Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo oitavo episódio do Passes e Impasses

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O tema do nosso vigésimo oitavo episódio é “Os 30 anos do livro O que é sociologia do esporte”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Fausto Amaro, recebemos Ronaldo Helal, autor da obra, coordenador do LEME e professor da UERJ.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo sexto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Brasil, mostra tua cara“, composta por George Israel, Nilo Romero e Cazuza.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Leticia Quadros e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Convidado: Ronaldo Helal

Artigos

Relembrando a primeira Copa do Brasil

Ricardo Teixeira e as Federações Estaduais

Depois do polêmico Campeonato Brasileiro de 1987, consolidou-se a ideia de que a primeira divisão do futebol nacional deveria ter apenas 20 participantes (ou pouco mais do que isso). A CBF e os grandes clubes concordavam também que era preciso adotar o sistema de ascenso e descenso entre divisões. Assim surgiu o que hoje é a Série A. A própria CBF chegou a promover, um tanto constrangida, algumas viradas de mesa depois, mas aquela ideia básica permaneceu inabalável e acabou se impondo definitivamente após o ano 2000.

Para a maioria das Federações filiadas à CBF, a situação se mostrou dramática. Os seus campeonatos estaduais perderam o maior atrativo: não classificavam mais os campeões (e os vice-campeões, em alguns casos) para a grande disputa nacional. Qual seria a importância desses campeonatos, então? Apenas a tradição? Muitos temiam que aquelas antigas competições caíssem em decadência rápida e fulminante.

Os clubes menores também se viram em situação crítica. Quase todos entenderam que passariam vários anos tentando subir para a primeira divisão. Seriam anos de desprestígio, de jogos sem importância, de arquibancadas vazias, poucas rendas e apequenamento ainda maior. A falência talvez fosse inevitável em muitos casos.

Tudo isso foi resolvido (amenizado, pelo menos) com a criação da Copa do Brasil. Ricardo Teixeira assumiu a presidência da CBF em de 16 janeiro de 1989. No dia seguinte, as Federações estaduais apresentaram a proposta da nova competição, que seria disputada por 22 campeões estaduais e 10 vice-campeões. Proposta aceita rapidamente: o novo torneio foi anunciado oficialmente sete dias depois. Naquele mesmo ano, foi realizada a primeira Copa do Brasil. Todos sabiam, obviamente, que Ricardo Teixeira era muito grato às Federações estaduais pelo apoio que recebeu durante o processo eleitoral (um processo concluído com a sua vitória por aclamação).

O que mais impressionou foi a decisão de garantir ao campeão da Copa do Brasil a indicação para a disputa da Taça Libertadores da América. Na época, o Brasil só indicava dois clubes para aquela competição (o campeão e o vice-campeão do Campeonato Brasileiro). Era uma mudança radical: antes condenados a lutar arduamente pelo difícil acesso à primeira divisão nacional, agora os clubes pequenos e médios tinham diante de si um atalho para a principal competição da América do Sul.

19 de julho: o início

Apenas cinco Estados não tinham representantes na primeira Copa do Brasil. Os cinco ainda não haviam profissionalizado o seu futebol e eram da região Norte: Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins. Os outros 22 Estados inscreveram os seus campeões. Os 10 Estados que tiveram maior renda nos campeonatos estaduais de 1988 puderam inscrever também os seus vice-campeões.

As disputas eram eliminatórias. Havia confrontos diretos de duas partidas entre dois clubes. Assim eram eliminados na primeira fase 16 clubes, depois oito, quatro, dois e, por fim, havia a decisão. Foi adotado como critério de desempate nessas disputas eliminatórias o gol qualificado (gol no campo do adversário), que não era desconhecido do futebol brasileiro, pois já havia sido utilizado na Taça Libertadores da América.

A primeira rodada da fase inicial foi marcada para o dia 19 de julho. Todos os clubes participantes jogaram naquela data. Dezesseis partidas espalhadas pelo território nacional.

Houve surpresas. Em Manaus, o Rio Negro empatou com o Vasco da Gama por 1 a 1. O Internacional, jogando em Porto Alegre, empatou com o CSA em zero a zero. O Cruzeiro empatou com o Botafogo da Paraíba jogando em Belo Horizonte (zero a zero). O Corinthians, campeão paulista de 1988, foi a São Luís do Maranhão e perdeu para o Sampaio Corrêa, campeão maranhense, por 3 a 2. Mas todos esses grandes clubes conseguiram se classificar para a fase seguinte.

Classificação sofrida foi a do Cruzeiro, que empatou duas vezes com os botafoguenses paraibanos, mas passou à fase seguinte por ter marcado um gol em João Pessoa, isto é, classificou-se pelo critério do gol qualificado. O Corinthians se classificou pelo mesmo critério: após perder por 3 a 2 na capital do Maranhão, venceu em São Paulo por 1 a 0.

O surpreendente Goiás

Um time que surpreendeu foi o Goiás. Após superar, na primeira fase, o Ferroviário (do Ceará) com duas vitórias, o clube goianiense enfrentou dois gigantes do futebol nacional: o Internacional e o Atlético Mineiro

Contra os gaúchos, o Goiás empatou a primeira partida em 0 a 0 na cidade de Porto Alegre. Depois, venceu de modo arrasador. O placar final da segunda partida, no Estádio Serra Dourada, foi uma goleada de 4 a 0 com gols de Josué, Uidemar, Túlio e Péricles. Túlio, aliás, seria o jogador com mais gols marcados no Campeonato Brasileiro daquele ano de 1989, disputado de setembro a dezembro.

Na terceira fase, contra o Atlético Mineiro, o Goiás jogou a primeira partida em Goiânia e, mais uma vez, venceu com vantagem folgada: 3 a 0. O Atlético venceu a segunda partida, mas apenas por 2 a 0. Assim, o Goiás chegou à semifinal da competição cercado de respeito e como favorito para chegar à final. Mais ainda: a campanha do Goiás ajudou a derrubar a previsão de vitórias fáceis dos grandes clubes do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Logo ficou claro que, durante a Copa do Brasil, alguns clubes médios e pequenos se esforçariam ao máximo para surpreender. E alguns realmente surpreenderam. 

Sport x Guarani: coincidência

Um dos duelos da segunda fase foi entre Sport Recife e Guarani. Era a mesma partida que, para a CBF, havia sido a decisão oficial do Campeonato Brasileiro de 1987 (e que até hoje ainda é motivo de discussão). E o interessante é que os resultados foram exatamente os mesmos da decisão de dois anos antes. Em Campinas, houve empate em 1 a 1. Três dias depois, em Recife, o Sport venceu por 1 a 0.

A imprensa não comentou a coincidência. A crise em torno do Campeonato Brasileiro de 1987 repercutiu muito no ano de 1988, mas em 1989 o assunto esfriou. O Flamengo protestou por não ter podido participar da Taça Libertadores da América de 1988, mas contentou-se com o apoio da Rede Globo, que o tratava como o legítimo campeão brasileiro repetidas vezes. O Sport Recife, por sua vez, não discutia mais o assunto porque estava satisfeito: havia participado da Libertadores e era reconhecido oficialmente pela CBF como o campeão de 1987. Para a CBF, o imbroglio desmoralizava a sua imagem e era melhor evitar a polêmica. E como todos haviam se desinteressado de discutir o tema, a imprensa também se desinteressou.

Talvez uma disputa entre Flamengo e Sport Recife (que poderia acontecer na final da competição) pudesse recrudescer os ânimos e reavivar a polêmica naquele ano de 1989.

Flamengo x Corinthians: um jogo emocionante

Um dos jogos mais emocionantes daquela primeira Copa do Brasil (talvez o mais emocionante) foi a segunda partida entre Corinthians e Flamengo na terceira fase da competição.

Na primeira partida, realizada no Estádio do Maracanã, o Flamengo foi muito superior e venceu por 2 a 0 (gols de Zico e Nando). Uma semana depois, os dois times se enfrentaram no Estádio do Pacaembu.

O Corinthians marcou o primeiro gol, mas ainda no primeiro tempo o Flamengo empatou, com um gol de Zico. Os corinthianos, então, precisavam chegar ao placar de 4 a 1 para se classificarem. E chegaram. Foram três gols no segundo tempo: um de Giba, outro de Eduardo e o último de Neto, aos 39 minutos. A torcida foi ao delírio e a classificação já era dada como certa. Mas eis que o flamenguista Júnior, três minutos após o gol de Neto, recebe passe perfeito na grande área do time adversário e marca mais um gol. A torcida corinthiana, emudecida, viu os jogadores do Flamengo comemorarem eufóricos o gol salvador. Com o resultado final de 4 a 2, o Flamengo passou à semifinal.

Quem criticava a Copa do Brasil dizia que aquele seria um torneio de importância menor no futebol brasileiro. Uma competição cheia de times com nível técnico inferior e fadada a fracassar e a desaparecer em poucos anos. Não percebiam que as disputas eliminatórias em dois jogos (o sistema que é chamado de mata-mata) muitas vezes se convertiam em disputas com enorme carga de emoção, atraindo o interesse da torcida, da imprensa e dos patrocinadores. Aquele jogo entre Flamengo e Corinthians já mostrava que esse poderia ser o maior mérito da competição.

Júnior comemora o gol da classificação do Flamengo contra o Corinthians nas quartas-de-final (fonte: copadobrasil1989.blogspot.com)

Goleadas do Grêmio

O Grêmio se destacou por castigar três dos seus adversários com goleadas. Na primeira fase, os gremistas derrotaram o Ibiraçu, campeão do Espírito Santo, duas vezes: 1 a 0 na primeira partida (realizada na cidade de Cariacica) e 6 a 0 na segunda partida (em seu próprio Estádio, o famoso Olímpico). Na segunda fase, o clube gaúcho foi a Cuiabá e aplicou outra goleada: 5 a 0 no Mixto, o campeão mato-grossense. A segunda partida nem aconteceu. A diretoria do Mixto alegou que estava com dificuldade para se deslocar, por transporte aéreo, até a cidade de Porto Alegre. A CBF declarou o Grêmio vencedor por WO.

Na terceira fase, não houve goleada. Mas o Grêmio passou com certa facilidade pelo Bahia, que havia se sagrado campeão brasileiro seis meses antes. Os gremistas venceram em Salvador por 2 a 0 e em Porto Alegre por 1 a 0. Assim, o clube gaúcho chegou à semifinal com 15 gols marcados e nenhum sofrido (seis vitórias, incluindo o WO, e nenhum empate ou derrota).  

Foi na semifinal que o Grêmio impôs a goleada mais impressionante. A primeira partida contra o Flamengo, no Estádio do Maracanã, começou com o clube carioca fazendo 2 a 0, mas terminou empatada em 2 a 2. Jogo disputado. A expectativa era a de que seria assim também no Rio Grande do Sul. Mas aconteceu o que ninguém esperava: vitória gremista por 6 a 1. “Grêmio massacra Fla”, informou a Folha de São Paulo. “Flamengo sai humilhado do Olímpico”, noticiou o Jornal dos Sports.

Com sete vitórias em oito jogos, nenhuma derrota e uma goleada sobre um dos maiores clubes do país, o Grêmio chegou à decisão na condição de favorito, obviamente.

Na outra semifinal, Sport e Goiás se equilibraram: 2 a 1 para os goianos em Goiânia e 1 a 0 para os pernambucanos em Recife. O clube recifense se classificou pelo critério do gol qualificado. A decisão não realizada de 1987 (Sport X Flamengo) quase aconteceu em 1989, o que certamente provocaria novos debates sobre a grande crise de dois anos antes. Os gremistas, porém, não deixaram. Estavam interessados em escrever outra história naquela Copa do Brasil.

Assis, do Grêmio, vibra após marcar o primeiro gol da final contra o Sport
(fonte: pelotadetrapoblog.wordpress.com/)

A final

Apesar do favoritismo gremista, o Sport não podia ser menosprezado. Estava há quase um ano sem sofrer derrota em seu estádio. O Grêmio, por outro lado, tinha melhor retrospecto (em nove partidas contra o adversário recifense, havia vencido cinco e empatado quatro). E estava muito claro o que aconteceria naquela primeira partida da decisão: o Sport partiria ao ataque em busca de uma vitória para poder jogar em condições vantajosas sete dias depois, no Estádio Olímpico.

Foi exatamente assim. Principalmente no segundo tempo. O Grêmio, porém, soube se defender como queria o seu técnico, Cláudio Duarte. O resultado final foi zero a zero

No dia 2 de setembro de 1989, Grêmio e Sport Recife entraram em campo, no Estádio Olímpico, para decidir a primeira Copa do Brasil. O público era de 62.807 torcedores. Um número muito animador. Havia, de fato, um assunto futebolístico mais importante naquele fim de semana. Era o jogo entre Brasil e Chile, no dia seguinte, pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1990 (caso fosse derrotado, a seleção brasileira estaria fora da Copa pela primeira vez na história). Mas era inegável a importância daquela final, que definiria o primeiro clube brasileiro classificado para a Taça Libertadores da América do ano seguinte. A Rede Globo transmitiu o jogo para todo o país.

Quando o primeiro tempo terminou, o placar era 1 a 1 e favorecia o Sport, que seria o campeão (pelo critério do gol qualificado), caso o resultado final fosse aquele. Por isso, o gol de Cuca, aos 7 minutos do segundo tempo, entrou para a história do Grêmio. Foi o gol da vitória, relembrada e comemorada pelos gremistas até hoje. O Grêmio participaria da Taça Libertadores da América pela quarta vez em sua história no ano de 1990. Em Recife, os jornalistas esportivos criticavam o ataque do Sport por não conseguir sufocar a defesa do Grêmio, mas ressaltavam que o clube pernambucano havia sido um finalista valente, não uma presa fácil.

A Copa e as críticas

Zico, o ídolo flamenguista, fez duras críticas à Copa do Brasil naquele ano de 1989. O presidente do Flamengo, Gilberto Cardoso, também criticou. O jogador disse que a competição era deficitária e que havia sido criada para “pagar” o que Ricardo Teixeira devia às Federações estaduais.

Zico chegou a dizer que o Vasco da Gama havia forçado a sua desclassificação diante do Vitória (vice-campeão baiano) para poder disputar um outro torneio, o Ramón de Carranza (Espanha), que era mais rentável. Mas negou ter chamado a Copa do Brasil de torneio “caça-níqueis”. Declaração muito grave: afirmar que um clube havia forçado a própria desclassificação, ou seja, se deixado vencer. Ricardo Teixeira reagiu dizendo que as acusações eram injustas, que os países da Europa realizavam copas semelhantes e que a competição havia sido criada com o intuito único de promover a integração futebolística das cinco regiões do país (poucos acreditaram nessa última afirmação). Em razão de suas declarações, Zico foi julgado pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, que o absolveu por nove votos a um.

As críticas à Copa do Brasil continuaram e a situação piorava quando a CBF tomava decisões desastradas, como a de marcar para junho o início da competição em 1990, ou seja, iniciá-la com a Copa do Mundo sendo disputada na Itália. Mas a competição já havia demonstrado seus méritos em 1989 e oferecia um prêmio que não podia ser menosprezado: a classificação para a Taça Libertadores da América. A revista Placar, em junho de 1990, foi certeira: “Apesar das reclamações, os clubes sabem que a Copa do Brasil vale muito”.

Ao longo da década de 1990, a Copa do Brasil se remodelou. O número de clubes inscritos começou a crescer em 1995 (a pressão para aumentar o número de participantes revelava um interesse cada vez maior na competição). Dez anos depois da primeira Copa do Brasil, não havia mais dúvidas: a competição havia ganhado prestígio e se consolidado. “Pode não ser a competição com o melhor nível técnico do país, mas ao se deparar com a campanha dos quatro semifinalistas de 1999, uma coisa é certa: nada supera a Copa do Brasil em emoção” (Placar, jun.1999). Emoção conhecida desde 1989 e que continuava a atrair os torcedores e a imprensa.

Havia tanto interesse em participar da Copa do Brasil que no ano 2000 surgiu a proposta de transformá-la em um grande torneio com 200 inscritos (um modelo inspirado na Copa da Inglaterra, que tem mais de 500 clubes inscritos). A ideia sofreu um bombardeio de críticas e foi abandonada. Mas o número de participantes, alguns anos depois, foi aumentado e chegou a 91 (esse é o número atual de clubes inscritos).

Em 2019, uma pesquisa da Sport Track mostrou que, entre os brasileiros, o apreço pela Copa do Brasil só perde para o Campeonato Brasileiro e para a Taça Libertadores da América. Está à frente de competições importantes, como a Champions League (UEFA) e o Mundial de Clubes da FIFA.

E tudo começou naquela criticada Copa do Brasil de 1989.

Quais campeonatos de futebol você prefere? (fonte: Pesquisa – Sport Track, 2019)
Artigos

LEME e Ludopédio organizam mesa no Cinefoot

Na noite do dia 23 de novembro, o Laboratório de Estudos em Mídia e esporte e o portal Ludopédio estarão presentes na organização da mesa “Maracanã 70 anos de histórias”, promovida pelo festival Cinefoot. A décima primeira edição da mostra teve início no dia no dia 20 de novembro e termina no dia 27 do mesmo mês.

A proposta da mesa na qual o LEME fará parte é resgatar momentos pouco conhecidos e memórias não contadas do “Maior do Mundo” e da TV no Brasil. Assim, a mesa tem mais do que o compromisso de apenas relembrar as famosas histórias e grandes craques que pisaram no gramado do Maracanã que todos já conhecem.

Para encarar essa missão, estarão presentes Leda Maria, ex-jogadora da seleção brasileira; Julio Cesar “Uri Geller”, ex-jogador do Flamengo; Marcelo Carvalho, do Observatório da discriminação racial no futebol e Bruno Balacó, pesquisador da Rede Nordestina de Estudos em Mídia e Esporte (ReNEme). A mediação ficará por conta de Marco Lourenço, do Ludopédio.

A mesa terá início às 19h e a transmissão será online e poderá ser acessada através do Facebook do Ludopédio ou no canal do Youtube do mesmo portal. Com a promessa de levar histórias inéditas ao público, o encontro com esses craques está imperdível! Além da mesa de hoje, ao longo do evento serão apresentadas sete mesas redondas e a programação completa pode ser conferida no site do Cinefoot.

Artigos

O Futebol e “O Psicológico”

Por Laura Quadros e Leticia Quadros

Que atire a primeira pedra quem, no meio do esporte, nunca falou do “Psicológico” de algum atleta ou de algum time: “A equipe tem de controlar seu Psicológico”; “Fulano tem o Psicológico forte”… São apenas dois exemplos, de vários, que trazem essa referência em forma de entidade, como se fosse um ser independente, e que às vezes parece ter vontade própria. Mas afinal, quem é o tal “O Psicológico”?

De uma maneira bem simples, talvez a primeira coisa que venha à cabeça é que o Psicológico é o que atua na nossa mente, nosso poder de concentração, foco, pensamentos e até sensações. Há também a ideia dele ser uma expressão emocional, muitas vezes algo à parte, independente do jogador e seu universo mais imediato. Se nos voltarmos para a visão mais clássica, o predomínio da dicotomia razão-emoção, indivíduo-sociedade, natureza-cultura traz alguns equívocos na compreensão dessa misteriosa atuação do tal psicológico em nossas vidas.

Recentemente, o atacante do Fluminense Caio Paulista deu uma entrevista depois do jogo contra o Atlético Mineiro, no qual marcou seu primeiro gol como profissional, mencionando o trabalho da psicóloga do clube, Emily Gonçalves. Seguem as palavras de Caio:

“Foi a psicóloga do clube que conversou bastante comigo. Falou para mim durante a noite pensar no gol, pensar na jogada, respirar a cada movimento no jogo. Hoje acho que foi muito disso”.

Nessa fala espontânea e entusiasmada, percebemos que, provavelmente, há uma relação de confiança entre o jogador e a profissional que o acompanha no clube. Talvez, mais do que a ideia de pensar no gol, esteja ali envolvida uma gama de bons afetos que produzem um vínculo acolhedor entre esse atleta e a psicóloga do Fluminense, que procura acionar as potências nessa difícil tarefa que é a busca pela vitória.

Então, a questão que levantamos é: existe esse psicológico fora de uma relação? Se o atacante do Fluminense não acreditasse no processo com a psicóloga do clube, se ele não confiasse no trabalho que se dá no campo (e aqui não nos referimos ao campo de jogo, mas ao campo relacional), será que bastaria ele imaginar, que o gol iria sair? Não estamos aqui descartando, é claro, o trabalho feito nos treinos físicos e táticos, mas, se apenas pensar no gol fosse suficiente, qualquer um poderia fazê-lo, não é? Estamos, menos ainda, desqualificando qualquer recurso técnico utilizado pela psicóloga de acordo com as abordagens oriundas de estudos e pesquisas nessa área. O que estamos querendo colocar é que, para além do próprio esforço do atleta, a confiança na relação profissional, a aposta no trabalho com a psicóloga foram pontos chave para que ele ganhasse confiança. Seria ilusório dizer que o gol saiu exclusivamente pela técnica de mentalização aplicada, assim como seria leviano descartá-la totalmente do mérito no gol.

Sabemos que poucos times da séria A do Brasileirão contam com uma/um profissional de psicologia em seu plantel. Em 2019, apenas 8 clubes, entre os 20, dispunham desse trabalho. Sabemos também a enorme pressão que um atleta sofre dentro e fora de campo. Nesse sentido, a ideia de uma mente “forte” ou “fraca” constitui-se em um reducionismo, visto que são múltiplos os fatores que atravessam esse campo (sem trocadilhos) e afetam o rendimento dos atletas. Aliado a isso, mesmo em pleno século XXI, ainda há um preconceito muito grande, e não apenas no esporte, com a atuação da psicologia. Não é raro que ela seja considerada somente em situações extremas ou de adoecimento instalado.

A importância do reconhecimento da psicologia pelos clubes de futebol pode legitimar a noção de que o trabalho não deve se dar só em partes, mas sim privilegiar um todo. Isso inclui treinamentos táticos, físicos, nutrição, fisiologia, interação social, família, torcida, remuneração, bom ambiente de trabalho, enfim, toda vivência que afeta a vida do atleta e que acontece de forma integrada e não dicotomizada. Portanto, mais que um simples elogio, a declaração de Caio traz a público a força de um trabalho diário de afirmação de potências, de acolhimento aos temores, de desenvolvimento de recursos e, sobretudo, de reconhecimento de si mesmo em relação ao mundo.

Assim, o tal psicológico acontece num campo de forças coletivas e não sozinho como, às vezes, parece ser. Vimos, por exemplo, excelentes atletas perderem um pênalti, bem como jovens estreantes acertarem de primeira. Podemos atribuir apenas ao psicológico? Podemos excluir fatores como condicionamento físico, treinamento, vontade de bater, salários em dia, questões familiares, questões políticas, dentre outros?

Fonte: Wikipedia

Acreditamos que, nesse contexto, colocar na conta do psicológico o que não conseguimos discutir de forma ampla pode ser tanto uma injustiça, quanto uma estratégia de invisibilizar outros problemas mais indigestos.  Antes de culpar “o psicológico”, que tal dar uma olhadinha no que está em volta? Antes de criticar o psicológico do seu time, que tal procurar saber se, de fato, há um profissional da psicologia atuando no seu clube?

Se o psicológico fosse uma entidade autônoma, coitado dele! Viver sendo cobrado, enquanto a verdadeira cobrança por um trabalho sério da psicologia é sempre jogada para escanteio e esquecida pela imprensa, comissão técnica, torcida, atletas… A questão do futebol e o psicológico não é um embate entre duas entidades, mas sim uma aproximação de áreas que devem dialogar como um todo. Afinal, retomando nossa indagação inicial, o psicológico se constitui numa rede de relações que inclui pessoas, objetos, procedimentos, enfim, processos de vida que acontecem num movimento incessante. Destacar uma parte e tomá-la como todo empobrece a questão.  Afinal, como no futebol, um jogador, isoladamente, não ganha um jogo. É preciso trocar passes e manter a bola rolando para o melhor resultado. Parafraseando o poeta João Cabral de Melo Neto, “Um galo sozinho não tece uma manhã”. Então, vamos deixar o tal psicológico vestir a camisa do time e integrar a equipe. Quem sabe assim o jogo não fica mais interessante?

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo sétimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo sétimo episódio é “O legado dos Jogos Olímpicos Rio/2016”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos Vivian Fonseca, doutora em História, Política e Bens Culturais pela Fundação Getúlio Vargas – RJ e professora adjunta na UERJ e na FGV.

Fonte: Rio On Watch

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo sexto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Aquele abraço“, composta por Gilberto Gil e interpretada por Luiz Melodia.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Portal Memória Olímpica – Fundação Casa de Rui Barbosa

Rio Olímpico: legado dos Jogos – Instituto PACs

Obras do Gilmar Mascarenhas

Memória das Olimpíadas no Brasil – diálogos e olhares – volumes 1 e 2

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Marina Mantuano, Carol Fontenelle e Fausto Amaro
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidada: Vivian Fonseca

Artigos

“Aqui nasceu o Vasco!” Centro Cultural Cândido José de Araújo

Por GT de Pesquisa Histórica do Centro Cultural Cândido José de Araújo

Em meio a pandemia que afeta a todo o Planeta, afastando torcedores das arquibancadas, o vascaíno encontrou uma forma de atuar diretamente em prol de seu clube mesmo sem comparecer aos jogos. Em mais uma ação que ultrapassa a esfera esportiva, a torcida vascaína volta a escrever a história com suas próprias mãos e ainda presenteia a nossa cidade maravilhosa com mais um importante espaço de cultura.

Trata-se da revitalização do espaço da fundação do Club de Regatas Vasco da Gama, ocorrida no dia 21 de agosto de 1898, no imóvel localizado à época na Rua da Saúde nº 293 (atualmente Rua Sacadura Cabral nº 345). Por muito anos acreditou-se que a fundação teria ocorrido em outro local, mais exatamente na sede da Sociedade Dramática Particular Filhos de Talma, situada na Rua do Propósito, nº 12 (atual nº 20) onde, por duas vezes, o aniversário do clube foi lá celebrado, em que pese o equívoco histórico.

O primeiro passo para desfazer esse erro foi dado pelo pesquisador Henrique Hübner.  Ainda em 2013, ele pesquisou e revelou o verdadeiro local da fundação do clube através de uma série de consultas aos jornais, livros e plantas da época disponibilizados pela Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional; registros do 1.º Registro de Imóveis;  croquis e plantas da Superintendência Municipal de Urbanismo; bem como o acervo fotográfico do Arquivo Público da Cidade do Rio de Janeiro.

Em 2015, o Vasco publica a sua Ata de Fundação com o verdadeiro endereço. Unindo-se perfeitamente a ata de fundação às pesquisas realizadas, foi colocado o ponto final ao mistério da fundação do Clube. A divulgação da pesquisa no site Memória Vascaína do citado pesquisador, foram de fundamental importância para que a informação passasse a circular entre os vascaínos.

Mas foi somente no ano de 2020 que um passo decisivo foi dado para a retomada desse espaço pela tradição vascaína. Ao verificar que o imóvel da Rua Sacadura Cabral número 345 estava disponível para locação, o grupo “Guardiões da Colina” entrou em ação para promover a recuperação do local, alugando o imóvel por 5 meses com opção de compra ao final de contrato. O início do trabalho de revitalização contou com a fundamental ajuda de outros torcedores, entre eles os membros do grupo “Raízes Vascaínas” e diversos empresários e lojistas do ramo da construção, que passaram a doar materiais e serviços diversos. Arquitetos e designers se prontificaram a desenvolver projetos para a “nova” sede que ali surgia. Somaram-se ao projeto historiadores, geógrafos, pesquisadores e estudiosos no geral para contribuírem com suas pesquisas e produzirem conteúdo sobre o local e seu entorno.

O Centro Cultural Cândido José de Araújo nascia assim, batizado através de votação popular realizada pelo twitter. Candinho, como era conhecido por sócios e adeptos do clube, foi eleito no ano de 1904 e reeleito em 1905, após ser recordista em indicações para novos sócios do clube em 1903. Além disso, foi o primeiro presidente negro de um clube do Rio de Janeiro e até onde se tem conhecimento, de qualquer instituição esportiva do país.

O simbolismo em ter o nome associado a um homem negro no local é imenso, uma vez que o imóvel está situado no local conhecido como a “Pequena África do Rio de Janeiro”, localidade onde centenas de milhares de escravizados trazidos do continente africano desembarcaram e se fixaram. Mesmo após a abolição da escravatura em 1888, a “Pequena África” seguiu como moradia de milhares de afro-brasileiros que, junto a imigrantes Portugueses pobres que também habitavam a região, encontravam o sustento através do trabalho em feiras livres ou como empregados do comércio voltado para o Porto do Rio.

Toda essa história aumenta a responsabilidade daqueles que pretendem construir o Centro Cultural. É importante dizer que, mesmo sendo uma casa vascaína com conteúdo focado num Vasco nascido do congraçamento entre brasileiros e portugueses, foi criado um espaço aberto para todos aqueles que se interessem pela história da cidade e do esporte carioca. E é isso que o Centro Cultural Cândido José de Araújo busca: Construir um espaço de visitação com exposições fixas e temporárias que vão recontar a gênese do clube, desde os fatos mais marcantes da vida vascaína, tais como a participação de seus grandes ídolos, ou relembrando as camisas históricas e símbolos que tanto apaixonam o torcedor, até diálogos do clube com a cidade e com trabalhos acadêmicos. Um espaço para todos que desejam aprender a mais nobre história de um clube voltado inicialmente para o remo, o futebol, o esporte, a cidade e sua memória social. Um espaço de vascaínos, para os vascaínos e para a cidade.

Sendo assim, convidamos os vascaínos e todos os amantes do futebol a conhecer o espaço a partir do dia 31 de Outubro, com limite de capacidade devido às medidas de combate ao COVID-19. Para aqueles que não podem ir até o local, faremos um tour virtual, com previsão de lançamento na semana seguinte a inauguração do Centro Cultural. Para mais informações, nos sigam no twitter e instagram @aquinasceuvasco!

Fonte: Acervo dos autores
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Zagallo, o coadjuvante revolucionário

As efemérides deram o tom das últimas semanas no mundo do futebol. Inúmeras foram as homenagens prestadas àqueles que, para além das discussões estritamente técnicas que ganharam força desde a consolidação de Lionel Messi, seguem indubitavelmente como as duas maiores forças simbólicas a terem adentrado o campo de jogo: Pelé, que em 23 de outubro chegou aos oitenta anos, e Diego Armando Maradona, com seus seis decênios completados uma semana depois. Eternizadas numa época em que o esporte ainda era mais propício ao âmbito polissêmico da crônica literária do que à estatística pormenorizada em tempo real, suas trajetórias – e os modos de perpetuação que a comunicação de então permitia – parecem impossíveis de serem superadas. Ora, o brasileiro tinha o mundo aos seus pés já aos dezessete anos, quando, após uma final de Copa do Mundo em que marcou dois gols antológicos (o primeiro, com o famoso chapéu sobre o marcador, é decerto mais lembrado, mas a jogada do último tento da partida, conjugando uma soberana matada de bola no peito, um passe de calcanhar, a inteligente movimentação e a cabeçada fatal, é digna de nota), fez descer da tribuna do Estádio Råsunda o rei Gustavo Adolfo VI, da derrotada anfitriã Suécia, em busca de cumprimentos. Setenta anos após a abolição oficial da escravatura no Brasil, mal que perdurou formalmente por mais de três séculos pelas bandas de cá, a face que nosso país projetava para o planeta era enfim a de um jovem negro convertido em majestade. Quanto ao hermano, responsável maior pelo segundo título mundial argentino, as cenas do confronto contra a Inglaterra pelas quartas-de-final de 1986, quatro anos após o revés infligido pelos britânicos na Guerra das Malvinas, tornaram-se mesmo emblema político: em menos de cinco minutos, o visceral Pibe nos legava não apenas La Mano de Dios ­– o mais polêmico dos lances –, mas também El Gol del Siglo – a mais celebrada dentre todas as jogadas individuais. Por uma espécie de capricho, quis o destino que aquele Argentina x Inglaterra tivesse lugar no mesmíssimo Estádio Azteca que, em 1970, converteu-se no cenário para a coroação definitiva de Pelé após a conquista do tricampeonato.         

De Pelé e Maradona, é difícil imaginar algum feito que ainda não tenha sido registrado e minuciosamente analisado. Não por acaso, é a tensão entre os dois que, ao menos desde os anos 80, estrutura o universo futebolístico como uma espécie de mito cosmogônico, a fornecer ao todo sua própria sustentação e sentido. No entanto, gravitam ao redor destas figuras centrais alguns coadjuvantes de luxo que, embora não lhes possam fazer frente em termos de fundamentos (ao fim e ao cabo, quantos poderiam?), compõem o rol de desbravadores que revolucionaram o esporte em sua dimensão tática. Suas conquistas, porquanto mais discretas e sutis, nem sempre são festejadas com o entusiasmo que merecem – ou o são tão somente após sua morte. Nas próximas linhas, tentaremos lançar luz sobre um nome que atuou como fio condutor de alterações fundamentais para que o futebol viesse a se configurar como o entendemos hoje: Mário Jorge Lobo Zagallo.   

Fonte: pinterest.com

Comecemos por uma verdade paradigmática: em 1958 e 1962, Zagallo foi simplesmente o responsável pelo surgimento do 4-3-3 ao longo da campanha do bicampeonato mundial brasileiro. Mas, afinal, que elementos permitem que tal afirmação possa ser feita com tamanha segurança? Ocorre que, apesar de atuar como ponta-esquerda, função hoje extinta, ele também ajudava a compor o meio de campo, auxiliando o lendário botafoguense Nilton Santos na marcação quando necessário. Zagallo revezava, pois, entre duas funções – com e sem a bola –, e este trabalho incansável, prestimoso e em seu tempo inédito lhe rendeu o apelido de Formiguinha. Exemplo radical: na estreia contra a Áustria, com vitória do escrete por 3 x 0, o segundo gol, anotado pela Enciclopédia Nilton Santos, ganhou notoriedade pelo fato de um lateral, como ele o era, ter avançado contra a retaguarda adversária numa época em que a posição era estritamente defensiva. Tal postura parecia levar a termo flagrantemente uma tática kamikaze, já que a consequência de uma possível perda da posse de bola seria a exposição de todo um flanco do campo para o contra-ataque rival. No entanto, Nilton Santos não subiu à toa: Zagallo o cobria. Ali, ampliavam-se horizontes e possibilidades do jogo: o ponta ficava, o lateral avançava – em outras palavras, o responsável tradicional pela ofensiva defendia para que o até então defensor agredisse, surpreendendo a todos. “Enquanto o Vicente Feola [técnico brasileiro] gritava ‘Volta, volta!’ [para o Nilton], eu falava ‘Vai! Pode ir que eu tô cobrindo!’”. Alternando entre ponta e meia, Zagallo transitava pelo dobro da distância habitual de seus concorrentes. Sendo assim, ao retornar para a metade da cancha, seu movimento liberava o dito apoio de Nilton Santos – além do nada modesto trio Garrincha, Didi e Pelé. Ah, e é claro: de quebra, ele marcou um dos gols da final contra a Suécia – o quarto dos 5 x 2 que nos conduziu ao apogeu pela primeira vez.

Ademais, na campanha do tri, a quintessência do futebol desfilou no México sob seu comando. Em 1970, Zagallo entrou para a história como o técnico da seleção mais refinada e equilibrada já formada. Foi ele o mentor de um time que tinha simultaneamente Gérson, Jairzinho, Rivellino, Tostão e Pelé no gramado enquanto titulares. Na decisão contra a Itália, seu trabalho foi arrematado com o tento coletivo mais bonito de todas as Copas. E como aquele lance de cinema explica mais um brilhantismo tático? Antes de Zagallo, a Seleção fora treinada por João Saldanha, que adotava o 4-2-4 como sistema de jogo. Com o novo técnico, o Brasil passou a defender no 4-5-1. Este 1 era Tostão, que, apesar de jogar mais avançado no novo esquema, recuava se preciso fosse – compromisso para que a escalação de tantos gênios no meio funcionasse. Assim fez o atacante aos 41min do segundo tempo daquela final, quando pressionou o adversário e recuperou a posse de bola em nosso campo de defesa. De Tostão para Piazza, de Piazza para Clodoaldo, rápida triangulação com Pelé e Gérson, até que a pelota retorna a Clodoaldo. Tem início a mágica – quatro dribles desmoralizantes trazem o Azteca abaixo. Passe para Rivellino. Lembremos: Clodoaldo e Riva eram o mais das vezes reservas de Marco Antonio e Paulo Cézar Caju com Saldanha. Zagallo fez com que Rivellino compusesse o setor esquerdo sem a bola, de modo que Everaldo, o lateral do mesmo lado, não subisse. As investidas ofensivas ficavam a cargo de Carlos Alberto pela direita – o autor do gol –, aproveitando as infiltrações diagonais do ponta à sua frente, Jairzinho, o Furacão da Copa. Contudo, reparem em qualquer replay deste gol: é justamente Jairzinho quem recebe a pelota de Rivellino, mas desta vez pela canhota. O que o ponta-direita lá fazia? O treinamento de Zagallo explica: Jair era marcado individualmente naquela tarde por Giacinto Facchetti, icônico capitão da Azzurri; ao surgir do outro lado do relvado, o brasileiro puxou a marcação do italiano e o deslocou por completo, liberando um enorme corredor na direita para o avanço do Capita. Quando Pelé recebe na intermediária, com aquele 10 pertencente ao terreno do imemorial às costas, a zaga europeia já estava vendida há muito sem o saber. Seu olhar confirma num átimo a carreira de Carlos Alberto, que recebe o passe pitoresco da Majestade. Quem respira os ares do futebol sabe que aquele misto de displicência e imponência de Pelé continha uma mensagem inequívoca e incontestável: “Faz”. Como se irritado por não ter participado da trama até li, o acaso entrou em cena para reivindicar ao menos algum papel auxiliar: foi o quique que antecedeu e propiciou a finalização perfeita, um cruzado inapelável na veia. Os protagonistas, contudo, têm nome, dentre os quais fulgura o de Zagallo: de Clodoaldo e Riva, titulares na campanha imbatível no México, à inversão de Jairzinho a fim de criar espaços no lado oposto para Carlos Alberto, passando pela centralidade de Pelé, o Velho Lobo esteve presente. Multicampeão. Gigante. Histórico. Cinco finais em sete Copas disputadas (52 e 68 como jogador, 70 como técnico, 94 e 98 como assistente), com quatro delas na prateleira. Para a felicidade geral da nação, tiveram de engolir. Que, em seus 90 anos pela proa, tenhamos a oportunidade de transmitir devidamente às novas gerações, tão afeitas ao esquecimento, o tamanho deste legado esportivo.

Fonte: medium.com

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Pretos fora d’água. Por que ainda temos poucos nadadores negros no Brasil?

Uma reportagem do programa Esporte Espetacular, de Winne Fernandes, Renata Heilborn e Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 27 de setembro de 2020, mostra porque ainda existem poucos negros na natação no Brasil. Além da dificuldade de acesso à piscina, que historicamente restringiu o direito dos negros de entrar nos clubes do país até a década de 1950 e o custo alto de construção e manutenção desse equipamento, que raramente é localizado nas periferias, existem mitos que há muito tempo são reproduzidos, como o de que o biotipo dos negros não é adequado ao esporte.

Como nadador federado nas categorias de base, e atualmente como amador, escutei afirmações e perguntas como: os ossos dos negros são mais pesados, negro não flutua, negro sabe nadar? E sempre me perguntei se elas realmente tinham algum embasamento científico. De acordo com a reportagem, um estudo do Departamento de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP) revela que tais afirmações vêm da desinformação e do preconceito. A pesquisa analisou as características físicas de todos os recordistas mundiais da prova dos 100 metros livres e comparou com os padrões corporais de pessoas negras e brancas: na média, a densidade corporal da população negra é superior à densidade corporal da população branca (1% a mais), mas esse não é um fator determinante de sucesso em uma prova de natação. Entre os sete aspectos mais importantes para um nadador, que são: quantidade de fibras musculares de contração rápida, quantidade de enzimas anaeróbias, comprimentos corporais, capacidade de salto vertical, capacidade de flutuação, percentual de massa magra e centro de massa corpórea, os negros levam vantagem em cinco. Ou seja, se todas as outras variáveis além do aspecto biológico fossem equilibradas, como acesso aos mesmos treinos, equipamentos e piscinas, os nadadores negros teriam mais probabilidade de vencer as provas de natação.

Outro aspecto relevante é a clara falta de representação de negros no esporte, mesmo que a população negra corresponda a 56,1%[1] do total, no país. Segundo a reportagem, desde a primeira Olimpíada que o Brasil participou, em 1920, tivemos apenas 10 nadadores negros. Menos de 6% do total de atletas em 100 anos. O primeiro negro brasileiro a conquistar uma medalha olímpica foi o atleta Edvaldo Valério, na Olímpiada de Sidney, em 2000 (bronze no revezamento 4×100 livre), e a primeira nadadora negra a nos representar em uma Olimpíada foi Etiene Medeiros, no Rio, em 2016. Em relação a questões ligadas à autoafirmação, como o cabelo, o esporte também afasta principalmente as mulheres negras, que gastam até seis vezes mais com tratamentos capilares do que outras mulheres. Segundo Seren Jones, jornalista da BBC, ex-nadadora e uma das fundadoras da Black Swimming Association: “O cloro estraga esse investimento em prol da aparência, que às vezes pode impactar no sucesso profissional”. No meu caso, lembro bem como foi difícil encontrar uma touca ou uma solução para manter meu cabelo preso durante a prática da modalidade, quando tive dreads.

Fonte: Edvaldo Valério – Foto: Satiro Sodré/SSPress

A desigualdade de acesso às piscinas, equipamento e aulas de natação ajuda a manter uma estatística cruel. De acordo com a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (SOBRASA), 67% dos óbitos por afogamentos no país são de pessoas negras. Porém, mesmo com números, fatos históricos e comprovações científicas, esse tipo de reportagem ainda causa desconforto na população brasileira. Comentários no próprio site do GE, onde a matéria foi publicada, acusam os jornalistas de tentarem aumentar o “confronto de raças”, de fazerem uma matéria “lacradora” para chamar atenção, vitimismo dos atletas negros e levantam a questão sobre a supremacia dos negros nos esportes como atletismo e basquete.

Para Bourdieu (1990), há um sentido prático e um sentido social na prática esportiva. No primeiro caso trata-se de examinar quem pode (ou consegue) praticar um determinado esporte. Já no sentido social diz respeito aos valores atribuídos coletivamente a um esporte e, por conseguinte, a seus praticantes (FORTES apud BOURDIEU, 2011).

Portanto, ideias que ainda pairam no esporte, de uma maneira geral, de que existe “esporte para preto ou branco”, para mulher ou para homem, para “jovem ou para velho” não devem ser naturalizadas. Elas estão no imaginário coletivo e foram construídas ao longo do tempo, por isso o papel das mídias nessa desconstrução é essencial. Esse determinismo desencoraja gerações e futuros talentos do esporte e poderia ter nos privado de conhecer as irmãs Williams, no tênis, Tiger Woods, no golfe, ou Lewis Hamilton, na Fórmula 1, só para citar alguns poucos exemplos.

Referências

FERNANDES,Winne; HEILBORN, Renata; COURREGE, Marcelo. Entenda a dura realidade da natação, que historicamente afasta negros das piscinas. Globo Esporte.com. Acesso em: 11 out. 2020

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.


[1] Piauí. Disponível em <https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/&gt; Acesso em: 12 de out. 2020

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Garrincha

É uma postura altiva. Garrincha está parado. Pernas eretas e afastadas uma da outra. Braços um pouco inclinados para trás. Tronco do corpo sutilmente projetado para frente para facilitar o momento exato em que a inércia momentânea será quebrada.

É, sem dúvida alguma, uma posição de ataque.  De enfrentamento. De quem, em algum momento incerto, vai dar o bote certeiro.

O adversário sabe disso. Ainda que não imagine em que microssegundo para frente isso acontecerá. Ainda que não saiba qual dos milhares de botes possíveis o outro vai escolher.

Indeciso, pois, o tal adversário se posiciona de forma defensiva a cerca de um metro de distância. Será dele o dever de conter aquele homem, de dar o primeiro combate, enfim. Mas a mão direita levemente erguida para a frente, como que tateasse o nada em busca de algum tipo de amparo, o denuncia. O rival está titubeante. Não aparenta saber bem o que deverá fazer para conseguir parar o imparável.

A descrição da cena é retirada de um videoteipe em preto e branco. O jogo é entre Botafogo e Flamengo. E ainda que eu não tenha certeza absoluta, minha suspeita é a de que seja a final do Campeonato Carioca de 1962.

Se isso for mesmo verdade, o impacto é ainda maior.

Porque o desorientado, o tolo que não sabia o que fazer, não é outro senão Gerson. Ainda jovem, é bem verdade, mas aquele que viria a ser tricampeão do mundo em 1970.

Aliás, o próprio Gerson já deu inúmeras entrevistas falando daquele dia em que foi um dos “Joãos” de Garrincha, o que reforça minha suspeita.

Mas, isso não importa tanto aqui.

Fato mesmo é que estão, frente a frente, Garrinha e João – chamemo-lo assim, afinal.

Garrincha veste calção negro. Camisa do Botafogo listrada em preta e branca, de mangas compridas, número 7 às costas.

João veste uma camisa escura, que é difícil de distinguir os detalhes. O calção é branco.

Estão no Maracanã. Lado direito do campo de jogo. Na imagem dá para ver a linha lateral à direita e os limites da grande área numa diagonal à esquerda. Pouco mais atrás, um segundo defensor (Jordan, um dos maiores nomes da história flamenguista, acaso minhas suspeitas estiverem corretas).

Uma cena épica está prestes a acontecer.

Garrincha e João se olham de frente, mas não chegam a se encarar. Têm as visões meio abaixadas, mirando as pernas um do outro.

Próximo ao pé de Mané, a bola, alvo de desejo dos dois.

O repertório de Garrincha é incalculável. E a paralisia de João mostra o respeito que tem ao rival.

É uma cena comovente, até. Poética. Rara. Engraçada também.

Por alguns segundos, parece que o jogo está suspenso.

Garrincha está imóvel. Não toca na bola. Como que convidando o outro para avançar inadvertidamente.

João não avança. Aguarda. Teme, acima de tudo.

Se nada mais acontecesse, o jogo acabaria ali mesmo. Garrincha convidando, João vacilando. Até o apito final do árbitro.

Mas, a poesia acontece.

Garrincha dá um impulso para a direita, numa cena que lembraria uma largada de 100m rasos, não fosse o detalhe de que ele dá apenas um passo e retorna exatamente para onde estava.

João, na certeza absoluta de que a corrida era para valer, tenta acompanhar o adversário, e somente muito atabalhoadamente percebe o blefe e consegue retornar para onde estava.

O que torna a cena única, contudo, é que, nos segundos seguintes, Garrincha vai repetir exatamente o mesmo movimento mais duas vezes, e em ambas as oportunidades vai conseguir ludibriar o adversário da mesma forma que a primeira.

Dá para entender?

Seis segundos, três dribles idênticos e bem sucedidos em cima do mesmo marcador, zero vezes a bola incomodada.

Até que Garrincha se cansa da brincadeira.

A impressão é que ele poderia repetir o movimento quantas vezes quisesse e em todas elas João cairia no engodo.

Mas ele se cansa, toca a bola de lado, deixa João zonzo sem saber bem o que danado aconteceu.

Os tolos vão dizer, talvez, que o lance não é tudo isso, visto que não levou a nenhum resultado mais efetivo.

Mas esses são o que são: tolos.

O lance, muito pelo contrário, representa toda a essência, toda a habilidade, toda a irreverência, toda a genialidade do homem que esta semana completaria 87 anos se estivesse vivo.

Parabéns, Garrincha.

Fonte: YouTube
Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo sexto episódio do Passes & Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo sexto episódio é “Os 80 anos de Pelé”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos Diano Massarani, doutorando em Antropologia no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da UFF, e Nathan Barbosa, doutorando em História Social no Programa de Pós-graduação em História Social (PPGHS) da UERJ.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo sexto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Obrigado, Pelé“, escrita por Miguel Gustavo e interpretada pelo quarteto MPB4.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

O Rei Pelé [filme, 1962]

Pelé, o nascimento de uma lenda [filme, 2016]

Isto é Pelé [filme, 1974]

Pelé eterno [filme, 2004]

Pelé, o último show [filme, 2018]

Eficiência x jogo de cintura: Garrincha, Pelé, Nélson Rodrigues, cinema, futebol e construção da identidade nacional [Victor Andrade de Melo, capítulo do livro Memória social dos esportes]

Partidas da campanha da seleção brasileira na Copa de 1970

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Letícia Quadros, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Diano Albernaz Massarani e Nathan Pereira Barbosa.