro com seus ex-companheiros de Santos. Parecem, mesmo, duas pessoas diferentes. Talvez, porque naquele instante, a máquina do tempo da emoção tenha entrado em ação. Naquela hora, ao lado daqueles que dividiram com ele o prazer do futebol, o Rei deixa cetro, manto e coroa de lado e se permite disfrutar aquele momento, livre de qualquer compromisso ou cobrança. Afinal, como bem disse Dondinho, ali, eram todos iguais.

Os Santos do Rei (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)