Eventos

Seminário Internacional Maraca 70 tem seus primeiros palestrantes confirmados

Gisella de Araújo Moura, Bernardo Buarque de Hollanda, Luiz Antonio Simas, Vivian Fonseca, Juca Kfouri e Marcelo Barreto – é com este timaço que o LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte), sob a coordenação do professor Ronaldo Helal,  começa a contar para o seu Seminário Internacional Maraca 70.

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No dia 6 de outubro, às 16h, sob a mediação de Álvaro do Cabo, teremos na mesa virtual “O Maracanã na literatura e na arte” Gisella de Araújo Moura, professora e autora do livro O rio corre para o Maracanã. Ao seu lado, dois craques: o professor e historiador da FGV, especialista em estudos relacionados aos modos de torcer, Bernardo Buarque de Hollanda, e o também professor Luiz Antonio Simas, autor do livro Maracanã: uma biografia.

No dia seguinte, no mesmo horário, com moderação de Leda Costa, teremos a mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”, com a escalação confirmada de Vivian Fonseca, professora e pesquisadora plena do CPDOC – FGV e professora adjunta da UERJ.

Já às 18h30 é a chegada a hora da nossa mesa de encerramento. A tabelinha fica por conta do ex-editor da Revista Placar, Juca Kfouri, e do apresentador do Redação Sportv, Marcelo Barreto, sob a mediação do professor Ricardo Freitas, vice-diretor da Faculdade de Comunicação da UERJ.

Para acompanhar toda a nossa programação, siga o @lemeuerj nas redes sociais e se inscreva em nosso canal no Youtube. É por lá que iremos transmitir nosso seminário.

Lembramos que encontram-se abertas, até o dia 31 de julho, as chamadas de resumos expandidos para apresentação no evento. Mais informações na aba Maraca 70 aqui no blog.

 

Eventos

Encontros LEME discute o legado de Simoni Guedes

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, no dia 17 de julho de 2020 às 19h, a quinta edição dos Encontros LEME em 2020. Dessa vez, faremos uma edição especial em homenagem à Simoni Guedes. Para falar do legado da saudosa antropóloga, contaremos com a presença de Luiz Henrique de Toledo, Rosana da Câmara Teixeira, Nicolás Cabrera e Filipe Mostaro.

Por conta da pandemia, os Encontros estão sendo realizados na modalidade virtual. Para essa edição, faremos uma transmissão ao vivo, em nosso canal no Youtube.

Ao contrário dos outros Encontros, não será necessário se inscrever previamente dessa vez, já que a transmissão será aberta.

Testeira Facebook - Homenagem à Simoni Guedes.pngEncontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte.

Artigos

O Maracanã e as histórias de sua história

O Estádio Mário Filho, um dos mais importantes palcos do esporte mundial, fez 70 anos. Sete décadas de história e de muitas histórias.

Se aqui chegasse um extraterrestre, vindo de outra galáxia, sem qualquer informação sobre o que é o futebol, será que conseguiríamos explicar a ele a importância daquela construção com um retângulo gramado e um monte de assentos em volta? Provavelmente sim. Mas e se tentássemos expor a ele a relevância emocional daquele gigante de concreto para milhões de pessoas que ali estiveram, munidos de camisas, bandeiras e paixões? Aí, certamente, a resposta teria que que ser negativa.

Não que uma coisa exclua a outra. Vários historiadores e jornalistas já se dedicaram a contar a história desse estádio inaugurado nos anos 1950, para ser a principal sede da quarta Copa do Mundo da FIFA e, de quebra, se tornar o maior do mundo.

Um dos trabalhos mais consistentes sobre toda a trajetória até a inauguração do Estádio Municipal é O Rio corre para o Maracanã, da historiadora Gisella de Araujo Moura[1]. O livro narra desde a aceitação do Brasil para sediar a Copa até o Maracanazo, a final trágica para os comandados de Flávio Costa e toda a torcida brasileira.

foto: reprodução da capa do livro de Gisella de Araujo Moura

Não foi um caminho tranquilo, como nos mostra Gisella. A localização, por exemplo, gerou uma briga político-midiática protagonizada pelo vereador Carlos Lacerda, que queria que o estádio fosse erguido no distante bairro de Jacarepaguá, e o jornalista Mário Filho, defensor do terreno do antigo Derby Club, ao lado da linha férrea e muito mais acessível à população. Aliás, Mário Filho e seu Jornal dos Sports encamparam totalmente a briga pela construção do “Gigante do Maracanã”, desde seu início. Nada mais justo, portanto, que o estádio ganhasse seu nome. Em uma crônica ufanista, o jornalista definiu o que significava, para ele e para o País, tal obra: “Hoje o estádio é o mais novo cartão-postal do Brasil. Um cartão-postal que vale mais do que o Pão de Açúcar, do que o Corcovado, do que a Baía de Guanabara, porque é obra do homem. Uma prova da capacidade de realização do brasileiro…”.

A importância de um livro assim é também trazer as histórias que a história não conta como, por exemplo, a do busto de bronze do General Mendes de Morais que o próprio, então prefeito da cidade, mandou instalar em frente ao Estádio Municipal (Ele sonhava que a construção ganhasse seu nome. Após a derrota para o Uruguai, torcedores revoltados trataram de fazer naufragar qualquer esperança do político. Seu busto foi derrubado pela multidão. Há quem diga que foi parar dentro do Rio Maracanã).

Busto do prefeito Mendes de Morais (foto: O Rio corre para o Maracanã)

A trajetória do Maracanã também pode ser contada através de seus eventos mais marcantes, jogos nos quais drama e êxtase se misturam, mas também por meio da trajetória dos grandes ídolos que ali fizeram seu maior palco. Sem esquecer dos personagens que tiveram seus parcos minutos de fama, como o pequeno Jacozinho, que entrou de penetra no jogo da despedida de Zico e fez até gol com passe de Maradona, em 1985, [2] ou do jovem Cocada, jogador vascaíno que saiu do banco para decidir o título carioca de 1988 contra o Flamengo e ser expulso minutos depois[3].

Jacozinho e Maradona no vestiário do Maracanã (foto: reprodução de TV)
Cocada e sua comemoração (foto: reprodução de TV

E não podemos também esquecer dos eventos que transcendem a esfera esportiva, como eventos religiosos (o Papa João Paulo II rezou missa no estádio) ou musicais. Foi no Maracanã que aconteceu o maior show da carreira de Frank Sinatra. Em sua única vinda ao Brasil, cantou para 170 mil pessoas.

Frank Sinatra no “maior do mundo” (foto: Editora Abril)

Na busca de contar a história do Estádio Mário Filho, através de suas partidas de futebol mais marcantes,  os jornalistas Roberto Assaf e Roger Garcia escreveram o livro Grandes jogos do Maracanã, 1950-2008 [4]. Foram selecionados 62 confrontos envolvendo a Seleção Brasileira, a Seleção Carioca, os principais clubes do Rio (América, Bangu, Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco) e o Santos, que ali conquistou dois títulos mundiais. Os critérios para a escolha dos jogos foram estabelecidos pelos próprios autores.

foto: reprodução da capa do livro Grandes Jogos do Maracanã

Só que um livro assim rapidamente fica desatualizado, afinal o estádio continua “vivo” e, de 2008 a 2020, muita coisa aconteceu por lá. Algumas partidas emblemáticas como as conquistas da Copa das Confederações, em 2013, e a do Ouro Olímpico, em 2016, certamente teriam que ser incluídas em uma nova edição.

Nenhum apaixonado por futebol pode negar que o Maracanã tem mística própria, mesmo depois de sua completa remodelação para a realização da Copa do Mundo de 2014. É uma espécie de segunda casa do torcedor e dos jogadores também. No prefácio do livro de Assaf e Garcia, intitulado “A casa de todos nós”, o tricampeão mundial Gérson de Oliveira Nunes, fala exatamente sobre isso:

O Maracanã está intimamente ligado à minha trajetória. Comecei a frequentá-lo aos nove anos de idade, quando meu pai me levou para ver o jogo em que o Brasil goleou a Espanha por 6 a 1, quatro gols de Ademir Menezes, na Copa do Mundo de 1950. Da arquibancada, e depois dentro do próprio campo, tive privilégio de acompanhar meus mestres do futebol, Jair da Rosa Pinto, Zizinho e Didi. Ali, ao longo da carreira, colecionei vitórias e títulos, por clubes e pela Seleção Brasileira, jogando contra e ao lado dos maiores craques da história…

Mas também há um outro enfoque para narrar a história do Maracanã: por meio da visão de seu público. Não há a menor dúvida de que cada um torcedor que tem uma  história do estádio toda própria, baseada em suas experiências, vivências e emoções. É o que se chama de micro-histórias.

De acordo com os pesquisadores italianos, Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, um fato histórico não pode estar restrito apenas a sua abordagem tradicional, com uma visão macro. As micro-histórias (microstorie) trazem um detalhamento que engrandece a compreensão dos acontecimentos. Por exemplo: o depoimento de um “pracinha” que esteve no front de batalha italiano durante a Segunda Guerra Mundial não apenas enriquece a história da ofensiva da Força Expedicionária Brasileira, como a humaniza.

No futebol, também é assim, em um mesmo jogo, milhares de micro-histórias podem ser contadas.  Algumas terão maior ou menor relevância na história de vida de cada um e às vezes até na do próprio espetáculo, como no caso da “fogueteira” Rosenery, que poderia ter tirado o Brasil de uma Copa do Mundo[5].

O sinalizador lançado pela torcedora e a farsa de rojas (foto: O Globo)

Em tempos de Internet, as lembranças de alguns jogos que nos marcaram podem ser revisitadas com áudio e vídeo, a qualquer momento. Gols que antes viviam só no imaginário podem ser revistos com uma breve busca no YouTube. E a discussão sobre lances polêmicos, não está mais restrita apenas a versões de testemunhas oculares da história, já que podem ser assistidos em diversos ângulos, com tira-teimas e até com o auxílio do VAR. Mas, antigamente, não era assim.

Há alguns meses recebi de presente de uma amiga uma herança muito especial deixada por seu irmão. Flávio César Borba Mascarenhas era botafoguense, mas também um apaixonado pelo bom futebol e a prova disso é a coleção de ingressos do Maracanã que guardava com carinho. Jogos de diversos clubes assistidos por ele. Guardar aqueles pequenos pedaços de papel foi a forma que Flávio encontrou de eternizar seus momentos especiais dentro daquele estádio. Gatilhos de memória e cada um deles com uma micro-história toda sua.

O acervo tem ingressos de vários formatos, de acordo com cada época, e nele constam algumas preciosidades como o da partida que garantiu a classificação das “Feras do Saldanha” para a Copa do México. Uma vitória suada sobre o Paraguai diante de 183.341 espectadores, maior público oficial da história do estádio (dizem que na final de 1950 havia mais de 200 mil pessoas, mas não há uma comprovação).

foto: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Outra pérola é o ingresso da partida entre Vasco e Santos, no dia 19 de novembro de 1969, quando Pelé, de pênalti, marcou seu milésimo gol. Por 4 cruzeiros novos, Flávio teve a honra de ver a história acontecer diante de seus olhos.

foto: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Alguns jogos, como o duelo entre a Seleção Carioca e a Seleção Paulista, em setembro de 1967, nada tinham de decisivos, mas eram oportunidades de ver grandes craques em campo. Naquela noite, do lado da Guanabara (a fusão só se deu em 1974) estavam nomes como Manga, Leônidas, Denilson, Gérson, Paulo Borges e Paulo Cézar. Já pelos paulistas, jogaram Carlos Alberto Torres, Rildo, Rivelino, Paraná e Babá. O “Rei”, contundido, assistiu ao jogo do banco de reservas.

fonte: Acervo Flávio César Borba Mascarenhas

Ao mesmo tempo, há ingressos de jogos sem qualquer relevância, como um Botafogo e Bonsucesso, de março de 1970. Uma vitória de 1×0 com um gol marcado pelo meia Valtencir. Os registros da partida eram feitos atrás dos ingressos: placares, autores dos gols, resultados das preliminares e, às vezes, até pequenos comentários, como no caso da partida entre Botafogo e Fluminense, em 13 de agosto de 1969. No verso, está escrito: “Botafogo 1×0 Fluminense! Roberto. Até que enfim!”. Evidentemente fui pesquisar a razão do comentário e o que me pareceu foi que se tratava de um alívio pelo fato do centroavante ter voltado a marcar depois de quase dois meses.  Mas, se foi isso mesmo, só o próprio poderia nos contar.

foto: Acervo  Flávio César Borba Mascarenhas

Flávio Mascarenhas faleceu em 8 de janeiro de 2015, mas aqui estamos nós, mais de 5 anos depois, “ouvindo” suas micro-histórias. O que seria do Maracanã e do futebol se não provocassem em nós todas essas emoções?

Notas de Rodapé

[1] Moura, Gisella de Araujo. O Rio corre para o Maracanã. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1998.

[2] http://globoesporte.globo.com/al/noticia/2014/06/jacozinho-diz-ter-reencontrado-zico-19-anos-apos-o-polemico-jogo-idolo.html

[3] https://www.espn.com.br/futebol/artigo/_/id/5526625/cocada-o-ultimo-heroi-do-vasco-contra-o-flamengo-ofuscou-romario-na-final-do-campeonato-carioca

[4] ‘Assaf, Roberto e Garcia, Roger. Grandes jogos do Maracanã. Rio de Janeiro, 2008.

[5] https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2015/09/03/caso-fogueteira-que-tirou-chile-da-copa-e-baniu-goleiro-do-sp-faz-26-anos.htm

Artigos

Os múltiplos sentidos das partidas reprisadas na memória dos torcedores em tempos de quarentena

Com as arquibancadas vazias, o futebol passou a ser jogado em outro campo: o das reprises de grandes partidas de seleções e clubes. Mais do que mitigar as saudades dos torcedores, essa nova forma de “jogar” permite apropriações de sentidos bastante distintas pelo mesmo torcedor a depender das equipes, então, em campo. E expõe uma das fontes constituintes do futebol: diferentemente de outros esportes, no qual ao candidato a herói basta alcançar a vitória, no futebol, para obter tal reconhecimento, ele precisa derrotar – ou, preferencialmente, eliminar simbolicamente o adversário. De tal condição, tem-se outro gene do DNA futebolístico: a valoração da vitória é diretamente proporcional à força do adversário.

Desse duplo dialético, resulta uma verdade inconfessável pela maioria dos torcedores, principalmente os mais fanáticos: para que a vitória do seu time seja memorável é preciso reconhecer o valor do adversário. A negação de tal condição, indispensável para forjar um grande vencedor, resulta numa contradição que nos diz muito sobre como se desenvolve o estilo competitivo na sociedade brasileira.

Aqui, diferentemente de outros lugares, como a Alemanha, na qual os vice-campeões da Copa de 2002 desfilaram em carro aberto pelas ruas daquele país, o segundo colocado não é o segundo melhor entre vários competidores, mas, sim, o exemplo mais emblemático da derrota, como se tivesse sido o último colocado (SOUTO, 2002). Tal percepção singular da torcida brasileira, quando acionada em relação à seleção do país, pelo menos até um passado cada vez mais remoto, vinha acompanhada da convicção, expressada por jogadores, dirigentes, torcedores e imprensa, de que a cobrança permanente pela vitória seria a responsável pelo Brasil ser o “país mais vitorioso do futebol mundial”.

Fonte: observatoriodatv

A exemplo do passado, o processo de rememoração dos jogos tem na imprensa a principal agenciadora da memória. Embora, na era das redes sociais e dos mundos paralelos das bolhas e das fakes news, tal condição tenha perdido potência, não foi, ainda, substituída por outro tipo de narrativa totalizante socialmente aceita para além das “visões alternativas aos fatos”.

Dessa forma, quando as TVs repetem partidas épicas e/ou decisivas, sejam da seleção ou dos clubes, a operação de visita ao passado continua a ter na imprensa o seu principal agente. O processo de apropriação dos sujeitos, no entanto, também vai ser informado por outros fatores, que variam de acordo com a posição que cada um ocupa num determinado grupo social. Assim, em vez de uma memória, temos várias memórias, influenciadas por questões como fatores geracionais; do impacto que aquela partida causou no instante em que foi realizada; da relação do passado com o presente da equipe pela qual se torce.

A revisita ao passado vai, ainda, confrontar-se com o passado idealizado, eventualmente congelado, como foi vivido por cada sujeito, que, também, o reelaborou ao “passá-lo adiante” para outras gerações. Alguns autores que trabalham a construção oralizada da memória, ao interligarem os dois conceitos, valorizaram a importância da vida quotidiana na acumulação de fatos de uma dada memória social (LEROI-Gourhan, 1981).

Para Freud, a reexperiência de algo idêntico é, em si mesma, uma fonte de prazer (FREUD, 1969). No entanto, acrescentamos, essa segunda experiência, raramente, se passa da mesma forma, porque os sujeitos não são mais os mesmos. É possível, portanto, que busquem ressignificar a experiência. Em “Crônica de uma arte anunciada”, Gabriel Garcia Márques nos informa, já na primeira página, que o personagem Santiago Nasar vai ser assassinado. Com isso, provoca um deslocamento de sentidos do leitor de “o que vai acontecer” para “por que aconteceu”. Analogamente, quando assiste-se a partidas cujos resultados são previamente conhecidos existe um deslocamento de “o que aconteceu” para “como aconteceu”.

Isso não impede que, inconscientemente, os torcedores possam querer mudar o resultado já sabido, como denunciam manifestações, individuais ou coletivas, que escapam em lances que, não resultando em gol, ameaçam a equipe adversária ou a sua equipe. No entanto, para além do desejo por um resultado imaginário, existe outro forte investimento emocional em como a partida desenvolveu-se, particularmente em momentos emblemáticos, sejam de mera plasticidade, sejam os que poderiam ter mudado a sorte da partida.

Principal construtora da memória das derrotas e vitórias das partidas históricas, a imprensa também vai reivindicar a centralidade do processo quando esse passado é revisitado. Para isso, conta com um repertório de várias camadas, desde a escolha dos personagens dos jogos que serão as testemunhas oculares do passado; o trabalho de pesquisa, que vai definir os momentos que merecem ser enfatizados; a escolha de uma narrativa que combine o retorno à cena dos que vivenciaram a partida em tempo real e a contextualização daquele momento para os não o tenham vivido.

Nesse processo, porém, a imprensa se depara com outros guardiões da memória, como os torcedores que, embora atravessados pelo discurso do jornalismo esportivo, formaram sua própria memória da partida a partir das singularidades da sua relação com aquele evento. A memória aprisionada pela oralidade, que vão procurar transmitir aos mais novos, permite cristalizar os mitos de origem, já que aquela fundamenta a sua transmissão através dos “guardiãos da oralidade”.

Fonte: globoesporte

Era, ainda, sob o impacto da vitória ou da derrota que, no passado sem a instantaneidade e a velocidade dos meios eletrônicos, os torcedores, já no trajeto do estádio para casa, começavam a construir uma memória oralizada das partidas, elegendo os candidatos a heróis ou construindo os culpados pela derrota. Vitória e derrota não ficavam confinadas às arquibancadas, mas à simbolização mitológica construída em torno delas. O impacto do lugar da vitória/derrota na memória reconstruída tem valor igual, ou maior, do que o resultado do jogo estampado no placar do estádio.

É no processo constitutivo dos resultados que vão sendo construídos mitos que se eternizam para explicar e definir vitórias e derrotas. Como defende David Morley, mais relevante do que o equilíbrio na cobertura dos acontecimentos é o enquadramento conceitual e ideológico básico pelo qual os acontecimentos são apresentados e, “em conseqüência do qual eles recebem um significado dominante/primário” (MORLEY, 1976 Apud HACKETT in TRAQUINA, 1993:121).

Dessa forma, a revisita ao passado, quando se assiste novamente a partidas históricas, é um processo complexo, prenhe de tensões de sentimentos que disputam o imaginário dos sujeitos, como a angulação do narrador, as ênfases dos convidados chamados a atuar como testemunhas oculares e as próprias memórias singulares dos torcedores. A síntese dos fatores constituintes do imaginário, individual e coletivo, também vai variar de acordo com o objeto; e do distanciamento, cronológico e afetivo, que se tem em relação a ele. Quanto mais distante no tempo uma partida, maior número de névoas na memória, mais complexa será a rememoração daquele momento, do que outro que, pela proximidade do presente, guarda maior frescor da quentura dos acontecimentos.

Quando se revisita a seleção contra um adversário estrangeiro, é muito mais provável que um sentido de pertencimento coletivo seja compartilhado por muitos mais do que quando os times em campo são dois clubes brasileiros. Mas, mesmo no primeiro caso, a noção de pertença pode variar, conforme que seleção brasileira está em campo. Sim, porque, conforme a equipe nacional foi sendo atravessada por valores considerados “não tradicionais” por parcelas do público e da imprensa, essa relação foi sofrendo deslizamentos afetivos importantes.

Essas assimetrias ficaram expostas nas diferenças de audiência, por exemplo, entre as reprises das finais das Copas de 1994 e 2002¹, com a seleção do penta superando em 23% o público que reviu à final da equipe do tetra. Tais assimetrias ocorrem porque voltar a assistir a partidas, principalmente àquelas que guardam maior distanciamento cronológico do tempo presente, é uma forma de recuperar a memória.

Nesse processo, não apenas se vê novamente um jogo, mas, também, se reelaboram partidas, afetos e impressões, o que inclui imprecisões, pois, como observam alguns autores, a memória funciona como uma espécie de reconstrução generativa, e não como memorização mecânica (Godoy, 1977). E as diferenças de audiência parecem indicar que, na reelaboração

O investimento afetivo no passado revela um envolvimento ainda forte com a seleção, ou as seleções daqueles períodos revisitados. Até porque o processo de reelaboração dessa memória pela imprensa está imbricado com outros acontecimentos, como a trajetória do futebol brasileiro nos anos seguintes e sua apropriação e sua representação pela jornalismo esportivo.

Dessa forma, assistir a reprises de partidas, principalmente as mais emblemáticas, dificilmente, é equivalente a transportar-se novamente ao mesmo lugar, quer se estivesse no estádio ou no sofá de casa. Trata-se de uma relação em outra dimensão simbólica, portanto, de uma nova relação. O principal fio condutor dessa revisita é a narrativa, seja a original ou uma contemporânea que busca contextualizar o evento para sujeitos que não o presenciaram.

A narrativa, também, é uma forma de jogar. Ela forma parte um tripé, junto com o jogo e o imaginário. É, portanto, sob a complexa combinação desses fatores que cada torcedor vai viver, novamente, ou pela primeira vez – no caso, das novas gerações – a revisita a uma partida. Afinal, se nada é igual quando é revisitado, cada torcedor, ainda que fortemente impactado pela narrativa da imprensa, vai viver a sua própria partida. E, mesmo que essa experiência tenha interseções – quase inevitáveis – com a de outros sujeitos, haverá, fragmentos, registros, lampejos que serão sempre singulares. Trata-se de uma das magias do futebol: permitir a complexa, e intensa, combinação de sentimentos coletivos com a sensação singular de cada torcedor.

Notas de rodapé

¹ Como a transmissão da Copa de 1970 ficou a cargo do Sportv, a comparação com os índices de audiência da TV aberta nas duas Copas mencionadas poderia causar distorções importantes.

 

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Obras completas, Vol. XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1969.

Godoy, Jack. The domestication of savage mind. Londres: Cambridge Univesity Press,1977.

HACKETT, Robert A. “Declínio de um paradigma? A parcialidade e a objectvidade nos estudos dos media noticiosos” in TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993.

LEROI-Gourhan, A. O gesto e a palavra. Lisboa: Edições 70,  1981.

SOUTO, Sérgio Montero. Imprensa e memória da Copa de 50: a glória e a tragédia de Barbosa. Niterói: Dissertação de Mestrado da UFF, 200

Internet: Folha de Londrina

Produção bibliográfica

Livro organizado por pesquisadores do LEME disponível gratuitamente

O livro Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol está agora disponível para download no site da EdUERJ. Organizado pelo nosso coordenador, Ronaldo Helal, e pelo pesquisador do LEME, Álvaro do Cabo, a obra discute a formação de epítetos como “pátria de chuteiras” e “país do futebol” e sua carga simbólica, buscando compreender como o futebol influenciou a construção da identidade nacional. Lançado em 2013, Copas do Mundo reúne uma seleção de textos de quinze pesquisadores com estudos referentes à nove Copas do Mundo e uma Copa das Confederações.

A seleção das Copas escolhidas para compor o livro, entre as dezenove já disputadas até 2013, não foi algo acidental. Para isso, ela obedeceu a dois critérios cruciais: como a seleção ficou classificada na competição e a dimensão simbólica de seus resultados na mídia e na sociedade brasileiras. Dentre as Copas analisadas, em cinco o Brasil sagrou-se campeão, em duas conquistou o vice-campeonato, em outras duas, a despeito da performance, houve a construção da simbólica do nosso futebol,

Todas as Copas selecionadas ajudam os leitores a entender melhor o país e a formação nacional, além de nos convidar a ter um olhar mais atento sobre esses eventos. Esse torneio de seleções funciona como uma espécie de metonímia nos artigos, um objeto que nos permite investigar questões maiores. Aos leitores, fica a mensagem de que uma Copa não é e nunca será só futebol. Todas as Copas reunidas no livro nos ajudam a entender melhor o país e a formação do “nacional”. Quando os autores falam da seleção, de suas derrotas e vitórias, estão também falando também do Brasil e seus dilemas.

Serviço

Título: Copas do Mundo: comunicação e identidade cultural no país do futebol

Editora: EdUERJ

Ano de Lançamento: 2013

Organizadores: Ronaldo Helal e Álvaro do Cabo

Disponível para download aqui.

Sumário

  1. Copas do Mundo: o que elas nos ensinam sobre o Brasil – Ronaldo Helal e Álvaro do Cabo;
  2. Copa do Mundo e identidade nacional: um panorama teórico – Álvaro do Cabo e Ronaldo Helal;
  3. 1938: o nascimento mítico do futebol-arte brasileiro – Camila Augusta Perira e Hugo Lovisolo;
  4. Vitória épica e tragédia nacional em 1950: um contraponto entre o Diário Carioca e veículos da imprensa uruguaia – Álvaro do Cabo e Ronaldo Helal;
  5. Do complexo de vira-latas à “nossa” Taça do Mundo – José Carlos Marques;
  6. Copa de 1962 – a consolidação da pátria de chuteiras – Márico Guerra e Filipe Mostaro;
  7. 1970 – pra frente, Brasil: preparo da caserna, coração de chumbo e mente brilhante – Antonio Jorge Gonçalves Soares e Marco Antonio Santoro Salvador;
  8. 1982: lágrimas de uma geração de ouro – Leda Costa;
  9. Copa de 1994: os múltiplos discursos autorizados sobre a seleção campeã menos amada da história – Fausto Amaro;
  10.  1998: o colapso da arrogância nacional – Édison Gastaldo;
  11. 2002: da Família Scolari ao topo do mundo – a contradição entre o local e o global no futebol contemporâneo – Francisco Ângelo Brinati e João Paulo Vieira Teixeira;
  12. Salve a seleção! Mídia, identidade nacional e Copa das Confederações 2013 – Ronaldo Helal, Álvaro do Cabo e Carmelo Silva.
Artigos

Mercado esportivo mundial e sua influência na formação de atletas brasileiros

O mercado esportivo deve ser pensado como ambiente social ou virtual propício às condições para a troca de bens, serviços e performances atléticas com vista a transformação desses em produtos econômicos (PRONI, 2000: 98). O mercado esportivo se caracteriza pela inserção de atletas profissionalizados de alto rendimento em um ambiente competitivo caracterizado por competições regulares e estáveis que cada vez mais se associam com o capital econômico para transformar o esporte em um produto de consumo e retorno financeiro para seus patrocinadores e investidores através da exposição midiática, do marketing e da publicidade.

O mercado esportivo é parte integrante de um mercado econômico global mais amplo de produção de bens e entretenimento. Por isso, o mercado esportivo é em determinadas características correlato ao mercado econômico mundial, possuindo também seus centros e suas periferias, seus fornecedores de commodities e os de produtos industrializados, bem como seus polos atrativos de mão-de-obra qualificada.

No tocante ao futebol, os países europeus como Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha e Alemanha compõem o núcleo (centro do mercado), pois possuem os campeonatos mais valorizados, as melhores possibilidades de exposição midiática, o maior poder econômico e são o grande destino dos trabalhadores migrantes do futebol. Ao redor desse centro, existem as periferias mais próximas como é o caso da América do Sul e Central (sendo o Brasil parte dela) e as periferias mais distantes como o continente africano, a Ásia, a América do Norte e a Oceania respectivamente.

O funcionamento desse circuito faz com que muitos atletas brasileiros saiam do país rumo a Europa e que os clubes brasileiros se tornem fornecedores de pés-de-obra para esse mercado. Segundo dados do site da FIFA, o número de jogadores brasileiros que saíram do país em 2017 chegou a 806 e até o meio do ano de 2018 o dispositivo TMS já havia registrado 412 saídas de atletas para o exterior. Ainda segundo essas informações 397 tinham ido para a Europa ingressar nas ligas dos mais diversos tipos e apelos econômicos evidenciando que o mercado europeu ainda é o principal polo de migração dos jogadores brasileiros.

Fica claro que nesse mercado esportivo o Brasil ocupa papel homólogo ao seu no mercado econômico: exportador de matérias-primas. Essas matérias-primas no caso são os jogadores de futebol que servirão aos campeonatos mais valorizados. Essa exportação regular de jogadores de futebol, não se dá apenas pela discrepância entre os poderes econômicos dos clubes e o valor de suas ligas, mas também pela necessidade de muitos clubes brasileiros equacionarem dívidas e equilibrarem suas finanças. Depois das cotas de televisão e mais recentemente o valor dos patrocínios, a venda de jogadores ainda é o terceiro maior meio de obtenção de recursos financeiros como mostra o gráfico.

(Dados retirados de globoesporte)

O sucesso nas transferências se torna no futebol brasileiro condição básica para tentativa de equilíbrio das finanças dos clubes. Cabe lembrar que nesse mercado esportivo mundial, os atletas são mercadorias, ou seja, produtos e como em qualquer mercado o produto é mais valorizado à medida que engloba mais características valorizadas naquele circuito. Desse modo, No Brasil há um processo de formação calcado num número muito maior de horas e preparação porque desde pequenos esses atletas são encarados como possíveis produtos de exportação. Esse modelo brasileiro foi descrito por Damo, no seu livro “Do Dom a Profissão” como formação “à brasileira” e nele os clubes direcionam quase que exclusivamente o tempo dos atletas para as atividades físicas e internalizações de disposições futebolísticas renegando qualquer outra atividade para segundo plano.

O tempo de treino é então privilegiado e isso se reflete na alta carga horária de treinos e atividades relacionadas a prática esportiva tais como competições e deslocamentos. Estudos realizados por Melo (2010), Correia (2014) e Rocha (2017) expõem dados que mostram que o tempo semanal médio destinado ao futebol é em torno de 18 horas e 26 minutos. Esses números são referentes ao Rio de Janeiro como um todo.

O treinamento dos atletas brasileiros evidencia uma formação futebolística híbrida no Brasil, ou seja, uma formação que busca abastecer o mercado interno (produção endógena), mas que conforme conveniência do mercado privilegia sua exportação para outros países dos integrantes do mercado esportivo. Nesse cenário, os jovens brasileiros, desde muito cedo são submetidos a treinamentos diários – cinco vezes na semana – com carga horária muito semelhante àquela encontrada nos treinamentos dos atletas profissionais.

No processo de estruturação dessa jornada de treinamento, muitos atletas possuem dificuldades de construção de caminhos alternativos ao futebol, pois essa atividade demanda deles uma dedicação quase em tempo integral. Ao se dedicarem desde muito cedo a profissionalização no futebol e durante muitas horas ao dia, esses jovens acabam tendo dificultadas as chances de obtenção de outras credenciais formativas para além do esporte, como por exemplo, a escola. Diante disso, caso não consigam se profissionalizar, uma reconversão profissional para o mercado de trabalho ordinário passa a ser mais difícil e precarizada.

No Brasil a legislação para proteção dos jovens nos centros de formação foi aprovada somente no ano de 2011, com a responsabilização dos clubes sobre a formação esportiva e educacional desses atletas. Todavia não há qualquer regulamentação do Estado sobre os limites de carga horária dos treinos e sobre as estratégias de reforço na escolarização desses indivíduos. Dessa forma, a lei foi criada, mas ela pouco normatiza quais são os comportamentos necessários para os clubes respeitarem.

Diante desse cenário, os clubes tensionam os dispositivos legais e agem dentro das diversas interpretações existentes na legislação para que possam continuar exercendo suas atividades com vista a maximizar os resultados dos treinos e aumentar o valor de mercado dos seus atletas. Num cenário esportivo pautado principalmente por um viés econômico de lucro, os clubes tendem a privilegiar seus investimentos e patrimônios com a anuência das leis pouco específicas e dos legisladores pouco observadores do que acontece dentro dos centros de treinamento.

No caso do futebol a comparação do Brasil com outros países pode ajudar na compreensão das especificidades da formação dos futebolistas brasileiros e sua relação com a escola, bem como explicitar outros modelos de formação pelo mundo.

 

Referências

CORREIA, C. A. J. Entre a Profissionalização e a Escolarização: Projetos e Campo de Possibilidades em jovens atletas do Colégio Vasco da Gama. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

DAMO, A. S. Do Dom a Profissão: formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo e Rothschild Editora, Anpocs, 2007.

MELO, L. B. S. Formação e escolarização de jogadores de futebol do estado do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Programa de Pós-Graduação em Educação Física. Rio de Janeiro, 2010.

 

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Polêmica e Tapetão: o Campeonato Goiano de futebol no período 1979-1985

A bola saiu pela lateral aos 46 minutos do segundo tempo. O Vila Nova jogava contra o Atlético Goianiense pela rodada final do Campeonato Goiano de 1979. Era o encerramento do hexagonal decisivo. Quem vencesse seria campeão. O jogo estava empatado em 0 a 0 e o empate beneficiava o Vila Nova. E quando a bola saiu pela lateral no finzinho do segundo tempo, o árbitro apitou. Queria apenas marcar a saída de bola, mas apitou forte demais e a torcida entendeu que era o apito final. Invadiu o campo.

Depois de alguns minutos, o campo foi evacuado. Quase todo o time do Atlético, porém, havia corrido para o vestiário. Jefferson de Freitas, o árbitro, determinou aos atleticanos que voltassem a campo. Darci, o capitão do Atlético, respondeu: “Mas eles rasgaram as camisas do pessoal” (Placar, 17.08.1979). O time do Atlético não voltou ao jogo, o árbitro encerrou a partida e a torcida do Vila Nova comemorou (de novo) o tricampeonato. Mas a polêmica era inegável e a Federação Goiana de Futebol (FGF) deveria se posicionar.

Ali começou uma sequência de sete decisões em Goiás que seriam decididas sob o signo da polêmica. Em cinco dessas decisões a disputa extrapolou o campo de jogo e chegou ao famoso tapetão. Parecia uma maldição a pairar sobre o futebol goiano.

E o que foi decidido, afinal, pela FGF a respeito do jogo não encerrado entre Vila Nova e Atlético Goianiense no mês de agosto de 1979? A Federação confirmou o tricampeonato do Vila Nova. Segundo a revista Placar, o mando de campo naquela partida era do Atlético e, por isso, era obrigação do clube ter um conjunto reserva de uniformes em seu vestiário. Havia ainda um segundo argumento: “O estádio Serra Dourada é neutro, portanto não se deu a figura da invasão capaz de provocar anulação de jogo” (Placar, 17.08.1979).

  • 1980: “RESPOSTA AO CALUNIADOR”

A polêmica, no Campeonato de 1980, foram as declarações do técnico do Atlético Goianiense, José Calazans, que acusava os atletas do Vila Nova de jogarem dopados e serem subornáveis. As declarações poderiam suscitar investigações por parte da FGF e até de autoridades policiais. Mas não houve nada desse tipo.

Antes da última rodada do quadrangular final, o Vila Nova tinha sete pontos, enquanto Goiás, Anápolis e Atlético Goianiense tinham cinco. Bastava ao Vila Nova um empate para se tornar tetracampeão. A partida foi contra o Anápolis. Aos 24 minutos do segundo tempo, o vilanovense Roberto Oliveira marcou o único gol do jogo. O técnico campeão, Vail Motta, gritou aos prantos “que aquela era a resposta ao caluniador” (Placar, 05.12.1980).

José Calazans, dois anos depois, se viu envolvido no escândalo da máfia da loteria esportiva. Ficou tão mal visto que em 1989, quando o Atlético Goianiense o contratou novamente para o cargo de técnico, a torcida atleticana protestou. Alguns picharam o muro do estádio Antônio Accioly com frases condenando a contratação. Calazans voltou a atuar como técnico do Atlético em apenas um jogo. Foi demitido após sofrer uma derrota para o Goiás por 2 a 0.

  • 1981: ATLETA IRREGULAR

Em 1981, o Campeonato Goiano passou por uma das situações mais polêmicas de toda a sua história (talvez a mais polêmica). Até hoje o caso é lembrado por torcedores e pela imprensa do Estado.

A Anapolina era a melhor equipe da competição. De janeiro a março daquele ano, havia disputado a Taça de Prata (segunda divisão do Campeonato Brasileiro). Chegou à final, mas foi derrotada na decisão pelo Guarani, clube campeão brasileiro da primeira divisão em 1978. Em abril, quando começou o Campeonato Goiano, todos os torcedores já sabiam que a Anapolina estava entre os favoritos.

No primeiro turno, as expectativas em relação à Anapolina se confirmaram. O time venceu doze jogos, empatou cinco e perdeu apenas três. Ficou em primeiro lugar. Os seis melhores colocados se classificaram para a fase decisiva desse turno. Nessa fase decisiva, a Anapolina decepcionou. Ficou apenas em quarto lugar.

No segundo turno, a Anapolina novamente ficou em primeiro lugar (com treze vitórias, cinco empates e apenas duas derrotas). Dessa vez, não houve classificados para uma fase decisiva, como aconteceu no primeiro turno. Por ser a primeira colocada do segundo turno, a Anapolina se classificou para o quadrangular final.

No terceiro turno, o Goiás surpreendeu. O clube havia se classificado para aquela fase por ter sido o quarto melhor do campeonato após os dois primeiros turnos (empatado em número de pontos com quinto colocado, mas com melhor saldo de gols). Começou o terceiro turno com apenas dois empates, mas depois venceu três jogos seguidos. Em seguida, na sua última partida no turno, empatou com a Anapolina. Foi o bastante para ficar em primeiro lugar, empatado em número de pontos com a própria Anapolina, a segunda colocada. Goiás e Anapolina, assim, estavam classificados para a melhor-de-três que definiria o campeão estadual.

Os três jogos, realizados no estádio Serra Dourada, terminaram empatados. O primeiro em 2 a 2 e os dois últimos em 1 a 1. Encerrado o terceiro jogo, a torcida da Anapolina comemorou, pois seu time havia somado maior número de pontos do que o adversário ao longo do campeonato. O Goiás, porém, recorreu ao Tribunal de Justiça Desportiva. Descobriu que um jogador da Anapolina havia disputado a segunda partida da melhor-de-três em condição irregular e argumentou que, por isso, o empate deveria ser convertido em vitória do Goiás. Segundo a revista Placar, os dirigentes esmeraldinos haviam marcado “um gol de placa” no tribunal:

“(…) conseguiram uma fotocópia do contrato do armador Osmar Lima, da Anapolina, provando que seu vínculo terminara dois dias antes do segundo jogo entre ambos os clubes e que portanto, o atleta não tinha condições de atuar”. (Placar, 18.12.1981)

Goiás e Anapolina jogaram, em todo o campeonato, 54 partidas cada equipe. O Goiás teve 23 vitórias e 19 empates. A Anapolina teve desempenho melhor: 28 vitórias e 19 empates. Mas o campeão goiano de 1981, por decisão judicial, foi o Goiás.

Foto 1981 (1)
Goiás X Anapolina (Placar, 18.12.1981)

  • 1982: INVASÃO DE CAMPO

A última partida do Campeonato Goiano de 1982 teve o mesmo problema da decisão de 1979. A torcida do Vila Nova invadiu o campo no final do jogo. Uma festa que “quase melou a final” (Placar, 24.12.1982), mas que não provocou nenhuma disputa jurídica. Aquele foi o campeonato menos polêmico do período 1979-1985.

Quando teve início a invasão de campo, aos 42 minutos do segundo tempo, o árbitro José Roberto Wright correu para o seu vestiário, mas depois informou aos dirigentes que os últimos minutos deveriam ser jogados. O que parecia quase impossível foi feito: milhares de torcedores foram retirados do gramado e o jogo recomeçou. O placar era de 1 a 1. Poucos minutos depois, veio o apito final e o Vila Nova, que tinha a vantagem do empate naquela partida, se sagrou campeão.

“(…) foram jogados os três minutos finais para um estádio praticamente vazio: a torcida já estava toda nas ruas, iniciando o carnaval que explodiria de vez na tradicional Praça Tamandaré, no centro de Goiânia”. (Placar, 17.12.1982)

  • 1983: SEGUNDO TURNO DECIDIDO ANTES DO PRIMEIRO

O regulamento do Campeonato Goiano de 1983 previa dois turnos. O campeão do primeiro enfrentaria o campeão do segundo na decisão. Um modelo simples. O problema surgiu na semifinal do primeiro turno. A Anapolina, após vencer o primeiro jogo contra o Itumbiara por 2 a 0 e ser derrotada na segunda partida por 2 a 1, contestou essa derrota na Justiça Desportiva.

A final do primeiro turno, então, ficou em suspenso. E o segundo turno teve início.

Três meses depois de iniciado esse segundo turno, estavam definidos os seus finalistas: Anapolina e Goiás. Disputaram a final em duas partidas. Na cidade de Anápolis, a Anapolina venceu por 2 a 0. Em Goiânia, quatro dias depois, o Goiás venceu também por 2 a 0. Na decisão por pênaltis, o Goiás venceu por 5 a 4.

O campeonato já tinha o campeão do segundo turno, mas ainda não havia sido realizada a final do primeiro turno. Essa final seria disputada também por Goiás e Anapolina, já que a Justiça Desportiva decidiu punir o Itumbiara e classificar a Anapolina para a decisão da fase inicial. Assim, três dias depois de disputarem a final do segundo turno, os dois adversários voltaram a campo para disputar a final do primeiro turno. Para quem queria criticar a FGF, essa era a melhor oportunidade.

Na decisão atrasada do primeiro turno, o Goiás voltou a vencer a Anapolina em uma disputa emocionante. E como foi campeão dos dois turnos, sagrou-se campeão estadual daquele ano. Para azedar ainda mais um campeonato que teve andamento tão problemático, os torcedores da Anapolina diziam furiosamente que, no último jogo da competição, o gol do Goiás no tempo regulamentar foi marcado em impedimento, enquanto um gol regular da Anapolina havia sido injustamente anulado.

  • 1984: QUADRANGULAR INTERROMPIDO

No início de 1984, a FGF decidiu aumentar o número de clubes da primeira divisão do Campeonato Goiano (de 8 para 10). Um torneio seletivo foi realizado para definir os novos participantes. Ceres e Goianésia foram os melhores classificados, mas dois outros clubes (Rio Verde e Monte Cristo) recorreram ao Tribunal de Justiça Desportiva (TJD). A FGF, então, decidiu aumentar mais uma vez o número de participantes da primeira divisão. Passaram a ser doze. Um segundo torneio seletivo foi realizado. O Rio Verde, dessa vez, se classificou. O Monte Cristo, não.

Não foi um bom começo. E ficaria ainda pior.

Em julho, começou o campeonato da primeira divisão. Houve dois turnos iniciais. No primeiro, o Goiânia foi o melhor colocado. No segundo, o Vila Nova ficou em primeiro lugar. Além dessas duas equipes, o Atlético Goianiense e o Goiás (esse último beneficiado por uma decisão judicial) também se classificaram para o quadrangular final. O Rio Verde, porém, recorreu ao STJD. Queria ser incluído no quadrangular.

O campeonato passou a ser disputado também nos tribunais. Enquanto isso, os jogos da fase final estavam sendo realizados. No fim de novembro, após uma decisão judicial favorável ao Rio Verde, a FGF decidiu interromper o quadrangular, que já estava quase encerrado.

Concluídos os procedimentos judiciais, a situação ficou assim definida: o jogo Jataiense X Goiás deveria ser realizado novamente (em Jataí). Caso o Goiás vencesse, sua classificação para o quadrangular final estaria confirmada e a competição poderia seguir adiante. O Goiás, porém, foi derrotado por 3 a 1. Essa resultado tirou o time do quadrangular e colocou o Rio Verde em seu lugar. A fase final deveria ser reiniciada.

A partir daí, a competição se desmoralizou. O Jornal do Brasil disse que o campeonato estava “mais confuso do que nunca” (Jornal do Brasil, 05.12.1984) e a revista Placar afirmou que era o “mais bagunçado de todos os campeonatos já realizados em Goiás (Placar, 28.12.1984).

“É pouco provável que o público prestigie o caos em que se transformou o futebol goiano”. (Jornal do Brasil, 05.12.1984)

No novo quadrangular final, o Vila Nova jogou cinco partidas. Empatou a primeira e venceu as outras quatro. Tornou-se campeão goiano antecipadamente e, assim, a FGF aproveitou para cancelar a última rodada do quadrangular. Foi o fim deprimente de um campeonato que deixou lembranças melancólicas.

Foto 1984
Vila Nova X Rio Verde (Placar, 28.12.1984)

  • 1985: DESCONGESTIONANTE NASAL

No Campeonato Goiano de 1985, o primeiro turno teve doze equipes participantes. As seis melhores colocadas passaram à fase decisiva. As seis piores disputaram entre si quais seriam as duas rebaixadas.

Na fase decisiva, o Atlético Goianiense foi implacável. Venceu sete partidas, empatou três e não perdeu nenhuma. Ao vencer o seu penúltimo jogo, chegou a 16 pontos, enquanto o Goiânia (segundo colocado) tinha apenas 10. O Atlético não podia mais ser alcançado na tabela de classificação, mas precisou esperar mais alguns dias para comemorar o título de campeão estadual. Ainda havia um processo judicial a enfrentar.

O jogador Célio, do Atlético Goianiense, foi acusado de atuar dopado. O seu exame havia indicado a presença de substâncias proibidas.O Goiás foi à justiça desportiva. Célio dizia que havia usado um conhecido descongestionante nasal (chamado Afrin), que interferiu no exame.

A defesa de Célio alegava irregularidade na coleta do material para o exame. O TJD, por 7 votos a 0, acatou a alegação e decidiu arquivar o processo. Os torcedores atleticanos não perderam a oportunidade de fazer chacota com o rival: “O Goiás sempre ganhou no tapetão. (…) Mas até lá ele perdeu feio” (Placar, 13.12.1985). A comemoração da torcida campeã começou à noite, depois dessa decisão judicial, e não após uma vitória dentro de campo. No dia seguinte, Atlético Goianiense e Goiás se enfrentaram. Deu empate: 1 a 1.

Foto 1985
Atlético Goianiense X Goiás (Placar, 01.01.1986)

1986: “UM CAMPEONATO SE GANHA NO CAMPO”

Em 1986, o futebol de Goiás “voltou ao normal”. O Campeonato Goiano transcorreu normalmente, sem grandes disputas judiciais. As seis melhores equipes do primeiro turno se classificaram para o hexagonal final. Nessa última fase da competição, Goiás e Atlético Goianiense disputaram a taça de campeão até o fim. Na última rodada, defrontaram-se no estádio Serra Dourada. O Goiás tinha 13 pontos e o Atlético 12, ou seja, quem vencesse seria o campeão do hexagonal e o empate beneficiava o Goiás. O Atlético Goianiense precisava ser campeão do hexagonal para forçar uma decisão do campeonato (em melhor-de-três) contra o próprio Goiás, que havia sido campeão do primeiro turno.

Nesse jogo decisivo, os atleticanos marcaram o primeiro gol aos 10 minutos do segundo tempo. Mas o Goiás virou o placar. Venceu por 2 a 1 e, como campeão do primeiro turno e do hexagonal, sagrou-se campeão estadual de 1986. A revista Placar comentou com satisfação o bom andamento do campeonato: “Um campeonato se ganha no campo. Finamente, depois de três anos, este princípio básico do futebol foi respeitado em Goiás. Desde 1983, quem acabava decidindo o título eram os juízes dos tapetões. Agora, foi diferente” (Placar, 12.09.1986).

À medida que o futebol goiano avançasse em sua profissionalização, essas turbulências tendiam a desaparecer. Afinal, a profissionalização transforma clubes e Federações em empresas esportivas, de viés capitalista, o que leva à adoção de práticas menos instáveis. O padrão profissional é o do bom funcionamento empresarial, ou seja, da busca por maior eficiência, sem confusões e crises.

Esse desenvolvimento, porém, não seria dos mais rápidos em Goiás.

O futebol goiano adotou oficialmente o profissionalismo em 1962. Duas décadas depois, ainda se mostrava dramaticamente bagunçado do ponto de vista administrativo. Essa situação revela como era difícil implantar realmente o profissionalismo esportivo em uma região considerada atrasada e periférica. Dificuldade percebida até o primeiro ano do novo século.

Os vilanovenses não esquecem aquele ano de 2000, quando o seu clube decidiu não disputar o segundo jogo da final do segundo turno. Era um protesto contra a arbitragem do primeiro jogo daquela final. Atitude muito emocional (amadora) e pouco profissional. A FGF, alguns dias depois, determinou o cancelamento de todas as partidas do time na competição. Assim, o Vila Nova ficou em último lugar na classificação final do campeonato (com nenhum ponto) e foi rebaixado para a segunda divisão.

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O direito à memória

Estamos sem futebol ao vivo. Sem esportes ao vivo. Temos o campeonato alemão, mas não temos nossos times/clubes jogando. O narrador Everaldo Marques saiu dos canais ESPN para o Sportv e em sua chegada anunciou a alegria de poder narrar os diversos esportes na nova emissora. Hoje, em função da pandemia, ele está narrando jogos de videogame entre jogadores de futebol… A discussão nesse texto não é se o e-sport é ou não é esporte ou o que se deveria transmitir agora (eu pensei que as emissoras poderiam transmitir o campeonato do “e se…”, os torcedores poderiam escolher um lance e mudar sua história… – tenho outras sugestões como o Brasileirão de meia-hora, mas estou perdendo o foco). Nas próximas linhas quero tentar pensar no direito à memória nos esportes em geral e no futebol em específico.

Nesse momento em que o futebol ao vivo não inclui nossos times/clubes ou mesmo a seleção, temos visto uma escolha por jogos específicos que autorizam algumas memórias e não outras. Sabemos que a memória não é algo qualquer:

(…) a memória, que implica reconhecer informações como sendo informações sobre o passado, precisa ser assumida como processo ativo de construção que se faz no presente e para atender a interesses do presente. Não se copia, nem se resgata, nem se descobre, nem se desvenda o passado, mas se constrói o passado. Assim, nossa relação com o passado é sempre de ruptura, é sempre lacunar, pois construímos determinadas memórias, inventamos determinadas tradições, lembramos de determinados episódios e de determinados heróis, e não de outros. É para o presente e no presente que se constrói a memória (SEFFNER, 2002, p. 370).

A memória não apenas é produzida por e para o tempo presente, ela também ensina sobre o tempo presente. Um dos ensinamentos facilmente verificáveis é a dimensão que a televisão, especialmente a aberta, ainda ocupa. É verdade que boa parte dos jogos transmitidos na televisão aberta e fechada estão disponíveis na internet, mas as audiências da televisão aberta na transmissão de jogos em que a Seleção Brasileira de futebol masculino conquistou títulos não é um dado insignificante.

Fonte: goal

Outro aprendizado importante é sobre os jogos que importam. Quase sempre os jogos que importam são aqueles que vencemos e, especialmente, em competições relevantes. Na televisão aberta, somente as vitórias. Na fechada apenas as grandes competições. Lembro de um golaço de Elivélton pela seleção em 1991 em amistoso contra a, hoje inexistente, Tchecoeslováquia. Esse jogo poderia ser reprisado? Aquele chocolate que demos na Argentina na Copa do Mundo de 1990, mas perdemos por 1 a 0 estaria na lista das possíveis exibições? Brasil e Paraguai pelas Eliminatórias para a Copa de 2002 faz algum sentido? México 1 a 0 no Brasil pela Copa Ouro, em 2003 (Thiago Mota jogando na Seleção Brasileira) poderia aparecer na televisão ou terá que ser relegado a minha memória individual por ter sido o único jogo da Seleção Brasileira que assisti fora de casa?

No cenário clubístico temos algo semelhante. Na televisão aberta alguns regionalismos aparecem, assim como alguns clubes nacionais. Parece existir times com direito à cidade, vide o exemplo dos paranaenses, times de estado, nós gaúchos estamos aqui e times nacionais, especialmente de Rio e São Paulo. Existem clubes grandes sem direito a transmissão no seu bairro… Alguém me dirá que isso é calculado pela audiência ou pelo número de torcedores. Eu sei, é verdade. Mas eu também sei que o “gosto” se constrói. Sabemos que o Flamengo campeão da Libertadores é mais brasileiro do que o Internacional campeão da mesma Libertadores. O imperativo da vitória também aparece. Está certo, meu time já perdeu algumas reprises no canal fechado, mas não eram os jogos que importavam para o meu time, mas os jogos que importavam para o adversário e que, por acidente, estivemos ali para preencher a narrativa.

A escolha dos jogos mostra algumas escolhas do que vem acontecendo desde muito, talvez especialmente a partir da virada do século ou se quisermos voltar um pouco mais podemos pensar na criação do Clube dos 13, que marcam não apenas os jogos, mas quais os clubes têm direito a memória. Na Copa do Brasil de 2004, XV de Novembro, de Campo Bom – interior do Rio Grande do Sul, e Santo André – do ABC Paulista, fizeram um grande enfrentamento com muitas viradas. Os gaúchos, então comandados pelo novato Mano Menezes venceram no Pacaembú por 4 a 3 e conseguiram ser eliminados pelos paulistas no estádio Olímpico ao serem derrotados por 3 a 1. Não me parece que esses jogos estejam sendo pensados para serem reprisados, nem mesmo para Campo Bom ou para Santo André.

Com um pouco de surpresa, vi que o Sportv transmitiu Grêmio 2 X 1 Sport pela Copa João Havelange, no ano 2000. Achei uma escolha um tanto curiosa, um enfrentamento de uma fase ainda não tão decisiva de uma competição em que o Grêmio não foi campeão. Voltei a programação e vi que aquele jogo era um da série de jogos especiais em função de Ronaldinho Gaúcho, que marcou dois gols naquela partida. Pelo Campeonato Brasileiro de 1999, o Grêmio venceu o Flamengo no Maracanã por 4 a 3 com 3 gols do atacante Zé Alcino. Apesar do feito, Zé Alcino não parece merecer a mesma reprise que Ronaldinho.

Em minha tese de doutorado ao conversar com os torcedores do Grêmio sobre o trânsito entre o estádio Olímpico e a Arena do Grêmio notei esse mesmo exercício na construção das memórias:

Conversando com torcedores sobre o estádio Olímpico, notei que as lembranças, as minhas e as deles, sempre tratavam das grandes vitórias, dos primeiros jogos e dos títulos. Boa parte das narrativas dos sujeitos sobre uma memória do estádio Olímpico era eleita em uma partida específica dos quase sessenta anos de atividades do estádio. Eu poderia ter lembrado do Gre-Nal em que perdemos por 2 a 5, da derrota no Campeonato Gaúcho de 2011, dentre outras. A história de um estádio de futebol se faz disso: de vitórias e de derrotas, de grandes jogos e de jogos ‘meia-boca’. Mas a seleção do que nós, gremistas, escolhemos quando vamos rememorar o estádio Olímpico, está quase sempre associada aos afetos de grandes jogos e vitórias (BANDEIRA, 2017, p. 17).

Na memória dos torcedores de estádio, geralmente ainda existe lugar para esse jogo de estreia. Lembro com carinho de dois jogos contra o Sport Recife no Olímpico, em 1994, estreia do meu irmão e 2012, estreia do meu afilhado. Não me parecem jogos elegíveis dessa memória coletiva.

Eu assisti 681 jogos do Grêmio no estádio. E minhas memórias não cabem apenas nas conquistas, nas grandes vitórias ou nos grandes jogadores. Assisti a 49 gloriosos empates sem gols. Vi grandes vitórias, empates e derrotas, mas também vi vitórias, empates e derrotas desimportantes que não deram mais do que o caminho de volta do estádio para casa para serem digeridos. Nosso espetacular futebol de espetáculo não é tão espetacular assim na maioria dos eventos, mas esses eventos também nos constituem torcedores. Eu sei que existem torcedores que preferem poder reclamar de uma atuação ruim do que gozar com uma grande goleada a favor.

Fonte: globoesporte

Qual o espaço para a criação do torcedor que perde nessa escolha de memórias? Todos os anos, quinze clubes perdem o campeonato brasileiro e apenas um vence (os quatro que caem é outro assunto), mas nossa formação nesse momento sem futebol parece seguir olhando apenas para os que vencem. Nossos times/clubes do futebol nos dão muito mais e muito menos do que os títulos. Sinto falta de ver os times médios do Grêmio ou aqueles que não ganharam campeonato, mas fizeram duas boas partidas no ano. São de todos esses jogos que somos feitos, quando os apagamos de nossas memórias acabamos diminuindo nossa possibilidade de nos constituirmos torcedores com os mais diferentes gostos e choros também.

Referências

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Do Olímpico à Arena: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio. 2017. 342 f. Tese (Doutorado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, UFRGS, Porto Alegre, 2017.

SEFFNER, Fernando. Explorando caminhos no ensino de história local e regional. In: RECZIEGEL, Ana Luiza Setti; FÉLIX, Loiva Otero (Orgs.). RS: 200 anos definindo espaços na história nacional. Passo Fundo: UPF, 2002, p. 367-382.

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo quinto episódio do Passes & Impasses

Acesse o décimo quinto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo quinto episódio é “Rivalidades Estaduais”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, gravamos remotamente com Thalita Neves, doutoranda do PPGCom/UERJ e pesquisadora que vem estudando as rivalidades estaduais no futebol brasileiro, e Édison Gastaldo, pesquisador do LEME e professor no Centro de Estudos de Pessoal – Forte Duque de Caxias.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo quinto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi Whisky a go-go” foi composta pela dupla Michael Sullivan e Paulo Massadas e gravada pelo grupo Roupa Nova em 1984.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano.

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis

Convidados: Thalita Neves e Édison Gastaldo

Artigos

“Amarelinha” desbotada

Durante a reprise na TV Globo da conquista do pentacampeonato mundial do Brasil na final da Copa de 2002, as redes sociais ficaram repletas de comentários saudosistas e nostálgicos. Um deles, de Oliver Stuenkel, prestigiado professor de relações internacionais, foi particularmente interessante. Ele postou uma foto sua EM 2002 com uma camisa da seleção e a seguinte legenda: “Que saudades de 2002. Nessa época, dava para vestira a camisa da seleção sem ser confundido com terraplanistas de extrema direita”.

Foto: Presidente Bolsonaro é recebido por crianças com camisa da seleção em ato antidemocrático contra o Congresso Nacional e o STF (Foto Wagner Maciel/Estadão Conteúdo)

Desde março de 2015, de forma mais explícita, o uniforme principal da seleção brasileira de futebol vem sendo usado por grupos conservadores em manifestações. Inicialmente a favor do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e, posteriormente, em apoio à candidatura do atual presidente Jair Bolsonaro. No momento de mais baixa aprovação do governo Bolsonaro, em meio à falta de comando no combate à pandemia do coronavírus [1], nossos domingos tem sido marcados por xingamentos às instituições, flertes autoritários em manifestações dos mais intransigentes e inflexíveis militantes. O uniforme é a “amarelinha”, vestida por muitos deles.

A seleção brasileira de futebol foi durante o século XX um dos símbolos mais importantes para a construção do que é “ser brasileiro”. Essa construção foi também um projeto político que buscava integrar uma sociedade dividida pela escravidão e pelos regionalismos, e teve nas vitórias da seleção brasileira e nas narrativas da imprensa esportiva, a partir dos anos 1930, a base para a consolidação da ideia de “País do Futebol” [2]. Essa ideia, mesmo enfraquecida nos tempos atuais, tem a ver com a paixão e a esperança com a seleção, sobretudo em tempos de Copa do Mundo.

A camisa amarela daquele que é, até agora, o único time pentacampeão mundial adquiriu uma série de representações e atributos ao longo das conquistas. A grande maioria deles foi positivo tanto sobre o futebol jogado pelos brasileiros como sobre o povo brasileiro. Cartão de visita e passaporte informal do brasileiro pelo mundo, ela passou a significar na imaginação “talento diferenciado”, “irreverência” em campo, “alegria”, e “solidariedade” em quem a veste [3]. Representações da forma que jogamos e que até hoje tentam ser reproduzidas na imprensa esportiva nacional, mas que não é mais dominante

Por ter feito uma monografia sobre o tema, percebi como foi avassaladora a transformação simbólica que a camisa amarela sofreu em seu processo de apropriação pela extrema-direita. Há até pouco tempo, a “amarelinha” possuía conotação e representação que estavam acima das disputas políticas e partidárias. O Brasil foi campeão em 1994, derrotado na final de 1998, mas, independentemente disso, Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito presidente. O pentacampeonato em 2002 não ajudou o PSDB a se manter na presidência, e Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu a eleição daquele ano. A seleção brasileira não venceu os mundiais de 2006 e 2010, e o PT continuou no comando do Poder Executivo Federal, com Lula e, posteriormente, Dilma Rousseff, eleita para o primeiro mandato à época.  Em nenhuma dessas eleições, a camisa amarela da seleção foi usada como símbolo de um dos candidatos. Foi uma característica pós-redemocratização, enquanto, durante a Ditadura Militar, a seleção e a camisa amarela tenham se aproximado do Regime em 1970 com a propaganda política que tentou surfar na onda do tricampeonato no México [4].

Desde a instauração e vigência da Nova República, a partir de 1988, o esporte também vive uma nova era, marcada pela inserção de times e marcas, como a Nike, em um mercado agora global do esporte com cifras bilionárias em contratos de patrocínio, pela ida de jogadores brasileiros cada vez mais cedo para atuarem no exterior, e pelos poucos jogos da seleção em solo nacional. A seleção brasileira passa por um processo de desterritorialização, despolitização e desnacionalização para se inserir à lógica transnacional do capital [5]. A Seleção Brasileira teve Londres como sua casa. Menos de 10% dos amistosos do time desde 2003 aconteceram em solo nacional. Tudo isso distancia o torcedor da seleção e seus símbolos, mas nada do que estamos vivendo atualmente teve tanto impacto negativo.

As representações em torno da “amarelinha” passaram a ter as conotações mais negativas possíveis a partir da crise política atual [6]. Não tivemos nem grandes conquistas em campo para contrabalancear seu uso político. Os rituais em torno do futebol, o “clima de copa”, foram transportados para a onda conservadora responsável por retrocessos políticos, econômicos e sociais.

É importante lembrar que uma das forças de mobilização da Copa do Mundo tem a ver com o duelo de nações e identidades em campo, de forma que uma seleção de onze titulares mais os 12 reservas representaria o país como um todo. No caso da polarização política, podemos fazer a comparação entre o duelo das “nações”: a que foi contra a destituição da então presidente Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, e a que apoiou uma conservadora à direita na política nacional.

Foto: Manifestante vestido com camisa da seleção brasileira comemora prosseguimento do Impeachment na Câmara dos Deputados em 2016 (Foto: Nacho Doce/Reuters)

Durante o impeachment, a votação de admissibilidade da deposição de Dilma Rousseff que ocorreu no dia 17 de abril de 2016, um domingo à tarde, na Câmara dos Deputados, escancarou esses novos rituais, por parte dos apoiadores do impeachment. Em comum, a congregação de um grupo que tinha um objetivo comum (no caso, vencer a partida do impeachment); vestir a camisa amarela da seleção; pertencimento e socialização neste grupo; cantar o hino nacional; a vibração típica de gol em cada voto dado a favor do impeachment; a apoteose quando o resultado se definiu a favor do grupo que apoiava o impeachment, com a explosão de fogos, cornetas, “buzinaços” e “apitaços”.

Algumas representações da cobertura da imprensa capturam essas semelhanças. Reportagem no site da revista semanal “Época”, no dia da votação do processo na Câmara dos Deputados (17 de abril de 2016), tem como título: “Pró-Impeachment, Avenida Paulista tem clima de festa da Copa”. No subtítulo, “Camisetas da seleção, vuvuzelas, cerveja holandesa, coreografias e comemoração, na derrota de Dilma na votação da Câmara”[1]. [7]

No campo cultural e das festas populares, a camisa amarela da seleção foi símbolo da ala “Manifestoches”, no desfile da Escola de Samba Paraíso da Tuiuti, vice-campeã do Carnaval do Rio de Janeiro de 2018. A camisa, em uma versão genérica, foi usada para criticar a suposta “alienação” dos manifestantes pró-impeachment vestidos com o uniforme da seleção brasileira e que carregavam o pato amarelo da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (FIESP), também apoiadora do impeachment no enredo “Meu Deus, meu deus , está extinta a escravidão?”. [8]

Mostaro e Fontenelle (2018) [9] destacam um mapeamento quantitativo realizado durante a Copa do Mundo sobre as narrativas em torno da camisa da seleção brasileira. A pesquisa começou no primeiro dia de competição (pela fase de pico do engajamento do público com o torneio, a partir do jogo de abertura do mundial) e foi encerrada no dia da eliminação da equipe comandada por Tite diante da Bélgica nas quartas-de-final, para evitar que a derrota em campo influenciasse o levantamento. Duzentas e dezesseis pessoas responderam ao formulário digital. 82,6% afirmaram “já ter comprado uma camisa oficial da seleção brasileira”; 61% “já compraram alguma blusa amarela em alusão à camisa da seleção brasileira e usaram durante a Copa do Mundo”; 43,9 % “acreditam que a camisa virou uma espécie de marca de um movimento político”; 21,4% “deixaram ou deixarão de usar a camisa da seleção brasileira devido à alusão aos protestos” (46,2% “não deixaram ou deixarão de usar a camisa da seleção brasileira”; 21% “continuarão usando a camisa da seleção apesar de não concordarem com os protestos que pediam a saída de Dilma.

Em meio à polarização política nacional, acredito que o uso da camisa amarela da seleção grupos conservadores e até mesmo reacionários em protestos de rua não está dissociado de uma transformação discursiva maior, que afeta outras democracias ocidentais. Um processo de crise do capitalismo e dos princípios políticos e econômicos liberais no qual o recrudescimento conservador e ultranacionalista se impõe como alternativa sedutora para muitos [10].

A interdependência e desregulamentação dos mercados têm deixado as economias nacionais suscetíveis a crises e ao aumento da desigualdade. No caso brasileiro, algumas especificidades, de 2013 para cá, reforçam a “onda conservadora” que chegou ao poder: crise e descrença na representação política; deflagração de escândalos de corrupção no âmbito da Operação Lava-Jato e a crise econômica que tem afetado grande parte da sociedade brasileira com baixo crescimento do Produto Interno Bruto e elevado desemprego. No bojo das transformações e fragmentações que consolidaram a Globalização, é possível constatar a ascensão retórica de representações que remontam a “origens”, “raízes” e “puritanismo” culturais, alicerçadas na radicalização de concepções nacionalistas, étnicas, religiosas, e que seriam responsáveis por resgatar a “ordem” e a “prosperidade”, em uma perspectiva ilusória e saudosista do passado.

Apropriar-se dos símbolos nacionais, por grupos identificados como de “extrema-direita”, é um mecanismo amplamente usado em diversos países e faz parte de uma estratégia elaborada de confundir Estado e Nação com uma ideologia, um político e um partido específicos. Traje nacional, a camiseta da seleção simbolizou no passado que aqueles que a vestem angariam todo o complexo de atributos positivos associados à nação brasileira, uma vestimenta ritual que afirma de modo inequívoco o pertencimento daquele que a veste aos ‘nossos’ valores. Uma das marcas dessas candidaturas consideradas de extrema-direita e de movimentos políticos conservadores globalmente é, discursivamente, se intitular como legítima dona dos símbolos pátrios, como parte de uma estratégia sofisticada, pois permite uma suposta divisão da população entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro. Não à toa, um dos slogans da campanha vitoriosa de Bolsonaro foi “Meu partido é o Brasil”, que também estava presente em uma faixa vista nas manifestações de junho de 2013.

Portanto a camisa amarela da seleção brasileira, que teve um papel decisivo na formação do que é “ser brasileiro” ao longo do século XX, não ia ficar de fora dessa disputa política, já que possui forte apelo sentimental. Só que pela primeira vez na nossa história recente, a camisa perdeu o seu poder agregador, virou algo restrito a um nicho, que gera cada vez mais repulsa, como indicam as pesquisas de opinião.

E isso diz muito sobre nosso futuro, sobre a ausência de horizontes. Porque a camisa representava a ideia de termos um destino comum. Podia aparentemente se mostrar de forma clara somente a cada 4 anos, mas ela estava lá, sendo a camisa a prova concreta. Um destino comum de vencer, de ser grande e feliz. Injusto, racista e desigual, o Brasil não mudaria da água para o vinho da noite para o dia. Mas, ainda que com contradições e lacunas, atrasos e pessoas deixadas para trás, um projeto de país surgia. Não à toa, em 2010 o Brasil estava na lista dos países mais felizes do mundo [10].

Isso foi comprometido. Em 2019, que projeto em comum nos move harmonicamente? O que temos de consenso? A “Amarelinha” poderia não ter uma unanimidade totalizante, mas era elemento consensual. Se antes gerava identificação, agora pode gerar rejeição caso você não seja “Bolsominion”.

Como a história se repete e ciclos de luzes e obscurantismo se intercalam, a pergunta que fica é: se, no futuro, uma outra onda conservadora, moralista e nacionalista capenga se instaurar no Brasil, a camisa amarela da seleção estará novamente desempenhando o mesmo papel de agora? Esse vai ser o significado dominante da “amarelinha”, já que cada vez mais a seleção não empolga? [11] Alguns não querem pagar para ver tanto é que os jornalistas João Carlos Assumpção e Juca Kfouri sugerem até uma campanha para mudar a camisa principal da seleção [12].

 

Referências

[1] Reprovação ao governo Bolsonaro vai a 50%, aponta XP/Ipespe; 57% veem economia no caminho errado. Info Money , São Paulo. 20 de junho de 2019. Disponível em: https://www.infomoney.com.br

[2] HURT, J. O Brasil: um Estado-nação a ser construído. O papel dos símbolos nacionais, do império à república MANA 18(3): 471-509, 2012

[3] DAMO, A. A Magia Da Seleção. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, vol. 28, núm. 1, setembro, 2006, pp. 73-90

[4] MOSTARO, F. F. R. A Seleção Brasileira como propaganda do Governo. Getúlio em 1938 e os militares em 1970. Trabalho apresentado no DT 1 – Jornalismo do XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste realizado de 13 a 15 de maio de 2010

[5] ALVITO, Marcos. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização. Análise Social. Lisboa, n. 179, p. 451-474, 2006.

[6] PINTO, C. A trajetória discursiva das Manifestações de Rua no Brasil (2013-2015). Lua Nova, v. 100, 2017.

[7] “Pró-Impeachment, Avenida Paulista tem clima de festa da Copa”. Revista Epoca, São Paulo, 16 de abril .Disponível em: https://epoca.globo.com> Acesso em 2 de outubro de 2019

[8] “Com desfile político, Tuiuti se torna assunto mais comentado na internet”. Correio Braziliense, Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2018. Acesso em 14 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br

[9] MOSTARO, F. F. R.; FONTENELLE, C. “Patriota” ou “Manifestoche”: a camisa da seleção brasileira e sua reapropriação nas narrativas políticas”. Trabalho apresentado no GT 4 durante o XV Poscom PUC-Rio, de 6 a 9 de novembro de 2018.

[10] LÖWY, M. Conservatism and far-right forces in Europe and Brazil. Tradução de Deni Alfaro Rubbo e Marcelo Netto Rodrigues. Serv. Soc. Soc.  n. 124. São Paulo out./dez. 2015

[11]HELAL, R; SOARES, A. O Declínio da Pátria de Chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br

[12] Campanha para mudar a camisa da seleção. Blog do Juca Kfouri – UOL. São Paulo, 14 de maio de 2020. Disponível em: https://blogdojuca.uol.com.br