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Abusos sexuais atingem o cenário esportivo

A falta de voz das vítimas, muitas vezes por medo da exposição pública ou mesmo de perderem a oportunidade de alcançar seus objetivos esportivos, tem se tornado um dos motivos para que a porcentagem de ocorrências de abusos sexuais tenha sido crescente. Uma das primeiras atletas a romperem esse silêncio foi Joanna Maranhão, que chocou o mundo ao relatar que foi abusada sexualmente por seu treinador.

Após os escândalos de abuso sexual na ginástica artística terem sido expostos no programa televisivo Fantástico em 2018, Joanna Maranhão voltou a falar de seu caso para o Globo Esporte (https://globoesporte.globo.com/ginastica-artistica/noticia/apos-denuncias-joanna-maranhao-lembra-abuso-na-infancia-nunca-vai-deixar-de-doer.ghtml). A ex-nadadora, que se tornou conhecida por seus feitos em Pan-Americanos e Olimpíadas, revelou em 2008 que foi molestada sexualmente pelo seu treinador quando era criança.

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Nadadora Joanna Maranhão. Fonte: Torcedores.

A atleta passou sua vida nas piscinas e acumulou muitos feitos, sendo consagrada na natação, entretanto não foi apenas alegria que a mesma teve nas piscinas, defendendo o Brasil. Abusada sexualmente pelo homem que a inspirava, seu técnico, Joanna assumiu em diversas entrevistas que tal acontecimento deixou marcas profundas em sua carreira, onde começou no Clube Português, em Recife (PE). O primeiro contato de Joanna com a natação foi aos três anos e no meio do processo se descobrindo apaixonada pelas piscinas, passou a ganhar a admiração dos pais que conjuntamente passaram a confiar muito no trabalho do treinador, Eugênio Miranda.

Com uma aproximação íntima, quase que familiar, seu técnico a molestava e a nadadora expôs que reconhecia que aquilo não era correto, mas não sabia do que se tratava e como reagir, caso comum entre diversas vítimas abusadas sexualmente. Além disso, o treinador lhe pedia para sorrir e não contar a ninguém sobre o que estava acontecendo.

Os abusos rapidamente refletiram no comportamento de Joanna, que pediu a mãe para mudar seu turno na escola, para não ficar sozinha em casa com o treinador e de treinar com um grupo maior de pessoas em um horário que os pais fossem lhe buscar, para evitar de ter de ir para casa do professor.

Joanna em entrevista para o portal Vix, em outubro de 2015, disse que aos poucos tentou contar de seu caso para seus familiares, porém a mãe não foi capaz de acreditar, dizendo que a filha estava apenas confundindo um carinho paternal, com um ato sexual, fazendo com fez com que a nadadora se sentisse culpada, acreditando que tudo que ocorrera foi sua culpa, sendo assim se sentindo suja e carregando este segredo por muitos anos.

Os abusos sofridos por Joanna Maranhão tiveram consequências maiores do que se poderia imaginar. A atleta desenvolveu depressão, síndrome do pânico, fobia ao escuro e gagueira, a nadadora tentou suicídio duas vezes. A primeira, em 2006, ela entende que tem total ligação com tudo o que viveu. “Eu estava no auge da terapia, indo à fundo nas emoções e achei que não fosse aguentar”. Já a segunda tentativa aconteceu em 2013, por problemas financeiros. “Acredito que eu nunca teria tido de fato coragem de acabar com minha própria vida. Eu queria fugir daquela sensação e tomar remédio pareceu a solução. É idiota, eu sei, mas eu me perdoo por isso, o que é o mais importante”, afirmou em seu depoimento para o site Vix (https://www.vix.com/pt/bdm/abusos-sexuais/joanna-maranhao-fala-abertamente-ao-bolsa-sobre-abusos-era-um-heroi-para-mim).

Joanna ainda disse ao Vix que nunca quis denunciar o técnico e que só se sentiu à vontade de falar sobre o assunto porque a perguntavam sobre sua queda de rendimento e suas mudanças comportamentais ao longo dos anos.

O ex-treinador, que por anos não teve seu nome exposto, ainda tentou lhe denunciar por calúnia e difamação, mas tal ato serviu para a criação da Lei Joanna Maranhão, criada em 2012, que torna possível que um adulto denuncie abusos sexuais sofridos na infância. Para se livrar da dor daquelas lembranças Joanna buscou tratamento e frequentou psiquiatras, além de tomar remédio controlado até hoje.

O caso de Joanna não foi o único a ser exposto, em 2011, Larry Nassar, médico da seleção de ginástica artística dos Estados Unidos, deixou de surgir ao mundo como o médico das grandes estrelas da ginástica artística para se tornar acusado de praticar diversos casos de abuso sexual.

O médico foi condenado a até 125 anos de prisão (mínimo de 40 anos) por diversos abusos sexuais, sendo eles molestar três ginastas do clube Twistars, dos Estados Unidos entre 2009 e 2011.

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Larry Nassar, ex-médico de ginástica artística da seleção dos Estados Unidos. Fonte: Público.

Chelsea Markham, uma das vítimas de Nassar, com dez anos tinha o sonho de tornar-se uma ginasta de topo e visitou pela primeira vez Larry Nassar, considerado um guru para todas as meninas que pretendiam iniciar carreira na ginástica artística. Chelsea foi uma das vítimas do médico, o acusando de ter colocado os dedos em sua vagina sem luvas e a fazendo lhe prometer não contar a ninguém, alegando que isso prejudicaria seu sonho. Antes dos 14 anos deixou a ginástica e entrou em uma espiral de depressão, aos 23 suicidou-se.

O caso de Chelsea é apenas um dos demais colecionados por Larry Nassar, que fez ao total 265 vítimas, sendo 140 ginastas; algumas, campeãs olímpicas de renome como Simone Biles e Gabby Douglas. Entre as vítimas, estavam meninas de 15 anos a mulheres de 40 anos.

Com a primeira condenação por pornografia infantil (60 anos de prisão) e a condenação por molestar sete mulheres no Condado de Ingham, também no Michigan (até 175 anos), Nassar soma 360 anos de condenações. Ele também abusou de atletas da Universidade de Michigan e de mulheres nos condados de Ingham e Eaton. Em seu julgamento do Condado de Ingham, a juíza Rosemarie Aquilina permitiu que todas as vítimas de Larry Nassar contassem suas histórias em depoimentos de impacto antes do anúncio da sentença. Ele estava sendo julgado por molestar sete mulheres, mas 156 se apresentaram para depor, algumas de forma anônima, outras por vídeo ou carta, mas muitas encararam o ex-médico na Corte, inclusive as campeãs olímpicas Aly Raisman e Jordyn Wieber.

O caso de Larry Nassar não só chocou ao mundo, como deu voz para que demais casos pudessem ser denunciados, como o de Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico de ginástica artística da seleção brasileira. Ele, com grande renome no esporte foi acusado de abuso sexual, por feito 42 vítimas. O ex-técnico foi responsável por treinar nomes como Diego Hypolito e Petrix Barbosa, ambos prestigiados pela ginástica artística mundialmente.  Fernando foi afastado da seleção em 2016, com um mês de antecedência das Olimpíadas do Rio de Janeiro, acusado de abusar os atletas que treinavam.

Petrix Barbosa que se consagrou como medalha de ouro pela seleção brasileira foi uma das vítimas de abusos sexual desde a infância por seu técnico, Fernando de Carvalho Lopes.

 

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Fernando de Carvalho Lopes, ex-técnico da seleção brasileira de ginástica artística. Fonte: O Tempo.

Dois anos desde o afastamento de Fernando de Carvalho e nada havia sido resolvido, entretanto muitas vítimas se pronunciaram para acusar o ex-técnico de assédio moral, agressão física e, especialmente, abuso sexual. Crimes praticados sistematicamente durante pelo menos 15 anos. O ato do ex-técnico agravou muitos problemas na vida dos jovens ginastas, mas quem expôs o ocorrido abertamente foi Petrix Barbosa, que para muitos colegas de equipe foi o mais sofreu nas mãos de Fernando, que abusou do ginasta desde seus 10 anos de idade.  Abalado com a presença de Fernando na seleção, Petrix caiu de rendimento e não conseguiu fazer parte da equipe que representou o Brasil na Olimpíada do Rio, mas o que chocou a muitos foi o fato de não ter sido Petrix a denunciar Fernando.

Segundo as vítimas, Fernando tinha um comportamento que se repetia e os que denunciaram o treinador afirmaram que uma das lembranças mais marcantes era o pedido insistente do treinador para olhar os órgãos genitais para saber como estava o desenvolvimento do corpo de cada um para mudar os treinamentos. As vítimas possuíam um perfil parecido e geralmente eram atletas mais jovens e tímidos, além de não possuírem pais presentes.

O ex-técnico buscava ter uma relação próxima com quem treinava e oferecia sua casa para viagens e marcava viagens com grupos de alunos, onde praticava seus atos obscenos. O caso que teve grande repercussão no ano de 2018, dois anos após o afastamento do ex-técnico, não teve grandes divulgações sobre o processo final, mas foi pertinente para criar novos mecanismos de denúncia contra abusos sexuais praticados por técnicos e a CBG (Confederação Brasileira de Ginástica) vai lançar em sua página um canal específico para que se apresentem relatos e denúncias de abuso e assédio sexual e outras violações ao código de ética da entidade.

Além do mais, o caso de Fernando de Carvalho propiciou que houvesse uma movimentação na Câmara dos Deputados e no Senado, em Brasília, onde a deputada Erika Kokay (PT-DF) apresentou um projeto de lei em maio de 2018 que condiciona o patrocínio de bancos públicos a times de futebol e outras associações esportivas à assinarem um termo de compromisso público com medidas para proteção de crianças e adolescentes contra abusos e todas as formas de violência sexual.

Com exigências propostas como apoio campanhas educativas, alertando para os riscos da exploração sexual e do trabalho infantil; qualificação dos profissionais que atuam no treinamento esportivo de crianças e adolescentes; adoção de providências para prevenir o tráfico interno e externo de atletas e instituição de ouvidoria para receber denúncia de maus tratos e de exploração sexual de crianças e adolescentes, essas mudanças buscam dar fim a casos de abusos sexuais, com parceria da Caixa Econômica Federal, o banco estatal que mantém os maiores contratos com clubes de futebol e entidades esportivas no Brasil.

O atual presidente do COB, Paulo Wanderley, assinou um termo de compromisso, em maio de 2018, para ações de prevenção ao abuso e ao assédio sexual e moral no ambiente esportivo. A assinatura aconteceu a três dias do Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, comemorado em 18 de maio.

O caso de Fernando de Carvalho ainda trouxe mais uma medida, onde o deputado Evandro Roman (PSD-PR) propõe criar um código de conduta no esporte para evitar abusos sexuais contra crianças e adolescentes.

Tais medidas podem tornar mais seguro o cenário onde muitos meninos e meninas se inserem tão cedo no cotidiano de treinos. É importante que os atletas tenham voz para compartilhar os seus desafios no meio esportivo e falar de suas experiências, para que possam incentivar outros jovens, que passaram por questões semelhantes, a contarem e enfrentarem seus problemas, além de ressaltar a importância de se ter um acompanhamento com profissionais especializados.

 

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Reabertura da Livraria Universitária da UERJ

Na última terça-feira, dia 8 de janeiro, a livraria que funcionava no térreo do campus Maracanã reabriu as portas, agora com a administração da Editora da UERJ. Batizada de Livraria da EdUERJ, a inauguração foi às 10h em cerimônia com participação do reitor Ruy Garcia Marques; do diretor da EdUERJ, Glaucio Marafon; e de representantes de toda a comunidade uerjiana. A livraria fica em frente ao Hall dos Elevadores, bloco C do Pavilhão Reitor João Lyra Filho.

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“El Sevilla no se vende!”: uma mobilização torcedora no futebol-negócio espanhol

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Se por um bom tempo os sentimentos de pertencimento ao clube e afeto pelo estádio conseguiram resistir à intensificação da mercantilização do futebol em meados do século passado, muito se especulou sobre a mudança drástica que viria com a transformação dos clubes em empresas. O público passaria a adotar uma relação cada vez mais distante, consumista, menos afeita ao estabelecimento dos laços comunitários que o futebol proporcionou em tantos países ao redor do mundo. Na Espanha, vinte e cinco anos não foram suficientes para atestar a validade dessa hipótese.

No final de 2018 uma ampla mobilização de torcedores comuns chamou atenção em Sevilha, capital da Andaluzia, comunidade autônoma da parte meridional da Espanha. Em seu melhor momento financeiro e esportivo em décadas, os adeptos do Sevilla Fútbol Club escolheram o jogo da equipe contra o Krasnodar pela Liga Europa , no dia 13 de dezembro, para protestar.

Antes do início da partida, os torcedores lançaram cachecóis ao campo, enquanto entoavam cantos como “El Sevilla no se vende!”; “Fuera de Sevilla, ya no te quiero!” e “Sevilla Somos Nosotros”. Ações semelhantes voltaram a acontecer no jogo seguinte, novamente dentro de casa, em partida da 16ª rodada do Campeonato Espanhol contra o Girona. Dessa vez os torcedores cercaram o Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán, reforçando os protestos que contavam com amplo apoio dos “sevillistas”. E nem a vitória em ambas as partidas foi capaz de arrefecer os ataques à diretoria.

A pauta principal era o repúdio a uma situação obscura de entrada de um novo grupo de acionistas, cuja origem era omitida pelos diretores do clube. O chamado “Sevillistas Unidos 2020” adquiriu 5% das ações do clube, obtendo o direito de participação na Assembléia dos Accionistas, ainda que não se soubesse a quem, de fato, pertenciam os investimentos. O grupo está registrado no paraíso fiscal de Delaware (EUA), e aos poucos vem sendo revelado seu paradeiro graças a investigações protagonizadas pelos próprios torcedores sevillistas.

Formada em 1992, a “Sociedade Anónima Deportiva” (SAD) do Sevilla nunca havia sido alvo de um interesse tão avançado de investidores estrangeiros, algo que já ocorreu em larga escala no futebol espanhol – com muitos resultados desastrosos ou frustrantes. Esse atual movimento de compra e venda, para além da perda do comando do clube para investidores alheios à cidade e à história do clube, coloca em risco a própria existência do Estádio Ramán Sánchez-Pizjuán, localizado no valioso bairro do Nervión, e da Ciudad Deportiva “José Ramón Cisneros Palacios”.

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 Os Acionistas de Base

Na linha de frente dos protestos estavam duas organizações de características distintas, cujas diferenças ajudam a entender tanto a proporção dessa mobilização, quanto a curiosa configuração das relações clube-torcida existentes na Espanha hoje.

Uma delas é o “Biris Norte”, grupo de ultras (espécie de torcida organizada européia), cujo nome homenageia o ídolo negro Biri Biri, atacante gambiano que jogou no clube nos anos 1970. Posicionados no fundo do gol norte, o grupo é a parte mais pulsante do estádio, e se engajou na campanha “El Sevilla no se Vende” desde o começo. O poder de mobilização e agitação da “peña” tem sido crucial para dar destaque às demandas dos torcedores.

A outra é a organização “Accionistas Unidos SFC”, uma entidade que agrega o “Pequeños Accionistas” e a “Voz del Sevillismo”, dois diferentes grupos de acionistas minoritários no movimento que busca emplacar o “Pacto Por El Sevilla FC”. Esses menores acionistas, mais de 800 indivíduos, se identificam como “acionistas de base”, de modo a destacar sua distinção perante os grandes investidores, e com isso colocarem-se ao lado dos torcedores na defesa do “sevillismo”. Para entender melhor é preciso resgatar a própria lei das SAD espanhola.

Em outra oportunidade foi tratado o caso do português Clube de Futebol Os Belenenses, que está em pé de guerra com a empresa que adquiriu a SAD que hoje comanda o futebol profissional da instituição. Aqui está uma distinção importante: em Portugual os clubes puderam se manter como acionistas da SAD, coisa que a lei espanhola de propósito semelhante não autorizava.

Com sua aprovação em 1990, todos os clubes da Espanha que estivessem com algum tipo de dívida nos cinco anos anteriores seriam obrigados à conversão até o final da temporada de 1992. Apenas Barcelona, Real Madrid, Athletic Bilbao e Osasuna escaparam da “punição”, e por isso obtiveram o direito de se manter enquanto associação civil, cujas decisões passam pelos seus “socios”.

Quanto ao outros, restaria aos torcedores comuns com relações de associação escolher entre a compra de ações, tornando-se assim um “accionista” da nova sociedade anônima; ou resignar-se na posição de “abonado” (um torcedor que pagaria por uma espécie de plano de sócio-torcedor brasileiro). Em contrapartida, diante da controvérsia criada, a Ley de las SAD foi acompanhada de normas que garantiriam a posse dessas ações por antigos sócios, a partir da delimitação dos valores. Em tese, estariam sendo evitadas compras por grandes conglomerados financeiros sobre o interesse dos tradicionais membros.

No Sevilla esse processo aconteceu de forma igual, sendo ainda mais “democrático” pela situação negativa pela qual passava o clube, com absoluta maioria das ações adquirida por sevillistas. Com o passar dos anos, de modo natural, muitas dessas ações minoritárias “herdadas” pelos antigos membros/sócios foram vendidas, formando um quadro em que cinco grandes acionistas que possuem 70% das ações. As outras 30% das ações estão espalhadas pelos acionistas que possuem cotas menores.

Desse montante de pequenos acionistas, as organizações que fundaram a “Accionistas Unidos” (AUSFC) conseguiram se mobilizar em um processo de “sindicação de ações”, isto é, de acordo de representação. Com a bandeira da defesa do estádio contra os investidores estrangeiros, o movimento atingiu quase 6% das ações do clube, conquistarando o direito de participação na Assembléia de Acionistas.

A mobilização dos acionistas de base se intensificou quando da descoberta do avançado grau de negociação das ações desses grandes acionistas, que ainda são históricas famílias de “raízes sevillistas”. A origem deles, em que pesassem os conflitos recorrentes, garantia que esses acionistas majoritários ainda gozassem de certo prestígio no conjunto da torcida e dos pequenos acionistas. O que se desfez nesse processo conflituoso.

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Alejandro Cadenas, membro do Accionistas Unidos SFC, no protesto ao redor do estádio Ramón Sánchez-Pizjuán.

“Fuera de Sevilla, ya no te quiero”

Durante a campanha de convencimento pela sindicação, a Accionistas Unidos descobriu que diversos pequenos acionistas haviam recebido propostas sedutoras. Eduardo Arenas, presidente da AUSFC, explicou em uma entrevista essa “possível venda avançada dos acionistas majoritários”: “Não queremos que o clube caia na mão do capital estrangeiro, mas os maiores acionistas estão comprando ações a 1100 euros, e isso quer dizer que possuem ofertas muito maiores”.

“Os maiores acionistas” em questão são José Castro, atual presidente, Roberto Alés e Francisco Guijarro, que formam a “Sevillistas de Nervión” (17%); a família Del Nido (27%); e a família Carrión (17%). Acredita-se que todos eles cederam ações para a entrada da “Sevillistas Unidos 2020” na Assembléia, uma vez que esse grupo misterioso já possui 6% do total.

Caso o obscuro grupo – registrado em Madri, mas instalado em um paraíso fiscal norte-americano – consiga da noite para o dia adquirir 50,01% das ações, absolutamente todos os imóveis do clube ficam à sua disposição. Isso é dizer que o terreno onde se localiza o Estádio Ramón Sánchez-Pizjuán estaria passivo de venda pelo novo grupo detentor do controle acionário.  Além dele, a Ciudad Deportiva “José Ramón Cisneros Palacios”, com uma área de 35 hectares.

Em entrevista para esse artigo, Francisco López, diretor de comunicação da AUSFC destacou: “Na Espanha a Lei não protege o patrimônio do clube nem os estádios. Um novo investidor com 51% seria dono do solo. São 128 anos de história, construídos por nossos pais e avôs”.

Vale traçar novo paralelo com a situação d’Os Belenenses de Portugal, uma vez que nem a contenda jurídica foi capaz de tirar do clube o controle do estádio do Restelo. A SAD foi constituída com regras claras quanto à sua propriedade. O investidor majoritário jamais teve qualquer poder sobre a praça desportiva, seu terreno ou sua gestão. No Sevilla não há opção aos torcedores e pequenos acionistas, senão garantir uma nova norma interna, via estatuto da S.A.

O que torna as coisas muito mais difíceis. López novamente explica: “tentamos na Assembléia de Sócios aprovar que fosse necessário 75% das ações para poder possuir o estádio e a cidade desportiva. Os grandes acionistas votaram todos contra a mudança”. A decisão dos grandes acionistas reverberou na torcida como um ato de “traição ao sevillismo”, o que gerou o que o colunista Aitor Torvisco classificou por “fratura social” e um “estado de revolta e desconfiança” irreconciliáveis.

Ainda que carente de elementos e provas mais densas, as desconfianças da Accionistas Unidos SFC são baseadas em situações concretas. Como aponta o relatório da Supporters Direct Europe, a Lei das SADs na Espanha abriu o clube para a especulação imobiliária: “o efeito real da transformação dos clubes em SADs foi que algumas pessoas endinheiradas puderam adquirir imóveis muito baratos nos centros das cidades. Alguns deles se apressaram para vender os terrenos após seu zoneamento como áreas de construção residencial ou empresarial pela respectiva prefeitura”.

O relatório em questão também destacou que esses terrenos não puderam ser usados como patrimônio para evitar que os clubes fizessem sua conversão compulsória em SADs, já que foram considerados apenas seus valores originais de aquisição, praticamente insignificantes. Hoje, no entanto, são extremamente significantes, ao ponto de uma gigante rede de lojas de departamento estar de olho, como a norte-americana Macy’s. É esse o grande investidor que, supõe-se, estaria por trás do “Sevillistas Unidos 2020”.

A luta dos torcedores do Sevilla hoje passa pelo processo de “blindagem” dos imóveis do clube por outras vias, visto que a Assembléia de Accionistas não foi o suficiente. Francisco López contou que a estratégia agora é apelar para as instituições públicas, buscando de algum modo inserir o estádio e o centro de treinamento em planos diretores urbanísticos, com outorga de um espécie de título de patrimônio histórico da cidade, como ocorre a tantos outros edifícios.

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Caso à parte ou caso à frente?

A experiência do Sevilla – e de muitos outros clubes espanhóis – é significativa para aqueles que acompanham mais de perto os conflitos relacionados a processos de mercantilização do futebol e as consequentes reações torcedoras. Mesmo possuindo o caráter de sociedade anônima há mais de 25 anos, o clube não foi “entregue” pelos torcedores, que hoje formam, direta ou indiretamente, um fronte de batalha pelos seus interesses.

Impedidos de serem reconhecidos como “associados” – algo ainda comum no Brasil e Argentina, em distintos graus, como foi tratado de forma comparativa no texto sobre a Lei das SAD argentina  – os torcedores sevillistas buscam manter a todo custo as suas participações acionárias, que se tornaram uma espécie de “herança familiar” do vínculo com a instituição.

Ainda que em uma chave mercantilizada, ser um “acionista de base” se formou enquanto uma espécie de reinvenção das formas de pertencimento clubístico, reverberando, inclusive, enquanto legítima representatividade para os torcedores que não dispõem desse artifício, ou que precisaram se desfazer dos mesmos. Como expresso em diversos documentos dessas organizações, e em uma publicação do grupo “Voz del Sevillismo”, eles são “acionistas sin interesses, sevillismo puro y duro”.

Em um momento de maior risco, foram os acionistas de base que se mobilizaram, dentro dos limites possíveis, para garantir que o seu histórico estádio “dos pais e dos avôs” não fosse perdido. Um caso à parte de luta torcedora, com características muito interessantes, que apontam, talvez, para os desafios que virão mesmo após a disseminação aparentemente implacável da empresarização dos clubes em todo o futebol.

Esses grupos possuem uma relação de diálogo com a Federación de Accionistas y Socios del Fútbol Español (FASFE), uma organização que busca levar os debates da Supporters Direct Europe para o futebol da Espanha. Assim como se vê em outros países, essas entidades buscam reestabelecer as relaçoes torcedores-clubes com base nas características locais, analisando o histórico de constituição das leis de empresarização dos clubes.

Para além da defesa dos “acionistas de base” como parte constituinte de um plano de boa governança no futebol, essas organizações buscam reverter a venda dos clubes para imensos grupos estrangeiros mobilizando a favor da “fan ownership” (controle dos torcedores). Um processo controverso, com um difícil debate que envolve o investimento de recursos familiares de torcedores comuns, com o reforço do pertencimento clubístico e do afeto pelo estádio.

Com um futebol cada vez mais custoso aos clubes, com pagamento de altíssimas remunerações aos atletas, e com uma inflação galopante – provocada por investidores estrangeiros sem perspectiva de lucros, que gastam muito mais do que arrecadam, mas com benefícios em termos de capital social – processos de resistência como o do Sevilla apresentam um limite em uma batalha desigual.

Por outro lado, também podem estar significando, na defesa dos clubes e dos estádios, um rico processo de construção de autênticos espaços coletivos e de solidariedade, em meio à voracidade do dinheiro e do imperdoável mundo dos negócios. O “sevillismo puro y duro” apresenta uma alternativa, uma reversão, uma nova abordagem dentro da máquina da indústria do futebol.

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O Seminário “Mídia e memória dos clubes de futebol brasileiros”, organizado pelo Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte, realizado no último dia 26, contou com a presença de graduandos e pós-graduandos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Esse evento recebeu representantes do Club de Regatas Vasco da Gama, do Esporte Clube… Continuar lendo Seminário organizado pelo LEME contou com a presença de graduandos e pós-graduandos da UERJ

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