Artigos

O que é que o Bahia tem?

Você torceria por outro time?

Uma pergunta assim, para quem é apaixonado por futebol, chega a ser quase uma afronta. Não chego ao extremo de questionar se você torceria contra seu próprio time, mas será que seria capaz, por uma questão de simpatia, de identificação, realmente torcer pelo sucesso de outro clube? Em um país como o nosso no qual a monogamia clubista é mais respeitada do que sua versão amorosa, seria difícil crer que esse flerte fosse possível, embora, na prática, isso venha acontecendo. O responsável por tal sedução atende pelo nome de Esporte Clube Bahia.

Um fenômeno assim, é claro, não surge por acaso. A crescente admiração de torcedores coirmãos pelo tricolor soteropolitano se deve a diversas ações da diretoria do clube em relação a questões bastante delicadas no Brasil, como inclusão social, igualdade de gênero, preconceito racial e, mais recentemente, defesa do meio ambiente. Tais estratégias são desenvolvidas pelo Núcleo de Ações Afirmativas do Bahia, criado em janeiro de 2018, no início da gestão do presidente Guilherme Bellintani. “O futebol é um canal que pode servir para acentuar o que há de pior na nossa sociedade, como o racismo, as agressões, a violência e a intolerância, mas também pode servir de uma forma diferente – para espalhar cultura, afeto, sensibilidade, melhoria das relações humanas”, afirma o gerente de Comunicação do Bahia, Nelson Barros.

Fé na diversidade e no Bahia.
fonte: @ecbahia

O currículo do atual presidente do Tricolor de Aço foge do padrão dos dirigentes esportivos brasileiros. É empresário, mas também tem uma vasta atividade acadêmica. É formado em Direto, tem mestrado em Educação e doutorado em Desenvolvimento Urbano. Foi, também, secretário municipal de Educação de Salvador. Seu mandato faz parte do movimento de reestruturação do clube que, em razão de dívidas milionárias, chegou a sofrer uma intervenção, determinada pelo Tribunal de Justiça da Bahia. Atualmente, os sócios elegem o presidente do clube, sem filtro ou participação dos conselheiros. São realizados encontros periódicos sobre temas de discussão da torcida, como um fórum de debates. E no site do clube há uma seção voltada para a transparência administrativa, atualizada mensalmente, com todo o detalhamento dos gastos. “Temos o objetivo de consolidar o Bahia como o clube mais transparente e democrático do Brasil. Está inclusive no Plano de Ação da nossa gestão, documento trabalhado diariamente pelos gerentes de cada área do clube. Para se ter uma ideia, ao lado da mesa todos há uma espécie de cartolina com as 31 ações”, reforçou o presidente numa entrevista após a reunião em que o Conselho Deliberativo aprovou que os sócios também possam votar online já no próximo pleito.  Ainda de acordo com Guilherme, o bom desempenho esportivo só pode vir com uma constante mudança na gestão do clube, ou seja, com a redução do endividamento e o aumento da receita. Hoje o Esporte Clube Bahia tem o 14º orçamento dos 20 clubes que disputam a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. “A gente precisa ser mais clube. Um clube mais forte, faz um time mais forte”, afirma.

Tirar da cabeça o que não se tem no bolso

Para um time que chegou a disputar a terceira divisão do campeonato nacional e que, depois, ficou indo e vindo da segundona, é preciso se firmar para seguir adiante e o fortalecimento do programa de sócio torcedor se tornou uma das ações mais efetivas nesse sentido. Em uma entrevista ao canal Bandsports, após completar um ano e meio de mandato, Bellintani destacou a necessidade de trazer de volta aos estádios uma grande parcela da torcida afastada desde a implantação do que ele chama de “era das grandes arenas”. Para isso foram criadas diversas versões de planos de fidelização. “Salvador tem um dos piores PIBs per capta do Brasil. Não adiantava apenas replicar planos de sócio torcedor como os que são oferecidos em outros centros urbanos”, ressalta o presidente.

O plano Bermuda e Camiseta é destinado a torcedores de baixa renda e atende torcedores que ganham menos de R$ 1.500,00 por mês. A mensalidade é de R$ 45,00. No plano Bahia da Massa, a pessoa não precisa comprovar renda. Paga R$ 60,00 por mês e tem direito a assistir às partidas no anel superior da Fonte Nova. Os outros sócios, que pegam mais caro, têm, em compensação, vantagens como descontos na cerveja e na compra de produtos oficiais. Com isso, o clube chegou à marca de  27 mil planos vendidos, mais do que metade da lotação do estádio. “Ticket caro não lota a Fonte Nova”, garante Bellintani.

Outra medida de sucesso foi romper com os grandes fabricantes de material esportivo e gerenciar a produção dos próprios uniformes. As mesmas fábricas e os mesmos materiais foram usados, só que ao invés da marca famosa no lado direito do peito, a logo Esquadrão, criada pelo clube. A iniciativa gerou lucros e impulsionou as vendas, com inciativas ousadas como oferecer camisas oficiais a menos de R100,00, algo inédito entre os grandes clubes brasileiros. Para se ter uma ideia, uma camisa oficial do Flamengo chega a custar R$ 250,00. Mesmo assim o faturamento subiu. Antes, a cada cem reais vendidos em material esportivo, o Bahia recebia dez, agora esse número subiu para 25 reais. Além do mais, quem define o modelo da camisa que vai ser usada pelo time, a cada ano, é o próprio torcedor, a partir de uma eleição.

O crescente envolvimento da torcida permitiu que acontecesse um fato que chamou a atenção da imprensa de todo o país. A chamada “batalha da cerveja” na Arena Fonte Nova. O consórcio que administra o estádio desde o final da Copa de 2014 anunciou que não ofereceria mais o desconto de 50% no preço da cerveja para os sócios torcedores e ainda decretou um reajuste, de seis para oito reais. A medida foi rechaçada pelo Bahia e o próprio presidente incitou, via Twitter, um boicote aos bares do estádio, sugerindo que os torcedores comprassem cerveja apenas nos vendedores ambulantes que ficam nos arredores do estádio. A AMBEV, concorrente  da cerveja Itaipava (Grupo Petrópolis), oferecida com exclusividade na arena, se aproveitou da situação e decidiu vender latinhas de Brahma a R$ 0,50 para os ambulantes, de forma que esses pudessem repassar a cerveja aos torcedores por apenas um real. Até uma lata customizada, com as cores do clube foi criada.  Com o prejuízo, a única saída para o consórcio foi voltar atrás, tanto no preço, quanto no desconto.

A “batalha da cerveja” misturou marketing e paixão.
fonte: https://www.correio24horas.com.br/

Tudo pelo social

Atitudes assim chamaram a atenção de torcedores de outras partes do país, no entanto, foram as campanhas de cunho social que tiveram maior impacto.  Para o gerente de Comunicação Nelson Barros, a repercussão superou qualquer expectativa. “Percebemos a reação da torcida com uma surpresa absurdamente positiva. Em nenhum momento o objetivo das ações afirmativas foi a repercussão, fazer sucesso, virar ‘case‘. Começamos a nos posicionar porque acreditávamos naquilo – e seguimos com o mesmo espírito. Eis que não só nossa torcida como os torcedores de outros times, espalhados pelo Brasil, até mesmo de nosso arquirrival, o Vitória, passaram a nos elogiar, a nos seguir, a nos compartilhar, a se associar ao clube, a comprar produtos do Bahia. Está sendo algo muito bonito e inspirador”.

Uma das primeiras iniciativas a chamar a atenção foi o Novembro Negro e nada mais significativo já que, segundo dados do IBGE, a população do estado é composta por 82% de negros e pardos. Numa partida contra a Chapecoense, os jogadores entraram em campo com nomes de importantes figuras da cultura negra. O camisa 10 foi Batatinha, um dos grandes nomes do samba na Bahia, a 9 ficou com Luis Gama, patrono da abolição da escravatura no Brasil e a do goleiro foi dedicada a Zumbi dos Palmares. As mulheres negras não ficaram de fora: Dandara, Luísa Mahim, Maria Felipa e Mãe Menininha. Entre os nomes ainda estava o de mestre Moa, capoeirista assassinado em uma briga por motivação política, no dia do primeiro turno das eleições de 2018.

O Bahia, por sinal, é um dos poucos clubes do Brasil a ter um treinador negro. O gaúcho Roger Machado, de 44 anos se adaptou muito bem não apenas a Salvador, mas também a essa linha de inclusão adotada pelo clube baiano. A consciência de que muito ainda precisa ser feito nesse sentido foi expressada na coletiva que ele concedeu após uma partida contra o Fluminense, no Maracanã. Como o treinador adversário, Marcão, também era negro, a mídia tentou celebrar o fato, mas Roger tratou de colocar os pingos nos is e mostrou como o ineditismo daquela situação era a maior prova de que há algo errado no país. “A gente precisa falar sobre isso. Precisamos sair da fase da negação. Nós negamos. ‘Ah, não fala sobre isso’, porque não existe racismo no Brasil em cima do mito da democracia racial. Negar e silenciar é confirmar o racismo. Minha posição como negro na elite do futebol é para confirmar isso. O maior preconceito que eu senti não foi de injúria. Eu sinto que há racismo quando eu vou no restaurante e só tem eu de negro. Na faculdade que eu fiz, só tinha eu de negro. Isso é a prova para mim. Mas, mesmo assim, rapidamente, quando a gente fala isso, ainda tentam dizer: ‘Não há racismo, está vendo? Vocês está aqui’. Não, eu sou a prova de que há racismo porque eu estou aqui”

O trabalho de Roger Machado não se limita ao comando do time principal. Passa boa parte de seu dia no Fazendão, centro de treinamento do Bahia, onde trabalha ao lado do experiente preparador físico Paulo Paixão. O treinador caiu nas graças do torcedor tricolor pelas atitudes à beira do gramado e também fora dele. Em outubro deste ano ele convidou três meninos que vendiam amendoim na frente do Fazendão para assistirem a um treino. Noutra ocasião ensinou os meninos a baterem pênaltis, sendo ele mesmo, Roger, o goleiro.

Estufando a rede

 As redes socias têm sido uma ferramenta poderosa do desenvolvimento dessas ações afirmativas. Hoje o BAHÊA, como é popularmente conhecido, tem 545 mil seguidores no Instagram e cerca de um milhão e cem mil no Facebook. É nesses canais que são veiculadas as campanhas como #BahiaClubedoPovo, onde crianças mostram que se nas babas (como os baianos chamam as peladas ou rachões) que disputam não há o preconceito, porque deveria haver no futebol profissional.

Outra iniciativa que chamou bastante a atenção foi a que combate a homofobia. Uma camisa com a frase “Não há impedimento”, foi lançada pelo clube como uma demonstração de apoio à causa LGBT. “O Bahia sempre se preocupa em defender causas humanitárias – e não de esquerda ou direita. Nunca você vai encontrar viés político-partidário. São lutas de direitos humanos. Até pouco tempo, talvez não houvesse nenhuma polêmica. Mas decidimos nos envolver, mesmo assim, porque nos consideramos um elemento de identidade cultural e social do Estado da Bahia”, defende o jornalista Nelson Barros.

Campanhas do E.C. Bahia mandam o preconceito para escanteio.
fonte: @ecbahia

Em agosto de 2019, o tricolor abraçou a causa contra o abandono paterno. Cerca de 5,5 milhões de crianças no Brasil não possuem o nome do pai no registro. Por ocasião do dia dos pais, o Bahia ofereceu testes de DNA de graça na loja oficial do clube. Foram realizados mais de 200 exames.

A iniciativa mais recente foi um protesto contra o derramamento criminoso de óleo que atingiu praias de todos os estados nordestinos. Uma camisa especial foi confeccionada para a partida contra o Ceará, no dia 21 de outubro (os jogadores do Vozão também fizeram um protesto e entraram em campo usando luvas negras, como as usadas por moradores na retirada voluntária do óleo que atingiu o litoral). “A ideia surgiu porque estávamos incomodados com a ausência do governo em relação ao impacto causado. Decidimos, então, ajudar quem estava tomando para si a função que deveria ser do estado”, explica Tiago César, um dos coordenadores do Núcleo de Ações Afirmativas do Bahia. Depois da partida, as camisas foram a leilão e os 8 mil reais arrecadados foram repassados para a ONG Guardiões do Litoral.

Futebol e denúncia, uma tabelinha que funciona.
fonte:@ecbahia

Embora a intenção do clube, de acordo com a diretoria, não seja usar esse material como uma estratégia de marketing com fins comerciais, fica claro que a mudança na imagem do clube vem sendo impactada positivamente, o que pode render ótimos dividendos a médio e longo prazo. “Achamos que os clubes têm de escolher se serão canais de amor ou ódio. Além disso, estamos diante de um cenário de alta visibilidade, cobertura diária da imprensa, milhões de seguidores nas redes sociais. A ideia é tentar alcançar o máximo de pessoas possível. Sendo o futebol, conseguimos atingir indivíduos que muito provavelmente não comentariam ou postariam sobre determinado assunto caso não houvesse participação do seu clube do coração”, finaliza Nelson Barros.

Que os baianos nos sirvam de exemplo.

Eventos · Produção bibliográfica

“Helal, uma paixão rubro-negra” é lançado na Gávea

Foi realizado ontem, 18 de novembro, na Gávea, o lançamento do livro “Helal, uma paixão rubro-negra” uma homenagem ao ex-presidente do Flamengo George Helal, organizado por seu filho Ronaldo Helal, também coordenador do LEME e professor da UERJ.

O evento contou com presença de grandes ídolos do clube como Zico, Adílio, Júnior, Cantarele, Mozer, o atual presidente Rodolfo Landim, ex-presidentes, entre outras figuras que estão na história do Clube de Regatas do Flamengo.

Fonte: Instagram do C. R. Flamengo

Artigos

Coordenador do LEME lança livro no Rio

O Clube de Regatas do Flamengo recebe na segunda-feira, dia 18, às 19h, um dos seus mais ilustres rubro-negros para o lançamento do livro Helal, uma paixão rubro-negra. Organizado pelo professor da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), Ronaldo Helal, o livro conta a história de George Helal, pai de Ronaldo e ex-presidente do clube.

Helal, uma paixão rubro-negra chega às livrarias após três anos de projeto e traz entrevistas com ex-atletas, dirigentes, amigos e funcionários do clube. Em meio aos depoimentos, a tentativa de explicar como surgiu o amor deste norte-americano, naturalizado brasileiro, pelo Flamengo, desde os 13 anos de idade, quando ouviu o rubro-negro ser tricampeão carioca, em 1944.

Serviço

Lançamento do livro Helal, uma paixão rubro-negra
Dia: 18/11/2019
Horário: 19h
Local: Sede do Flamengo na Gávea (em frente ao museu)
Endereço: Av. Borges de Medeiros, 997, Lagoa, Rio de Janeiro.

Artigos

Está no ar o quarto episódio do podcast Passes e Impasses

Acesse o quarto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCasts, OvercastAnchor.

O tema do nosso terceiro episódio é “Agora é com elas – chegou a vez das mulheres no futebol ”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Marina Mantuano, recebemos no nosso Leda Costa, professora visitante da UERJ e pesquisadora do LEME, e Talita Giudicce e Tiago Fernandes, criadores do blog Futebol é Coisa de Mulher.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quarto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “Jogadeira”, criada em 2011, pela atacante Cacau, em parceria com Gabi Kivitz, que já foi jogadora e hoje é comunicóloga. Ao longo do programa, também trouxemos algumas referências bibliográficas, que listamos abaixo:

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Carol Fontenelle
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Marina Mantuano
Convidados: Leda Costa, Talita Giudicce e Tiago Fernandes

Artigos

Mulheres torcedoras: a busca por visibilidade em um ambiente marcante pela masculinidade

Quando o Ibercom (Congresso Iberoamericano de Comunicação) divulgou o tema para a edição deste ano, que acontece no final de novembro, em Bogotá (Colômbia), conversei com meu orientador de mestrado, Ronaldo Helal, sobre a possibilidade de escrevermos um artigo. O tema do congresso este ano é “Comunicação, violências e transições”, e eu, como torcedora e agora pesquisadora, observo o quanto este tema é urgente quando pensamos em futebol e representatividade das mulheres nas arquibancadas.

Fizemos um resumo, no qual abordamos a cobertura midiática referente ao tema e submetemos ao congresso.  Tendo a aprovação, fomos a campo entrevistar integrantes de torcidas organizadas (TOs). Para este pequeno post, apresento a vocês uma prévia das entrevistas com estas mulheres. Vamos denomina-las de acordo com os seus times: torcedora do Flamengo, integrante da Nação 12; do Fluminense, integrante da Garra Tricolor; da Ponte Preta, pertencente à Torcida Jovem Amor Maior; e do Remo, pertencente à torcida Camisa 33. Tentamos contato com integrantes de torcidas de diferentes estados, justamente para termos ideia se realmente a violência existia e se ela era um fenômeno regional. Todas as entrevistadas relataram histórias bem parecidas envolvendo assédio, abuso físico e abuso de poder.

As mulheres ficaram proibidas de jogar futebol pelo decreto lei 3.199, até 1979, quando ele foi revogado. Durante estes anos, restaram a elas jogarem de forma marginal ou irem às arquibancadas. Surgiram, assim, figuras marcantes do universo do futebol como Dulce Rosalina, primeira mulher presidente de uma torcida organizada, a TOV – Torcida Organizada do Vasco, em 1956. Ainda na década de 1950, o Corinthians tinha uma torcedora símbolo, Elisa, que chegou a ganhar ingresso permanente da Federação Paulista de Futebol. Em 1961, Dulce também ganha o concurso de melhor torcedor do país.

Resultado de imagem para dulce rosalina
Fonte: Casaca.

Naquela época, as torcedoras símbolo eram vistas quase como mães de jogadores, já que elas tinham participação ativa, frequentando treinos e aconselhando os atletas. De lá para cá, muitas outras mulheres estão presentes no universo do futebol e não com a mesma figura que Rosalina e Elisa. Elas tentam conquistar papel de destaque nas organizadas e participar ativamente do espetáculo realizado nas arquibancadas. “Em março, as meninas da minha torcida quiseram fazer uma ação sobre a semana da mulher. Torcedores de outros times e até do Remo disseram que ali não era lugar para a gente e queríamos era repercussão na internet”, conta a torcedora do clube do Pará.

Desta forma, percebemos que as mulheres não costumam ocupar cargos de liderança em torcidas justamente pelo ambiente ser predominantemente masculino e a maioria das TOs terem sido criadas por homens. A torcedora da Ponte-Preta também apontou o quanto é difícil para uma mulher estar em organizada: “Mulheres geralmente cuidam da responsabilidade social, do setor kids, das redes sociais e geralmente é com um homem na supervisão. Mulher em cargos de direção é muito raro. Só conheci três mulheres presidentes de torcida, vice-presidente não conheci nenhuma e diretora também não. Porque não se tem o entendimento que a mulher é como o cara. Na minha torcida, por exemplo, temos um espaço interessante. Não é perfeito, mas perto do que acontece por aí”. Ela afirma ainda que, em alguns casos, há também disputa entre as mulheres por espaço. “Quando o homem falha na organizada tudo bem, mas quando é mulher, falhou porque é mulher. É quase um mantra. A gente tem que se cuidar mais. Temos que nos policiar, a mulher que quer o progresso das mulheres tem que uma ajudar a outra”.

Além da busca de representatividade nas organizadas, as mulheres também querem respeito quando frequentam os estádios. “Quando a gente fala que é de organizada, acham que somos vagabundas por estarmos no meio de um monte de homem”, conta a torcedora do Flamengo. A torcedora do Fluminense traz ainda mais elementos do universo das arquibancadas. “Já tive cabelo e braços puxados, passada de mão no corpo, policial falando gracinha. Tem gente que acha que jogo é micareta e que as mulheres estão ali só para ‘pegar’ homem e não por gostar de futebol. Às vezes a gente tem que fingir que é namorada de outra menina para ir ao banheiro para ter um pouco de respeito quando estiver passando. Se a gente fala que tem namorado, eles dizem: ‘ué, cadê o namorado?’ Então é a primeira coisa que a gente faz para se proteger. Já cheguei a dar tranco em cara dizendo que minha amiga era minha namorada.  Mas quando os amigos ou namorado estão juntos,  respeitam muito mais”.

A torcedora do Remo apresentou um relato mais grave ainda: “uma conhecida recebeu bebida com algo e ela apagou no estacionamento do estádio depois de um jogo e acordou na vala. Mas ela afirma que não sofreu abuso sexual”, conta.

Podemos observar ainda que nem todas as torcedoras têm noção que sofrem preconceito e contribuem para este ambiente no qual os homens têm mais destaque. É como se elas estivessem gratas aos homens por terem algum espaço nas torcidas.  “Eu acredito que algumas meninas não têm sequer a consciência do tamanho do machismo que enfrentamos em uma organizada. Eu já ouvi frases do tipo: ‘se você fosse homem, poderia ser presidente da torcida’. Eu nunca almejei isto porque eu não tô disponível a suportar certas coisas, como ter que ficar provando as coisas para alguém o tempo todo. Já ouvi também ‘você é uma mulher que afronta um homem’. Quantas e quantas vezes ouvi: ‘E seu marido?’, ‘por que você não vai fazer o jantar para seu marido?’, ‘Ce é loko, se minha mulher fosse assim…’ Como se viajar com minha torcida fosse um adultério conjugal que precisava ser julgado, como nos tempos de Jesus no Oriente Médio,  que a mulher era apedrejada até a morte”, desabafa a torcedora da Ponte Preta.

As mulheres entrevistadas apresentaram ainda outros relatos sobre como são tratadas como consumidoras pelas marcas patrocinadoras dos clubes e deram mais detalhes dos seus papéis como torcedoras. Mas estas histórias vocês poderão ler em nosso artigo, que será publicado nos anais do congresso em breve. Nesta quarta (13/11), vocês podem ouvir o 4º episódio do podcast do LEME, o Passes e Impasses, disponível em todas as plataformas (Spotify, Deezer, iTunes), no qual o tema foi justamente as mulheres no futebol, com enfoque nas coberturas da mídia, na visibilidade das atletas e do quanto é difícil ser atleta, jornalista e torcedora.

Resultado de imagem para mulher torcida estádio
Fonte: Redação Mackenzie.

Resultado de imagem para mulher torcida estádio
Fonte: Justiça de Saia.

Notícias

Encontros LEME desta segunda adiado

Em virtude do estágio de alerta pelas fortes chuvas que atingem o Rio de Janeiro nesta segunda dia 11, informamos que a palestra de Vivian Fonseca nos Encontros LEME está adiada.
Em breve, daremos mais informações sobre nova data e horário.

Artigos

Linguagem, ser e futebol

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**/El Furgón

Há alguns meses o escritor e jornalista Mempo Giardinelli publicou uma nota no jornal matutino portenho Página 12 na qual lamentava o “empobrecimento e desnaturalização” da nossa língua. Tal deterioração – que inclui a crescente utilização de angliscismos desnecessários –, argumenta Giardinelli, é perigosa porque a língua de um povo é “sua mais poderosa marca de identidade”. Ou seja, a linguagem não somente nos permite pensar, comunicarmos e entendermos, mas, como também indica Giardinelli, é a maneira mais genuína de ser. Portanto, perder a língua – seja consentindo, ou pior ainda, atiçando sua distorção – equivale a perder a identidade (ou perder-se) como povo.

Coincidentemente, poucas semanas depois, o poeta e ensaísta Rodolfo Alonso publicou no mesmo matutino outra nota refletindo sobre a “desoladora prostituição da linguagem”. Alonso lamenta que na sociedade de consumo em que vivemos a linguagem se desvaloriza como eixo civilizacional, como “limiar irrevogável da condição humana”. Alonso ressalta a importância da linguagem afirmando que “não usamos a linguagem, somos a linguagem”. Dessa maneira, a língua cotidiana de uma comunidade constitui e define essa comunidade e seus membros. Tanto para Alonso como para Giardinelli, cultivar a língua implica em cultivar uma identidade, ser o que somos.

A ideia de que a linguagem e o ser estão intimamente entrelaçados tem ilustres defensores dos quais provavelmente se nutrem Giardinelli e Alonso. Um deles é o filósofo Martin Heidegger. Segunda uma famosa formulação da “Carta sobre o Humanismo”, escrita por Heidegger, “A linguagem é a casa do ser. Em sua morada habita o homem. Os pensadores e poetas são os guardiões dessa morada”. Sob essa posição, a linguagem permite a manifestação do ser. Existimos dizendo (fazendo uso da linguagem). Como diria Aristóteles, o ser humano é o ser com razão, com linguagem. Heidegger indicaria que ao utilizar a palavra, o ser acontece, aparece, e, portanto, reside na linguagem. Daí, a preocupação de Giardinelli e Alonso por sua deterioração, pois isto causa deterioração ou ao menos o impedimento, da manifestação plena do ser. Neste sentido, Heidegger adverte que a “devastação da linguagem, que se estende por todas as partes, […] nasce de uma ameaça contra a essência do [ser humano]”, que consiste em perguntar sobre o significado do mundo que habita e seu lugar nele.

Resultado de imagem para Beckenbauer e Cruyff
Beckenbauer e Cruyff. Fonte: Wikipedia Commons.

A preocupação de Heidegger com a linguagem e com o questionamento do significado do mundo e de nosso lugar nele próprio enquanto seres humanos (ou, parafraseando-o, para permitir que sejamos livremente dispostos na clareza do ser), é uma das dimensões mais populares do seu pensamento. Não tão conhecido é seu amor pelo futebol. Segundo Rüdiger Safranski, um de seus biógrafos mais importantes, durante sua infância em Messkirch, Heidegger foi um bom ponta esquerda. De volta à sua cidade natal, e entre os anos, Heidegger ia a casa de um vizinho para ver pela televisão partidas da Copa Europa (atualmente conhecida como Liga dos Campões). Sanfranski relata uma anedota que demonstra a importância do futebol para Heidegger. Um dia ele se encontrou em um trem com o diretor de teatro de Friburgo, em cuja universidade Heidegger havia estudado e ensinado. Ele estava determinado a falar sobre literatura e teatro, mas Heidegger, impactado com uma partida internacional recente, preferia falar sobre Franz Beckenbauer. Heidegger, inclusive, tentou demonstrar a delicadeza do jovem defensor diante de seu espantado interlocutor. De fato, para Heidegger, Beckenbauer era um jogador inspirado e invulnerável.

Heidegger não considerou se o ser pode habitar no futebol. No entanto, a partir da análise heideggeriana da relação entre linguagem e ser, assim como de sua paixão pelo futebol, é possível sugerir que esse é o caso. A chave está em conceber o futebol como linguagem, como meio pelo qual tentamos responder à pergunta sobre o significado de nossa existência no mundo. O escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini se posiciona entre os que afirmam que o futebol “é um idioma com seus poetas e prosadores”. Se uma língua é um sistema de sinais – assinala Pasolini – o futebol é um sistema de sinais não-verbais. Para ele, a pessoa que desconhece “o código do futebol [seus sinais não-verbais] não entende o ‘significado’ de suas palavras (os passes) nem o sentido de seu discurso (um conjunto de passes)”. Pasolini ressalta que as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque assim são as possibilidades de combinação de passes em um jogo. A sintaxe, continua, “se expressa na ‘partida’, que é um autêntico discurso dramático”. À sintaxe, deve ser acrescentada a pragmática, pois o discurso incorporado no futebol recebe sentido apenas levando em consideração o relacionamento com os demais participantes, os espectadores e suas circunstâncias.

Muitas personalidades proeminentes consideram o futebol não apenas como um idioma, mas como um idioma ecumênico. O jornalista Jean Eskenasi sustenta que “O único denominador comum a todo o mudo, o único esperanto universal, é o futebol. É uma linguagem universal, cuja gramática não muda do Polo Norte ao Equador; que é falado em cada esquina com seu sotaque particular”. Tambén o escritor Fredrik Ekelund denomina o futebol como o “esperanto do pé”, e seu colega Mario Vargas Llosa acredita que é “o esperanto de nosso tempo”. Por sua vez, Eduardo Galeano, amante das letras e do esporte, afirma que “o futebol é um idioma universal”. Ainda que possa ser exagerado afirmar que o futebol é o único idioma universal, considerando a extensão de sua prática e o imenso apego pela mesma, não parece exagerado considerá-lo como uma linguagem ecumênica.

Como linguagem ecumênica, o futebol responde à pergunta sobre o sentido do ser e pode ser entendido como morada do ser. Damos conta de quem somos praticando futebol. Ao fazê-lo, o ser acontece, aparece e, portanto, vive no futebol. Seus poetas e prosistas – na realidade, todos os seus cultivadores e seguidores – são os guardiões dessa morada. Assim, deveríamos nos preocupar com a degradação do futebol tanto como Giardinelli e Alonso se preocupam com a deterioração da linguagem. Um futebol deteriorado e mal jogado ameaça uma maneira fabulosa de entendermos e comunicarmos, de identificarmos e de ser.

Resultado de imagem para martin heidegger
Fonte: Flickr

Essa perspectiva permite compreender completamente uma confissão de Galeano feita há mais de duas décadas em razão do jogo triste, simples e medroso que ele acreditava ter sido incentivado pela tecnocracia do futebol profissional. “Passados os anos, e em longo prazo, acabei assumindo minha identidade: Eu não sou nada mais que um mendigo do bom futebol”. Mendigava pela plena manifestação do ser por meio do futebol; reivindicava o futebol para ser plenamente. Pode-se aduzir, parafraseando Heidegger, que, para Galeano, os jogadores, através de suas (boas) jogadas, levam a manifestação de ser ao futebol e o guardam lá. Por isso, celebramos, e esperamos, o futebol de jogadores excepcionais como Lionel Messi e Marta Vieira, Kylian Mbappé e Megan Rapinoe, entre muitos outros. Eles nos lembram, com seu alto desempenho, que, novamente segundo Heidegger, a verdade de ser também se manifesta no e através do futebol. E isso sugere, ou até indica, que temos uma responsabilidade ética e estética de enriquecer a linguagem que o futebol é.

* Texto originalmente publicado em El Fúrgon no dia 3 de novembro de 2019.

**Doutor em filosofia e história do esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

**Doutor em filosofia. Professor na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park)

Tradução livre: Fausto Amaro e Marina Mantuano (LEME/UERJ)