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O que a nova gramática do futebol nos revela sobre as escolhas desse esporte?

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Já vai longe o tempo em que o lazaronês[1], com sua fala complicada era alvo da jocosidade do jornalismo esportivo e das torcidas. Cerca de 40 anos depois daquilo que era, majoritariamente, tratado como sinônimo de falar empolado para encobrir deficiências táticas, a nova gramática dos treinadores foi elevada ao estado da arte para explicar o futebol. E, não apenas no meio de técnicos e da boleirada, mas, também do jornalismo, antes bem menos permeável a tais retóricas esvaziadas de sentidos.

Se adotarmos um olhar mais cético e mais crítico, podemos desconfiar fortemente que, na verdade, estamos diante de uma operação discursiva que ressignifica antigas expressões futebolísticas, para que, nessa metaformose linguística, se amplifique o poder dos treinadores, e torcedores e jornalistas deixem de debater, e cobrar, a essência do que se passa em campo.

Entre neologismos ou palavras que tiveram seus significados originais reconfigurados, citamos: linha alta; linha baixa; último terço do campo; verticalizar o jogo; atacar a bola; extremo, 4-2-1-2-1… Em tempos não tão remotos, tais palavras e expressões eram facilmente compreendidas, por público e imprensa, como, respectivamente: adiantar a marcação; marcar no seu próprio campo; proximidade da área, jogar para frente; não ficar parado esperando a bola; ponta (direita ou esquerda). Já sobre a sopa de números, a aparente sofisticação da numerologia treineira pode nos dar outras pistas.

Embora o futebol seja esporte dinâmico, nem sempre traduzível ou reduzível a números, as antigas numerações davam conta de explicitar que, entre as três faixas em que se divide o campo de futebol – defesa, meio-campo e ataque – determinados times jogavam, em geral, com quatro defensores; e alguns poucos, no Brasil, recorriam a um terceiro zagueiro, somando, assim, cinco na defesa. No meio-campo, entre jogadores mais marcadores – cabeça de área, volante – e de criação – armadores – havia time que optava por três ou quatro nessa posição. Com isso, no ataque, tinha-se, respectivamente, três ou dois atacantes.

Tudo isso, teoricamente, porque, com a bola rolando, uma série de fatores imponderáveis e a dinâmica da partida é que iam definir se a rigidez tática seria mantida ou moldada pelos acontecimentos. Apesar disso, a sinalização era clara: quem jogava com quatro no meio-campo buscava fortalecer esse setor, sem, no entanto, garantias de que o desejado fosse confirmado no gramado. Já quem priorizava o ataque, optava por escalar mais um atacante, renunciando a um jogador no meio. Dentro dessas configurações táticas, abria-se uma miríade de possibilidades, a depender, em grande medida da qualidade dos escalados para cada função e da imprevisibilidade inerente a um jogo de futebol.

Um meio-campo marcador que, também, soubesse sair para o jogo, poderia, como no Brasil x Uruguai, da Copa de 1970, trocar de posição com o armador e aparecer na frente, não apenas para municiar o ataque, como para marcar um gol, como ilustrou a troca de posições entre o volante Clodoaldo e o armador Gerson, muito marcado pelos uruguaios naquela altura da partida.

Também o clube que, na prancheta do treinador, desfilava o 4-3-3, poderia deslocar um atacante, geralmente o ponta-esquerda, para compor o meio-campo quando seu time não tinha a bola. Ou ainda quem entrava com quatro no meio, quase sempre com mais marcadores do que criadores, podia liberar os laterais – em algum momento, rebatizados de alas, embora continuem a ser cobrados, centralmente, por suas funções defensivas (?) – para ajudarem a apoiar o ataque.

Mais uma vez, era a dinâmica da partida que confirmaria ou reconfiguraria as estratégias do treinador. No entanto, quando a gramática hodierna dos técnicos anuncia esquemas como 4-2-1-2-1 ou afins, tais numerologias são quase automaticamente naturalizadas pelo jornalismo esportivo como questões dadas, sem que se deem conta de contradição emblemática: por trás de uma suposta camada de modernidade, o que os técnicos estão defendendo é ser possível, em plena era da necessidade de compactação em campo, seccionar tanto o meio quanto o ataque.

Assim, se o 2-1-2 inicial significaria que, em teoria, a equipe teria dois jogadores mais próximos da área, um mais livre, em tese, e, se tiver talento, para armar o time, e dois que encostariam no solitário jogador que seria o único atacante explícito. Ora, esquemas táticos dependem da quantidade de talento dos que o executam. Então, se poderia perguntar: nessa pretensa modernidade, Iniesta, no seu tempo de Barcelona, antes e depois da dupla com Xavi, seria volante (um dos 2 à frente da zaga ou ainda o 1, se a configuração definida pelo treineiro for 4-1-3-3 ou seria armador?

Se a resposta for a primeira, como explicar a constante presença dele próximo da área adversária, inclusive, no momento em que este tinha a bola. Caso se fixe na segunda possibilidade, qual a explicação para quando, também recorrentemente, iniciava o ataque do time catalão a partir da entrada da sua área? Não seria Inieta a personificação da desconstrução da “muderna” numerologia treineira, ao mostrar que, no futebol contemporâneo, resta pouco espaço para meio-campistas que se limitem a marcar ou que, sabendo jogar, se recusem a participar da marcação? E que a principal preocupação de um treinador deve ser evitar que sua equipe atue com três setores estanques, para não conceder espaços generosos ao adversário?

Assim, ao se concentrar em números que empiricamente raramente são confirmados em campo, o jornalismo esportivo deixa de questionar se essa nova gramática não serve para encobrir visíveis inconsistências táticas dos nossos treinadores. Na nova gramática treineira ou “delírios táticos”, na expressão de Tostão, poucas sintetizam tal indigência como a popularizada “saber sofrer”. Traduzida na prática, significa que, sem opções de ataque, um time vai ficar submetido à sorte de, entre os constantes ataques do adversário, torcer para não sofrer um gol. Assim, a cada bola cruzada na área ou chute desferido de perto do goleiro, a torcida desse clube deve, entre unhas roídas e respiração acelerada, celebrar a genialidade tática do seu treinador.

Se a essa nova definição de defensivismo somar-se a celebrada “jogar por uma bola”, o jornalismo crítico não deveria vacilar, a exemplo do que fazia em tempo não tão remoto, em qualificar tal opção como “retranca”, “futebol covarde” ou “time sem opções”. No entanto, como disse Marcelo Bielsa, ao utilizar o mesmo comportamento mobilizado para amplificar o reconhecimento na vitória para condenar o comportamento na derrota, a imprensa – e não apenas a brasileira – “especializou-se em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”.

E tal comportamento não se limita à defesa do resultadismo, como criticava o treinador argentino, mas, também, serve para naturalizar uma gramática que, ironizada em momento mais brilhante do nosso futebol, passou a ser reproduzida acriticamente. Fica a provocação: a perda de qualidade levou à necessidade de colocar camadas retóricas esvaziadas de sentidos aos discursos dos treinadores ou foi o inverso? Ou será que ambos caminharam juntos?


[1] No período em que dirigiu a seleção brasileira, entre 1989 e 1990, Sebastião Lazaroni, além de anunciar o início da “era Dunga”, que substituiria o “futebol-espetáculo”, notabilizou-se por explicações como: “galgar parâmetros”; “lastro físico”, “pijama-training”  e “intenção sinergética”. Várias delas soam como primas da “treinabilidade” e do “oportunizar”, do titês, este, no entanto, idioma assumido, sem ironias, pelo jornalismo esportivo.

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Redes Sociais: desvendando o Instagram e o YouTube

Profissionais de Produto Digital do GNT conversam sobre as redes sociais do canal
Reprodução: equipe organizadora do evento

A palestra “Redes Sociais: desvendando o Instagram e o YouTube”, produzida pela equipe de Estágio Supervisionado II, em parceria com o Laboratório de Comunicação Integrada (LCI), da UERJ, acontecerá no dia 28 de outubro, quinta-feira, às 16h. Os convidados são Camila Peres e Viktor Kotkiewicz, profissionais da área de Produto Digital do GNT, da Globo.

O evento tem como objetivo ampliar os conhecimentos dos alunos da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, e demais interessados, sobre produção de conteúdo digital de grandes marcas. Métricas, processo criativo e copywriting estão entre os temas discutidos pelos convidados, que também vão falar sobre suas trajetórias profissionais e mercado de trabalho.

A transmissão será pelo Google Meet. Os participantes receberão, posteriormente ao evento, certificado e hora complementar.

Inscrições pelo Sympla

Mais informações: 

Raffaella Napoli – raffabelcastro@gmail.com | (21) 98394-2726

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O fardo de Ramírez

O jogador Ramírez. Reprodução: Internet

O racismo é uma atitude detestável.

E precisa ser combatido.

Dito isso (são as duas primeiras frases deste artigo), é importante dizer também que a luta contra o racismo não se faz com injustiças.

O atleta colombiano Juan Pablo Ramírez Velásquez (também conhecido como Índio Ramírez), do Esporte Clube Bahia, carrega um fardo de injustiça que já não devia mais estar em suas costas.

Foi acusado, em dezembro de 2020, de ter praticado racismo em uma partida contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Teria ofendido com injúria racial o jogador Gerson. Ramírez negou.

O colombiano foi afastado do time pela direção do próprio Bahia. O clube, sem demora, contratou peritos para analisar o caso. Esses peritos não encontraram nenhuma prova de que houve injúria racial. O presidente do Bahia, diante disso, reintegrou o atleta ao time. “A gente se esforçou, esforçou e não conseguiu identificar uma outra prova ou circunstância além da palavra da vítima”.

Nem os peritos contratados pelo Bahia, nem qualquer outra investigação comprovou a prática de racismo por parte de Ramírez. O STJD, então, fez o óbvio: arquivou o caso por falta de provas.

Ramírez poderia respirar aliviado. Ou não?

O fardo continua. No último dia 9 de outubro, o GE (mais especificamente, o GE São Paulo) produziu uma matéria televisiva que foi veiculada nacionalmente. O assunto era um relatório sobre casos de racismo no esporte em 2020.

A matéria de 3 minutos e 16 segundos dedicou meio minuto à denúncia contra Ramirez.

Disse a reportagem:

  • na súmula da partida, o árbitro declara que não ouviu nenhuma ofensa
  • o atleta Gerson prestou queixa e foi registrado um boletim de ocorrência, mas o Ministério Público solicitou o arquivamento do inquérito (solicitação atendida por um juiz)

Evidência contra Ramírez, além da acusação de Gerson, nenhuma.

Eis a situação: para o árbitro da partida, para os peritos contratados pelo Bahia, para o STJD, para o Ministério Público e para a Justiça comum, não se pode dizer que Ramírez praticou racismo. Para o GE, a denúncia contra Ramírez pode ser chamada (como foi) de “caso de discriminação racial no futebol”, desprezando-se a palavra “denúncia” e sem qualquer ênfase para o fato dessa denúncia não ter sido comprovada.

Por quanto tempo mais a denúncia contra Ramírez (não comprovada e judicialmente arquivada) será exposta nacionalmente em matérias recheadas de casos de racismo (esses outros, sim, documentados e comprovados)?

Por quanto tempo mais Ramírez carregará esse fardo?

GUILHERME BELLINTANI (Presidente do E. C. Bahia). Afastou Ramírez do time e o reintegrou três dias depois. Reprodução: Internet

Para completar, algumas palavras sobre o princípio da presunção de inocência.

O Esporte Clube Bahia, em nota oficial publicada horas depois da denúncia contra Ramírez, declarou que o seu atleta negava “veementemente” a acusação, mas seria afastado assim mesmo, pois “a voz da vítima” deveria ser preponderante nesses casos.

Passaram-se dez meses e ainda não se comprovou que houve um ofensor e, portanto, um ofendido (ou seja, uma “vítima”). Já o Bahia, muito apressado, chamou Gerson de “vítima” menos de seis horas depois de encerrada a partida contra o Flamengo e o fez em uma nota oficial divulgada pela internet.

Alguém poderia ter advertido o presidente do Bahia que, se Gerson já era considerado “vítima”, Ramírez já era considerado “culpado”. E poderia também, logo em seguida, lembrar-lhe que isso afrontava o princípio da presunção de inocência, consolidado ao longo de muitas décadas e à custa de muito esforço intelectual.

Talvez até alguém o tenha feito, já que o presidente decidiu reintegrar Ramírez quatro dias depois daquela famigerada partida contra o Flamengo.

Atualmente, Ramírez ainda é atleta do Bahia e disputa partidas normalmente.

Parte da imprensa (dita progressista e que adotou a bizarra tese do “a voz de quem denuncia é a voz da vítima e deve predominar desde o momento em que a denúncia é feita”) poderia seguir o exemplo do presidente do Bahia e retirar das costas de Ramírez esse fardo que não lhe cabe.

Talvez aconteça algum dia. O GE, por enquanto, ainda acha que não é o momento, apesar do que já decidiu o STJD e a Justiça comum.

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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

Reprodução: Internet

Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.

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Pensar transmissões esportivas mais plurais

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É bastante recorrente que sujeitos mais associados as lógicas conservadoras em nossa sociedade reiterem a afirmação, no mínimo equivocada, de que política e esportes não se misturam. O raciocínio que sustenta este tipo de argumento é o mesmo que afirma que não se pode discutir política nas escolas ou em outras instituições que deveriam, por sua natureza, ser “apolíticas”. Todos os conceitos normativos que ordenam os entendimentos nos esportes ou na escola, por exemplo, são resultado de disputas por significação que possuem um acordo extremamente pontual e limitado que nos permitem ler os entendimentos que possuem status de senso comum. Negar a participação e a disputa política nesse espaço é um esforço para naturalizar esses acordos tirando os de seu espaço de construído politicamente para transformá-los em conceitos naturalizados.

Desde a década de 1980, talvez mais explicitamente a partir da hegemonia das democracias representativas burguesas, os movimentos de política identitária têm ganhado destaque nas formas de organização das diferentes militâncias. Nas próximas linhas pretendo problematizar algumas das formas com que essa política identitária tem aparecido nas transmissões esportivas. Como as emissoras têm utilizado algumas identidades e de que maneira a representatividade já começa a produzir efeitos nestes espaços.

Com um ano de atraso os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2020 foram realizados em Tóquio, mesmo que sem público. É lugar comum nas transmissões dos megaeventos esportivos a contratação de comentaristas especializados, quase sempre atletas ou ex-atletas, para ajudarem na transmissão esportiva, podendo estabelecer alguma informação mais qualificada de alguma modalidade ou traduzir para um público leigo ou para os jornalistas algum vocabulário específico dos praticantes. Para a transmissão dos Jogos Paralímpicos, dentro dessa perspectiva, foram convocados e convocadas paratletas e ex-paratletas que teriam essa função. Verônica Hipólito extrapolou, e muito, o que se espera desses comentaristas. A paratleta, medalhista no Rio em 2016, mostrou um conhecimento sobre os participantes e as modalidades que causaram fortíssimo constrangimento entre comentaristas consagrados que insistentemente repetem lugares comuns e indicam que uma equipe poderia melhorar seu desempenho a partir da entrada de um atleta lesionado… Minha impressão neste caso é de telespectador e me faltam elementos técnicos que atravessam as decisões das direções das emissoras, mas Verônica subiu a vara de qualidade das transmissões. É inaceitável que os demais comentaristas não estudem como ela e, o mais importante para meu argumento, é inaceitável que ela comente apenas jogos paralímpicos. Verônica foi brilhante por ter realizado um trabalho jornalístico de excelência, não por ser paratleta. Isso não é a exaltação da meritocracia, mas uma reclamação pela falta de estudo de outros profissionais com espaços midiáticos muito maiores.

Não são apenas paratletas que são chamados para comentar o paradesporto. Quando eclodem casos de racismo ou machismo, pessoas negras e mulheres são chamadas para opinar. Alguns dos especialistas convidados falam somente destes conteúdos. Isto gera um problema duplo. A partir dos processos de políticas identitárias se transformam sujeitos marcados como pertencentes as “minorias” como identitários enquanto outros não teriam identidade. Ou seja, as mulheres falariam de problemas de mulheres, mas os homens não falam dos problemas dos homens, falam da humanidade, falam de tudo. E aí aparece o segundo problema: eles falam de tudo, mas nesse tudo não se incluem violências contra essas chamadas “minorias”. Neste caso, essas violências não são um problema da humanidade, mas acabam sendo reportados como problemas identitários ou, o que seria ainda pior, problemas de identidade. O muito utilizado e pouco estudado conceito de “lugar de fala” reporta justamente essa dificuldade de quem está e de quem não está autorizado a falar sobre qual assunto.

As comentaristas mulheres no futebol jogado por homens trabalham com uma lógica inclusiva distinta. Ali elas estão autorizadas a falar sobre futebol, sem gênero. Mulheres, da mesma forma que os homens, são capazes de falar sobre qualquer assunto para os quais tenham se preparado. O mesmo vale para pessoas negras que possuem capacidade de discorrer sobre qualquer assunto para o qual estudaram e não somente para relatar suas vivências. Então não faria diferença se quem comenta é homem ou mulher, branco ou negro? Sim, segue fazendo diferença. A presença das mulheres obriga a um esforço reflexivo maior dos homens (ao menos deveria exigir). Machismo travestido em piadas começam a ser menos oportunos. Nosso chamado país do futebol por muito tempo excluiu as mulheres. Quando elas entram seja no campo, nos microfones e até na direção do futebol de mulheres da CBF (conduzidas graças a luta das mulheres no mandato de um presidente afastado por acusação de assédio sexual), inevitavelmente elas apresentam novas pautas. E isso fará o país do futebol ser mais país do futebol. Um país que exclui as mulheres não é um país. Quando muito é a metade de um país. Acredito que se tivéssemos mais mulheres ou homens não brancos em nossas transmissões esportivas ou mesas redondas, seria mais difícil ouvir ridículos argumentos que associam o mal desempenho esportivo com o esforço estético para a manutenção de um penteado afro.

É a partir da ampliação da participação de diferentes sujeitos atravessados por diferentes marcadores identitários com o aumento de representatividade que poderemos colocar a disputa política no centro dos nossos esportes e das nossas transmissões esportivas. É lugar comum (em alguns lugares de forma equivocada) entender que os esportes em geral e, no caso sul-americano, o futebol em específico, como microcosmos ou espelho da sociedade (eu sigo preferindo pensá-lo como integrado com). Ampliarmos a participação de atores e desnaturalizarmos a posição normativa dos homens cisgênero brancos, heterossexuais é ampliar a democracia. Poderia ser um catalisador para qualificarmos as discussões desses mesmos problemas em outros espaços de nossa cultura.

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Raducanu: uma campeã entre a diversidade e a exceção

Reprodução/Redes sociais

Restringir a chegada de imigrantes ao Reino Unido esteve no cerne da campanha a favor do Brexit, vitoriosa em 2016. O controle migratório foi o principal argumento daqueles que queriam se divorciar da União Europeia e que flertavam, sem pudor, com a xenofobia. Portanto, quando uma tenista nascida no Canadá, filha de mãe chinesa, de pai romeno e naturalizada britânica vence um Grand Slam, acabando com um jejum de 44 anos, o discurso do “troco” já está pronto.

Foi o que aconteceu com Emma Raducanu, que chegou ao Reino Unido aos 2 anos de idade e conquistou, duas semanas atrás, o US Open, aos 18. Desde 1977, uma representante do Reino Unido não conseguia o feito. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, não perdeu tempo. Filho de imigrantes paquistaneses, o político, provavelmente emocionado e relembrando sua própria história de vida, tuitou: “Aqui em Londres, abraçamos e celebramos nossa diversidade. E se você trabalhar duro e conseguir uma mão amiga, você pode conseguir qualquer coisa”. Quase um conto de fadas.

A pergunta, no entanto, é inevitável, por mais hipotética que seja: isso tudo aconteceria se Raducanu não fosse campeã, ou não fosse finalista?

Parece coerente supor que a repercussão seria menor. Logo, a valorização, o respeito e a aceitação do imigrante e do multiculturalismo representados por Raducanu estariam, nesse caso, mais atrelados ao sucesso do que ao que realmente importa: a diversidade em si, o ser humano. E “sucesso” como sinônimo de vencer. Nada menos do que isso.

Usar vitórias de imigrantes e de outros grupos sociais minorizados como exemplo de integração bem-sucedida pode invisibilizar questões que precisam ser debatidas.

A seleção brasileira masculina de futebol na Copa do Mundo de 1938 foi a primeira a dar protagonismo ao País nos gramados. Um time em que, pela primeira vez, negros e brancos atuaram juntos, algo visto corretamente, à época, como um avanço civilizatório. No entanto, as narrativas em torno da característica multiétnica daquela equipe acabaram por transmitir a falsa sensação da existência de igualdade racial no Brasil, o que infelizmente nunca foi alcançado até hoje. Desde então e por muito tempo, o racismo estrutural chegou a ser até negado por aqui.

O mesmo pode se dizer da seleção francesa masculina de futebol em 1998. O título mundial inédito sob o protagonismo de um descendente de argelinos parecia um ponto final nas desavenças entre brancos, negros e árabes ainda oriundas dos tempos da colonização francesa na África. Zidane, porém, não tem super poderes, e menos de dez anos depois, em 2005, uma série de protestos liderados por imigrantes e franceses descendentes de imigrantes nos subúrbios de Paris mostrou que não estava tudo bem.

É esta reflexão que deve ser feita quando Raducanu ou a seleção multiétnica francesa vencem: seus pares imigrantes e descendentes estão bem? Terão eles oportunidades para, de fato, fazerem o mesmo que Zidane e Raducanu? Ou a idolatria é apenas fruto de casos isolados e esporádicos? Refletir perante essas indagações é o primeiro passo para políticas e comportamentos que, de fato, promovam a inclusão.

Da mesma forma, até que ponto a própria tenista deseja “carregar” essa associação com a diversidade? É preciso estar atento ao que se coloca nos ombros dos atletas, ainda mais em início de carreira. Afinal, o foco deve ser na própria afirmação de Raducanu no tênis ou em qualquer causa que ela representa? Ídolos, como o heptacampeão de Fórmula 1 Lewis Hamilton, se sentem muito confortáveis em debater abertamente questões sociais, mas é importante lembrar que posicionamentos dessa natureza aconteceram de forma frequente somente após o piloto ter uma carreira sólida, em que não mais precisava provar nada a ninguém. Por outro lado, Simone Biles e sua experiência nos Jogos Olímpicos de Tóquio mostram o fardo de lidar com cobranças além da performance esportiva.

Esses são dilemas para os quais nem Raducanu tenha respostas ainda. No entanto, as redes sociais da tenista são um indício. Na “Bio”, a atleta apenas colocou as cidades que fazem parte da sua história: Londres (onde vive), Toronto (onde nasceu), Bucareste (origem do pai romeno) e Shenyang (lar da mãe chinesa). Nada de “tenista”; nada de “campeã de Grand Slam”. Talvez seja “apenas” isso que Raducanu espera: ser vista e respeitada como ser humano por onde passar pelo mundo, independentemente de ter títulos ou não nas quadras.

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“Paraibadas”

Repercutiu enormemente nos últimos dias na Paraíba, de onde escrevo, as declarações de uma subcelebridade brasiliense, dessas com muitos seguidores nas redes sociais, em que ela, ao se revoltar com um grave caso de violência contra a mulher, lembrava a origem do autor do crime e dizia que aquilo era coisa de “paraíba”.

A declaração, óbvio, não pegou bem. Repercutiu pela Paraíba e pelo Nordeste. Causou revolta.

Mas o pior foi a emenda que estava por vir.

Ao responder as críticas iniciais, disse que não fez nada demais. Que “paraíba” era uma mera força de expressão que vinha de “paraibada”, alcunha que segundo ela serviria para se referir a quem faz algum tipo de besteira. “Como por exemplo bater em mulher”, exemplificou.

Vocês entenderam bem, não foi? Para a tal subcelebridade, quem comete um crime faz, no fim das contas, uma “paraibada”. E ela dizia isso jurando que não estava cometendo nenhum tipo de preconceito.

Pois é justo nesse detalhe que eu queria me apegar no presente texto.

A facilidade que as pessoas têm de naturalizar a violência, de minimizar os efeitos do preconceito, de dizer que o alvo dos ataques é que estão exagerando. Ou, em sentido completamente oposto, as dificuldades dessas pessoas em entenderem que algumas expressões cotidianas, aparentemente livres de intencionalidades, tem uma carga terrível. Que, invariavelmente, leva ao preconceito – e à violência – para outros espaços.

Como, por exemplo, ao esporte.

Xenófobos, afinal, nunca se admitem como tal. E, sem se admitir, apenas disseminam o preconceito nas áreas mais distintas possíveis.

E, ao falar dessa questão numa perspectiva esportiva, é impossível não lembrar do famoso caso de Edmundo, à época jogador do Vasco da Gama. Tão longínquo, tão incrivelmente atual.

O ano era 1997. O jogo válido pelo Brasileirão daquele ano, entre o Vasco e o América-RN, era em Natal. O árbitro que acabou expulsando o jogador naquela partida, ainda nos primeiros minutos de jogo, era o cearense Francisco Dacildo Mourão. Mas, para Edmundo, tudo não passava indiscriminadamente de “paraibas”. Fazendo “paraibadas”, oras.

A frase ficou célebre:

– Viemos para a Paraíba e colocam um “paraíba” para apitar – disse ao microfone enquanto deixava o campo de jogo.

Momento em que Edmundo é xenofóbico durante entrevista. Fonte: Bol

Depois, quando a coisa se voltou contra ele, foi mais um a repetir o mantra dos preconceituosos:

– É que no Rio temos o costume de chamar os nordestinos de “paraíba”, só isso.

Só isso, pessoal.

Mas, não é só isso, a gente sabe bem.

Esse preconceito regional regular, naturalizado a ponto de não ser percebido pela maioria da população, gera consequências em todos os cenários possíveis.

Resulta, muitas vezes, numa precarizada cobertura esportiva daquilo que é praticado no Nordeste. Numa mudança de peso daquilo que é notícia para a chamada “grande mídia” – sugiro, a propósito, a leitura de novíssimo artigo de Ana Flávia Araújo (2021) sobre o tema. Numa Série A de Brasileirão pouco nordestina, numa Copa do Brasil cada vez mais anti-democrática e pouco interessada nos clubes fora do “eixo”, e por aí em diante.

Mas o preconceito não para por aí.

Apenas a título de ilustração, queria citar uma experiência que vivi durante minha pesquisa de mestrado, quando certa vez acompanhei torcedores do Botafogo da Paraíba a Ribeirão Preto, para um jogo da Série C do Brasileirão, que valia vaga na Série B do ano seguinte.

Imagine o bonito Estádio Santa Cruz completamente abarrotado.

Torcedores do Botafogo-PB no estádio Santa Cruz.

Milhares de torcedores do time do interior paulista circundando toda a arquibancada e espremendo cerca de 400 paraibanos num pequeno pedaço.

Cânticos, gritos, xingamentos, provocações ao longo de 90 minutos. Em quase todo o tempo, a mensagem era violenta, depreciativa, lembrando o lado supostamente negativo de ser “paraíba”. Falava-se de ignorância, de seca, de cabeças chatas, outros tantos estereótipos. Tudo sob o selo da “brincadeira”, da “simples expressão”, do “hábito”.

Pois não é brincadeira. Não é expressão. Não é modo de falar. É preconceito e violência que reverbera no cotidiano dos paraibanos e nordestinos. Por anos e anos a fio.

Nesta lógica, se me permitem parafrasear Miguel Vale de Almeida (2004) em sua reflexão sobre sinais diacríticos, o ser nordestino não é o outro lado da moeda de ser sudestino, por exemplo. É o lado pior, negativo, inferior, mais desvalorizado, enquadrado de forma genérica sob a pecha de “paraíba”. Numa homogenização, a propósito, que apaga toda riqueza e pluralidade da região.

Isso precisa ser combatido, repelido, ser tratado como de fato é: o mais puro e xenofóbico preconceito regional. Sem mais.


Referências

ALMEIDA, Miguel Vale de. O Manifesto do Corpo. Lisboa, Revista Manifesto, nº 5, pp. 17-35, 2004.

ARAÚJO, Ana Flávia Nóbrega. Até quando precisaremos salvar os times do sudeste e invisibilizar os nordestinos, PVC?. Ludopédio, São Paulo, 2021.

Artigos

Uma provocação: as cotas mudaram o ranking do Brasileiro?

Com o rebaixamento de Botafogo e Vasco, no Brasileiro de 2020, e o não retorno do Cruzeiro à primeira divisão em 2021, pela primeira vez, três das 12 equipes mais tradicionais do país [1] vão disputar, numa mesma edição, a série B. O fato de 1/4 dos integrantes do que chamamos aqui de tradicionais nacionalmente (TN) estarem excluídos, ao menos provisoriamente, da elite do futebol brasileiro ensejou diversas tentativas de explicação e hipóteses.

Má gestão e incompetência são as mais recorrentes. O diagnóstico tecnicista parece ganhar maior densidade explicativa quando contraposto a um reivindicado maior profissionalismo dos clubes que têm se mantido no topo do ranking do Brasileiro. Sem desconsiderarmos ambas, queremos analisar outro ângulo que parece negligenciado, principalmente pelo jornalismo esportivo: os efeitos da implosão do Clube dos 13, em 2011, com a consequente concentração das cotas de televisão em apenas dois clubes.

Fábio Koff, ex-presidente do Clube dos 13
Fonte: Trivela

Pergunta-se se o novo paradigma deflagrou um processo de reconfiguração do TN, instaurando novo patamar de competitividade, em que, da multiplicidade de candidatos a campeão nacional, tem-se padrão próximo ao da maioria dos principais campeonatos europeus, restritos a dois ou, no máximo, três concorrentes ao título. Para responder a essa hipótese, comparou-se a classificação nos noves Brasileiros seguintes ao fim do Clube dos 13, de 2012 a 2020 – o novo modelo de contrato da TV Globo só começou a vigorar em 2012 – com as nove edições imediatamente anteriores, de 2003 a 2011. Vamos nos abster de uma historiografia da criação e do fim do Clube dos 13 [2]. O que nos mobiliza aqui são as consequências, nos níveis de competitividade, dos times TN a partir da negociação individual da Globo com as equipes.

Optou-se por uma visão panorâmica, em que não se cotejou apenas os campeões do Brasileiro nos dois períodos. A comparação estendeu-se aos que, num intervalo e outro, alcançaram as quatro primeiras posições – o G4 – com vaga automática à Libertadores, competição que se tornou o principal foco de clubes, torcedores e imprensa. Analisou-se, ainda, os rebaixados à segunda divisão – o Z4 – o que, também, dá pistas sobre a reconfiguração em curso. Neste último recorte, subdividiram-se as equipes entre os 12 tradicionais nacionalmente (TN) e as não integrantes desse grupo, os tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

O primeiro intervalo de nove anos tem início em 2003, quando instaura-se o sistema de pontos corridos no Brasileiro. A partir dessa edição, os quatro primeiros classificados garantem vaga à Libertadores. Não se considerou, na comparação, nem o campeão da Copa do Brasil nem o da Sul-Americana, ambos com vaga à Libertadores – no caso da segunda apenas a partir de 2010. Por se tratar de competições que envolvem jogos mata-mata, estão sujeitas a maior imprevisibilidade, diferentemente do campeonato por pontos corridos, o que distorceria o objetivo aqui buscado.

Descartou-se, ainda, a inclusão, no comparativo, do quinto e do sexto lugares do Brasileiro, que, a partir de 2016, quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) ampliou o número de vagas na Libertadores para Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, asseguram vaga à fase eliminatória da Libertadores. Pensa-se que nossa opção metodológica dá uma percepção mais nítida sobre o caráter competitivo dos clubes, antes e depois, da implosão do Clube dos 13.

Cotas (quase) iguais no TN até 2011

Concentrou-se, basicamente, no valor pago pela TV aberta, ainda a principal plataforma do país e a mais valorizada por grande parte dos anunciantes de futebol. Da criação da Copa União, em 1987, até 2000, a cota da TV era dividida em partes iguais pelos filiados ao Clube dos 13, com quantias inferiores aos “convidados”. Segundo cálculo do jornalista Mauro Beting, citado no blog do jornalista Allan Simon, em 1987, cada integrante da associação recebeu 12,8 milhões de cruzados, equivalente a quase R$ 2 milhões em valores atualizados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre dezembro de 1987 e dezembro de 2019. (SIMON, 2000).

A partir de 2001, a entidade separou Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Vasco em um grupo que ganharia mais, e outro com Botafogo, Fluminense, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético-MG, Cruzeiro e Bahia, com valores menores. Outros ajustes ocorreram até que, em 2011, a última divisão antes do fim do Clube dos 13 contemplava quatro grupos distintos:

Fonte: LEITE JR (2015, P.61) [4]

Com tal distribuição de valores, tivemos, entre 2001 e 2010, seis clubes campeões: São Paulo (3 títulos), Corinthians (2), Flamengo, Fluminense, Cruzeiro e  Santos (1 cada). Classificaram-se para o G4, nesse novênio, 13 equipes: São Paulo (6 vezes); Santos e Cruzeiro (4 cada); Grêmio, Palmeiras, Internacional, Flamengo e Fluminense (3), Corinthians, Vasco, Athletico-PR, São Caetano e Goiás (1). Foram rebaixados à segunda divisão, nesses nove anos, quatro clubes do TN: Vasco, Corinthians, Grêmio e Atlético-MG – todos com uma única queda. Entre as equipes fora desse grupo, 25 caíram de série: Fortaleza, América-MG, Coritiba, Vitória, Avaí e Guarani (2 vezes cada); Bahia, Ceará, Portuguesa-SP, Sport, Santa Cruz, Paraná, Juventude, Figueirense, Ipatinga, Santo André, Náutico, Goiás, Barueri, São Caetano, Ponte Preta, Payssandu, Crisciúma, Brasiliense, Athletico-PR (1).

Vê-se, assim, uma briga bastante competitiva pelo título, com apenas dois clubes, São Paulo (3) e Corinthias (2), vencendo mais de uma vez a competição, e com seis campeões diferentes em nove anos. O G4 também mostra grande pluralidade: dez dos 12 TN – Botafogo e Internacional são as exceções – participaram, ao menos uma vez, em nove anos, da Libertadores, assim como três equipes TR: São Caetano, Athletico-PR e Goiás. Os clubes TN rebaixados no período – 4 – só caíram uma vez de divisão em nove anos, com todos retornando à série A após apenas um ano na B.

Com o fim do Clube dos 13, o contrato para o triênio 2012 a 2015 já ampliou consideravelmente a assimetria do pagamento pelas partidas na TV aberta:

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 83)

No triênio 2016 a 2018, a concentração se acentuou ainda mais.

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 84)
* Demais clubes: negociações anuais com a Globo, a depender da participação na Série A

Com isso, a partir de 2016, Flamengo e Corinthians elevam a diferença de R$ 30 milhões sobre o São Paulo para R$ 60 milhões. Em relação a Vasco e Palmeiras, avança de R$ 40 milhões para R$ 70 milhões. Sobre o Botafogo, que na transição do Clube dos 13 para as negociações individuais, vira sua cota avançar de R$ 16 milhões para R$ 45 milhões, a distância para o Flamengo saltou, de R$ 9 milhões em 2011, “para inacreditáveis R$ 110 milhões”. (LEITE JR, p 85).[5]

Nesse modelo, entre 2012 a 2020 temos cinco campeões brasileiros: Corinthians (3 vezes); Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo (2 cada) e Fluminense (1). Classificaram-se para o G4, no período, 12 equipes: Grêmio e Flamengo (5 vezes); São Paulo, Corinthians, Atlético-MG e Palmeiras (4); Internacional e Santos (3), Cruzeiro, Fluminense e Athletico-PR (2); Vasco e Botafogo (1). O número de rebaixados do TN avançou de quatro para cinco – Vasco (3 vezes); Botafogo (2); Internacional, Cruzeiro e Palmeiras (1 cada). Entre os clubes fora do TN foram 20: Avaí (3); América-MG, Vitória, Goiás, Figueirense, Coritiba e Ponte Preta, Atlético-GO e Sport (2); Crisciúma, Joinville, Santa Cruz, Paraná, CSA, Chapecoense, Athletico-PR, Ceará, Portuguesa-SP [6], Náutico e Bahia (1).

Vê-se que, entre um período e outro, o número de campeões recuou de seis para cinco. Para além dessa redução, parece mais significativo que, nos últimos seis anos, apenas dois times de São Paulo – Corinthians e Palmeiras (2 vezes cada) – e um do Rio – Flamengo (2) venceram o Brasileiro. Se na década anterior, houve seis campeões diferentes em nove edições, no intervalo seguinte, em seis dos últimos anos, foram só três os vencedores, sinalizando concentração rara na história do futebol brasileiro. O número de times no G4 caiu só de 13 para 12, sendo 11 do TN – a exceção foi o Vasco – contra dez no intervalo anterior. A estabilidade no número de frequentadores da Libertadores permite duas leituras complementares. Por um lado, à parte Flamengo e Corinthians, temos seis dos outros dez clubes do TN em ao menos três das nove edições – Grêmio (5) São Paulo, Palmeiras e Atlético-MG (4), Internacional e Santos (3). Isso pode indicar que, com a emblemática exceção do Palmeiras [7], os demais, sem condições de brigar pelo título, tiveram de se contentar com a ida à Libertadores.

Simultaneamente, o número de quedas de alguns integrantes do TN deu salto importante: de uma vez para três (Vasco) e de zero para duas (Botafogo). E, pela primeira vez desde o início dos pontos corridos, em 2003, um integrante do grupo – o Cruzeiro, campeão do primeiro ano da segunda década – não logrou retornar à série A no ano seguinte [8]. Também pela primeira vez, três TN – Cruzeiro, Botafogo e Vasco, 1/4 daquele universo – vão disputar a série B. Fora do TN, a presença no G4 caiu de dois para um, embora este – Athletico-PR – tenha se classificado duas vezes, sinalizando que o time paranaense pode ter encontrado um modelo competitivo superior ao de outros mais tradicionais, mas insuficiente para disputar, e vencer, o Brasileiro.

Expostos os dados comparativos, nos limitamos a deixar uma provocação à reflexão dos que pensam o futebol como manifestação cultural e identitária para além do clubismo: seria a gestão explicação suficiente e única para a nova configuração de competividade no TN?



[1] Considera-se aqui como tais 12 clubes: quatro do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco); quatro de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos); dois de Minas Gerais (Atlético-MG e Cruzeiro); e dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional). Serão doravante nomeados tradicionais nacionalmente (TN), em contraponto aos tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

[2] Para uma análise detalhada do Clube dos 13 ver SANTOS, 2019; LEITE JR, 2015 e CHRISTOFOLETTI, 2015.

[3] Por estar na segunda divisão, recebeu apenas 50%.

[4] Os clubes que não faziam parte do Clube dos 13 tinham que negociar diretamente com a entidade e não recebiam mais do que 45% do valor do Grupo 3.

[5] Em 2019, um ano após o Grupo Turner, via Esporte Interativo, entrar na disputa da TV fechada, a Globo mudou a fórmula de cotas da TV aberta: 40% dos valores passaram a ser distribuídos igualmente pelos clubes, 30% pela colocação no campeonato e 30% pelo número de partidas exibidas. Embora essa mudança aparentasse reduzir as assimetrias, a Globo ampliou o número de partidas do Corinthians na TV aberta e, aproveitando o ano excepcional do Flamengo, priorizou transmitir os jogos deste time via pay-per-view. Com essas duas opções, elevou ainda mais a diferença dos valores pagos à dupla. O detalhamento das consequências dessa mudança ampliaria excessivamente o espaço desta comunicação. Consideramos que os números já expostos já dão conta do foco aqui escolhido.

[6] O rebaixamento da Portuguesa-SP, em 2013, ocorreu por fatores extracampo. Sob a alegação de que, quase ao fim do último jogo – 0 x 0 contra o Grêmio –, a equipe paulista colocou em campo o meia Heverton, suspenso por duas partidas, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu a Lusa com a perda de quatro pontos (três da partida disputada mais o ponto do empate). Com isso, a equpe caiu de 48 pontos, no 12º lugar, para 44 pontos, no 17º lugar, salvando o Fluminense, que, com 46 pontos, ocuparia essa posição, sendo rebaixado no campo. O STJD também retirou quatro pontos do Flamengo, por escalar o lateral esquerdo André Santos, suspenso por um jogo. Com isso, o rubro-negro caiu de 49 pontos, na 11º posição, para 45 pontos, na 16ª colocação.

[7] Com uma injeção de € 24 milhões (cerca de R$ 153 milhões) desde 2015 até 2021, o time paulista passou a deter um dos maiores patrocínios do mundo, atrás apenas dos espanhóis Barcelona e Real, do alemão Bayern de Munique, “do novo rico francês Paris Saint-Germain e do top 6 inglês: Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham”.

[8] Sobre a crise financeira do Cruzeiro

Referências bibliográficas

CHRISTOFOLETTI, Danilo Fontanetti. O fim do Clube dos 13: Como a Rede Globo controla o futebol brasileiro. São Paulo, Monografias Brasil Escola UOL, 2015.

LEITE JR., Emanuel. Cotas de televisão “apartheid futebolístico” e risco de “espanholização”. Recife, Ed. do Autor, 2015.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol. Curitiba: Appris, 2019

SIMON, Allan. Brasileirão: como o dinheiro da TV foi distribuído entre os fundadores do C!3 desde 2001, São Paulo: https://allansimon.com.br/2020/01/12/brasileirao-como-o-dinheiro-da-tv-foi-distribuido-entre-os-fundadores-do-c13-desde-2001 acessado in 12/05/2021

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Eventos

Seminário #Maraca70 é sucesso online de público

Mais de duas mil visualizações de vídeos – é esta a marca que o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) chegou em menos de 24 horas do término de seu  Seminário #Maraca70, no Youtube. Com uma programação que reuniu acadêmicos consagrados, jornalistas da grande imprensa e pesquisadores de todo o país (nos Grupos de Trabalho), o Seminário #Maraca70 fica na história do LEME como um evento de acolhimento, aprendizagem e escuta, em meio a tantas adversidades.

As manhãs dos dias 5, 6 e 7 de outubro contaram com a apresentação de trabalhos em três GTs distintos, com reuniões via Meet. Nessas discussões acadêmicas, conseguimos reunir pesquisadores de diversos estados do país, com destaque para a forte presença do Nordeste.

Na noite do dia 5, Vanessa Riche (jornalista e apresentadora do Fox Sports) e Carol Barcellos (jornalista e repórter da TV Globo) abriram o evento com a mesa “Narradoras do espetáculo” (sob mediação de Leda Costa). Além de abordarem as suas relações com o Maracanã, Vanessa e Carol falaram das dificuldades de serem jornalistas em uma editoria na qual ainda há poucas mulheres e lembraram também pontos importantes de suas carreiras, como a cobertura do ônibus 174, realizada por Vanessa, e uma reportagem no Nepal, para o Planeta Extremo, feita por Carol.

No dia seguinte, de tarde, tivemos a mesa “O Maracanã na literatura e na arte”. Luiz Antonio Simas, historiador e autor do livro Maracanã: Uma biografia, Bernardo Buarque de Hollanda, professor da Escola de Ciências Sociais da FGV, e Gisella Moura, mestre em História Social e Cultural pela UFRJ e autora do livro O Rio Corre Para o Maracanã, com a mediação de Alvaro do Cabo, doutor em História Comparada pela UFRJ, abordaram aspectos históricos do estádio, bem como suas representações em livros, músicas, filmes e outros produtos culturais.

Para terminar o segundo dia de evento, à noite, a tabelinha ficou por conta de Edson Mauro (radialista e narrador esportivo da Rádio Globo/CBN) e Luis Roberto (jornalista e narrador da Globo/SporTV). Com mediação de Ronaldo Helal, coordenador do LEME, tivemos uma noite de muitas memórias afetivas do Maracanã, no qual parecia estarmos assistindo a uma mesa redonda de domingo.

Já na quarta (07), último dia do evento, pesquisadores consagrados se reuniram para a mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”. Vivian Fonseca (historiadora e professora da UERJ e da FGV), diretamente da França, nos contou sobre as intervenções realizadas no estádio, sob o ponto de vista do patrimônio cultural. Arlei Damo (antropólogo e professor da UFRGS) abordou as simbologias presentes na construção dos estádios ao longo da história, com foco na integração com o público, e Antônio Jorge Soares (professor titular da UFRJ) nos brindou com reflexões próprias de um intelectual dos esportes, que também frequenta, desde a infância, o Maracanã. A mesa foi mediada por Filipe Mostaro, doutor em Comunicação pela UERJ e pesquisador do LEME.

Para fechar o Seminário com chave de ouro, às 18h30, Juca Kfouri (escritor, jornalista e autor do Blog do Juca) e Marcelo Barreto (jornalista, editor-chefe e apresentador do Redação SporTV), sob a mediação do professor Ricardo Freitas, vice-diretor da FCS/UERJ e coordenador do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (Lacon), conversaram sobre suas experiências nas dependências do estádio enquanto jornalistas e torcedores.

Produção bibliográfica

LEME lança novo livro organizado por seus pesquisadores

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) acaba de lançar um novo livro. Organizado pelo coordenador do grupo, Ronaldo Helal, e pelo pesquisador do LEME, Filipe Mostaro, o livro Narrativas do Esporte na Mídia – Reflexões e Pesquisas do LEME traz uma coletânea de dez artigos, todos assinados por mestres, doutores, pós-doutores e pesquisadores que fizeram ou fazem parte do Laboratório.

O livro começou a ser pensado em 2017, quando houve o convite de Helal e Filipe para os autores fazerem parte da coletânea. Com uma boa troca de passes e um time em sintonia, o resultado final ficou pronto agora, em 2020. Trazendo diferentes recortes dentro do universo da relação esporte-mídia, os artigos apresentam um conjunto de pesquisas denso, fruto de um trabalho sério de cada pesquisador, que contribuem para um debate mais profundo sobre esse campo, ajudando a compreender e ressignificar o papel do jornalismo esportivo na produção de narrativas.

Os textos fazem um percurso que vai desde o início do século até os dias atuais, passando por diferentes meios de comunicação e mostrando a intensa relação do esporte com a mídia. O time que compõe o livro é formado por Ronaldo Helal, Fausto Amaro, Francisco Brinati, Alvaro do Cabo, Juan Silvera, Leda Costa, Carol Fontenelle, Irlan Simões, Anderson Gomes, Tatiane Hilgemberg e Filipe Mostaro.

O lançamento presencial já está acertado com a editora Appris, mas ainda não tem data para acontecer, por conta da pandemia e das consequentes medidas de restrição.

Enquanto isso, os interessados podem comprar o livro direto no site da editora.

Serviço

Título: Narrativas do Esporte na Mídia – Reflexões e Pesquisas do LEME

Editora: Appris

Ano de Lançamento: 2020

Organizadores: Ronaldo Helal e Filipe Mostaro

Preço sugerido para venda: R$66,00 (versão impressa); R$29,00 (versão digital)

Sumário

  1. Futebol, mídia e nação: um breve relato do campo acadêmico
    Ronaldo Helal
  2. O olhar da imprensa carioca sobre o esporte olímpico nacional na década de 1910
    Fausto Amaro
  3. Maracanazo e Mineiratzen: imprensa e representação da Seleção Brasileira nas      derrotas das copas do mundo de 1950 e 2014
    Francisco Brinati
  4. Futebol força x futebol arte. O debate em torno do “estilo” brasileiro no mundial da Argentina em 1978
                Alvaro Vicente do Cabo
  5. O mito Pelé: nacionalismo, fanatismo ou religião, fatos bons para pensar
    Juan Silvera
  6. Quem diz não ao futebol moderno. Juventude, mídia, contracultura e imagens da resistência
                Leda Maria da Costa
  7. Futebol e consumo: hábitos e paixões de jovens da Baixada Fluminense
    Carol Fontenelle e Ronaldo Helal
  8. A invenção do “Nordestão” e o futebol-arte: investigações a partir do jornal dos      sports
    Irlan Simões e Anderson dos Santos
  9. Jogos Paralímpicos de 2012: a perspectiva individual dos atletas paralímpicos e          a sua representação na mídia
                Tatiane Hilgemberg
  10. De “professor” a “comandante”: os rumos narrativos sobre os técnicos da Seleção Brasileira de futebol na primeira metade do século XX
    Filipe Mostaro