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Brasil olímpico, devemos estar satisfeitos?

O legado olímpico é uma pretensão do COI. Podemos pensar que forma parte de sua tarefa civilizadora tanto nos aspectos visíveis ou materiais quanto no dos invisíveis e especialmente incidentes no campo simbólico. Valoração do esporte e motivação para sua prática, valor da superação no campo do esporte, entre outros. Os primeiros são de fato de registro e avaliação bem mais fáceis que os segundos. Também poderíamos dizer que o legado afeta o contexto material, ao contexto simbólico e ao esporte nos seus aspectos internos e dinâmicos.

Um aspecto particularmente importante é como a realização da olimpíada afeta o país e cidade-sede em termos da dinâmica esportiva, ou seja, de seus possíveis impactos sobre a organização, a prática e os resultados do esporte do país-sede.

Realizaremos algumas observações sobre os países que entre 1996 e 2016 foram sede olímpica; alguns dos países líderes (Rússia e Alemanha) que não foram sede na série e um “país-teste”, depois explicaremos as razões de sua escolha, o Cazaquistão.

Os Estados Unidos apenas perderam o primeiro lugar, com 36 ouros e 110 totais, na olimpíada de Pequim em 2008. A delegação anfitriã ocupou a cabeça em medalhas, 51 ouros e 100 totais. Nas restantes competições os Estados Unidos continuam a ocupar o primeiro lugar em termos de medalhas, sendo que seu desempenho em Atlanta não é superior ao alcançado em Sidney, Londres ou Rio de Janeiro. Os dados parecem indicar que seus resultados independem de ser sede ou não e do país de realização. A China apresenta um crescimento significativo em Sidney e Atenas que culmina com seu grande desempenho em Pequim. Entretanto, seu desempenho cai em Londres e no Rio de Janeiro, como se o esforço realizado na direção de Pequim fosse perdendo forças. Nestas duas cidades, cede seu lugar para a Grã-Bretanha.

A Grã-Bretanha, ou o Reino Unido, tinha tido um desempenho muito fraco em 1996 em Atlanta, apenas um ouro e 15 medalhas no total. Já em Sidney, demostra estar em um caminho de superação com 11 ouros e 28 medalhas no total. Cresce ainda mais em Pequim, 19 e 47 medalhas e alcança o segundo lugar em Londres, apenas atrás dos Estados Unidos, com 29 ouros e 65 medalhas no total. O esforço realizado no campo esportivo parece ainda contar com força no Rio de Janeiro, onde obtém de novo o segundo lugar com 27 ouros e 67 medalhas no total, seguida pela China. Atlanta pareceria ter funcionado como um apelo para agir no esporte britânico, e suas participações posteriores indicam os acertos das decisões e realizações na prática.

A Rússia perde em Atenas o segundo lugar ocupado nas olimpíadas de Atlanta e Sidney, sendo deslocada pela China em Atenas, Pequim, Londres e Rio de Janeiro, e ainda é superada pela Grã Bretanha em Londres e no Rio de Janeiro. Deixa de ser o principal desafio para os Estados Unidos, e o declínio poderia explicar um aumento da vontade de se reposicionar a qualquer custo. Os castigos da proibição da participação por uso de drogas pode ter incidido na queda do desempenho no Rio de Janeiro (19 ouros e 56 medalhas totais).

A Alemanha parecia apresentar um declínio desde 1996 (20 ouros e 65 totais). Para para o Rio de Janeiro, final da série com 17 ouros e 42 totais. As participações de Sidney, Atenas, Pequim e Londres sempre foram inferiores às de Atlanta.

Vejamos comparativamente os desempenhos dos países antes e quando foram sede. Austrália passou de 9 ouros e 41 totais em Atlanta para 16 e 58 medalhas respectivamente. Os ganhos foram expressivos: quase duplicou em ouros e aumento de mais de 40% no número total de medalhas.

A China, por sua vez, aumentou fortemente o número de ouros 32 em Atenas e 51 em Pequim, mantendo constante o número total. Foi o aumento em ouros, superior a 50%, que a colocou na primeira posição. No total, os Estados Unidos obteveram 10 medalhas a mais que a China.

Com a Grã Bretanha, o aumento foi significativo em ouros, de 19 para 29, e no total, de 47 para 65 medalhas. O aumento em ouros foi superior a 50% e, no total, próximo de 40%.

Entre Atlanta e Londres, o desempenho do Brasil foi oscilante. Podemos considerar que a Olimpíada de Atenas com 5 ouros e 10 medalhas no total tenha sido seu ponto de destaque. Na China, caiu para 3 ouros e obteve, no total, 15 medalhas. Em Londres, apresentou um desempenho similar, 3 e 17 medalhas respectivamente.

Chegamos à Rio-2016. Se partimos da natureza e da população, tamanho e diversidade, o Brasil pareceria um país privilegiado para o desempenho esportivo. Sendo sede e tendo uma torcida vibrante a seu favor – por vezes com comportamentos vistos como impróprios por intensidade e de desrespeito pelos adversários -, deveria ter tido um desempenho superior ao obtido, 7 ouros e 19 medalhas no total? Em segundo lugar, qual foi, de fato, a incidência da torcida? Se a incidência fosse significativa, o Brasil não deveria ter tido um melhor desempenho?

Na Olimpíada em casa, o aumento em ouros foi significativo, de  três para sete. Contudo, o total se manteve próximo de Londres com 19 medalhas. Assim, o ganho não aparece como líquido e certo, e futuros debates se abrirão sobre o tema. Se compararmos as medalhas do Brasil quando sediou os Jogos com as obtidas pelos outros países-sedes, ficamos com a impressão de que nosso desempenho foi pobre ou, talvez, apenas melhorou um pouco a tendência (periclitante). Entretanto, não parece que o Brasil deu um pulo no desempenho.

Nos últimos 12 anos, o investimento público em esporte foi significativo. No plano político, com a criação de um Ministério dos Esportes, que elaborou diversos programas, tanto de infraestrutura quanto de apoio ao desenvolvimento dos atletas, o programa de bolsas para atletas cresceu significativamente, chegando em 2015 a um total próximo de 6000 bolsas. Como foi visto na saudação olímpica de vários atletas brasileiros (a continência militar), as forças armadas investiram para dar a um grupo de atletas condições de treino total. Há medalhas de ouro vinculadas às contratações do exército que, seria muito bom, se tornarem públicas. Há indícios, portanto, de uma política de investimento em infraestrutura e em apoio aos atletas. Os jornalistas, entre eles o decano Galvão Bueno, visto o exemplo da Grã-Bretanha, reclamaram por mais apoio sem, no entanto, realizar análises dos investimentos em infraestrutura e em recursos humanos. A avaliação do impacto dos investimentos e as características de sua utilização deverão ser matéria de estudos e avaliações. Os jornalistas deveriam desempenhar um papel de destaque na elucidação dos dados que permitam avaliações densas.

A inércia do pensamento Brasileiro afirma que, quando algum setor não funciona satisfazendo às demandas, notadamente nos casos de saúde e educação, a solução consensual é aumento dos recursos, dos investimentos, dos apoios. O fato de se gastar mal jamais é posto como razão suficiente.

Como provocação, se pede para que o leitor pense o desempenho do Cazaquistão e do Brasil comparativamente. Em Atenas, o Cazaquistão obteve o mesmo número de medalhas de ouro que o Brasil, ficando atrás por apenas 4 medalhas no total. Em Sidney se saiu melhor, com 3 medalhas de ouro. Em Atenas, o desempenho do Brasil foi superior, com 5 ouros e 10 medalhas no total contra 1 e 8, respectivamente. Em Pequim, a distância não se manteve com a mesma intensidade: aproximaram-se. O Brasil ganhou 3 de ouro e 15 no total e Cazaquistão, 2 e 13 respectivamente. Em Londres, o Cazaquistão conquistou o mesmo número de medalhas de ouro (sete) que o Brasil em 2016, e 15 no total, contra 17 do Brasil. O número de ouros se inverteu no Rio de janeiro ( 7 do Brasil e 3 do Cazaquistão, e, no total, 19 e 17 respectivamente).

Em conjunto, o desempenho do Brasil não parece muito superior ao do Cazaquistão, um país com pouco mais de 15 milhões de habitantes e uma densidade demográfica das menores do mundo. O Comitê Olímpico do Cazaquistão foi reconhecido em 1993 e a participação do país começou em 1996. Em Atlanta, o Cazaquistão teve um desempenho similar ao do Brasil. Qual é o segredo do Cazaquistão? O Brasil tem quase 100 anos de participação em Olimpíadas. Portanto, o que temos a apresentação der com os cazaques nos Jogos?

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Segundo o Ministério do Esporte, foram investidos no último ciclo olímpico, visando à Rio-2016, cerca de R$ 4 bi na preparação de atletas, estrutura de treinamento, contratação de profissionais e em programas como o Bolsa-atleta. O Brasil possui tradição em esportes coletivos, como o futebol, vôlei e vôlei de praia, que, no entanto, distribuem, em geral, apenas duas medalhas (uma para o masculino e outra para o feminino). Atletismo, esgrima, taekwondo e badminton são esportes que distribuem muitas medalhas nos Jogos Olímpicos, pela diversidade de provas e categorias. Talvez, a busca por uma melhor colocação no quadro de medalhas passe por um investimento mais direcionado a essas modalidades.
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PIRITA

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Acabaram-se os tão esperados eventos esportivos: A Copa do Mundo (que não é nossa, afinal de contas), e as Olimpíadas de Verão (que estranhamente aconteceram no inverno). O ano de 2016 pode, finalmente, começar. O saldo que tais eventos deixaram é imenso. Que o digam a “nossa” querida UERJ, que teve seu calendário acadêmico completamente adulterado por falta de verbas, salários, etc. Não é a exceção. Os casos de atraso de salários do funcionalismo público estadual (RJ) são graves. Educação e Saúde, campos (ou modalidades) menos valorizados, foram de longe os mais afetados. Mas tudo pelo “esforço olímpico”…  O que são dois ou três meses sem receber salário, não é mesmo?

O engraçado é que o povo não foi consultado se queria ou não estes eventos. O chanceler alemão, ao menos tinha a coragem de ir à praça pública e perguntar ao povo:

– Em que devemos investir? Manteiga ou Canhões?!

E o povo bradava: Canhõooes!

Enfim. Vejamos se o esforço foi bem recompensado. A Copa do Mundo é um fato a esquecer (de novo, um vexame ainda maior que 1950). O quadro de medalhas das Olimpíadas também não parece muito favorável:

Comparemos os desempenhos dos países-sede:

1988 (Seul) – Coréia do Sul 4º Lugar

1992 (Barcelona) – Espanha 6º Lugar

1996 (Atlanta) – Estados Unidos 1º Lugar

2000 (Sidney) – Austrália 4º Lugar

2004 (Atenas) – Grécia 15º

2008 (Pequim) – China 1º Lugar

2012 (Londres) – Grã Bretanha 3º Lugar

2014 (Rio de Janeiro) – Brasil 13º Lugar

Os números são claros: O desempenho do Brasil é pífio. Supera apenas a Grécia (que, não por acaso, veio se arrastando, economicamente desde que sediou as Olimpíadas e finalmente faliu, após anos agonizando).

Consideremos que países com população pequena estão nesta lista: Espanha, Grécia, Coréia do Sul, Austrália… todos com poucos habitantes, se comparados aos 200 milhões de brasileiros.

Mas falemos de coisas boas. Eu não gosto de Olimpíadas. Assisti, via televisão, a poucos eventos desta feita:

– A final dos 100 metros rasos masculino (Ulsain Bolt parecia se resguardando, poupando energia para os 30 metros finais).

– A final do futebol masculino (a inédita medalha de ouro no futebol para o Brasil. E sobre a Alemanha. Um sabor especial, ainda que suadinha, decidida na loteria das penalidades).

– A final do hóquei feminino entre Grã Bretanha e Holanda. (A Holanda, com duas medalhas de ouro seguidas, franca favorita após vencer as inglesas na final do Campeonato Europeu).

E a disputa que mais gostei de assistir foi a do hóquei. Há quem goste de ver luta greco-romana, UFC, MMA, e outras categorias de homens se agarrando. Eu particularmente prefiro ver as lindas cenas abaixo.

O jogo foi decidido no shoot-out (que lembro de ter visto no futebol algumas vezes. Bem mais interessante que o pênalti), e as inglesas (irlandesas, escocesas, galesas… Alguém tem que rever isso… pode participar com um combinado internacional? Se pode, montemos um time Brasil-Argentina-Uruguai e aí sim, disputaremos de igual para igual….) bom, as britânicas venceram por pouco. Minha predileção era pelas holandesas…

Faltou uma pitada acadêmica neste texto… eu sei. Sugiro o livrinho do Bourdieu:

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Para o futebol masculino, apenas o ouro serve

Escrevo este texto após a derrota da seleção brasileira feminina de futebol para a Suécia. Agora, o tão sonhado ouro olímpico já não pode ser conquistado pelas meninas. Porém, imprensa e torcida reagem a este revés com um misto de tristeza pela derrota e reconhecimento pelo esforço das atletas. O curioso é que esta é… Continuar lendo Para o futebol masculino, apenas o ouro serve

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“MARACANAZO E MINEIRATZEN: Imprensa e Representação da Seleção Brasileira nas Copas de 1950 e 2014”, livro de Francisco Brinati, será lançado nesta semana.

Na próxima quinta-feira, 18 de Agosto, será lançado o livro “MARACANAZO E MINEIRATZEN: Imprensa e Representação da Seleção Brasileira nas Copas de 1950 e 2014, de Francisco Brinati, pesquisador do Grupo de Pesquisa “Comunicação e Esporte”, do qual o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte faz parte. A derrota da seleção brasileira de futebol por… Continuar lendo “MARACANAZO E MINEIRATZEN: Imprensa e Representação da Seleção Brasileira nas Copas de 1950 e 2014”, livro de Francisco Brinati, será lançado nesta semana.

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A arquibancada é o lugar mais alto do podium na Rio-2016

A América do Sul, nos anos 1980 e 1990, sofreu os efeitos das mais cruéis mazelas sociais, políticas e econômicas. Os anos 2000 vieram, a desigualdade na região diminuiu significativamente – não ao ponto de estarmos satisfeitos-, mas avançamos o suficiente para entrar no mapa da confiança global e dos grandes eventos. O Brasil, por conta… Continuar lendo A arquibancada é o lugar mais alto do podium na Rio-2016

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Jogos Olímpicos e Heróis

As narrativas de vitória em torno de nossos atletas olímpicos diferem das de nossos ídolos futebolísticos. Quando falamos de heróis do futebol, geralmente sublinhamos o êxito por meio de atributos como “genialidade” e “malandragem”. E gostamos de acreditar que os craques “nascem prontos”. Neste imaginário construído, só nós sabemos “jogar bonito”. Quando os “outros” o… Continuar lendo Jogos Olímpicos e Heróis

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Os Jogos Olímpicos vêm aí, e aí?

Quando o Rio foi eleito sede dos Jogos de 2016, o país foi acometido por grande euforia. Naquele momento tínhamos um presidente relativamente popular e a economia ia muito bem obrigada. Não passou pela cabeça de ninguém, ou pelo menos da grande maioria, que sediar três mega-eventos – Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas… Continuar lendo Os Jogos Olímpicos vêm aí, e aí?

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