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Sobre o que é a segurança nos estádios em tempos de pandemia?

No dia 25 de fevereiro de 2021, acabou o campeonato brasileiro de 2020, com o título do Flamengo. Essa data não é marcante somente pelo bicampeonato do time rubro-negro; mas pelo fato de o Brasil ter atingido seu recorde diário de mortes até aquele momento e também por ser o dia em que o país chegou ao número de 250 mil mortos por COVID-19. A temporada de 2020 foi repleta de campeonatos controversos e ficou marcada pelo retorno apressado do futebol (no início de agosto de 2020). Mais de 300 atletas contaminados na série A do campeonato brasileiro, partidas adiadas… como foi realizada a segurança no futebol no ano de 2020? Como pensar a segurança em eventos esportivos em meio a uma pandemia?

Quando se pensa sobre segurança em eventos esportivos, especificamente no futebol, o senso comum já a relaciona ao controle de torcidas (principalmente as torcidas organizadas); mas, em um momento pandêmico, a torcida não está presente. Se um dos principais (se não o principal) atores do futebol não se faz presente, como pensar a segurança desses jogos?

A ideia de segurança nos eventos esportivos é convencionalmente ligada ao controle dos modos de torcer. Esse controle, comumente exercido por efetivos policiais, permanece evidente, mesmo no contexto da pandemia, e o consequente afastamento de torcedores nos estádios. O caso da tentativa da Polícia Militar de São Paulo, que cumpriu a recomendação do Ministério Público estadual, a fim retirar um mosaico realizado pela torcida do Corinthians para o clássico com o Palmeiras, sob o argumento de provocação à torcida adversária, é um exemplo dessa atuação. O mosaico fazia menção aos dois anos em que o clube alvinegro se sagrou campeão mundial (2000 e 2012) seguido da frase “nunca serão”. Vale ressaltar que ambas as torcidas não estavam presentes no estádio, por questões sanitárias. Ainda assim houve uma tentativa de controle e limitação da liberdade de expressão da torcida, em uma frase em que não havia uma ofensa ou algum tipo de violência para com os integrantes da torcida adversária. Houve a tentativa de controle das expressões torcedoras mesmo na ausência de torcida (presencialmente). Tais ações vislumbram o silenciamento das torcidas partindo da falsa premissa de que as provocações são a razão para ações de violência nos estádios.

No caso do Rio de Janeiro, a segurança nas praças desportivas ocorreu (quase) normalmente. Apesar da ausência de público no interior dos estádios, o Batalhão Especializado de Policiamento em Estádios (BEPE, antigo GEPE), vinculado à Polícia Militar do Rio de Janeiro, continuou realizando suas atividades, atuando nos jogos do campeonato brasileiro, copa do Brasil, Sul-americana, Libertadores… inclusive a final do torneio mais importante do continente, na temporada de 2020, ocorreu no estádio do Maracanã. Esse evento contou com a presença da torcida, algo que destoou dos jogos profissionais do Brasil ao longo deste ano.

Fonte: globoesporte.com

Apesar do público restrito, aproximadamente 2.500 convidados, houve uma recomendação da CONMEBOL para que os torcedores ficassem concentrados somente em um setor do Maracanã (sem a separação das torcidas), o que gerou aglomeração; além do fato de que muitos torcedores utilizaram a máscara de modo inadequado. Durante a transmissão deste jogo, foi possível observar torcedores em comemoração tentando o contato com os jogadores e os stewards (operadores da segurança privada) tendo que conter a torcida pela preservação da integridade do campo e também dos jogadores, ao passo que se expunham à contaminação por COVID-19.

O fato é que no contexto em que um vírus é transmitido mais facilmente pelo contato entre pessoas, a divisão de torcida e a acomodação desses torcedores em mais um ou dois setores poderia impedir a aglomeração que foi gerada.

Outro caso em que houve aglomeração foi antes do jogo da 37ª rodada do campeonato brasileiro entre Flamengo x Internacional quando os torcedores foram acompanhar e motivar a delegação do clube carioca antes da partida. O BEPE atuou na dispersão destes torcedores. As motivações, diferenças e consequências destes dois casos de aglomeração precisam ser destrinchadas em outro momento, mas em ambas as situações houve aglomeração dos torcedores e um risco para eles mesmos e para os que promovem o policiamento e a segurança nos eventos esportivos.

No dia 09 de março, teve início a primeira rodada da Copa Brasil de 2021, competição na qual os clubes de todas as regiões nacionais se deslocam para realização de jogos. No dia 17 do mesmo mês, a FIOCRUZ apresentou uma série de gráficos com as taxas de leitos de UTI ocupadas por adultos com COVID-19 no SUS – somente os estados de Roraima e Rio de Janeiro estão na categoria de alerta médio, todos os demais estados, incluindo o Distrito Federal, figuram no alerta crítico, isto é, não há estados em alerta baixo.

Os protocolos divulgados pela CBF datam de junho de 2020 e não foram revisados ou atualizados desde então. Segundo esse documento, os atletas não necessitam realizar testes antes dos jogos; nessa ocasião, para os atletas só são necessários a aferição da temperatura, a utilização de máscaras até o aquecimento para o jogo e o “inquérito epidemiológico” quatro horas antes do início da partida, para saber se o olfato está afetado ou não. A equipe técnica também participa do aferimento de temperatura corporal, obrigatoriedade do uso de máscaras e a necessidade de responder ao mesmo “inquérito epidemiológico”.

Os exames laboratoriais são realizados somente em pacientes sintomáticos para permitir o retorno dos treinamentos em grupo, de acordo com as recomendações da CBF. Em quadro assintomático ou em membros da equipe técnica e outros funcionários do clube, segundo essa mesma recomendação, os exames laboratoriais e de imagem ficam “a critério de cada Departamento Médico” (CBF, 2020). É difícil imaginar que clubes, principalmente os de menor investimento, testam de modo recorrente seus atletas e ainda mais os funcionários, como massagistas e roupeiros, que recebem menos e, por isso, são os mais afetados em caso de um surto de COVID-19 nos clubes em que trabalham.

No dia 15 de março de 2021 foi instituída a nova fase de restrições do estado de São Paulo, a fim de reduzir o número de pessoas circulando e aumentar as medidas de isolamento social foram instituídas obrigatoriedade de home office em alguns setores, escalonamento da saída do trabalho almejando reduzir o número de pessoas em transporte público, fechamento de bares e restaurantes com o funcionamento somente para delivery e drive-thru, cancelamento das aulas por 15 dias e também a suspensão de atividades esportivas coletivas profissionais e amadoras do dia 15 ao dia 30 de março.

A partir dessa restrição do governo de São Paulo, a Federação Paulista de Futebol (FPF) divulgou uma nota em conjunto com o sindicato dos atletas e da arbitragem que aponta a possibilidade de jogos do Paulistão em outros estados e também “2-) A partir da falta de argumentos científicos e médicos que sustentem a paralisação das referidas rodadas neste momento, os clubes delegaram à FPF também a possibilidade de judicialização do caso para garantir a continuidade da competição no Estado de São Paulo neste período de Fase Emergencial.” (Nota FPF, 2021 [grifo nosso]).

A primeira medida sugerida em nota está sendo reavaliada após a negativa de Minas Gerais em receber o jogo do campeonato paulista, dada às condições do estado mineiro, o qual aumentou as restrições e suspenderam por 15 dias atividades esportivas, como futebol e vôlei. Quanto à segunda medida houve uma reunião no dia 18 de março da FPF com os clubes, na qual desistiram de prosseguir com a judicialização e não haverá rodada durante esse final de semana. É preciso refletir sobre algumas questões acerca desta temática.

O prosseguimento dos jogos de outros estaduais e da Copa do Brasil expõem os funcionários dos clubes, principalmente entre os clubes de menor investimento. Para analisar a conjuntura é necessário refletir para além da esfera dos atletas, pois com protocolos de segurança frágeis, os funcionários do clube, de modo geral tornam-se suscetíveis ao contágio e o risco da doença, no entanto, diferentemente dos atletas, estes funcionários podem ser mais velhos e com comorbidades.

Se por um lado há esta preocupação, a fala do goleiro Marcão, do clube Sergipe, ao final da partida contra o Cuiabá pela primeira fase da Copa do Brasil aponta para o desamparo financeiro sofrido pelos clubes de menor investimento, outro ponto desta realidade que deve ser discutido. Durante a entrevista o goleiro informou que defendia a continuidade do campeonato, pois ano passado receberam com atraso os pequenos salários, em comparação aos clubes de maior investimento. O time sergipano compareceu a essa partida com apenas seis atletas no banco de reservas (dentre os seis, três eram goleiros), pois nove atletas e o técnico testaram positivo para COVID. É preciso refletir qual o papel da CBF e das Federações de futebol frente a esta situação. Este é um fenômeno percebido para além da esfera esportiva, muitos trabalhadores se expõem ao vírus para continuar em um trabalho e garantir a segurança financeira para ao menos terem o quê comer. Devemos refletir sobre o papel das federações, da confederação e do Estado para a garantia da segurança destes cidadãos.

Quais são os termos da segurança nos estádios em tempos pandêmicos? Não é possível restringi-los a medidas de prevenção e controle quanto ao conflito e à violência, já que não há presença física de torcida. A maior preocupação deve, então, estar na segurança relativa à saúde de jogadores e demais profissionais presentes ao estádio. A segurança sanitária tornou-se uma preocupação mais patente e uma questão de saúde pública nesse contexto. Será que as organizações de todos esses campeonatos estão atentas a este modelo de segurança do modo devido? Será que os clubes estão prezando pela segurança dos funcionários que podem sofrer os danos dessa doença de modo mais significativo? Qual é o papel da entidade máxima do futebol brasileiro perante esse cenário? Será que é viável a continuação de um campeonato que conta com a presença de 80 clubes e prevê o deslocamento das delegações em um momento em que o número de leitos disponíveis no país estão cada vez menores? É possível continuar um campeonato onde o clube não possui atletas suficientes por conta do surto de COVID? Quais as garantias e seguridades ofertadas a esses funcionários que trabalham com o futebol (sejam atletas ou não)? Quais os limites esperados para a continuidade ou a interrupção das atividades esportivas brasileiras? Se houver a interrupção, quais serão as seguridades ofertadas para os clubes de menor investimento? As respostas para essas questões ainda estão em aberto, mas se faz necessária à reflexão sobre a realização dos campeonatos em face da conjuntura nacional, um contexto de agravamento da crise da saúde pública brasileira e à disseminação cada vez maior e mais descontrolada do vírus.

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Parem o futebol!

A Copa do Brasil de 2021 começou na terça-feira (9) com dois jogos, mas até esta próxima quinta-feira terão sido realizadas outras 39 partidas pela competição nacional. Espalhadas por 24 estados diferentes.

A partida que abriu a competição foi realizada entre o Águia Negra, do Mato Grosso do Sul, contra o Vitória.

O time baiano viajou mais de 2 mil quilômetros até o município de Rio Brilhante, no interior do Mato Grosso do Sul, para jogar contra o time da casa num estádio com capacidade para 8 mil torcedores.

Essa costuma ser a regra na primeira fase da competição, a propósito. Viagens longas, municípios e estádios menores, estruturas limitadas.

Não há problema nisso, diga-se. A beleza da Copa do Brasil é justamente a sua diversidade. Não fosse o “detalhe” de que, em meio a esta edição específica, o Brasil vive o seu pior momento na pandemia de Covid-19.

Na semana passada, o país registrou 10 mil mortes. É a primeira vez desde que a Covid-19 chegou ao país que isso aconteceu. Nunca se morreu tanto em tão pouco tempo por causa da doença. E, a despeito de tudo isso, a competição foi iniciada.

A Confederação Brasileira de Futebol, as federações estaduais, os clubes, todos mentem ao dizer que tudo será feito de forma segura e respeitando rígidos controles sanitários.

Sim, sem meias palavras. Isso é mentira!

E só mostra que os dirigentes da CBF não conhecem – ou fingem não conhecer – o futebol que administram tão mal. Não entendem de Brasil. Não deixam a luxuosa sede do Rio de Janeiro para rodar pelas cidades mais longínquas desse país com dimensões continentais.

Não importa se os jogos acontecem sem torcidas. As aglomerações, os fluxos de pessoas, as viagens, e a consequente infecção em massa, serão inevitáveis no curso do campeonato.

Ainda na terça-feira, por exemplo, Campinense e Bahia jogaram no Estádio Amigão, em Campina Grande. O Tricolor deu uma saraivada na equipe paraibana, metendo um simbólico 7 a 1. Lembrei imediatamente do famoso bordão “gol da Alemanha” que nos atormenta desde 2014, e não só necessariamente no contexto futebolístico.

Pois, ele volta a nos atormentar.

A partida aconteceu em território paraibano. Num estado que está à beira de um colapso em seu sistema de saúde, com UTIs com taxa de ocupação superior aos 90% e com recorde de morte diárias sendo batidas a cada dia.

Na quarta-feira (10), dia seguinte ao jogo, a Paraíba registrou 50 mortes num único boletim epidemiológico e superou a marca de 30 de junho de 2020, que até então detinha o recorde para um único dia. No âmbito nacional, outro recorde: 2.349 mortes em 24 horas.

A situação caótica se repete, por exemplo, em Manaus, cidade que já entrou em colapso e que receberá jogo na semana que vem.

Em meio à tanta insanidade, parece que a única voz lúcida é a de um técnico que, ironia das ironias, recebe o apelido de “doido”. Pois foi o chamado Lisca Doido, atualmente no América Mineiro, o único nome público do futebol nacional a se posicionar contrário ao futebol no momento atual.

Foi criticado por muitos de seus pares, diga-se, mas ele não falou mais do que obviedades. No Brasil governado por genocidas, o óbvio parece ser revolucionário.

Mas, enfim, fato é que não tem sentido manter o futebol e permanecer indiferente à quantidade de mortes diárias.

Levantamento recente do Esporte Espetacular, da TV Globo, mostra que foram 320 os jogadores da Série A do Brasileirão que se infectaram com a Covid-19 ao longo da competição. Já reportagem do El País enumera o “rastro de morte” deixada pela pandemia no futebol nacional.

São dados emblemáticos. Porque, se os clubes mais bem estruturados do país demonstram não ter ideia de como controlar a pandemia, os casos, as mortes, o que dirá da grande maioria dos clubes brasileiros, participantes da Copa do Brasil, que, não raro, viajam e jogam sem nem mesmo a presença de um médico?

Vai ser uma carnificina. E a CBF, para variar, vai ser cúmplice de toda essa mortandade.

Fonte: Guarulhos Hoje
Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo nono episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo nono episódio é “A Arbitragem no Futebol”. Com apresentação de Mattheus Reis e Leticia Quadros, gravamos remotamente com José Carlos Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru) e ex-árbitro da Federação Paulista de Futebol.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo nono episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “E o juiz apitou“, composta por Antonio Almeida e Wilson Batista.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Conto Abril , no Rio , em 1970” – Rubem Fonseca

Boleiros – Era uma Vez o Futebol… – Ugo Giorgetti (diretor)

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Fausto Amaro e Leticia Quadros
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Leticia Quadros
Convidado: Ronaldo Helal

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Qual a punição para racismo no futebol brasileiro?

Mais uma temporada do futebol brasileiro se iniciou. Mesmo com atraso ocasionado pelo aperto do calendário da temporada 2020, por conta da Covid-19, a bola já está rolando pelos campeonatos estaduais ao redor do país. Além das discussões táticas e técnicas do esporte, um tema que certamente será recorrente em mais um ano será o racismo. Pensando na gravidade dessa situação, resolvo escrever esse artigo abordando principalmente o que diz a legislação da Justiça Desportiva do Brasil no combate desse crime. É sempre importante salientar o caráter criminoso que o racismo tem no Brasil, descrito tanto na vara civil/criminal, quanto na desportiva.

Ao final, trarei alguns dados referentes a aplicação da lei referente ao ano de 2019, com base na pesquisa sistêmica produzida pelo Observatório da Discriminação Racial no futebol e publicada no “Relatório Anual da Discriminação Racial no Futebol 2019”.

Justiça Desportiva

A Justiça Desportiva brasileira atua apenas na área administrativa e não pertence diretamente ao Poder Judiciário brasileiro. Ela tem o objetivo de fazer cumprir o Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que é formado por um conjunto de instâncias autônomas e independentes das entidades de administração do esporte. A existência da Justiça Desportiva está prevista no artigo 217 da Constituição Federal e seu funcionamento é similar ao dos órgãos do judiciário brasileiro, que julga casos de acordo com denúncias realizadas por procuradores, por exemplo.

Diferentemente da legislação criminal brasileira, a Confederação Brasileira de Justiça Desportiva (CBJD), não faz a distinção dos crimes de injúria racial (art. 140, § 3º do Código Penal) e Racismo (Lei n. 7.716/1989). No Art. 243-G ele descreve “Praticar ato discriminatório, desdenhoso ou ultrajante, relacionado a preconceito em razão de origem étnica, raça, sexo, cor, idade, condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência”.

Desde 2009, a Justiça Desportiva passou a julgar os casos de racismo de acordo com o esse artigo. Isso revogou a previsão de infrações individuais físicas e morais, criando outras condutas puníveis, incluídos pela resolução CNE nº 29 de 2009. Os casos são encaminhados à Justiça Desportiva (TJD e STJD) através de denúncias dos Procuradores, geralmente são baseados nas súmulas das partidas.

A pena por praticar um ato discriminatório no futebol brasileiro, de acordo com o STJD é suspensão de cinco a dez partidas, se praticada por atleta, mesmo se suplente, treinador, médico ou membro da comissão técnica, e suspensão pelo prazo de cento e vinte a trezentos e sessenta dias, se praticada por qualquer outra pessoa natural submetida a este Código, além de multa, de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais).

Caso um torcedor seja denunciado por prática racista no futebol, por exemplo, ele será julgado e poderá ser suspenso de 120 a 300 dias e poderá pagar uma multa de R$ 100,00 (cem reais) a R$ 100.000,00 (cem mil reais). A Justiça Desportiva ainda prevê outras punições a depender das circunstâncias que a situação ocorra.

1º Caso a infração prevista neste artigo seja praticada simultaneamente por considerável número de pessoas vinculadas a uma mesma entidade de prática desportiva, esta também será punida com a perda do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente, e, na reincidência, com a perda do dobro do número de pontos atribuídos a uma vitória no regulamento da competição, independentemente do resultado da partida, prova ou equivalente; caso não haja atribuição de pontos pelo regulamento da competição, a entidade de prática desportiva será excluída da competição, torneio ou equivalente.

2º A pena de multa prevista neste artigo poderá ser aplicada a entidade de prática desportiva cuja torcida praticar os atos discriminatórios nele tipificados, e os torcedores identificados ficarão proibidos de ingressar na respectiva praça esportiva pelo prazo mínimo de setecentos e vinte dias.

3º Quando a infração for considerada de extrema gravidade, o órgão judicante poderá aplicar as penas dos incisos V, VII e XI do art. 170.

Das espécies de penalidades

V – perda de pontos;

VII – perda de mando de campo;

XI – exclusão de campeonato ou torneio.

Registros de punições em 2019

Segundo o Relatório Anual da Discriminação Racial do Futebol de 2014 e 2019 houve um aumento de 235% nos casos denunciados de suspeita de racismo no futebol. Dos 67 casos registrados como “suposto caso de racismo”, até o fechamento do relatório, 53 (cinquenta e três) casos aconteceram nos estádios de futebol e poderiam ser julgados pela Justiça Desportiva quando a competição tem realização da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que possui prazo de até sessenta dias para tomar uma decisão, se houver denúncia, e/ou pela Justiça Comum (Cível e/ou Criminal). Um mesmo caso pode ser julgado nas duas esferas da Justiça, sendo que na Justiça Penal, processo Cível e/ou Criminal, nos casos de injúria racial, a vítima deve entrar com representação.

Dos 53 casos registrados nos estádios e identificados pelo Observatório da Discriminação Racial, em 13 o relatório obteve informações de julgamento pela Justiça Desportiva. Em 10 casos os julgamentos levaram a punições que foram de multa de R$ 400,00 + atleta suspenso por três partidas – a mais branda – até seis jogos de suspensão para o atleta julgado. Os outros três casos foram julgados e absolvidos pelo TJD ou STJD.

O Relatório apontou que em 2019 foram identificados 10 casos os quais existem a informação de que os incidente racistas constam na súmula do jogo, mas não foram encontradas informações de julgamentos dos incidentes raciais. Houve outro caso que o Relatório não encontrou informação que o incidente constasse na súmula, porém foi encontrado a publicação de uma “Manifestação de Repúdio”, da Federação o que comprova que a mesma teve ciência do fato, contudo não se encontrou informação de julgamento pelo TJD.

Já em outros dois casos os incidentes não constam na súmula da partida, porém manifestações do STJD (Superior Tribunal de Justiça Desportiva) foram encontradas ao qual dizia que iria abrir inquérito para analisar as denúncias. Em um caso a investigação foi aberta pela entidade, mas não foi encontrado o resultado do processo pelo Relatório.

Dos sete casos que ocorreram via internet, em um houve registro de Boletim de Ocorrência que foi registrada no artigo 140 do Código Penal, como injúria, e o processo está em andamento na justiça. Em um caso o agressor foi identificado e suspenso pelo conselho do clube, ainda não de forma definitiva, neste mesmo caso a polícia civil abriu inquérito para investigar a situação, mas o documento não encontrou informações do andamento do processo. Nas outras cinco ocorrências não foram encontradas informações de qualquer procedimento por parte das vítimas, clubes ou autoridades

Em relação aos sete casos que ocorreram fora dos estádios e da internet, em cinco não foram encontradas informações sobre registro de ocorrência e/ou alguma punição aos envolvidos. Em um caso o Ministério Público, de São Paulo, denunciou o agressor, mas o Observatório não encontrou informações sobre o andamento do processo. Em um caso o clube expulsou o agressor do seu quadro de associados.

Foto: Reprodução

Fonte:

CÓDIGO BRASILEIRO DE JUSTIÇA DESPORTIVA, 2009.

Relatório da Discriminação Anual do Futebol 2019: https://observatorioracialfutebol.com.br/Relatorios/2019/RELATORIO_DISCRIMINCACAO_RACIAL_2019.pdf, acesso em 07 de março.

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O Inesgotável Pelé (contém spoilers)

A imagem de um ídolo pode permanecer eterna? Em tempos onde megacomputadores e nuvens armazenam uma infinidade de dados, a resposta parece ser obviamente positiva, pelo menos quando se trata da preservação de dados ou imagens sobre ele. Mas é possível ir além de ser apenas mais um verbete numa imensa enciclopédia virtual? Nesse caso a situação é mais delicada, pois exigiria que esse ídolo, independentemente de sua área de atuação, estivesse mais presente no dia-a-dia das pessoas. É o caso de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé; primeiro jogador a alcançar o patamar de ídolo mundial e que, por isso mesmo, se notabilizou com a alcunha de Rei do Futebol. Sua grandeza nos gramados foi de tal monta que até hoje tem a majestade eternizada graças a filmes, documentários, livros, histórias em quadrinhos e até videogames. Mesmo quase cinco décadas após “pendurar as chuteiras”, o Atleta do Século XX, mantém seu prestígio.

1981: Pelé recebe o título de atleta do século (fonte: L’Equipe)

O menino e a lenda

O brilho da carreira de Pelé, com suas atuações acima da média, conquistas e gols, muitos gols, gerou, evidentemente, um enorme interesse em torno do garoto talentoso que despontava no Santos Futebol Clube. Após a conquista do sonhado primeiro título mundial pela Seleção, em 1958, na Suécia, o jovem craque, de apenas 17 anos se tornou, então, o centro das atenções.

O franzino herói mal alçava a glória e sua trajetória já começava a ser contada, nem sempre, todavia, se baseando apenas na fidelidade jornalística dos fatos, como no caso do filme dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen. A abertura do filme “O Rei Pelé”, de 1962 relata a seguinte frase, que teria sido dita pela parteira que trouxe o bebê Edson ao mundo: “O filho de vosmecê vai ser rei. Rei do mundo!”, numa clara alusão a uma suposta predestinação de Pelé. O longa metragem filmado em parceria com o produtor Fábio Cardoso se preocupava em reforçar a questão da superação da pobreza e “derrapava” no ufanismo ao descrever o Brasil como uma terra sem preconceito de cor, de raça ou de religião. Terra onde um menino como Pelé podia se tornar rei.

Cartaz do filme de 1962 (fonte: Internet)

Discursos assim estavam muito em voga nos anos 1960, os chamados “Anos Dourados”. No livro “Viagem em Torno de Pelé”, de 1963, o jornalista Mario Filho também tratou de narrar a vida daquele que classificou como “o primeiro cidadão do mundo que o Brasil já produziu” (esquecendo-se, propositalmente, de nomes como Carmen Miranda ou Santos Dumont, por exemplo). O enredo narra a saga de seu protagonista: um menino pobre e negro, que passa por uma série de dificuldades, mas, no final, conquista o seu reinado. A clássica trajetória do herói.

Não faltaram, em todos esses anos, livros e filmes sobre Pelé. Publicações chegam a quase 20, inclusive escritas por autores estrangeiros. Também há uma autobiografia publicada em 2006. Nas telas, além do filme citado acima, outras três produções foram realizadas sobre o jogador: “Isto é Pelé” (1974), “Pelé Eterno” (2004) e “Once in a lifetime” (“O mundo a seus pés”), sobre a passagem pelo New York Cosmos. Pelé também participou de alguns filmes como ator, interpretando papéis de ficção e até aparecendo como ele próprio, como no caso do filme “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” (1986).

Um novo olhar

Independente de tudo o que já se falou e já se mostrou de Pelé, o tema parece nunca se esgotar. É o exemplo do mais recente documentário sobre o Rei, lançado recentemente pelo portal de streaming Netflix. Com o título “Pelé”, o documentário de 108 minutos de duração, dirigido pelos britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas proporciona novas experiências, mesmo para aqueles que já conhecem mais profundamente a carreira de Edson Arantes do Nascimento.

 A chegada do ex-jogador para o local onde seria conduzida a entrevista já nos choca. Um frágil Pelé caminha com a ajuda de um andador até a cadeira situada em meio a uma sala vazia. Uma imagem que é o oposto de todas aquelas que nos acostumamos a guardar na memória.

Talvez por ser dirigido por dois estrangeiros e, provavelmente, para agradar um público mais amplo, “Pelé” se atém a analisar o personagem e não apenas por seu impressionante desempenho nos gramados, mas dando espaço ao Edson (como o próprio Rei gosta de se referir a si próprio; na terceira pessoa).

Mesmo em quase duas horas de filme, fica claro que é impossível abordar todos os aspectos necessários para um perfil completo. No entanto, o documentário nos traz questionamentos que muitas vezes relevamos, levados pela crença de sua predestinação para o talento. As cenas de um Pelé bem menino já envergando a camisa do Santos e revolucionando a história de um clube através de suas jogadas e gols, por exemplo, me fizeram refletir sobre como tal carga de responsabilidade poderia ser absorvida por aquele imberbe adolescente. Como lidar com cobranças e idolatria tamanhas? E para nosso espanto e de todos os que tiveram o privilégio de acompanhar o surgimento de um gênio da bola, a tarefa lhe parecia suave, talvez porque acreditasse piamente na frase dita por seu pai e ex-jogador Dondinho: “Não há o que temer. Dentro de campo todos são iguais”. Tanto que em seus primeiros 4 anos de carreira já havia marcado mais de 350 gols.

O menino que já era craque. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

Da glória da conquista de 58 à frustração da contusão na Copa de 1962, no Chile, o documentário trata de mostrar como a vida do jovem de pouco mais de 20 anos havia mudado, com compromissos de carreira sendo mais implacáveis do que zagueiros “botinudos”. Pelé se transformara no mais requisitado garoto-propaganda e figura obrigatória em grandes eventos. A carreira e a vida pessoal sentiram.

Após o fiasco na Inglaterra, em 1966, onde mais uma vez saiu contundido, Pelé dava entrevistas afirmando que não dava sorte em Mundiais e que aquela seria sua última Copa, mesmo tendo apenas 26 anos.

O (a)político Pelé

Um dos motes do documentário era traçar um paralelo entre a carreira do Rei com o período da Ditadura Militar no Brasil. Tanto no depoimento para os diretores quanto em entrevistas ntigas fica claro que Pelé nunca se atreveu a questionar o cenário além das quatro linhas. Afirmava que não tinha como saber o que acontecia ao certo e que o papel dele era jogar futebol.

Após marcar o gol mil, que aliás contou com cenas que nunca tinha visto, inclusive com entrevistas antes e após a partida concedidas à jovem jornalista Cidinha Campos, Pelé foi convidado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici para ir a Brasília. Foi levado do aeroporto ao Palácio do Planalto em carro aberto e lá recebeu os cumprimentos do ditador pelo feito.

O Rei e o ditador. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

É claro que atitude foi mal vista por quem se opunha ao regime de opressão que, nos finais dos anos 1960, após a promulgação do AI-5, se encontrava mais sanguinário do que nunca. Exigiam do jogador uma postura mais combativa, como a tomada pelo boxeador americano Muhammad Ali, preso por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã. Mas, em uma entrevista para o documentário, o jornalista Juca Kfouri lembra que eram situações bem diferentes. Segundo ele, Ali não seria morto na prisão, porém o mesmo não se podia dizer de Pelé. “Só quem já viveu numa Ditadura Militar sabe onde arde”, lembrou Juca.

O governo queria, a todo custo, que o Brasil vencesse a Copa do México e Pelé fazia parte dessa estratégia. O filme não deixa claro que tenha havido qualquer tipo de pressão para que ele revogasse a promessa de não mais jogar Mundiais, mas fica subentendido que havia uma cobrança sobre o Rei para a conquista da Taça. A comissão técnica era basicamente formada por militares e o treinador João Saldanha (um militante comunista), após classificar suas “Feras” nas eliminatórias, foi devidamente substituído por Zagallo. Mais um ponto para o documentário em relação à narrativa desse período turbulento; são apresentadas entrevistas raras de Saldanha que ajudam a mostrar como era clara sua postura beligerante em relação às normas que o Regime exigia, uma “briga” que respingou até para Pelé, acusado por Saldanha de ter um problema de visão que comprometeria suas atuações.

 Ao desembarcar de volta do México, com a taça em mãos, a primeira parada da Seleção foi na Capital Federal. O roteiro planejado tinha sido cumprido com louvor. E não apenas Pelé, mas todos aqueles jogadores, contrafeitos ou não, tiveram que participar da cerimônia.

Nas ruas, tanto durante o Mundial, quanto na recepção aos campeões, se deu uma espécie de hiato cívico, mesmo quem sabia que a vitória contava pontos para a Ditadura, acabou não resistindo à magia daquela seleção e comemorou.  Ao fim do documentário, numa rara opinião sobre essa questão, Pelé afirmou: “A Copa de 70 foi importante para o País. Se perdêssemos, poderia piorar tudo. O fato de a gente ser campeão fez com que o país todo desse uma respirada. Eu acho que 70 foi mais pro país do que pro futebol”.

A riqueza de um reinado

Um dos maiores méritos do documentário “Pelé” está na bela pesquisa de imagens e áudios que ajudou a resgatar pérolas da tão decantada carreira do Rei do Futebol e que se mantinham praticamente inéditas. Cenas que nos surpreendem, encantam e emocionam.

A fragilidade de Edson se contrapõe à vitalidade de cada lance, cada gol mostrado. Suas falas são curtas e não me parece que essa tenha sido uma opção da edição. Apesar de ainda ter 81 anos, o Rei parece um nobre cansado de tantas batalhas e se atém, quase todo tempo, apegado às mesmas respostas estudadas como fez durante toda a carreira, evitando riscos que julgue desnecessários à sua imagem.

Contudo, surpreendentemente, o documentário de Tryhorn e Nicholas nos traz um presente. Um outro Pelé, sorridente e descontraído, ao participar de um encontro com seus ex-companheiros de Santos. Parecem, mesmo, duas pessoas diferentes. Talvez, porque naquele instante, a máquina do tempo da emoção tenha entrado em ação. Naquela hora, ao lado daqueles que dividiram com ele o prazer do futebol, o Rei deixa cetro, manto e coroa de lado e se permite disfrutar aquele momento, livre de qualquer compromisso ou cobrança. Afinal, como bem disse Dondinho, ali, eram todos iguais.

Os Santos do Rei (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)
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Sobre clubismo, resultadismo e ausência de craques

Poucas questões expõem, de forma tão didática, os vazamentos da objetividade no jornalismo esportivo do que as previsões daqueles que, nesse campo, apresentam-se como comentaristas de esporte. A recente contrição a que grande parte desses sujeitos foi levada pela rememoração de que, no início do Campeonato Brasileiro, apontavam o Santos como um dos candidatos ao rebaixamento foi apenas um dos, não poucos, capítulos em que, sob a capa de previsões ou palpites, deixam escapar o que muitos torcedores identificam como clubismo.

O clubismo, na editoria de esportes, seria o equivalente ao partidarismo na seção de política ou à defesa do rentismo nas páginas de economia. Uma diferença relevante, porém, é que, raramente, um jornalista dessas duas últimas editorias cogitaria a hipótese de explicitar as suas preferências político-partidárias ou de modelos econômicos. Essas têm de serem inferidas por leitores detentores de cardápio que vá além do senso comum ou da mera ignorância dos complexos interesses que envolvem aqueles dois campos.

Na seção de esportes, no entanto, não é incomum que jornalistas revelem suas preferências clubísticas, embora existam exceções em estados de polarização binária e radicalizada, como o Rio Grande do Sul. Tal explicitação de preferências, porém, raramente é acompanhada do reconhecimento de que elas podem implicar alinhamento profissional com os clubes pelos quais torcem. Ao contrário, o ordinário é a proclamação de que elas não interferem em suas análises e opiniões. Curiosa e emblematicamente, tal declaração de fidelidade à objetividade jornalística é diamentralmente oposta à percepção que um numeroso grupo de torcedores tem sobre esses profissionais.

Aqui, faz-se necessário ressalvar a crescente intolerância dos torcedores a qualquer crítica e/ou opinião que contrarie as suas próprias convicções sobre o seu clube e sobre os adversários. Certamente, a intolerância a opiniões divergentes não é um fenômeno que tenha surgido contemporaneamente. No entanto, a crescente polarização da nossa sociedade e o amplo acesso às mídias sociais potencializaram tal sentimento. Mas, para além da negação à alteridade, a atitude dos torcedores também é alimentada pela percepção de que muitos jornalistas são clubistas. Por essa ótica, não haveria grande distinção entre eles e os torcedores que, ao menos, explicitariam sua adesão incondicional a um clube sem qualquer compromisso profissional ou com a objetividade.

Tal percepção por parte de parcelas numerosas do público é potencializada pelo acesso que os torcedores têm às mídias sociais nas suas diferentes plataformas. Na batalha para defender seus clubes e atacar aqueles que consideram adversários das suas agremiações, os torcedores não se valem apenas da paixão. Não raro, como tratamos em artigo anterior[1], também recorrem à gramática jornalística, cobrando dos jornalistas coerência com opiniões pretéritas adotadas, em situações comparáveis, em relação a clubes adversários. Seja no tratamento da derrota numa partida importante ou na análise da atuação do VAR em lances capitais.

E, como confirma vasto material empírico disponível na internet, parte dele encontrável no texto anteriormente mencionado, torcedores céticos em relação à neutralidade do jornalismo esportivo têm fortes motivos de reafirmação da sua (des)crença. No entanto, não apenas a identificação de jornalistas ao clubismo e a negação à alteridade alimentam a descredibilização do jornalismo esportivo.

Dominada pelo resultadismo, a imprensa, e não apenas a brasileira, nos dizeres de Marcelo Bielsa, “se especializou em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”. Em encontro promovido pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em 2018, Bielsa justificou seu diagnóstico: “O mesmo comportamento que se utiliza para amplificar (o reconhecimento)  na vitória é o que se utiliza para condenar o comportamento na derrota”.

Ele exemplificou sua afirmação observando que, se Neymar retoma a bola de um adversário e a seleção brasileira ganha oito partidas seguidas, Tite seria elogiado por ter feito o atacante jogar coletivamente, e não apenas individualmente. No entanto, à primeira derrota, o mesmo treinador seria atacado pela imprensa porque, em vez de pôr Neymar mais perto da área adversária, optara por colocá-lo para perseguir o marcador rival.

Essa gramática esquizofrênica da imprensa apontada por Bielsa já fora sintetizada, no século passado, de forma mais crua pelo também treinador Oto Glória: “Se vences, és bestial. Agora, se perdes, és uma besta, mesmo.” Em essência, ela converge com a lógica passional do torcedor, que, em poucos minutos, pode passar da perseguição a determinado jogador do seu time, a gritar com entusiasmo o nome do mesmo jogador, após este marcar o gol da vitória.

Fonte: UOL

A diferença entre o resultadismo do torcedor e o do jornalista é que o primeiro, assumidamente, é amador, e o segundo, reivindica-se profissional e defensor da objetividade. Obviamente, como em qualquer esporte de competição, a vitória é o principal combustível do futebol. No entanto, deveria existir algum espaço para aqueles que se pretendem comentaristas ou analistas enxergarem além do resultado imediato e/ou não serem pautados pelas mídias sociais.

Embora o clubismo não confesso tenha origem bem mais distante da contemporaneidade, existe um elemento que tem contribuído para desmoralizar precocemente as previsões dos jornalistas: a ausência de craques nos gramados brasileiros. Num futebol cada vez mais nivelado por baixo, as diferenças salariais, ainda que substantivas, não se materializam, na mesma proporção, no campo.  Ainda que clubes com mais recursos possam, por exemplo, pagar salários até sete vezes superiores aos seus atletas em relação a jogadores dos adversários, os primeiros não conseguem jogar sete vezes mais do que os jogadores de um time que faça da entrega tática do seu elenco seu principal ativo.

Como, embalada pelo resultadismo e, não raro, resvalando no clubismo, a imprensa esportiva superfatura o futebol de bons jogadores, tornou-se comum que, em partidas decisivas, quando tensão, cobrança e marcação adversária são mais intensas, os “craques” da mídia esportiva não correspondam à construção dos personagens que ela própria criou.

Foi o que aconteceu, apenas para mencionar exemplo que, na montanha russa que marca o tempo no futebol, parece longínquo, ocorreu há menos de um mês e meio, nas semifinais da Copa do Brasil, entre Grêmio e São Paulo. Nesse confronto, “craques” como o veterano Daniel Alves não conseguiram desequilibrar as partidas a favor do São Paulo, particularmente, no segundo jogo, embora o clube paulista tivesse maior controle da partida, mas sem ameaçar o Grêmio. Resultado: em vez de constatar que, num futebol nivelado e sem craques, as partidas tendem a serem muito equilibradas e podem ser decididas por lampejos ou falhas individuais, a imprensa optou por…criticar Fernando Diniz. O mesmo que, na ótica de Bielsa, seria incensado se o São Paulo vencesse a partida, como esteve mais próximo de fazer no primeiro jogo em Porto Alegre. Enquanto isso, Renato Gaúcho era exaltado pelo mesmo jornalismo esportivo que, mais uma vez na gramática de Bielsa, o criticaria por recorrer à mesma tática que o levou à vitória, caso o vencedor fosse o time de Diniz.

Pouco mais de um mês depois, foi a vez de Cuca ser eleito “a besta” pelo jornalismo esportivo, após o Santos ser derrotado por 1 x 0, pelo Palmeiras, quase no último minuto de uma partida arrastada, em que os goleiros dos dois times não fizeram uma única defesa. Dessa vez, o “bestial”, para os jornalistas esportivos, foi o português Abel Ferreira, também candidato a ser execrado caso, a bola alçada à área poucos instantes antes da prorrogação parasse dentro do gol do Palmeiras.

Tal dicotomia impôs-se à questão que mais saltou aos olhos dos que veem além do resultado. Se os dois clubes com as duas melhores campanhas da Libertadores produzem uma final tão sem brilho e sem que nenhum único “craque” se destaque, isso não deveria sinalizar um diagnóstico mais amplo do nível do futebol praticado no Brasil e no continente para muito além dos dois times em campo? Ou a melhor síntese é mesmo que, entre Cuca e Abel Ferreira, deve-se escolher o segundo, como pregou, por exemplo, Juca Kfouri? Pelo menos, até o segundo ser derrotado pelo Tigres, do México, no Mundial de Clubes, numa partida em que sua equipe acertou apenas uma finalização na direção do gol do adversário.

Fonte: Gandula FC

[1] Internet x imprensa: um jogo paralelo no Mundial de Clubes –  Redes sociais recorrem ao jornalismo para criticar cobertura da imprensa (https://comunicacaoeesporte.com/2020/02/27/internet-x-imprensa-um-jogo-paralelo-no-mundial-de-clubes/)

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Dois anos do incêndio no Ninho do Urubu: algo mudou nas categorias de base brasileiras?

No próximo dia 8 de fevereiro de 2021 completam dois anos do incêndio no alojamento das categorias de base do futebol do Clube de Regatas do Flamengo. Naquela madrugada, dez jovens morreram e outros tantos ficaram feridos em decorrência das instalações improvisadas e dos falhos protocolos de segurança oferecidos pelo clube aos seus jovens atletas.

Dois anos após a maior tragédia da história do futebol de base do Brasil, as investigações e responsabilizações dos culpados ainda caminham de forma lenta. Somente no início de 2021, quase dois anos após o incidente, a justiça recebeu denúncia e tornou réus onze pessoas, entre elas o ex-presidente do clube Eduardo Bandeira de Mello. No que tange as indenizações pelo incêndio, as negociações com muitas famílias se arrastaram por mais de um ano e meio, sendo que, ainda existem famílias que não conseguiram entrar em acordo com o clube.

O incêndio no alojamento da base do Flamengo no Ninho do Urubu foi o evento mais trágico, mas infelizmente não foi o único no Brasil. Outros ocorreram anteriormente e foram tratados pela mídia com igual atenção. Isso nos mostra que, os problemas que afetam as categorias de base no Brasil são muito mais amplos que a tragédia no Ninho do Urubu e, não se resumem a ela. É difícil, mas temos que reforçar que não se trata de um caso isolado. Quando nos vemos frente a um fato tão traumático e amplamente noticiado pelos veículos de imprensa normalmente vemos surgir debates e cobranças sobre como podemos evitar situações parecidas.

Relatórios encomendados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em 2018 sobre as categorias de base do futebol no Brasil apontam para existência de pouca estrutura física e organizacional para acolher os jovens atletas em formação. Isso significa ausência de alojamentos, refeitórios, profissionais para o acompanhamento diário e até mesmo documentação válida para se responsabilizarem por esses jovens. Além disso, reportagens vinculadas na mídia, bem como documentários dão conta do descumprimento da legislação vigente por parte de muitos clubes. Entre as principais infrações estão: Não matricular os atletas em escolas, mantê-los em condições análogas à escravidão, entre outras. Os problemas citados são potencializados pela pouca fiscalização dos órgãos governamentais e esportivos.

Diante disso, o que mudou na legislação e/ou na fiscalização das categorias de base brasileiras de 2019 para cá? Infelizmente a comoção da tragédia não se traduziu num movimento político-social em torno de uma maior regulamentação por parte dos direitos dos jovens atletas e da fiscalização dos centros de treinamento.

esportes.r7.com

Juridicamente nada foi proposto à nível municipal, estadual ou federal para que houvesse maior regulamentação sobre os centros de treinamento ou para que a condição de jovem atleta fosse tipificada nas leis para protegê-los melhor.

No Brasil, os jovens atletas continuam vivendo numa situação de subinclusão decorrente de inúmeras lacunas no direito brasileiro. A legislação reconhece a profissionalização, a educação, o lazer e a dignidade como direito dos jovens, mas inexiste a figura do atleta com vistas à profissionalização esportiva. As especificidades enfrentadas pelo jovem atleta em formação não são encaradas como necessárias a um tratamento particular a ponto de prover todos os seus direitos fundamentais, entre eles o direito à profissionalização.

A tragédia do Ninho do Urubu não conseguiu jogar luz sobre o debate dos problemas jurídicos acerca da efetivação dos direitos dos jovens atletas em formação. Mantem-se a estrutura pontuada pelos “emaranhados legais”, no qual diversas legislações citam tangencialmente determinados grupos sociais como possuidores de direitos, mas não se criam legislações específicas de proteção a esses grupos.

O reconhecimento das especificidades de certos grupos encontra vários exemplos na legislação brasileira. É sabida a existência de legislações específicas que abarcam as mulheres, os idosos, as crianças e outros grupos sociais. Essas legislações especificas visam tratar a situação de vulnerabilidade social na qual esses grupos se encontram.

A legislação brasileira contempla o jovem trabalhador, o jovem aprendiz e o jovem estudante, mas mostra-se lacunar pela ausência de um dispositivo que trate a especificidade do jovem que almeja a profissionalização esportiva. Infelizmente esse debate não foi proposto após uma tragédia de proporções tão grandes.

A CBF tão pouco preocupou-se em estabelecer uma política nacional de formação de base, ou pelo menos fomentar uma política descentralizada e estadual de formação, por meio das federações locais. Limitou-se apenas a manter a certificação dos clubes brasileiros por meio do “certificado de clube formador” (CCF), mas sem impor sanções esportivas ou jurídicas àqueles que não obtivesse o selo proposto por ela. Atualmente no universo de aproximadamente 776 clubes profissionais no Brasil, menos de 50 possuem o certificado que atesta as condições básicas para o acolhimento dos jovens e desenvolvimento da prática esportiva.

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A situação mencionada mostra como as categorias de base no Brasil necessitam de fiscalização, contudo nenhum órgão foi criado nesse sentido. Basicamente o que vemos é a atuação quase heroica dos ministérios públicos do trabalho dos estados na investigação de denúncias nos centros de treinamentos Brasil a fora. Com destaque para o MPT de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

O cenário exposto nos mostra que a tragédia ensinou pouco ou quase nada aos clubes brasileiros, os gestores do futebol e aos legisladores do Brasil. Momentos de dor são normalmente oportunidades de reflexão e crescimento, mas o Brasil mais uma vez perdeu a chance de avançar e debater um assunto que envolve o sonho de milhões de crianças país a fora.

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Estaria Portugal recolonizando o Brasil?

Todo mundo já deve ter respondido a pergunta “quem descobriu o Brasil?” alguma vez na vida. A resposta certeira, “Pedro Álvares Cabral”, confirma o laço incontornável que une terras lusitanas e tupiniquins.

A história, em geral, é contada de forma romantizada colocando os colonizadores na posição de heróis, quando, na verdade, sabemos que não foi bem assim. O que se firmou em 1500 foi um vínculo entre colonizadores e colonizados que perdurou durante séculos anos a fio. Mesmo depois da Independência decretada por D. Pedro II, essa noção de atraso e subserviência continuou – e continua – marcante na atmosfera nacional. Não à toa uma das máximas de Nelson Rodrigues para justificar o comportamento brasileiro continua a fazer sentido até hoje. Sofríamos, segundo o escritor, de um “complexo de vira-latas”.

Se a relação entre Brasil e Portugal é marcada por certo ar de superioridade português, no futebol essa situação é diferente. Em vinte confrontos entre as duas seleções, são treze vitórias canarinhas e apenas quatro lusitanas. O Brasil, em número de grandes jogadores revelados e nível de dificuldade dos campeonatos nacionais é muito superior a Portugal. Entretanto, em 2019, “o jogo virou”. Devido ao meteórico e inquestionável sucesso do português Jorge Jesus a frente do Flamengo, os caminhos de Brasil e Portugal voltaram a se cruzar de forma mais intensa. Começou-se um questionamento imediato da qualidade dos técnicos brasileiros e uma corrida pela contratação de comandantes estrangeiros.

E foi exatamente mais um português que, no dia 30 de janeiro de 2021, sagrou-se campeão da Taça Libertadores da América. Torneio cujo nome é uma homenagem à libertação das nações da América do Sul. Irônico, não? As duas últimas conquistas da Libertadores tiveram como protagonistas duas figuras portuguesas colocando suas mãos na taça. Mãos diferentes das que chegaram aqui séculos atrás para nos colonizar, mas com o mesmo objetivo: a conquista da América.

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A vitória agora não era a única coisa que importava. Entrou em jogo a nova palavra da moda – performance. Uma das novas palavras da moda entrou em jogo. Encantar, vibrar, marcar. Todos em busca do modelo que JJ implantou no Flamengo em poucos meses de trabalho. Com essa expectativa, o olhar do Brasil se voltou novamente para a Europa em busca de outro técnico que repetisse o sucesso de Jesus. Na temporada de 2020, a série A do Campeonato Brasileiro bateu o recorde de técnicos estrangeiros. Um quarto dos times foi comandado por profissionais de outra nacionalidade. Foram eles: Eduardo Coudet (Internacional); Jorge Sampaoli (Atlético-MG); Domenéc Torrent (Flamengo); Ricardo Sá Pinto (Vasco) e Abel Ferreira (Palmeiras). Todos, exceto Sá Pinto, têm (ou tiveram), em seus clubes um aproveitamento superior a 60%. E, destaca-se, dois desses cinco técnicos estrangeiros são portugueses.

A minha posição nesse texto não é, de forma alguma, criar uma espécie de “nós contra eles”. Eu acho, sinceramente, maravilhosa e necessária a abertura de olhar do mercado brasileiro para o estrangeiro. Entretanto é inevitável a pergunta: ficaremos olhando técnicos estrangeiros dominarem nosso futebol? Novamente, não proponho esse questionamento por ser contra nenhum técnico estrangeiro. A questão não é de onde vêm, mas sim o que fazem. Entristece-me perceber que, quando olhamos para os técnicos que temos, não consigamos listar mais do que cinco (se tanto) que sejam de alto nível. Tite? Diniz? Cuca? Renato? Ceni? Nenhum é consenso. Com todo respeito aos “professores” brasileiros que comandam seus times, está na hora de fazer uma autocrítica, de entender que o futebol requer trabalho, que o modelo “paizão” está ultrapassado, que variações táticas são necessárias, que respeitar as características de cada jogador é essencial, e, principalmente, que estudar é parte importantíssima do ofício. E não é apenas sobre estudar o time adversário. É estudar o futebol. E de forma contínua.

Os técnicos estrangeiros são uma realidade. Resta ver o que os técnicos brasileiros farão diante disso. Ficaremos sentados sobre o famoso complexo de vira-latas ou absorveremos novas fontes como potência e estudo para termos um mercado nacional de técnicos igualmente competitivo? Espero que o Campeonato Brasileiro continue a ser fonte de um intercâmbio de ideias, estilos e técnicos, mas que isso também venha a fortalecer o nosso mercado interno. Nem todos os técnicos de outros países terão sucesso. Nem todos os brasileiros deixarão de ser campeões. Teremos trabalhos bons e ruins para todos os lados, mas inevitavelmente de 2019 para cá o olhar para esse grupo mudou. Não é sobre a busca desesperada por um técnico de outro país. E nem sobre a necessidade de algum brasileiro ser melhor do que eles. É sobre refletir o que estamos fazendo por aqui. Na coletiva depois da conquista da Libertadores, Abel Ferreira disse: “não há bons treinadores sem bons jogadores”. É uma daquelas frases que entra para o clube do ovo e da galinha. Bons jogadores nós temos. E muitos. Talvez nos faltem os treinadores…

Se for para o bem do futebol e felicidade geral dos torcedores, que os portugueses (e técnicos de quaisquer nacionalidades) possam ficar por aqui. E que possamos estabelecer uma relação de troca e simetria em prol do espetáculo.

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O jormachismo esportivo precisa entrar em pauta

O Esporte Espetacular, da Rede Globo de Televisão, exibiu durante os domingos 10[1] e 17[2] de janeiro de 2021 uma série de reportagens assinada por Henrique Arcoverde e produzida por Amanda Kestelman, Bárbara Mendonça e Renata de Medeiros sobre a Violência contra mulher. Ainda antes do início da matéria, a apresentadora Bárbara Coelho contextualizou o cenário nacional de violência contra a mulher no Brasil mostrando como acusações de agressões, estupros e assassinatos têm aparecido no cenário do futebol brasileiro.

O assassinato de Eliza Samúdio foi lembrado e ilustrado com uma fala do, então, goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, em 2010, naturalizando agressões entre casados. A agressão do, atualmente, goleiro do Atlético GO, Jean, sobre a ex-mulher Milena Bemfica, em 2019, também apareceu na matéria. Apesar de ter seu contrato suspenso com o São Paulo, o goleiro seguiu atuando na série A do Campeonato Brasileiro. A ex-esposa criticou que seu agressor possa seguir sua trajetória futebolística como se nada tivesse acontecido.

A matéria argumentou que o caso Robinho marcava um novo momento na relação entre o futebol e a violência contra a mulher. O jogador condenado na Itália por violência sexual de grupo, em 2017, foi contratado pelo Santos, em 2020, enquanto aguardava julgamento de recurso. A divulgação de escutas telefônicas de conversas do jogador sobre o episódio com seus amigos fez com que torcida, imprensa e, especialmente, patrocinadores pressionassem o clube que suspendeu o contrato do jogador condenado novamente em dezembro de 2020 ainda tendo um último recurso na justiça italiana disponível.

No segundo domingo de apresentação da matéria, além de uma rápida definição sobre o que seria “ser homem”, a reportagem questionou a importância da intervenção nos clubes em que muitos postulantes a atletas acabam convivendo em ambientes de pouco contato com a diferença de gênero dificultando a criação da empatia nas relações com as mulheres. Existiu certo consenso na fala dos entrevistados e das entrevistadas na responsabilidade das instituições em procurar criar um ambiente que permita o surgimento de outro tipo de masculinidade desde as categorias de base.

A narrativa da reportagem encerrou apostando na necessidade de uma maior valorização da presença das mulheres no futebol com cargos de destaque. Se evidencia como hipótese que uma maior presença de mulheres permite a criação de espaços com menos machismo. Regiani Ritter, repórter de campo na década de 1980 e 1990, lembrou que ao contrário dos homens que tinham seus erros transformados em piadas, os erros dela eram associados a seu sexo/gênero seguido das ordens de retorno ao fogão ou à cozinha. A árbitra FIFA Edina Alves, que será a primeira mulher da história a apitar uma partida do campeonato mundial de clubes de futebol masculino em 2021, afirmou que ainda tem seus erros justificados por ser uma mulher.

Me parece muito importante que um programa tão relevante de nosso jornalismo esportivo consiga pautar temas tão urgentes em nossa cultura. Nas linhas que seguem, porém, quero pensar o quanto esse mesmo jornalismo esportivo, entendendo-o como espaço de disputa e não como um espaço homogêneo, ajuda a construir essa narrativa masculina e machista no ambiente do futebol de espetáculo jogado por homens em nosso país.

Com Arlei Damo (2006) entendo que o futebol de espetáculo pode ser dividido em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os mediadores especializados são os profissionais que trabalham na espetacularização do futebol e produzem narrativas sobre os eventos futebolísticos. Eles podem ser profissionais da comunicação ou ex-atletas e ex-dirigentes que teriam a função de “explicar” os eventos para o público que, de alguma forma, não seria “apto” a lê-los sozinho. Esses mediadores, apesar de suas diferentes origens, são chamados, costumeiramente, de cronistas esportivos e são os principais atores do que se pode nomear de jornalismo esportivo ou de imprensa esportiva.

As narrativas construídas pelo jornalismo esportivo produzem significados diversos e ampliam o fenômeno futebolístico. Segundo as teorias literárias e culturais, as narrativas possuem centralidade na cultura. São as histórias que nos permitem entender as coisas e pensar no mundo e em nossas vidas como certa progressão lógica que leva a algum lugar (CULLER, 1999). As narrativas possuem a potencialidade de nos ensinar diferentes pontos de vista e de entender as posições dos outros. Ao mesmo tempo, as narrativas policiam autorizando ou desautorizando a construção de significados, por exemplo, sobre a masculinidade.

No primeiro domingo de exibição, a reportagem lembrou a acusação de 4 ex-jogadores – Henrique, Fernando, Eduardo e Cuca (atual treinador do Santos) – do Grêmio que em uma excursão à Europa, em 1987, mantiveram relações sexuais com uma menina de treze anos. O jornalista Cláudio Dienstimann que acompanhou a excursão reconheceu, passados mais de trinta anos, que, infelizmente, a cobertura não pensou no ponto de vista da menina agredida. Segundo ele, o foco da reportagem era ver os atletas em liberdade para retornarem ao Brasil. A reportagem lembrou que a época parte da torcida apoiou a atitude dos jogadores. Podemos ler esse apoio em um diálogo muito estreito entre clubismo e machismo, não necessariamente nesta ordem. Carmen Rial lembrou que a imprensa esportiva gaúcha fez o mesmo. Junto com Miriam Grossi ela publicou um texto na revista Mulherio em que mostrava algumas das impressões dos torcedores e da imprensa gaúcha naquela oportunidade. Acompanhando o retorno dos quatro agressores, elas afirmaram que a “crônica esportiva (…) conseguiu em um mês transformar os quatro acusados de crime em vítimas de um ‘juiz nazista’ e o estupro de uma menina de 13 anos por três dos jogadores em uma ‘travessura’ inconsequente” (1987, p. 3). Em uma das falas, o jornalista Lauro Quadros tentou “ensinar” para o público o que poderia se imaginar ser certo consenso cultural da época (ou ainda estaria entre nós?):

(…) eu sou pai, você que é mãe ou pai vai me entender, não é a mesma coisa um filho ou uma filha. Todo pai quer que o seu filho fature todas as meninas do bairro, quer que ele seja o garanhão da turma. Já com a filha é diferente. Não se deve culpar os rapazes do Grêmio por terem feito o que todo pai gostaria de ver o seu filho fazer (GROSSI; RIAL, 1987, p. 4).

Em 2020, o ex-jogador Caio Ribeiro, hoje comentarista esportivo, se autorizou a dar o “benefício da dúvida” a Robinho afirmando que apenas a justiça deveria julgá-lo. Aparentemente ele não se sentia confortável em criticar a conduta do jogador, naquele momento já condenado em primeira instância. Após acesso a novas reportagens o comentarista modificou sua percepção: “Na hora que eu vejo, ainda mais eu que tenho uma filha menina, a forma como ele se dirige à vítima, a forma baixa como ele fala do estado da menina… Cara, me caiu mal. Me deu dor de estômago”[3]. Curiosamente o reforço de seu posicionamento aparece na sua posição enquanto homem, pai de menina. A percepção de violência ainda aparece na relação entre homens. A lógica dessa justificativa que aproxima a agressão de um homem ao sofrimento de outro homem, pai de menina, não estabelece a plenitude da humanidade para as meninas ou mulheres. Se ele não fosse pai de uma menina, não seria possível criar empatia e condenar a violência contra mulheres?

Muito mais do que as opiniões sobre casos de violência extrema, o problema de nosso jormachismo esportivo está em suas ações cotidianas. Ele vai da absurda defesa do comportamento machista de um treinador como realizada por Maurício Saraiva:

Guto Ferreira gosta de mulher, é casado, não sei se tem filha, mas certamente não tem nada contra mulheres. (…). O mundo da bola ainda é assim. Muito homem junto, mulheres recém começando a ocupar a arquibancada e muitas ainda mais atentas ao bonitinho do que ao bom jogador. Também as mulheres estão na transição de gostar do futebol pelo futebol, capazes de ir ao futebol sem marido, amigo ou namorado. Então, todos em aprendizado. [4]

E também é alimentado pelas “brincadeiras” do Carlos Cereto que pergunta sobre novela para Ana Thaís Matos[5], o Peninha Bueno mandando a Eduarda Streb[6] voltar para a cozinha… Escondidas atrás de “piadas”, essas manifestações dão pouca margem para que a violência apareça. Para as ofendidas acaba sendo oportunizado apenas o lugar de mal humoradas. Nas redes sociais os torcedores cobram engajamento de jornalistas mulheres que “ousaram” reclamar do machismo em alguma oportunidade ao mesmo tempo em que o silêncio dos jornalistas homens não é colocado em questão.

Após classificar o Grêmio para final da Copa do Brasil nesse interminável 2020, Renato Gaúcho – machista quando perde “até mulher grávida faria gol na gente” – voltou a fazer uma manifestação machista, desta vez após uma vitória. Questionado sobre ter menos posse de bola que o adversário, Renato contou uma “historinha”:

Teve um cara que pegou uma mulher bonita e levou ela para jantar. Levou para jantar à luz de velas, conversou bastante. Saiu do restaurante, foi na boate e ficou até às 5 horas da manhã com ela. Gastou uma saliva monstruosa. Aí, na boate, chegou um amigo meu, conversou com ela 15 minutos e levou ela para o motel. Entendeu? Se não entendeu outra hora eu explico. Meu amigo ganhou o jogo [7]

Para Cosme Rímoli, do R7, “Este é Renato Portaluppi, finalista da Copa do Brasil 2020…”[8]. Na conta do Instagram do Fox Sports Brasil a fala foi acompanhada de risos:

No Programa Redação Sportv, o apresentador Marcelo Barreto chamou a jornalista Renata Mendonça para tentar entender se a escolha das palavras de Renato foi boa ou ruim. Renata reforçou como a frase do treinador objetificava as mulheres ao definir que o objetivo dos homens seria apenas levá-las ao motel mostrando que a única importância da mulher seria satisfazer o homem, e pelo exemplo do treinador, sexualmente. Ela reforçou que não seria possível “inverter” a “piada” uma vez que os homens, em nossa cultura, não são entendidos como objetos para satisfação dos desejos das mulheres[9]. Ao mesmo tempo em que é bastante produtiva a participação das mulheres nessa discussão, essa metodologia acaba desconvocando os homens para o debate sobre o machismo. Um homem não seria qualificado para ver o machismo presente nesta manifestação?

A frase de Renato parece fazer tanto sentido dentro da lógica desse jormachismo esportivo que a conta do Instagram da Fox Sports Brasil já a replicou ao ilustrar a vitória de uma equipe com menor posse de bola.

Situações como essa mostram que esse machismo atravessa as narrativas do futebol de espetáculo no Brasil. Frases como a de Renato, Lauro Quadros, Caio Ribeiro, Carlos Cereto, Peninha Bueno e tantos outros não são atitudes individuais de sujeitos desajustados. Ao contrário, elas fazem sentido nessa péssima lógica machista da nossa cobertura esportiva.

Esse é mais um espaço de enfrentamento contra as desigualdades de nossa cultura. Pautar esse jormachismo esportivo é urgente. E ela é uma luta de todos os que militamos neste espaço como profissionais, pesquisadores e torcedores. Nós, homens, não temos o direito de terceirizar o protagonismo deste enfrentamento às mulheres. Precisamos nos posicionar ao lado delas nesta trincheira e não podemos abrir mão de agir quando situações como essa, infelizmente, se repetirem.


[1] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/9166660/. Acesso em 23/01/2021, às 13h34.

[2] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/9185792/. Acesso em 23/01/2021, às 16h44.

[3] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/caio-ribeiro-fala-sobre-o-caso-robinho-tem-que-pagar-como-qualquer-outra-pessoa.ghtml. Acesso em 24/01/2021, às 9h32.

[4] Disponível em: http://globoesporte.globo.com/rs/blogs/especial-blog/vida-real/post/guto-e-mulheres.html. Acesso em 24/01/2021, às 11h22.

[5] Disponível em: https://www.lance.com.br/fora-de-campo/ana-thais-matos-incomoda-com-pergunta-machista-apresentador.html. Acesso em 24/01/2021, às 11h13.

[6] Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2018/04/27/peninha-pede-desculpas-apos-piada-machista-e-comentarista-chora-ao-lembrar.htm. Acesso em 24/01/2021, às 11h16.

[7] Disponível em: https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/renato-compara-posse-de-bola-a-pagar-jantar-e-nao-levar-mulher-ao-motel-31122020. Acesso em 24/01/2021, às 11h31.

[8] Ver nota anterior.

[9] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sportv/programas/redacao-sportv/video/renata-mendonca-sobre-fala-de-renato-nao-seria-nem-engracado-se-ele-fizesse-o-contrario-9143513.ghtml. Acesso em 24/01/2021, às 11h56.

Referências:

CULLER, Jonathan. Teoria literária – uma introdução. São Paulo: Beca Produções, 1999.

DAMO, Arlei Sander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, Simoni Lahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

GROSSI, Mirian; RIAL, Carmem. Os estupradores que viraram heróis. In: Mulherio. Fundação Carlos Chagas, outubro 1987, p.3-4.

Artigos

Zagallo, o coadjuvante revolucionário

As efemérides deram o tom das últimas semanas no mundo do futebol. Inúmeras foram as homenagens prestadas àqueles que, para além das discussões estritamente técnicas que ganharam força desde a consolidação de Lionel Messi, seguem indubitavelmente como as duas maiores forças simbólicas a terem adentrado o campo de jogo: Pelé, que em 23 de outubro chegou aos oitenta anos, e Diego Armando Maradona, com seus seis decênios completados uma semana depois. Eternizadas numa época em que o esporte ainda era mais propício ao âmbito polissêmico da crônica literária do que à estatística pormenorizada em tempo real, suas trajetórias – e os modos de perpetuação que a comunicação de então permitia – parecem impossíveis de serem superadas. Ora, o brasileiro tinha o mundo aos seus pés já aos dezessete anos, quando, após uma final de Copa do Mundo em que marcou dois gols antológicos (o primeiro, com o famoso chapéu sobre o marcador, é decerto mais lembrado, mas a jogada do último tento da partida, conjugando uma soberana matada de bola no peito, um passe de calcanhar, a inteligente movimentação e a cabeçada fatal, é digna de nota), fez descer da tribuna do Estádio Råsunda o rei Gustavo Adolfo VI, da derrotada anfitriã Suécia, em busca de cumprimentos. Setenta anos após a abolição oficial da escravatura no Brasil, mal que perdurou formalmente por mais de três séculos pelas bandas de cá, a face que nosso país projetava para o planeta era enfim a de um jovem negro convertido em majestade. Quanto ao hermano, responsável maior pelo segundo título mundial argentino, as cenas do confronto contra a Inglaterra pelas quartas-de-final de 1986, quatro anos após o revés infligido pelos britânicos na Guerra das Malvinas, tornaram-se mesmo emblema político: em menos de cinco minutos, o visceral Pibe nos legava não apenas La Mano de Dios ­– o mais polêmico dos lances –, mas também El Gol del Siglo – a mais celebrada dentre todas as jogadas individuais. Por uma espécie de capricho, quis o destino que aquele Argentina x Inglaterra tivesse lugar no mesmíssimo Estádio Azteca que, em 1970, converteu-se no cenário para a coroação definitiva de Pelé após a conquista do tricampeonato.         

De Pelé e Maradona, é difícil imaginar algum feito que ainda não tenha sido registrado e minuciosamente analisado. Não por acaso, é a tensão entre os dois que, ao menos desde os anos 80, estrutura o universo futebolístico como uma espécie de mito cosmogônico, a fornecer ao todo sua própria sustentação e sentido. No entanto, gravitam ao redor destas figuras centrais alguns coadjuvantes de luxo que, embora não lhes possam fazer frente em termos de fundamentos (ao fim e ao cabo, quantos poderiam?), compõem o rol de desbravadores que revolucionaram o esporte em sua dimensão tática. Suas conquistas, porquanto mais discretas e sutis, nem sempre são festejadas com o entusiasmo que merecem – ou o são tão somente após sua morte. Nas próximas linhas, tentaremos lançar luz sobre um nome que atuou como fio condutor de alterações fundamentais para que o futebol viesse a se configurar como o entendemos hoje: Mário Jorge Lobo Zagallo.   

Fonte: pinterest.com

Comecemos por uma verdade paradigmática: em 1958 e 1962, Zagallo foi simplesmente o responsável pelo surgimento do 4-3-3 ao longo da campanha do bicampeonato mundial brasileiro. Mas, afinal, que elementos permitem que tal afirmação possa ser feita com tamanha segurança? Ocorre que, apesar de atuar como ponta-esquerda, função hoje extinta, ele também ajudava a compor o meio de campo, auxiliando o lendário botafoguense Nilton Santos na marcação quando necessário. Zagallo revezava, pois, entre duas funções – com e sem a bola –, e este trabalho incansável, prestimoso e em seu tempo inédito lhe rendeu o apelido de Formiguinha. Exemplo radical: na estreia contra a Áustria, com vitória do escrete por 3 x 0, o segundo gol, anotado pela Enciclopédia Nilton Santos, ganhou notoriedade pelo fato de um lateral, como ele o era, ter avançado contra a retaguarda adversária numa época em que a posição era estritamente defensiva. Tal postura parecia levar a termo flagrantemente uma tática kamikaze, já que a consequência de uma possível perda da posse de bola seria a exposição de todo um flanco do campo para o contra-ataque rival. No entanto, Nilton Santos não subiu à toa: Zagallo o cobria. Ali, ampliavam-se horizontes e possibilidades do jogo: o ponta ficava, o lateral avançava – em outras palavras, o responsável tradicional pela ofensiva defendia para que o até então defensor agredisse, surpreendendo a todos. “Enquanto o Vicente Feola [técnico brasileiro] gritava ‘Volta, volta!’ [para o Nilton], eu falava ‘Vai! Pode ir que eu tô cobrindo!’”. Alternando entre ponta e meia, Zagallo transitava pelo dobro da distância habitual de seus concorrentes. Sendo assim, ao retornar para a metade da cancha, seu movimento liberava o dito apoio de Nilton Santos – além do nada modesto trio Garrincha, Didi e Pelé. Ah, e é claro: de quebra, ele marcou um dos gols da final contra a Suécia – o quarto dos 5 x 2 que nos conduziu ao apogeu pela primeira vez.

Ademais, na campanha do tri, a quintessência do futebol desfilou no México sob seu comando. Em 1970, Zagallo entrou para a história como o técnico da seleção mais refinada e equilibrada já formada. Foi ele o mentor de um time que tinha simultaneamente Gérson, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé no gramado enquanto titulares. Na decisão contra a Itália, seu trabalho foi arrematado com o tento coletivo mais bonito de todas as Copas. E como aquele lance de cinema explica mais um brilhantismo tático? Antes de Zagallo, a Seleção fora treinada por João Saldanha, que adotava o 4-2-4 como sistema de jogo. Com o novo técnico, o Brasil passou a defender no 4-5-1. Este 1 era Tostão, que, apesar de jogar mais avançado no novo esquema, recuava se preciso fosse – compromisso para que a escalação de tantos gênios no meio funcionasse. Assim fez o atacante aos 41min do segundo tempo daquela final, quando pressionou o adversário e recuperou a posse de bola em nosso campo de defesa. De Tostão para Piazza, de Piazza para Clodoaldo, rápida triangulação com Pelé e Gérson, até que a pelota retorna a Clodoaldo. Tem início a mágica – quatro dribles desmoralizantes trazem o Azteca abaixo. Passe para Rivellino. Lembremos: Clodoaldo e Riva eram o mais das vezes reservas de Marco Antonio e Paulo Cézar Caju com Saldanha. Zagallo fez com que Rivellino compusesse o setor esquerdo sem a bola, de modo que Everaldo, o lateral do mesmo lado, não subisse. As investidas ofensivas ficavam a cargo de Carlos Alberto pela direita – o autor do gol –, aproveitando as infiltrações diagonais do ponta à sua frente, Jairzinho, o Furacão da Copa. Contudo, reparem em qualquer replay deste gol: é justamente Jairzinho quem recebe a pelota de Rivellino, mas desta vez pela canhota. O que o ponta-direita lá fazia? O treinamento de Zagallo explica: Jair era marcado individualmente naquela tarde por Giacinto Facchetti, icônico capitão da Azzurri; ao surgir do outro lado do relvado, o brasileiro puxou a marcação do italiano e o deslocou por completo, liberando um enorme corredor na direita para o avanço do Capita. Quando Pelé recebe na intermediária, com aquele 10 pertencente ao terreno do imemorial às costas, a zaga europeia já estava vendida há muito sem o saber. Seu olhar confirma num átimo a carreira de Carlos Alberto, que recebe o passe pitoresco da Majestade. Quem respira os ares do futebol sabe que aquele misto de displicência e imponência de Pelé continha uma mensagem inequívoca e incontestável: “Faz”. Como se irritado por não ter participado da trama até li, o acaso entrou em cena para reivindicar ao menos algum papel auxiliar: foi o quique que antecedeu e propiciou a finalização perfeita, um cruzado inapelável na veia. Os protagonistas, contudo, têm nome, dentre os quais fulgura o de Zagallo: de Clodoaldo e Riva, titulares na campanha imbatível no México, à inversão de Jairzinho a fim de criar espaços no lado oposto para Carlos Alberto, passando pela centralidade de Pelé, o Velho Lobo esteve presente. Multicampeão. Gigante. Histórico. Cinco finais em sete Copas disputadas (52 e 68 como jogador, 70 como técnico, 94 e 98 como assistente), com quatro delas na prateleira. Para a felicidade geral da nação, tiveram de engolir. Que, em seus 90 anos pela proa, tenhamos a oportunidade de transmitir devidamente às novas gerações, tão afeitas ao esquecimento, o tamanho deste legado esportivo.

Fonte: medium.com