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Novos convidados confirmados no Seminário #Maraca70

Edson Mauro, Luis Roberto e Arlei Damo são os mais novos reforços para o Seminário #Maraca70. O evento, que já contava com uma escalação de craques, também anuncia a lista de relacionados para a mediação das mesas: Álvaro do Cabo, Filipe Mostaro, Ronaldo Helal, Leda Costa e Ricardo Freitas.

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Da esquerda para direita: Edson Mauro, Luis Roberto e Arlei Damo.

No dia 6 de outubro, às 18h30, com a mediação de Ronaldo Helal, teremos na mesa virtual “Os artistas do jogo e o Maracanã” Edson Mauro, um dos narradores titulares da Rádio Globo desde 1988. Ao seu lado, teremos o jornalista e narrador esportivo da Rede Globo, Luis Roberto.

No dia seguinte, às 16h, com mediação de Leda Costa, a mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”, que já contava com a craque Vivian Fonseca, recebe mais um reforço: Arlei Damo, antropólogo e professor da UFRGS.

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Filipe Mostaro, Alvaro do Cabo, Leda Costa, Ronaldo Helal e Ricardo Freitas (da esq. para dir., de cima para baixo).

Como foi citado acima, nossa mediação também tem novos confirmados. Para o pontapé inicial na mesa virtual “Narradores do Espetáculo”, contaremos com o pós-doutorando em Comunicação pelo PPGCom/UERJ, Filipe Mostaro. Para mediar a mesa “Maracanã na literatura e na arte”, estaremos com o doutor em História Comparada pelo PPGHC/UFRJ, Álvaro do Cabo. A mediadora Leda Costa, professora visitante da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, estará na mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”. Já o coordenador do LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte), Ronaldo Helal, atuará na mesa “Os artistas do jogo e o Maracanã”. Para o apito final na Mesa de Encerramento, contaremos com o vice-diretor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ, Ricardo Freitas.

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Encontros LEME discute o cenário da pesquisa em esporte no Nordeste

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, no dia 04 de setembro de 2020 às 19h, a oitava edição dos Encontros LEME em 2020. Dessa vez, contaremos com a presença dos pesquisadores Anderson Santos, Phelipe Caldas, Bruno Balacó e Emerson Esteves, com a mediação de Irlan Simões, para conversar com a gente sobre “O cenário de pesquisa sobre Comunicação e Esporte no Nordeste”.

Por conta da pandemia, os Encontros estão sendo realizados na modalidade virtual. Para essa edição, faremos uma transmissão ao vivo, em nosso canal no Youtube. Não será necessário se inscrever previamente, já que a transmissão será aberta.

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Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte.

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Para não dizer que não falei de futebol: menos cem mil torcedores

Por Antonio Jorge Gonçalves Soares*

Roberto DaMatta demonstrou que o futebol como drama permite ler nossas tramas e dilemas culturais, nossa moralidade, nosso autoritarismo, nossa camaradagem, nossos valores não- igualitários e, ao mesmo tempo, esse esporte fornece uma das poucas experiências na qual a regra vale para todos. O futebol se tornou uma instituição nacional. O futebol é tão brasileiro quanto “Deus”. Ele se tornou um elemento simbólico, uma espécie de gramática popular que permite falar, debater e brigar, até certo ponto, sempre até certo ponto, sobre os temas sociais e políticos. Pois, quando o debate chega à certa fervura, surge o velho ditado popular que “futebol, política ou religião não se discute!”. Essa é mais uma expressão que revela nossa moralidade política, pois tal adágio surge nos momentos de divergência e conflito pela turma “do deixa disso”, isto é, “deixa como está e nada se resolve”. Essa não-resolução, esse “empurrar com a barriga”, é a forma de abolição de consensos civilizados e provisórios, como exigiria a moralidade numa cultura democrática.

Conflito aqui não é visto como espaço de debate que produz acordos, conflito aqui é motivo de ruptura, de ressentimento, de exclusão ou de desejo da morte do “outro”. Somos a democracia do Flamengo e Vasco, do Fla-Flu, do Corinthians e Palmeiras, só a vitória importa! O vice no futebol é o “primeiro dos últimos”. Na política é o inútil que não tinha capital simbólico para se tornar presidente. O empate é sempre algo não desejado. Aqui o “tudo ou nada” é a regra que anima espíritos e mentes da democracia brasileira e do nosso futebol. Ao derrotado, resta a humilhação e o ritual de luto, não importa a luta. Todavia, o futebol também permite um “flash de espírito democrático”, pois pode haver alternância de poder: no próximo jogo (ou campeonato), a derrota pode ser transformada em vitória. Quando isso acontece, a chance do escárnio é revertida, pois, como diria Chico Buarque, “Quando chegar o momento; Esse meu sofrimento; Vou cobrar com juros”. No campeonato da política, aqueles que pareciam ter ido para a quarta divisão, entraram em campo na primeira liga como azarões, ganharam e estão cobrando com juros os poucos avanços dados na direção de um estado de proteção social.

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Aqui, os vitoriosos são venerados mesmo por aqueles que não partilharam os ganhos reais da vitória e nem das rachadinhas. O vitorioso apenas divide a glória simbólica com os personagens figurantes que estiveram ao seu lado no jogo das eleições. Já cansei de ouvir nas rodas populares a seguinte sentença: “Meus candidatos foram campeões, não adianta chorar”. A política aqui difere um pouco do futebol, pois o torcedor é ensinado a ser Flamengo ou qualquer outro time desde pequeno, às vezes ainda no berço. Infelizmente, o interesse pela política não recebe o mesmo tratamento socializatório em nossas terras. Com isso, o debate da política se transforma numa contenda de futebol apenas durante as partidas eleitorais. Depois, a vida volta ao normal e ninguém quer saber de política; afinal, isso “não se deve discutir isso nessas paragens”, não é? Se o debate não existe, as torcidas continuam ativas nas redes sociais, temos a “Força Jovem Cloroquina” e “Torcida Organizada Antifascista”.

Não é à toa que o protestantismo neopentecostal, com incorporação de elementos mágicos de cura, prosperidade e salvação, se expandiu tanto no Brasil. A gramática do futebol é a mesma da religião. Nisso essas instituições se aproximam. Você está do lado de “Deus ou do diabo?”; “Você quer ser um derrotado ou um vencedor?”. Essas questões, sem dúvida, não subestimam a eficácia simbólica que tais religiões tenham na vida dos indivíduos, até porque a expansão delas tem a ver com a experiência de sucesso individual de parte de seus adeptos. Tais religiões também fornecem uma rede de apoio, dão sentido a vida dessas pessoas e conferem algum nível de dignidade pela existência. Afinal, Deus está olhando por eles e observando seus sacrifícios nessa “vida”. A contrapelo desse sentimento o estado não fornece essa sensação ao cidadão comum.

A expansão do evangelismo mágico-religioso se relaciona com a cultura de desesperança e desproteção que o Estado brasileiro fornece ao cidadão comum. Aqui temos a adjetivação corrente de “cidadão comum”, porque outros são “incomuns”, se tornam “superpessoas” (no sentido damattiano) ou já são de berço escolhidos por “Deus”. Quem nunca ouviu: “Eu dei a sorte de ter nascido numa família rica, que culpa tenho?” Existem outros caminhos, porém, para se tornar uma superpessoa no Brasil. Observe que nosso craque bilionário Neymar e seu pai, saídos do “brejo da cruz”, se tornaram cidadãos incomuns. Não mais pertencem à ralé, podem tratar de suas tramoias de sonegação fiscal diretamente no Palácio do Planalto. Se qualquer um “comum” cair na malha fina do Imposto de Renda não será recebido pelo superministro da economia Paulo Guedes e nem pelo presidente da República. Até porque o “leão” sabe quem vai devorar, quem ele vai mordiscar e quem merece ser adulado; em geral, cidadãos incomuns e o capital financeiro. A naturalização da hierarquia, “cada coisa no seu lugar” e “cada qual com seu cada um “, são expressões da “sorte dos escolhidos”, daqueles que receberam a “bênção de Deus” com o aval do Estado brasileiro.

Lúcio Kowaric** observa que, nos Estados Unidos, os vulneráveis são vistos pelos conservadores e progressistas, respectivamente, como culpados ou não-culpados da própria desgraça que estão submetidos. A critica conservadora indica que o suporte do estado gera preguiça, marginalidade e alimenta o “Welfare dependency”. Na França, independentemente dos setores da direita conservadora ou da esquerda progressista, o Estado francês e a sociedade são vistos como responsáveis por todos os cidadãos e devem fornecer meios de sobrevivência dentro do espírito universalista republicano aos vulneráveis.

Jair Bolsonaro em jogo do Palmeiras
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A questão é: quem deve ser protegido pelo estado? Para direita, apenas os “franceses”, os imigrantes devem ser excluídos e deportados; para a esquerda, todos os vulneráveis que vivem no território merecem políticas de proteção. Enfim, a responsabilidade é do Estado. No Brasil, teríamos dois mecanismos de controle e acomodação social em relação aos vulneráveis, além da baixa capacidade de proteção social. Os excluídos não são responsabilizados pela própria desgraça, mas pelo inevitável azar. Kowaric nomeia esse mecanismo de naturalização dos acontecimentos, a desgraça individual ou de grupos excluídos é produto da má sorte que recai aleatoriamente sobre uns e não sobre outros. Ser cidadão comum, um “descidadão” ou um supercidadão é uma inevitabilidade aleatória e histórica. O outro mecanismo é nomeado como neutralização. Refere-se aos processos sociais que legitimam a hierarquia e a subalternização dos vulneráveis no Brasil. Isso ocorre através das formas sutis ou explícitas de evitação e apartação dos vulneráveis da vida cotidiana, dos bens econômicos, culturais e de consumo.

Com a lição de DaMatta e de Kowarick, podemos entender a voz de nossos representantes no governo diante da pandemia nesse futebol da política. A fala do presidente representa a ausência de responsabilidade do Estado diante da pandemia. Diz ele sobre as mortes, “lamento, mas é o destino de todo mundo”, “lamento, eu sou Messias, mas não faço milagres”, “Não sou coveiro”, “vamos tocar a vida”. Assim, Bolsonaro ratifica que o destino do cidadão comum é uma questão de sorte ou de azar, “o vírus tá aí, o que posso fazer, pô?!”, diz o presidente, ausentando-se de responsabilidade sobre o inevitável destino de cada um. Os cemitérios e os negócios funerários estão em alta, passamos dos cem mil mortos e os estádios de futebol se transformaram num teatro sem plateia. No sábado, dia 8, os torcedores do Palmeiras se aglomeraram na porta do estádio para comemorar, com e sem máscara, o título paulista. No clima da alegria palmeirense, o presidente da república usou a redes sociais para parabenizar seu suposto time. Sobre os cem mil mortos, nenhuma palavra em rede nacional. Afinal na lógica do presidente estamos apenas diante de uma fatalidade ao perdermos cem mil torcedores.

*Antonio Soares é professor titular da Faculdade de Educação da UFRJ

**Artigo “Sobre a vulnerabilidade socioeconômica e civil…”, publicado em 2003 na Revista Brasileira de Ciências Sociais.

Esse artigo foi publicado originalmente no Quarentena News.

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Encontros LEME sobre o Maracanazo nesta sexta-feira

LEME reúne pesquisadores para discutir o Maracanazo

16 de julho de 1950 – diante de mais de 200 mil pessoas, o Brasil se calava com os gols de Shiaffino e Ghiggia, no Maracanã. A épica derrota para o Uruguai, que fez o Brasil amargar o vice-campeoanto da Copa do Mundo, ficou conhecida por Maracanazo. Para debatermos esse episódio e suas implicações, o LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, nesta sexta (31/07) às 19h, um encontro virtual.

Para esta edição especial dos Encontros LEME, contaremos com os pesquisadores Alvaro do Cabo, Gastón Laborido, Francisco Brinati e Sergio Souto, com mediação do também pesquisador Filipe Mostaro.

Aguardamos vocês no canal do LEME no Youtube.

Testeira Facebook - Especial 70 anos Maracanazo

 

 

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Simoni Guedes é homenageada nesta sexta

Luiz Henrique de Toledo, Rosana da Câmara Teixeira, Nicolás Cabrera e Filipe Mostaro já estão a postos para o Encontros Leme edição especial de amanhã, em homenagem à Simoni Guedes, às 19h, com transmissão pelo Youtube. “Esta live pretende prestar uma homenagem à Simoni Guedes, suas contribuições de vida, teóricas e metodológicas daquela que foi a precursora dos estudos sobre o esporte no Brasil. Contribuições que transcenderam o campo das pesquisas esportivas e cujos impactos podem ser demonstrados na experiência de trabalhos que continuam a recriar abordagens e práticas científicas que dialogam com o legado de Simoni Guedes”, conta Leda Costa, integrante do LEME e idealizadora da iniciativa.

A antropóloga Simoni Guedes, falecida no ano passado, foi professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), tendo sido uma das coordenadoras do Programa de Pós-graduação de Antropologia da mesma instituição. Simoni foi a primeira pesquisadora a realizar trabalhos referentes ao futebol, como explica o coordenador do LEME, professor Ronaldo Helal: “Simoni Guedes é a precursora dos estudos acadêmicos sobre futebol no país. Em 1977, ela defendeu a dissertação O Futebol Brasileiro – Instituição Zero. Já em 1982, ela foi uma das autoras do livro Universo do futebol: esporte e sociedade brasileira, organizado por Roberto DaMatta. Foi a partir dessa obra que tivemos o pontapé inicial para a formação estrutural dos estudos acadêmicos sobre o futebol no país, utilizando-se de uma perspectiva ritualística. Na década de 90, tive a oportunidade de conhecer Simoni pessoalmente e aí percebi que, além de dotada de inteligência e sagacidade extraordinárias, ela cativa por sua simpatia, simplicidade e generosidade”, conta Helal, que realizou homenagem à Simoni, antes de sua partida, no artigo “Simoni Guedes, a precursora” (disponível no blog do LEME).

Ao contrário dos outros Encontros, não será necessário se inscrever previamente, já que a transmissão será aberta.

Não se esqueça de seguir nosso canal no Youtube. Ative as notificações para ficar por dentro de tudo que postamos.

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Seminário Internacional Maraca 70 tem seus primeiros palestrantes confirmados

Gisella de Araújo Moura, Bernardo Buarque de Hollanda, Luiz Antonio Simas, Vivian Fonseca, Juca Kfouri e Marcelo Barreto – é com este timaço que o LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte), sob a coordenação do professor Ronaldo Helal,  começa a contar para o seu Seminário Internacional Maraca 70.

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No dia 6 de outubro, às 16h, sob a mediação de Álvaro do Cabo, teremos na mesa virtual “O Maracanã na literatura e na arte” Gisella de Araújo Moura, professora e autora do livro O rio corre para o Maracanã. Ao seu lado, dois craques: o professor e historiador da FGV, especialista em estudos relacionados aos modos de torcer, Bernardo Buarque de Hollanda, e o também professor Luiz Antonio Simas, autor do livro Maracanã: uma biografia.

No dia seguinte, no mesmo horário, com moderação de Leda Costa, teremos a mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”, com a escalação confirmada de Vivian Fonseca, professora e pesquisadora plena do CPDOC – FGV e professora adjunta da UERJ.

Já às 18h30 é a chegada a hora da nossa mesa de encerramento. A tabelinha fica por conta do ex-editor da Revista Placar, Juca Kfouri, e do apresentador do Redação Sportv, Marcelo Barreto, sob a mediação do professor Ricardo Freitas, vice-diretor da Faculdade de Comunicação da UERJ.

Para acompanhar toda a nossa programação, siga o @lemeuerj nas redes sociais e se inscreva em nosso canal no Youtube. É por lá que iremos transmitir nosso seminário.

Lembramos que encontram-se abertas, até o dia 31 de julho, as chamadas de resumos expandidos para apresentação no evento. Mais informações na aba Maraca 70 aqui no blog.

 

Eventos

Encontros LEME discute o legado de Simoni Guedes

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, no dia 17 de julho de 2020 às 19h, a quinta edição dos Encontros LEME em 2020. Dessa vez, faremos uma edição especial em homenagem à Simoni Guedes. Para falar do legado da saudosa antropóloga, contaremos com a presença de Luiz Henrique de Toledo, Rosana da Câmara Teixeira, Nicolás Cabrera e Filipe Mostaro.

Por conta da pandemia, os Encontros estão sendo realizados na modalidade virtual. Para essa edição, faremos uma transmissão ao vivo, em nosso canal no Youtube.

Ao contrário dos outros Encontros, não será necessário se inscrever previamente dessa vez, já que a transmissão será aberta.

Testeira Facebook - Homenagem à Simoni Guedes.pngEncontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte.

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O Maracanã e as histórias de sua história

O Estádio Mário Filho, um dos mais importantes palcos do esporte mundial, fez 70 anos. Sete décadas de história e de muitas histórias.

Se aqui chegasse um extraterrestre, vindo de outra galáxia, sem qualquer informação sobre o que é o futebol, será que conseguiríamos explicar a ele a importância daquela construção com um retângulo gramado e um monte de assentos em volta? Provavelmente sim. Mas e se tentássemos expor a ele a relevância emocional daquele gigante de concreto para milhões de pessoas que ali estiveram, munidos de camisas, bandeiras e paixões? Aí, certamente, a resposta teria que que ser negativa.

Não que uma coisa exclua a outra. Vários historiadores e jornalistas já se dedicaram a contar a história desse estádio inaugurado nos anos 1950, para ser a principal sede da quarta Copa do Mundo da FIFA e, de quebra, se tornar o maior do mundo.

Um dos trabalhos mais consistentes sobre toda a trajetória até a inauguração do Estádio Municipal é O Rio corre para o Maracanã, da historiadora Gisella de Araujo Moura[1]. O livro narra desde a aceitação do Brasil para sediar a Copa até o Maracanazo, a final trágica para os comandados de Flávio Costa e toda a torcida brasileira.

foto: reprodução da capa do livro de Gisella de Araujo Moura

Não foi um caminho tranquilo, como nos mostra Gisella. A localização, por exemplo, gerou uma briga político-midiática protagonizada pelo vereador Carlos Lacerda, que queria que o estádio fosse erguido no distante bairro de Jacarepaguá, e o jornalista Mário Filho, defensor do terreno do antigo Derby Club, ao lado da linha férrea e muito mais acessível à população. Aliás, Mário Filho e seu Jornal dos Sports encamparam totalmente a briga pela construção do “Gigante do Maracanã”, desde seu início. Nada mais justo, portanto, que o estádio ganhasse seu nome. Em uma crônica ufanista, o jornalista definiu o que significava, para ele e para o País, tal obra: “Hoje o estádio é o mais novo cartão-postal do Brasil. Um cartão-postal que vale mais do que o Pão de Açúcar, do que o Corcovado, do que a Baía de Guanabara, porque é obra do homem. Uma prova da capacidade de realização do brasileiro…”.

A importância de um livro assim é também trazer as histórias que a história não conta como, por exemplo, a do busto de bronze do General Mendes de Morais que o próprio, então prefeito da cidade, mandou instalar em frente ao Estádio Municipal (Ele sonhava que a construção ganhasse seu nome. Após a derrota para o Uruguai, torcedores revoltados trataram de fazer naufragar qualquer esperança do político. Seu busto foi derrubado pela multidão. Há quem diga que foi parar dentro do Rio Maracanã).

Busto do prefeito Mendes de Morais (foto: O Rio corre para o Maracanã)

A trajetória do Maracanã também pode ser contada através de seus eventos mais marcantes, jogos nos quais drama e êxtase se misturam, mas também por meio da trajetória dos grandes ídolos que ali fizeram seu maior palco. Sem esquecer dos personagens que tiveram seus parcos minutos de fama, como o pequeno Jacozinho, que entrou de penetra no jogo da despedida de Zico e fez até gol com passe de Maradona, em 1985, [2] ou do jovem Cocada, jogador vascaíno que saiu do banco para decidir o título carioca de 1988 contra o Flamengo e ser expulso minutos depois[3].

Jacozinho e Maradona no vestiário do Maracanã (foto: reprodução de TV)
Cocada e sua comemoração (foto: reprodução de TV

E não podemos também esquecer dos eventos que transcendem a esfera esportiva, como eventos religiosos (o Papa João Paulo II rezou missa no estádio) ou musicais. Foi no Maracanã que aconteceu o maior show da carreira de Frank Sinatra. Em sua única vinda ao Brasil, cantou para 170 mil pessoas.

Frank Sinatra no “maior do mundo” (foto: Editora Abril)

Na busca de contar a história do Estádio Mário Filho, através de suas partidas de futebol mais marcantes,  os jornalistas Roberto Assaf e Roger Garcia escreveram o livro Grandes jogos do Maracanã, 1950-2008 [4]. Foram selecionados 62 confrontos envolvendo a Seleção Brasileira, a Seleção Carioca, os principais clubes do Rio (América, Bangu, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) e o Santos, que ali conquistou dois títulos mundiais. Os critérios para a escolha dos jogos foram estabelecidos pelos próprios autores.

foto: reprodução da capa do livro Grandes Jogos do Maracanã

Só que um livro assim rapidamente fica desatualizado, afinal o estádio continua “vivo” e, de 2008 a 2020, muita coisa aconteceu por lá. Algumas partidas emblemáticas como as conquistas da Copa das Confederações, em 2013, e a do Ouro Olímpico, em 2016, certamente teriam que ser incluídas em uma nova edição.

Nenhum apaixonado por futebol pode negar que o Maracanã tem mística própria, mesmo depois de sua completa remodelação para a realização da Copa do Mundo de 2014. É uma espécie de segunda casa do torcedor e dos jogadores também. No prefácio do livro de Assaf e Garcia, intitulado “A casa de todos nós”, o tricampeão mundial Gérson de Oliveira Nunes, fala exatamente sobre isso:

O Maracanã está intimamente ligado à minha trajetória. Comecei a frequentá-lo aos nove anos de idade, quando meu pai me levou para ver o jogo em que o Brasil goleou a Espanha por 6 a 1, quatro gols de Ademir Menezes, na Copa do Mundo de 1950. Da arquibancada, e depois dentro do próprio campo, tive privilégio de acompanhar meus mestres do futebol, Jair da Rosa Pinto, Zizinho e Didi. Ali, ao longo da carreira, colecionei vitórias e títulos, por clubes e pela Seleção Brasileira, jogando contra e ao lado dos maiores craques da história…

Mas também há um outro enfoque para narrar a história do Maracanã: por meio da visão de seu público. Não há a menor dúvida de que cada um torcedor que tem uma  história do estádio toda própria, baseada em suas experiências, vivências e emoções. É o que se chama de micro-histórias.

De acordo com os pesquisadores italianos, Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, um fato histórico não pode estar restrito apenas a sua abordagem tradicional, com uma visão macro. As micro-histórias (microstorie) trazem um detalhamento que engrandece a compreensão dos acontecimentos. Por exemplo: o depoimento de um “pracinha” que esteve no front de batalha italiano durante a Segunda Guerra Mundial não apenas enriquece a história da ofensiva da Força Expedicionária Brasileira, como a humaniza.

No futebol, também é assim, em um mesmo jogo, milhares de micro-histórias podem ser contadas.  Algumas terão maior ou menor relevância na história de vida de cada um e às vezes até na do próprio espetáculo, como no caso da “fogueteira” Rosenery, que poderia ter tirado o Brasil de uma Copa do Mundo[5].

O sinalizador lançado pela torcedora e a farsa de rojas (foto: O Globo)

Em tempos de Internet, as lembranças de alguns jogos que nos marcaram podem ser revisitadas com áudio e vídeo, a qualquer momento. Gols que antes viviam só no imaginário podem ser revistos com uma breve busca no YouTube. E a discussão sobre lances polêmicos, não está mais restrita apenas a versões de testemunhas oculares da história, já que podem ser assistidos em diversos ângulos, com tira-teimas e até com o auxílio do VAR. Mas, antigamente, não era assim.

Há alguns meses recebi de presente de uma amiga uma herança muito especial deixada por seu irmão. Flávio César Borba Mascarenhas era botafoguense, mas também um apaixonado pelo bom futebol e a prova disso é a coleção de ingressos do Maracanã que guardava com carinho. Jogos de diversos clubes assistidos por ele. Guardar aqueles pequenos pedaços de papel foi a forma que Flávio encontrou de eternizar seus momentos especiais dentro daquele estádio. Gatilhos de memória e cada um deles com uma micro-história toda sua.

O acervo tem ingressos de vários formatos, de acordo com cada época, e nele constam algumas preciosidades como o da partida que garantiu a classificação das “Feras do Saldanha” para a Copa do México. Uma vitória suada sobre o Paraguai diante de 183.341 espectadores, maior público oficial da história do estádio (dizem que na final de 1950 havia mais de 200 mil pessoas, mas não há uma comprovação).

foto: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Outra pérola é o ingresso da partida entre Vasco e Santos, no dia 19 de novembro de 1969, quando Pelé, de pênalti, marcou seu milésimo gol. Por 4 cruzeiros novos, Flávio teve a honra de ver a história acontecer diante de seus olhos.

foto: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Alguns jogos, como o duelo entre a Seleção Carioca e a Seleção Paulista, em setembro de 1967, nada tinham de decisivos, mas eram oportunidades de ver grandes craques em campo. Naquela noite, do lado da Guanabara (a fusão só se deu em 1974) estavam nomes como Manga, Leônidas, Denilson, Gérson, Paulo Borges e Paulo Cézar. Já pelos paulistas, jogaram Carlos Alberto Torres, Rildo, Rivelino, Paraná e Babá. O “Rei”, contundido, assistiu ao jogo do banco de reservas.

fonte: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Ao mesmo tempo, há ingressos de jogos sem qualquer relevância, como um Botafogo e Bonsucesso, de março de 1970. Uma vitória de 1×0 com um gol marcado pelo meia Valtencir. Os registros da partida eram feitos atrás dos ingressos: placares, autores dos gols, resultados das preliminares e, às vezes, até pequenos comentários, como no caso da partida entre Botafogo e Fluminense, em 13 de agosto de 1969. No verso, está escrito: “Botafogo 1×0 Fluminense! Roberto. Até que enfim!”. Evidentemente fui pesquisar a razão do comentário e o que me pareceu foi que se tratava de um alívio pelo fato do centroavante ter voltado a marcar depois de quase dois meses.  Mas, se foi isso mesmo, só o próprio poderia nos contar.

foto: Acervo  Flávio César Borba Mascarenhas

Flávio Mascarenhas faleceu em 8 de janeiro de 2015, mas aqui estamos nós, mais de 5 anos depois, “ouvindo” suas micro-histórias. O que seria do Maracanã e do futebol se não provocassem em nós todas essas emoções?

Notas de Rodapé

[1] Moura, Gisella de Araujo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

[2] http://globoesporte.globo.com/al/noticia/2014/06/jacozinho-diz-ter-reencontrado-zico-19-anos-apos-o-polemico-jogo-idolo.html

[3] https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/5526625/cocada-o-ultimo-heroi-do-vasco-contra-o-flamengo-ofuscou-romario-na-final-do-campeonato-carioca

[4] ‘Assaf, Roberto e Garcia, Roger. Grandes jogos do Maracanã. Rio de Janeiro, 2008.

[5] https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2015/09/03/caso-fogueteira-que-tirou-chile-da-copa-e-baniu-goleiro-do-sp-faz-26-anos.htm

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Os múltiplos sentidos das partidas reprisadas na memória dos torcedores em tempos de quarentena

Com as arquibancadas vazias, o futebol passou a ser jogado em outro campo: o das reprises de grandes partidas de seleções e clubes. Mais do que mitigar as saudades dos torcedores, essa nova forma de “jogar” permite apropriações de sentidos bastante distintas pelo mesmo torcedor a depender das equipes, então, em campo. E expõe uma das fontes constituintes do futebol: diferentemente de outros esportes, no qual ao candidato a herói basta alcançar a vitória, no futebol, para obter tal reconhecimento, ele precisa derrotar – ou, preferencialmente, eliminar simbolicamente o adversário. De tal condição, tem-se outro gene do DNA futebolístico: a valoração da vitória é diretamente proporcional à força do adversário.

Desse duplo dialético, resulta uma verdade inconfessável pela maioria dos torcedores, principalmente os mais fanáticos: para que a vitória do seu time seja memorável é preciso reconhecer o valor do adversário. A negação de tal condição, indispensável para forjar um grande vencedor, resulta numa contradição que nos diz muito sobre como se desenvolve o estilo competitivo na sociedade brasileira.

Aqui, diferentemente de outros lugares, como a Alemanha, na qual os vice-campeões da Copa de 2002 desfilaram em carro aberto pelas ruas daquele país, o segundo colocado não é o segundo melhor entre vários competidores, mas, sim, o exemplo mais emblemático da derrota, como se tivesse sido o último colocado (SOUTO, 2002). Tal percepção singular da torcida brasileira, quando acionada em relação à seleção do país, pelo menos até um passado cada vez mais remoto, vinha acompanhada da convicção, expressada por jogadores, dirigentes, torcedores e imprensa, de que a cobrança permanente pela vitória seria a responsável pelo Brasil ser o “país mais vitorioso do futebol mundial”.

Fonte: observatoriodatv

A exemplo do passado, o processo de rememoração dos jogos tem na imprensa a principal agenciadora da memória. Embora, na era das redes sociais e dos mundos paralelos das bolhas e das fakes news, tal condição tenha perdido potência, não foi, ainda, substituída por outro tipo de narrativa totalizante socialmente aceita para além das “visões alternativas aos fatos”.

Dessa forma, quando as TVs repetem partidas épicas e/ou decisivas, sejam da seleção ou dos clubes, a operação de visita ao passado continua a ter na imprensa o seu principal agente. O processo de apropriação dos sujeitos, no entanto, também vai ser informado por outros fatores, que variam de acordo com a posição que cada um ocupa num determinado grupo social. Assim, em vez de uma memória, temos várias memórias, influenciadas por questões como fatores geracionais; do impacto que aquela partida causou no instante em que foi realizada; da relação do passado com o presente da equipe pela qual se torce.

A revisita ao passado vai, ainda, confrontar-se com o passado idealizado, eventualmente congelado, como foi vivido por cada sujeito, que, também, o reelaborou ao “passá-lo adiante” para outras gerações. Alguns autores que trabalham a construção oralizada da memória, ao interligarem os dois conceitos, valorizaram a importância da vida quotidiana na acumulação de fatos de uma dada memória social (LEROI-Gourhan, 1981).

Para Freud, a reexperiência de algo idêntico é, em si mesma, uma fonte de prazer (FREUD, 1969). No entanto, acrescentamos, essa segunda experiência, raramente, se passa da mesma forma, porque os sujeitos não são mais os mesmos. É possível, portanto, que busquem ressignificar a experiência. Em “Crônica de uma arte anunciada”, Gabriel Garcia Márques nos informa, já na primeira página, que o personagem Santiago Nasar vai ser assassinado. Com isso, provoca um deslocamento de sentidos do leitor de “o que vai acontecer” para “por que aconteceu”. Analogamente, quando assiste-se a partidas cujos resultados são previamente conhecidos existe um deslocamento de “o que aconteceu” para “como aconteceu”.

Isso não impede que, inconscientemente, os torcedores possam querer mudar o resultado já sabido, como denunciam manifestações, individuais ou coletivas, que escapam em lances que, não resultando em gol, ameaçam a equipe adversária ou a sua equipe. No entanto, para além do desejo por um resultado imaginário, existe outro forte investimento emocional em como a partida desenvolveu-se, particularmente em momentos emblemáticos, sejam de mera plasticidade, sejam os que poderiam ter mudado a sorte da partida.

Principal construtora da memória das derrotas e vitórias das partidas históricas, a imprensa também vai reivindicar a centralidade do processo quando esse passado é revisitado. Para isso, conta com um repertório de várias camadas, desde a escolha dos personagens dos jogos que serão as testemunhas oculares do passado; o trabalho de pesquisa, que vai definir os momentos que merecem ser enfatizados; a escolha de uma narrativa que combine o retorno à cena dos que vivenciaram a partida em tempo real e a contextualização daquele momento para os não o tenham vivido.

Nesse processo, porém, a imprensa se depara com outros guardiões da memória, como os torcedores que, embora atravessados pelo discurso do jornalismo esportivo, formaram sua própria memória da partida a partir das singularidades da sua relação com aquele evento. A memória aprisionada pela oralidade, que vão procurar transmitir aos mais novos, permite cristalizar os mitos de origem, já que aquela fundamenta a sua transmissão através dos “guardiãos da oralidade”.

Fonte: globoesporte

Era, ainda, sob o impacto da vitória ou da derrota que, no passado sem a instantaneidade e a velocidade dos meios eletrônicos, os torcedores, já no trajeto do estádio para casa, começavam a construir uma memória oralizada das partidas, elegendo os candidatos a heróis ou construindo os culpados pela derrota. Vitória e derrota não ficavam confinadas às arquibancadas, mas à simbolização mitológica construída em torno delas. O impacto do lugar da vitória/derrota na memória reconstruída tem valor igual, ou maior, do que o resultado do jogo estampado no placar do estádio.

É no processo constitutivo dos resultados que vão sendo construídos mitos que se eternizam para explicar e definir vitórias e derrotas. Como defende David Morley, mais relevante do que o equilíbrio na cobertura dos acontecimentos é o enquadramento conceitual e ideológico básico pelo qual os acontecimentos são apresentados e, “em conseqüência do qual eles recebem um significado dominante/primário” (MORLEY, 1976 Apud HACKETT in TRAQUINA, 1993:121).

Dessa forma, a revisita ao passado, quando se assiste novamente a partidas históricas, é um processo complexo, prenhe de tensões de sentimentos que disputam o imaginário dos sujeitos, como a angulação do narrador, as ênfases dos convidados chamados a atuar como testemunhas oculares e as próprias memórias singulares dos torcedores. A síntese dos fatores constituintes do imaginário, individual e coletivo, também vai variar de acordo com o objeto; e do distanciamento, cronológico e afetivo, que se tem em relação a ele. Quanto mais distante no tempo uma partida, maior número de névoas na memória, mais complexa será a rememoração daquele momento, do que outro que, pela proximidade do presente, guarda maior frescor da quentura dos acontecimentos.

Quando se revisita a seleção contra um adversário estrangeiro, é muito mais provável que um sentido de pertencimento coletivo seja compartilhado por muitos mais do que quando os times em campo são dois clubes brasileiros. Mas, mesmo no primeiro caso, a noção de pertença pode variar, conforme que seleção brasileira está em campo. Sim, porque, conforme a equipe nacional foi sendo atravessada por valores considerados “não tradicionais” por parcelas do público e da imprensa, essa relação foi sofrendo deslizamentos afetivos importantes.

Essas assimetrias ficaram expostas nas diferenças de audiência, por exemplo, entre as reprises das finais das Copas de 1994 e 2002¹, com a seleção do penta superando em 23% o público que reviu à final da equipe do tetra. Tais assimetrias ocorrem porque voltar a assistir a partidas, principalmente àquelas que guardam maior distanciamento cronológico do tempo presente, é uma forma de recuperar a memória.

Nesse processo, não apenas se vê novamente um jogo, mas, também, se reelaboram partidas, afetos e impressões, o que inclui imprecisões, pois, como observam alguns autores, a memória funciona como uma espécie de reconstrução generativa, e não como memorização mecânica (Godoy, 1977). E as diferenças de audiência parecem indicar que, na reelaboração

O investimento afetivo no passado revela um envolvimento ainda forte com a seleção, ou as seleções daqueles períodos revisitados. Até porque o processo de reelaboração dessa memória pela imprensa está imbricado com outros acontecimentos, como a trajetória do futebol brasileiro nos anos seguintes e sua apropriação e sua representação pela jornalismo esportivo.

Dessa forma, assistir a reprises de partidas, principalmente as mais emblemáticas, dificilmente, é equivalente a transportar-se novamente ao mesmo lugar, quer se estivesse no estádio ou no sofá de casa. Trata-se de uma relação em outra dimensão simbólica, portanto, de uma nova relação. O principal fio condutor dessa revisita é a narrativa, seja a original ou uma contemporânea que busca contextualizar o evento para sujeitos que não o presenciaram.

A narrativa, também, é uma forma de jogar. Ela forma parte um tripé, junto com o jogo e o imaginário. É, portanto, sob a complexa combinação desses fatores que cada torcedor vai viver, novamente, ou pela primeira vez – no caso, das novas gerações – a revisita a uma partida. Afinal, se nada é igual quando é revisitado, cada torcedor, ainda que fortemente impactado pela narrativa da imprensa, vai viver a sua própria partida. E, mesmo que essa experiência tenha interseções – quase inevitáveis – com a de outros sujeitos, haverá, fragmentos, registros, lampejos que serão sempre singulares. Trata-se de uma das magias do futebol: permitir a complexa, e intensa, combinação de sentimentos coletivos com a sensação singular de cada torcedor.

Notas de rodapé

¹ Como a transmissão da Copa de 1970 ficou a cargo do Sportv, a comparação com os índices de audiência da TV aberta nas duas Copas mencionadas poderia causar distorções importantes.

 

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Obras completas, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Godoy, Jack. The domestication of savage mind. Londres: Cambridge Univesity Press,1977.

HACKETT, Robert A. “Declínio de um paradigma? A parcialidade e a objectvidade nos estudos dos media noticiosos” in TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993.

LEROI-Gourhan, A. O gesto e a palavra. Lisboa: Edições 70,  1981.

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da Copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 200

Internet: Folha de Londrina

Produção bibliográfica

Livro organizado por pesquisadores do LEME disponível gratuitamente

O livro Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol está agora disponível para download no site da EdUERJ. Organizado pelo nosso coordenador, Ronaldo Helal, e pelo pesquisador do LEME, Álvaro do Cabo, a obra discute a formação de epítetos como “pátria de chuteiras” e “país do futebol” e sua carga simbólica, buscando compreender como o futebol influenciou a construção da identidade nacional. Lançado em 2013, Copas do Mundo reúne uma seleção de textos de quinze pesquisadores com estudos referentes à nove Copas do Mundo e uma Copa das Confederações.

A seleção das Copas escolhidas para compor o livro, entre as dezenove já disputadas até 2013, não foi algo acidental. Para isso, ela obedeceu a dois critérios cruciais: como a seleção ficou classificada na competição e a dimensão simbólica de seus resultados na mídia e na sociedade brasileiras. Dentre as Copas analisadas, em cinco o Brasil sagrou-se campeão, em duas conquistou o vice-campeonato, em outras duas, a despeito da performance, houve a construção da simbólica do nosso futebol,

Todas as Copas selecionadas ajudam os leitores a entender melhor o país e a formação nacional, além de nos convidar a ter um olhar mais atento sobre esses eventos. Esse torneio de seleções funciona como uma espécie de metonímia nos artigos, um objeto que nos permite investigar questões maiores. Aos leitores, fica a mensagem de que uma Copa não é e nunca será só futebol. Todas as Copas reunidas no livro nos ajudam a entender melhor o país e a formação do “nacional”. Quando os autores falam da seleção, de suas derrotas e vitórias, estão também falando também do Brasil e seus dilemas.

Serviço

Título: Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol

Editora: EdUERJ

Ano de Lançamento: 2013

Organizadores: Ronaldo Helal e Álvaro do Cabo

Disponível para download aqui.

Sumário

  1. Copas do Mundo: o que elas nos ensinam sobre o Brasil – Ronaldo Helal e Álvaro do Cabo;
  2. Copa do Mundo e identidade nacional: um panorama teórico – Álvaro do Cabo e Ronaldo Helal;
  3. 1938: o nascimento mítico do futebol-arte brasileiro – Camila Augusta Perira e Hugo Lovisolo;
  4. Vitória épica e tragédia nacional em 1950: um contraponto entre o Diário Carioca e veículos da imprensa uruguaia – Álvaro do Cabo e Ronaldo Helal;
  5. Do complexo de vira-latas à “nossa” Taça do Mundo – José Carlos Marques;
  6. Copa de 1962 – a consolidação da pátria de chuteiras – Márico Guerra e Filipe Mostaro;
  7. 1970 – pra frente, Brasil: preparo da caserna, coração de chumbo e mente brilhante – Antonio Jorge Gonçalves Soares e Marco Antonio Santoro Salvador;
  8. 1982: lágrimas de uma geração de ouro – Leda Costa;
  9. Copa de 1994: os múltiplos discursos autorizados sobre a seleção campeã menos amada da história – Fausto Amaro;
  10.  1998: o colapso da arrogância nacional – Édison Gastaldo;
  11. 2002: da Família Scolari ao topo do mundo – a contradição entre o local e o global no futebol contemporâneo – Francisco Ângelo Brinati e João Paulo Vieira Teixeira;
  12. Salve a seleção! Mídia, identidade nacional e Copa das Confederações 2013 – Ronaldo Helal, Álvaro do Cabo e Carmelo Silva.