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A Invenção das Barras

A série “Porta 7” quis ficcionar um mundo e ficou na metade do caminho. Alguns de seus personagens não parecem barras: usam tacos de hóquei e não entram em “paravalanchas”. Tampouco convence o abecedário sem “eses“. Mas, ainda assim, sem “reflexão”, chega-se ao estereótipo.

Aí está o coração deste artigo. Não em criticar o conteúdo do último produto argentino para exportação, mas sim em reconstruir suas condições de previsibilidade. Importa o processo, não o produto. Proponho um percurso histórico sobre como as barras tem sido descritas, e, portanto, prescritas, pelos discursos de poder. Quando digo poder aponto para os meios de comunicação, as ficções artísticas ou literárias e para o Estado e suas leis. Porque as “barras bravas” são uma invenção nascida de um pânico moral tão antigo quanto a bola de couro.

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No dia 21 de outubro de 1922, aconteceu o primeiro homicídio em um estádio argentino. No campo de Tiro Federal, Rosario, Francisco Campá, dirigente do Newell’s Old Boys, e Enrique Battcock, trabalhador e ex-jogador do Tiro Federal, brigaram no intervalo. Minutos depois o primeiro dispara uma bala letal sobre o segundo. A violência convertida em morte, no futebol argentino masculino, está em sua própria origem.

A crescente violência da década de vinte leva que grande parte da imprensa comece a chamar os “torcedores fanáticos”, que protagonizavam tumultos ou episódios “antidesportivos”, de “barras” ou “muchachada”. O historiador Julio Frydenberg assinala que, a partir de 1920, o jornal Última Hora começa a utilizar o termo “barra”. Em fevereiro de 1925, o jornal Crítica publica uma nota intitulada “Barras Bravas” definindo esse grupo de torcedores como “energúmenos que só vão aos campos com o objetivo de manifestar seus instintos primitivos”. De sua parte, o jornal La Cancha, em novembro de 1928, propõe a expulsão dos sócios identificados como “torcedores selvagens, os barras mais agressivos, brutais, fanáticos e antidesportivos”.

A mesma cobertura midiática acontece com o segundo homicídio vinculado ao futebol argentino. Em 1924, depois de um Argentina x Uruguai, pela Copa América, que terminou 0 a 0, na Cidade Velha de Montevideo, houve uma briga entre as torcidas de cada país. A confusão se torna tragédia quando o uruguaio de 22 anos, Pedro Demby, sangra até a morte com o cheiro de pólvora. A imprensa aponta como responsável um tal de “Petiso”, líder de “uma barra argentina” residente em La Boca.

É entre os anos vinte e trinta do século XX, então, quando a imprensa constrói a noção de “barras”. Isso é feito em meio a um pânico moral pela crescente violência. Nessa conjuntura nasce uma associação que existe até hoje: os “barras” são os criadores de todos os males que afligem o futebol argentino. Aquele pânico moral começa a se expandir como uma mancha de tinta por todo tecido social, tanto que Roberto Arlt, o “literário do submundo”, nas suas  “aguasfuertes porteñas” de 1931, escreveu “são como esquadrões rufiões, brigadas de bandidos, quintos de canalhas, barras que como expedições punitivas semeiam o terror nos estádios… esses barras são os que em alguns bairros chegaram a constituir uma máfia, algo assim como uma “camorra”, com suas instituições, suas lutas armadas”.

A origem do pânico moral que associa “violência”, “máfia” e “barras” deve ser entendida como uma reação das classes dominantes diante da iminente popularização do futebol masculino. Não é por acaso que se inicia na década de vinte, quando as classes populares – em sua maioria homens – se juntam em massa nos estádios; e que se expande definitivamente nos anos trinta, momento em que a apropriação “desde baixo” é concluída, como disse o sociólogo Pablo Alabarces. Se por um lado as elites se resguardam em cargos de dirigentes, associações ou imprensa desportiva; as classes populares se incorporam ao futebol como jogadores ou torcedores. Há condições materiais que possibilitam esse fato. Primeiro, a profissionalização do futebol masculino em 1931, que permite que jogadores, de origem pobre, façam daquele esporte um trabalho. Posteriormente, a institucionalização do “sábado inglês” em 1932 possibilita que o tempo livre do trabalhador seja tingido com as cores de algum clube.

O pânico moral que origina a invenção das barras não é outra coisa senão um espanto de classe. O pavor das elites diante de uma invasão “bárbara”. Os barras serão, desde há um século até hj, os “selvagens inadaptados de sempre”, não só pelo seu comportamento, mas também por estarem onde não pertencem.

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Outro momento crucial em torno das narrativas sobre as barras se dá entre a década de cinquenta e sessenta do século passado. Nesses anos emergem os primeiros grupos de torcidas organizadas que se autoidentificam como barras de alguma equipe: Boca, Racing, San Lorenzo, Huracán, Rosario Central e Belgrano de Córdoba são alguns exemplos. Quem lê esse artigo já notará uma obviedade histórica nem sempre dita: as mortes violentas no futebol se contam desde a década de vinte e os grupos que se autorreconhecem barras aparecem nos anos cinquenta e sessenta. Em outras palavras: a “violência no futebol” não nasce com as “barras bravas”.

São por esses mesmos anos que a indústria cinematográfica nacional estreia vários filmes centrados na “torcida” de futebol: El hincha (1951); Somos los mejores (1968); Pasión dominguera (1969); Vamos a soñar con el amor (1971) y Tango desde el tablón (1971). Essas produções vão moldando um “verdadeiro torcedor” associado à fidelidade incondicional, o amor desinteressado, o sacrifício, o trabalho honrado, o clube como herança familiar e um comportamento tão passional quanto pacífico. Forja-se um protótipo ideal de torcedor – onde as mulheres não têm lugar – que tem como antagonismo moral “as barras”, e a imprensa ecoa tal divisão. O jornal Crítica, em 1959, ao mesmo tempo que define o “torcedor” como aquele “que vai com o simples e puro propósito de passar uma tarde sã de emoção, realizando por ele  mil sacrifícios”; também diz que nos estádios estão aqueles que “se dizem torcedores, mas na realidade são fanáticos perigosos que amalgamam essa condição com a de delinquentes e se mostram perversos quando vão ao jogo”. O “são” e “puro” nos torcedores, o “perigo” e a “delinquência” nas barras. Diferenças que se tornam desigualdades alimentando um perdurável pânico moral.

Amílcar Romero, precursor nas investigações sobre a “violência do futebol” e as “barras”, diz que, na década de sessenta, nasce o “Futebol Espetáculo”. É o começo da “violência institucional”, ou seja, de formas autoritárias que encontram em matar ou morrer um desenlace possível. Romero destaca a morte de Alberto Linker, em 19 de outubro de 1958, em um “Vélez x River”, como sintoma de uma época. Por um lado, o caso expõe a impunidade de uma repressão policial que se torna moeda corrente nos estádios argentinos, porque Linker morre por bombas de gás lançadas pela guarda de infantaria. Por outro lado, o caso resulta em um editorial do jornal La Razón no qual se denuncia a existência de “barras fortes” vinculadas com dirigentes de clubes e políticos influentes.

No entanto, sem dúvida, o caso mais emblemático desta era é o do torcedor do Racing de Avellaneda, Héctor Souto, assassinado por barras do Huracán, em 1967. Para começar, a morte de Souto é resultado de uma emboscada da barra do Huracán a torcedores do Racing como consequência do roubo de um guarda-chuva por parte dos segundos aos primeiros. Naquela “armadilha”, Souto é atacado por uma dezena de barras do Huracán. A investigação judicial descobre que os responsáveis pelo homicídio haviam entrando no jogo sem ingressos, com cartões de jogadores da Associação de Futebol Argentino (AFA). Romero também conta, analisando o caso, que a certidão de óbito de Souto expedida por um médico de Huracán e a perícia forense não registram nenhuma marca de golpe no cadáver. Além disso, os barras envolvidos contaram com um staff de advogados importantes. As condenações foram mínimas: o autor principal recebeu seis anos e os instigadores, dois.

Amílcar Romero traça uma linha interpretativa de enorme impacto nas narrativas futuras: há um tom de denúncia em relação às “barras bravas”, que já não atuam sozinhas ou isoladas, mas sim dentro de uma complexa trama de favores e atores que pactuam para garantir a impunidade e extrair recursos econômicos dentro de um futebol cada vez mais mercantilizado e violento. Assim, em um de seus últimos trabalhos, Romero afirmava que “um barra brava por excelência vive disso. Vive dos bilhetes, dos ganhos ou lucros que tiram dos bilhetes, a segunda fonte de ingressos, embora punhais sejam esfaqueados, é a porcentagem que os jogadores e diretores técnicos lhes passam, além disso são um fator de decisão política, decidem até turnês de jogos.. decidem até a compra de jogadores… decidem a vida e a morte de diretores técnicos. Tem um poder efetivo real”.

A Boca Juniors' fan holds a flare during their Argentine First Division soccer match against River Plate in Buenos Aires
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O retorno à democracia e a década de noventa são outras variáveis no que diz respeito às representações sobre as barras. O pânico moral contra “as máfias do futebol” chega ao seu ápice. Em parte, porque o registro de mortes dispara rapidamente. Entre a segunda metade dos anos oitenta e durante todo os anos noventa, se concentram mais da metade do total de vítimas fatais vinculadas ao futebol até aquele período. Em outras palavras, nos 17 anos que vão desde 1983 até 2000, se mata e se morre mais do que em todo o período que vai desde o primeiro assassinato em 1922 até o retorno da democracia.

Nessa época também há uma reação contra as barras porque percebe-se os restos de um autoritarismo em revisão diante da nova “primavera democrática” alfonsinista. Dois exemplos. O primeiro é a estreia do filme Las Barras Bravas dirigido por Enrique Carreras e lançado em 1985. O filme condensa todos os prejuízos e estereótipos sedimentados contra esses grupos. A primeira cena mostra recortes de jornais que retratam as diferentes barras sob os títulos “terror e sangue”, “o retorno da violência” ou “incêndio, roubos e caos”. Na cena seguinte, uma barra de uma equipe qualquer é filmada indo a uma partida em um vagão, cantando “Evita, el bombo, el tren es un quilombo” e “los vamos a reventar, los vamos a reventa”. Esse mesmo grupo, minutos depois, irá atacar homens, estuprar mulheres, amassar carros, romper alambrados, vender drogas, portar armas e roubar idosas. Os barras dos anos oitenta são retratados como estupradores, violentos, traficantes, ladrões, assassinos, saqueadores e… peronistas.

O outro exemplo vem do Estado, são as primeiras leis destinadas a intervir no “flagelo da violência do futebol”. Em 21 de junho de 1985, é aprovada a normativa 23.184 intitulada “Regime penal e contravencional para a violência em espetáculos esportivos, conhecida como ‘Lei da Rua’”. O regulamento inaugura marcadas continuidades que perdura até hoje. A “violência no futebol” passa a ser vista menos como um fenômeno a ser regulado e mais como um problema a ser erradicado, e para isso o que se deve fazer é extinguir os “grupos” responsáveis. O diagnóstico é centrado na rivalidade entre torcidas de diferentes equipes sem mencionar, por exemplo, a repressão policial que havia sido uma das principais causas de morte na época. Com as primeiras intervenções pontuais do Estado na questão, se instaura um modelo de segurança repressivo e focado de vez em quando na prevenção.

A norma 23.184 não apenas não surte nenhum efeito nos índices de violência, como também durante toda a década de noventa os números atingem níveis inéditos. A resposta estatal é insistir, com mais tolamente que diagnosticamente, pelo mesmo caminho. Em março de 1993, é sancionada a lei 24192 que modifica parcialmente o regulamento anterior. A culpa das barras é acentuada, definindo-as como um tipo social que “atenta contra a harmonia e a paz nos estádios de futebol”. Ao mesmo tempo, avança-se na criação de um Registro Nacional de Infratores à Lei do Esporte. Busca-se proibir o ingresso dos jogos aos torcedores com antecedentes penais. Enfatiza-se a associação entre violência no futebol e delinquência social.

Na virada do século as barras são o que sempre foram: as principais culpadas de uma “violência no futebol” crescente e letal. A novidade está no fato de que, desde o retorno à democracia, elas se tornaram objeto de legislação, e sempre sob o selo de um punitivismo tão declarado na retórica como inviável na prática, pois, apesar das proibições, detenções, julgamentos, adjetivações midiáticas, as barras continuam povoando os campos argentinos.

Hinchas de Boca agreden con gas pimienta a los jugadores del River
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Nos primeiros anos do novo século, aparecem alguns casos de fortes enfrentamentos entre “facções” internas de barras do mesmo time. Algumas brigas são dentro dos estádios e outras fora. A violência anterior não desaparece. As mortes entre torcedores de equipes diferentes e a repressão policial continuam, ainda que se veja uma diminuição em seu peso relativo em relação às mortes intra-barras.

Entre 2007 e 2013, com os vai-e-vem típicos de uma agenda de Estado espasmódica e improvisada, chega-se à proibição da torcida visitante. Como vários trabalhos acadêmicos têm demonstrado, nos últimos anos os cenários dos enfrentamos e seus protagonistas mudaram. Observa-se uma relação inversamente proporcional entre as brigas de barras de times diferentes e as brigas de barras de um mesmo clube. Se os enfrentamentos entre torcedores – não só barras – com camisas diferentes foi a principal causa de morte desde o retorno da democracia até o princípio do século XXI, as brigas entre barras do mesmo clube representam 56% do total de mortes vinculadas ao futebol entre 2006 e 2017, como demonstraram Diego Murzi e Ramiro Segura. E essas brigas se desenvolvem principalmente em espaços e tempos alheios ao cenário do futebol público por excelência: os estádios durante os dias de jogo. A violência é “privatizada”: acontece em bares, praças, esquinas, boliches, recitais, atos políticos e em dias sem partidas de futebol. Ao desenvolverem-se longe das operações de segurança, aumentam as possibilidades de arma de fogo. Resultado: maior letalidade.

Esse último cenário, marcado por uma sensação de onipresença e imprevisibilidade da violência, e, portanto, das barras, leva o pânico moral a níveis estratosféricos. Um contexto propício para a expansão sem limites da “Grabiologia”, uma fobia travestida de análise que caminha sobre dois pés: por um lado, todas as barras e os barras são reduzidos a um mesmo modelo, o de mafiosos, milionários e violentos. A figura de Di Zeo o Bebote é universalizada. Por outro lado, essa mesma fobia leva a encontrar esse modelo de barras em qualquer grupo organizado dos setores populares – sindicatos, movimentos sociais, “piqueteros”, economias populares -. É daí que surge a expressão “uma sociedade barra brava”. E então voltamos, mais uma vez, à origem: um pânico moral que nunca deixou de ser um espanto de classe.

Este olhar tornou-se comum. Predomina na imprensa desportiva com as colunas cotidianas do jornalista de mesmo nome; as editorias mais famosas publicam ficções como “El Barra Brava” de Fernando Gonzales, no qual todas as ações desses grupos se reduzem ao código penal; os deputados e senadores propõem como única política pública integral para enfrentar o complexo fenômeno da “violência no futebol”  uma monstruosidade legal chamada… “lei anti-barra”. A Netflix simplesmente se juntou a um trem em marcha e encontrou um pacote de exportação perfeito.

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Ninguém nega que algumas “barras bravas” argentinas encontram na violência uma experiência tão agradável quanto útil; nem que façam de certos mercados ilegais uma caixa de poupança. O problema é o recorte e suas consequências. Primeiro, porque ao sobredimensionar sua responsabilidade, outros atores são eximidos de culpa. Segundo, porque em toda descrição sempre há uma prescrição. Como dizia Norbert Elias, “dê a um grupo um nome ruim, e viverá segundo ele”. Terceiro porque este olhar julga mais do que compreende. Definir as barras pela violência é confundir a parte com o todo, em qualquer desses grupos há muito mais que ataques, tiros ou pontapés. Caracterizá-las como “máfias” é forçar um círculo dentro de um quadrado. Bebote não é Vitor Corleone. E reduzir uma filiação à busca de dinheiro é mais uma confissão projetada do que uma escolhe alheira. Assim, chega-se a uma noção de “barra” mais acusatória do que explicativa. O resto é previsível, porque até os algoritmos têm uma história.

Texto originalmente publicado no site Panamá.

Tradução: Leticia Quadros.

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Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

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Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

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De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros

Produção audiovisual

Já está no ar o vigésimo episódio do Passes & Impasses

Acesse o vigésimo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso vigésimo episódio é “História das Torcidas Organizadas no Brasil”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, recebemos o professor adjunto da Escola de Ciências Sociais da FGV, Bernardo Buarque de Hollanda, e com o docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura, da Universidade de Sorocaba, Felipe Lopes.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o vigésimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Não quero dinheiro”, do saudoso Tim Maia.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES:

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Marina Mantuano e Carol Fontenelle
Produção: Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis
Convidados: Bernardo Buarque de Hollanda e Felipe Lopes
Crédito da imagem da capa: Marina Mantuano

Eventos

Encontros LEME discute o diálogo entre Europa e América do Sul através das torcidas de futebol

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, no dia 14 de agosto às 17h, a sétima edição dos Encontros LEME em 2020. Dessa vez, contaremos com a presença do antropólogo Martin Curi para discutir o tema “Diálogo entre Europa e América do Sul através das torcidas de futebol”. Martin é doutor em Antropologia pela UFF e atualmente é assistente social no Projeto para Torcedores Fürth (Fanprojekt) da Kinderarche Fürth. A mediação fica por conta da pesquisadora do LEME Leda Costa.

Por conta da pandemia, os Encontros estão sendo realizados na modalidade virtual. Para essa edição, faremos uma transmissão ao vivo, em nosso canal no Youtube. Não será necessário se inscrever previamente, já que a transmissão será aberta.

Testeira Encontros LEME Martin Curi

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte.

Artigos

O inusitado tira-teima brasiliense de 1969

Nas atividades institucionais do futebol profissional, não cabem improvisos. Como em uma empresa, o planejamento busca garantir eficiência e deve ser seguido à risca. Estão todos envolvidos em contratos, obrigações mútuas, segurança jurídica. Cumprir o que está previsto (porque assim foi acertado) é a ordem. Assim evitam-se contestações e crises. O calendário esportivo de cada campeonato, por exemplo, deve ser mantido intacto (alterações são admitidas apenas em casos excepcionais e devem ser limitadas).

Já no futebol amador, a comunidade futebolística se sente mais à vontade para fazer ajustes de última hora e tomar decisões repentinas, de modo improvisado. Há um caso interessante que é exemplo disso. Ocorreu em Brasília no ano de 1969.

O Campeonato Brasiliense daquele ano contou com a participação de clubes profissionais e amadores. O processo de profissionalização do futebol local, tentado de 1964 a 1968, havia fracassado e a CBD autorizou a realização de um torneio que mesclasse amadorismo e profissionalismo. Eram 24 clubes no total (o maior número de participantes de um Campeonato Brasiliense até hoje). A competição recebeu o nome de Taça Brasília.

Quando o campeonato estava perto do fim, o Grêmio Brasiliense liderava e parecia dificílimo que não fosse o campeão. Tinha dois jogos a disputar pela fase final e estava na primeira posição com apenas 3 pontos perdidos (na época, os pontos perdidos recebiam mais atenção do que os pontos ganhos). Já havia disputado 19 partidas em todo o campeonato e perdido apenas uma. Toda a sua torcida tinha certeza de que venceria mais duas vezes. Mas ao enfrentar seu penúltimo adversário, os gremistas foram surpreendidos. Perderam para o Flamengo de Taguatinga por 2 a 1 e caíram para a segunda colocação, com 5 pontos perdidos.

No mesmo dia, o Coenge, que tinha 4 pontos perdidos, disputou a sua última partida. Enfrentou o Brasília (que apesar desse nome, era de Taguatinga). Ao vencer por 5 a 1, o Coenge se manteve com 4 pontos perdidos e tornou-se o campeão de 1969. O Grêmio Brasiliense, mesmo que vencesse o seu último jogo, continuaria em segundo lugar com os 5 pontos perdidos.

COENGE
Brasão do Coenge

A reviravolta surpreendeu a quem acompanhava o campeonato. Segundo o jornal Correio Braziliense, “ninguém esperava a derrota dos gremistas diante dos rubro-negros” (Correio Braziliense, 21/10/1969) e falou-se repetidas vezes, nos dias seguintes, em falta de sorte, decepção e tristeza dos atletas e torcedores do Grêmio Brasiliense. Surgiu, então, a proposta de promover um tira-teima: Coenge e Grêmio Brasiliense enfrentando-se diretamente para definir “quem realmente é o melhor”, como disse o Correio Braziliense na edição de 28 de outubro. A proposta foi apresentada pelo dirigente Wilson Andrade, da Federação Desportiva de Brasília (FDB).

O título de campeão do Distrito Federal não estaria em jogo. O Coenge, caso fosse derrotado na disputa, continuaria sendo considerado o campeão da Taça Brasília, ou seja, o campeão brasiliense de 1969, embora o termo “tira-teima” pudesse indicar o contrário. Essa garantia dada ao Coenge não impedia a imprensa de dizer que o duelo tinha o objetivo de mostrar qual era o melhor time da capital federal naquele ano. A disputa se daria em uma melhor-de-três e o vencedor receberia o troféu Casa do Atleta. O Coenge aceitou.

Um torneio “inventado” repentinamente, sem qualquer planejamento. Os dirigentes da FDB pareciam não perceber que aquele duelo poderia desacreditar e deslegitimar a principal competição da própria FDB, já que lançava uma dúvida sobre o título de campeão do Coenge. Era uma iniciativa própria do amadorismo. Sua motivação era inteiramente sentimental: a estupefação pelo revés de um favorito na última rodada do campeonato brasiliense.

Deveria ser um torneio amistoso e de importância menor. A atitude dos dois clubes, porém, foi outra. A diretoria do Coenge prometeu um prêmio em dinheiro aos seus atletas em caso de vitória. Além disso, houve preocupação com o local de concentração antes das partidas (os dirigentes do Coenge tiveram o cuidado de pôr os seus jogadores em um hotel considerado mais tranquilo). Já o Grêmio Brasiliense reclamou da escolha do trio de arbitragem na terceira partida e declarou que jogaria “sob protesto contra a decisão da FDB” (Correio Braziliense, 22/11/1969). As disputas dentro de campo foram acirradas e, ao fim da segundo jogo, houve confusão:

(…) logo após o término da partida, registrou-se um tremendo “sururu”, sendo necessária a pronta intervenção da polícia para serenar os ânimos dos mais exaltados (Correio Braziliense, 11/11/1969).

A primeira partida foi realizada em 2 de novembro de 1969 no Gama (a cidade-satélite do Coenge). Foi uma peleja animada, “com as duas equipes se empenhando a fundo para a conquista do troféu” (Correio Braziliense, 09.11.1969). O resultado final foi 2 a 2. A segunda partida ocorreu sete dias depois, no Núcleo Bandeirante (cidade-satélite do Grêmio Brasiliense). Outra partida animada. Terminou empatada em 1 a 1 e, como já foi dito, houve confusão após o apito final do árbitro.

A terceira partida foi marcada para o estádio da FDB. Como o gramado estava em fase final de manutenção, o jogo só aconteceu duas semanas depois do segundo confronto. Foi um evento pomposo. O estádio, um dia antes, foi batizado como o nome de Pelé. Uma placa de acrílico (provisória) foi instalada em sua homenagem. A previsão era substituí-la em breve por outra, de bronze, que seria descerrada com a presença do próprio Pelé. O governador do Distrito Federal, Hélio Prates da Silveira, compareceu à partida e deu um pontapé inicial simbólico. O presidente da FDB estava tão animado que até cogitou um jogo da seleção brasileira na capital federal, em abril de 1970, pouco antes da viagem da delegação nacional para a disputa da Copa do Mundo no México.

GREMIO BRASILIENSE
Brasão do Grêmio Brasiliense

O Coenge venceu aquela terceira partida por 1 a 0 e se sagrou vencedor do tira-teima. Não podia haver mais dúvidas: era o melhor time do futebol brasiliense. Torcedores e jogadores comemoraram. Ficou acertado que o troféu seria entregue em um programa de televisão.

Mas ainda não era o fim da disputa. O Correio Braziliense noticiou no dia 26 de novembro: “TJD tira ponto do Coenge e vai haver quarto jogo”. A punição foi imposta porque o clube do Gama escalou, na primeira partida, um atleta considerado irregular. A quarta partida foi marcada para o dia 30 de novembro, novamente no estádio Edson Arantes do Nascimento.

Na quarta partida do tira-teima, o Grêmio Brasiliense venceu por 1 a 0. O gol foi de Ademir, de cabeça, aos 28 minutos do primeiro tempo. No segundo tempo, o destaque foi o goleiro gremista, Elizaldo, que garantiu com grandes defesas a vitória do seu time. “Embora superior ao seu adversário, o Coenge não conseguiu reproduzir em tentos essa superioridade, e deixou que o troféu lhe escapasse depois de ter demonstrado em todos os jogos melhor organização que o seu adversário” (Correio Braziliense, 02/12/1969).

Encerrado o tira-teima, os clubes logo passaram a se preocupar com os próximos amistosos que disputariam. A derrota do campeão de Brasília repercutiu pouco. Como previsto, o título de campeão do Coenge permaneceu intacto, sem contestações. Até hoje, todas as listagens sobre os campeonatos do Distrito Federal indicam o clube gamense como o campeão de 1969. Não há polêmica quanto a isso.

Foi um torneio de motivação claramente amadora. Improvisado, interessado em atiçar rivalidades e em pôr os times em movimento. De aspecto profissional, havia apenas a perspectiva de algumas rendas a mais oriundas das bilheterias. Foi quase um torneio-divertimento, apesar da supervisão da FDB, que lhe dava um caráter oficial. O tira-teima assemelhava-se ao caso de um time que, após ser derrotado com um gol no último minuto, provoca o vencedor: “Vamos jogar 30 minutos adicionais para ver se vocês confirmam a vitória ou se conseguimos empatar”.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro e em São Paulo, o futebol profissional se dedicava às contratações para montagem de grandes times e à organização do Robertão (a competição que serviria de inspiração para o Campeonato Brasileiro instituído pela CBD em 1971).

O futebol brasiliense adotou o profissionalismo apenas em 1976 (dessa vez, com sucesso).

Artigos · Entrevistas

Coordenador do LEME discute o fenômeno “Copa do Mundo” em entrevista

A Copa do Mundo é um dos maiores eventos esportivos do mundo, seja pela sua atratividade mercadológica, pelo espetáculo, pela união de seleções ou pelo apelo das torcidas. Há noventa anos tinha início esse torneio que, de quatro em quatro anos, junta os amantes do futebol do mundo inteiro. Mas será que sempre foi assim?

A popularização do futebol na Europa fez com que, em 1930, fosse criada a primeira Copa do Mundo de futebol. A competição, que começou com apenas treze seleções, foi ganhando contornos maiores na medida em que o próprio futebol se profissionalizava e o mundo se modernizava. Hoje, para a Copa de 2022 no Qatar, estão previstas 48 seleções, e muitas outras questões, como as logísticas de viagens que eram impensáveis em 1930.

O coordenador do LEME, Ronaldo Helal, deu uma entrevista ao programa Noite Ilustrada da Rádio UFMG Educativa, da Universidade Federal de Minas Gerais, sobre esse fenômeno que é a Copa do Mundo. Helal lembra histórias e fatos de diversas Copas que aconteceram ao longo desses noventa anos de existência. Quer saber mais sobre esse torneio de magnitude mundial? Aperte o play no áudio abaixo e escute a entrevista completa.

1930 FIFA World Cup Uruguay ™ - FIFA.com
Fifa.com

 

Eventos

Encontros LEME sobre o Maracanazo nesta sexta-feira

LEME reúne pesquisadores para discutir o Maracanazo

16 de julho de 1950 – diante de mais de 200 mil pessoas, o Brasil se calava com os gols de Shiaffino e Ghiggia, no Maracanã. A épica derrota para o Uruguai, que fez o Brasil amargar o vice-campeoanto da Copa do Mundo, ficou conhecida por Maracanazo. Para debatermos esse episódio e suas implicações, o LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte realizará, nesta sexta (31/07) às 19h, um encontro virtual.

Para esta edição especial dos Encontros LEME, contaremos com os pesquisadores Alvaro do Cabo, Gastón Laborido, Francisco Brinati e Sergio Souto, com mediação do também pesquisador Filipe Mostaro.

Aguardamos vocês no canal do LEME no Youtube.

Testeira Facebook - Especial 70 anos Maracanazo

 

 

Artigos

Prazo de submissões para o #Maraca70

Restam quatro dias para o término de submissões do Seminário #Maraca70

Que tal se juntar aos pesquisadores que já enviaram trabalhos ao Seminário Internacional #Maraca70? Não está com tempo? Nossa chamada é para resumos expandidos, contendo no mínimo 7 mil e no máximo 12 mil caracteres. Não haverá necessidade de envio de trabalhos completos posteriormente. Nosso seminário tem taxa de inscrição de R$20 sob a forma de doação para uma instituição de caridade (a definir).

Os trabalhos não precisam versar sobre o Maracanã, mas devem ter conteúdos que se enquadrem em um dos seguintes GTs: GT1- Esporte, cidade e identidades; GT2- Mídia, esporte e representação e GT3 – Estádios, arenas e os modos de torcer. São aceitos resumos em Português, Inglês e Espanhol. O template pode ser encontrado em na aba Maraca 70.

Não há necessidade de formação na área de Comunicação e são aceitos trabalhos de graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores.

O Seminário #Maraca70 acontecerá nos dias 5, 6 e 7 de outubro e os trabalhos serão apresentados remotamente nos dias 6 e 7. Dentre os convidados confirmados para as mesas temáticas estão: Gisella de Araújo Moura, Bernardo Buarque de Hollanda, Luiz Antonio Simas, Vivian Fonseca, Arlei Damo, Juca Kfouri e Marcelo Barreto.

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Artigos

História mínima do futebol argentino: Montagem 2020

Nemesia Hijós[1], Nicolás Cabrera[2] e Franco Reyna[3]

Todos os recortes históricos são arbitrários. Sempre, porém, há momentos mais propícios que outros para exercer o direito à injustiça histórica. Os aniversários ou as efemérides talvez sejam as datas mais comuns para propor montagens diacrônicas e sincrônicas. Dizemos montagens porque falamos de fazer acoplamentos e desacoplamentos – entre o que está escrito e o que é visual – para propor novos ensaios do aparentemente desconexo. Passaram-se 100 anos desde a década de 20 do século XX. Uma década que, para o futebol argentino, foi determinante em sua estruturação como espetáculo massivo, popular, mercantilizado e masculino.

Nós escolhemos três eixos que não tem uma origem ou um final marcado na década de 20, nem apresentam linhas similares no país todo, mas, se tentarmos reconstruir uma “história social do futebol argentino”, sem dúvida falamos de dimensões fundamentais de uma época inevitável. Uma década em que se acelera o processo de popularização do futebol e da sua transformação em espetáculo massivo; onde as mulheres são excluídas embora elas resistam com gestos de resistência; e onde a profissionalização do futebol começa a tomar forma na mão do amadorismo “marrom”.

Na continuação, apresentamos uma “superposição interativa” (Geertz, 2006: 53) de processos que hoje trazemos como modo de ensaio, como uma primeira tentativa, a fim de caminhar para trás, mirando no futuro. Um acoplamento de textos e imagens para discutir o futebol argentino que tínhamos, para assim poder imaginar o futebol argentino que desejamos.

O processo de popularização do futebol e sua transformação em um espetáculo de massa

O futebol foi introduzido na Argentina na segunda metade do século XIX pelos agentes do capitalismo industrial e mercantil britânico. Jogado inicialmente dentro de seus clubes e escolas públicas, logo se tornou um passatempo da elite local. Desde os últimos anos do século XIX, sua prática começou a interessar aos jovens dos setores médios e populares, em sua maioria estudantes, pequenos comerciantes, profissionais e trabalhadores urbanos, os quais progressivamente começaram a formar suas próprias instituições e competições para o desenvolvimento do jogo. Desde as zonas portuárias do país, o esporte se estendeu pelo resto da Argentina seguindo majoritariamente a expansão da rede ferroviária.

Os anos vinte implicaram na consolidação do futebol como um dos principais entretenimentos da população e consolidaram as bases para sua conformação como um espetáculo de massas. Nessa época, caracterizada por uma grande bonança econômica, crescimento demográfico e expansão urbana das principais cidades do país, a população dispunha de maior tempo livre e recursos para acessar cada vez mais massivamente ao consumo de atividades de ócio – entre as quais se destacava o futebol. Nesse sentido, desde então, o número de jogadores que começaram a participar das ligas oficiais locais e os diferentes circuitos independentes do “futebol amador” aumentaram substancialmente. Para citar um exemplo, se em 1920 eram aproximadamente 6 mil jogadores inscritos nos registros da liga oficial de Buenos Aires (Associação Amadora Argentina de Futebol – AAAF), em 1930 esse número superava os 25 mil.

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Foto 1. A seleção argentina recebendo o Barcelona FC no Estádio do Sportivo Barracas em 1928. Fonte: Arquivo Geral da Nação (AGN, Argentina), Dpto. Doc. Fotográficos. Consulta_INV: 329.102. Ano 1928

Esse fenômeno foi acompanhado por uma expansão associativa dos clubes, que começaram a incorporar novas atividades esportivas, sociais e recreativas para captar sócios e sócias. Ao mesmo tempo, houve uma maior padronização, institucionalização e sistematização das estruturas e dos aparatos competitivos, o que levou a formação de novos mercados de consumo desportivo. Por exemplo, nesses anos se generalizaram os intercâmbios esportivos contra equipes e seleções do continente e da Europa. Nesse contexto, o hábito de assistir aos jogos se espalhou, o que levou a um aumento significativo das arrecadações. No caso de Buenos Aires, as partidas mais importantes da época chegaram a ter 50 mil pessoas. A fim de abrigar a assistência massiva, os clubes tiveram de melhorar sua infraestrutura, o que levou à construção dos primeiros estádios de cimento do país. A imprensa acompanhou e imprimiu novos alcances a esse processo ao ampliar e renovar sua capacidade de cobertura e difusão das práticas esportivas. Desta maneira, o futebol se converteu em um produto cultural de massas que afetou o repertório identitário da população e contribuiu com a modernização da sociedade.

Foto 2
Foto2. 55 mil pessoas presenciam o clássico entre San Lorenzo e Boca Juniors no Estádio de Avenida La Plata. Fonte: El Gráfico, 8 de setembro de 1929.

A profissionalização (ilegal) dos jogadores homens

Por mais que a profissionalização do futebol masculino tenha se oficializado na década de 30 (Buenos Aires foi a pioneira em 1931), foi ao longo dos anos 1920 que a prática do “amadorismo marrom” se difundiu, isto é, uma espécie de profissionalismo ilegal que consistia na cobrança por parte dos jogadores de uma quantia monetária ou algum outro benefício material previamente acordado com os dirigentes esportivos, apesar de sua proibição regulamentar (Reyna, 2015). A retribuição podia ser um pagamento periódico ou por partida, um prêmio posterior a cada encontro, uma comissão para viagens, roupas ou a comida diária. Outra forma de remuneração era colocar algum jogador em uma instituição pública. Finalmente, a última artimanha comum da época era “contratar” os jogadores ou seus familiares como empregados de empresas privadas para justificar os pagamentos registrados. Muitas dessas empresas pertenciam a simpatizantes ou dirigentes dos clubes.

Mais de uma denúncia circulava nos arredores revelando que alguns jogadores de renome pediam aos dirigentes um grande subsídio financeiro como condição para seguir vestindo as cores do clube; caso contrário, iam para outros instituições que lhes ofereciam acordos melhores. O recurso ao profissionalismo ilegal entrava em jogo quando era necessário competir pela conquista desses serviços, fosse para manter um jogador nas fileiras do clube em que atuava ou para convencê-lo a partir para um novo. Este era um comportamento que foi combatido nas páginas dos jornais, que mantiveram uma campanha moralizadora contras os jogadores denominados “desonestos” e contra os clubes que os incentivavam.

No entanto, o surgimento do “marronismo” possibilitou que muitos jovens dos setores populares pudessem dedicar-se com maior exclusividade à prática esportiva de alto rendimento e associaram-na, pela primeira vez, a um meio de vida alternativo e à possibilidade de uma mobilidade social ascendente. Embora essa aspiração só tenha se materializado em poucos casos, dado que, em sua grande maioria, as somas em jogo eram pequenas, os jogadores que mais se destacavam emergiram nesta época como figuras de consumo cultural por conta de seus méritos desportivos.

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Foto 3. Diárias aos jogadores de futebol. Fonte: El Gráfico, 4 de dezembro de 1926.

A partir de 1926, a FIFA reconheceu oficialmente a existência do amadorismo marrom e vários países começaram a legalizar o profissionalismo. Na Argentina, esse fenômeno se entrelaçou poucos anos depois com a crescente insatisfação dos jogadores com os dirigentes pelas restrições contratuais a sua livre mobilidade e capacidade escolher onde queriam jogar. Nesse período, no princípio de abril de 1931 um grupo de jogadores que faziam parte da Associação Mutualista de Jogadores de Futebol – a primeira entidade no país criada por futebolistas para defender seus interesses corporativos – levaram uma petição à AAAF exigindo o passe livre, ou seja, a possibilidade de mudar de clube com a aprovação apenas da entidade que o desejava. Diante da falta de resposta dos diretores, os jogadores se declararam em greve, organizaram uma marcha e pediriam a mediação das autoridades governamentais, que viram na legalização da prática remunerada uma solução para o assunto.

Tal como comenta Julio Frydenberg (2011), ao final desse mês, a grande maioria dos 36 clubes pertencentes à AAAF se disseram a favor do profissionalismo. Os futebolistas tiveram a possibilidade de obter remunerações por suas atividades em troca de uma maior especialização e dedicação à prática. Essa nova disposição não conseguiu o aval da associação e 18 dos clubes mais poderosos de Buenos Aires constituíram sua própria federação, a Liga Argentina de Futebol (LAF). Os clubes excluídos da nova entidade se agruparam em torno da Associação Argentina de Futebol (AAF). A LAF conseguiu impor-se a pela hierarquia de seus clubes e firmou pactos de concordância com as federações das cidades de Rosario, Córdoba e Santa Fé para reger os destinos nacionais. A necessidade de evitar a migração dos jogadores mais talentosos dessas ligas às equipes profissionais “porteñas” abriu o caminho para a posterior profissionalização do futebol naqueles lugares, o que implicou em uma nova fase na transformação do espetáculo desportivo.

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Foto 4. Fernando Paternoster, craque do Racing Club de Avellaneda e da seleção argentina. Fonte: El Gráfico, 7 de setembro de 1929.

Invisibilidade, exclusão, disputas e resistência. O lugar das mulheres na história centenária do futebol

Ainda que a história nos mostre que espaços como o futebol tenham sido de e para homens, as mulheres sempre estiveram presentes (Cabrera e Hijós, 2020). Antes de serem encaradas como acompanhantes, torcedoras e fanáticas, as mulheres argentinas jogavam em clubes, inspiradas pela popularidade das “footballers” inglesas e francesas. Os primeiros registros revelam a existência de uma equipe feminina em 1922 em Buenos Aires, chamada Río de la Plata. Entretanto, quando que o futebol se tornou um esporte nacional e passou a ser parte da identidade argentina, trouxe uma única condição de gênero: um espaço quase exclusivamente jogado e contado por homens, onde se constroem e reforçam masculinidades hegemônicas (Archetti, 1994), do qual as mulheres foram isoladas e invisibilizadas.

Os meios de comunicação de massa são em grande parte responsáveis pelo lugar de privilégio concedido ao futebol masculino, com coberturas sexistas que enunciam esportes que estão em concordância com o gênero e que – até hoje – têm ignorado quase que por completo os jogos femininos. Assim, nas publicações da época foi se configurando o tênis, o atletismo, o golfe, a natação e – particularmente desde a década de 1920 – o vôlei e o basquete como esportes para as mulheres, além de outras práticas “adequadas” como a “pelota vasca” e o pushball, que hoje não tem protagonismo. Os argumentos biológicos promovidos pela perspectiva científica da época, as premissas vinculadas à saúde e a fisionomia das mulheres (“um corpo despreparado para este esforço muscular”) junto com as presunções de falta de atratividade como espetáculo (“não teriam a força que entusiasma o público)[4] eram os fatores determinantes para separar as mulheres do futebol, instaurando modos de ser legítimos.

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Foto 5. Argumentos pelos quais as mulheres não deveriam jogar futebol. Fonte: El Gráfico, 15 de janeiro de 1921.

As representações da época condenaram a participação feminina, associando a ação de jogo com o lesbianismo e à sexualidade descontrolada (“os choques tratavam os jogadores em um abraço lésbico inaceitável”)[5], levando razões supostamente objetivas (ligadas à ciência e à saúde) para tirar as mulheres e respaldar ideias de que esta era uma prática que não era para elas. Mesmo que na Argentina o futebol não tenha sido proibido legalmente para as mulheres[6], a eliminação se materializou em termos de representação[7]. Na imprensa escrita, as mulheres são relacionadas com imagens ligadas à vida familiar, ao cuidado e ao acompanhamento, referências que contribuíram na configuração de identidades femininas e que moldaram os corpos, nos quais os benefícios da atividade física se apresentavam associados ao cultivo da beleza e da boa saúde. Gradualmente, em revistas e jornais dos anos vinte, as mulheres começaram a ser representadas de modo passivo. A “mulher moderna” era caracterizada pela debilidade física, intelectual e moral, assim como de excesso de sentimentalismo, enquanto suas funções fundamentais eram a maternidade e o cuidado da família, que acreditavam ser constitutivas de sua essência (Barrancos, 2010).

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Foto 6. Encontro entre Feminina Sport Club de Paris e Dick Kerr de Preston da Inglaterra. Fonte: El Gráfico, 13 de junho de 1925.

A presença das mulheres nos campos de futebol e seu papel como torcedoras também se potencializou, sem deixar de ser um estigma de um ambiente de “machos”, que as invisibilizou e diluiu como ocorreu depois. As coberturas periódicas dos finais dos anos vinte destacavam sua paixão fervorosa, o conhecimento sobre jogadas e performances, sem omitir os trabalhos esperados que implica o ser mulher (como o bordado das bandeiras nos intervalos das partidas) e o aporte de “elegância” e “civilidade” que sua presença supunha. Esse estado de excepcionalidade e as concessões de permissão para as mulheres (torcedoras) se interrompia com o fim da partida dos homens. Como relata uma nota do El Gráfico de 1929 sobre o perfil da torcedora de futebol: “quando terminar a partida, recobrará seu sexo e adotará novamente seu passo curto, discreto”, retornando ao âmbito privado para novamente naturalizar a divisão de papéis na confirmação histórica de modelos femininos e masculinos.

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Foto 7. O perfil da torcedora de futebol argentina. Fonte: El Gráfico, 14 de dezembro de 1929;

Considerações Finais

O futebol argentino, nascido na segunda metade do século XIX com as marcas do elitismo, amadorismo e fair play, mostrava ao final dos anos vinte do século seguinte, um rosto popular, masculino, massivo e mercantilizado. Foi nessa década que confluíram uma série de fenômenos que marcaram o futuro do esporte até a atualidade. Não falamos de etapas sequencialmente estruturadas, mas sim de processos de sobreposição relacional. Tendências que sofrerão com as marchas e contramarchas nos períodos subsequentes, pois “a história” nunca está livre de rupturas, deslocamentos, pausas, intermitências ou recuos.

A título de encerramento, continuamos com algumas perguntas. Sabendo que não há temporalidades sem espacialidades, nos perguntamos: quanto desta “história mínima” traçada peca de “porteñocentrismo”? Que outros processos e tendências se desenvolveram em outras geografias do país? Também sabemos que o futebol sempre deve pensar-se relacionalmente com outros campos, então: que outras democratizações do lazer operaram durante aquela década para que a popularização e massificação do futebol pudesse ocorrer? Quanto a modernização urbana da época tem relação com a institucionalização e expansão do futebol?

Um tema vital que foi deixado de lado por questões de espaço foi o da violência nos estádios da época. Não é por acaso que nos primeiros anos do século XX, quando surgiram os primeiros grandes tumultos e mortos, a imprensa escrita começou a cunhar a noção de “barras” para coletivizar – sob uma forte vocação moralista – os “torcedores fanáticos” que protagonizam episódios “antidesportivos”, “incultos” ou “de vandalismo”. Então quanto tem a ver o pânico moral criado desde a imprensa com a popularização do futebol? Em outras palavras, o dito pânico moral não supõe um pânico de classe?

Também expusemos como a história do futebol na Argentina tem sido protagonizada e configurada por uma perspectiva masculina. Havia – e há – um desejo de neutralizar a presença feminina em um espaço “de e para homens”. Hoje, quase cem anos depois das primeiras referências de mulheres no futebol, como elas são representadas? Até que ponto nos afastamos destas representações que põem em circulação visões sexistas e reproduzem estereótipos? Quanto mudaram os papéis historicamente designados às mulheres no esporte? Quanto falta para alcançar um horizonte emancipatório e libertador em termos de gênero? Estão sendo construídas opções alternativas no futebol?

Por fim, pensando neste artigo, o que, do que foi dito da Argentina, pode ser comparado com o caso brasileiro? Parafraseando a grande fundadora dos cruzamentos entre ciências sociais e futebol, Simoni Lahud Guedes, o que une e o que separa no futebol Argentina e Brasil? Duas nações condenadas a um jogo de espelhos entre si.

Todas são perguntas inevitáveis que abrem um caminho a ser seguido pelas pesquisas sociais destinadas a compreender o desenvolvimento alcançado pelo esporte ao longo de sua história.

[1] Doutoranda em Ciências Sociais (FSOC, UBA, Argentina). Mestre em Antropologia Social (IDES-IDAES/UNSAM). Graduada em Ciências Antropológicas (FFyL, UBA). Bolsista de Doutorado do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET). Email: nemesiahijos@gmail.com

[2] Doutor em Antropologia (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina). Bolsista de Pós-doutorado IDACOR-UNC-CONICET. Email: nico_cab@hotmail.com

[3] Doutor em História (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina). Investigador Assistente CONICET. Email: franco2reyna@hotmail.com

[4] Uma das primeiras representações foi a nota do jogador inglês Andy Ducat no El Gráfico (15 de janeiro de 1921) no artigo “Por que a mulher não deve praticar o futebol?”, ele explica que, por natureza, “a mulher” é frágil demais para participar de um esporte tão “rude” e que, ao jogar este esporte de “machos”, corre risco de ganhar musculatura, transformando- se em um “marimacho”, deixando de “ser mulher”.

[5] Referência do poema de Bernardo Canal Feijoó, “Futebol de mulheres”, de sua coleção Penúltimo poema de fútbol de 1924.

[6] Por ser considerado perigoso para o sexo “mais frágil”, ao colocar em risco o sistema reprodutivo feminino, esteve proibido em países como Inglaterra (1921-1971), Brasil (1941-1979) y Alemanha (1955-1970).

[7] Durante os primeiros 50 anos da revista El Gráfico somente 10% das capas foram destinadas a mulheres e não mais que 6% a mulheres atletas.

Referências bibliográficas

Archetti, E. (1994). Masculinity and football: The formation of national identity in Argentina. En R. Giulianotti y J. Williams (Eds.), Game without Frontiers: Football, Identity and Modernity (pp. 225-243). Aldershot: Arena.

Barrancos, D. (2010). Mujeres en la sociedad argentina: una historia de cinco siglos.
Buenos Aires: Sudamericana.

Cabrera, N. e Hijós, N. (2020). Juegos de espejos: una historia mínima del fútbol femenino en Argentina y Brasil. En Hijós, N.; Moreira, V. y Soto-Lagos, R. (Eds.), Los días del Mundial: miradas críticas y globales sobre Francia 2019 (pp. 42-46). Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO.

Frydenberg, J. (2011). Historia social del fútbol. Del amateurismo a la profesionalización. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.

Geertz, C. (2006). La interpretación de las culturas. Barcelona: Gedisa.

Reyna, F. (2015). “La difusión y apropiación del fútbol en el proceso de modernización en Córdoba (1900-1943). Actores, prácticas, representaciones e identidades sociales”, Tesis Doctoral en Historia. Córdoba: Universidad Nacional de Córdoba.

Artigos

Os donos no futebol

Os clubes do século XXI foram controlados por perfis facilmente classificáveis de “investidores”. Todos absolutamente cientes de uma verdade inconveniente da qual essa indústria jamais conseguiu se desprender e admitir: clube de futebol não dá dinheiro.

Não há qualquer exagero nessa afirmação. Desde a irreverente literatura da dupla Simon Kuper & Stefan Szymanski (2009)[1] até a radical crítica de David Kennedy e Peter Kennedy (2016)[2], são notórios os indícios de que a propriedade de clubes de futebol não se configura como “um grande negócio”, e pior, mal pode ser considerada “um negócio”. A propriedade de clubes de futebol não opera em uma ordem guiada pelo lucro, não costuma ter suas ações negociadas em ritmos convencionais, não estabelece faturamentos comparáveis a segmentos periféricos do terceiro setor, não repassa dividendos para os seus envolvidos… por que, então, alguém teria tanta vontade de ter um clube? Porque futebol movimenta as multidões. E as multidões alteram o rumo dos ventos.

Os donos de clubes de futebol hoje podem ser divididos em quatro grandes grupos. Três deles são diretamente relacionados à utilização do clube como ferramenta de propaganda e/ou publicidade; o último é mais diverso: 1) geopolítica: Estados interessados em fazer dos clubes suas ferramentas de “soft power”; 2) política eleitoral: personalidades ou grupos políticos dispostos a investir em um clube de massas para reverter seu sucesso esportivo em capital político; 3) mercado de capitais: grupos financeiros, e seus respectivos representantes públicos, em busca de projeção de suas imagens e marcas para a atração de investidores para seus projetos; e 4) os alheios: ora desinformados, ora aventureiros, ora mal intencionados, muitas vezes notórios lumpenburgueses.

1) Geopolítica – O uso do clube de futebol como instrumento de “soft power”, isto é, o exercício do poder sem uso da violência, pode apresentar diversas finalidades, mas, em geral, se define pela intenção de facilitar o trânsito dessas lideranças/Estados dentro de países centrais da economia global. O esporte tem sido utilizado com esse princípio há muitos anos, mas esse tipo de “comprador de clube de futebol” está basicamente relacionado a quatro países.

O primeiro seria o emirado de Abu Dhabi, o mais importante e rico dos Emirados Árabes Unidos, que adquiriu o Manchester City em 2008 e posteriormente criou o City Football Group, maior holding global do segmento.[3] O segundo seria o emirado do Qatar, atual proprietário do Paris Saint-Germain, da França, que adquiriu o clube em 2011. O terceiro, em processo que até maio de 2020 não estava concluído, seria a Arábia Saudita, prestes a adquirir o tradicional Newcastle United, da Inglaterra. Nesses três casos, se tratam de Estados teocráticos que mobilizam seus fundos públicos de investimento para adquirir grandes marcas do futebol global e se dispõem a realizar gigantescos investimentos. O quarto deles é o Estado chinês, responsável por financiar investimentos em dezenas de clubes localizados em territórios que representam pontos estratégicos dos interesses desse Estado.[4]

2) Política eleitoral – em países democráticos, a busca pelo voto é um dos poucos verdadeiros desafios da vida de homens ricos. Uma vez que é difícil, custoso, ilegal e arriscado comprar o número necessários de votos para se eleger a um cargo público, empresários milionários de diferentes países tiveram uma grande ideia: tornar legal a compra do instrumento de mobilização apaixonada de milhares de cidadãos. Dessa forma, era preciso tornar os clubes compráveis. Três exemplos ilustram isso tipo de fenômeno.

Silvio Berlusconi, na Itália, adquiriu o Milan em 1986, na esteira da nova lei das sociedades por ações. Tornou o Milan uma máquina de comprar jogadores com imensos aportes financeiros sustentados pelo seu império de telecomunicações. Oito anos depois, conquistados quatro campeonatos nacionais e três taças continentais, Berlusconi era eleito primeiro-ministro do país pelo partido Forza Italia, criado por ele mesmo naquele exato ano de 1994. Ocupou o cargo em outras duas oportunidades.

Em um perfil mais modesto, também está a figura pitoresca do espanhol Jesus Gil, eleito em 1987 com margem apertada para a presidência do Atlético de Madrid em uma eleição com 22 mil votos. No cargo, torna-se um dos principais entusiastas da Ley de Deportes. Com a sua aprovação, se torna imediatamente sócio majoritário do clube que até então presidia. No ano seguinte, funda o partido Grupo Independiente Liberal (GIL) e se elege prefeito da cidade de Marbella, onde é reeleito três vezes antes de ser obrigado a abandonar a vida pública por envolvimento em um caso de corrupção realizado com o nome do Club Atlético de Madrid.

O caso mais emblemático talvez seja o de Sebástian Piñera, do Chile. Um empresário bilionário, cuja família teve relações firmes com os primeiros anos da ditadura Pinochet, já havia sido senador apesar das imensas dificuldades de emplacar eleitoralmente o Partido Renovación Nacional, do qual era presidente. No começo dos anos de 2000, começa a advogar pela conversão dos clubes chilenos em empresas, logo após impulsionar a revisão de uma lei em um processo que gerou uma dívida “retroativa” para os clubes. Logo depois, torna-se sócio majoritário da Blanco y Negro S.A., empresa que assumiria a gestão do Colo-Colo, clube mais popular do Chile (e rival da Universidad Católica, clube do qual declarou anteriormente ser torcedor). Em 2010, após quatro títulos nacionais sustentados por apoiadores/acionistas, Sebástian Piñera se torna presidente do Chile.[5]

dftb
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3) Mercado de capitais – Mais do que necessariamente o uso do clube como forma de unir seu sucesso esportivo à imagem do seu proprietário, como mencionado anteriormente, esse quesito também envolve a limpeza da imagem de empresários com pregressos envolvimentos em atividades ilícitas. A força popular de um clube é capaz de blindar seus donos da lei.

Esses casos geralmente dependem das taças para lograr, e motivam grandes investimentos. É o caso do bilionário israelense-russo Roman Abramovich, que fez fortuna com a privatização das empresas estatais da antiga URSS, mais notadamente nos setores de mineração e petróleo. Em 2003, comprou o Chelsea, modesto clube de Londres, por meio do qual protagonizou o primeiro caso de megainvestimento do século XXI, rendendo diversos títulos, incluindo uma Champions League em 2012. Os resultados esportivos do Chelsea lhe renderam prestígio suficiente para se instalar com conforto no país. O final da década de 2010, no entanto, representou um gradual abandono dos investimentos, levando o clube a já não contratar como antes, a perder protagonismo e a suspender o projeto de um novo estádio. Roman Abramovich havia sido identificado como peça-chave de uma trama excepcionalmente complexa, que envolvia espionagem, guerra diplomática e lavagem de dinheiro, e, por isso, teve seu visto de residência no Reino Unido negado.

Em 2010, foi a vez do sheik Abdallah Ben Nasser Al-Thani comprar o Málaga CF, da Espanha, levando clube até a uma inédita Champions League em 2013. Esse caso não pode ser confundido como um exemplo de soft power, uma vez que Al Thani intencionava projetar sua própria ambição no mercado imobiliário espanhol. Alguns indícios apontam que o drástico desinvestimento do sheik no clube andaluz ocorreu por causa de uma série de frustrações aos seus planos empresariais, em especial pelo impacto das movimentações políticas contrárias aos seus projetos de arranha-céus na zona portuária da cidade. Em 2018, o Málaga CF é rebaixado para a segunda divisão espanhola. Em fevereiro de 2020, Al Thani foi afastado do conselho administrativo do clube por decisão da justiça espanhola, sob denúncia de apropriação indébita dos fundos da SAD.

Há também o caso de Peter Lim, bilionário financista de Singapura que adquiriu o Valencia Club de Fútbol em 2014, no rastro de uma crise causada pelo desastroso projeto de um novo estádio. Peter Lim somou fracassos dentro de campo, mas acabou por conquistar uma improvável Copa del Rey em maio de 2019, tirando o clube de 11 anos de jejum. Ainda assim, nunca gozou de prestígio junto aos torcedores e pequenos acionistas, que realizaram inúmeros protestos massivos desde a sua chegada. Com uma política austera nas contratações, Peter Lim ainda nomeou como presidente da SAD o seu conterrâneo Anil Murthy, um ex-diplomata, cuja experiência com o futebol era absolutamente zero. Sob sua gestão, o Valencia fracassou na tentativa de finalizar o antigo sonho do Nou Mestala, novo estádio que estava previsto para ficar pronto em 2010.

4) Os Alheios: aqui está um tipo de investidor que não dispõe de grandes fundos como os listados anteriormente. Ao se apresentarem como homens de negócios bem-sucedidos, conquistam a confiança de clubes que pretendiam adquirir. Como resultado, é comum vê-los levando-os à bancarrota junto com seus próprios fracassos financeiros.

O empresário iraniano Majid Pishyar desembarcou em Portugal, promovido por sua experiência bem-sucedida de promoção à primeira divisão com o Servette FC, clube da Suíça. Por meio do 32Group, um grupo de investimentos criado em 2008, Pishyar assume a SAD do Beira-Mar e promete torná-lo o “quarto grande” do país. No ano seguinte, é forçado a admitir que estava abrindo pedido de falência no clube suíço e, em 2014, já repassava a sua participação no clube português para outro interessado. O Beira-Mar saiu dessa experiência falido e Majid Pishyar, apesar disso, continua desenvolvendo outras atividades financeiras com o 32Group. Hoje, os torcedores do Beira-Mar tentam refundar o clube nas divisões inferiores de Portugal.

No Brasil, esse foi o tipo de investidor que chegou ao Esporte Clube Vitória no ano de 1998, quando o clube baiano adotou o modelo de sociedade anônima no rastro do movimento gerado pela Lei Pelé. O Exxel Group, conglomerado financeiro argentino em franca ascensão, controlado pelo uruguaio Juan Navarro, adquire 50,1% das ações da Vitória S.A, por cerca de 6 milhões de dólares, faturando as dívidas que o clube possuía à época e planejando entrar no mercado de jogadores de futebol. Por ser esse um dos seus movimentos de expansão dentro do mercado sul-americano, o Exxel prometeu investimentos de 12 milhões de dólares ao longo de 5 anos. Antes de decolar, o grupo que também havia comprado o clube argentino Quilmes, é impactado pela crise cambial argentina e por uma grave denúncia de fraude financeira. O Exxel Group abandona o Vitória, não faz o aporte financeiro prometido, vai à falência e aceita negociar a recompra das suas ações pelo EC Vitória em 2006, quando o clube jogava uma inédita Série C em sua história. O clube associativo restabeleceu o controle do seu futebol, extinguiu a Vitoria S.A. e voltou aos trilhos.[6]

Outro caso digno de nota é a aventura de Marcos Ulloa à frente do Deportes Concepción, clube chileno que sempre foi um dos mais tradicionais emblemas fora da capital. Tal empresário chegou ao clube em 2006 com a proposta de investir recursos de um grupo alemão representado por Mario Munzemayer. Recursos em tese suficientes para cobrir as dívidas da agremiação, para construir um novo centro de treinamentos e um estádio semelhante ao do alemão Schalke 04. O clube aceita a entrada de Ulloa na SAD, mas o dinheiro não existe. O Concepción foi rebaixado antes de conseguir desfazer o acordo com os falsos investidores e, em uma segunda tentativa de restabelecimento com novos investidores em uma nova SADP, mergulha em dívidas que levam à sua desfiliação da liga. Marcos Ulloa foi preso. Hoje os torcedores tentam restabelecer a associação.

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Com a exceção do grupo 4 desse exercício ilustrativo, no fim das contas, do ponto de vista dos proprietários e de suas finalidades, o futebol de empresas do século XXI acabou adotando uma configuração semelhante à do futebol inglês no final do século XIX: clubes deficitários voltados para agregar à imagem do seu proprietário. A diferença agora é a proporção: em um futebol super consumido, televisionado para os quatro cantos do mundo, clubes provocam impactos reais no cenário eleitoral de uma nação, reposicionam geopoliticamente líderes globais, viabilizam projetos financeiros fraudulentos e limpam a imagem de empresários de origem e práticas duvidosas. Nessa escala, o futebol-negócio de clubes-empresa serve basicamente a interesses potencialmente perigosos.

É justo destacar que o futebol espanhol até meados dos anos 2010 ainda resguardava uma característica que lhe conferia certa diferenciação. Uma vez que seus antigos sócios tiveram prioridade na aquisição das ações da nova SAD, em muitos clubes os sócios mais ricos e influentes ocuparam os postos majoritários dessas sociedades. Até ali, por mais que também imperassem interesses como os já listados, se tratavam ao menos de proprietários de origem comum ao clube, muitas vezes até descendentes dos fundadores das associações. Mas esse tempo já passou.

Notas de fim

[1] “Se a Deloitte classificasse os clubes segundo o lucro, os resultados seriam constrangedores. Não apenas a maioria dos clubes tem prejuízo e não paga dividendos a seus acionistas, como muitos dos “maiores” clubes estariam no final da lista […]. Qualquer que seja o parâmetro, nenhum clube de futebol é um grande negócio”. (KUPER; SZYMANSKI, 2009, p. 88).

[2] “Um exame forense do estado da elite do futebol europeu confirma isso, revelando uma realidade totalmente diferente do dito sucesso comercial: é a realidade do débito, da falência, da perda do balanço competitivo e um contido ressentimento dos torcedores pela exploração financeira enquanto ‘consumidores’ e pela sua falta de poder de decisão”. (KENNEDY; KENNEDY, 2016, p. 25).

[3] Ver Capítulo 13 “Multi-club ownership: um novo estágio da globalização dentro do futebol”, de João Ricardo Pisani.

[4] Ver Capítulo 11 “Faixa, rota e bola: o futebol como instrumento de soft power chinês” e Capítulo 12 “Soft power e futebol: os casos de Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita”, ambos de Emanuel Leite Junior e Carlos Rodrigues.

[5] Ver Capítulo 3 “Sociedades anónimas deportivas no Chile: o declínio do futebol social”, de Sebástian Campos Muñoz.

[6] A bem da verdade, o Exxel Group não “investia” no Vitória. Apesar de ter se tornado proprietário da maior parte da Vitoria S.A. a partir do ano 2000, o aporte de 12 milhões de dólares estava disponível como crédito a juros de 8% a.a.. Cerca de 60% desse montante foi utilizado, em um contexto de crise generalizada no futebol brasileiro, mas o resto desse valor foi bloqueado pelo credor unilateralmente, impactado pela crise cambial argentina que originou a sua falência. Ver: CARNEIRO, Paulo. “A vantajosa recompra das ações do Vitória S.A feita em 2004”, Blog de Paulo Carneiro. 30 mar 2010.