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O que a nova gramática do futebol nos revela sobre as escolhas desse esporte?

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Já vai longe o tempo em que o lazaronês[1], com sua fala complicada era alvo da jocosidade do jornalismo esportivo e das torcidas. Cerca de 40 anos depois daquilo que era, majoritariamente, tratado como sinônimo de falar empolado para encobrir deficiências táticas, a nova gramática dos treinadores foi elevada ao estado da arte para explicar o futebol. E, não apenas no meio de técnicos e da boleirada, mas, também do jornalismo, antes bem menos permeável a tais retóricas esvaziadas de sentidos.

Se adotarmos um olhar mais cético e mais crítico, podemos desconfiar fortemente que, na verdade, estamos diante de uma operação discursiva que ressignifica antigas expressões futebolísticas, para que, nessa metaformose linguística, se amplifique o poder dos treinadores, e torcedores e jornalistas deixem de debater, e cobrar, a essência do que se passa em campo.

Entre neologismos ou palavras que tiveram seus significados originais reconfigurados, citamos: linha alta; linha baixa; último terço do campo; verticalizar o jogo; atacar a bola; extremo, 4-2-1-2-1… Em tempos não tão remotos, tais palavras e expressões eram facilmente compreendidas, por público e imprensa, como, respectivamente: adiantar a marcação; marcar no seu próprio campo; proximidade da área, jogar para frente; não ficar parado esperando a bola; ponta (direita ou esquerda). Já sobre a sopa de números, a aparente sofisticação da numerologia treineira pode nos dar outras pistas.

Embora o futebol seja esporte dinâmico, nem sempre traduzível ou reduzível a números, as antigas numerações davam conta de explicitar que, entre as três faixas em que se divide o campo de futebol – defesa, meio-campo e ataque – determinados times jogavam, em geral, com quatro defensores; e alguns poucos, no Brasil, recorriam a um terceiro zagueiro, somando, assim, cinco na defesa. No meio-campo, entre jogadores mais marcadores – cabeça de área, volante – e de criação – armadores – havia time que optava por três ou quatro nessa posição. Com isso, no ataque, tinha-se, respectivamente, três ou dois atacantes.

Tudo isso, teoricamente, porque, com a bola rolando, uma série de fatores imponderáveis e a dinâmica da partida é que iam definir se a rigidez tática seria mantida ou moldada pelos acontecimentos. Apesar disso, a sinalização era clara: quem jogava com quatro no meio-campo buscava fortalecer esse setor, sem, no entanto, garantias de que o desejado fosse confirmado no gramado. Já quem priorizava o ataque, optava por escalar mais um atacante, renunciando a um jogador no meio. Dentro dessas configurações táticas, abria-se uma miríade de possibilidades, a depender, em grande medida da qualidade dos escalados para cada função e da imprevisibilidade inerente a um jogo de futebol.

Um meio-campo marcador que, também, soubesse sair para o jogo, poderia, como no Brasil x Uruguai, da Copa de 1970, trocar de posição com o armador e aparecer na frente, não apenas para municiar o ataque, como para marcar um gol, como ilustrou a troca de posições entre o volante Clodoaldo e o armador Gerson, muito marcado pelos uruguaios naquela altura da partida.

Também o clube que, na prancheta do treinador, desfilava o 4-3-3, poderia deslocar um atacante, geralmente o ponta-esquerda, para compor o meio-campo quando seu time não tinha a bola. Ou ainda quem entrava com quatro no meio, quase sempre com mais marcadores do que criadores, podia liberar os laterais – em algum momento, rebatizados de alas, embora continuem a ser cobrados, centralmente, por suas funções defensivas (?) – para ajudarem a apoiar o ataque.

Mais uma vez, era a dinâmica da partida que confirmaria ou reconfiguraria as estratégias do treinador. No entanto, quando a gramática hodierna dos técnicos anuncia esquemas como 4-2-1-2-1 ou afins, tais numerologias são quase automaticamente naturalizadas pelo jornalismo esportivo como questões dadas, sem que se deem conta de contradição emblemática: por trás de uma suposta camada de modernidade, o que os técnicos estão defendendo é ser possível, em plena era da necessidade de compactação em campo, seccionar tanto o meio quanto o ataque.

Assim, se o 2-1-2 inicial significaria que, em teoria, a equipe teria dois jogadores mais próximos da área, um mais livre, em tese, e, se tiver talento, para armar o time, e dois que encostariam no solitário jogador que seria o único atacante explícito. Ora, esquemas táticos dependem da quantidade de talento dos que o executam. Então, se poderia perguntar: nessa pretensa modernidade, Iniesta, no seu tempo de Barcelona, antes e depois da dupla com Xavi, seria volante (um dos 2 à frente da zaga ou ainda o 1, se a configuração definida pelo treineiro for 4-1-3-3 ou seria armador?

Se a resposta for a primeira, como explicar a constante presença dele próximo da área adversária, inclusive, no momento em que este tinha a bola. Caso se fixe na segunda possibilidade, qual a explicação para quando, também recorrentemente, iniciava o ataque do time catalão a partir da entrada da sua área? Não seria Inieta a personificação da desconstrução da “muderna” numerologia treineira, ao mostrar que, no futebol contemporâneo, resta pouco espaço para meio-campistas que se limitem a marcar ou que, sabendo jogar, se recusem a participar da marcação? E que a principal preocupação de um treinador deve ser evitar que sua equipe atue com três setores estanques, para não conceder espaços generosos ao adversário?

Assim, ao se concentrar em números que empiricamente raramente são confirmados em campo, o jornalismo esportivo deixa de questionar se essa nova gramática não serve para encobrir visíveis inconsistências táticas dos nossos treinadores. Na nova gramática treineira ou “delírios táticos”, na expressão de Tostão, poucas sintetizam tal indigência como a popularizada “saber sofrer”. Traduzida na prática, significa que, sem opções de ataque, um time vai ficar submetido à sorte de, entre os constantes ataques do adversário, torcer para não sofrer um gol. Assim, a cada bola cruzada na área ou chute desferido de perto do goleiro, a torcida desse clube deve, entre unhas roídas e respiração acelerada, celebrar a genialidade tática do seu treinador.

Se a essa nova definição de defensivismo somar-se a celebrada “jogar por uma bola”, o jornalismo crítico não deveria vacilar, a exemplo do que fazia em tempo não tão remoto, em qualificar tal opção como “retranca”, “futebol covarde” ou “time sem opções”. No entanto, como disse Marcelo Bielsa, ao utilizar o mesmo comportamento mobilizado para amplificar o reconhecimento na vitória para condenar o comportamento na derrota, a imprensa – e não apenas a brasileira – “especializou-se em perverter os seres humanos de acordo com vitórias e derrotas”.

E tal comportamento não se limita à defesa do resultadismo, como criticava o treinador argentino, mas, também, serve para naturalizar uma gramática que, ironizada em momento mais brilhante do nosso futebol, passou a ser reproduzida acriticamente. Fica a provocação: a perda de qualidade levou à necessidade de colocar camadas retóricas esvaziadas de sentidos aos discursos dos treinadores ou foi o inverso? Ou será que ambos caminharam juntos?


[1] No período em que dirigiu a seleção brasileira, entre 1989 e 1990, Sebastião Lazaroni, além de anunciar o início da “era Dunga”, que substituiria o “futebol-espetáculo”, notabilizou-se por explicações como: “galgar parâmetros”; “lastro físico”, “pijama-training”  e “intenção sinergética”. Várias delas soam como primas da “treinabilidade” e do “oportunizar”, do titês, este, no entanto, idioma assumido, sem ironias, pelo jornalismo esportivo.

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O fardo de Ramírez

O jogador Ramírez. Reprodução: Internet

O racismo é uma atitude detestável.

E precisa ser combatido.

Dito isso (são as duas primeiras frases deste artigo), é importante dizer também que a luta contra o racismo não se faz com injustiças.

O atleta colombiano Juan Pablo Ramírez Velásquez (também conhecido como Índio Ramírez), do Esporte Clube Bahia, carrega um fardo de injustiça que já não devia mais estar em suas costas.

Foi acusado, em dezembro de 2020, de ter praticado racismo em uma partida contra o Flamengo pelo Campeonato Brasileiro. Teria ofendido com injúria racial o jogador Gerson. Ramírez negou.

O colombiano foi afastado do time pela direção do próprio Bahia. O clube, sem demora, contratou peritos para analisar o caso. Esses peritos não encontraram nenhuma prova de que houve injúria racial. O presidente do Bahia, diante disso, reintegrou o atleta ao time. “A gente se esforçou, esforçou e não conseguiu identificar uma outra prova ou circunstância além da palavra da vítima”.

Nem os peritos contratados pelo Bahia, nem qualquer outra investigação comprovou a prática de racismo por parte de Ramírez. O STJD, então, fez o óbvio: arquivou o caso por falta de provas.

Ramírez poderia respirar aliviado. Ou não?

O fardo continua. No último dia 9 de outubro, o GE (mais especificamente, o GE São Paulo) produziu uma matéria televisiva que foi veiculada nacionalmente. O assunto era um relatório sobre casos de racismo no esporte em 2020.

A matéria de 3 minutos e 16 segundos dedicou meio minuto à denúncia contra Ramirez.

Disse a reportagem:

  • na súmula da partida, o árbitro declara que não ouviu nenhuma ofensa
  • o atleta Gerson prestou queixa e foi registrado um boletim de ocorrência, mas o Ministério Público solicitou o arquivamento do inquérito (solicitação atendida por um juiz)

Evidência contra Ramírez, além da acusação de Gerson, nenhuma.

Eis a situação: para o árbitro da partida, para os peritos contratados pelo Bahia, para o STJD, para o Ministério Público e para a Justiça comum, não se pode dizer que Ramírez praticou racismo. Para o GE, a denúncia contra Ramírez pode ser chamada (como foi) de “caso de discriminação racial no futebol”, desprezando-se a palavra “denúncia” e sem qualquer ênfase para o fato dessa denúncia não ter sido comprovada.

Por quanto tempo mais a denúncia contra Ramírez (não comprovada e judicialmente arquivada) será exposta nacionalmente em matérias recheadas de casos de racismo (esses outros, sim, documentados e comprovados)?

Por quanto tempo mais Ramírez carregará esse fardo?

GUILHERME BELLINTANI (Presidente do E. C. Bahia). Afastou Ramírez do time e o reintegrou três dias depois. Reprodução: Internet

Para completar, algumas palavras sobre o princípio da presunção de inocência.

O Esporte Clube Bahia, em nota oficial publicada horas depois da denúncia contra Ramírez, declarou que o seu atleta negava “veementemente” a acusação, mas seria afastado assim mesmo, pois “a voz da vítima” deveria ser preponderante nesses casos.

Passaram-se dez meses e ainda não se comprovou que houve um ofensor e, portanto, um ofendido (ou seja, uma “vítima”). Já o Bahia, muito apressado, chamou Gerson de “vítima” menos de seis horas depois de encerrada a partida contra o Flamengo e o fez em uma nota oficial divulgada pela internet.

Alguém poderia ter advertido o presidente do Bahia que, se Gerson já era considerado “vítima”, Ramírez já era considerado “culpado”. E poderia também, logo em seguida, lembrar-lhe que isso afrontava o princípio da presunção de inocência, consolidado ao longo de muitas décadas e à custa de muito esforço intelectual.

Talvez até alguém o tenha feito, já que o presidente decidiu reintegrar Ramírez quatro dias depois daquela famigerada partida contra o Flamengo.

Atualmente, Ramírez ainda é atleta do Bahia e disputa partidas normalmente.

Parte da imprensa (dita progressista e que adotou a bizarra tese do “a voz de quem denuncia é a voz da vítima e deve predominar desde o momento em que a denúncia é feita”) poderia seguir o exemplo do presidente do Bahia e retirar das costas de Ramírez esse fardo que não lhe cabe.

Talvez aconteça algum dia. O GE, por enquanto, ainda acha que não é o momento, apesar do que já decidiu o STJD e a Justiça comum.

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Transmissões televisivas e a elitização do sofá de casa

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Desde a virada do século XX para o século XXI é possível perceber a estruturação de um processo de elitização do público nos estádios brasileiros, por meio do aumento nos valores dos ingressos e da busca por uma disciplinarização dos comportamentos esperados pelos torcedores nas arquibancadas (GAFFNEY, 2004). Amparados por uma noção do futebol cada vez mais atrelada à mercadoria e a espetacularização, os clubes brasileiros, bem como as empresas promotoras de eventos ligados ao esporte procuraram transformar os estádios em espaços voltados para o consumo e entretenimento. Lojas, alimentação, experiências no campo de jogo, e tudo mais que possa ser explorado comercialmente são feitos tendo a partida como fio condutor (HOLZMEISTER, 2005).

O processo de elitização dos estádios se aprofunda no Brasil a partir do fim da primeira década do século XXI, quando motivados pela promoção da Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Olimpíadas (2016) passam a ser reformados ou construídos novos estádios que materializaram o novo projeto de torcedor/fã e arena de consumo esportivo.

A construção ou remodelamento desses estádios atrelados a uma nova forma de torcer e consumir constitui o processo de arenização na qual as praças esportivas passam a ser pensadas não mais a partir daqueles que frequentam – a torcida- mas sim das exigências das empresas consumidoras/patrocinadoras e dos indivíduos que pretendem desfrutar de um entretenimento. O estádio-nação, ou seja, o espaço de representação da identidade social dá lugar ao estádio-shopping, local estritamente comercial (MARCELLINO, 2013).

O avanço dessa realidade de elitização, na qual a arenização é sua característica mais atual acabou por paulatinamente afastar grande parte das camadas populares dos estádios, mas também parte da classe média intitulada atualmente como “nova classe C”. A principal razão para esse afastamento está nos altos custos dos ingressos que acabam por alijar os mais pobres do acesso ao estádio.

Tendo seu acesso dificultado e/ou impedido, essas classes sociais encontraram nas transmissões televisivas um meio de continuar acompanhando seus clubes, mesmo que à distância. Para a maioria por meio da “televisão aberta” e para uma parcela, principalmente da nova classe C, também por meio da “televisão fechada”. Se o estádio de futebol cada dia mais estava “fechado” para esses grupos, pelo menos as transmissões televisivas ajudavam a mitigar os efeitos da desigualdade de acesso as partidas. Esse fato que já havia sido observado no processo de elitização do futebol inglês como evidenciou Alvito (2014).

No Brasil o televisionamento das partidas se difundiu no final da década de 1980, quando mais de 70% dos lares do país possuíam aparelhos televisores (BOLAÑO,1988). Durante o período entre 1980 e 2020 pôde-se perceber que o avanço das transmissões foi feito através de um controle cada vez maior da Rede Globo e suas afiliadas, que passaram a ter o direito de transmissão dos principais campeonatos esportivos tais como: Estaduais, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Libertadores, Copa do Nordeste, entre outros. Nesse caminho passou também a monopolizar a expertise no processo de produção técnica dos jogos e consolidou-se como a “dona” do futebol brasileiro ofertando nos meios de semana e finais de semana partidas na televisão aberta.

Nos anos de 1990 com a chegada dos canais pagos da televisão fechada, a oferta de transmissão de jogos aumentou com a introdução de canais esportivos, sendo que nos anos 2000 ocorreu a chegada da ESPN e SPORTV à grade de programação, bem como a oferta de pacotes de transmissão completa como o pay-per-view. A existência dessa oferta de canais pagos possibilitou a determinada parcela da população, principalmente da classe C, acompanhar todos os jogos de futebol do seu time a um custo inferior do que aquele gasto no valor dos ingressos.

O monopólio da Rede Globo nessas transmissões abertas e fechadas permitia aos torcedores terem acesso a todas as partidas (do seu time e dos adversários) adquirindo somente um produto, a saber o pay-per-view (SANTOS, 2013). No entanto, nos últimos anos podemos perceber mudanças na dinâmica das transmissões televisivas com o aparecimento de novas plataformas de comunicação com destaque para o serviço de streaming, além do interesse de novos players na transmissão das partidas devido o aumento do potencial comercial delas.

Entre os novos interessados nas transmissões das partidas temos emissoras tradicionais como Bandeirantes e SBT, mas também novos atores como é o caso do Facebook, da Conmebol e dos próprios clubes de futebol. A disputa pelas transmissões evidencia uma visão de que os campeonatos transmitidos são uma mercadoria valorizada que pode se converter em crescimento de receita para esses possíveis proprietários. O desenvolvimento dessa concorrência também está relacionado a uma difusão das tecnologias e técnicas de transmissão dos eventos esportivos entre os meios tradicionais (televisão), e os novos meios (redes sociais e streaming).

A configuração desse cenário concorrencial inicialmente nos permitiria concluir que o torcedor ganharia com esse processo, pois segundo as leis do mercado, com a quebra do monopólio da Globo e o aumento da oferta de opções de produtos por vários canais e plataformas, o preço cairia. Essa concepção do monopólio da emissora como algo ruim ganhou força durante muito tempo e foi reforçada através do processo de demonização da Rede Globo, vista como a principal culpada pelos calendários, horários e regras do futebol brasileiro (SANTOS, 2013).

No entanto, a quebra do monopólio das transmissões, seja pela não renovação de contratos vencidos e/ou pelo aparecimento de novos meios de vinculação não cobertos pelos contratos, fez surgir um efeito perverso sobre o acesso ao televisionamento dos jogos em “televisão fechada”, a saber o fatiamento dos produtos com segmentação e sobreposição de propriedades sobre os campeonatos transmitidos. Essa situação pôde ser verificada, por exemplo, com a transmissão dos jogos da Libertadores da América e Sul-americana, que saíram do portfólio da Globo e, passaram a ser oferecidos somente pela Conmebol TV. A consequência imediata disso para o torcedor/telespectador se traduz num aumento do custo para acompanhar todas as competições do seu time ou a necessidade de escolha dos campeonatos que mais lhe agradam para serem pagos e consumidos.

Se na televisão fechada esse movimento de aumento dos custos para acompanhamento das partidas já avança a passos largos, na televisão aberta ele começa a se desenhar principalmente nos campeonatos estaduais, nos quais os contratos que estão vencendo não estão sendo renovados por discordância nos valores ofertados pela Globo e a expectativa dos clubes.

Livres no mercado para disponibilizarem a transmissão das partidas como bem entenderem, alguns clubes, como é o caso do Flamengo e do Athletico Paranaense, criaram recentemente serviços de streaming com pacotes pagos para a transmissão dos campeonatos estaduais em 2021. Consequentemente os jogos desses times pararam de ser transmitidos na televisão aberta nos estaduais e a possibilidade de assisti-los estava atrelada ao pagamento de um valor de 129,00 por todo o campeonato. O desdobramento disso foi a impossibilidade das camadas mais pobres de acompanharem esses jogos na televisão.

 Com a recente aprovação da lei do mandante (lei nº14.205/2021), que permite aos clubes de futebol o direito de negociação das transmissões e reproduções dos seus próprios jogos quando forem mandantes sem a necessidade de anuência do visitante, o movimento de avanço da oferta de serviços de pacotes de campeonatos pelos clubes sobre os seus próprios jogos deve ganhar fôlego. Diante disso, podemos nos deparar com uma realidade na qual os jogos migrariam da televisão aberta para esses serviços de streamings oferecidos pelos clubes.

 O desenvolvimento desse processo visa diretamente o interesse dos clubes em obter novas receitas através do oferecimento de um serviço que antes estava vedado a eles. Contudo, aprofunda o processo de elitização do futebol, pois cria um novo nível de exclusão dos torcedores/telespectadores no objetivo de acompanhar o seu time do coração. Se num primeiro momento o aumento do valor dos ingressos significou a elitização dos estádios e a exclusão dos mais pobres do acesso as partidas em loco, agora a fragmentação dos pacotes de transmissão de jogos e a diminuição da oferta de partidas na televisão aberta caminha para ser um segundo estágio desse processo.

Com a elitização do sofá de casa, o torcedor mais pobre ficará ainda mais distante do seu clube do coração e terá novamente que obter novos meios para alimentar a sua paixão diante de um esporte que se propõem cada dia mais comercial e menos passional.

Referências

ALVITO, M. A Rainha de Chuteiras: Um ano de futebol na Inglaterra. Rio de Janeiro. Ed Apicuri, 2014.

BOLAÑO, C. Mercado Brasileiro de Televisão. Aracaju, Universidade Federal de Sergipe, PROEX/CECAC/ programa Editorial, 1988.

GAFFNEY, C. T.; Mascarenhas, G. O estádio de futebol como espaço disciplinar. In: Seminario Internacional Michel Foucault, 2004, Florianopolis. Seminario Internacional Michel Foucault – Perspectivas, 2004.

HOLZMEISTER, A. A nova economia do futebol: uma análise do processo de modernização de alguns estádios brasileiros / Antônio Holzmeister Oswaldo Cruz. – Rio de Janero: UFRJ/PPGAS, Museu Nacional, 2005.

MARCELLINO, N. C. Legados de megaeventos esportivos. Campinas: Papirus, 2013.

SANTOS, A. David G. dos. A consolidação de um monopólio de decisões: a Rede Globo e a transmissão do Campeonato Brasileiro de Futebol. UNISINOS 2013.

Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo sétimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo sétimo episódio é “Mané Garrincha”. Com apresentação de Fausto Amaro e Marina Mantuano, gravamos remotamente com Rafael Casé, pesquisador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e professor de Comunicação da UERJ, e Filipe Mostaro, doutor em Comunicação e também pesquisador do LEME.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Balada nº7”, canção composta por Alberto Luiz e interpretada por Moacyr Franco.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Hoje é dia de Botafogo – Rafael Casé [livro]

Estrela Solitária – Um Brasileiro Chamado Garrincha – Ruy Castro [livro]

Garrincha x Pelé: futebol, cinema, literatura e a construção da identidade nacional – Victor Andrade de Melo [artigo]

Pra frente, Brasil! Do maracanazzo aos mitos de Pelé e Garrincha , a dialética da ordem e da desordem (1950-1983) – Denaldo Archone de Souza [livro]

Garrincha: A Flecha funiô – Mestiçagem, Futebol-Arte e Crônicas pioneiras – Mario Lima [livro]

Tomar ou não tomar o Chicabon?, eis a questão – Nelson Rodrigues [crônica]

Mané e o sonho – Carlos Drummond de Andrade [coluna]

Pelé Eterno [filme]

Garrincha, alegria do povo [filme]

Garrincha, estrela solitária [filme]

Garrincha, a Flecha fulniô das Alagoas – Mestiçagem, Futebol-Arte e Crônicas pioneiras- Mário Lima [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Convidados: Filipe Mostaro e Rafael Casé

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Humano, demasiado humano

Há já algum tempo as mesas de bar passaram a abarcar em sua fauna dois novos tipos antagônicos: os críticos e entusiastas do VAR – sigla em inglês para Video Assistant Referee, também conhecido em bom português como árbitro de vídeo –, novidade que alterou a dinâmica do futebol como nenhuma jamais o fizera.

Pênaltis marcados ou não em campo e o silêncio do VAR | Blogs - ESPN
Fonte: ESPN.

Em meio a uma época pautada pelo ethos polarizador das redes sociais, o debate entre tais figuras geralmente gravita ao redor de um par de interpretações dicotômicas sobre a natureza mesma do esporte bretão e sua (des)necessária adequação ao horizonte tecnológico vigente. De um lado, encontramos aqueles apaixonadamente avessos à intervenção externa ante o que acontece no interior das quatro linhas, espaço assumido então como um universo encerrado em si mesmo durante o acontecimento da partida. Segundo essa perspectiva, a beleza do jogo residiria justamente no fato de ele não trazer intrinsecamente consigo um ideal imaculável de justiça, de modo que os eventos que se desenrolam em campo se converteriam em fecunda metáfora de nossa existência, com seus inexoráveis dramas e reviravoltas. Os caprichosos rumos da bola prescindiriam, pois, de quaisquer correções exógenas. Não raro, o raciocínio apela aqui para casos sedutores: afinal, quão menos graciosa seria a história ludopédica sem o terceiro gol inglês na final da Copa do Mundo de 1966, oficialmente convertido por Geoff Hurst (contrariando a presumida possibilidade de a bola não ter cruzado por completo a linha fatal), e, acima de todas, se não houvesse La Mano de Dios, inventiva solução encontrada num átimo por Diego Armando Maradona para dar início à vingança alviceleste contra os britânicos na Copa do Mundo de 1986, após o trauma infligido ao espírito de nossos vizinhos pela derrota militar nas Malvinas – selada logo em seguida com a maior dentre todas as jogadas individuais.

Sintetizando essa primeira posição em uma espécie de provocação rodrigueana, teríamos o seguinte: o futebol deveria mesmo abdicar de sua liberdade poética, ainda que sob o risco de cercear a potencialidade do manancial que permitiu a um mortal como Maradona enfim transmutar-se em mito perene? A indagação formulada pode até soar bonita, mas a muitos não convence: mesmo que composto por fãs do Pibe, um segundo grupo não compreende as razões pelas quais logo o mais popular dos esportes, com suas cifras e investimentos incalculáveis ao dispor, deveria voluntariamente optar pela obsolescência em pleno século XXI, quando diversas modalidades garantem sua credibilidade ao incorporar tecnologias passíveis de corrigir eventuais equívocos em suas competições. Ora, uma falha humana ajudar a decidir uma partida de Copa do Mundo na distante década de 1960, eternizada por filmagens ainda em preto e branco, seria uma coisa até compreensível; outra muito distinta seria episódio similar ocorrer na era das múltiplas câmeras e ângulos à mão, capazes de desmoralizar tomadas de decisão incorretas em tempo real. Exemplos anedóticos em favor da tese também abundam: que o diga Frank Lampard, cuja passagem por sua seleção ficou marcada pelo gol flagrantemente legítimo ignorado nas oitavas de final de uma já moderna edição de Copa do Mundo, em 2010 (ironias do destino: contra a mesma Alemanha vitimada por seus predecessores em Wembley havia quarenta e quatro anos).

Por fim, cumpre lembrar que nesta celeuma cabem observações à margem da bolha algorítmica mais ampla, alertando-nos para problemas, digamos, mais prosaicos: Lucio de Castro, notável jornalista investigativo da Agência Sportlight, lembra-nos que a instituição do VAR, posto que paliativa e apesar dos pesares, tende a servir como um possível sistema de feios e contrapesos (analogamente ao que deveria suceder em regimes democráticos saudáveis – e saudosos) contra as investidas tanto de um mercado de apostas cada vez mais estruturado quanto do submundo da máfia de manipulação de resultados – a propósito, alguém consegue determinar exatamente as fronteiras e zonas de influência entre um e outro…?

Hoje parece consenso que os principais campeonatos deveriam lançar mão da ferramenta desde seus apitos inaugurais até os derradeiros. Recentemente, a Conmebol foi alvo de críticas (não nos diga!) por prever a utilização do VAR apenas a partir das oitavas de final de sua principal copa entre clubes, a Libertadores da América. De todo modo, eis o que ora nos interessa: se errar é humano, o VAR, ao contrário da suposta máquina fria e precisa que muitos pintavam lá atrás, demonstra a cada rodada que também o é. Com efeito, a completa supressão de controvérsias no reino do futebol (tão temida por uns, tão desejada por outros) queda improvável. Recorramos a dois veredictos decretados após consulta ao árbitro de vídeo na última semana, ambos durante as oitavas de final do referido certame latino-americano.

Numa Bombonera reduzida a um estádio qualquer sem a pulsação de sua hinchada devido à pandemia de covid-19, o Boca Juniors recebeu o Atlético-MG e, aos trinta e quatro minutos da etapa inicial, teve um gol de Diego González anulado (não sem muita demora e confusão) graças à revisão levada a termo no visor disponível à linha lateral pelo árbitro de campo, o colombiano Andres Rojas. Após se valer de uma inspeção minuciosa propiciada pelo recurso tecnológico, Rojas assinalou uma falta (anterior ao desfecho da jogada) de Briasco, atacante xeneize, sobre Nathan Silva, configurada por um suposto empurrão nas costas do zagueiro atleticano quando este saltava com o intuito de afastar pelo alto a bola que havia sido alçada na área. Houve acerto? A intensidade do contato sutil teria sido suficiente para deslocar indevidamente o defensor brasileiro? Sucessivas reavaliações talvez não consigam resolver a matéria.

Na Argentina, país em que a cobertura esportiva costuma assumir uma verve passional, o lance foi majoritariamente tratado como um erro patente que prejudicou o clube local; pelas bandas de cá, por seu turno, a cobertura midiática concedeu algum espaço a ressalvas e ponderações. O cenário me parece ambíguo justamente porque aberto à interpretação e, portanto, à boa e velha dimensão humana: creio que não haja VAR apto a encerrar o caso, conquanto possa — e deva — lançar luzes sobre os pormenores da jogada. A Conmebol discorda: Rojas e Derlis Lopes, que assessorava aquele pelo VAR, foram suspensos do quadro da entidade por tempo indeterminado.

Já no confronto de ida entre Cerro Porteño e Fluminense, realizado em Assunção, o que se viu foi negativamente impressionante: não obstante o domínio imposto desde o início pelo time carioca ao adversário, foram os paraguaios quem abriram o placar aos quarenta minutos do primeiro tempo mediante tento do veterano centroavante Boselli. Ou melhor: teriam aberto, não fossem a anulação determinada pelo assistente e sua bizarra chancela por parte dos responsáveis pela análise do vídeo ao indicarem um impedimento que nunca houve. No dia seguinte, a Conmebol divulgou em seu canal no YouTube um vídeo em que podemos acompanhar os diálogos travados entre os profissionais da arbitragem à ocasião: ao traçar linhas imaginárias que levaram em consideração o marcador mais próximo do atacante do Ciclón (em relação ao qual este estaria impedido), a presença de Samuel Xavier, lateral-direito tricolor que habilitava todos os adversários por estar mal posicionado, ainda que distante da disputa no meio da área, foi sumariamente ignorada na parte inferior da imagem. Beneficiada pelo erro – embora nada tenha a ver com isso –, a equipe das Laranjeiras fez jus à sua superioridade no segundo tempo e encaminhou sua provável passagem para as quartas de final, derrotando o oponente fora de casa com uma convincente vitória por 0 x 2. Sem embargo, o Cerro Porteño solicitou, em dura nota à Conmebol, não apenas a expulsão imediata dos árbitros envolvidos na trapalhada, mas a anulação da partida. Enquanto esta medida extrema dificilmente seria adotada, a consequência aos envolvidos na deliberação arbitral foi a mesma imposta à dupla que atuou na Bombonera: o bandeirinha e a equipe de vídeo escalados para o duelo na capital paraguaia foram afastados de suas funções por tempo indeterminado após a confederação assumir publicamente o erro, e passarão por reciclagem enquanto cumprem a penalidade.

Cerro Porteño pede à Conmebol anulação de jogo com Fluminense após erro do  VAR | LANCE!
Fonte: Lance!

Alguém poderia afirmar que imbróglios como os descritos acima só podem ganhar corpo na periferia do capitalismo futebolístico: na Europa, para onde tudo converge, a profissionalização dos árbitros no mais alto nível – e sua consequente capacitação contínua –, além de eliminar as revisões intermináveis (e por vezes indevidas) com as quais infelizmente convivemos na América Latina, acima de tudo impediria que equívocos evidentes prosperassem a ponto de macular confrontos agudos em torneios sediados no Velho Mundo. A estes, a semifinal da última Eurocopa entre Inglaterra e Dinamarca, realizada no mesmo terreno londrino que coroou Hurst por um possível gol fantasma em 1966, pode ter sido um banho de água fria: se é verdade que os anfitriões foram melhores que os nórdicos, também o é que o passaporte para a final, na qual viriam a ser derrotados pela Itália, foi carimbado em virtude de um pênalti para lá de discutível anotado sobre Sterling já na prorrogação – não o vi na hora como não o verei em nenhum replay –, criando ensejo para o gol decisivo de Harry Kane (no rebote da cobrança defendida pelo goleiro Schmeichel). Dito de modo expresso: o VAR veio para ficar – e estou entre aqueles que o saúdam, pois há erros e erros –, mas não será ele a suprimir definitivamente algumas polêmicas que nos animam enquanto torcedores – e estou entre aqueles que, curiosa e simultaneamente, comemoram as limitações inerentes à tecnologia atual. O luxuoso auxílio ainda pode ser aperfeiçoado; os protocolos que o acompanham merecem ser refinados à luz da experiência adquirida; os árbitros devem ser atendidos em suas reivindicações por uma qualificação sistemática (urge que as condições estruturais para tanto sejam fornecidas pelas federações); mas nada disto haverá de implicar a extinção dos debates públicos de botequim por um fator incontornável: a despeito de todo e qualquer cérebro eletrônico, o futebol segue humano, demasiado humano. Que assim permaneça.

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“Paraibadas”

Repercutiu enormemente nos últimos dias na Paraíba, de onde escrevo, as declarações de uma subcelebridade brasiliense, dessas com muitos seguidores nas redes sociais, em que ela, ao se revoltar com um grave caso de violência contra a mulher, lembrava a origem do autor do crime e dizia que aquilo era coisa de “paraíba”.

A declaração, óbvio, não pegou bem. Repercutiu pela Paraíba e pelo Nordeste. Causou revolta.

Mas o pior foi a emenda que estava por vir.

Ao responder as críticas iniciais, disse que não fez nada demais. Que “paraíba” era uma mera força de expressão que vinha de “paraibada”, alcunha que segundo ela serviria para se referir a quem faz algum tipo de besteira. “Como por exemplo bater em mulher”, exemplificou.

Vocês entenderam bem, não foi? Para a tal subcelebridade, quem comete um crime faz, no fim das contas, uma “paraibada”. E ela dizia isso jurando que não estava cometendo nenhum tipo de preconceito.

Pois é justo nesse detalhe que eu queria me apegar no presente texto.

A facilidade que as pessoas têm de naturalizar a violência, de minimizar os efeitos do preconceito, de dizer que o alvo dos ataques é que estão exagerando. Ou, em sentido completamente oposto, as dificuldades dessas pessoas em entenderem que algumas expressões cotidianas, aparentemente livres de intencionalidades, tem uma carga terrível. Que, invariavelmente, leva ao preconceito – e à violência – para outros espaços.

Como, por exemplo, ao esporte.

Xenófobos, afinal, nunca se admitem como tal. E, sem se admitir, apenas disseminam o preconceito nas áreas mais distintas possíveis.

E, ao falar dessa questão numa perspectiva esportiva, é impossível não lembrar do famoso caso de Edmundo, à época jogador do Vasco da Gama. Tão longínquo, tão incrivelmente atual.

O ano era 1997. O jogo válido pelo Brasileirão daquele ano, entre o Vasco e o América-RN, era em Natal. O árbitro que acabou expulsando o jogador naquela partida, ainda nos primeiros minutos de jogo, era o cearense Francisco Dacildo Mourão. Mas, para Edmundo, tudo não passava indiscriminadamente de “paraibas”. Fazendo “paraibadas”, oras.

A frase ficou célebre:

– Viemos para a Paraíba e colocam um “paraíba” para apitar – disse ao microfone enquanto deixava o campo de jogo.

Momento em que Edmundo é xenofóbico durante entrevista. Fonte: Bol

Depois, quando a coisa se voltou contra ele, foi mais um a repetir o mantra dos preconceituosos:

– É que no Rio temos o costume de chamar os nordestinos de “paraíba”, só isso.

Só isso, pessoal.

Mas, não é só isso, a gente sabe bem.

Esse preconceito regional regular, naturalizado a ponto de não ser percebido pela maioria da população, gera consequências em todos os cenários possíveis.

Resulta, muitas vezes, numa precarizada cobertura esportiva daquilo que é praticado no Nordeste. Numa mudança de peso daquilo que é notícia para a chamada “grande mídia” – sugiro, a propósito, a leitura de novíssimo artigo de Ana Flávia Araújo (2021) sobre o tema. Numa Série A de Brasileirão pouco nordestina, numa Copa do Brasil cada vez mais anti-democrática e pouco interessada nos clubes fora do “eixo”, e por aí em diante.

Mas o preconceito não para por aí.

Apenas a título de ilustração, queria citar uma experiência que vivi durante minha pesquisa de mestrado, quando certa vez acompanhei torcedores do Botafogo da Paraíba a Ribeirão Preto, para um jogo da Série C do Brasileirão, que valia vaga na Série B do ano seguinte.

Imagine o bonito Estádio Santa Cruz completamente abarrotado.

Torcedores do Botafogo-PB no estádio Santa Cruz.

Milhares de torcedores do time do interior paulista circundando toda a arquibancada e espremendo cerca de 400 paraibanos num pequeno pedaço.

Cânticos, gritos, xingamentos, provocações ao longo de 90 minutos. Em quase todo o tempo, a mensagem era violenta, depreciativa, lembrando o lado supostamente negativo de ser “paraíba”. Falava-se de ignorância, de seca, de cabeças chatas, outros tantos estereótipos. Tudo sob o selo da “brincadeira”, da “simples expressão”, do “hábito”.

Pois não é brincadeira. Não é expressão. Não é modo de falar. É preconceito e violência que reverbera no cotidiano dos paraibanos e nordestinos. Por anos e anos a fio.

Nesta lógica, se me permitem parafrasear Miguel Vale de Almeida (2004) em sua reflexão sobre sinais diacríticos, o ser nordestino não é o outro lado da moeda de ser sudestino, por exemplo. É o lado pior, negativo, inferior, mais desvalorizado, enquadrado de forma genérica sob a pecha de “paraíba”. Numa homogenização, a propósito, que apaga toda riqueza e pluralidade da região.

Isso precisa ser combatido, repelido, ser tratado como de fato é: o mais puro e xenofóbico preconceito regional. Sem mais.


Referências

ALMEIDA, Miguel Vale de. O Manifesto do Corpo. Lisboa, Revista Manifesto, nº 5, pp. 17-35, 2004.

ARAÚJO, Ana Flávia Nóbrega. Até quando precisaremos salvar os times do sudeste e invisibilizar os nordestinos, PVC?. Ludopédio, São Paulo, 2021.

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Breve panorama sobre Futebol Feminino no Brasil de 2019 a 2021: da obrigação à realidade

Por Camila Augusta e Luiza Gaborginni

“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”, a frase é do artigo 54 do Decreto-lei 3199, de abril de 1941, quando Getúlio Vargas governava o país. Os reflexos dessa medida são vistos até os dias atuais e 40 anos depois da permissão, o que se nota é um lento movimento dos clubes do país em prol do desenvolvimento do futebol feminino.

A partir de 2019, na tentativa de incentivar a modalidade, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) obrigaram os clubes a formarem um departamento feminino nos times nacionais. Dessa forma, esse texto reflete um pouco sobre como a regulamentação impactou os clubes no desenvolvimento de suas equipes femininas naquele ano e trazer luz sobre a realidade em 2021.

Ao final do livro “La era del fútbol” (2005), o argentino Juan José Sebreli, um crítico assíduo do esporte, observa que “nenhuma das grandes ideologias universais – o cristianismo, islamismo ou socialismo (…) puderam abarcar unanimemente sociedades, culturas, continentes, raças e sistemas políticos tão diversos como o futebol”. Além da paixão envolvida, o futebol também envolve reflexões sobre os conflitos raciais, religiosos, políticos, de gênero, entre outros.

Não muito distante, seria esse o contexto de debate sobre a busca pelo lugar da mulher dentro do futebol. No Brasil, a história de desigualdades e falta de espaço refletem ainda no parco investimento na modalidade quando praticada por mulheres.

Após essa proibição inicial, o futebol institucionalizado teve início em meados da década de 1980. Salles, Silva e Costa, (1996, p.80), para breve contextualização, afirmam que a primeira liga de futebol feminino foi formada em 1981, no Rio de Janeiro. Os autores afirmam que “havia então uma ordem implícita inibidora da presença da mulher neste espaço, ditando códigos excludentes para o sexo feminino”. Assim, o Esporte Clube Radar (E.C.R.), do Rio de Janeiro, foi o pioneiro na modalidade no país e teve uma trajetória de conquistas.

Time do Esporte Clube Radar (E.C.R) do Rio de Janeiro. Fonte: Kike da bola

À medida que os anos foram passando, as entidades que regem o futebol brasileiro enfrentaram, e enfrentam, dificuldades e desafios para encontrar as formas de investir e divulgar o futebol feminino. A manutenção de um time de futebol feminino adulto e na base está entre as medidas exigidas pelo Licenciamento de Clubes, que serve para estruturar e regularizar a gestão dos clubes no país. A medida foi aprovada no fim de 2016 e deu aos clubes dois anos para se adequar às regras. O estatuto da Fifa também inclui artigos que falam sobre a igualdade de gênero.

A partir de 2016, na tentativa de se engajar nas tendências contemporâneas de maior inclusão e igualdade, além de se adequar às mudanças do mundo, a Conmebol decidiu que era hora de tentar fortalecer o futebol feminino. Não só o cenário nos clubes mostrava a importância da ação, mas o rendimento das seleções repercutia no universo esportivo.

No mesmo ano, a Fifa publicou um documento sobre sua visão do futebol nos próximos dez anos. Nele, o incentivo ao futebol feminino ganhou muita importância. Entre os objetivos estão: estabelecer competições ao redor do mundo, assegurar o desenvolvimento local da modalidade, criar um programa de marketing e aumentar o número de mulheres nas entidades. Por isso, a Conmebol passou a exigir que os clubes que disputariam suas competições masculinas tivessem o investimento no departamento feminino e, consequentemente, em torneios da modalidade. A entidade passou a exigir equipe feminina (ou se associar a um clube que tenha); pelo menos uma categoria juvenil feminina (ou se associar a clube que tenha); suporte técnico, equipamento e infraestrutura com campo para treinamento e jogos; participar de competições nacionais e/ou regionais da CBF ou Federações estaduais.

A Copa Libertadores da América de Futebol Feminino completou 10 edições em 2018. Cada país associado à entidade teria direito a uma vaga, dada às campeãs do campeonato nacional. Antes do início da disputa em 2019, o Brasil era o país com mais títulos na competição, somando sete ao todo (Santos, duas vezes campeão; São José, três vezes; Ferroviária e Audax/Corinthians, uma vez cada).

A CBF também tornou a medida obrigatória para os clubes da Série A, exigindo uma equipe feminina disputando competições nacionais ou estaduais em 2018 ou 2019 (ou se associar a clube que tenha) e estrutura à disposição do time feminino, com equipe técnica e médica dedicadas, instalações para treinamento, campo para jogos, e eventuais contratos de patrocínio. Como prova da resistência que ainda existe, a determinação não refletiu bem alguns clubes.

De acordo com a CBF, os clubes que não cumprissem, em 2019, as regras estabelecidas estariam sujeitos a serem eliminados das competições que exigem a licença. São eles a Série A do Campeonato Brasileiro, Copa Sul-Americana e Libertadores. A entidade previa antes da exclusão da equipe que não se adequasse, uma orientação para que as medidas fossem cumpridas. A previsão de início era que as Séries B, C e D precisariam atender às exigências de forma gradativa, ou seja, em 2020, 2021 e 2022, respectivamente.

Assim, apenas sete clubes participantes do campeonato nacional iniciaram 2019 com o departamento de futebol feminino já estruturado. Eram eles Ceará, Corinthians, Flamengo, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco. No dia 26 de fevereiro, após a divulgação da tabela das Séries A1 e A2, apenas CSA, Fortaleza e Goiás, disputariam somente o campeonato estadual feminino naquele ano.

A partir de coleta realizada em 2019 nos portais dos clubes, é possível afirmar que no Rio de Janeiro o Club de Regatas Vasco da Gama tem um projeto próprio, de base e adulto, assim como o Botafogo de Futebol e Regatas, que montou sua equipe às vésperas do início do Brasileiro mesmo ano, com recursos próprios e um investimento de R$ 25 mil. O Clube de Regatas do Flamengo tem, desde 2011 uma parceria com a Marinha do Brasil. O clube compôs com os próprios recursos um time sub-18, pois, assim como os outros cariocas, teria direito a uma vaga no Brasileiro da categoria. O Fluminense Football Club assinou um acordo com o projeto Daminhas da Bola, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Neste caso, a parceria atende também a base, com equipes sub-11, sub-13 e sub-15 no futsal e sub-15 e sub-17 de futebol de campo.

O cenário em São Paulo se desenvolveu como um dos mais promissores do país. Sport Club Corinthians Paulista e Santos Futebol Clube contam com equipes de ponta e de gestão própria. O primeiro criou em 2019 uma equipe sub-17 e tinha uma parceria com o Audax até o início de 2018 e o segundo foi vice-campeão da Libertadores e funciona desde 2015. O sub-17 é feito em parceria com o colégio Santa Cruz e com a Universidade de São Paulo. O São Paulo Futebol Clube tem parceria com o Centro Olímpico, com times sub-17 e adulto. O clube, inclusive, contratou a veterana Cristiane, um dos principais nomes da modalidade. Apesar de ter montado o projeto apenas em 2019, o São Paulo se planeja desde 2017 com alojamento e centro de treinamento. A Sociedade Esportiva Palmeiras montou a equipe às pressas, representando naquele ano time mais caro do país. Sob o comando da experiente treinadora Ana Lúcia Gonçalves, o projeto tem sede na cidade de Vinhedo.

Em Minas Gerais, o Clube Atlético Mineiro tem uma parceria como Prointer Futebol Clube, firmada em 12 de dezembro de 2018. O time é único, até 21 anos. O Cruzeiro Esporte Clube foi um dos últimos a anunciar a equipe. Com um investimento de pouco mais de R$ 1 milhão por ano, o clube formou uma equipe própria e primeiro focou no time adulto para futuramente montar um sub-18. O Goiás Esporte Clube funciona em parceria com a Universidade Salgado Filho, com times adulto e de base.

No Nordeste, o Esporte Clube Bahia firmou parceria com o Lusaca, time feminino da cidade de Dias d’Ávila, e tem times sub-17, sub-20 e adulto. O Ceará Sporting Club tem vínculo com a Associação Menina Olímpica e também time de base e profissional. O Centro Sportivo Alagoano (CSA) montou a equipe adulta com gestão independente e estrutura uma escolinha, com o sub-15, sub-17 e sub-20. Até 2018, o time feminino era gerenciado por voluntários e as atletas jogavam recebendo pouco. O Fortaleza preferiu montar um projeto próprio, mesmo com propostas de parcerias, e jogou apenas o Estadual no primeiro ano de obrigatoriedade.

No Sul, o Club Athletico Paranaense firmou a parceria com o Foz Cataratas, que trabalhava com o Coritiba desde 2016. São equipes adultas e de base e o Foz é um dos times femininos com melhor rendimento dos últimos anos. O Avaí Futebol Clube também assinou um acordo com um projeto de sucesso, o Kindermann, tradicional equipe da categoria, tem 10 títulos do Campeonato Catarinense. O Grêmio tem gestão independente e times adultos, Sub -20, Sub-17 e Sub-15. O clube prometeu profissionalizar todas as jogadoras neste ano. É o mesmo caso do Sport Club Internacional, que também planeja um Centro de Treinamento junto ao alojamento. A Associação Chapecoense de Futebol montou primeiro a equipe de base, para depois estruturar seu time adulto. O clube tem parceria com a escola pública Associação Desportiva de Lourdes Lago desde 2016.

Como os dados acima apresentados refletem o cenário pós obrigatoriedade da Conmebol e CBF de 2019, é necessária breve revisão sobre a realidade das equipes femininas e os campeonatos nacionais hoje. Tal fato expressa relevância quando se observa o contexto de pandemia da COVID-19 em 2021, o vírus Sars-CoV-2 que afeta o sistema respiratório assola o mundo e, particularmente o Brasil, com mais de 510 mil mortes no país em junho do mesmo ano, fruto de um governo que não cumpre com as medidas protocolares indicadas a prevenção da doença, bem como com a falta de políticas públicas para o cuidado com a população. Obviamente, é necessário lembrar ainda a crise econômica que afeta alguns clubes brasileiros e que reflete na estrutura das equipes femininas.

Atletas fazem teste de Covid-19 Fonte: Clube Atlético Juventus

No Rio de Janeiro, o Botafogo mantém a equipe feminina, as Gloriosas, que atualmente disputa o Campeonato Brasileiro A1, na tentativa de permanecer na série da competição. Em 2020 o clube encerrou a categoria de base feminina sub-18. A equipe do Vasco da Gama disputa o Campeonato Brasileiro Série A2 em 2021. No mês de junho, o clube implantou na Vila Olímpica de Duque de Caxias um novo Centro de Treinamento para todas as equipes de futebol feminino do clube. Já a equipe feminina do Flamengo foi campeão da Taça Guanabara de 2021 e segue na disputa do Campeonato Brasileiro A1 e do Brasileiro sub-18 . As jogadoras do Fluminense seguem disputando as oitavas de final do Campeonato Brasileiro Série A2.

Em São Paulo, as equipes dos clubes Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo estão disputando a Série A1 do Campeonato Brasileiro. Outras equipes do estado que também participam do campeonato são Ferroviária e São José, de Araraquara e São José dos Campos, respectivamente. A equipe feminina da Ponte Preta marca presença no Campeonato Brasileiro Série A2.

Time feminino da Ferroviária, atual campeã da Libertadores Feminina.
Fonte: CBF

Ao todo, a Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino conta, em 2021, com 16 equipes. Além das equipes cariocas e paulistas, disputam a competição Kindermann-Avaí e Napoli, de Santa Catarina; Internacional e grêmio, do Rio Grande do Sul; Minas Brasília e Real Brasília, do Distrito Federal; e Bahia.

O Campeonato Brasileiro Feminino Série A2 já se encontra nas oitavas de final, mas iniciou 2021 com 36 equipes. A relação dos jogos e clubes que ainda estão na disputa do campeonato pode ser encontrada aqui.

Além de contar com Campeonatos Brasileiros de Futebol Feminino Sub-18 e Sub-16, é importante ressaltar que em maio deste ano, foi anunciada a criação da Série A3, a terceira divisão do Campeonato Brasileiro Feminino. Com 32 clubes participantes, a competição terá início em 2022. Tal fato demonstra o crescimento do futebol feminino no Brasil, que precisa cada vez mais de incentivo e apoio no país extremamente conservador, principalmente no universo esportivo.


Este texto contém partes do artigo:

PEREIRA, Camila Augusta; GARBOGGINI, Luíza. A obrigação explica o desenvolvimento: clubes cariocas e o futebol feminino em 2019. Anais do 43º CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Evento virtual – Universidade Federal da Bahia (UFBA) – Salvador-BA – 1º a 10 de setembro de 2020. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2020/lista_area_DT6-CE.htm

Outras fontes:

CAMPEONATO BRASILEIRO FEMININO DE FUTEBOL

SALLES, J. G. C.; SILVA, M.C.P. & COSTA, M.M. (1996). A mulher e o futebol: significados históricos. Em S., Votre (Coord.) A representação social da mulher na educação física e no esporte. Rio de Janeiro: Editora Central da UGF.

SEBRELI, Juan José. La era del fútbol. Buenos Aires: Debolsillo, 2005.

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“Eu tô pagando!”. Quando o capital se apropria do lúdico

“Tô pagando!!”. Esse era o bordão da personagem Lady Kate interpretada pela atriz Katiuscia Canor. Uma sátira ao processo de financeirização [1] do cotidiano e do comportamento dos chamados “novos ricos”. Nessa lógica, tendo dinheiro, qualquer coisa se consegue. Indo mais além, é possível submeter outros seres humanos a sua vontade já que “você está pagando”. A transformação do cidadão em consumidor passa por essa compreensão. “Eu quero tudo do meu jeito”, já que eu paguei, posso consumir o que eu quiser, não importando como se alcançará a minha vontade. A naturalização deste pensamento é apenas uma das ações perversas do capital. Ele retira a dignidade do outro ser humano que precisa vender a sua força de trabalho e fica a mercê dos interesses da empresa/patrão. Se estou pagando, eu escolho como, onde, e em quais condições o outro trabalha. O empregado não pode reclamar, afinal, ele precisa daquilo para sobreviver. A narrativa das revistas de gestão empresarial “ensina” técnicas de como fazer o trabalhador naturalizar essas ações e se sentir parte da empresa, alguém que deve se esforçar ao máximo para entregar tudo que lhe é pedido. Para isso se utilizam de metáforas oriundas do mundo esportivo com “vestir a camisa” da empresa.

Na última semana, dois casos específicos ocorridos com jogadores do Flamengo evidenciam o poder do capital sobre o lúdico. Logicamente que faz tempo que esse processo ocorre, mais precisamente desde a profissionalização do esporte. A partir deste momento o jogador recebia para praticar a atividade e estava sujeito a regras do clube. Neste cenário o papel do treinador emerge como o responsável por “vigiar e punir” os atletas. O lúdico vai perdendo terreno para a necessidade de acumulação de vitórias. Nossa intenção nesta coluna é mostrar como o discurso desta financeirização está entranhado no cotidiano que não só legitima esse “eu tô pagando” mas também torna quem o contesta quase um extraterrestre, alguém que “não entendeu como o mundo funciona”.

Começamos pelo caso Gerson. O volante, visivelmente emocionado ao dar uma entrevista após o fim da sua última partida pelo Flamengo ao repórter Eric Faria, da TV Globo, deixou claro o seu “pesar” por deixar o clube. Em uma análise rápida de seu discurso já se evidencia que a ideia de que “é preciso fechar as contas” sacrificou a sua vontade de se manter no clube do coração. Por mais que procure se desdenhar e sacramentar que o jogador não tem mais o lúdico, ou seja, o sonho de criança, de jogar no clube do coração, no estádio que ele ia para ver o Flamengo jogar quando menino, é esse lúdico que é atacado pelo capital. Percebam que sair do clube é uma forma de ter dinheiro e “equilibrar as contas”. Se tem alguém pagando por ele, o seu lúdico, sua vontade e seu desejo deixam de ser respeitados e são apropriados pelo dinheiro. Sei que a essa altura, o leitor acostumado com a normalidade da financeirização bravejará: “então como se fecha a conta do clube?”. Essa é a lógica do capital: submeter as ações humanas à acumulação. Gerson não foi o primeiro, não será o último. Até Zico já “teve que ser vendido”. É sobre essa imposição do “tô pagando” que este texto procura refletir e causar incômodo no leitor, ou seja desnaturalizar esse discurso.

Gerson chora em entrevista após sua última partida pelo Flamengo
Fonte: ESPN

Outro caso, no mesmo clube, é do atacante Pedro. Convocado para disputar os Jogos Olímpicos pela seleção brasileira em Tóquio, Pedro não será liberado pelo clube. Nos grupos de whatsapp surgem as frases prontas de flamenguistas ensandecidos: “o Flamengo que paga, o Flamengo decide”. A clara defesa de que: quem está pagando decide o que fazer com a vida do atleta. Pedro está querendo jogar os Jogos Olímpicos. Por mais que tenha passado por reapropriações do sentido original desejado pelo Barão Pierre de Coubertin no final do século XIX, os Jogos ainda se sustentam no imaginário social como o local da disputa por si só, do jogo e do lúdico. Pedro tem o desejo de participar desse evento. Um sonho de menino para alguns. Um sonho de ganhar novos contratos para outros. Seja qual for real desejo do atleta, o clube se apodera da narrativa do “tô pagando” para validar a sua decisão. Uma empresa (neste caso, o clube atua totalmente como empresa) deveria ter realmente este poder? Ela pode escolher as ações de seu comandado desta forma? Ela é “dona” do atleta simplesmente porque paga o seu salário? Se é alto ou não, o certo é que ninguém deveria se prender a essa lógica. Pedro não é nenhum revolucionário, não quer tomar os bens de produção, ele quer apenas jogar o jogo.

Pedro atuando pela seleção olímpica. O jogador não deve ser liberado para a competição em Tóquio
Fonte: Gazeta Esportiva

Neste viés, naturaliza-se essa apropriação do corpo e da vontade do cidadão pelas empresas e patrão. Os manuais de gestão de pessoas, maravilhosos na prática e raramente seguidos pelas empresas brasileiras, indicam que um funcionário feliz “rende mais”. As empresas hoje, no nosso caso os clubes, por pagarem o salário, se acham no direito de decidir o que seria a felicidade alheia. A felicidade de Gerson seria “jogar na Europa” e “ficar rico”. Talvez esse não seja a vontade de todos os mortais. Adriano “Imperador” já demonstrou isso. A realização de Pedro será “ficar no banco de Gabigol”, esperando a oportunidade, porque o clube está pagando? Um mínimo de bom senso, até mesmo no sentido financeiro, no caso de Pedro, liberaria o jogador, ele voltaria “valorizado” e “empolgado”, mais “confiante” (termos usados pelos coachs) para voltar a “vestir a camisa” do Flamengo (em todos os sentidos). Podia-se até negar a convocação, mas a condução do caso mostrou a narrativa típica de uma elite escravocrata, arrogante e exploratória.

Enfim, o extraterrestre aqui se incomodou demais com a normalização da financeirização nas análises dos colegas de imprensa. Aquele que bate palmas para essa argumentação hoje dá aval para que o seu patrão decida os rumos de sua vida simplesmente por “estar pagando” o seu salário. Vou pegar minha nave de volta ao mundo em que o ser humano vem antes do dinheiro, com o desejo de ter colocado várias pulgas atrás das orelhas dos terráqueos que idolatram o capital.


[1] Aqui a dotamos a interpretação de financeirização de Bryan e Rafferty (2006) ao compreender que este processo significaria não apenas que o setor financeiro está maior, mas que as formas financeiras de cálculo estão se tornando mais difundidas socialmente.

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Criação de Liga independente de clubes terá como principal oponente estrutura política arcaica

Diante da fragilidade política vivida atualmente pela Confederação Brasileira de Futebol, os clubes da série A do campeonato brasileiro se articulam na tentativa de se desprender das amarras das entidades políticas do futebol e ter o controle sobre competições nacionais. O processo, no entanto, deve ser penoso. Rogério Caboclo, mandatário acusado de assédio moral e sexual por funcionária da CBF, está afastado do cargo por um mês e ocupando interinamente sua vaga está Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes. O descrédito da CBF junto à opinião pública cria um momento propício para os clubes se movimentarem nos bastidores em prol de mudanças.

Os clubes reivindicam o poder de criação e organização das competições nacionais que pode consertar uma falha que acomete os clubes há muitos anos: o prejuízo técnico que a ausência de paralisação dos campeonatos durante as datas FIFA traz às agremiações. Com a presença dos estaduais, as 38 rodadas do campeonato brasileiro ocorrem em um período enxuto que vai, geralmente, de maio a dezembro. A necessidade de encerrar o campeonato ao final do ano resulta na não paralisação dos jogos durante competições e jogos internacionais, resultando em prejuízo técnico e financeiro aos clubes que têm atletas convocados; o mais grave, muitas vezes pagando salários de 6 ou 7 dígitos para ver seus atletas atuarem em amistosos sem nenhuma relevância esportiva, a não ser para atender aos interesses dos patrocinadores envolvidos nas partidas. Para fins de comparação, na Europa e mesmo no Sul Global como nossos hermanos argentinos, as competições nacionais param durante as partidas de seleção. A ausência de campeonatos estaduais é um ponto nevrálgico que permite uma folga no calendário nesses países.

Em reportagem recente, Rodrigo Mattos, jornalista do UOL, mostrou que a CBF tem por obrigação prevista no artigo 41 da Lei Pelé custear o salário dos jogadores enquanto estiverem a serviço da seleção. A CBF, entretanto, como demonstrado pela reportagem, não cumpre o que está previsto em lei. O Flamengo, por exemplo, teve de ceder dois de seus principais e mais caros jogadores para atuarem na Copa América de 2021, Gabigol e Éverton Ribeiro. Dessa maneira, perderão seus atletas por aproximadamente 9 rodadas do campeonato brasileiro, pagando integralmente seus salários e sem nenhum tipo de contrapartida por parte da CBF.

A dificuldade que o movimento de mudança encontrará reside da existência das federações estaduais. Como jabuticabas, só existem no Brasil. Com mais força e peso que os clubes nas tomadas de decisão, as agremiações dependeriam da aprovação das federações para criação da Liga, isto porque há dois tipos distintos de Assembleia Geral previstas no estatuto da CBF e os clubes têm participação prevista apenas na Assembleia Geral Eleitoral, cuja função é definir o presidente e vice-presidentes da entidade; a Assembleia Geral Administrativa, por sua vez, aquela na qual são definidas questões mais profundas como mudanças no calendário, destituição de presidente e prestação de contas da Confederação, tem participação apenas das entidades estaduais. Ou seja, para a criação da Liga os clubes dependeriam também das federações estaduais, cujo interesse maior é manter os Campeonatos Estaduais que geram receitas e garantem suas existências. Mesmo na Assembleia Geral Eleitoral, os clubes possuem peso de voto menor que as federações. Ao passo que as federações possuem peso 3, totalizando 81 votos com suas 27 federações, os clubes da série A têm peso 2 e os da B, peso 1. Ou seja, os clubes, unidos, totalizam apenas 60 votos. A escolha de presidentes e vices está absolutamente vinculada às vontades das federações.

Assembleia Geral reuniu os 27 presidentes das federações estaduais para mudança de Estatuto, em 2015. Fonte: site da CBF.

O próprio desenho institucional da política do futebol nos faz prospectar o quão longe, de fato, uma mudança pode ser vislumbrada neste momento. Parece que a retirada dos longuíssimos campeonatos estaduais, com infindáveis jogos inúteis e mal jogados tecnicamente não é uma opção no calendário futebolístico brasileiro. Experiência recente como a criação da Primeira Liga evidenciam os percalços que poderão vir mais à frente. A Liga durou apenas o biênio 2016-2017, sendo desmanchada precocemente devido ao calendário apertado, uma vez que os campeonatos estaduais continuaram sendo disputados normalmente. O movimento atual, ao contrário do que ocorrera na Primeira Liga, conta com todos os clubes da primeira divisão nacional, mas a questão dos estaduais continua sendo o calcanhar de Aquiles para mudanças mais profundas de política e mentalidade do futebol brasileiro.

Para entender os desafios de movimentos como o recém inaugurado pelos clubes brasileiros, faz-se necessário compreender como se estruturam as instituições políticas e quais interesses estão por trás do desenho institucional do futebol no Brasil. Na tentativa de compreender sociologicamente a estrutura política do futebol brasileiro, podemos mobilizar um arcabouço teórico que descortine práticas e valores políticos como patrimonialismo e clientelismo por trás do modus operandi da cartolagem brasileira. Revisitar conceitos e recorrer a autores tão caros na tradição das ciências sociais no Brasil – como Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Oliveira Vianna, Raymundo Faoro, etc. – nos dão a condição de visualizar o funcionamento das instituições políticas do futebol como parte integrante de processos sociais mais abrangentes e de longa duração da sociedade brasileira. Afinal, valores tão tenazes na sociabilidade brasileira oriundos das próprias bases sociais de nossa vida política de passado colonial, como a prevalência do interesse privado em detrimento a interesses mais gerais, se faz ainda presente na própria estruturação das instituições políticas. A estrutura política arcaica do futebol brasileiro pretende favorecer aos interesses da cartolagem da CBF, como percebemos no maior peso decisório dado às federações estaduais, cerceando ações independentes dos clubes. São as ações dotadas de valores dos atores sociais que criam e recriam as instituições na sociedade e o futebol não está infenso a este processo.

Devemos nos atentar, portanto, ao desenvolvimento dos próximos acontecimentos com um olhar especial ao papel desempenhado pelas federações estaduais como um ator político fulcral nesse movimento de mudanças capitaneado pelas agremiações da elite do futebol nacional. Uma mudança de fato significativa nos rumos tomados pelo futebol brasileiro e de sua modernização passam pela extinção dos campeonatos estaduais e da readequação de um calendário que favoreça aqueles que possuem o monopólio da paixão do torcedor: os clubes.

Referências bibliográficas

BOTELHO, André e SCHWARCZ, Lilia. Público e privado no pensamento social brasileiro. In: Agenda Brasileira – Temas de uma Sociedade em Mudança. São Paulo: Companhia das Letras; 1a edição, 2011.

DA SILVA, Breno Carlos.“FUTEBOL-BANDIDO”: Os cartolas da CBF e a corrupção no Brasil. In: Ciências Socias aplicadas: necessidades individuais & coletivas 2. Paraná: Editora Atena, 2020.

Artigos

Uma provocação: as cotas mudaram o ranking do Brasileiro?

Com o rebaixamento de Botafogo e Vasco, no Brasileiro de 2020, e o não retorno do Cruzeiro à primeira divisão em 2021, pela primeira vez, três das 12 equipes mais tradicionais do país [1] vão disputar, numa mesma edição, a série B. O fato de 1/4 dos integrantes do que chamamos aqui de tradicionais nacionalmente (TN) estarem excluídos, ao menos provisoriamente, da elite do futebol brasileiro ensejou diversas tentativas de explicação e hipóteses.

Má gestão e incompetência são as mais recorrentes. O diagnóstico tecnicista parece ganhar maior densidade explicativa quando contraposto a um reivindicado maior profissionalismo dos clubes que têm se mantido no topo do ranking do Brasileiro. Sem desconsiderarmos ambas, queremos analisar outro ângulo que parece negligenciado, principalmente pelo jornalismo esportivo: os efeitos da implosão do Clube dos 13, em 2011, com a consequente concentração das cotas de televisão em apenas dois clubes.

Fábio Koff, ex-presidente do Clube dos 13
Fonte: Trivela

Pergunta-se se o novo paradigma deflagrou um processo de reconfiguração do TN, instaurando novo patamar de competitividade, em que, da multiplicidade de candidatos a campeão nacional, tem-se padrão próximo ao da maioria dos principais campeonatos europeus, restritos a dois ou, no máximo, três concorrentes ao título. Para responder a essa hipótese, comparou-se a classificação nos noves Brasileiros seguintes ao fim do Clube dos 13, de 2012 a 2020 – o novo modelo de contrato da TV Globo só começou a vigorar em 2012 – com as nove edições imediatamente anteriores, de 2003 a 2011. Vamos nos abster de uma historiografia da criação e do fim do Clube dos 13 [2]. O que nos mobiliza aqui são as consequências, nos níveis de competitividade, dos times TN a partir da negociação individual da Globo com as equipes.

Optou-se por uma visão panorâmica, em que não se cotejou apenas os campeões do Brasileiro nos dois períodos. A comparação estendeu-se aos que, num intervalo e outro, alcançaram as quatro primeiras posições – o G4 – com vaga automática à Libertadores, competição que se tornou o principal foco de clubes, torcedores e imprensa. Analisou-se, ainda, os rebaixados à segunda divisão – o Z4 – o que, também, dá pistas sobre a reconfiguração em curso. Neste último recorte, subdividiram-se as equipes entre os 12 tradicionais nacionalmente (TN) e as não integrantes desse grupo, os tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

O primeiro intervalo de nove anos tem início em 2003, quando instaura-se o sistema de pontos corridos no Brasileiro. A partir dessa edição, os quatro primeiros classificados garantem vaga à Libertadores. Não se considerou, na comparação, nem o campeão da Copa do Brasil nem o da Sul-Americana, ambos com vaga à Libertadores – no caso da segunda apenas a partir de 2010. Por se tratar de competições que envolvem jogos mata-mata, estão sujeitas a maior imprevisibilidade, diferentemente do campeonato por pontos corridos, o que distorceria o objetivo aqui buscado.

Descartou-se, ainda, a inclusão, no comparativo, do quinto e do sexto lugares do Brasileiro, que, a partir de 2016, quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) ampliou o número de vagas na Libertadores para Brasil, Argentina, Chile e Colômbia, asseguram vaga à fase eliminatória da Libertadores. Pensa-se que nossa opção metodológica dá uma percepção mais nítida sobre o caráter competitivo dos clubes, antes e depois, da implosão do Clube dos 13.

Cotas (quase) iguais no TN até 2011

Concentrou-se, basicamente, no valor pago pela TV aberta, ainda a principal plataforma do país e a mais valorizada por grande parte dos anunciantes de futebol. Da criação da Copa União, em 1987, até 2000, a cota da TV era dividida em partes iguais pelos filiados ao Clube dos 13, com quantias inferiores aos “convidados”. Segundo cálculo do jornalista Mauro Beting, citado no blog do jornalista Allan Simon, em 1987, cada integrante da associação recebeu 12,8 milhões de cruzados, equivalente a quase R$ 2 milhões em valores atualizados pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre dezembro de 1987 e dezembro de 2019. (SIMON, 2000).

A partir de 2001, a entidade separou Flamengo, Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Vasco em um grupo que ganharia mais, e outro com Botafogo, Fluminense, Santos, Grêmio, Internacional, Atlético-MG, Cruzeiro e Bahia, com valores menores. Outros ajustes ocorreram até que, em 2011, a última divisão antes do fim do Clube dos 13 contemplava quatro grupos distintos:

Fonte: LEITE JR (2015, P.61) [4]

Com tal distribuição de valores, tivemos, entre 2001 e 2010, seis clubes campeões: São Paulo (3 títulos), Corinthians (2), Flamengo, Fluminense, Cruzeiro e  Santos (1 cada). Classificaram-se para o G4, nesse novênio, 13 equipes: São Paulo (6 vezes); Santos e Cruzeiro (4 cada); Grêmio, Palmeiras, Internacional, Flamengo e Fluminense (3), Corinthians, Vasco, Athletico-PR, São Caetano e Goiás (1). Foram rebaixados à segunda divisão, nesses nove anos, quatro clubes do TN: Vasco, Corinthians, Grêmio e Atlético-MG – todos com uma única queda. Entre as equipes fora desse grupo, 25 caíram de série: Fortaleza, América-MG, Coritiba, Vitória, Avaí e Guarani (2 vezes cada); Bahia, Ceará, Portuguesa-SP, Sport, Santa Cruz, Paraná, Juventude, Figueirense, Ipatinga, Santo André, Náutico, Goiás, Barueri, São Caetano, Ponte Preta, Payssandu, Crisciúma, Brasiliense, Athletico-PR (1).

Vê-se, assim, uma briga bastante competitiva pelo título, com apenas dois clubes, São Paulo (3) e Corinthias (2), vencendo mais de uma vez a competição, e com seis campeões diferentes em nove anos. O G4 também mostra grande pluralidade: dez dos 12 TN – Botafogo e Internacional são as exceções – participaram, ao menos uma vez, em nove anos, da Libertadores, assim como três equipes TR: São Caetano, Athletico-PR e Goiás. Os clubes TN rebaixados no período – 4 – só caíram uma vez de divisão em nove anos, com todos retornando à série A após apenas um ano na B.

Com o fim do Clube dos 13, o contrato para o triênio 2012 a 2015 já ampliou consideravelmente a assimetria do pagamento pelas partidas na TV aberta:

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 83)

No triênio 2016 a 2018, a concentração se acentuou ainda mais.

Fonte: LEITE JR. (2015, p. 84)
* Demais clubes: negociações anuais com a Globo, a depender da participação na Série A

Com isso, a partir de 2016, Flamengo e Corinthians elevam a diferença de R$ 30 milhões sobre o São Paulo para R$ 60 milhões. Em relação a Vasco e Palmeiras, avança de R$ 40 milhões para R$ 70 milhões. Sobre o Botafogo, que na transição do Clube dos 13 para as negociações individuais, vira sua cota avançar de R$ 16 milhões para R$ 45 milhões, a distância para o Flamengo saltou, de R$ 9 milhões em 2011, “para inacreditáveis R$ 110 milhões”. (LEITE JR, p 85).[5]

Nesse modelo, entre 2012 a 2020 temos cinco campeões brasileiros: Corinthians (3 vezes); Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo (2 cada) e Fluminense (1). Classificaram-se para o G4, no período, 12 equipes: Grêmio e Flamengo (5 vezes); São Paulo, Corinthians, Atlético-MG e Palmeiras (4); Internacional e Santos (3), Cruzeiro, Fluminense e Athletico-PR (2); Vasco e Botafogo (1). O número de rebaixados do TN avançou de quatro para cinco – Vasco (3 vezes); Botafogo (2); Internacional, Cruzeiro e Palmeiras (1 cada). Entre os clubes fora do TN foram 20: Avaí (3); América-MG, Vitória, Goiás, Figueirense, Coritiba e Ponte Preta, Atlético-GO e Sport (2); Crisciúma, Joinville, Santa Cruz, Paraná, CSA, Chapecoense, Athletico-PR, Ceará, Portuguesa-SP [6], Náutico e Bahia (1).

Vê-se que, entre um período e outro, o número de campeões recuou de seis para cinco. Para além dessa redução, parece mais significativo que, nos últimos seis anos, apenas dois times de São Paulo – Corinthians e Palmeiras (2 vezes cada) – e um do Rio – Flamengo (2) venceram o Brasileiro. Se na década anterior, houve seis campeões diferentes em nove edições, no intervalo seguinte, em seis dos últimos anos, foram só três os vencedores, sinalizando concentração rara na história do futebol brasileiro. O número de times no G4 caiu só de 13 para 12, sendo 11 do TN – a exceção foi o Vasco – contra dez no intervalo anterior. A estabilidade no número de frequentadores da Libertadores permite duas leituras complementares. Por um lado, à parte Flamengo e Corinthians, temos seis dos outros dez clubes do TN em ao menos três das nove edições – Grêmio (5) São Paulo, Palmeiras e Atlético-MG (4), Internacional e Santos (3). Isso pode indicar que, com a emblemática exceção do Palmeiras [7], os demais, sem condições de brigar pelo título, tiveram de se contentar com a ida à Libertadores.

Simultaneamente, o número de quedas de alguns integrantes do TN deu salto importante: de uma vez para três (Vasco) e de zero para duas (Botafogo). E, pela primeira vez desde o início dos pontos corridos, em 2003, um integrante do grupo – o Cruzeiro, campeão do primeiro ano da segunda década – não logrou retornar à série A no ano seguinte [8]. Também pela primeira vez, três TN – Cruzeiro, Botafogo e Vasco, 1/4 daquele universo – vão disputar a série B. Fora do TN, a presença no G4 caiu de dois para um, embora este – Athletico-PR – tenha se classificado duas vezes, sinalizando que o time paranaense pode ter encontrado um modelo competitivo superior ao de outros mais tradicionais, mas insuficiente para disputar, e vencer, o Brasileiro.

Expostos os dados comparativos, nos limitamos a deixar uma provocação à reflexão dos que pensam o futebol como manifestação cultural e identitária para além do clubismo: seria a gestão explicação suficiente e única para a nova configuração de competividade no TN?



[1] Considera-se aqui como tais 12 clubes: quatro do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco); quatro de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos); dois de Minas Gerais (Atlético-MG e Cruzeiro); e dois do Rio Grande do Sul (Grêmio e Internacional). Serão doravante nomeados tradicionais nacionalmente (TN), em contraponto aos tradicionais regionalmente (TR) ou localmente (TL).

[2] Para uma análise detalhada do Clube dos 13 ver SANTOS, 2019; LEITE JR, 2015 e CHRISTOFOLETTI, 2015.

[3] Por estar na segunda divisão, recebeu apenas 50%.

[4] Os clubes que não faziam parte do Clube dos 13 tinham que negociar diretamente com a entidade e não recebiam mais do que 45% do valor do Grupo 3.

[5] Em 2019, um ano após o Grupo Turner, via Esporte Interativo, entrar na disputa da TV fechada, a Globo mudou a fórmula de cotas da TV aberta: 40% dos valores passaram a ser distribuídos igualmente pelos clubes, 30% pela colocação no campeonato e 30% pelo número de partidas exibidas. Embora essa mudança aparentasse reduzir as assimetrias, a Globo ampliou o número de partidas do Corinthians na TV aberta e, aproveitando o ano excepcional do Flamengo, priorizou transmitir os jogos deste time via pay-per-view. Com essas duas opções, elevou ainda mais a diferença dos valores pagos à dupla. O detalhamento das consequências dessa mudança ampliaria excessivamente o espaço desta comunicação. Consideramos que os números já expostos já dão conta do foco aqui escolhido.

[6] O rebaixamento da Portuguesa-SP, em 2013, ocorreu por fatores extracampo. Sob a alegação de que, quase ao fim do último jogo – 0 x 0 contra o Grêmio –, a equipe paulista colocou em campo o meia Heverton, suspenso por duas partidas, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) puniu a Lusa com a perda de quatro pontos (três da partida disputada mais o ponto do empate). Com isso, a equpe caiu de 48 pontos, no 12º lugar, para 44 pontos, no 17º lugar, salvando o Fluminense, que, com 46 pontos, ocuparia essa posição, sendo rebaixado no campo. O STJD também retirou quatro pontos do Flamengo, por escalar o lateral esquerdo André Santos, suspenso por um jogo. Com isso, o rubro-negro caiu de 49 pontos, na 11º posição, para 45 pontos, na 16ª colocação.

[7] Com uma injeção de € 24 milhões (cerca de R$ 153 milhões) desde 2015 até 2021, o time paulista passou a deter um dos maiores patrocínios do mundo, atrás apenas dos espanhóis Barcelona e Real, do alemão Bayern de Munique, “do novo rico francês Paris Saint-Germain e do top 6 inglês: Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham”.

[8] Sobre a crise financeira do Cruzeiro

Referências bibliográficas

CHRISTOFOLETTI, Danilo Fontanetti. O fim do Clube dos 13: Como a Rede Globo controla o futebol brasileiro. São Paulo, Monografias Brasil Escola UOL, 2015.

LEITE JR., Emanuel. Cotas de televisão “apartheid futebolístico” e risco de “espanholização”. Recife, Ed. do Autor, 2015.

SANTOS, Anderson David Gomes dos. Os direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro de futebol. Curitiba: Appris, 2019

SIMON, Allan. Brasileirão: como o dinheiro da TV foi distribuído entre os fundadores do C!3 desde 2001, São Paulo: https://allansimon.com.br/2020/01/12/brasileirao-como-o-dinheiro-da-tv-foi-distribuido-entre-os-fundadores-do-c13-desde-2001 acessado in 12/05/2021

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