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O jormachismo esportivo precisa entrar em pauta

O Esporte Espetacular, da Rede Globo de Televisão, exibiu durante os domingos 10[1] e 17[2] de janeiro de 2021 uma série de reportagens assinada por Henrique Arcoverde e produzida por Amanda Kestelman, Bárbara Mendonça e Renata de Medeiros sobre a Violência contra mulher. Ainda antes do início da matéria, a apresentadora Bárbara Coelho contextualizou o cenário nacional de violência contra a mulher no Brasil mostrando como acusações de agressões, estupros e assassinatos têm aparecido no cenário do futebol brasileiro.

O assassinato de Eliza Samúdio foi lembrado e ilustrado com uma fala do, então, goleiro do Flamengo Bruno Fernandes, em 2010, naturalizando agressões entre casados. A agressão do, atualmente, goleiro do Atlético GO, Jean, sobre a ex-mulher Milena Bemfica, em 2019, também apareceu na matéria. Apesar de ter seu contrato suspenso com o São Paulo, o goleiro seguiu atuando na série A do Campeonato Brasileiro. A ex-esposa criticou que seu agressor possa seguir sua trajetória futebolística como se nada tivesse acontecido.

A matéria argumentou que o caso Robinho marcava um novo momento na relação entre o futebol e a violência contra a mulher. O jogador condenado na Itália por violência sexual de grupo, em 2017, foi contratado pelo Santos, em 2020, enquanto aguardava julgamento de recurso. A divulgação de escutas telefônicas de conversas do jogador sobre o episódio com seus amigos fez com que torcida, imprensa e, especialmente, patrocinadores pressionassem o clube que suspendeu o contrato do jogador condenado novamente em dezembro de 2020 ainda tendo um último recurso na justiça italiana disponível.

No segundo domingo de apresentação da matéria, além de uma rápida definição sobre o que seria “ser homem”, a reportagem questionou a importância da intervenção nos clubes em que muitos postulantes a atletas acabam convivendo em ambientes de pouco contato com a diferença de gênero dificultando a criação da empatia nas relações com as mulheres. Existiu certo consenso na fala dos entrevistados e das entrevistadas na responsabilidade das instituições em procurar criar um ambiente que permita o surgimento de outro tipo de masculinidade desde as categorias de base.

A narrativa da reportagem encerrou apostando na necessidade de uma maior valorização da presença das mulheres no futebol com cargos de destaque. Se evidencia como hipótese que uma maior presença de mulheres permite a criação de espaços com menos machismo. Regiani Ritter, repórter de campo na década de 1980 e 1990, lembrou que ao contrário dos homens que tinham seus erros transformados em piadas, os erros dela eram associados a seu sexo/gênero seguido das ordens de retorno ao fogão ou à cozinha. A árbitra FIFA Edina Alves, que será a primeira mulher da história a apitar uma partida do campeonato mundial de clubes de futebol masculino em 2021, afirmou que ainda tem seus erros justificados por ser uma mulher.

Me parece muito importante que um programa tão relevante de nosso jornalismo esportivo consiga pautar temas tão urgentes em nossa cultura. Nas linhas que seguem, porém, quero pensar o quanto esse mesmo jornalismo esportivo, entendendo-o como espaço de disputa e não como um espaço homogêneo, ajuda a construir essa narrativa masculina e machista no ambiente do futebol de espetáculo jogado por homens em nosso país.

Com Arlei Damo (2006) entendo que o futebol de espetáculo pode ser dividido em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os mediadores especializados são os profissionais que trabalham na espetacularização do futebol e produzem narrativas sobre os eventos futebolísticos. Eles podem ser profissionais da comunicação ou ex-atletas e ex-dirigentes que teriam a função de “explicar” os eventos para o público que, de alguma forma, não seria “apto” a lê-los sozinho. Esses mediadores, apesar de suas diferentes origens, são chamados, costumeiramente, de cronistas esportivos e são os principais atores do que se pode nomear de jornalismo esportivo ou de imprensa esportiva.

As narrativas construídas pelo jornalismo esportivo produzem significados diversos e ampliam o fenômeno futebolístico. Segundo as teorias literárias e culturais, as narrativas possuem centralidade na cultura. São as histórias que nos permitem entender as coisas e pensar no mundo e em nossas vidas como certa progressão lógica que leva a algum lugar (CULLER, 1999). As narrativas possuem a potencialidade de nos ensinar diferentes pontos de vista e de entender as posições dos outros. Ao mesmo tempo, as narrativas policiam autorizando ou desautorizando a construção de significados, por exemplo, sobre a masculinidade.

No primeiro domingo de exibição, a reportagem lembrou a acusação de 4 ex-jogadores – Henrique, Fernando, Eduardo e Cuca (atual treinador do Santos) – do Grêmio que em uma excursão à Europa, em 1987, mantiveram relações sexuais com uma menina de treze anos. O jornalista Cláudio Dienstimann que acompanhou a excursão reconheceu, passados mais de trinta anos, que, infelizmente, a cobertura não pensou no ponto de vista da menina agredida. Segundo ele, o foco da reportagem era ver os atletas em liberdade para retornarem ao Brasil. A reportagem lembrou que a época parte da torcida apoiou a atitude dos jogadores. Podemos ler esse apoio em um diálogo muito estreito entre clubismo e machismo, não necessariamente nesta ordem. Carmen Rial lembrou que a imprensa esportiva gaúcha fez o mesmo. Junto com Miriam Grossi ela publicou um texto na revista Mulherio em que mostrava algumas das impressões dos torcedores e da imprensa gaúcha naquela oportunidade. Acompanhando o retorno dos quatro agressores, elas afirmaram que a “crônica esportiva (…) conseguiu em um mês transformar os quatro acusados de crime em vítimas de um ‘juiz nazista’ e o estupro de uma menina de 13 anos por três dos jogadores em uma ‘travessura’ inconsequente” (1987, p. 3). Em uma das falas, o jornalista Lauro Quadros tentou “ensinar” para o público o que poderia se imaginar ser certo consenso cultural da época (ou ainda estaria entre nós?):

(…) eu sou pai, você que é mãe ou pai vai me entender, não é a mesma coisa um filho ou uma filha. Todo pai quer que o seu filho fature todas as meninas do bairro, quer que ele seja o garanhão da turma. Já com a filha é diferente. Não se deve culpar os rapazes do Grêmio por terem feito o que todo pai gostaria de ver o seu filho fazer (GROSSI; RIAL, 1987, p. 4).

Em 2020, o ex-jogador Caio Ribeiro, hoje comentarista esportivo, se autorizou a dar o “benefício da dúvida” a Robinho afirmando que apenas a justiça deveria julgá-lo. Aparentemente ele não se sentia confortável em criticar a conduta do jogador, naquele momento já condenado em primeira instância. Após acesso a novas reportagens o comentarista modificou sua percepção: “Na hora que eu vejo, ainda mais eu que tenho uma filha menina, a forma como ele se dirige à vítima, a forma baixa como ele fala do estado da menina… Cara, me caiu mal. Me deu dor de estômago”[3]. Curiosamente o reforço de seu posicionamento aparece na sua posição enquanto homem, pai de menina. A percepção de violência ainda aparece na relação entre homens. A lógica dessa justificativa que aproxima a agressão de um homem ao sofrimento de outro homem, pai de menina, não estabelece a plenitude da humanidade para as meninas ou mulheres. Se ele não fosse pai de uma menina, não seria possível criar empatia e condenar a violência contra mulheres?

Muito mais do que as opiniões sobre casos de violência extrema, o problema de nosso jormachismo esportivo está em suas ações cotidianas. Ele vai da absurda defesa do comportamento machista de um treinador como realizada por Maurício Saraiva:

Guto Ferreira gosta de mulher, é casado, não sei se tem filha, mas certamente não tem nada contra mulheres. (…). O mundo da bola ainda é assim. Muito homem junto, mulheres recém começando a ocupar a arquibancada e muitas ainda mais atentas ao bonitinho do que ao bom jogador. Também as mulheres estão na transição de gostar do futebol pelo futebol, capazes de ir ao futebol sem marido, amigo ou namorado. Então, todos em aprendizado. [4]

E também é alimentado pelas “brincadeiras” do Carlos Cereto que pergunta sobre novela para Ana Thaís Matos[5], o Peninha Bueno mandando a Eduarda Streb[6] voltar para a cozinha… Escondidas atrás de “piadas”, essas manifestações dão pouca margem para que a violência apareça. Para as ofendidas acaba sendo oportunizado apenas o lugar de mal humoradas. Nas redes sociais os torcedores cobram engajamento de jornalistas mulheres que “ousaram” reclamar do machismo em alguma oportunidade ao mesmo tempo em que o silêncio dos jornalistas homens não é colocado em questão.

Após classificar o Grêmio para final da Copa do Brasil nesse interminável 2020, Renato Gaúcho – machista quando perde “até mulher grávida faria gol na gente” – voltou a fazer uma manifestação machista, desta vez após uma vitória. Questionado sobre ter menos posse de bola que o adversário, Renato contou uma “historinha”:

Teve um cara que pegou uma mulher bonita e levou ela para jantar. Levou para jantar à luz de velas, conversou bastante. Saiu do restaurante, foi na boate e ficou até às 5 horas da manhã com ela. Gastou uma saliva monstruosa. Aí, na boate, chegou um amigo meu, conversou com ela 15 minutos e levou ela para o motel. Entendeu? Se não entendeu outra hora eu explico. Meu amigo ganhou o jogo [7]

Para Cosme Rímoli, do R7, “Este é Renato Portaluppi, finalista da Copa do Brasil 2020…”[8]. Na conta do Instagram do Fox Sports Brasil a fala foi acompanhada de risos:

No Programa Redação Sportv, o apresentador Marcelo Barreto chamou a jornalista Renata Mendonça para tentar entender se a escolha das palavras de Renato foi boa ou ruim. Renata reforçou como a frase do treinador objetificava as mulheres ao definir que o objetivo dos homens seria apenas levá-las ao motel mostrando que a única importância da mulher seria satisfazer o homem, e pelo exemplo do treinador, sexualmente. Ela reforçou que não seria possível “inverter” a “piada” uma vez que os homens, em nossa cultura, não são entendidos como objetos para satisfação dos desejos das mulheres[9]. Ao mesmo tempo em que é bastante produtiva a participação das mulheres nessa discussão, essa metodologia acaba desconvocando os homens para o debate sobre o machismo. Um homem não seria qualificado para ver o machismo presente nesta manifestação?

A frase de Renato parece fazer tanto sentido dentro da lógica desse jormachismo esportivo que a conta do Instagram da Fox Sports Brasil já a replicou ao ilustrar a vitória de uma equipe com menor posse de bola.

Situações como essa mostram que esse machismo atravessa as narrativas do futebol de espetáculo no Brasil. Frases como a de Renato, Lauro Quadros, Caio Ribeiro, Carlos Cereto, Peninha Bueno e tantos outros não são atitudes individuais de sujeitos desajustados. Ao contrário, elas fazem sentido nessa péssima lógica machista da nossa cobertura esportiva.

Esse é mais um espaço de enfrentamento contra as desigualdades de nossa cultura. Pautar esse jormachismo esportivo é urgente. E ela é uma luta de todos os que militamos neste espaço como profissionais, pesquisadores e torcedores. Nós, homens, não temos o direito de terceirizar o protagonismo deste enfrentamento às mulheres. Precisamos nos posicionar ao lado delas nesta trincheira e não podemos abrir mão de agir quando situações como essa, infelizmente, se repetirem.


[1] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/9166660/. Acesso em 23/01/2021, às 13h34.

[2] Disponível em: https://globoplay.globo.com/v/9185792/. Acesso em 23/01/2021, às 16h44.

[3] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sp/santos-e-regiao/futebol/times/santos/noticia/caio-ribeiro-fala-sobre-o-caso-robinho-tem-que-pagar-como-qualquer-outra-pessoa.ghtml. Acesso em 24/01/2021, às 9h32.

[4] Disponível em: http://globoesporte.globo.com/rs/blogs/especial-blog/vida-real/post/guto-e-mulheres.html. Acesso em 24/01/2021, às 11h22.

[5] Disponível em: https://www.lance.com.br/fora-de-campo/ana-thais-matos-incomoda-com-pergunta-machista-apresentador.html. Acesso em 24/01/2021, às 11h13.

[6] Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2018/04/27/peninha-pede-desculpas-apos-piada-machista-e-comentarista-chora-ao-lembrar.htm. Acesso em 24/01/2021, às 11h16.

[7] Disponível em: https://esportes.r7.com/prisma/cosme-rimoli/renato-compara-posse-de-bola-a-pagar-jantar-e-nao-levar-mulher-ao-motel-31122020. Acesso em 24/01/2021, às 11h31.

[8] Ver nota anterior.

[9] Disponível em: https://globoesporte.globo.com/sportv/programas/redacao-sportv/video/renata-mendonca-sobre-fala-de-renato-nao-seria-nem-engracado-se-ele-fizesse-o-contrario-9143513.ghtml. Acesso em 24/01/2021, às 11h56.

Referências:

CULLER, Jonathan. Teoria literária – uma introdução. São Paulo: Beca Produções, 1999.

DAMO, Arlei Sander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, Simoni Lahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

GROSSI, Mirian; RIAL, Carmem. Os estupradores que viraram heróis. In: Mulherio. Fundação Carlos Chagas, outubro 1987, p.3-4.

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A NBA e a cesta de Joe Biden

Nesta quarta-feira, dia da posse de Joe Biden em Washington, Donald Trump descumprirá a tradição democrática de comparecer à cerimônia. Assim como no momento em que perdeu a reeleição em novembro, Trump provavelmente estará jogando golfe. A predileção pelas tacadas, no entanto, não é uma característica meramente pessoal do quadragésimo quinto presidente do país.

Com os perfis tão antagônicos de Biden e Trump, a eleição do ano passado expandiu o abismo entre os dois Estados Unidos: o progressista e o conservador. E é possível afirmar que a segregação característica da cultura americana está presente também nas quadras e nos gramados.

Portanto, em meio à polarização, nada mais sintomático que o presidente mais à direita da história pratique o esporte comprovadamente mais conservador dos Estados Unidos.

Biden, à esquerda, observa pontapé inicial de partida de basquete. Trump, à direita, joga no seu campo de golfe em Bedminster, no estado de Nova Jersey

O gráfico abaixo é de 2019, um ano antes da eleição, faz parte de uma pesquisa de mercado da consultoria especializada “Statista” e relaciona as preferências políticas e esportivas dos americanos. No eixo horizontal, quanto mais uma modalidade está à direita, mais inclinados ao Partido Republicano são os torcedores e praticantes. Quanto mais uma modalidade está à esquerda, mais inclinada ao Partido Democrata. No eixo vertical, quanto mais acima a modalidade está, maior o engajamento dos fãs na hora de votar. E quanto mais abaixo estiver a modalidade, menor participação em votações. O tamanho de cada círculo representa proporcionalmente a quantidade de torcedores que acompanham e praticam cada esporte. O golfe masculino, de Trump, está representado por um círculo vermelho no canto superior direito, ou seja, é o que está mais inclinado aos Republicanos e com o segundo maior comparecimento às urnas, perdendo apenas para o golfe feminino.

A Associação de Golfistas Profissionais dos EUA tem a menor proporção de atletas e espectadores na faixa dos 20 e 30 anos. Fonte: Statista

Porém nada se compara em visibilidade ao tamanho da NFL, a liga de futebol americano, que detém as maiores audiências e receitas no país. Os brancos são 77% dos torcedores que vão a estádios e assistem aos jogos na TV mesmo com um significativo número de jogadores negros. A explicação é que muitos destes atletas não jogam nas posições de destaque nos times, como quarterbacks. Aqueles com mais de 55 anos são 37% dos fãs; 34% tem entre 37 e 54. Apenas 29% são jovens, com menos de 37 anos. Há portanto um perfil sociocultural que, em geral, se comporta como “conservador” e “nacionalista” nas eleições.

Não foi à toa que Trump reclamou quando um jogador negro se ajoelhou durante o hino americano em uma partida da NFL em 2017 (vídeo abaixo). O presidente pediu a demissão de Colin Kaepernick, que atuava no San Francisco 49ers, pela atitude em repúdio à violência policial contra negros. E desde então, Kaepernick está desempregado por ter “incomodado” torcedores e dirigentes brancos e conservadores.

O episódio evidenciou como Trump poderia ganhar apoio junto aos fãs da bola oval na corrida pela reeleição, dada a influência midiática que o esporte possui no maior mercado consumidor do planeta.

Porém, após o assassinato de George Floyd, os protestos antirracistas viraram o jogo. Outra liga, a de basquete, entrou em quadra com uma série de iniciativas de marketing sem precedentes no esporte mundial contra o racismo e já esquentando o clima para a campanha presidencial que começaria nos meses seguintes.

A NBA já era o campeonato cujos fãs são mais inclinados a votarem no Partido Democrata. A audiência é notoriamente a mais diversa entre as grandes ligas dos Estados Unidos, como mostra o gráfico abaixo. Além disso, no início da temporada 2018/2019, mais de 33% das equipes da NBA tinham treinadores negros; 42% delas assistentes técnicos negros; três assistentes eram mulheres. Quanto aos atletas, 81,9% eram negros na temporada passada.

Distribuição da audiência da NBA conforme (de cima para baixo) gênero, idade, raça e renda. Fonte:The Atlantic

Como mostra o primeiro gráfico no início do texto, o grande “vacilo” dos fãs da NBA em 2016, em especial entre os negros, foi o baixo engajamento nas eleições daquele ano, reproduzindo um comportamento semelhante aos eleitores democratas naquela eleição, em que a candidata Hillary Clinton foi derrotada por Trump. O índice de comparecimento em 2016 foi de 52,18%, o menor em eleições presidenciais desde 2000. Já quando Barack Obama foi eleito pela primeira vez, em 2008, a comunidade negra compareceu em massa, garantindo participação de 61,6% dos eleitores.

O desafio era estimular o voto entre os eleitores negros e democratas. O contexto era favorável: Biden tinha apelo entre os afroamericanos por ter sido vice de Obama, o movimento “Black Lives Matter” chegava ao auge de visibilidade no mundo e craques como Lebron James estavam mais politizados que nunca.

Ameaçada pela pandemia de Covid-19, a temporada 2019–2020 continuou em quadras onde se passaram a ler as palavras “Vote” e “Justice”. Jogadores vestiam camisas com a inscrição “Vidas negras importam” nas costas, no lugar dos seus nomes.

Na eleição, Biden se tornou o candidato mais votado em dois séculos de disputas presidenciais nos Estados Unidos. Negros e habitantes das metrópoles votaram em maior número, pelo correio ou presencialmente, o suficiente para Biden por fim ao período mais sombrio da política do país oficialmente hoje. Uma jogada arriscada em que foi preciso driblar os brutamontes do futebol americano e não ser atingido por uma bola de golfe, mas que recebeu de bandeja a contribuição do melhor basquete do mundo. Cesta.

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Grandes nomes da academia e do jornalismo homenageiam os 30 anos do livro “O que é sociologia do esporte”

Em 2020 o LEME teve o orgulho e a alegria de comemorar os 30 anos do livro “O que é sociologia do esporte” escrito pelo nosso coordenador Ronaldo Helal. Lançado em 1990, o livro foi uma das primeiras fontes acadêmicas e da literatura em geral a abordar o assunto. Entendendo o esporte como um importante fenômeno sociológico a ser investigado, Ronaldo traz conceitos e reflexões que nos propõem a pensar o esporte para além do senso comum. Ao longo dos seis capítulos que compõem a obra, somos convidados a entender as dimensões e a importância das práticas esportivas para a sociedade. Interagindo com o leitor, Helal trabalha com metáforas e exemplos que nos fazem vivenciar o livro de uma maneira diferente. Lúdico, mas compreensível, fazemos uma verdadeira viagem para dentro do mundo do esporte. Para tornar essa data ainda mais especial, convidamos grandes nomes da academia e do jornalismo esportivo para homenagear Helal e sua obra, ressaltando a importância do livro dentro do universo do esporte. Victor Andrade de Melo, Arlei Damo, Juca Kfouri, Márcio Guerra, Bernardo Buarque de Hollanda, Vivian Fonseca, Pablo Alabarces, Leda Costa, Rosana Teixeira e Marcelo Barreto enviaram suas mensagens para a gente.. Vocês podem conferir essa homenagem no nosso último episódio do Passes e Impasses ou, na íntegra, no vídeo disponível abaixo. Você também pode encontrá-lo no nosso canal do YouTube.

Vídeo em homenagem aos 30 anos do livro “O que é sociologia do esporte”
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O fim da marca “Esporte Interativo” como expansão da Warner Media na América Latina

Em 8 de janeiro, Rodrigo Mattos informou em sua coluna do UOL: “Warner faz mudanças e troca marca Esporte Interativo por TNT Sports”. Por um lado, isso fecha a história de uma proposta inovadora para transmitir esportes e interagir com o público. Por outro, demonstra diferentes movimentos de mercado, em expansão para outros países, mas com poucos agentes na disputa.

No final de 2016, publiquei um artigo com César Bolaño na Revista Chasqui em que apresentamos o histórico do Esporte Interativo a partir de duas estratégias: a aposta em conteúdos regionalizados, com grande destaque para a volta da Copa do Nordeste, em 2013; e a captação de recursos com agentes estrangeiros, com uma parceria inicial de conteúdo com o Yahoo! e a posterior venda para a Turner, completada em 2015 e tendo como marco a aquisição dos direitos de transmissão da Uefa Champions League.

Fonte: Meio e Mensagem

Naquele momento, indicamos que para ser um forte agente na TV fechada era necessário ter mais recursos para disputar os direitos de transmissão de outros torneios e isso só poderia ocorrer com grande captação de recursos que só se daria a partir de uma venda para conglomerado estrangeiro. Para a Turner, foi uma forma de “entrar no mercado brasileiro com uma estrutura já pronta, ainda que por ser melhorada, e com uma marca já conhecida pelo público” (SANTOS; BOLAÑO, 2016-2017, p. 293).

Criado em 2004 a partir de uma empresa que atuava com futebol desde 1999 (a Top Sports), o Esporte Interativo era até então um agente periférico do mercado de TV fechada, sem estar nas duas principais distribuidoras (Net e Sky) – mas com captação satelital –, que apostava em torneios que não recebiam interesse dos concorrentes principais e em mecanismos de aquisição de recursos em novas aplicações tecnológicas de interação com o público – do SMS num clube de pontuação ao aplicativo de streaming EI+Plus.

A Turner já colocou naquele momento algumas partidas do torneio europeu em seus canais TNT e Space, com presença nos pacotes básicos de TV fechada. Em 2016 o EI conseguiria entrar nas distribuidoras líderes de mercado. Além disso, o segundo ano de aquisição marcava a disputa com o Grupo Globo pela transmissão em TV fechada do Campeonato Brasileiro, aproveitando a negociação individual, para transmitir alguns jogos da Série A a partir de 2019. No final do ano, a aquisição da Time Warner pela AT&T, empresa de telecomunicações, com mudança de nome para Warner Media, sinalizava possíveis alterações de atuação – inclusive por limitações regulatórias, pois a empresa estadunidense de telecomunicações é uma das proprietárias da Sky, o que configuraria propriedade cruzada (SANTOS; BOLAÑO, 2016-2017).

Fonte: tntsports.com.ar

Enquanto isso, a Turner ampliou a atuação na América Latina. Em 2017, adquiriu com a Disney (Fox Sports) os direitos de transmissão do Campeonato Argentino e da Supercopa Argentina, criando o canal TNT Sports, que transmitiria também a Copa do Mundo FIFA Rússia 2018. No final daquele ano, adquiriria ainda o “Canal del Fútbol” (CDF), canal de TV fechado existente desde 2003 no Chile, podendo transmitir os torneios organizados pela associação de futebol do país.

Como a marca Esporte Interativo foi mudando

Em termos de formato utilizado, os canais Esporte Interativo mantiveram o padrão tecnoestético que o diferenciava no mercado, com narração que tentava ser mais emocionante – o que gerou o apelido de “Esporte Interagrito” – e diferentes tentativas de interação com o público, com grande atuação nas mídias sociais, fazendo a primeira transmissão pelo Facebook. No conteúdo, a aposta passou a ser a UEFA Champions League, considerado como premium, enquanto Copa do Nordeste, Copa Verde, campeonatos estaduais nordestinos e Séries C e D do Brasileiro seguiam no pacote, mas com menos atenção que outrora.

Mudança mais significativa se deu a partir de agosto de 2018, quando foi anunciado o fim dos canais Esporte Interativo, em que pequena parte do conteúdo esportivo migraria para a TNT, canal dedicado a filmes da Turner. Sobreviveu apenas o conteúdo premium, UEFA Champions League e o Campeonato Brasileiro a partir de 2019 e programas pós-jogos, gerando demissão em massa e diminuindo a quantidade de agentes no mercado – com a fusão do Fox Sports com a Disney acentuando isso.

Ainda que o formato de conteúdo seguisse o que foi construído ao longo da marca Esporte Interativo, desde as transmissões alugadas em canais de TV aberta no início dos anos 2000, particularmente eu já estranhava que mantivessem o símbolo do eI ao lado da TNT, além da sua manutenção nas mídias sociais – com alguns programas que tinham migrado para o Youtube com o tempo se tornando canais à parte na plataforma.

Fonte: Meio e Mensagem

Segundo Mattos (2021), a nova marca TNT Sports surge no Brasil dentro de uma proposta panregional, a partir da criação da Warner Media Latin America. Além do Esporte Interativo, o CDF, no Chile, também mudará para o nome em comum. Ainda que tenha se dado agora, repete-se uma estratégia de canais como ESPN e Fox Sports, cujas marcas são unificadas para todos os países em que as empresas atuam.

Cenário de mercado

Se a TV fechada no Brasil viveu um aumento de assinantes do final dos anos 2000 até 2014, de lá para cá os números só apresentaram queda. O cenário econômico no país, com número considerável de pessoas desempregadas, é uma das justificativas mais claras. Por outro lado, o aumento de oferta de blocos de conteúdo audiovisual em separado, gera diferentes prioridades de consumo, para quem pode pagar. Acentua-se isso com a autorização, desde julho de 2020, para a oferta de canais da TV fechada de forma separada na internet, a partir do caso do Fox+ – ver mais em Amaral (2020).

A venda de conteúdo pago pela internet teve crescimento com a quarentena causada pela Covid-19. Sem a possibilidade de público nos estádios, a transmissão audiovisual por um veículo de comunicação torna-se a única forma de acesso possível ao conteúdo esportivo. Ou seja, o momento de oferta de conteúdo audiovisual poderia ser o mais favorável, dadas as restrições à oferta presencial de entretenimento.

Entretanto, isso não deve desconsiderar os problemas econômicos individuais – como mostra o recuo na venda de pay-per-view pela Premier League em novembro do ano passado; e os problemas econômicos agravados com a pandemia, que fizeram com que Globo (Copa do Mundo, Libertadores e Fórmula 1) e Record (Jogos Panamericanos) reconsiderassem contratos de transmissão por causa do valor do dólar; e DAZN (campeonatos europeus de futebol e reestruturação global) e Mediapro (campeonato francês) diminuíssem a atuação em vários mercados, interrompendo acordos.

Neste mesmo blog, em outubro de 2019, apontei que vivíamos um processo de mudança no mercado e que era difícil ver o final disto. A pandemia colocou mais problemas para os agentes em disputa, amplificando até a quantidade de empresas a ofertarem conteúdo gratuito, mas com a centralização de alguns mercados sob pagamento (casos da TV fechada e da oferta pela internet), com a Amazon surgindo por duas frentes ainda em fases iniciais: Prime Video e Twitch (com a transmissão de Athletico X Vasco no Brasileirão).

Com redução das limitações da transmissão ao vivo com a internet 5G e um cenário de recuperação econômica pós-pandemia ainda distantes, a vantagem de guiar o mercado de transmissão de futebol seguirá, em curto prazo, com grandes agentes em termos de potencial financeiro e com os líderes de mercado.

Referências

AMARAL, Bruno do. Anatel decide que canais lineares pela Internet são SVA. Teletime, Brasília, 9 set. 2020. Disponível em: <https://teletime.com.br/09/09/2020/anatel-decide-que-canais-lineares-pela-internet-sao-sva/&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

MÁQUINA DO ESPORTE. Premier League desiste de pay-per-view e jogos voltam para a BBC e Amazon. Máquina do Esporte, São Paulo, 13 nov. 2021. Disponível em: <https://maquinadoesporte.com.br/futebol/premier-league-desiste-de-pay-per-view-e-jogos-voltam-para-a-bbc-e-amazon&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

MATTOS, Rodrigo. Warner faz mudanças e troca marca Esporte Interativo por TNT Sports. UOL, São Paulo, 8 jan. 2021. Disponível em: <https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo-mattos/2021/01/08/warner-acaba-com-marca-esporte-interativo-canal-se-chamara-tnt-sports.htm&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

SANTOS, Anderson. Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil? Comunicação, Esporte e Cultura, Rio de Janeiro, 17 out. 2019. Disponível em: <https://comunicacaoeesporte.com/2019/10/17/qual-o-estagio-das-transmissoes-de-futebol-no-brasil/&gt;. Acesso em: 11 jan. 2021.

SANTOS, Anderson David Gomes dos; BOLAÑO, César Ricardo Siqueira. Las estrategias de mercado de Esporte Interativo: regionalización y capital extranjero en la televisión brasileña. Chasqui, Revista Latinoamericana de Comunicación, n. 133, p. 283-296, dez. 2016-mar. 2017.

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E que venha uma narrativa mais diversa em 2021

Desde os tempos mais remotos, povos de diferentes culturas procuraram dar sentido às experiências utilizando as narrativas orais. E, a partir dessas narrativas, as identidades se constituíram. No campo do esporte e, mais especificamente do futebol, também foi assim. O imaginário do futebol brasileiro foi construído de gol em gol, narrados em épicas batalhas no meio de campo sob a influência de vários gêneros, inclusive textuais.

Em todas as narrativas estavam presentes elementos como espaço, tempo, enredo, personagens e narrador. A partir da necessidade de eternizar lances, dribles e gols, o narrador passou a atuar como uma espécie de mediador, cuja perspectiva e ponto de vista ajudam a construir a história do futebol.

É através da narrativa oral e sincrônica do locutor esportivo, aquela que atribui significado às partidas de futebol através das vozes usadas em diferentes tons, ritmos e pausas que a trama se desenvolve. No entanto, o tempo dessa história é marcado por espaços físicos e psicológicos diferenciados. Mas sempre com a presença observadora e onisciente da figura do narrador. Não como protagonista, mas como entidade responsável por dar ritmo às ondas sonoras que tecem em capítulos a história do futebol.  Entre essas vozes e os milhões de receptores das narrativas estão os meios de comunicação, hoje cada vez mais imbricados. No fim do ano passado, li a notícia da contratação da narradora Renata Silveira pela Globo e fiquei pensando na importância dessa ocupação pelas mulheres ainda que paulatina de espaços ainda marcados pelo machismo estrutural da sociedade. Renata se juntou a uma equipe que já incluía mulheres comentaristas e tem uma oportunidade de ouro de ser porta-voz de uma nova narrativa no futebol que traga um olhar mais diverso e inclusivo.  Na torcida para que esse nicho seja explorado por outras narradoras e para que bons ventos continuem soprando em favor das mulheres em outras áreas,  como a da arbitragem, em 2021.

Fonte: UOL

Ao longo dos anos os locutores foram porta-vozes de muitos discursos, inclusive de um muito presente no futebol que enfatiza o caráter “nacional” do esporte, uma associação que começou lá atrás com o rádio, no período entre guerras.  Na época, a BBC, com seu monopólio de transmissão se tornou um órgão central da cultura britânica aumentando o interesse da classe média e moldando o esporte como espetáculo.

Renata é mais uma voz que veio do rádio a ocupar espaço na televisão, o que leva a uma reflexão inevitável  sobre o quanto a narrativa televisiva de futebol vem sendo influenciada pelo rádio, inclusive no que tange ao aumento da utilização de bordões. De antemão vale ressaltar as diferenças da narrativas dos dois veículos no que tangem à ausência e à presença da imagem. Sem o auxílio da imagem, o narrador de rádio teve que desenvolver um certo jogo de cintura para cobrir todos os espaços da narrativa com a voz. E o ouvinte que não dispõe da imagem outorga, ou outorgava, já que hoje o rádio também está fazendo transmissão de imagens por streaming, ao narrador a condição de dono da verdade, o que explica em parte a relação de confiança e intimidade estabelecida com o veículo ao longo dos anos. Relação essa que sofreu muitas mudanças com o advento da internet.

A relação de intimidade com o ouvinte sempre foi uma característica marcante das locuções radiofônicas. Já na televisão, talvez pelo gigantismo da audiência, esse contato mais individualizado com o telespectador fica mais complicado . É comum no rádio o locutor ler no meio da transmissão uma mensagem de WhatsApp de dez, quinze segundos ou até mais de um ouvinte.

Segundo o locutor Luiz Carlos Junior, do canal por assinatura SporTV, a televisão também está começando a adotar essa estratégia de interlocução com o telespectador. E, fora das transmissões, ele e outros locutores costumam estabelecer essa interação nas redes sociais.

Mas há quem acredite como o locutor Jose Carlos Araújo, o  Garotinho, que durante três décadas foi o locutor número 1 da Rádio Globo e  hoje,  aos 80 anos,  comanda as transmissões de futebol na rádio Tupi, que o narrador de rádio tem mais identificação com o público ouvinte por entrar há mais tempo na residência do torcedor. Há também quem aposte no encantamento do veículo, que tem a capacidade de mexer com imaginário do torcedor e transportá-lo para um espetáculo cercado de magia e de sons.

É o que o narrador Luiz Carlos Junior costuma chamar de espécie de “licença poética do rádio”, que transporta o ouvinte para um mundo mágico em que o jogador chuta e a bola passa perto demais enquanto na televisão a imagem mostra que não foi tão perto assim e ficaria meio esquizofrênico para o narrador televisivo utilizar desse recurso na locução.

Fonte: Instagram

Mas mesmo com essa espécie de “licença poética” os tempos mudaram para todos em relação à tolerância  ao erro. Hoje, a linha editorial das grandes emissoras de rádio aconselha o locutor assumir o erro que, até pelas longas transmissões com pré e pós-jogos estendidos, é praticamente inevitável.

Fonte: Instagram

“Uma partida tem 90 minutos. Normalmente você abre a transmissão uma hora antes e fica até uma hora depois com algumas variações para mais ou para menos. É um tempo muito longo que você fica no ar. É impossível não cometer erros. Você está ao vivo. Tem estudo e planejamento, mas também tem muito improviso. Você dá opiniões no calor da emoção. Então, a gente erra bastante. Antigamente a máxima era: quando errar, bota vírgula e segue em frente.  Mas não dá para enganar o ouvinte assim. Hoje a gente precisa chamar a atenção inclusive de erros cometidos lá atrás”. (Eraldo leite)

De uma certa forma, com as redes sociais, o locutor de televisão também ficou muito mais exposto diante do erro já que o torcedor conhece bem o time de coração e não tolera que narrador não esteja totalmente familiarizado com ele. A crítica chega no mesmo minuto às redes sociais.

Antigamente a distância era uma barreira que protegia. Quando o narrador errava o nome de um jogador, por exemplo, o torcedor podia até perceber, mas a indignação ficava com ele. Ou, no máximo, era externada através de uma carta. As correspondências passavam por um processo de seleção e só eram entregues em lotes semanais. Tudo muito distante. Não havia contestação. Hoje as redes sociais são um canal aberto de comunicação e tudo fica exposto. O erro, a crítica, o acerto, tudo vem a público.

Para o locutor da Fox Sports João Guilherme o uso dessas ferramentas sociais exige um certo filtro já que as opiniões dos torcedores muitas vezes são passionais e mudam de acordo com o desempenho do time. Ele conta que aprendeu com o tempo a levar em consideração apenas as críticas construtivas, aquelas que apontam realmente para uma falha não observada durante a transmissão.

Fonte: Instagram

Com todos as ressalvas em relação a uma maior exposição trazida pelas novas tecnologias, muitos locutores como Luiz Penido acreditam ter aprimorado muito a narração com a utilização dos recursos de pesquisa proporcionados pela internet durante as transmissões. O colega da Rádio Globo Edson Mauro também  se adaptou bem ao uso das novas tecnologias. Trabalha com o celular ao lado tanto para receber mensagens dos ouvintes durante a narração, quanto para tirar dúvidas em relação a algum novo jogador que entra em campo. Assim, consegue complementar a informação ou mesmo fornecer alguma explicação adicional que não tenha sido feito durante a participação do repórter de campo.

Mas independentemente dos recursos que utiliza e das entradas do repórter de campo e do comentarista, que atuam como interventores da narrativa, o narrador é o senhor da transmissão e cabe a ele a missão de estar atento para fazer uma leitura correta do que está vendo. E, assim, vai variando o tom de voz de acordo com o desenrolar da peleja. O clímax da partida é sempre o gol, mas, quando ele não sai, mesmo assim o narrador precisa manter a emoção da transmissão e a temperatura do jogo o menos morna possível.

Referências

GOTZ, Ciro Augusto Francisconi. A narração esportiva no rádio do Brasil: uma proposta de periodização histórica, Revista Latino-americana de Jornalismo, 2020.

GUERRA, Márcio. Você, ouvinte é a nossa meta: a importância do rádio no imaginário do torcedor do futebol. Rio de Janeiro: Etc Editora, 2002, p.92

GUIMARÃES, Carlos Gustavo Soeiro. O comentário esportivo contemporâneo no rádio de Porto Alegre: uma análise das novas práticas profissionais na fase de convergência, Dissertação de mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

HELAL, Ronaldo, AMARO, Fausto. Das ondas do rádio à tela da TV: notas sobre a evolução da narração esportiva, 2012.

KISCHINHEVSKY, Marcelo. Convergência nas redações. Mapeando os impactos do novo cenário midiático sobre o fazer jornalístico. In: LOPEZ, Debora. Radiojornalismo hiper midiático: tendências e perspectivas do jornalismo de rádio all News brasileiro em um contexto de convergência

MADUREIRA, Paulo, KISCHINHEVSKY, Marcelo. Cartografando a narração esportiva radiofônica – Um panorama preliminar da região metropolitana do Rio de Janeiro, Rádio Leituras. Arquivos V.6 N.2, Dossiê rádio e esporte, 2015.

ROCHA FILHO, Zaldo Antônio. A narração de futebol no Brasil: um estudo fonoestilístico, tese apresentada na Universidade Estadual de Campinas, 1989.

SHIRKY, C. Cultura da Participação: criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro, Zahar, 2011.

SILVA, Ednelson Florentino. Narração esportiva no rádio: subjetividade e singularidade do narrador, dissertação de mestrado Universidade de Taubaté, 2008.

https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2020/12/07/globo-contrata-renata-silveira-primeira-narradora-de-futebol-da-emissora.htm

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#RetrospectivaLEME: Maracanã 70 anos

O ano de 2020 foi marcado por diversos acontecimentos no mundo do esporte. Um dos principais foi a comemoração dos 70 anos do Estádio Jornalista Mário Filho. O LEME realizou um evento para lembrar a trajetória do eterno maior do mundo, além de publicar em seu blog diversos textos sobre o estádio.

O Maracanã e suas histórias
Fundado em 1950, o Maracanã já foi palco de diversos eventos culturais. Engana-se quem pensa que só de jogos de futebol vive o estádio. Na época de sua fundação, ficava localizado no bairro da Tijuca, passando a se chamar Maracanã em 1981. Rafael Casé, em um artigo para o blog do LEME, trouxe para os leitores mais diversas histórias do estádio.

#Maraca70
A história do Maracanã começa a ser escrita em 1938, quando Jules Rimet, presidente da Federação Internacional de Futebol – FIFA, visitou o Rio de Janeiro e aceitou a candidatura brasileira para sediar a Copa do Mundo de 1950. No episódio 18 do Passes & Impasses, convidamos Luiz Antônio Simas para nos contar um pouco mais sobre a história do estádio.

Fatídico dia
Em julho de 2020, outro fato histórico completou 70 anos. A derrota brasileira na final contra o Uruguai, ocorrida no dia 16 de julho de 1950, no Maracanã, é uma parte da história do estádio que todos gostariam de esquecer. Para falar sobre este episódio, que ficou conhecido como Maracanazo, organizamos uma edição especial dos Encontros LEME. O vídeo das palestras está disponível em nosso canal no YouTube.

O evento
Entre os dias 5 e 7 de outubro, realizamos o Seminário #Maraca70. Diversos nomes reconhecidos no meio jornalístico e acadêmico puderam contar um pouco de suas vivências, leituras e pesquisas sobre o Maracanã, refletindo também sobre a presença do estádio na história do futebol brasileiro. Todas essas palestras também podem ser encontrados em nosso canal no Youtube.

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#RetrospectivaLEME: e os Jogos Olímpicos de 2020?

A expectativa criada em torno do ano de 2020 no mundo do esporte era enorme. Infelizmente, por conta da pandemia, os Jogos Olímpicos e Paralímpicos acabaram sendo adiados para 2021, ainda sob a incerteza de sua realização. Neste post, vamos destacar produções do LEME sobre a temática olímpica. Segue o fio!

A primeira vez
Vocês sabem quando foi a primeira participação olímpica do Brasil? Foi há exatos 100 anos, em 1920. Esse assunto foi tema do 10º episódio do Passes & Impasses. Fausto Amaro, coordenador técnico do LEME e especialista em estudos olímpicos, foi o nosso convidado para este episódio.

Paralimpíada
Depois dos Jogos Olímpicos, começa a Paralimpíada. As competições se uniram em 1960, nos jogos de Roma, e desde então a dobradinha é tradicional. Para falar sobre os impactos da pandemia nos esportes paralímpicos, o Passes & Impasses recebeu o professor José Carlos Marques e o atleta do Futebol de 5 Maurício Dumbo.

Incertezas
O cancelamento dos jogos, com a possibilidade ainda incerta de realização em 2021, trouxe muita insegurança para entidades e atletas. Andréa Bruxellas, em seu texto para o blog do LEME, falou sobre a transformação dos Jogos Paralímpicos em “Jogos de resilência e força” e da expectativa de celebração da vida nos possíveis Jogos de 2021.

Atletas paralímpicos
Se a situação dos esportistas de modo geral ficou complicada durante a pandemia, vocês já pararam para pensar em como ficou a dos atletas paralímpicos? Com bem menos investimentos e lugares mais restritos para treinar, eles foram deixados à própria sorte. E pior do que isso, com pouquíssima visibilidade na grande mídia. Para falar sobre isso no blog do LEME, Carol Fontenelle escreveu o texto “Atletas paralímpicos: os invisíveis durante a quarentena”.

Curiosidades
Você sabia que antigamente existiam as “Competições Olímpicas de Artes”? Como explica Leda Costa em seu texto para o blog do LEME, “Competições olímpicas de arte e a história das mulheres no esporte”, elas surgiram com o objetivo de unir esporte, arte e literatura, além de marcarem a afirmação das mulheres no universo do esporte

Legado Olímpico
Não tem como falar de Olimpíadas sem lembrar da RIO2016. As competições deixaram marcas visíveis e invisíveis na cidade, que são sentidas até hoje por seus moradores. Para falar sobre isso, a professora e pesquisadora da UERJ Vivian Fonseca foi a convidada do 27º episódio do Passes & Impasses.

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#RetrospectivaLEME: ídolos e memórias no esporte

O que seria do esporte se não tivéssemos os ídolos? Grandes figuras que fizeram – ou fazem – história e deixam um legado no mundo esportivo. Vamos destacar a seguir produções do LEME em que este assunto foi abordado.

O Rei brasileiro
Em 2020, Pelé completou 80 anos de vida. Para homenagear e celebrar os feitos de um dos maiores ídolos do futebol mundial, convidamos para o Passes e Impasses o doutorando em Antropologia Diano Massarani e o doutorando em História Social Nathan Barbosa.

El diez argentino
O final de 2020 também foi marcado por uma grande perda para o esporte. Diego Armando Maradona morreu aos 60 anos, deixando um enorme legado e uma legião de fãs e admiradores. Embora fosse um craque indiscutível dentro de campo, fora dele seu comportamento era controverso. Para homenagear essa figura complexa, Alvaro do Cabo escreveu para o blog do LEME o texto “Maradona – uma reverência além do Bem e do Mal”.

Tristeza
Outro ídolo que nos deixou precocemente foi o ex-jogador de basquete Kobe Bryant. Em uma tragédia que vitimou o ídolo e sua filha, também jogadora de basquete, Gianna Bryant, o mundo do esporte ficou de luto. Kobe era um atleta exemplar e vencedor, e Gianna, uma jovem jogadora promissora. Tivemos duas homenagens a eles no blog do LEME, a primeira, de Marina Mantuano no texto “Uma crônica para Kobe Bryant”, e a segunda, de Clara Quintaneira em “Kobe Bryant: para sempre um ídolo”.

Mané
Outro ídolo homenageado foi Mané Garrincha. Em texto que leva o nome do craque, Phelipe Caldas presta uma homenagem no blog do LEME ao “anjo das pernas tortas” relembrando os lances desse personagem que entortava os marcadores e levava a torcida à loucura com seus lances espetaculares.

Zagallo
Em mais lembranças e homenagens aos ídolos do esporte, tivemos ainda o texto de Diego Ramalho: “Zagallo, o coadjuvante revolucionário”. Diego relembra a genialidade de Mario Jorge Lobo Zagallo, que atuou como jogador e treinador, tendo o recorde de títulos em Copas do Mundo – quatro títulos (dois como jogador [58 e 62], um como treinador [70] e um como assistente técnico [94]).

Carrasco
Em 2020, completaram-se 70 anos do Maracanã e, também, do Maracanazo. Se muitos preferem atribuir a perda do título ao goleiro Barbosa, Phelipe Caldas reconhece os méritos da Seleção uruguaia e escreve, para o blog do LEME, uma “Carta para o amigo Ghiggia”, autor do gol do título.

Enfim, ídolos!
Para fechar essa retrospectiva com chave de ouro, relembramos o nosso décimo primeiro episódio do Passes & Impasses, que contou com a presença dos pesquisadores do LEME Fausto Amaro e Leda Costa e do professor e coordenador do LEME Ronaldo Helal. Eles comentaram as narrativas criadas sobre a figura do ídolo e do herói.

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#RestrospectivaLEME: rivalidades no futebol

Nada melhor do que brincar com o rival depois de uma vitória, não? O que seria do futebol sem os clássicos que dão uma pitada a mais de emoção e brilho ao esporte? A rivalidade saudável faz parte do futebol. Vamos destacar a seguir produções do LEME em que este assunto foi abordado.

Rivalidades Locais
Não importa se é final de campeonato, ou torneio de bola de gude, quando é o seu rival que está do outro lado, ganhar vira uma questão de honra! Para falar sobre as rivalidades estaduais, que mexem com o coração de qualquer torcedor, o Passes & Impasses recebeu a doutoranda do PPGCom/UERJ Thalita Neves e o professor adjunto no Centro de Estudos de Pessoal (CEP/FDC) Édison Gastaldo.

Clássico é clássico…
Aproveitando o início dos campeonatos estaduais em janeiro, Thalita Neves escreveu para o blog do LEME o texto “Clássico é Clássico e vice-versa?”. Nele, ela questiona esse sentimento de torcer “pela desgraça” do rival como solucionador dos problemas do seu time de coração. Será que torcer contra o outro faz o seu time ser melhor?

Campeonato brasiliense
Grandes histórias sobre clássicos no sul e sudeste muitos devem conhecer, mas e no Distrito Federal? Relembrando um acontecimento para lá de diferente, Fábio Santa-Cruz escreveu, para o blog do LEME, o texto “O inusitado tira-teima brasiliense de 1969”, em que conta a história da final entre o Coenge e o Grêmio Brasiliense.

Gre-Nal
Alguns consideram que o Gre-Nal é a maior rivalidade entre dois times no futebol brasileiro. Polêmicas à parte, Grêmio x Internacional é o único clássico numerado, você sabia? O próximo que acontecer será o de número 429. Para contar mais histórias desse clássico emocionante, Thalita Neves escreveu para o blog do LEME o texto “O ‘GreNal das Américas’ e outros grenais históricos, heroicos e dramáticos”

Campeonato goiano
Entre os anos de 1979 e 1985, a rivalidade em Goiás ganhou contornos que extrapolaram as quatro linhas do gramado, com campeonatos em sequência decididos no famoso “tapetão”. No blog do LEME, Fábio Santa-Cruz, em seu texto “Polêmica e Tapetão: o Campeonato Goiano de futebol no período 1979-1985”, rememora as histórias dos clubes goianos em meio a campeonatos recheados de polêmicas.

E a torcida?
As rivalidades não são apenas alimentadas pelas histórias dos clubes, mas também por suas torcidas. E as organizadas representam um fator importante nesse processo. Para entendermos melhor a história das torcidas organizadas, convidamos para o episódio 20 do Passes & Impasses o professor da FGV Bernardo Buarque de Hollanda e o professor do Programa de Pós-Graduação da Universidade de Sorocaba Felipe Lopes.

Vizinhos sim, rivais também
Quando Brasil e Argentina entram em campo, eles carregam uma história calcada na rivalidade. A proximidade, a comparação entre Pelé e Maradona, o estilo de jogo “com raça”… são vários os fatores que alimentam esse clássico. Para discutir esse tema, o vigésimo quarto episódio do Passes & Impasses convidou o professor da UERJ e coordenador do LEME Ronaldo Helal e o professor da Universidade de Buenos Aires Pablo Alabarces.

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#RetrospectivaLEME: resistência negra no esporte

O racismo é um assunto que quase sempre está na pauta do esporte. Mesmo que alguns considerem que atos racistas não existam mais, o que vemos no dia a dia é algo bastante diferente. Neste post, vamos destacar produções do LEME em que este assunto foi abordado.

Racismo e esporte
No episódio 19 do Passes & Impasses, discutimos o tema com a ajuda de dois convidados especiais. O ex vice-presidente de Comunicação do Flamengo, Wellington Silva e o jornalista e pesquisador Emerson Esteves. Durante o programa, tratamos de recentes casos de racismo no cenário esportivo.

Black Lives Matter
Em 2020, o movimento conhecido como Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) ficou novamente em evidência, principalmente após os acontecimentos nos EUA envolvendo George Floyd e Daniel Prude, ambos assassinados. Diversos atletas expuseram sua indignação e realizaram protestos para homenagear essas vidas ceifadas brutalmente. A pesquisadora Karla Ehrenberg escreveu um texto para o blog do LEME abordando esses protestos e sua relação com o marketing social das empresas.

Racismo fora das quatro linhas
No texto de Emerson Esteves, o pesquisador aborda um tema pouco questionado. O racismo no futebol fora do campo, mais precisamente no setor administrativo e em cargos de liderança e comando. Exemplo disso é que, em outubro de 2020, não tínhamos treinadores negros no comando dos times da elite do futebol brasileiro.

Negros na natação
Em setembro de 2020, foi ao ar uma reportagem no Esporte Espetacular que mostrou como ainda é escassa a participação de atletas negros nas piscinas. Segundo a reportagem, desde 1920, primeira Olimpíada em que o Brasil participou, tivemos apenas 10 nadadores negros. A partir dessa matéria, André Tavares, em seu texto para o blog do LEME, explorou esta questão, ressaltando a importância da discussão social sobre ela.