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Palestra “Entre a Fúria e a Loucura” na FGV

Evento: Palestra
Data: Qua, 13/12/2017 – 14:00
Local: Fundação Getúlio Vargas, auditório 1027. Praia de Botafogo, 190 – Botafogo, Rio de Janeiro.
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Laboratório de Estudos do Esporte (LESP) da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC) convida para a palestra “Entre a Fúria e a Loucura: análise de duas formas de torcer pelo Botafogo de Futebol e Regatas” da professora Isabella Trindade Menezes (IFRJ – Faculdade de Educação Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro), doutoranda do CPDOC-FGV, seguida de debate com o torcedor Luiz Gustavo Noy, ex-presidente da Fúria Jovem do Botafogo, e com a antropóloga Rosana da Câmara Teixeira, do Departamento de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Um profundo trabalho de pesquisa que destrinchou as diferentes formas de torcer por um dos clubes mais tradicionais e vitoriosos do futebol brasileiro. Assim pode ser descrita a obra “Entre a Fúria e a Loucura: análise de duas formas de torcer pelo Botafogo de Futebol e Regatas”. Para falar sobre o estudo, a Escola de Ciências Sociais (FGV CPDOC) recebe a autora Isabella Trindade Menezes (IFRJ) no dia 13 de dezembro, às 14h, no auditório 1027 da Sede da FGV, no Rio de Janeiro (Praia de Botafogo, 190). O debate contará também com a participação de Luiz Gustavo Noy, ex-presidente da Fúria Jovem do Botafogo, e com a antropóloga Rosana da Câmara Teixeira, do Departamento de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Este trabalho se enquadra no campo dos estudos sobre futebol e as relações sociais presentes no campo esportivo, mais especificamente, a relação entre as diferentes representações acerca de ser torcedor do Botafogo de Futebol e Regatas. O recorte realizado para análise é o estudo de caso de duas torcidas: a torcida organizada “Fúria Jovem do Botafogo” e o movimento “Loucos pelo Botafogo”.

A abordagem do objeto de estudo tem como pressuposto uma análise multidisciplinar, a partir da análise das questões propostas a partir da interface com várias áreas do conhecimento: História, Ciências Sociais, Antropologia, Memória Social e os Estudos da Linguagem.

“Quando chegamos a um estádio de futebol, notamos, na arquibancada de qualquer time, uma divisão espacial entre os diferentes grupos que ali estão. Essa organização dos torcedores não tem nada de natural. Ela é produzida, apropriada e reapropriada em práticas cotidianas das torcidas. Ou seja, os indivíduos se agrupam de acordo com concepções e com sentidos de pertencimento relacionados ao que significa ser torcedor”, explica a autora.

Obs: A FGV não permite a entrada de pessoas com bermudas, regatas ou chinelos.

*Release de divulgação publicado originalmente em CPDOC/FGV.

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O Drama no (do) Futebol

A última rodada do Campeonato Brasileiro de 2017 demonstrou como é o drama vinculado à paixão clubística o que mais atrai e fascina os torcedores de times de futebol. Não se falou em futebol-arte, como não se falou nisso durante todo o campeonato. Não se falou em belas jogadas ou em gols espetaculares, ainda que eles tenham acontecido. O que ficou mesmo marcado na memória e nas narrativas da imprensa foi a dramatização dos gols ocorridos ao final de várias partidas.

O professor de Stanford, Hans Ulrich Gumbrecht, em um belo e importante livro, Elogio da Beleza Atlética, presume que o fascínio dos esportes estaria na beleza dos corpos em movimentos. Gumbrecht e eu já conversamos sobre o tema e eu ponderei sobre a dramatização do futebol e nos fortes vínculos dos torcedores com seus clubes. A partir daí, o cientista social disse que iria se debruçar sobre o drama no estádio, que hoje, em tempos de estádios mais elitistas e com capacidade de público reduzida, se estende para os bares e lares das cidades.

Poderíamos falar do drama do goleiro do Flamengo, alcunhado como “Muralha”. A solidão proporcionada pela posição do goleiro ficou estampada em sua face.  Mas foi sua solidão e seu drama particular que fizeram do jovem César um herói improvável nas duas partidas que disputou até agora neste fim de ano. O torcedor, com sua paixão muitas vezes indômita pelos seus clubes, é volúvel e dramático. O herói de hoje já foi o “frangueiro” de anos atrás. Os atletas profissionais vão escrevendo suas histórias a partir de suas atuações. E essa “escrita” é frequentemente permeada de dramatizações.

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Fonte: Globo Esporte

Nos minutos finais deste campeonato, o Vasco estava se classificando direto para a fase de grupo da Libertadores, Flamengo e Botafogo estavam na pré-Libertadores, e Chapecoense e Atlético Mineiro lutavam desesperadamente para conseguir uma destas vagas. Do outro lado da tabela, Coritiba, que jogava contra a Chapecoense, e Vitória, que enfrentava o Flamengo, lutavam para se manter na primeira divisão.

Um pênalti a favor do Flamengo no último minuto da partida gerou uma tensão em vários torcedores, não somente os que estavam nos estádios. A conversão do pênalti em gol resultou em uma entusiástica comemoração dos torcedores do Flamengo, a qual não tinha nada a ver com a beleza da cobrança. Era a passagem direta para a fase de grupos da Libertadores que se festejava naquele momento. A forma como se daria esse gol era o que menos importava nos instantes finais. Os torcedores do Vasco, que já se consideravam donos desta vaga, se entristeceram e os do Vitória foram da extrema tristeza, por terem acreditado que, com este gol, seu time estava rebaixado, a uma tremenda euforia com o anúncio do gol da Chapecoense contra o Coritiba, rebaixando este último e mantendo o Vitória na primeira divisão. Agora a Chapecoense estava na pré-Libertadores, vaga muito comemorada. Tristeza para os torcedores do Coritiba. E o gol do Atlético Mineiro contra o Grêmio no fim da partida tirou do Botafogo qualquer chance de ir para a competição internacional em 2018. Ao Atlético resta a esperança de, com um possível título do Flamengo na Sul-americana, se abra mais uma vaga para a Libertadores.

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Fonte: Tribuna PR

Em um esporte em que as paixões estão vinculadas aos clubes, a beleza dos corpos em movimentos, dos gols e das jogadas são secundarizadas diante da dramatização do resultado. No futebol, o fascínio está no drama. Sem ele, o torcedor se afastaria e teria um interesse muito menor.

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O desafio do silêncio

Em 2009 participei pela primeira vez do Play the Game, experiência que se repetiria por outras duas vezes.  Play the Game é uma conferência internacional que tem como objetivo fortalecer as fundações éticas do esporte e promover a democracia, transparência e a liberdade de expressão. Naquele ano, pela primeira vez, ouvi o jornalista britânico Andrew Jennings relatar suas experiências contra o “sistema”, sempre intentando revelar histórias de corrupção e abuso do Comitê Olímpico Internacional e outras federações esportivas. Já naquela época Jennings mantinha um olhar atento para o Brasil. Também tive a oportunidade de ouvir o jornalista Declan Hill, um dos primeiros jornalistas a apontar como o match-fixing (manipulação de resultados) estava se espalhando pelo mundo e ameaçava destruir as ligas esportivas.

De volta à conferência em 2011 pude presenciar o sensacional embate entre o então diretor de comunicação da Fifa, Walter De Gregorio, e Andre Jennings, em uma memorável sessão sobre corrupção; além de sérios debates sobre doping.

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Walter De Gregorio e Andre Jennings. Fonte: Play The Game.

Em 2013, o relato emocionado, e envergonhado, do ex-jogador de futebol Mario Čižmek vai ficar para sempre em minha memória, principalmente sobre a importância de ouvir diversos lados de uma mesma história. O croata, juntamente com outros oito colegas de time, vendeu o resultado de diversas partidas foi descoberto, preso e banido do esporte que dizia tanto amar. O que levou o jogador a manipular os resultados? Sobrevivência. O clube devia salários há quatorze meses, as contas se acumulavam e a família já não tinha o que comer.

Esse ano, infelizmente, não pude estar presente, mas acompanhando à distância as palavras iniciais de Jens Sejer Andersen, presidente do Play the Game,

“Silence, my ladies and gentlemen, silence, silence…

No, don’t get me wrong: I am not calling on you personally, I am just trying to summarize in one word what has been the biggest challenge for Play the Game to overcome when looking back on the past twenty years (…)”.

[Silêncio, senhoras e senhores, silêncio, silêncio…

Não, não me entenda mal: Não estou chamando a atenção de vocês, estou apenas tentando resumir em uma palavra qual tem sido o maior desafio que o Play the Game teve de superar nos últimos vinte anos (…)].

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Jens Sejer Andersen. Fonte: Play The Game.

O silêncio não é um desafio apenas à conferência, mas ao esporte como um todo, principalmente quando se trata de temas sensíveis, ou considerados tabus como doping, corrupção, superfaturamento em mega-eventos, discriminação, abuso sexual, etc.

O silêncio precisa ser rompido, e já passou do tempo desses temas serem endereçados.

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Mesa de Debate sobre Esporte e Cidade

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Tem início segunda-feira (27/11) o Seminário Nacional “Rio de Janeiro: uma cidade em perspectiva”, evento organizado pelo  Prof. Dr. André Nunes de Azevedo (UERJ). O seminário contará com uma mesa intitulada “Cidade e esportes”. Veja aqui o folder de divulgação e abaixo a programação do evento.

Local: Sala RAV 94, 9a Andar, UERJ – Maracanã.

Dia 27/11 (10h): Conferência de Abertura – Coordenação: Prof. Dra. Karoline Carula (UERJ/Universo)

Conferencista: Prof. Dr. Valdei Lopes de Araujo (UFOP)

Dia 28/11 (9h30): Mesa redonda – Cidade e literatura – Coordenação: Prof. Dra. Virgínia Camilotti (UNIMEP-Sorocaba)

Profa. Dra. Carmem Lucia Negreiros (UERJ/LET)

Prof. LD. Antônio Edmilson Rodrigues (UERJ/PUC-Rio)

Prof. Dr. Rodrigo Jorge Neves (USP/LET)

Dia 29/11 (10h): Mesa redonda – Cidade e esportes – Coordenação: Fausto Amaro (Doutorando do PPGCS/UERJ)

Prof. Dr. Bernardo Buarque de Hollanda (FGV-São Paulo)

Prof. Dr. Gilmar Mascarenhas (UERJ/GEO)

Prof. Dr. Ronaldo Helal (UERJ/FCS)

Dia 30/11 (10h): Mesa redonda – Cidade e imigração – Coordenação: Prof. Dr. Alexandre Belmonte (UERJ)

Profa. Dra. Érica Sarmiento (UERJ/Universo)

Profa. Dra. Lená Menezes (UERJ)

Profa. Dra. Sylvia Lenz (UEL)

Dia 01/12 (9h30): Mesa redonda – Cidade e relações de poder – Coordenação: Prof. Dra. Márcia Amantino (Universo)

Profa. Dra. Maria Emília Prado (UERJ)

Profa. Dra. Maria Fernanda Martins (UFJF)

Profa. Dra. Marieta Pinheiro Carvalho (Universo)

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A trama e os silêncios: Mídia, futebol e compadrio em negociatas

“Sempre leio primeiro a página de esportes, que registra os triunfos das pessoas. A primeira página não me diz nada além dos fracassos do homem”. A frase é de Earl Warren, político e ex-chefe da Justiça dos Estados Unidos. Contudo, nem sempre a seção de esportes trata de triunfos. Nos últimos dias, abriu espaço para, se assim podemos chamar, “fracassos do homem”. Suborno, corrupção, propina, delações, mortes. Poder. Uma trama que envolve dois setores de grande visibilidade e, por isso, muita influência na sociedade: as redes de televisão e o futebol.

Com o, no mínimo estranho, assassinato no último domingo, dia 19/11, do vice-presidente da Televisa, Adolfo Lagos, na Cidade do México, já são dois mortos entre os citados na delação de Alejandro Burzaco – executivo argentino que confessou participar de corrupção no futebol sul-americano, nos desdobramentos das investigações do escândalo da FIFA, revelado em 2015. Além dele, na terça-feira passada, o advogado Jorge Alejandro Delhon teria se jogado na frente de um trem, em Lanús, na Argentina. A polícia local fala em suicídio. As mortes aconteceram pouco depois das denúncias de Burzaco. Coincidência… Em depoimento no Tribunal Federal do Brooklyn, em Nova York, o ex-executivo da empresa “Torneos y Competencias” disse que pagou propina para diversos altos executivos da Confederação Sul-Americana de Futebol, a Conmebol. Nem só os cartolas foram envolvidos. Grupos de Televisão também foram citados e acusados de pagar propina a Julio Grondona, ex-presidente da Associacao de Futebol Argentino (AFA) e então membro do comitê financeiro da FIFA, na compra dos direitos de transmissão das Copas do Mundo de 2026 e 2030.

Alejandro Burzaco, responsável pelas delações chacoalhou o mundo dos negócios envolvendo futebol. Foto: La Nación.
Entre eles, a Rede Globo – principal grupo de comunicação do Brasil, detentor dos direitos de transmissão dos principais eventos esportivos – que, segundo a testemunha, juntamente com a Televisa, teriam pago US$ 15 milhões em propinas, em março de 2013, à Torneos y Competencias (TyC), empresa de marketing esportivo responsável por negociar a venda dos direitos de transmissão no continente. Este dinheiro teria sido repassado a Julio Grondona. A emissora brasileira noticiou o fato e negou as denúncias em seus telejornais, dizendo que não pagou propina e que fez investigação interna que comprova os valores dentro do que consta em contrato.

As investigações do “FIFA Gate” continuam. Um dos nomes citados, desde 2015, é o do presidente da CBF, Marco Polo Del Nero. Ele é acusado de três crimes nos EUA: conspiração, lavagem de dinheiro e fraude eletrônica. Isso por supostamente ter recebido propinas por contratos da CBF. Já é clássico e sabido: Del Nero não pode viajar para países onde os Estados Unidos têm acordo de extradição. Senão, é preso!

Por si só, são denúncias graves que a imprensa, a meu ver, deveria trazer mais em sua cobertura jornalística. Contudo, o número de reportagens dentro do noticiário sobre os crimes está aquém ainda. São poucas as vozes e tão frágeis em sua cobertura, que configura quase um silêncio da mídia. Não me recordo de assistir a uma incessante busca por respostas sobre a possível participação dos dirigentes brasileiros nessa conspiração envolvendo FIFA, confederações, meios de comunicação, dirigentes etc. E as denúncias sobre o possível pagamento de propina dos meios de comunicação jogam dúvidas sobre a real relação entre cartolas e empresas de comunicação.

Com a Seleção Brasileira bem em campo, com Tite como ídolo e “garoto propaganda”, frequente em anúncios publicitários, é cada vez mais escasso assistirmos ou lermos uma cobrança sobre a situação do dirigente. A CBF, assim, torna-se um retrato da política nacional atual: denúncias, provas, crimes e nenhuma punição. Imunidade.

O uso da Confederação Brasileira de Futebol para se levar vantagem em acordos é algo que nos leva a uma reflexão: Como interferir numa organização privada? Mas não é uma organização qualquer, é uma entidade de interesse público, já que ela é responsável por gerir um dos símbolos nacionais. É uma dúvida, confesso. Está tudo imbricado nessa relação público e privado no futebol brasileiro. Veja a “construção” da Copa de 2014: estádios, cidades, negociatas…

Com anuência de parte da mídia e da própria Fifa – que alegou documentação insuficiente para punir o dirigente, diante das acusações -, Del Nero tem o jogo nas mãos. Candidato único, foi eleito ainda em 2014, antes da Copa, com ampla maioria dos votos. Agora, segue a cartilha de Ricardo Teixeira e José Maria Marín para se perpetuar no poder. O compadrio de Federações, cartolas corruptíveis e clubes amedrontados, além de uma imprensa com o “rabo-preso” o mantêm no alto do posto.

Blatter oficialmente é carta fora do baralho, mas a  FIFA e o mundo dos negócios no futebol não mudaram. Foto: Marca.
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Balanço: Seminário Mulheres Esportivas

Se durante muito tempo as propagandas contribuíram imensamente para a manutenção e reforço, recentemente algumas têm investido na quebra de estereótipos relativos ao papel da mulher no universo esportivo. Em um recente comercial de carro, ao som da música “Heroes” de David Bowie, uma menina realiza o sonho de lutar Boxe, seguindo os passos do pai, Mohamed Ali. Em outra propaganda um rapaz representando um jogador da seleção brasileira entrega sua camisa a uma menininha, indicando que futebol não é coisa somente de homens, mas também é parte componente do imaginário e da vida de muitas mulheres, desde pequena.

A presença da mulher nos esportes é matéria que mereceu atenção de pesquisadores que nos últimos anos têm se debruçado sobre essa questão a partir de arcabouços teóricos diversos, vindos da Antropologia, Sociologia, História, Comunicação entre outros. E apesar de a produção ter se expandido bastante, sobretudo, no que se refere à presença das mulheres no universo do futebol, ainda há muito a ser dito, pesquisado e debatido. Em grande medida porque há muito que se conquistar em um ambiente que sempre foi um palco de exaltação de masculinidade no singular.  Isso implicou certamente no cerceamento da participação não somente da mulher, mas de masculinidades desviantes daquela considerada normativa cujo perfil era delineado a partir da das concepções de virilidade, brutalidade e violência.

A mulher, culturalmente concebida como “bela, maternal e feminina” – para fazer uso do título de um importante livro de Silvana Goelnner, demorou a poder participar de algumas práticas esportivas, sobretudo as consideradas mais brutas, como boxe e o futebol. Nos primeiros jogos Olímpicos Modernos, a participação feminina foi vetada e mesmo quando liberada, sua aceitação não foi plena como mostra o texto de Fausto Amaro, aqui publicado.[1]

Esse não reconhecimento e legitimação levaram diversos embates e um dos mais emblemáticos foi protagonizado pela atleta Alice Milliat que, em 1921, liderou a criação dos  I Jogos Femininos e da Federação Internacional Desportiva Feminina. No ano seguinte os jogos que também eram autodenominados de Olímpicos tiveram sua segunda edição sendo rebatizados de “Jogos Mundiais Femininos”. Como demonstra Katia Rubio[2] esses jogos forçaram a um acordo entre a Federação Internacional de Atletismo que se comprometeu a incluir, de modo completo, o programa de atletismo feminino proposto por Milliat.

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Legenda: Alice Milliat Fonte: Storie di Sport

No que diz respeito aos Jogos Olímpicos, a participação da mulher enquanto atleta tem aumentado, como se pode verificar no gráfico abaixo.

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Fonte: Firmino (2014, p. 18).

Porém, essa presença ainda é alvo de estranhamento, manifestações contrárias e preconceito, ainda notáveis, por exemplo, na representação midiática das atletas. Outro aspecto a ser considerado é a pouca ocupação da mulher em espaços representativos de Federações, como dirigentes esportivas, árbitras, torcedoras etc.

Além disso, em alguns esportes a presença das mulheres ainda se mostra problemática como é o caso do futebol brasileiro. O futebol feminino no Brasil ainda carece de uma estrutura esportiva que lhe sustente e dê possibilidade de atuação profissional às jogadoras. Poucos são os clubes que de fato investem na modalidade. No que se refere à seleção Brasileira, os recentes problemas envolvendo a demissão da treinadora Emly Lima, dão mostras do quão o futebol praticado por mulheres no Brasil é pouco levado a sério

Se no campo o panorama não é dos melhores, fora dele, assistimos a uma melhora, em termos quantitativos, da participação das mulheres no jornalismo esportivo. Seria muito bem-vinda uma ampliação do número de comentaristas e narradoras. Recentemente a rádio Independência se tornou a primeira a ter uma mulher narrando um jogo da série B. Isabelly Morais entrou para a história ao narrar a partida entre América-MG x ABC.  Nos EUA recentemente Beth Mowins foi a primeira a narrar uma partida da NFL em cadeia nacional. As críticas e manifestações contrárias foram muitas, algumas afirmando que se tratava de uma atividade que não podia ser ocupada por mulheres. Frases como “É horrível ver mulher narrando futebol” invadiram as redes sociais.

No Uruguai em ação de marketing promovida por uma empresa farmacêutica possibilitou que pela primeira vez uma equipe de mulheres narrasse um jogo da seleção celeste, durante as eliminatórias da Copa de 2018.

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Fonte: Blog dibradoras.

São conquistas recentes que dão mostras de que ainda há mais a ser feito e ainda é necessário debater e pesquisar a respeito da presença da mulher nos esportes. E pensando nisso, o Leme, em parceria com o PPGCOM e com o NEPPES, da UFF, organizou o Seminário Mulheres Esportivas. Mídia Memória e representação, realizado nos dias 06 e 07 de Novembro de 2017.

O Seminário reuniu pesquisadores de diversas partes do país que trabalham com temáticas variadas vinculadas à presença da mulher nos esportes em suas diversas esferas. A organização das mesas objetivou contemplar de modo panorâmico questões relativas à história das mulheres no esporte, a presença feminina nas arquibancadas e a prática do jornalismo esportivo.

A primeira mesa contou com a presença de Aira Bonfim (FGV), Mariane Pisani (USP), Pamella Lima (UERJ) e Leda Costa (UERJ). As falas foram perpassadas pela tentativa de mostrar parte do percurso das mulheres no futebol, tendo como fonte principal a representação na imprensa. As apresentações abarcaram um arco temporal que ia dos anos de 1940 até os dias atuais.

Aira Bonfim apresentou sua pesquisa, ainda em andamento, sobre alguns clubes de futebol feminino do subúrbio carioca que no ano de 1940 foram fortemente noticiadas por participarem de jogos, um dos quais realizado no Pacaembu na preliminar do jogo que inauguraria os refletores desse estádio. Aira fez um levantamento das matérias publicadas sobre essas equipes e tentará ao longo de sua pesquisa, reconstruir essas histórias indo em busca de informações a respeito de quem eram aquelas mulheres precursoras, seus clubes etc. Mariane Pisani fazendo uso de um viés antropológico nos mostrou relatos coletados entre jogadoras de futebol enfatizando o entrelaçamento das questões de gênero, raça e classe social como fatores que precisam ser considerados para, desse modo, se lançar uma perspectiva menos homogênea e mais problematizadora sobre a relação mulheres e futebol.

Leda Costa tentou mostrar que embora o papel da imprensa tenha sido problemático no que se refere a reiteração de estereótipos a respeito da participação das mulheres no futebol, é valido destacar que entre as décadas de 1970 e 1980, a imprensa teve participação importante no questionamento acerca da proibição do futebol feminino no Brasil. Esse questionamento foi tematizado nas páginas de veículos como Jornal do Brasil, O Globo e Jornal dos Sports. A discussão foi além das páginas esportivas adentrando o importante Caderno B, do Jornal do Brasil, o que é indicativo de que havia um diálogo entre a necessidade de liberação do futebol feminino com as reivindicações de igualdade de gênero da época.  Pamella Lima enfocou a representação da esposa de Suárez feita em alguns livros publicados sobre esse jogador cujas polêmicas vêm acompanhadas – e suavizadas – por declarações românticas direcionadas a mulher com quem namora desde a adolescência. Se por um lado Suárez tem sua face demoníaca criada a partir de suas constantes brigas e punições por conta de seu comportamento em campo, por outro, Suárez demonstra ser um indivíduo cujo equilíbrio e felicidade se fundam não nos milhares de dólares que ganha, mas sim em seu casamento.

No dia 07, duas mesas compuseram o Seminário. Tivemos a fala de Rosana da Câmara cujo trabalho sobre as torcidas jovens do Rio de Janeiro, ocupa lugar precursor nas pesquisas sobre o futebol. Rosana nos mostrou um pouco de seu trabalho e como se deu sua entrada no campo das torcidas organizadas, as dificuldades derivadas do fato de ser mulher e transitar em um ambiente tão marcadamente masculino. Já Gustavo Bandeira, pesquisador da UFRGS problematizou as falas de torcedores ouvidas durante pesquisa de campo no estádio do Grêmio. Nessas falas evidenciava-se, mesmo que de modo disfarçado, reações preconceituosas e ambíguas a respeito da presença da mulher no futebol. Trazendo um contexto fora do eixo Rio e São Paulo, a fala de Gustavo se mostrou muito interessante por se tratar de um pesquisador que costuma abordar os estádios como espaços em que se faz notar uma pedagogia masculina e heteronormativa. Afinal tratam-se de dois elementos diretamente vinculados a manifestações machistas que, por sua vez, sustentam os diversos problemas enfrentados por mulheres. Martin Curi fez uma apresentação demonstrando a “guerra dos sexos” presente no discurso de frequentadores de algumas mídias sociais que mobilizaram discussões em torno do desempenho das seleções femininas e masculinas de futebol, durante os Jogos Olímpicos de 2016. Por fim, contamos com a presença de Penélope Toledo, uma das líderes do Movimento Mulheres de Arquibancada que recentemente reuniu mais de 500 torcedoras no Museu do Futebol em São Paulo. As dificuldades de juntar, no mesmo local, diferentes torcedoras representantes de agrupamentos rivais e a importância dessa iniciativa são elementos que permearam a fala da convidada.

Por fim, na última mesa recebemos as jornalistas Martha Esteves e Carla Mattera que são personagens importantes da história das mulheres no jornalismo esportivo. As dificuldades e enfrentamentos por elas vividos foram narrados e compartilhados com uma plateia formada por alunos de dentro e de fora da UERJ, assim como de professores e pesquisadores da área.

É de se destacar a importância da realização desse evento na UERJ dando mostras de que essa instituição é local de produção e divulgação de conhecimento científico de excelência e aberto à participação pública. O evento mostrou-se relevante, também, por trazer à cena debates sobre um assunto atual que diz respeito à sociedade como um todo.

O Seminário foi válido para mostrar mais uma vez como o esporte pode ser veículo capaz de nos fazer refletir sobre questões que não lhes são exclusivas. Sendo assim, falar da mulher e sua presença no esporte é falar também do papel da mulher e de todos nós na sociedade.

Notas de fim

[1] As mulheres e os Jogos Olímpicos – alguns pontos para reflexão. Publicado dia 17/10/2017

[2] As identidades da atleta brasileira: os “pontos de apego temporários” da mulher na vida esportiva Disponível em : http://seer.ufrgs.br/Movimento/article/viewFile/21106/19072

Referências

Firmino, Carolina Bortoleto. “Sou atleta, sou mulher”: a representação feminina sob análise das modalidades mais noticiadas nas olimpíadas de Londres 2012. Dissertação de Conclusão (Mestrado em Comunicação Midiática) – FAAC – Unesp, sob orientação do prof. Dr. Mauro de Souza Ventura, Bauru, 2014. p. 18.

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LEME promove seminário sobre mulheres no esporte na próxima semana

Nos dias 6 e 7 de novembro, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte convida todos para participarem do seminário “Mulheres Esportivas: Mídia, Memória e Representação”. Pesquisadores e jornalistas, como a apresentadora e repórter Carol Barcellos, da TV Globo, estão confirmados para o evento no auditório do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, na UERJ, 10º andar, bloco F, sala 10.121.

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Programação:

– 2ª feira, dia 06/11 (14h às 17h)
Mesa-Redonda: Mulheres no esporte: história, memória e representação:
Aira Bonfim (FGV)
Mariane Pisani (USP)
Leda Costa (UERJ)
Pamella Lima (UERJ)
Mediação: Leda Costa

– 3ª feira, dia 07/11 (14h às 17h)
Mesa-Redonda: Mulheres nas arquibancadas concretas e virtuais:
Rosana da Câmara Teixeira (UFRJ)
Gustavo Bandeira (UFRGS)
Penélope Toledo (Coletivo Mídia, futebol e democracia)
Martin Curi (UFF)
Mediação: Fausto Amaro

– 3ª feira, dia 07/11 (17h30 às 20h30)
Carol Barcelos (TV Globo)
Carla Matera (Escola de Rádio)
Martha Esteves (jornalista esportiva e diretora de comunicação e marketing da ACERJ)
Mediação: Ronaldo Helal

Serão concedidos certificados aos estudantes presentes e não há necessidade de inscrição prévia. Não perca!