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Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

Em julho de 1985, duas partidas de futebol deram aspecto bizarro ao Campeonato Brasileiro daquele ano. A primeira partida foi disputada em 18 de julho, na cidade de Pelotas. A outra ocorreu três dias depois, em 21 de julho, na cidade de Porto Alegre. No dia 18, enfrentaram-se Brasil de Pelotas e Flamengo. No dia 21, foi a vez de Internacional contra Bangu.

Ninguém imaginava que dois clubes pequenos, um de subúrbio e outro do interior, pudessem chegar à fase semifinal. Depois daquelas duas partidas, o inimaginável tornou-se realidade. E isso faz daquele campeonato um dos mais interessantes da história do futebol brasileiro.

A primeira partida (dia 18): Brasil de Pelotas x Flamengo

O Flamengo, naquele mês de julho de 1985, estava em estado de euforia. Zico, o maior ídolo da história do clube, havia voltado ao clube após passar dois anos no Udinese, da Itália.

O clube disputava a terceira fase da Taça de Ouro (nome dado ao Campeonato Brasileiro daquele ano) e, no dia 14 de julho, venceu o Bahia no Maracanã por 3 a 0, com um gol de Zico. Era o seu gol de número 691. A revista Placar registrou:

Na volta do craque, que chega perto do 700º gol, o Fla reencontra o antigo fascínio (Placar, n. 791).

A mesma revista, naquela mesma edição, referiu-se assim ao Brasil de Pelotas: “Uma zebra rubro-negra?” (Placar, n. 791).

A pergunta era pertinente. Apenas o Brasil poderia superar o Flamengo no grupo F da terceira fase. Caso acontecesse, desclassificaria o clube carioca e passaria à semifinal.
Seria, realmente, uma zebra das mais impressionantes.

Depois de vencer o Bahia, o Flamengo viajou para o sul do país onde enfrentaria justamente o Brasil de Pelotas na penúltima rodada do grupo F. O clube do Rio de Janeiro estava um ponto à frente do adversário.

Um dado mostra bem a distância que havia entre o gigante e a zebra naquela disputa. A folha salarial do Brasil de Pelotas totalizava 70 milhões de cruzeiros. Menos do que ganhava apenas Zico (75 milhões).

O Flamengo era o favorito, claro. Mas no jogo do dia 18 esse favoritismo se dissipou no ar. O Brasil se defendeu bem, neutralizou Zico e, quando teve a chance de marcar gols, não desperdiçou. Venceu por 2 a 0.

“Flamengo perde de 2 a 0 e está quase eliminado”, noticiou o Jornal do Brasil no dia seguinte. O jornal também falou da euforia dos torcedores do Brasil: “Toda a cidade de Pelotas vibrou e festejou intensamente a vitória” (Jornal do Brasil, 19.07.1985).

No dia seguinte, os torcedores do Brasil faziam graça pelas ruas de Pelotas:

“Rumo a Tóquio?”, saudava um. “Rumo a Tóquio”, respondia o outro (Placar, n. 792).

Aquela vitória foi decisiva. O Brasil de Pelotas passou a liderar o grupo F e lhe faltava apenas mais uma partida. Bastava preservar a sua posição. O jogo seguinte seria em Salvador contra o Bahia, um time desclassificado e que estava em último lugar no grupo.

Depois do jogo do dia 18, o Flamengo ainda nutria esperanças de se classificar. Zico, logo após a derrota em Pelotas, disse a um jornalista TV RBS: “Eu acho que se hoje tava tudo errado, quem sabe domingo as coisas não podem virar totalmente favoráveis ao Flamengo?”.

O Flamengo precisava vencer o Ceará no Maracanã e torcer por uma derrota ou empate do Brasil no jogo contra o Bahia. Antes da partida no Maracanã, no vestiário do Flamengo havia “a impressão de total confiança” e “esperava-se goleada” (Placar, n. 792).

O Flamengo empatou em 2 a 2 com o Ceará. O Brasil de Pelotas, por sua vez, venceu o Bahia em Salvador. E assim o pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul chegou à semifinal do campeonato.

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Brasil de Pelotas X Flamengo (fonte: YouTube).

A segunda partida (dia 21): Internacional x Bangu

No grupo H da terceira fase, Internacional e Bangu chegaram à última rodada invictos. O Bangu era considerado um clube pequeno. Havia sido campeão carioca apenas duas vezes (em 1933 e em 1966). No Campeonato Brasileiro, seu melhor desempenho o levara às quartas-de-final em 1982, sendo desclassificado nessa fase pelo Corinthians. Já o Internacional havia sido campeão nacional em 1975, 1976 e 1979.

Naquela rodada final do grupo, os dois times fariam uma partida decisiva no dia 21 de julho. Havia uma pequena vantagem para o Bangu, que tinha 8 pontos, enquanto o Internacional tinha 7. Quem vencesse a partida, passaria à semifinal. Em caso de empate, o classificado seria o Bangu.

O Bangu estava há 25 jogos sem perder. Era uma das surpresas do campeonato. Seu patrono, Castor de Andrade, era um bicheiro conhecido e poderoso. Estava convicto de que seria campeão brasileiro e dizia isso abertamente.

O clube de Porto Alegre também estava confiante. Seus atletas tinham certeza de que, na partida decisiva, teriam o apoio de uma “imensa torcida” no Estádio Beira-Rio. O centroavante Marcelo disse à imprensa que o ataque do time havia desencantado e que já estava superada a “síndrome dos gols perdidos”. E disse mais: “O toque de bola, que é o forte do Bangu, não vai ser aplicado contra nós” (Jornal do Brasil, 21.07.1985).

Enfrentar o Internacional no Estádio Beira-Rio é dificílimo. Ainda mais para um clube pequeno. Mas o Bangu não se intimidou. Jogou bem, venceu por 2 a 1 e se classificou. Após o jogo, Moisés, o técnico do Bangu, desabafou: “Veja o Inter, posou de favorito e se quebrou, mesmo porque os favoritos éramos nós, que liderávamos a tabela” (Placar, n. 792).

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Time do Bangu com o patrono Castor de Andrade (fonte: site Trivela).

A semifinal impensável

A semifinal dos favoritos seria Flamengo X Internacional. Dois clubes que já haviam sido campeões brasileiros seis vezes.

Mas, naquela segunda-feira, dia 22 de julho de 1985, o país amanheceu com uma semifinal impensável no Campeonato Brasileiro: Brasil de Pelotas X Bangu. Um clube que nunca havia sido campeão estadual e outro que era tratado como o quinto ou o sexto melhor da sua cidade.

Quem imaginou que isso pudesse acontecer? Bangu e Brasil de Pelotas fazem as semifinais da Taça [de Ouro] e um deles já está garantido na próxima Libertadores (Placar, n. 792).

Aquele campeonato já podia ser considerado único. Esdrúxulo.

Alguns chegaram a dizer que aquilo já era resultado da Nova República, o novo regime político do país que iria transformar a nação por inteiro.

O Atlético Mineiro foi o último favorito a cair. Na semifinal, foi desclassificado pelo Coritiba, que tornou-se o primeiro clube paranaense a chegar em uma final do Campeonato Brasileiro.

Na outra semifinal (a impensável), o Bangu venceu o Brasil de Pelotas duas vezes: 1 a 0 em Porto Alegre e 3 a 1 no Rio de Janeiro.

A história da final é mais conhecida. Foi disputada em jogo único, no Maracanã. Uma partida emocionante. Terminou empatada em 1 a 1. Na disputa por pênaltis, o Coritiba venceu por 6 a 5.

Uma parte da imprensa se mostrou insatisfeita com aquela exótica semifinal. A final entre Bangu e Coritiba também não foi muito bem vista. Alguns jornalistas e comentaristas achavam péssimo que os grandes clubes fizessem enormes investimentos e depois fossem desclassificados em razão de apenas uma ou duas derrotas (isoladas e acidentais). Defendiam a adoção de um modelo que dificultasse ao máximo (e até evitasse) esses “acidentes”. Um modelo que desse maior garantia aos grandes investimentos. O interessante é que essa argumentação pró-investimentos (pró-capital) partia de jornalistas e comentaristas que se consideravam de “esquerda”.

Os dirigentes dos grandes clubes, obviamente, concordavam com aquela argumentação. E resolveram agir dois anos depois. Em 1987, houve o grande levante do chamado Clube dos Treze em defesa de um novo formato para o Campeonato Brasileiro e de um novo modelo geral para o futebol brasileiro. Modelo que se consolidou ao longo dos anos seguintes.

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Será que podemos torcer e jogar futebol como mulheres?

Nesta semana de Dia Internacional da Mulher, ter espaço para falar no blog do Leme me leva a um lugar não apenas de pesquisadora, mas de mulher e de torcedora.  Por, desde pequenas, gostarmos de futebol, temos nosso cotidiano repleto de violências simbólicas. Nossas opiniões são, constantemente, invisibilizadas e colocadas em cheque; nosso amor questionado; nossos corpos, trajados com as camisas dos clubes, sexualizados nas ruas e nos estádios.

Durante minha pesquisa de mestrado, realizada por meio da metodologia de pesquisa-ação, no Colégio Estadual Dom Walmor (Nova Iguaçu), pude perceber o quanto o universo de meninos e meninas, quando tratamos de futebol, ainda é tão diferente. Aproveito a oportunidade para abordar parte do meu trabalho e, de certa forma, tentar contribuir para a reflexão sobre o tema.

“Minha mãe não me deixava jogar futebol, queria que eu fizesse balé, fiz sete anos e não gostava” – a fala da entrevistada, de 17 anos, durante a pesquisa, nos buscou a tentar entender o porquê de uma mulher jogar futebol ainda ser carregado de preconceito. Recorreremos a um breve entendimento das diferenciações do que é pertencente ao gênero masculino e do feminino na sociedade.

Desde a infância, ainda é comum meninas ganharem brinquedos como kits de cozinha e bebês que necessitam passar por cuidados, enquanto homens ganham bolas de futebol, carrinhos e uniformes de clubes. Sendo assim, desde pequenos há um processo de diferenciação daquilo que é considerado como apropriado ao universo de homens e de mulheres. Como explica Faria (2009), no esporte, a generificação – expressa na distinção de modalidades femininas e masculinas e nas relações que envolvem a prática – é constituinte.  Corroborando com Dagmar Meyer observamos que:

O conceito de gênero engloba todas as formas de construção social, cultural e linguística implicadas com os processos que diferenciam mulheres de homens, incluindo aqueles processos que produzem seus corpos, distinguindo-os e separando-os como corpos dotados de sexo, gênero e sexualidade. O conceito de gênero privilegia, exatamente, o exame dos processos de construção dessas distinções biológicas, comportamentais ou psíquicas percebidas entre homens e mulheres; por isso, ele nos afasta de abordagens que tendem a focalizar apenas os papéis e funções de mulheres e homens para aproximar-nos de abordagens muito mais amplas, que nos levam a considerar que as próprias instituições, os símbolos, as normas, os conhecimentos, as leis e políticas de uma sociedade são constituídas e atravessadas por representações e pressupostos de feminino e masculino e, ao mesmo tempo, produzem e/ou ressignificam essas representações (MEYER, p. 16, 2003).

Sendo assim, nossa entrevistada ter praticado sete anos de balé, mesmo querendo jogar futebol, poderia estar sinalizando o quanto os conceitos de gênero e dos símbolos (balé para mulheres, futebol para homens) estão cristalizados na sociedade. Além disso, a entrevistada nos contou que, quando criança, ganhou festa da Barbie, enquanto o irmão teve, por duas ocasiões, festa do Flamengo. Esta generificação também pode ser encontrada na própria escola, onde professores encontram dificuldades para montarem times de mulheres de diversas modalidades, como o futebol, por exemplo.

Nas aulas de Educação Física não tem time feminino. São poucas as meninas que jogam, na minha sala só três jogam. As meninas não sabem nem correr direito, não tem nem como elas jogarem bola. Eu sei correr porque na escola onde eu estudava, no Fundamental, eu era estimulada, tinha campeonato de futebol feminino, minha turma era muito organizada e eu comecei a jogar no segundo ano do Ensino Fundamental. A escola incentivou desde o começo. (ENTREVISTADA. Entrevista concedida à Carol Fontenelle. Nova Iguaçu, 16 ago. 2019).

O fato da entrevistada relatar que muitas mulheres na escola não sabem correr e ela se sentir diferenciada, passa pelo processo de aprendizado na escola que ela estudou anteriormente e lá pôde desenvolver essa habilidade. Sendo assim, podemos suspeitar que a prática de desenvolvimento do corpo da mulher para jogar futebol não foi explorada nas outras escolas que as demais meninas passaram, já que é tarefa difícil para o professor de Educação Física respeitar as diferenças entre meninos e meninas e ao mesmo tempo proporcionar que ambos tenham o desenvolvimento de suas capacidades motoras de forma igualitária. É bem provável que isto tenha ocorrido também pelas construções sociais que durante muito tempo tiveram apoio de teorias biológicas do corpo da mulher[1], a exemplo de sua fraqueza para realização de atividades físicas, e que muitos professores possam estar ainda presos a estas amarras da própria cultura. Como aponta Daolio (1997), as diferenças motoras entre meninos e meninas, são, em grande parte, construídas culturalmente e, portanto, não são naturais, no sentido de serem determinadas biologicamente e, consequentemente, irreversíveis.

Fonte: unidadedofutebol.com.br

Devemos levar em consideração, que, como explica Judith Butler (2003), o “corpo” aparece como um meio passivo sobre o qual se inscrevem significados culturais. Dessa forma, podemos inferir que utilizar da Ciência para justificar o fato da mulher não poder realizar determinadas práticas esportivas é usar o corpo dentro de um significado cultural já estabelecido.

Vale contar que, em 1941, é promulgado o decreto-lei n. 3.199, que até o ano de 1975 estabeleceu as bases de Organização dos Desportos em todo o país. O artigo 54 faz referências à prática do esporte pelas mulheres.  “Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos (CND) baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”. Ainda em 1941[2], o general Newton Cavalcanti apresentou ao CND algumas instruções que considerava necessárias para a regulamentação da prática dos esportes femininos. Com a afirmativa de que lutas, futebol, rugby, water-polo e pólo são esportes violentos, as mulheres foram proibidas de realizar estas práticas esportivas. Em 1965, um outro parecer da CND deu instruções às entidades desportivas sobre a prática de esportes pelas mulheres, englobando não somente o futebol de campo, mas também o de salão e o de praia[3].

Além da ideia de que o corpo feminino era frágil para executar tais atividades físicas, havia uma preocupação com a masculinização do corpo da mulher e com a redução de sua fertilidade, afinal, ela deveria ter como função principal procriar. Mas podemos inferir também que a mulher não era aceita em um ambiente constituído socialmente como masculino.

Além do machismo e do moralismo que essas ditas preocupações com o bem-estar das brasileiras não conseguem esconder, elas revelam que, na verdade, o grande problema dizia respeito não ao futebol em si, mas justamente à subversão de papéis promovida pelas jovens que o praticavam, uma vez que elas estariam abandonando suas “funções naturais” para invadirem o espaço dos homens. Não por acaso, o foco do debate centrava-se nos usos que as mulheres faziam de seu próprio corpo, daí derivando-se o tema da maternidade (FRANZINI, 2005, p.321).

Apesar da proibição, muitas mulheres realizavam a prática esportiva clandestinamente. Eram consideradas grosseiras e sem classe. Já as mulheres da elite, assistiam aos jogos, pois o esporte foi um evento na sociedade, até 1920. Em 1979, as mulheres passaram a ter o direito de praticar o futebol[4], mas o esporte não foi federado, ou seja, o CND ainda não havia oficializado a prática, o que só vai acontecer em 1983[5].

Apesar dos 40 anos de aprovação da lei, mulheres continuam sofrendo preconceitos durante a prática esportiva, como aponta nossa entrevistada:

Eu jogo sempre futebol com os meninos na quadra da escola. Eles jogam a bola forte, não aliviam não. Só um aluno tinha preconceito comigo, disse que meninas não podiam jogar futebol porque eles queriam jogar sério. Só que a gente também estava jogando sério. E falei para ele: tá incomodado, se retira que a gente não vai sair daqui não (ENTREVISTADA. Entrevista concedida à Carol Fontenelle. Nova Iguaçu, 16 ago. 2019).

Assim sendo, segundo o colega da entrevistada, jogar sério é para homens. Como explica Busso e Daolio (2011), jogar com meninas representa para meninos submeterem-se a uma condição de nível inferior em relação à “rapidez, velocidade e força” de seus jogos. Corroborando Fernandes Soares, Mourão, Chagas Monteiro e Silva dos Santos (2016), no contexto específico do futebol, a teia de significados generificada é materializada em condutas viris, como agressividade controlada, controle da dor, protagonismo nas competições, robustez corporal evidenciada nos formatos dos corpos, força, agilidade, técnicas corporais adequadas ao desempenho esportivo, superação dos oponentes, liderança, controle das emoções, supressão do choro, heterossexualidade compulsória e heteronormatividade[6].

Sendo assim, ainda de acordo com a afirmação da entrevistada, jogar sério, é como se os meninos tivessem que jogar com mais cuidado, menos vontade, devido à presença de uma mulher, porque ali é um espaço para homens e ela poderia se machucar. Esta atribuição de não ser igual entre si no saber jogar está sustentada em aprendizagens de meninas e meninos fora da escola e passar por preconceitos como este podem fazer com que até meninas que gostariam de jogar, sequer tentem realizar esta prática esportiva.

Como afirma Goellner (2000), criado, modificado, praticado, comentado e dirigido por homens, o futebol parece pertencer ao gênero masculino, como parece também ser seu o domínio de julgamento de quem pode/deve praticá-lo ou não. É quase como se à mulher coubesse a necessidade de autorização masculina para tal. No caso de nossa entrevistada, ela sabe que não precisa da autorização de ninguém. A quadra é dos alunos e ela joga o que quiser, porque tem o entendimento que não há distinção do seu corpo e dos corpos dos meninos na prática esportiva.

Ser frágil e, portanto, não apta a jogar futebol não foi o único preconceito sofrido pela entrevistada. Primeiramente, vale ressaltar que, quando indagada sobre se teria sofrido preconceito, ela afirmou que não. Sendo assim, perguntamos se ela nunca recebeu críticas por jogar futebol e novos elementos foram revelados:

Alguns meninos da minha rua acham que quem gosta de futebol é sapatão, não os que cresceram junto comigo. Mas, mesmo assim, eu jogo futebol com eles na rua. Jogo na escola, na rua, em qualquer lugar. Me chamam e eu vou. Eu jogo na lateral e os meninos me chamam pela internet para ir jogar (ENTREVISTADA. Entrevista concedida à Carol Fontenelle. Nova Iguaçu, 16 ago. 2019).

Outrossim, podemos ainda inferir que, mesmo incomodada com o fato de colocarem a sua sexualidade à prova, jogar futebol é mais importante que talvez discutir para que não a rotulem, já que parece que existe um corpo ideal para a prática de futebol e que ainda há regras de comportamento e beleza que determinam o que é típico do “masculino” e do “feminino”. Como conta Pisani (2018), em seu trabalho de campo para o doutorado em Antropologia Social, pela Universidade de São Paulo, as jogadoras são vítimas de comentários repletos de preconceito, nos quais há a utilização de adjetivos pejorativos que as comparam com homens, desqualificando-as:

Acompanhava, no ano de 2014, um campeonato de futebol de mulheres no qual a ASAPE[7] participava. Na partida que valia vaga para as semifinais, me deparei com uma atleta da equipe adversária que raspara os cabelos. Aproximei-me dessa jogadora antes mesmo de a partida iniciar, perguntando-lhe se poderia tirar uma fotografia dela, pois havia adorado o seu corte de cabelo, e a experiência em campo me dizia que ela também seria alvo de comentários ao longo da partida. Assim que Sofia entrou em campo, quatro homens se aproximaram da grade e começaram a gritar para ela: “É muito macho para ser mulher”; “machona, sapatão” (PISANI, 2018, p. 161).

Fonte: cbf.com.br

Apesar do preconceito, parece que há uma tendência na mídia de veiculação de notícias mais amenas em relação às mulheres na prática do futebol profissional. Em 2019, a TV Globo transmitiu a Copa do Mundo e a seleção brasileira foi desclassificada nas oitavas de final. Não obstante ao desempenho ruim, as jogadoras foram, por muitas vezes, valorizadas durante a transmissão que contou ainda com música tema da Copa, na qual podemos ver o refrão: “Qual é, qual é? / Futebol não é pra mulher?/ Eu vou mostrar pra você, mané. / Joga a bola no meu pé”[8]. A música de Cacau Fernandes (jogadora em atividade) e Gabi Kivitz, (ex-atleta), tal qual o comportamento de nossa entrevistada, sobressaem como tentativas de quebras de preconceito na prática. Por sua vez, a narrativa da TV Globo pode ainda contribuir como mais uma “voz” nesta luta de igualdade de direitos. Vale destacar que, de forma geral, houve mudança narrativa das mídias tradicionais, que parecem ter descoberto o talento das jogadoras brasileiras, como conta a professora Leda Costa (2014):

O talento atribuído às jogadoras é um fator relevante na imprensa brasileira, no tocante à Seleção feminina e, principalmente quando se trata de Marta. Além disso, exaltar a habilidade das jogadoras demonstra que o preconceito contra atletas do sexo feminino tem perdido terreno desde a descoberta que as mulheres também são capazes de produzir um grande espetáculo de futebol em campo.[9] (COSTA, 2013, p. 87, tradução nossa).

Podemos ainda dizer que a maior visibilidade das mulheres no futebol – em grande parte por esta “descoberta de talento” – contribuiu para que fossem criados produtos esportivos e licenciados com as marcas dos clubes específicos para elas, como: vestidos, camisas femininas, tops, chinelos, tênis e regatas. Afinal, agora as mulheres podem ver, na mídia com maior regularidade, outras mulheres utilizando roupas de clubes e se sentirem incluídas nesta possibilidade de consumo. Apesar disso, elas continuam não sendo atravessadas pelo consumo do futebol da mesma maneira que os homens. Primeiramente, porque, como já relatado, elas, em grande parte, não são ensinadas a gostar do futebol desde cedo e, da mesma forma que o talento está sendo descoberto pela mídia, elas estão despertando para o consumo deste esporte.

Por mais que as mulheres tenham interesse pelo futebol, acreditamos que ele é um interesse em construção, pois a tendência é, com a realização de campeonatos de mulheres e veiculação dos jogos na TV, algumas meninas percebam que futebol é assunto para elas, seja na prática ou no consumo. Afinal, como explica Lovisolo (2001), o preconceito se instala quando a crença perdeu suas razões, mas se sustenta num processo circular de repetição que, geralmente, envolve a reiteração da própria emoção que suscita o rememorar e falar sobre a crença. Ainda segundo o autor, para modificar uma crença, transformada em preconceito, é necessário muito trabalho. Podemos dizer, assim, que a escola pode colaborar para que estas crenças e preconceitos sejam minorados.

Como pudemos observar, a entrevistada precisa passar por muitos obstáculos para praticar futebol: família, escola, grupo de amigos – todos apresentaram preconceito, indo contra a sua prática. Talvez, se estimulada, pudesse, quem sabe, ter seguido a carreira de atleta, mas, diante de tantas intempéries, seu caminho parece ser outro: “Já pensei em seguir carreira jogando bola quando eu era pequena. Agora quero terminar o meu curso de Enfermagem e depois fazer faculdade de Direito, quero ser delegada”, conta.

Assim, podemos dizer ainda que a escola pode ser um dos lugares a começar a quebrar paradigmas do que é socialmente construído somente para mulheres ou somente para homens, bem como estimular meninas a seguirem seus sonhos, mesmo sabendo das dificuldades. Afinal, como afirmam Furlan e Lessa dos Santos (2008), o esporte, muitas vezes, se traduz como importante elemento da visibilidade da mulher e da sociedade, já que muitos são os nomes que se destacaram como talentos esportivos resultantes das lutas ao longo de anos por conquistas no espaço marcadamente masculino. Ainda segundo as autoras, as políticas de incentivo ao esporte feminino ainda são menores que para o masculino, sendo mais evidente no caso do futebol.

Notas de Rodapé

[1] Para entender um pouco mais sobre a história social do corpo das mulheres, ler: PERROT, Michelle. Os silêncios do corpo da mulher. In: MATOS, Maria Izilda Santos de; SOIHET, Rachel. O corpo feminino em debate. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

[2] Para mais informações ler: <https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-3199-14-abril-1941-413238-publicacaooriginal-1-pe.html>.

[3] Para mais informações ler: <http://cev.org.br/biblioteca/deliberacao-n-7-2-agosto-1965/>.

[4] Para detalhes, ler: GOELLNER, Silvana Vilodre. Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades. Revista brasileira de Educação Física e Esporte, v.19, n. 2, São Paulo, jun. 2005, p.143-151.

[5] Para saber mais informações, ler: SOUZA, Maria Thereza Oliveira. Da visão que eu tenho, do que eu vivi, não sei muito no que acreditar, atletas da seleção brasileira feminina e as memórias de um futebol desamparado. 2017. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Federal do Paraná, Setor de Ciências Biológicas. Programa de pós-graduação em Educação Física. Paraná.

[6] Para mais informações ler: LOURO, Guacira Lopes. Heteronormatividade e homofobia. In: JUNQUEIRA, Rogério Diniz (Org.). Diversidade sexual na educação: problematizações sobre homofobia nas escolas. Brasília: Ministério da Educação/UNESCO, 2009.

[7] ASAPE refere-se à Associação Atlética Pró-Esporte, agremiação dedicada à prática do futebol de mulheres, localizada em Guaianases, São Paulo.

[8] A letra completa da música pode ser encontrada em: MENDONÇA, Renata. Jogadoras lançam ‘pagode do futebol feminino’ para embalar mulheres na Copa. Disponível em: <https://dibradoras.blogosfera.uol.com.br/2019/06/06/jogadoras-lancam-pagode-do-futebol-feminino-para-embalar-mulheres-na-copa/>. Acesso em: 16 jan. 2020.

[9] O texto em língua estrangeira é: The talent attributed to the players is a relevant fator in the Brazilian press’, representation of the women´s national team, and especially Marta. What is more, exalting the players´skill demonstrates that prejudice against female athletes has lost ground since the discovery that women are also capable of producing a great soccer spectable on the field.

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Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes

Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa.

A final da Copa do Mundo da Fifa 2019, entre Liverpool x Flamengo, expôs uma curiosa, e interessante, disputa de narrativas entre o discurso, quase uníssono da imprensa, e o das mídias sociais. Embora marcado, também, pela (saudável) jocosidade das torcidas, as narrativas fora do campo da imprensa apresentaram um fator que parece indicar uma inversão de papéis. Enquanto, não raro, o discurso que exaltava a participação da agremiação carioca soava clubístico, com direito a contagem regressiva do voo, internautas faziam jornalismo, ocupando papel que deveria ser o da imprensa. Entendida essa prática como a busca de contrapontos, a indicação de contrastes no tratamento dedicado ao Flamengo e a outros clubes brasileiros que participaram do mesmo evento em outras edições e a exposição de contradições importantes – eventualmente constrangedoras – entre a fala de veículos e jornalistas e os fatos.

Para colocar a cobertura em perspectiva, eventualmente, foi necessário recuar no tempo, para tentar mostrar como, já na cobertura da conquista da Libertadores, havia fortes contrastes com a gramática dedicada, por exemplo, ao título do mesmo torneio pelo Vasco, em 1998. Assim, por exemplo, em 23 de julho daquele ano, o jornal O Globo anunciava, sem qualquer ilustração, numa discreta coluna de rodapé de página: “Vasco está na final da Taça Libertadores”. O mesmo jornal, 21 anos depois, manchetou, em cinco colunas: “Goleada histórica põe Fla na final da Libertadores”. A matéria era acompanhada por uma foto, em quatro colunas, do Gabigol celebrando um dos dois gols que marcara na vitória de 5 x 0 sobre o Grêmio. No caso do Vasco, a classificação para a final veio após empatar, na Argentina, em 1 x 1, com o River Plate, a quem vencera por 2 x 1, em São Januário.

O tratamento distinto provoca maior estranheza por tratar-se de dois times do Rio, mesma praça do jornal responsável pelos dois títulos. Talvez por isso, embora a comparação entre as duas edições tenha partido da internet, sua forte repercussão nas mídias sociais acabou reverberando em programas como o “Redação SporTV”, que exibiu a cobertura realizada pelo jornal da mesma empresa do programa. O jornalista André Rizek, que comanda o “Seleção SporTV” – umas das principais mesas esportivas da emissora –, foi ao Twitter para chamar a atenção para a contradição exibida pelo programa, e protestou: “É ultrajante a diferença no tratamento dispensado aos dois clubes, em situações muito parecidas”.

Paulista radicado há alguns no Rio, Rizek, em outras ocasiões, já manifestara seu descontamento com o que considera a assimetria do tratamento da imprensa carioca em relação ao Flamengo e aos outros três times grandes do Rio: Botafogo, Fluminense e Vasco. Nas suas palavras: “Tem a cultura que o Flamengo tem de ser soberano. Para o Flamengo ser soberano, tem de ridicularizar os outros. Os feitos dos outros são menos comemorados, são menos vibrados, menos enaltecidos.”

Glamourização da derrota x Orgulho do torcedor

Apesar do papel relevante que ocupa no jornalismo esportivo do Rio, Rizek, no entanto, parece ser voz quase isolada no questionamento a esse comportamento. Ao menos, esse parece ser o entendimento das vozes que se levantaram nas mídias sociais para se contrapor aos jornalistas que enalteceram o vice-campeonato do Flamengo, em contraposição ao tratamento dispensado a outros clubes em situações semelhantes. Em junho de 2019, quando o  Corinthians foi eliminado pelo Flamengo, nas quartas de final da Copa do Brasil, também por 1 x 0, o portal Terra exaltou a atuação do time paulista, apesar da derrota: “O dia em que o Corinthians ganhou sem ter vencido. No jogaço contra o Flamengo, Timão lava a alma da torcida e traz esperanças de dias melhores”. No Twitter, Mauro Cezar Pereira, da ESPN Brasil, reproduziu o tweet do Terra, mas encabeçado pela crítica: “Glamourização da derrota.”

O mesmo jornalista, no entanto, tuitou sobre a derrota do Flamengo para Liverpool: “Grande partida do Flamengo, com coragem, com a bola e, enquanto tinha gás, chegou a dominar a partida contra um campeão europeu com força máxima”. E decretou: “Vitória justa do Liverpool, atuação digna do Flamengo. Orgulhoso deve ficar o torcedor”. O tweet foi amplamente replicado nas redes sociais, ao lado do texto anterior de Pereira sobre o Corinthians, acrescido, porém, do mesmo cabeçalho anterior: “A glamourização da derrota”.

Fonte: https://www.terra.com.br/

Exemplos equivalentes repetiram-se à profusão nas redes sociais, antes, e, principalmente, após a vitória do Liverpool. Vários comparavam a exaltação ao “melhor vice-campeão sul-americano contra um europeu” ao tratamento desdenhoso destinado ao Vasco, contra o Real Madri, em 1998. Naquela ocasião, o jornal “Extra” titulou: “Flamengo em festa com o vice do Vasco”. Vinte e um anos depois, o mesmo veículo manchetou: “Orgulho do tamanho do mundo”.

No primeiro caso, além de introduzir a comemoração do rival no título, a matéria era ilustrada pela foto de um jogador do Vasco com as mãos na cabeça, expressando dor. No segundo, a fotografia exibia atletas do Flamengo aplaudindo a própria atuação e a torcida. Como é pouco provável que os rivais estivessem tristes com a derrota rubro-negra, os editores do jornal, dificilmente, poderiam se escudar na objetividade para justificar a ausência da jocosidade clubística que abrigara no outro caso. E, como recordam lances editados e exibidos na internet, o time de São Januário fez um jogo muito mais parelho – para muitos, superior – com o rival espanhol, como mostram as inúmeras chances claras de gol. Já o goleiro do Liverpool, Alisson fez uma solitária defesa ao longo dos 120 minutos, entre o tempo regulamentar e a prorrogação.

Ainda que toda a narrativa das mídias sociais exibida nesse episódio tenha em seu DNA a paixão clubística, como mostra a sua forte replicação por torcedores não rubro-negros, ela se distingue da jocosidade das torcidas, também fortemente presente, aí do lado dos rivais e dos torcedores do Flamengo – neste caso, brincando com a clara superioridade do clube em relação aos concorrentes exibida ao longo do ano passado.

Diferentemente desta, cujo principal combustível é a paixão clubística e não tem qualquer compromisso com fatos, apuração, contexto, as críticas jornalísticas deixam o jornalismo esportivo numa posição incômoda. Ao compararem – e comprovarem – como os mesmos veículos e jornalistas agem de formas assimétricas diante de fatos semelhantes quando vivenciados por atores diferentes, elas expõem uma subjetividade, que, ao menos em tese, deveria limitar-se ao universo dos torcedores, em contraponto, à objetividade reivindicada pelo jornalismo.

É sabido – e admitido pelo próprio universo jornalístico – que as editorias de esporte são consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais. Mas, justamente, por esse relaxamento, também são um território privilegiado para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem da objetividade jornalística, mas, exatamente, para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Analogias entre as preferências esportivas exibidas nessas editorias podem ser encontráveis, por exemplo, nas seções de política e economia, mostrando que, se os interesses das empresas podem ser mais explicitados nas primeiras, também comparecem nas outras duas, ainda que de formas menos identificáveis pelo público leigo nesses temas. Eles estão presentes no tratamento distinto destinado a políticos e partidos em temas equivalentes. Como exemplo pouco sutil: o mensalão do PT x o mensalão mineiro – enquanto este envolvesse um partido, o PSDB, e não um estado como um todo.

O mesmo vale, nas páginas de economia, para a cobertura sobre as mudanças na Previdência. No vasto espaço destinado ao tema, o “Jornal Nacional”, principal telejornal do país, não ouviu um só entrevistado contrário à redução dos direitos à aposentadoria. Ou seja, o famoso ouvir os dois lados, um dos cinco procedimentos estratégicos que servem à busca pela objetividade jornalística. Sendo os demais a técnica do lead; o recurso a provas auxiliares; o uso de aspas e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro da primeira em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda (TUCHMAN, 1993).

Se no passado, a subjetividade das editorias esportivas contava com maior complacência do público – ou, ao menos, este tinha canais menos estridentes para manifestar divergências – as redes sociais mostram que, quando recorrem à mesma metodologia reivindicada pelo jornalismo, podem produzir contrapontos objetivos às narrativas das empresas que vão muito além da jocosidade das torcidas. A análise desse fenômeno pode ser uma pista e um incentivo para que possa ser estendido às outras editorias.

 

Referências

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 2002.

TUCHMAN, Gaye. “A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas”. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.

Artigos

Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e ponto central de inúmeros agentes econômicos que utilizam-no como instrumento para vender tudo que for possível. Dessa forma, o funcionamento do futebol encontra-se cada vez mais atrelado as dinâmicas do capitalismo e as configurações da globalização mundial.

Fonte: gabrieldantas-futebol.blogspot.com

O aumento dos fluxos de capitais, da transnacionalização das marcas/empresas, das relações de trabalho e das tecnologias de comunicação também influenciaram a (re)organização dos clubes e das ligas de futebol ao longo da segunda metade do século XX e início do século XXI.

O avanço do campo econômico sobre o campo futebolístico pode ser visto na paulatina migração desse das páginas esportivas para os cadernos de economia. Além da crescente preocupação dos analistas e cronistas em comentar aspectos financeiros e mercadológicos dos clubes, tais como balancetes e arrecadações. Diante disso, muitas vezes achamos que estamos lendo um encarte econômico com notícias sobre compra, venda, balanços de fluxo de caixa, contratos, projeções financeiras e lucros líquidos.

O futebol tornou-se uma mercadoria global interpenetrada cada vez mais pelo capitalismo neoliberal. Os investimentos do capital privado aumentaram significativamente, a partir da década de 1970, com o esforço da FIFA, através de seu presidente João Havelange (1974-1998), para potencializar a capacidade mercantil do futebol (ROCHA, 2013). Nessa nova lógica entre campo esportivo e campo econômico tornou-se cada vez mais comum a entrada de investidores privados nos clubes de futebol, principalmente na Europa e Estados Unidos, e em muito menor número na América do Sul. Os exemplos mais extremos desse processo são aqueles em que tradicionais clubes são comprados por investidores estrangeiros ou por empresas, como é o caso do Chelsea na Inglaterra ou até mesmo o Bragantino no futebol brasileiro.

A aproximação cada vez maior entre economia e futebol, permite com que as estruturas econômicas que funcionam no mercado global, passem a influenciar o funcionamento das relações dentro desse esporte. Isso pode ser visto no aparecimento de “clubes-globais”, que assim como as cidades-globais, são aquelas extrapolam suas fronteiras enquanto cidades, regiões e até mesmo países.

Fonte: gazetaesportiva

Os clubes-globais são nódulos de fluxos econômicos, humanos, midiáticos e simbólicos globais. São clubes que tem torcedores espalhados pelo planeta, jogadores provenientes de diferentes lugares do mundo, que estão presentes na mídia em diferentes países, que concentram capital que circula globalmente, que atingem a imaginação de uma população planetária. Dentro desta lógica que podemos entender a transformação de alguns grandes clubes do mundo em “marcas globais”.

A nova lógica do futebol, marcada pelo aprofundamento da sua mercantilização aumentou enormemente a circulação dos jogadores entre os clubes, e fez com que estruturas do campo econômico fossem apropriadas no campo futebolístico, tais como as relações entre centro e periferia na divisão internacional do trabalho (DIT). Dessa forma, a periferia do mercado capitalista global, localizada principalmente nos países do hemisfério Sul e produtora basicamente de commodities para os países centrais do hemisfério norte, também se vê presente nas relações comerciais do futebol internacional.

Nessa relação centro-periferia do futebol, os países europeus com destaque para Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália e Portugal seriam o centro, ou seja, donos das principais ligas do mundo, com maior poder aquisitivo e visibilidade, tendo a necessidade de obter boa matéria-prima para manutenção dos seus campeonatos. Em compensação, à periferia, marcada principalmente pelos países latino-americanos e pelos países africanos caberia o fornecimento de boas matérias-primas de jogadores para abastecer as melhores ligas. Temos, então no Brasil, a formação de um exército de jogadores (“pés-de-obra”) voltados para abastecer as ligas da Europa, fazendo com que os clubes passem a atuar numa lógica próxima a de empresas capitalistas. Como consequência desse processo temos o surgimento de clubes cujo objetivo central é o lucro econômico, auferido com a venda de jogadores, e não as vitórias em campeonatos.

A transferência de jogadores brasileiros para o exterior, no entanto, não surgiu apenas com o aprofundamento da mercantilização do futebol. Durante todo desenvolvimento desse esporte no Brasil, ocorreu a migração de atletas para outros países. Autores como Rial (2009), Agostino (2002), Alvito (2006) e Damo (2007) evidenciam desde 1920 a saída de atletas brasileiros para países como Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. Vários motivos são listados para essa saída, entre os quais podemos citar: A possibilidade de auferir ganhos financeiros como o futebol diante de novos mercados nos quais o futebol já era profissionalizado. Além disso, as relações de descendência de alguns jogadores brasileiros com a Itália e a Espanha também facilitavam essa migração.

Os autores também evidenciaram que apesar de casos emblemáticos como a ida de Domingos da Guia, Fausto e Zizinho para outros mercadores do futebol, o período entre 1920 e 1960 não mostrou uma saída massiva de atletas do futebol do país. Esse êxodo de brasileiros começa a ocorrer principalmente a partir da década de 1980, quando as principais ligas nacionais na Europa, iniciam uma reestruturação e profissionalização, a reboque das mudanças produzidas por João Havelange na FIFA a partir década de 1970.

Com campeonatos mais organizados, maiores patrocínios e melhores salários, o que se verifica é a saída em massa de atletas do Brasil para a Europa. Ainda mais se lembrarmos que durante a década de 1980, o futebol brasileiro se encontrava numa grave crise de organização, investimentos e gestão, que culminaria com a ameaça de não realização do campeonato nacional de 1987 (HELAL, 1997).

Fonte: telam.com.ar

Entre as décadas de 1980, 1990 e os anos 2000, o número de jogadores profissionais que saíram do país rumos aos mais diversos mercados internacionais ultrapassou a marca de 15 mil indivíduos, sendo que desde 1998 até o ano de 2018, esse número mantinha-se crescente de um ano para o outro (ALVITO 2006; FIFA; 2018). Entre os principais destinos de brasileiros para o exterior temos a liga portuguesa em primeiro lugar, seguida da liga Ucraniana, e depois as ligas italiana e espanhola.

Cabe ressaltar que a lei Bosman de 1995 ajudou no aumento das transferências de brasileiros para o exterior, especificamente a Europa, pois permitiu a absorção de uma demanda reprimida por atletas de fora da Europa. Através dessa lei, todo jogador de futebol nascido na Europa dentro das fronteiras da União Europeia passou a ser considerados trabalhador comunitário. Isso fez com que esses indivíduos não fossem mais considerados aos olhos das federações nacionais como estrangeiros. Dessa forma, as vagas para extracomunitários puderam ser ocupadas com outros atletas provenientes principalmente da América do Sul e da África.

Dentro desse universo de aumento da saída de jogadores durante as décadas de 1980 e 1990, podemos perceber que aquelas que movimentavam mais dinheiro e chamavam mais atenção da mídia nacional e internacional eram daqueles jogadores considerados consagrados no futebol brasileiro. Nesse esteio temos a saída de Zico para Udinese, Leovegildo Júnior para o Pescara, Falcão para a Roma e tantos outros na década de 1980, assim como as saídas de Edmundo para a Fiorentina, de Romário e Ronaldo Fenômeno para o PSV da Holanda na década de 1990.

As saídas de jogadores brasileiros nessas duas décadas possuem algumas características em comum, como, por exemplo, a idade normalmente entre 20 e 26 anos de idade, a projeção que esses atletas possuíam no cenário nacional e os valores pagos para adquiri-los, normalmente muito mais baixos do que os atuais, mesmo descontando a inflação. Segundo dados da FIFA sobre as transferências de jogadores nas décadas de 1980 e 1990, a média de idade dos atletas que saiam do país era de 25,4 anos de idade (FIFA, 2007).

A dinâmica de transferências de atletas nessas duas décadas parece se basear principalmente na qualidade enxergada pelos clubes, especificamente os europeus sobre a técnica e a habilidade dos jogadores, sendo a idade um elemento secundário. Diante disso, entre a crônica esportiva dos anos 1990 e 2000, verificou-se que o futebol brasileiro perdia substancialmente seus melhores atletas para o futebol europeu e esses jogadores muitas vezes regressavam apenas em idade mais avançada, após os 30 anos para encerrarem suas carreiras no Brasil.

O funcionamento do mercado de pés-de-obra, no entanto, vem demonstrando uma significativa mudança nos padrões de transferências e no desejo dos grandes clubes europeus pelos atletas brasileiros, a saber, a contratação de jogadores cada vez mais jovens e por cifras cada vez maiores. As saídas recentes de Reinier, Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Paulinho, Arthur refletem uma tendência que a própria FIFA já vem identificando no mercado de transferências entre Brasil e Europa, que é a saída cada vez maior de atletas com menos de 20 anos de idade. Segundo dados da entidade máxima do futebol, entre 2011 e 2017 a média de idade dos jogadores de futebol que saíram do Brasil foi de 22,8 anos de idade. Quando comparamos essa média com aquela existente entre as décadas de 1980 e 1990, podemos verificar uma queda de quase 3 anos de idade.

A diminuição da média de idade dos atletas que saem do país, evidencia também uma outra tendência pontuada pelo aumento do número de atletas com menos de 20 anos que saíram do país. Segundo os dados da FIFA o número de saídas nessa situação teve um aumento de 192%, pulando de 151 em 2011 para 290 em 2017 (FIFA, 2018). Diante desse fato, percebe-se que o monitoramento dos principais clubes europeus passou a ser prioritariamente nas categorias de base e criando um cenário no qual os principais talentos vão direto para o exterior ou, na melhor das hipóteses, jogam poucos jogos nos seus clubes brasileiros antes de se transferirem.

 

Fonte: df.superesportes.com.br

Entre os principais argumentos utilizados pelos clubes europeus para a compra de jogadores cada vez mais jovens, está a preocupação com a finalização da formação desses atletas na Europa e segundo a filosofia de futebol desses clubes nos quais são contratados. Além disso, em alguns casos é citada a formação tática deficiente realizada em geral pelos clubes brasileiros nas suas categorias de base.

A preferência dos clubes europeus por um nicho cada vez mais jovem de atletas e o cenário de antecipação etária da venda de jogadores brasileiros traz à tona uma nova realidade no futebol nacional caracterizada pelos “veteranos de 24 anos”. Esses atletas, apesar de ainda terem de pouca idade, já não são vistos como atraentes para os grandes clubes europeus. Nessa nova dinâmica do mercado de transferências, a despeito de temporadas eloquentes no futebol brasileiro, não lhes resta muitas alternativas que não sejam a permanência no futebol nacional, ou a ida para mercados alternativos como o asiático, o oriente médio ou clubes periféricos da Europa.

Atualmente 4 casos que exemplificam bem esse cenário são aqueles dos jogadores Dudu do Palmeiras, Everton “Cebolinha” do Grêmio e de Gabriel Barbosa e Bruno Henrique do Flamengo. Esses atletas mesmo com temporadas contundentes nos últimos 3 anos, não receberam propostas dos principais clubes do futebol Europeu. Um dado que os une é o fato de todos possuem entre 23 e 29 anos de idade.

A nova configuração do mercado, com a escolha dos grandes clubes europeus pela compra dos jogadores ainda nas categorias de base das equipes brasileiras suscita debates sobre a dificuldades de manter os jovens talentos no Brasil, com um plano de carreira esportiva atraente e a possibilidade de jogar campeonatos de alto nível durante o ano inteiro. Esse cenário também externa uma preocupação com a identificação cada vez menor que esses jogadores mantem com seus clubes formadores e que a torcida mantém com eles. No entanto, o interesse europeu pelos atletas menores de 20 anos e, consequentemente, sua saída mais precoce para o exterior também vem criando um cenário novo no Brasil, pontuado pela permanência de atletas de alto nível, que sem ofertas atrativas do mercado europeu preferiram continuar no país. A esses casos se juntam aqueles, nos quais jovens promessas foram para o velho continente muito cedo, mas sem corresponder as expectativas acabaram voltando ao Brasil com idade inferior aos 25 anos e com performances boas ao longo das temporadas, como é o caso do jogador Gabriel Barbosa, Gerson, entre outros.

A nova realidade no mercado de transferências foi compreendida por alguns clubes brasileiros que passaram a priorizar investimentos nas categorias de base e a vender suas jovens promessas cada vez mais cedo e por valores vultuosos ao mesmo tempo em que procuram repatriar jogadores brasileiros com idades inferiores a 30 anos de idade. Se durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, esses clubes vendiam para a Europa principalmente seus jogadores de destaque ainda na faixa dos 26 anos para contratar brasileiros veteranos que vinham encerrar suas carreiras no Brasil, hoje a dinâmica não é mais primordialmente essa conforme mostram os dados de transferências da FIFA (2018).

A partir dessas observações podemos compreender que as demandas do mercado europeu por jogadores brasileiros mudaram das décadas de 1980, 1990 e 2000, quando comparadas com os números posteriores a 2010. Nesse processo, alguns clubes brasileiros entenderam o novo funcionamento do mercado e procuraram se adaptar a nova realidade, vendendo seus atletas mais jovens e buscando novos jogadores brasileiros na Europa com idades inferiores a 30 anos de idade. Como consequência, podemos verificar a também uma mudança no perfil dos jogadores que regressam do exterior.

Referências:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

ALVITO, M. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização, IN:Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, v. 41, p.451-474, 2006.

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo&Rithschild Ed./Anpocs, 2007.

FIFA. Market Insights: Brasil protagonista del mercado de fichajesinternacionales. Julio de 2018. Disponível em: http://financefootball.com/2018/08/01/fifa-tms-market-insights-big-5-mid-summer-report/

FIFA. Transfers of athletes in the 1980s and 1990 to Europe. 2007 Disponível em: https://resources.fifa.com/image/upload/global-transfer-market-report-1980-1990 men.pdf.

HELAL, R. Passes e Impasses: futebol e cultura de massa no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

RIAL, C. S. “Por que todos os ‘rebeldes’ falam português?” A circulação de jogadores brasileiros/sul-americanos na Europa, ontem e hoje. Antropologia em Primeira Mão, Florianópolis, n. 110, 2009.

ROCHA, L.G.B.S.P. No coração de Havelange: Memória, biografia e narrativa simbólica de um livro sobre o maior dirigente de futebol do século XX. Esporte e Sociedade. Niterói, n 21, p.1-33,2013.

 

 

Artigos

A representação midiática do CSA na Série A do Brasileiro

Tratar da representação midiática do futebol no Brasil possibilita diferentes perspectivas de comentários e análise. Mas há quase que um consenso que os principais veículos de comunicação que se propõem a ser nacionais partem de uma base do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, onde se encontram as sedes das redes nacionais de TV aberta e fechada, rádio e internet. Isso é reproduzido quando o assunto é o futebol.

Enquanto torcedor do CSA, time que teve acessos consecutivos da Série D, em 2016, até jogar a Série A em 2019, os efeitos da falta de difusão e, em alguns casos, da desinformação sobre o clube sempre me chamaram atenção. Este texto se trata mais de um ensaio sobre o que acompanhei enquanto torcedor que pesquisador – se é possível separar as coisas – da volta de um time alagoano à Série A após mais de três décadas.

Foto do autor (CSA 3-2 Jaciobá, 2020)

Campo midiático

Como Vasconcelos (2014) aponta ao estudar a formação dos torcedores mistos no Nordeste, o capital econômico foi fundamental para o desenvolvimento das forças que têm maior destaque na disputa do futebol enquanto campo social, com maior capital político sobre a organização do esporte profissional, maior difusão pela mídia (capital midiático) e maior capital simbólico (com mais títulos visibilizados e maior torcida).

Em artigo escrito com Irlan Simões (2020) para um livro do LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) a ser publicado este ano, analisamos a representação do Nordeste no Jornal dos Sports, dos anos 1940 até os anos 1970, com um dos casos estudados sendo as publicações sobre os times nordestinos no período de 1968 a 1970, quando foi realizado o Torneio Norte-Nordeste. Da observação inicial, surgiram 5 categorias: resultados de jogos; notícias sobre a parte burocrática do torneio; dificuldades de participação e comentários de dirigentes; notas curtas sobre jogos; ligação com os “grandes” do país, com ex-jogadores ou amistosos; e matérias que trazem o pitoresco (fait divers, na linguagem jornalística).

Da década de 1970 até agora, o futebol brasileiro e o nordestino, em especial, passaram por diversas fases, com destaque para a organização das divisões a partir dos anos 1990, que se consolida com a criação da Série D em 2009. O torneio regional que nos interessava naquele momento foi criado em 1994, com edições contínuas de 1997 a 2003. A Copa do Nordeste, com 7 estados nordestinos representados – menos Piauí e Maranhão, situados na região Norte na “geografia” da CBF – foi o único sucesso de público, renda e competitividade entre os regionais disputados no período, mas interrompido pela falta de êxito dos demais, especialmente o Rio-São Paulo de 2002.

Nos últimos sete anos, coincidindo com o ressurgimento da Copa do Nordeste e a sequência de boa representação nordestina na Série A (4 equipes nas edições de 2018 a 2020), passou-se a tentar fazer uma melhor cobertura, para além do pitoresco, sobre a região, mas o destaque é para o que é produzido e reverberado nas mídias alternativas, especialmente as mídias sociais e os podcasts. Ainda assim, distante da repercussão da cobertura sobre os times do eixo Rio-São Paulo, com alguns casos que reproduzem elementos do “pitoresco” (gol do Campeonato Piauiense para o “Inacreditável F.C” do Globo Esporte) ou da referência à equipe “maior” (a utilização de “time do Ceni” em muitas manchetes de noticiários esportivos para tratar do Fortaleza em 2018 e 2019).

Importante ao retratar o caso do CSA é que mesmo dentro do Nordeste a repercussão é diferente. Ao contrário do que vemos em novelas e outros produtos, o desenvolvimento social, cultural e econômico de cada local é diferente, incluindo aí as divisões dentro dos Estados, cujo domínio da capital tende a ser maior – considerando o peso de Campina Grande “contra” a capital João Pessoa, na Paraíba. Sotaques e demais representações fenotípicas são diferentes, sem uma “cara de nordestino”; do mesmo jeito que, dentro do desenvolvimento desigual e na lógica da interferência do capital econômico no futebol, na estrutura deste esporte.

Maiores PIB (Produto Interno Bruto) da região, o futebol também se desenvolve inicialmente em Bahia e Pernambuco, e os clubes desses Estados conseguiram furar o eixo do futebol para conquistar títulos nacionais de primeiro escalão, casos da Série A e da Copa do Brasil. Desta forma, mesmo nas formas de representação midiática sobre o Nordeste, as equipes de Bahia e Pernambuco, especialmente, têm maior reverberação midiática da cobertura esportiva nacional para além do pitoresco.

Foto do autor (Corinthians 1-0 CSA, 2019)

Casos jornalísticos sobre o CSA

Com o CSA da 4ª rodada da Série B até a 37ª no grupo de classificados para a Série A, sendo vice-campeão ao final, o clube começou a chamar a atenção de torcedores de outros times e da mídia nacional. Em 8 de setembro de 2018, Alex Sabino e Luiz Cosenzo (2018) publicaram na Folha de S. Paulo a reportagem “Ascensão do CSA e queda do Joinville passam por participação de mecenas”, comparando os seguidos acessos do time alagoano com o que ocorreu com a equipe catarinense que subiu à A em 2015 e caiu para a D, cheio de dívidas, em 2018. A reportagem escuta o presidente azulino Rafael Tenório, que assume que colocou dinheiro do próprio bolso nas Séries D e C, mas que o clube se sustentava a partir de então.

Na véspera do Natal daquele ano, Diogo Magri (2018) publica no El País a reportagem “CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas”. Relação política com presidente que sofreu impeachment, mas que comandou o clube do final dos anos 1970 ao início dos 1980 – o filho no início dos anos 2000 –, com o fato de Rafael Tenório, em sua primeira tentativa eleitoral, ter se tornado suplente do senador Renan Calheiros, conhecido nacionalmente.

Se o Joinville chegou até a ganhar prêmio de consultoria esportiva em 2015 por “eficiência na gestão do futebol”, como inicia a matéria da Folha, o histórico do CSA era justificado pelo “mecenas” e suas relações políticas. Essas duas reportagens destacam muito bem as expectativas de cobertura midiática com o holofote da Série A.

A eliminação na primeira fase da Copa do Brasil para o Mixto e erros de planejamento que fizeram com que o clube contratasse 46 novos jogadores em 2019, tornaram o rebaixamento à Série B como algo certo, com algumas pessoas nas mídias sociais cravando que seria a pior campanha da história dos pontos corridos – do outro time nordestino fora de Bahia, Pernambuco e Ceará a jogar o torneio neste período, o América-RN, em 2007 – e, durante o torneio, que o CSA perdera a chance de se estruturar, dada a quantidade de contratações.

Em julho de 2019, após a derrota contra o Corinthians por 1 a 0, em São Paulo, o ex-jogador Muller comentou no programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, que o CSA era “medíocre”, perguntando “o que o CSA veio fazer na Série A?”. Ele se retratou e disse que o problema foi a forma que a equipe alagoana atuou, mas serve como exemplo do que apontamos acima (ROMA; MÉLO, 2019). O CSA venceria o Corinthians na partida de volta por 2 a 1, mas com áudio do Premiere mais alto para a torcida adversária que o que se ouviu na transmissão da TV Globo.

As derrotas para o campeão Flamengo foram em jogos disputados (2 a 0 e 1 a 0). No primeiro, realizado no dia 12 de junho em Brasília, porque o CSA vendeu o mando de campo por R$ 1,5 milhão, gerou repercussão na imprensa nacional. Ainda que eu tenha sido contrário, a reação não foi a mesma que a da venda de mando por Vasco (contra o Corinthians, para Manaus, em 4 de maio) e por Botafogo (contra o Palmeiras, para Brasília, em 25 de maio). Pesava, no caso da TV fechada, a disputa entre times paulistas com o Flamengo pelo título, o que poderia interferir na tabela.

Além da melhora dentro de campo, com possibilidades matemáticas de se manter na Série A até a penúltima rodada do torneio, outro fator do capital simbólico que permeia o futebol no Brasil fez com que a opinião pública mudasse o direcionamento sobre o time: equipes “grandes” na beira do rebaixamento. De um lado, o Fluminense, que caiu em 1996, mas permaneceu na A em 1997; em 2000, graças à Copa João Havelange, não jogou a Série B; e, em 2012, graças aos erros de escalações de Portuguesa e Flamengo não foi rebaixado. Do outro, o Cruzeiro, uma das poucas equipes que não havia jogado a Série B. A torcida “anti” se juntou a uma das equipes que poderia empurrar outras. Cresceu ainda a admiração pela festa da torcida azulina no Trapichão – mesmo que já fosse algo comum até em outras divisões nacionais.

O CSA cairia, com 32 pontos, em 18º lugar, à frente de Chapecoense e Avaí, que em momento algum tiveram comentários tão negativos quanto os nossos. Pese-se o carinho à Chapecoense após o acidente de 2016, mas o clube atrasou pagamentos e o presidente precisou se afastar em agosto 2018 para focar na busca de recursos (DEBONA, 2019). Enquanto isso, em novembro, o “mecenas” do CSA anunciava que as dívidas trabalhistas do clube haviam sido pagas (PRESIDENTE, 2019).

O Centro de Treinamento Gustavo Paiva estava sendo reestruturado até abril de 2019, quando se confirmou que o bairro em que fica, o Mutange, era um dos que estavam afundando devido à extração de sal-gema pela Braskem. A “falta de oportunidade” nada mais era que a impossibilidade de investir no aprimoramento de algo que deve ser abandonado nos primeiros meses de 2020 por questões de segurança (NASCIMENTO, 2019). Isso também não foi tão comentado na mídia nacional, como o que afeta milhares de famílias de 4 bairros de Alagoas desde o primeiro semestre de 2018, talvez pela força financeira da empresa pertencente ao grupo Odebrecht.

Foto do autor (CT Gustavo Paiva, 2019)

Considerações

A desinformação é um fenômeno contemporâneo marcado pela dúvida até mesmo de fatos comprovados cientificamente, com a “verdade” voltada ainda mais aos efeitos gerados pelas mensagens e por quem a fala que à comprovação sobre o que se diz. Problema grave é quando isso vem por quem deveria prezar pelo que é apresentado.

Num ano em que o Twitter, incluindo alguns jornalistas, acusaram perseguição de canais esportivos ao Flamengo, briga dentro do eixo político, econômico e simbólico que demarca o futebol brasileiro, este ensaio mostra que havia quem deveria reclamar mais de diferentes construções narrativas formadas pela cobertura esportiva nacional.

Referências

DEBONA, Darci. NSC Total, Florianópolis, 23 ago. 2019. Disponível em: <https://www.nsctotal.com.br/noticias/presidente-da-chapecoense-pede-afastamento-temporario&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

MAGRI, Diogo. CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas. El País Brasil, São Paulo, 24 dez. 2018. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/18/deportes/1545165765_862713.html&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

NASCIMENTO, Jean. Direção do CSA anuncia saída do Mutange após 97 anos e transferência para Nelsão. Gazetaweb, Maceió, 21 nov. 2019. Disponível em: <https://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2019/11/rafael-tenorio-confirma-saida-do-centro-de-treinamentos-do-mutange-em-dezembro_91055.php&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

PRESIDENTE do CSA anuncia fim da dívida trabalhista do clube: “Quitamos 100% do passivo”. Globoesporte.com, Maceió, 14 nov. 2019. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/al/futebol/times/csa/noticia/presidente-do-csa-anuncia-fim-da-divida-trabalhista-do-clube-quitamos-100percent-do-passivo-em-quatro-anos.ghtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

ROMA, Denison; MÉLO, Victor. CSA diz que comentário de Müller sobre o clube foi preconceituoso, e ex-jogador pede perdão. Globoesporte.com, Maceió, 16 jul. 2019. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/al/futebol/times/csa/noticia/csa-diz-que-comentario-de-muller-sobre-o-clube-foi-preconceituoso-e-ex-jogador-pede-perdao.ghtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

SABINO, Alex; COSENZO, Luiz. Ascensão do CSA e queda do Joinville passam por participação de mecenas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 8 set. 2018. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/09/ascensao-do-csa-e-queda-do-joinville-passam-por-participacao-de-mecenas.shtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

SANTOS, Irlan Simões; SANTOS, Anderson David Gomes dos. A invenção do “Nordestão” e o futebol-arte: investigações a partir do Jornal dos Sports. In: HELAL, Ronaldo; MOSTARO, Felipe. Narrativas e representações do esporte na mídia: reflexões e pesquisas. Curitiba: Editora Appris, 2020. No prelo.

VASCONCELOS, Arthur Alves de. “Eu Tenho Dois Amores que em Nada São Iguais”: Bifiliação Clubística no Nordeste. Ponto Urbe – Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, v. 14, 2014.

Artigos

Bahia, Fortaleza e Náutico nas finais da Taça Brasil (1959-1968): o futebol nordestino emerge nacionalmente

Na década de 1950, o predomínio futebolístico do Rio de Janeiro e de São Paulo já era incontestável. Era como se já existisse o que hoje chamamos de eixo Rio-São Paulo. Nesse eixo estavam os melhores clubes e jogadores do país. Ali estava a base da seleção brasileira de futebol. A situação era tal que, na Copa do Mundo de 1954, a seleção brasileira era formada inteiramente por jogadores de clubes paulistas e cariocas, o que se repetiu em 1958.

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Seleção Brasileira na Copa de 1954.

No Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, disputado 28 vezes de 1922 a 1959, as seleções do Estado de São Paulo e do Distrito Federal (cidade do Rio de Janeiro) foram campeãs 27 vezes. Uma hegemonia incontestável, que foi quebrada apenas pela seleção do Estado da Bahia no campeonato de 1934 organizado pela CBD (houve outro, no mesmo ano, organizado pela FBF, em que a seleção de São Paulo foi a campeã).

Portanto, era de se esperar que na disputa da Taça Brasil, realizada a partir de 1959 e reconhecida como a primeira competição nacional de clubes de futebol, o predomínio fosse das equipes do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O predomínio, de fato, foi paulista e carioca. Nas dez vezes em que a Taça Brasil foi disputada, o Santos foi campeão cinco vezes, o Palmeiras duas vezes e o Botafogo uma vez. Oito campeonatos vencidos pelo eixo Rio-São Paulo.

Mas também houve resultados inesperados. A Taça Brasil teve um campeão baiano, um campeão mineiro e por cinco vezes o vice-campeão foi um clube nordestino.

Essa recorrente presença de clubes do Nordeste na final da competição surpreendeu. Não era frequente a classificação de seleções nordestinas para a final do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Nenhum clube da região havia demonstrado algo de especial até então. Mas de 1959 em diante o futebol do Nordeste pareceu desabrochar nas disputas da Taça Brasil.

Em que condições esses times do Nordeste disputaram essas finais? Estavam confiantes? Ou se sentiram pequenos diante dos gigantes do futebol brasileiro?

Eram respeitados por terem chegado até ali? Tratados como zebras ameaçadoras, mas que podiam ser derrotados sem maior dificuldade? Ou menosprezados como equipes sem a mínima chance de vitória?

Vejamos caso a caso.

1959: BAHIA X SANTOS

O time do Santos, em 1959, era considerado um dos melhores do planeta. Pelé já era chamado de “melhor crack do mundo” (Jornal dos Sports, 10.12.1959), e o time ainda contava com Coutinho, Pepe, Dorval e Jair. Esses cinco jogadores formavam o ataque santista, considerado o melhor da América do Sul.

Ainda assim, o Bahia chegou à final confiante. Em especial, porque havia derrotado o Vasco da Gama em pleno Maracanã na semifinal. O objetivo do clube baiano era fazer o mesmo contra o Santos na Vila Belmiro.

Foram três jogos entre Bahia e Vasco da Gama pela semifinal. Após a vitória baiana no Maracanã, houve dois jogos no estádio da Fonte Nova (Salvador). O Vasco venceu o primeiro desses jogos por 2 a 1 e perdeu o segundo por 1 a 0.

Em 10 de dezembro de 1959, dia da primeira partida da final, o Jornal dos Sports disse que o Santos possuía um “ligeiro favoritismo”. Mas disse também o seguinte: “Mesmo contando com Pelé e Cia. o Santos não amedronta o Bahia, que se baseia nas muitas exibições que o campeão paulista realizou em gramados nordestinos, tendo vencido apenas uma vez por goleada”. No mesmo dia, a Folha de São Paulo, que considerava o Santos “franco favorito”, alertou: “não deve o Santos menosprezar o seu adversário de hoje”. O Bahia, naquela final, certamente não se sentia inferiorizado e não era considerado uma presa fácil.

A confiança do Bahia foi premiada. Na primeira partida da decisão, o time nordestino venceu o Santos por 3 a 2 no estádio da Vila Belmiro. Vinte dias depois, os santistas derrotaram o Bahia por 2 a 0 em Salvador. Na partida-desempate, realizada no Maracanã, o Bahia venceu por 3 a 1 e tornou-se o primeiro campeão da Taça Brasil.

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Equipe do Bahia, campeã da Taça Brasil de 1959.

1960: PALMEIRAS X FORTALEZA

Ao se classificar para a final da Taça Brasil de 1960, após vencer o Santa Cruz por 2 a 1 em um jogo realizado na capital cearense, o time do Fortaleza comemorou como se já tivesse conquistado um título. Os jogadores festejaram no gramado por já serem, no mínimo, vice-campeões nacionais e deram até uma volta olímpica em torno do campo. Volta olímpica inusitada, já que o costume tradicional é dar essa volta após uma final e exibindo o troféu de campeão. O jornal O Povo saudou o êxito do time e declarou que o Fortaleza era o novo vice-campeão nacional de futebol.

Isso significava que a derrota diante do Palmeiras, na final, era tida como inevitável? Não. Embora pudesse parecer isso, havia a esperança de converter aquele título de vice-campeão em um outro ainda mais glorioso: o de campeão nacional. O mesmo jornal O Povo foi claro: “Não está fora de cogitação uma vitória sobre o Palmeiras” (O Povo, 24.11.1960). E disse mais:

E com a sensacional vitória obtida ontem, o tricolor de aço cearense conquistou o título de vice-campeão da II Taça Brasil, podendo ainda ser campeão do referido certame, caso derrote o Palmeiras em São Paulo. (O Povo, 24.11.1960)

Comemorar um “título de vice-campeão” com tanto entusiasmo podia dar, de fato, a impressão de que havia confiança menor dos cearenses em relação aos jogos decisivos. Apesar disso, a Folha de São Paulo lembrou que o Fortaleza tinha “uma longa série de jogos invictos, após enfrentar inclusive clubes como o Santos FC, EC Bahia, etc.” (Folha de São Paulo, 22.12.1960). Portanto, seria um adversário a ser encarado com seriedade pelo Palmeiras.

Na decisão daquela Taça Brasil, o Palmeiras venceu os dois jogos. O primeiro em Fortaleza por 3 a 1. O segundo, na semana seguinte, por 8 a 2 no estádio do Pacaembu.

1961 E 1963: SANTOS X BAHIA

Em 1961, Santos e Bahia voltaram a decidir a Taça Brasil. Ora, se o Bahia havia vencido em 1959, não seria absurdo pensar que poderia vencer novamente dois anos depois. O time baiano, então, tinha um bom motivo para se sentir confiante mais uma vez.

Na primeira partida da final, em Salvador, houve empate em 1 a 1. Pelé jogou, mas não conseguiu marcar gols. A disputa se mostrou equilibrada, e a Folha de São Paulo, após falar do favoritismo do Santos para a segunda partida, advertiu: “Mas não se pode excluir a possibilidade de uma vitória do Bahia, pois como se sabe, quando da I Taça Brasil, ele se impôs ao Santos, no mesmo local da pugna desta noite” (Folha de São Paulo, 27.12.1961).

Na segunda partida, o Santos se impôs como um dos melhores times da história do futebol. Derrotou o Bahia por 5 a 1 e se tornou, pela primeira vez, campeão nacional. Foram três gols de Pelé e dois de Coutinho para o Santos, enquanto Florisvaldo marcou para o Bahia.

Na Taça Brasil de 1963, Santos e Bahia se enfrentaram novamente em uma decisão daquele campeonato. Mais uma vez, havia confiança entre os baianos. O técnico do time, Geninho, declarou ao Jornal dos Sports antes da primeira partida da final que “futebol se ganha no campo e o Bahia não vai se perturbar com a fama de Pelé e seus companheiros, como não se perturbou quando jogou com o Botafogo” (Jornal dos Sports, 25.01.1964). O Bahia havia desclassificado o Botafogo na semifinal com uma vitória por 1 a 0 e um empate em 0 a 0. Geninho disse ainda que esperava vencer o Santos na primeira partida decisiva, que seria realizada no estádio do Pacaembu.

A confiança baiana frustrou-se completamente. O Santos venceu o primeiro jogo por 6 a 0. Depois, em Salvador, venceu novamente (dessa vez, por 2 a 0).

1967: PALMEIRAS X NÁUTICO

Em 1967, Náutico e Palmeiras se encontraram na final da Taça Brasil. O clube pernambucano, além de estar orgulhoso por ser o primeiro do seu Estado a chegar à decisão, estava confiante. No dia do primeiro confronto decisivo, o Diário de Pernambuco informou: “os jogadores alvirrubros (…) confiam numa boa apresentação esta noite diante do Palmeiras, embora respeitem a categoria do adversário” (Diário de Pernambuco, 20.12.1967). O objetivo era vencer em Recife e ir para o segundo jogo, em São Paulo, precisando de um empate para se tornar campeão.

Grande parte da confiança do clube recifense se amparava em sua participação na Taça Brasil do ano anterior. O Náutico havia derrotado o próprio Palmeiras nas quartas-de-final e, ao enfrentar o Santos na semifinal, venceu o time de Pelé, na cidade de São Paulo, por 5 a 3. Depois desses grandes êxitos em 1966, o time se achava em condições de tornar-se campeão nacional em 1967.

Além disso, na própria Taça Brasil de 1967 o Náutico havia desclassificado os dois maiores clubes de Minas Gerais: Atlético (nas quartas-de-final) e Cruzeiro (na semifinal). Os cruzeirenses, aliás, haviam sido os campeões do ano anterior.

Na primeira partida da final, realizada em Recife, o Palmeiras venceu por 3 a 1. Em São Paulo, o Náutico reagiu: venceu por 2 a 1. O jogo-desempate foi realizado em 29 de dezembro de 1967 no Maracanã. Com gols de César Maluco e Ademir da Guia, o Palmeiras venceu por 2 a 0 e se sagrou campeão nacional.

1968: BOTAFOGO X FORTALEZA

A Taça Brasil de 1968 foi disputada em clima de decadência. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa (reunindo clubes de cinco Estados em 1967 e de sete em 1968) passou a ser o novo centro das atenções. Santos e Palmeiras desistiram de disputar a Taça Brasil e o campeonato teve tantos problemas que só foi decidido em outubro de 1969.

Foi a última Taça Brasil promovida pela CBD.

Os finalistas foram Botafogo e Fortaleza. Para a imprensa carioca, o representante nordestino não tinha qualquer chance de êxito.

A primeira partida foi realizada na capital cearense e o Fortaleza chegou a estar vencendo por 2 a 0, mas os botafoguenses reagiram e empataram. Antes da segunda partida, quase ninguém duvidava da vitória do Botafogo e o Jornal dos Sports publicou:

Por muito atrevido que seja o time do Fortaleza, ele terá que se curvar esta tarde às maiores categorias e experiência do adversário. O próprio resultado do jogo realizado no Ceará serve como indício de que a equipe é incapaz de enfrentar adversários de maior gabarito, caso contrário, dentro de casa, depois de estar na frente por 2 a 0, não permitiria que o Botafogo empatasse. (Jornal dos Sports, 04.10.1969).

Considerações mordazes. Um tanto arrogantes. Mas que se mostraram acertadas durante o jogo. O Botafogo venceu o Fortaleza por 4 a 0 no Maracanã. Segundo a Gazeta Esportiva, “o Fortaleza jogou completamente na retranca e mostrou que não tinha nenhuma possibilidade de vencer”. (Gazeta Esportiva, 05.10.1969)

Uma situação muito diferente daquela vivida pelo Bahia em 1961 ou pelo Náutico em 1967.

E O FUTEBOL NORDESTINO EMERGIU

Depois dessas seis participações nordestinas em finais da Taça Brasil, o futebol da região passou a ser visto de outro modo. Ganhou maior prestígio. O Nordeste, afinal, parecia ter clubes em franca evolução.

Antigamente, apenas o eixo Rio-São Paulo existia. Quando muito, o Rio Grande do Sul tinha o que mostrar também. E enquanto essa condição existiu, o resto do país (…) lhes rendeu a justa homenagem.

O panorama atual é bem outro. Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia evoluíram. (Diário de Pernambuco, 20.12.1967)

Foi na disputa das dez edições da Taça Brasil que o futebol nordestino saiu das sombras, emergiu nacionalmente e se tornou mais respeitado. Em reconhecimento a essa nova realidade, clubes da Bahia e de Pernambuco foram convidados a participar, em 1968, da Taça de Prata (nome dado pela CBD ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa a partir daquele ano). Era o campeonato mais importante do país à época. Os nordestinos participaram em 1968, 1969 e 1970 (última edição). A partir de 1971, a CBD passou a organizar o Campeonato Brasileiro, com a presença de quatro clubes nordestinos entre os vinte participantes da primeira edição.

Fabio Santa Cruz é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

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Clássico é clássico e vice-versa?

Começa a temporada de disputa pelos campeonatos estaduais no Brasil e creio ser este um momento ainda mais oportuno para se falar das rivalidades clubísticas do nosso futebol e dos estereótipos que, entra ano e sai ano, seguem sustentando boa parte dos noticiários e transmissões esportivas de norte a sul do país. O velho embate figurativo entre time do povo x time de elite é um dos conflitos que me parece uma construção em certa medida estereotipada, sobre a qual pretendo me aprofundar em minha tese de doutorado, investigando as origens desse e de outros estereótipos que vigoram no imaginário do torcedor, dos jornalistas e até dos próprios dirigentes.

Para chegar a alguns apontamentos iniciais sobre o tema, me propus um breve exercício de pesquisa visando identificar, nas cinco regiões brasileiras, embates clubísticos em que um dos clubes é tido como “do povo” enquanto o rival, por sua vez, é caracterizado sob a pecha de elitista. Para tanto, me baseei em um ranking dos maiores clássicos estaduais brasileiros feito pelo globoesporte.com para selecionar alguns dos maiores duelos futebolísticos do país e debater sobre quais alcunhas são comumente atreladas aos rivais diretos: time do povo, time de elite, time de pobre, time de rico, time de negro, time de branco, time do centro, time do subúrbio, time do futebol-arte, time do futebol-força, entre outras alcunhas as quais considero construções estereotipadas.

A intenção é identificar, ao final do doutorado, quais aspectos contribuíram para a construção desses estereótipos, com base no histórico dos clubes e nas percepções de torcedores e jornalistas esportivos, compreendendo como e por que tais construções são frequentemente reforçadas tanto pela mídia quanto por torcedores para sustentar e dimensionar as rivalidades clubísticas do futebol brasileiro. Parto de um pressuposto que julgo ambicioso, relacionado à premissa de que todo estereótipo, embora seja uma construção moldada sob diversos aspectos, tem em si um fundo de verdade.

É claro que, para validar essas afirmações, será imprescindível expandir minha revisão bibliográfica a esse respeito e seguir um caminho metodológico específico. Por ora, como dito, restrinjo meus apontamentos a conclusões meramente iniciais, as quais me servem como um dos pontos de partida para uma pesquisa ainda em desenvolvimento. Sendo assim, dedico os próximos tópicos deste texto para debater alguns aspectos característicos de 11 rivalidades do nosso futebol, tendo como referências pesquisadores que já se debruçaram sobre o tema. Cada tópico a seguir contempla uma região do país, abordando rivalidades clubísticas dos seguintes estados: MG, SP, RJ, RS, PR, BA, AL, PE, CE, PA, GO.

Região Sudeste

Os trabalhos do pesquisador Marcelino Silva (2005, 2009) abordam os estereótipos comumente associados aos dois maiores clubes de futebol de Minas Gerais: Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro Esporte Clube. Em sua pesquisa de pós-doutorado, o autor analisa a construção discursiva da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro com base no imaginário do primeiro como time da massa e do segundo como clube-empresa. Segundo Silva (2005, s/p), a transformação do Atlético “em um ‘clube de massa’, alcunha que lhe é consensualmente atribuída pela mídia contemporânea, é ainda um mistério a se resolver”, tendo em vista que sua origem pode ser considerada elitista, já que o clube foi fundado por um grupo de jovens de famílias tradicionais belo-horizontinas.

O Cruzeiro, por sua vez, tem uma origem popular desde sua fundação, tendo sido criado por grupos de imigrantes italianos que haviam se estabelecido na capital mineira. Desse modo, enquanto a mística que cerca o Atlético (e sua torcida “Galoucura”) caracteriza a agremiação como “o clube do ‘povão, o clube da ‘massa’, dos pobres, dos negros e dos mestiços” (SILVA, 2005, s/p), o Cruzeiro se vale da organização e diligência típicas de sua “Máfia Azul”, definindo-se, sobretudo, “por aquilo que possibilitou aos italianos sua inserção na sociedade brasileira: o trabalho árduo e incansável, por meio do qual se pode construir lentamente um futuro bem sucedido” (SILVA, 2005, s/p).

Já para abordar aspectos da rivalidade entre o Sport Club Corinthians Paulista e a Sociedade Esportiva Palmeiras interessa o trabalho do pesquisador Roberto Louzada (2011), que analisa, do ponto de vista administrativo, as condições sociais que permitiram compreender como se constituíram as identidades dos três principais clubes da cidade de São Paulo, definidos sob os seguintes estereótipos: Corinthians, o clube do “povão”, fundado por operários; Palmeiras, o time da colônia italiana, fundado por operários imigrantes; e o São Paulo Futebol Clube, considerado representante da elite econômica da cidade.

Importante salientar que, nas conclusões apontadas por Louzada, os dois clubes fundados por operários são os que concentram os maiores percentuais de torcedores das classes A e B, enquanto o time identificado como da elite é o que possui os menores percentuais de públicos dessas duas classes – perspectiva esta que contribui para reforçar o viés mítico dos estereótipos que compõem o objeto de estudo da minha pesquisa. Também interessam à discussão os trabalhos científicos de Florenzano (2009), sobre a democracia corinthiana e as práticas de liberdade no futebol brasileiro; de Araújo (1996), que analisa as relações entre imigração e futebol a partir da fundação do Palmeiras; e de Malaia & Júnior (2017), que investigam as maneiras pelas quais o imaginário de “time do povo” contribui para a manutenção de uma identidade organizacional que, segundo os autores, confere certa vantagem competitiva ao Corinthians.

Quanto a alguns aspectos definidores da rivalidade entre o Clube de Regatas do Flamengo e o Club de Regatas Vasco da Gama interessam à discussão, principalmente, os trabalhos de Coutinho (2013), Ferreira (2013), Kowalski (2002) e Helal & Teixeira (2001). Em sua tese Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular, Coutinho (2013) investiga os fatores que contribuíram para a popularidade e para a abrangência nacional do clube rubro-negro a partir do período marcado pela implantação do regime profissional na agremiação, entre os anos de 1933 e 1955, demonstrando que o estereótipo de clube do povo somente se consolidou após a profissionalização da equipe, elitista à época de sua fundação: “O Flamengo, clube do povo, da paixão ensandecida, o mais querido do Brasil, era, até meados dos anos 1930, o clube da ‘fina flor’ carioca, o clube da força de vontade.” (COUTINHO, 2013, p. 31).

A popularização do Clube de Regatas do Flamengo não ocorreu antes de 1933. A popularização ocorreu somente a partir da profissionalização do clube. Sendo assim, o clube esquecido dos tempos do amadorismo em nada se diferenciava dos outros clubes elitistas da cidade. Dirigentes e associados eram tratados pela imprensa esportiva como símbolos de um sport promotor do espírito civilizado europeu. O Flamengo não carrega o gene da popularidade, como costumeiramente afirmam os estudiosos do clube. (COUTINHO, 2013, p. 36)

A dissertação de Ferreira (2013), “Flamengo, time de favelado!”: Representações sociais do Flamengo na mídia impressa dos anos 1930 aos 1960, analisa período semelhante ao abordado por Coutinho, investigando a construção das representações sociais sobre o clube por seus torcedores e de outros times a partir da instalação física de sua sede na década de 30, junto à comunidade da Praia do Pinto, o que, segundo o autor, contribuiu para a constituição do estereótipo de popularidade que o time carrega até os dias de hoje. A tese de Kowalski (2002), Por que Flamengo?, caminha no mesmo sentido, atribuindo o imaginário de popularidade do Flamengo a uma “construção mitológica”. A autora ainda caracteriza tal popularidade como um dos fatores potenciais para estimular a rivalidade com as demais equipes, tanto do Rio de Janeiro – a exemplo da disputa direta entre o status de popular do Flamengo e o rótulo “pó de arroz” do Fluminense – quanto de outros estados, tendo em vista que o rubro-negro é o clube de maior torcida do país.

FOTO: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

Ainda quanto aos estereótipos atrelados à rivalidade entre Flamengo e Vasco, também interessa o artigo O racismo no futebol carioca na década de 1920: Imprensa e invenção das tradições, de Helal e Teixeira (2011), no qual os autores mostram como foi narrada a inserção do negro no esporte mais popular do país, contestando versões que são recontadas como verdades até os dias atuais, a exemplo do pioneirismo do Vasco da Gama em tal inserção.

Região Sul

O foco da discussão sobre a rivalidade clubística no Rio Grande do Sul é o modo como o jornalismo esportivo representa a sociedade e o futebol gaúchos, apropriando-se do discurso da marginalidade para pautar os dois maiores clubes de futebol do estado: Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense e Sport Club Internacional. Nessa perspectiva da representação midiática, nota-se a demarcação de uma linha tênue que, de um lado, se guia pelo culto às tradições, mas, do outro, acaba reforçando estereótipos muitas vezes não condizentes com a realidade da federação, das agremiações e até do próprio jogo em si, inclusive sob o risco de fomentar aspectos não sadios da rivalidade clubística. A definição de um estilo gaúcho de jogar futebol é um exemplo clássico dessa estereotipação frequentemente encontrada no noticiário esportivo, muito embora ao longo da história centenária de Grêmio e Inter tenham surgido evidências contrárias a tal estereótipo, como pondera o jornalista Léo Gerchmann (2016):

Em uma comparação simples, o Flamengo tem aquele jogo cadenciado, lindo, tipicamente brasileiro. Parece que todo jogador, ao vestir a camisa rubro-negra do Flamengo, passa a dar toques macios e fazer gols de efeito. No Grêmio, sem abrir mão da técnica de um Valdo, temos a gana de um Dinho, algo não menos lindo. […] Vários ídolos eternos aliam a técnica à garra, mesclam os dois. E assim é o nosso Tricolor. A impressão é de que, assim como ocorre no antípoda carioca, todo jogador que veste o manto azul, preto e branco torna-se um guerreiro, o que não implica violência, mas sim muitíssima emoção. (GERCHMANN, 2016, p. 96)

O modelo dito característico de se jogar futebol também encontra raízes na geografia física do território, servindo como mais um elemento para cultuar as tradições de um estado considerado pelos sul-rio-grandenses como marginalizado e periférico, contornos estes que, nessa ótica regionalista, seriam responsáveis pela falta de representatividade do Rio Grande do Sul diante das decisões político-econômicas tomadas no centro do país. Exemplo disso é que, no futebol, as manifestações contra possíveis prejuízos diante dos clubes do eixo Rio-São Paulo – como erros de arbitragem e não convocações para a Seleção Brasileira – seguem contundentes desde a época do primeiro Torneio Roberto Gomes Pedrosa e da polêmica partida da Seleção Gaúcha x Seleção Brasileira na década de 1970, sempre no ideário da afirmação do futebol do estado. Contudo, é interessante ponderar que, de 2006 em diante, a Seleção Brasileira teve cinco treinadores gaúchos consecutivamente no comando: Dunga, Mano Menezes, Felipão, Dunga (em nova passagem) e Tite, atualmente.

Além dos estereótipos que caracterizam um estilo de jogo tipicamente gaúcho, também é fundamental à minha pesquisa a discussão envolvendo os imaginários de time do povo e time de elite atrelados a Inter e Grêmio, respectivamente. A questão racial, por exemplo, alicerçou a fundação Internacional, em contraposição à fundação do Grêmio que, nos primórdios de sua história, só aceitava membros de descendência alemã em seu grupo. O Inter, fundado pelos irmãos Poppe, que eram descendentes de italianos, teria nascido, então, para englobar aqueles que não eram aceitos no Grêmio, daí deriva-se inclusive o nome “Internacional”, versão esta que se encontra na obra A História dos Grenais (2009), organizada pelo jornalista David Coimbra.

No intuito de refutar essa versão, a obra Somos azuis, pretos e brancos (2015), escrita por Léo Gerchmann, reúne alguns documentos históricos que estariam por trás da fundação dos dois clubes e que desmontariam o mito da segregação racial atribuída ao Grêmio, apontando o racismo no futebol como um reflexo de toda a sociedade brasileira, atrelado às sequelas da escravidão: “Havia, sim, um processo de exclusão dos negros, mas ele nunca foi proposto pelo Grêmio, mas pela sociedade brasileira, profundamente hierárquica e preconceituosa” (GERCHMANN, 2015, p. 9-10).

FOTO: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Ainda no tocante ao futebol da região Sul do país, interessam à minha pesquisa trabalhos que abordam o futebol paranaense, considerando-se o rótulo de elitista que recai sobre os dois maiores clubes locais: o Club Athletico Paranaense e o Coritiba Foot Ball Club. Para abordar essa temática, serão úteis os trabalhos científicos de Campos (2006) e Capraro (2004). Segundo Campos, à época da fundação os dois clubes possuíam uma forte identidade com determinados setores da sociedade curitibana. O Coritiba, por exemplo, é conhecido pela alcunha de “coxa branca” por ter sido fundado por imigrantes alemães e descendentes. Inclusive, “a identificação com a comunidade alemã gerou diversas representações sociais de que o Coritiba não admitia negros entre seus atletas, que era um clube racista” (CAMPOS, 2006, p. 94). Já as representações sobre o Athetico recaem, segundo Capraro (2004), no paradigma da modernidade, tendo em vista o pioneirismo do clube na construção de um estádio considerado a grande referência no Brasil e que é tido como “espaço social da fina-flor curitibana”.

Região Nordeste

Embora a bibliografia sobre clubes e rivalidades do futebol nordestino não seja tão ampla, foi possível selecionar alguns trabalhos relevantes a esse respeito, a exemplo da obra Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924), do pesquisador Henrique Santos (2014), que discute as relações desse esporte com diversas camadas da sociedade soteropolitana, sobretudo quanto à inserção dos negros na modalidade e a caracterização de um “futebol tipicamente baiano”. Também interessa ao debate a tese do pesquisador Paulo Leandro (2011), Ba-Vi: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas, na qual o autor discute a instituição da torcida de futebol nos jornais de Salvador entre o longo período de 1932 a 2011, evidenciando, inclusive, dois perfis antagônicos: o Esporte Clube Vitória como um clube de origem “amadora” e o Esporte Clube Bahia como um clube de origem “profissional”.

FOTO: Felipe Oliveira/EC Bahia

Para abordar a rivalidade entre os clubes alagoanos Clube de Regatas Brasil (CRB) e Centro Sportivo Alagoano (CSA) serão úteis, sobretudo, os trabalhos preliminares dos pesquisadores Alexandrino et al. (2016), os quais discutem a violência em Maceió decorrente do clássico local e a influência midiática na rivalização das duas equipes. Segundo os autores, a imprensa esportiva alagoana é responsável por potencializar as manifestações de violência entre os torcedores, inclusive se utilizando de estereótipos para fomentar um clima de “guerra de classes” entre as torcidas.

Ao tratar o CSA como “o clube do Mutange” ou “do mangue”, e o CRB como o “galo da praia”, “da Pajuçara”, a mídia reforça dois estereótipos: o de que todos os torcedores azulinos são periféricos – a imagem dos catadores de sururu da lagoa Mundaú – e o de que todos os regatianos são da elite e moradores dos bairros litorâneos – o aristocrata branco que assiste ao jogo da tribuna de honra. Ocorre, portanto, a construção de um caráter de “guerra de classes”, ao se generalizar, erroneamente, duas torcidas que dividem em cores um estado de mais de 3 milhões de habitantes, das mais variadas esferas econômicas e sociais. Há patrões e proletários, trabalhadores informais e aristocratas, nas torcidas dos dois times, logo, a ideia de “povo versus elite”, na disputa entre CRB e CSA, é uma mitificação proposta pela mídia. (ALEXANDRINO ET AL., 2016, p. 6)

No tocante ao futebol pernambucano, interessam principalmente as pesquisas de Carvalho et al. (2017) e Ferreira et al. (2014). No artigo Símbolos e rituais do futebol espetáculo: uma análise das emoções no campo de jogo, Carvalho et al. (2017)  identificam e analisam os símbolos e rituais de torcedores das três principais equipes do estado: Sport Club do Recife, Santa Cruz Futebol Clube e Clube Náutico Capibaribe, evidenciando mascotes, cores, orações, superstições e consumo de álcool como alguns dos símbolos mais significativos no modo de torcer dos rivais. Já o estudo de Ferreira et al. (2014) investiga como os mecanismos de identificação e da diferença são utilizados para reforçar midiaticamente as supostas identidades dos torcedores dos clubes pernambucanos. Já sobre a rivalidade entre o Ceará Sporting Club e o Fortaleza Esporte Clube, um dos trabalhos mais significativos é do pesquisador Rodrigo Pinto (2007), que analisa a construção da história do futebol cearense e os conflitos sociais em torno da bola, considerando-se a origem elitista da prática e a formação operária de Ceará e Fortaleza.

Região Norte

A despeito do enfoque que as pautas do jornalismo esportivo dão ao futebol do eixo Rio-São Paulo, o clássico Remo x Paysandu (RePa ou Clássico Rei da Amazônia) vigora entre os duelos mais disputados e equilibrados do mundo, com mais de 700 partidas em 105 anos de confrontos. De 1914 a 2017 foram 737 clássicos disputados entre as equipes, sendo 256 vitórias do Clube do Remo contra 231 do Paysandu Sport Club, além de 250 empates. Os números contabilizados na dissertação da pesquisadora Aline Freitas (2017) demonstram que o Clássico Rei da Amazônia é o mais disputado do Brasil, ainda que não tenha essa mesma expressão em termos de cobertura midiática. Importante salientar que o fato de ser o clássico mais disputado do país, não significa dizer que Remo e Paysandu representam a maior rivalidade clubística brasileira, visto que essa afirmação pode variar conforme os critérios de análise e demandaria novas pesquisas para ser validada cientificamente.

Ainda assim, pode-se dizer que o equilíbrio entre os dois clubes, que é outra marca expressiva do duelo Re-Pa, também contribui para reforçar o teor desta rivalidade: das 103 edições do Campeonato Paraense, são 47 taças do Paysandu e 46 do Remo. Interessante ressaltar que, entre os campeões estaduais brasileiros, somente as equipes Avaí e Figueirense têm o mesmo equilíbrio de troféus – 17 e 18 taças respectivamente, nas 47 edições do Campeonato Catarinense. Nem mesmo os maiores vencedores dos campeonatos Carioca e Paulista contam com disputas tão acirradas, sendo 35 taças do Flamengo contra 31 do Fluminense e 30 taças do Corinthians contra 22 do Palmeiras – embora não se possa desconsiderar que nesses estados existem outros clubes de ponta no torneio. Porém, até na comparação com outros estados com apenas dois times em disputa, como Minas Gerais (44 títulos do Atlético e 38 do Cruzeiro) e Rio Grande do Sul (46 títulos do Internacional e 38 do Grêmio), o clássico Re-Pa se mantém como o confronto mais equilibrado do Brasil.

Quanto ao sentimento clubístico, o assunto é objeto de estudo na citada dissertação de Freitas (2017), intitulada Não É Só Futebol: uma análise dos laços de afetos que envolvem os torcedores do Clube do Remo, a partir de processos socioculturais comunicativos. A autora faz um estudo etnográfico para compreender como se dá a produção de sentido dos torcedores do Remo em uma dimensão afetiva e coletiva. Em seu estudo etnográfico, Freitas (2017, p. 78), ao perguntar a torcedores remistas o que é o amor pelo time do Remo, ressalta que diversas vezes eles “fizeram questão de lembrar que o sentimento dos torcedores rivais é payxão e isso é passageiro”, remetendo ao slogan utilizado pelo Paysandu para explicarem que, ao contrário do rival, eles sim lotam o estádio porque têm amor ao clube, e não somente paixão. Em perspectiva contrária, uma matéria no site oficial do Paysandu, escrita por Ronaldo Santos (2014) traz informações interessantes ao objeto de estudo da minha tese. Ao fazer um perfil de Seu Raimundo, “o torcedor mais antigo do Paysandu”, Santos destaca a fala final do entrevistado, suscitando o estereótipo de que este seria o “verdadeiro clube do povo”, ao contrário do rival Remo.

Seu Raimundo disse que o Paysandu é verdadeiramente o time do povo, e que por isso, tem a maior torcida do Estado e da Região Norte do País. “Para torcer pro Paysandu não precisava de nada, somente do amor pelo clube. No Remo era diferente, só entrava quem estivesse devidamente trajado com terno e gravata, quando no Paysandu não existia estes requisitos. O Paysandu é verdadeiramente o time do povo, e o time que deu as maiores glórias para o futebol paraense”. (SANTOS, 2014, s/p)

 

Como abordado no início do tópico, Paysandu e Remo representam o duelo mais disputado e equilibrado do Brasil. Uma única taça do Campeonato Paraense separam os dois rivais. Vale lembrar ainda que o Paysandu é o segundo clube brasileiro com mais taças estaduais: 47 contra 55 do ABC Futebol Clube, de Natal. O Remo aparece logo em terceiro lugar, com 46 troféus de campeão do Pará. Os títulos estaduais são, inclusive, o grande trunfo dos remistas na comparação com o rival. Além disso, em sua campanha como Campeão Brasileiro da Série C em 2005, o Remo bateu recordes de público entre todas as séries do campeonato, com uma média de 30 mil torcedores por jogo. O Paysandu, por sua vez, está melhor posicionado no ranking de clubes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com conquistas nacionais mais expressivas, como a extinta Copa dos Campeões que lhe rendeu o feito inédito de ser o único clube do norte do país a disputar uma edição da Copa Libertadores da América.

Fonte: bacana.news

Região Centro-Oeste

Em meio à restrita bibliografia sobre o futebol na região centro-oeste do país, interessam-me as pesquisas de Leão (2016), Nascimento (2007) e Gonçalves & Silva (2011). Em Futebol em Goiânia: sociabilidades e espaços, Leão faz um trabalho etnográfico para restituir a configuração social da memória coletiva que conecta a

cidade de Goiânia e o futebol. Em Futebol, sociabilidade e psicologia de massas: ritos, símbolos e violências nas ruas de Goiânia, Nascimento propõe uma análise etnográfica das práticas sociais de uma torcida organizada do Vila Nova Futebol Clube em dias de jogos contra o rival Goiás Esporte Clube. Já o trabalho de Gonçalves & Silva, O futebol na geografia: a difusão socioespacial do futebol em Goiânia, analisa o papel dos clubes de futebol profissional na configuração da cidade.

Segundo Gonçalves & Silva (2011, p. 166), “a construção da nova capital foi fundamental para a consolidação de um futebol ainda incipiente. Goiânia e o futebol nascem praticamente juntos, em um fenômeno diferenciado do restante do Brasil.”, considerando-se a Revolução de 1930 e o ideário nacionalista da “Marcha para o Oeste”. Os autores apontam a construção da Ferrovia Mogiana, ao sul do estado, como uma das primeiras políticas de integração de Goiás ao principal eixo econômico nacional, a cidade de São Paulo. Daí surgiram as primeiras agremiações esportivas do estado, os clubes ditos “ferroviários”, tendo a ferrovia como elemento simbólico. Goiás e Vila surgiram depois, no contexto de desenvolvimento de Goiânia, que passa então a ser a nova capital do estado, “engendrada e planejada para ser uma cidade moderna, que representaria um novo Estado de Goiás e que se integraria de fato no bojo da economia brasileira” (GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 168).

Em 6 de abril, um grupo de amigos se reuniu no centro da cidade e desse encontro resultou a criação do Goiás Esporte Clube. Todos os presentes eram paulistas descendentes de italianos e torciam para o extinto Palestra Itália (atualmente Sociedade Esportiva Palmeiras), da cidade de São Paulo. Desta forma, foram escolhidos o verde e o branco como as cores do uniforme, as mesmas que utiliza o clube paulista. Como a torcida paulista tinha o periquito como mascote, logo os fundadores do Goiás o incorporaram como mascote do novo clube que surgia. Tal adoção foi facilitada também pelo fato de o periquito ser uma ave bastante conhecida na região Centro-Oeste do Brasil. A ideia original era dar ao clube o nome de Palestra Itália; todavia, o contexto político brasileiro da época não permitiu que tal vontade fosse realizada.

Com esse trecho, os autores chamam atenção para a influência socioespacial exercida pelo eixo Rio-São Paulo na formação de diversos clubes do interior brasileiro, apontando a migração paulista dos descendentes de italianos como uma das principais vertentes do surgimento do futebol no Centro-Oeste. No mesmo ano em que é fundado o Goiás, surge o Vila Nova, embora este já desenhasse sua existência há alguns anos. “Desportistas entusiastas do então clube amador Associação Mariana aceitaram o desafio de fundar um clube para representar o bairro conhecido como a ‘vila mais famosa’, a Vila Nova” (GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 169). Desse modo, o clube surge como uma agremiação totalmente identificada com determinado lugar, no caso um bairro de classes sociais menos favorecidas, o que fornece pistas para abordar alguns dos estereótipos que dimensionam a rivalidade entre Goiás e Vila.

O Vila surgiu de gente humilde. O bairro da Vila Nova não passava de uma área invadida. A construção de Goiânia se deu graças à mão de obra de cidadãos de outros estados. Veio gente do Ceará, do Maranhão, de Minas Gerais, da Bahia, do Piauí, de Pernambuco e de Alagoas. Essas pessoas moravam em minúsculas casinhas de três cômodos, plantavam suas hortas no quintal e a comida era feita no fogão de lenha. Como não planejaram um espaço para os homens que ajudaram na edificação da nova cidade e a maioria não tinha dinheiro para comprar um lote em Campinas ou no Bairro Popular, o jeito foi invadir um pedacinho de chão lá pros lados do Córrego Botafogo. Local distante, sem asfalto e sem transporte. Lugar de gente simples: pedreiros, serventes, carpinteiros e operários. (SILVA apud GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 170)

FOTO: Divulgação/Jornal O Popular

Considerações finais

Considerando-se a abrangência geográfica dos apontamentos aqui propostos, não posso deixar de mencionar ainda a importância dos trabalhos que relacionam o futebol às hierarquias urbanas, a exemplo das pesquisas do geógrafo Gilmar Mascarenhas, que traça paralelos sobre o processo histórico de desenvolvimento desse esporte no Brasil com os efeitos da concentração de poder e de capital que hoje pairam sobre a modalidade. No artigo Futebol, globalização e identidades locais no Brasil (2008), o autor aponta, por exemplo, para a contradição existente entre as forças mercadológicas da globalização – que tendem a transformar o torcedor em consumidor do espetáculo futebolístico – e a manutenção de tradições locais, considerando-se, inclusive, a força das rivalidades estaduais do futebol brasileiro.

Deve-se notar que, quando clubes da mesma cidade participam de competições nacionais ou internacionais, ao nível do cidadão comum, vemos uma disputa paralela contínua, porque o que realmente interessa ao torcedor é saber qual das equipes está melhor posicionada. E ele não apenas aplaude as vitórias do seu clube, mas também as derrotas do seu rival local. (MASCARENHAS, 2008, p. 12)

Quanto ao ato de aplaudir a derrocada do rival, atribuo esse sentimento à natureza sociológica do conflito, evidenciada pelo sociólogo alemão Georg Simmel (1983). Ele defende que toda relação conflituosa, por si só, é uma forma de sociação, de modo que o conflito estaria destinado “a resolver dualismos divergentes; é um modo de conseguir algum tipo de unidade, ainda que através da aniquilação de uma das partes conflitantes” (p. 22). Nesse sentido, para o adversário é como se pouco importasse a condição social do outro – se povo ou elite, se pobre ou rico, se negro ou branco – mas sim se ele torce ou não para o mesmo time.

Tanto é que, em dia de clássico, é nítida a separação entre os alambrados rivais. Até mesmo no entorno dos estádios o policiamento é reforçado para que os adversários tomem cada qual seu espaço e não se cruzem pelo caminho. Nesse cenário, percebemos que a prática do schadenfreude – palavra de origem alemã que, em bom português, significa ficar feliz pela desgraça do outro, vigora independentemente do alcance da partida ou da dimensão dos clubes em disputa. Porém, qual a garantia de que realçar os problemas e estigmas do rival resolverá as pendências do seu time do coração, fazendo com que ele suba na tabela? Nenhuma. Mas talvez resida justamente nessa perspectiva um dos maiores clichês do nosso futebol: clássico é clássico. E vice-versa.

 

Referências

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