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A volta das torcidas e dos problemas: o assédio nos estádios de futebol

Reprodução: Internet

Com quem você vai ao estádio? Como você vai para o jogo? Como você volta para a casa? É seguro ir sozinha assistir a uma partida de futebol? O que deveria ser uma tarefa simples, ver o seu time jogar, pode se tornar extremamente complexa se você for mulher. As torcidas voltaram aos estádios e com elas, antigos problemas, como o assédio sexual.

Para esse retorno, as autoridades tiveram que formular o famoso “protocolo”: uso de máscara, distanciamento, vacinação e/ou teste de PCR negativo. Medidas muito bem elaboradas e pensadas durante semanas para, no caso das duas primeiras, serem escancaradamente desrespeitadas, surpreendendo um total de zero pessoas. O que também não é surpreendente é o fato de não terem pensado, durante a programação dessa volta, em medidas que evitassem ou minimizassem um velho problema do futebol: o assédio.

Colocar as torcidas de volta nos estádios também teve o seu lado político, afinal, quem ousaria ser o prefeito a ter prudência, esperar mais um pouco, e enfurecer milhares de pessoas? É mais fácil criar um protocolo – pessimamente fiscalizado, diga-se de passagem, vide imagens das torcidas aglomeradas e sem máscara – e fazer a alegria da galera e, é claro, de si próprio, pensando nas próximas eleições. Não existe almoço grátis. 

Isso não é novo na História. Leis pensadas apenas por um grupo de pessoas, atendem apenas a um grupo de pessoas. A falta de mulheres em espaços de comando dentro do futebol, e também nos governos, fazem com que questões que dizem respeito a nossa vivência não sejam levadas em conta. Mais uma vez, nada de novo sob o Sol, afinal, o futebol é um espaço para homens, não é mesmo (contém ironia)?!

No mês de novembro, durante três semanas seguidas o Mineirão registrou casos de assédio e importunação sexual. O primeiro caso foi denunciado dia 10, e só depois de mais dois registros, a Comissão de Mulheres da Câmara Municipal de Belo Horizonte (CMBH) aprovou uma visita técnica para apurar a denúncia, verificar o treinamento dos funcionários para esses casos e pensar em um projeto de acolhimento às vítimas no local. O clube disse que solidarizava com as vítimas e prometeu “agir para acabar com essa situação de desrespeito”. Bom, eu não vi nenhuma ação do Atlético Mineiro em prol do combate à violência contra às mulheres até agora. Vamos fazer aquele combinado, quem encontrar primeiro, avisa para o outro! Eu prometo que volto aqui, com o maior prazer, para falar de ações efetivas e se vocês virem algo antes disso, por favor me avisem!

É bom ressaltar que o problema não é o Mineirão. No Estádio Nilton Santos a bandeirinha Katiuscia Mendonça foi vítima de uma série de ofensas machistas pela torcida botafoguense. O clube formalizou um pedido de desculpas, assinado pelo presidente Durcesio Mello. Além disso, de acordo com os portais de notícias, o clube planeja a criação de um setor exclusivo para a torcida feminina no Engenhão para 2022 – iniciativa do Botafogo. Vamos acompanhar para ver se o projeto vai sair do papel. E caso isso ocorra (torçamos para que sim!) será uma grande oportunidade para as torcedoras irem ao estádio um pouco mais tranquilas e poderem se preocupar, apenas, com desempenho do time em campo.

Quem faz parte desse planejamento é o Diretor de Negócios Lênin Franco, que já participou do Passes & Impasses quando era Diretor de Marketing do Bahia, clube conhecido por estar atento às causas sociais e fazer ações efetivas para combater quaisquer tipos de violências. Esse setor feminino já existia, antes da pandemia, na Arena Fonte Nova, assim como um botão de pânico no aplicativo do clube um site “Me deixe torcer”, que está ativo e tem um botão escrito “faça seu relato”, para torcedoras contarem casos de assédio de futebol. O site ainda diz que a pesquisa ajudará o clube a buscar soluções junto às autoridades para combater o crime de assédio (um projeto, aliás, que deveria ser mais buscado pelos veículos de comunicação, para saber se, de fato, ocorre).

Estamos diante de um problema real, urgente e que, no futebol, se resume a meia dúzia de ações no dia da mulher. É gritante a falta de interesse dos clubes, dos governos e da CBF, sabendo que o esporte é um fenômeno social gigantesco, e do potencial que ações efetivas de combate à violência contra as mulheres pode ter. Todos buscaram rapidamente desenvolver um protocolo para a COVID, que está (mais ou menos) em dia, mas poucos mexem um dedo para pensar em projetos que visem o combate à violência contra a mulher. A experiência de ir ao estádio pode ser maravilhosa para você, mas pode ser extremamente violenta para outras pessoas. E isso não é só problema delas.

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Já está no ar o quadragésimo quinto episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo quinto episódio é a Copa do Mundo de 1934. Com apresentação de Filipe Mostaro e Abner Rey, gravamos remotamente com Eduardo Gomes, professor, doutor e mestre em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo quinto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Bella ciao”, uma canção popular italiana do início do século XX.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

A política e o esporte em Getúlio Vargas e Oliveira Salazar (1930-1945) – Maurício Drumond [livro]

Um Flamengo grande, um Brasil maior – Renato Soares Coutinho [livro]

A Invenção do Profissionalismo no Futebol: Tensões e Efeitos no Rio de Janeiro (1933-1941) e na Colômbia (1948-1954) – Eduardo Gomes [livro]

A construção da Nação Canarinho: Uma história institucional da seleção brasileira de futebol, 1914-1970 – Carlos Eduardo Barbosa Sarmento [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Abner Rey
Convidado: Eduardo Gomes

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Que venham mais finais às moscas; ou Viva o soccer business!

Reprodução: Irlan Simões

Meses atrás recebi do colega André Pugliesi, editor do site UmDois Esportes, um “áudio de ZAP” pra lá de caricatural. O autor reclamava com os interlocutores, dentro de um grupo de torcedores/sócios do mesmo clube, da baixa qualidade da discussão naquela seara, o que lhe obrigava a repensar a sua presença.

Nas palavras do lamentante locutor, ninguém ali entendia de business, nem de futebol, muito menos de soccer business. Era preciso que todos parassem para ouvi-lo com maior atenção, dada a sua posição de autoridade intelectual frente aos demais colegas – ou ele fatalmente se retiraria.

Poderia ser uma anedota a meramente se tornar piada interna ou chacota externa, mas é a caricatura perfeita de um tempo em que torcedores e sócios de clubes resolvem ser, eles mesmos, atores da depredação do pouco que anda restando de futebol nos tempos atuais. Os tempos em que esse tal de “business” investiga, acusa, julga e manda prender.

Eles estão por aí há um bom tempo. A turma que bate palma para anúncio de renda de jogo – após a prática de ingressos a preços desumanos -; que acha saudável fazer piada sobre o preço acessível do plano do sócio do clube rival – como se não fosse a sua própria torcida a vítima de uma política de associação desleal.

É a mesma gente que exaltou a proposta de “final única” da Conmebol para a Copa Libertadores e para a Copa Sulamericana, adotando por aqui o formato “consagrado” na geograficamente privilegiada, estruturalmente acessível, dignamente assalariada e futebolisticamente estrelada Europa.

Nem vale a pena retomar as problemáticas que renderam o vergonhoso cenário de um estádio às moscas em plena final da Sulamericana. Interessa mais – e é preciso que isso seja levado mais a sério – a capacidade de muitos em defender coisas inaceitáveis para, por prazer, sadismo ou orgulho, sentirem-se partícipes dessa farsa de soccer business evolution.

São várias escalas, é evidente, mas essas figuras se identificam com facilidade por um implacável fervor ideológico e por um irredutível senso de superioridade intelectual.

Na mentalidade deles, são aqueles lá de fora, os críticos obtusos, avessos “ao que há de mais moderno” os verdadeiros pesos mortos do futebol brasileiro.

(Quando na verdade é a nossa própria condição estrutural – que as bochechas-rosadas dos senhores teimam em não compreender – que joga contra essas ideias esdrúxulas.)

Os torcedores do Athletico, vítimas de toda essa presepada, ainda saíram de culpados por não lotarem o estádio da final – incapazes de se deslocar mais de 1500 km para um país alheio, com tempo de planejamento restrito a menos de 30 dias, em meio a uma crise econômica sem precedentes.

“Não há dúvida: quem defende a final única é contra o torcedor, não tem qualquer preocupação com os hábitos e a cultura da arquibancada e, portanto, não entende do que é feito o futebol sul-americano.”, publicou o sempre certeiro Douglas Ceconello.

Se o caso de defender essas coisas é o de inevitavelmente provocar debandada dos especialistas do “soccer business“, então é o que precisa ser feito: conscientizar o torcedor de arquibancada que essa turma não tem menor ideia do que está falando, só segue cartilha pronta e/ou advoga pelo próprio interesse político, financeiro e profissional.

Foi-se o tempo em que alguém podia se dar ao direito de se enganar com a solução mais milagrosa da última semana. Que a melancólica final vazia da Sulamericana seja, enfim, um ponto de retorno.

E que corram pra longe os mercadores das cloroquinas do futebol!

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Vaga de Monitoria na disciplina Comunicação e Cultura II

A Faculdade de Comunicação Social está com processo de seleção para bolsista de Monitoria na disciplina Comunicação e Cultura II.

Descrição da vaga:

– Suporte ao professor responsável pela disciplina;

– Auxílio na interface entre o professor e a turma;

– Elaboração de materiais de apoio à disciplina;

– Participação eventual nas atividades do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (editoração do blog Comunicação e Esporte, produção do podcast Passes e Impasses, publicações em redes sociais).

Requisitos:

– Ser estudante de Relações Públicas ou Jornalismo da UERJ;

– Já ter cursado à disciplina Comunicação e Cultura II;

– Bom aproveitamento na disciplina acima referida;

– Interesse por pesquisa e docência;

– Boa escrita;

– Proatividade;

– Boa relação para trabalho em equipe.

Benefício:

– Bolsa-auxílio: R$ 550,00

Para participar, envie seu currículo para lemeuerj@gmail.com com o seguinte assunto: PROCESSO SELETIVO – MONITORIA. Envie em anexo o seu currículo e histórico escolar da graduação.

As inscrições terminam às 18h de 23 de novembro de 2021.

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O futebol brasileiro não se resume ao Sudeste

Reprodução: internet

O Vasco da Gama estava em nono lugar do Campeonato Brasileiro da Série B, algumas rodadas atrás, quando o colunista de um portal de notícias dito nacional insistia em fazer contas sobre a possibilidade de acesso para a Série A.

Pior do que isso.

O Cruzeiro lutava contra o rebaixamento para a Série C, em certo momento da competição, mas ainda assim os debates também circulavam em torno das “chances remotas”, mas “ainda possíveis”, do clube engrenar uma sequência insana de vitórias para assim, quem sabe, a depender dos resultados de uma dezena de outros clubes, ascender para a primeira divisão nacional.

Como agora já se sabe, nenhum dos acessos se tornará realidade. Ambos os clubes não têm mais chances de subir de divisão. E, nas grandes redações que se dizem “nacionais”, o tom era quase de velório. De dor. Tragédia. Incompreensão. Uma letargia quase insuportável, mas solidária, diante de clubes “incaíveis” que tinham caído e que, pior de tudo, não tinham feito a jornada supostamente inevitável de retornar imediatamente à divisão de cima.

O debate tem suas nuances, eu bem sei.

Porque, acima de tudo, eu defendo o direito de veículos como o rádio ao localismo. A falar com o seu público e com mais ninguém.

A Rádio Itatiaia, por exemplo, fala com o público mineiro, sob a ótica dos clubes mineiros, defendendo as perspectivas dos clubes mineiros. Logo, a Rádio Itatiaia calcular rodada a rodada as chances de o Cruzeiro subir de divisão, ou do Atlético ser campeão de forma antecipada da Série A, ou mesmo comemorar a boa campanha do América, é um direito editorial que lhe cabe. 

O problema, penso, torna-se maior, ou ao menos mais difuso, em portais de notícias, emissoras de TV, alguns programas de rádio, que arvoram para si o título de “nacionais”.

Não é mera semântica. Não é mero argumento mercadológico, propaganda para se vender como grande.

É algo maior. É tentativa de se definir como autoridade. De ditar regras e tendências. É um processo que, de forma sonsa, escancara o preconceito, define um valor de notícia – e de importância clubística – que é antes de tudo geográfico.

A quem interessa convencer que o acesso de Vasco ou de Cruzeiro seria mais importante, indistintamente para toda a população brasileira, do que o de CSA, CRB ou Náutico (clubes que, esses sim, brigam pelo acesso)? Por que coberturas que se definem como nacionais, que se pretendem dialogar com todo o país, não se constrangem em fazer isso mesmo diante de alagoanos e pernambucanos?

Tentaram ao menos entender o momento histórico de Alagoas, em que dois rivais históricos lutam por uma possível vaga na Série A? Ou apenas o fato de ser Vasco e Cruzeiro já basta para dirimir qualquer dúvida?

E que fique claro. Eu não estou “roubando” o direito da CBN Rio ou da Tupi de torcer pelo Vasco, por exemplo. Mas que projeto político é esse que, repito, “coberturas nacionais” tentam dar valores diferentes a clubes do Sul e Sudeste em detrimento a todos os demais?

Não me venham falar em tradição, em torcida, em história.

Já é consenso na antropologia que nenhuma tradição é inata, existente em si mesma. Toda tradição é construída a partir de vivências e experiências que são contadas e recontadas ao longo dos tempos.

Estamos falando de cinco clubes centenários, com torcidas apaixonadas, histórias memoráveis. Esses argumentos, pois, não justificam a violência da cobertura esportiva “nacional” diante dos clubes nordestinos.

Pois, quando as ditas “redações nacionais” querem nos convencer de que o acesso do Vasco ou do Cruzeiro é mais importante do que o acesso de clubes do Nordeste, eles querem nos convencer que o nosso futebol, o futebol do Nordeste, é um futebol mais apequenado, de menor importância, sem tanto apelo popular.

E isso, (in)felizmente, não é possível de ser aceito de forma passiva e sem contestações.

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O regresso da tragédia futebolística

Reprodução: El Furgón

Há alguns dias, meu amigo José me disse que havia finalmente decidido voltar para o campo e presenciar uma partida do time de futebol pelo o qual era apaixonado. A pandemia da COVID-19 o afetou profundamente de diferentes maneiras e, para ele, havia postergado tal retorno por causa da possibilidade de contágio. Porém, vacinado e tomando todas as precauções, no final de outubro ele apareceu em campo com a carteira de sócio em dia. Sua equipe, que ganhava por dois gols, acabou perdendo. José me disse que, apesar de certa aflição por estar no meio de uma multidão, em alguns momentos exaltada, e da desgraça do futebol, durante a partida havia experimentado uma sensação que há tempos não havia sentido. 

Os antigos gregos ganham forças em suas tragédias, as massas contemporâneas tomam, em boa medida, do futebol – a ilusão, ou a tragédia, mais popular do planeta-. 

O comentário me remeteu a postura que Friedrich Nietzsche manteve durante sua vida, não sem altos e baixos, sobre a arte. Em seu primeiro livro, O nascimento da tragédia, o filósofo alemão argumenta que os antigos gregos haviam encontrado na arte trágica uma maneira de lidar com o espanto e horror do mundo, assim como o absurdo da existência. Segundo Nietzsche, a antiga cultura helênica floresceu porque a arte trágica permitia perceber as forças irracionais do mundo, mas, por serem cobertas com um véu de ilusão, sem sentir sua total brutalidade. Ou seja, a dinâmica dionisíaca do mundo, caótica e destrutiva, é temperada pela ilusão apolínea, protetora e energizante. Portanto, Nietzsche propõe que o “propósito artístico de Apólo” inclui a “todas aquelas inumeráveis ilusões da bela aparência que a cada instante são dignas de serem vividas a cada momento e no instante seguinte”.

Talvez a sensação que José experimentou em campo tenha sido a falsificação da verdade do mundo facilitada pela tragédia moderna que é o futebol. 

É possível alegar que o futebol é umas das ilusões apolíneas que nos possibilita vislumbrar o dionsíaco e ao mesmo tempo tolerar sem que nos ocorra de forma inelutável. No mais, como a bela aparência apolínea, o futebol se constitui em um impulso vital. Os antigos gregos ganharam força em suas tragédias, as massas contemporâneas ganham, em boa medida, no futebol – a ilusão, ou a tragédia, mais popular do planeta-. Parafraseando Nietzsche, as gerações que o sucederam têm sabido contemplar e reconhecer os abundantes efeitos da beleza futebolística. Assim, o futebol fornece uma ilusão que nos orienta como indivíduos e faz com que a vida seja (mais) vivível. A sensação apolínea da beleza futebolística é um tipo de falsidade que nos protege da aterrorizante verdade dionisíaca do mundo. 

Talvez a sensação que José experimentou em campo tenha sido a falsificação da verdade do mundo facilitada pela tragédia moderna que é o futebol. Depois de largos e obscuros meses pandêmicos, e ainda compelido por sua letargia, José, através do prazer estético da ilusão futebolística, percebeu uma certeza calmamente surpreendente. Do abismo dionisíaco surgiu o brilho da aparência que, ao menos temporariamente, dá sentido à vida. Este brilho jovial, encarnado no enorme esforço das jogadoras e o pulsar do público, nos engloba em um círculo “de tarefas solúveis, dentro do qual (decidimos) jovialmente a vida: ‘te quero: és digna de ser conhecida’”. José confiou nesse engano e se entregou sem dúvidas à sua harmonia e esclarecimento. 

Há quem considere que as reflexões de Nietzsche, que vão e voltam da arte, não se aplicam ao futebol. Não obstante, é preciso lembrar que em O nascimento da tragédia menciona-se os antigos Jogos Olímpicos como um festival dramático no qual se reunificam as artes gregas. Embora não esteja claro se Nietzsche inclui o esporte nestas artes, o livro celebra “o entretenimento das forças” físicas e seus papéis no trágico. O futebol pode não ser considerado uma arte, mas indiscutivelmente invoca a atitude e o julgamento estético a serem uma prática social com bens internos e padrões de excelência construtivos e definidores. Tanto uns como outros compõem seus atributos estéticos porque são intrínsecos e identificados como dignos de atenção sustentada pela comunidade de praticantes. O estético, central na postura nietzschiana do trágico, foi chave na sensação experimentada por José, para quem a vida e a existência, em seu retorno ao campo do time de que ama, tiveram uma brilhante justificativa. É motivo suficiente para voltar iludido ao campo, com as precauções necessárias que a pandemia impõe. Embora a beleza futebolística não elimine a impiedade dos campos e das outras esferas da vida, a experiência de José sugere que, apesar dele, oferece um horizonte, delicado e parvo, de sossego e equilíbrio. 

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 5 de novembro de 2021.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Produção audiovisual

Já está no ar o quadragésimo quarto episódio do Passes e Impasses

O tema do nosso quadragésimo quarto episódio é Futebol de mulheres: da pesquisa ao impacto nas exposições temporárias e de longa duração do Museu do Futebol. Com apresentação de Abner Rey e Raffaella Napoli, gravamos remotamente com Mariana Chaves e Ligia Dona. Mariana é coordenadora de exposições e programação cultural no Museu do Futebol, e Ligia é pesquisadora do Museu do Futebol e atual coordenadora do projeto de pesquisa e referenciamento “Diversidade em Campo: Futebol LGBT+”.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quadragésimo quinto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Brasil chegou”, interpretada por Gabi Fernandes com participação de Charles Gavin.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Futebol feminista: ensaios – Lu Castro e Darcio Rica [livro]

Mulheres impedidas: A proibição do futebol feminino na imprensa de São Paulo – Giovana Capucim e Silva [livro]

Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941) – Aira Bonfim [dissertação de mestrado]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Raffaella Napoli e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Abner Rey e Raffaella Napoli
Convidadas: Mariana Chaves e Ligia Dona

Eventos

Seminário Agora é com elas se inicia nesta segunda-feira (08/11)

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), em parceria com o Museu do Futebol (SP), inicia, nesta segunda-feira (08/11), o Seminário Internacional “Agora é com elas: 30 anos da Copa do Mundo de Futebol Feminino”. Para esta segunda-feira, estão programadas discussões de trabalho nos GTs 1 (História, memórias e resistências) e 2 (Futebol feminino nos rastros da profissionalização), com coordenação das pesquisadoras do LEME Leda Costa e Carol Fontenelle, a partir das 9h. Às 19 horas, três mulheres que são referências no futebol de mulheres estarão na mesa “Mulheres que inspiram outras mulheres”: Claudia Silva (consultora de Comunicação da Fundação Ford no Brasil e uma das precursoras do jornalismo esportivo), Dilma Mendes (ex-atleta e técnica do time masculino do Vitória / Camaçari e da Seleção Brasileira de futebol 7) e Silvana Goellner (professora titular da UFRGS). 

Na terça-feira (09/11), além dos grupos de trabalho no horário da manhã, teremos a segunda mesa do evento, organizada pelo Museu do Futebol. Às 17h, tem início a mesa “Memórias em campo: o percurso do futebol de mulheres no Museu do Futebol”, com a presença de Camila Aderaldo (coordenadora do centro de referência do Museu da Língua Portuguesa), Angélica Angelo (gestora cultural e educadora do Museu do Futebol), Rafael Alves (editor-chefe e criador do site Planeta Futebol Feminino) e mediação de Olga Bagatini (assessora de Comunicação no Museu do Futebol). Às 19h, começa a mesa “O futebol das mulheres na América Latina: visibilidade e investimento” com a presença de Aira Bonfim (mestra em História pela FGV), Ana Lorena Marche (coordenadora de Futebol Feminino da Federação Paulista de Futebol), Julia Hang (diretora do projeto de extensão “Em direção a clubes inclusivos: jogar, gerenciar, treinar e dirigir com perspectiva de gênero para erradicar as violências”), com a mediação de Camila Augusta Pereira, professora das Faculdades Integradas Hélio Alonso e pesquisadora do LEME.

As três mesas de palestras terão tradução simultânea em libras, graças à parceria com o Museu do Futebol.

As mesas terão transmissão ao vivo e simultânea nos canais do LEME e do Museu no YouTube:

Para participar da apresentação dos GTs, basta se inscrever clicando nos links: GT1 e GT2.

Fique por dentro das transmissões das mesas clicando nos links abaixo:

Mesa 1: “Mulheres que inspiram outras mulheres” 

Mesa 2: “Memórias em campo: O percurso do futebol de mulheres no Museu do Futebol” 

Mesa 03: “O Futebol das mulheres na América Latina: visibilidade e investimento” 

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O 5G e a revolução das transmissões esportivas no Brasil #SQN

Reprodução: Internet

Não é de hoje, é claro. Os avanços tecnológicos em telecomunicações sempre demoraram a chegar em terras tupiniquins. A Era do Rádio, nos Estados Unidos, por exemplo, começou na década de 1920, enquanto que por aqui a consolidação do meio como comunicação de massa só se deu praticamente 15 anos depois. Em relação à TV, embora o Brasil tenha sido o primeiro país da América Latina a ter uma emissora regular, em 1950, isso se deu duas décadas depois dos Estados Unidos e 15 anos após alguns países europeus. Mas esse gap tecnológico aos poucos foi diminuindo drasticamente. O uso do vídeo-tape começou a ser usado pela CBS, emissora americana, em 1956 e no ano seguinte já e era de uso corrente na TV Rio. A transmissão em cores e a utilização de transmissões por satélite também não demoraram a chegar nessas bandas do lado debaixo do Equador.

Em tempos digitais, por conta de interesses comerciais de grandes conglomerados globais, entramos no mesmo compasso do resto do planeta, afinal os gadgets cada vez mais complexos e completos necessitavam uma estrutura comunicacional que satisfizesse os desejos consumistas de seus usuários e garantisse os lucros tanto de fabricantes desses aparelhos, como dos grupos empresariais de Comunicação. Um fetiche tecnológico tão grande que parelhos de TV capazes de reproduzir transmissões em qualidade de 8K são comprados, mesmo que qualquer emissora no país gere qualquer conteúdo, ao menos, em 4K. Quer dizer, tudo seguia no ritmo desejado pela Nova Ordem Mundial, mas aí veio a tecnologia 5G.

O imbróglio do 5G

O 5G nada mais é do que um passo adiante na tecnologia de banda larga sem fio. Uma evolução, diga-se de passagem, bastante relevante. Se uma rede 4G, entrega uma velocidade de conexão de cerca de 33 Mbps, o 5G multiplica isso por 20, superando 1 Gbps. E não é apenas uma questão de velocidade ou estabilidade de sinal, a nova tecnologia permite uma quantidade muito maior de conexões simultâneas, entre 50 a 100 aparelhos a mais do que o panorama atual. A velocidade para download e upload também é um diferencial importante, proporcionando a facilidade de baixar arquivos mais pesados, fundamental para o consumo de vídeos de alta definição ou o uso da Realidade Virtual.

O problema é que não só o Brasil, mas todos os países latino-americanos, tem muito pouco espaço no espectro de frequências próprias para esse tipo de serviço e mesmo que algumas telefônicas já propaguem a oferta dessa tecnologia, há no país, no máximo, algo que poderia ser chamado de um 4G plus. Não bastasse isso, existe toda uma guerra entre EUA e China que envolve questões estratégicas, políticas e econômicas e o Brasil, ao invés de estar em busca das melhores opções tecnológicas, opta por um posicionamento ideológico, ao ponto do próprio presidente, em mais uma de suas bravatas, já ter afirmado que a decisão final seria tomada por ele.

Enquanto dezenas de países em todo o mundo já desfrutam da tecnologia 5G, só agora a Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) anunciou a lista das empresas que se habilitaram para implantação do serviço em território nacional. As vencedoras desse leilão ficarão responsáveis pela compra e instalação de equipamentos e torres de transmissão para o sinal do 5G, com o direito de exploração do serviço durante 20 anos. A promessa é de que os brasileiros passem a acesso ao 5G no ano que vem. 

O que estamos perdendo?

Depois dessa longa contextualização, vamos ao que viemos. Ou seja, falemos de esporte, afinal este blog se destina a isso.

Dentre todas as “maravilhas” prometidas pela tecnologia 5G, algumas já estão impactando de forma inegável a transmissão de eventos esportivos, proporcionado aos espectadores experiências que antes só pareciam possíveis nas ficções futuristas ou em nossos mais imaginativos desvarios.

A Fórmula 1 é um exemplo. A possibilidade do uso de centenas de câmeras em uma mesma transmissão é mais do que real. A transmissão com sinal confiável de microcâmeras instaladas em pontos antes impensáveis dos carros permite que o espetáculo para quem assiste seja ainda mais rico de detalhes. No vídeo do link abaixo é possível ver um exemplo com a Mercedes pilotada pelo heptacampeão mundial Lewis Hamilton. Uma câmera pouco acima de sua viseira, por exemplo, dá a uma visão praticamente igual à do piloto.

Em uma palestra sobre a relação da F1 com a nova tecnologia, Guru Gowrappan, CEO da Verizon Media (um dos gigantes mundiais das telecomunicações) afirmou que nos dias atuais, a experiência do torcedor e o desempenho do atleta estão interligados, inexistindo uma barreira que separa os fãs do campo, da quadra ou da pista de corrida, reforçando que “este não é apenas o futuro do esporte, mas o futuro do conteúdo, conexão e da transação”. Uma parceria da empresa com a equipe Alpine Racing leva experiências de realidade aumentada e realidade virtual a fãs de todo o mundo (ou pelo para aqueles onde o 5G está disponível), tanto nas transmissões vistas em casa quanto nos eventos ao vivo. “Quando a tecnologia é casada com criatividade em grande escala, o mundo começa a se abrir de novas maneiras. A tecnologia alimenta a criatividade nos esportes e, claro, na vida. E, por sua vez, isso impulsiona o crescimento dos negócios e transforma a experiência do torcedor e do atleta e abre o caminho para uma inovação maior”, concluiu Gowrappan.

No Superbowl de 2020, maior evento esportivo norte-americano, a mesma empresa montou uma arena do lado de fora do estádio, onde, através da tecnologia 5g, espectadores puderam desfrutar de todas as possibilidades de interação com o evento através de smartphones. Aliás, os recursos disponíveis para o espectador são impressionantes; escolher por qual câmera quer acompanhar um lance, rever jogadas por diversos ângulos, acompanhar estatísticas e dados vitais de qualquer jogador são apenas alguns deles. Como fica até difícil descrever a experiência com palavras, o vídeo no link abaixo ajuda na compreensão.

Às vezes a tecnologia pode ser usada para efeitos puramente alegóricos, como o de um dragão sobrevoar, ao vivo, um estádio de beisebol na Coreia do Sul. Espetáculo que pôde ser acompanhado por quem assistia à transmissão em casa ou no local.

O céu, portanto, é o limite e a criatividade é a mola para a utilização dessa super ferramenta imersiva, independente de qual modalidade esportiva estiver sendo disputada. E é claro que o bom e velho esporte bretão não podia ficar de fora disso. Na partida decisiva do campeonato português de 2020, ainda sem público, devido à pandemia da Covid-19, a empresa de tecnologia NOS montou um enorme esquema de transmissão explorando recursos do 5G para permitir que a torcida tivesse o máximo de imersão no vazio estádio José Alvalade, em Lisboa. Para se ter uma ideia, microcâmeras foram acopladas até na base da taça entregue aos jogadores campeões do Sporting.

No Brasil, uma das poucas iniciativas de utilização do 5G nos esportes, mesmo com as limitações tecnológicas já citadas é a transmissão de imagens aéreas de provas de Stock Car através de um drone. A parceria envolve a Band, detentora dos direitos de transmissão e a Claro, com o apoio das empresas Huawei, Qualcomm e Motorola.      

Participação ou alienação?

Uma cena muito comum, hoje em dia, nos estádios é a de pessoas interagindo com seus smartphones durante a disputa esportiva. Os celulares parecem adversários mais duros de derrotar do que o oponente em campo. Entre uma selfie e um zap, a atenção do público fica dividida entre o real e o virtual. O que me faz levantar uma questão para a qual, já aviso, não tenho a resposta: esses novos recursos interativos oferecidos pela conexão 5G não vão acabar potencializando essa situação?

É difícil, para mim, estar presente em um jogo de futebol, por exemplo, e não ter as atenções totalmente voltadas para o que acontece dentro das quatro linhas, mas o problema talvez seja apenas geracional, afinal sou um ser humano muito mais analógico do que digital. Pode ser que para as novas gerações que tiveram gadgets praticamente em seus berços a experiência multissensorial seja fundamental para que o esporte continue gerando interesse.

Seja como for, esse parece ser um caminho sem volta. As múltiplas telas já fazem parte de nossas vidas e se trata apenas de uma questão de maior ou menor interação de nossa parte.

Aqui no Brasil, pelo jeito ainda teremos que esperar um pouco para sentirmos na pele os efeitos dessa “revolução” e só então poderemos avaliar, até por nossas próprias experiências, o quanto eles nos impactarão. 

Não há dúvidas de que a nova tecnologia pode enriquecer as transmissões esportivas ou a experiência de quem participa presencialmente de um desses eventos, só espero que ela nunca seja capaz de se sobrepor à emoção de um grito de gol.

Artigos

Pesquisadores do LEME lançam livro sobre mídia, esporte e cultura

Estudos em mídia, esporte e cultura, publicado pela Appris Editora, é o mais novo livro organizado por Ronaldo Helal, Leda Costa, Fausto Amaro e Carol Fontenelle, integrantes do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME).

Reprodução: Appris Editora

O livro reúne diversos artigos de pesquisadores renomados da área, como o saudoso Gilmar Mascarenhas, Édison Gastaldo, Zeca Marques, Rosana da Câmara Teixeira, dentre outros. Os artigos abordam variados assuntos sob o ponto de vista das Ciências Humanas e principalmente da Comunicação, percorrendo temáticas como sociabilidade, estádios, torcedores e o nacionalismo no esporte.

Estudos em mídia, esporte e cultura traz diferentes ângulos de investigação nos estudos sociais do esporte, abrangendo desde a prática em si até os impactos sobre torcedores e sociedade em geral. Segundo Ronaldo Helal, um dos organizadores da obra e coordenador do LEME, “o livro é uma importante produção do laboratório, que busca contribuir para o campo acadêmico de estudos do esporte, bem como levar as discussões geradas na universidade para um público mais amplo”.

O livro está disponível em livrarias e sites, no formato impresso ou e-book. Confira abaixo os locais onde você pode adquiri-lo.