Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 52 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo segundo episódio é a Copa do Mundo de 1954: o milagre de Berna. Com apresentação de Filipe Mostaro e Abner Rey, gravamos remotamente com Elcio Cornelsen, coordenador do FULIA (Núcleo de Estudos sobre Futebol, Linguagem e Artes) e Professor Titular da Faculdade de Letras da UFMG.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo segundo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Preto e branco”, de Oliver Pocher.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Abner Rey
Convidado: Elcio Cornelsen

Artigos

Da Idolatria ao racismo: como o preconceito se disfarça de decepção

Em seu artigo “Foot-ball mulato”, Gilberto Freyre destaca as qualidades individuais dos jogadores negros, propondo que eles seriam influenciados por uma dança dionisíaca, responsável por uma forma de jogo única, mais coreografada e improvisada, inspirada pela capoeira, um patrimônio que estava no cerne da negritude brasileira. Essas qualidades seriam responsáveis por destacar a figura do indivíduo negro no futebol e por dar a ele uma espécie de vantagem contra os adversários, que, sem essas características, estariam prejudicados. Pensando nessa observação, a questão é: até que ponto essas “características” integram o jogador negro enquanto cidadão na sociedade brasileira?

Bom, em 1950, no Brasil, era realizada a quarta edição da Copa do Mundo. A seleção brasileira, anfitriã do evento, era a favorita para ganhar o torneio da FIFA, devido ao seu grande elenco composto por Bigode, Ademir de Menezes, Juvenal, Nilton Santos e pelo goleiro Barbosa. Com bons resultados na competição, o time conseguiu chegar à final do torneio no Maracanã, disputada contra a seleção uruguaia de Ghiggia e Obdulio Varela.

O estádio estava lotado, com quase 180 mil telespectadores ansiosos para ver o Brasil ser campeão do mundo; contudo, para desagrado da torcida brasileira, Ghiggia fez um gol de desempate no segundo tempo, conquistando o título para o Uruguai com uma vitória de 2 a 1. Além de dar ao Brasil um inédito, ainda que melancólico, segundo lugar, essa competição também nos ofereceu uma análise muito interessante acerca da visão sobre a negritude no futebol brasileiro

Após a derrota, um jogador da seleção brasileira foi alvo principal de críticas e de acusações da torcida canarinho. Não existia mais um time, e sim um culpado, um carrasco, um homem responsável pela desgraça de toda uma nação: o goleiro Moacir Barbosa. Enquanto Barbosa fazia defesas mirabolantes e difíceis, a torcida demonstrava toda a sua devoção e admiração por ele. O goleiro era um ídolo do povo brasileiro: ninguém podia negar seu talento individual nem o seu lado dionisíaco.

Fonte: Terceiro Tempo (UOL)

No entanto, esse lado dionisíaco também traz um fardo muito grande: o jogador que detém habilidades individuais ajuda a todos e favorece o time, mas, quando esse mesmo jogador falha, ele falha e sofre sozinho. E, geralmente, o sujeito detentor dessas características e que é acusado sem pudor é o indivíduo negro, visto como uma espécie de animal exótico, do qual se pode esperar tudo, pois, ainda que admirável em alguns momentos, é incerto e não se pode confiar

Por isso, quando Barbosa leva o fatídico gol contra o Uruguai, mesmo já tendo feito outras inúmeras defesas brilhantes, a sua carreira e a sua integridade pessoal foram postas à prova; é como se ele tivesse até então assumido um comportamento de fachada e, a partir do momento em que errou, a partir do momento em que a bola de Ghiggia entrou na rede do Maracanã, o goleiro mostrou a sua verdadeira face e a máscara de bom jogador de Barbosa caiu. Essa ideia tem uma forte relação com a análise de Irving Goffman sobre o indivíduo desacreditado e o indivíduo desacreditável: enquanto o primeiro já é estigmatizado desde o primeiro contato com outrem, o segundo não possui um atributo estigmatizante aparente, mas que eventualmente pode ser “revelado”. No caso de Barbosa, ele se torna “desacreditável” quando a cor de sua pele passa a ser um elemento definidor de sua qualidade enquanto goleiro. 

Além de Barbosa, outros jogadores negros daquela equipe, como Juvenal e Bigode, também sofreram com atos racistas e acusatórios após a derrota. Era como se tivesse faltado aos jogadores negros espírito coletivo, característica essencialmente apolínia e que seria decisiva para a vitória. Com isso, além de sofrerem pela derrota dentro de campo, esses jogadores também sofriam fora dele, devido simplesmente a sua origem étnico-racial.

Mais recentemente, outro caso para pensarmos a negritude no futebol foi a final da Eurocopa de 2021, disputada entre Inglaterra e Itália, no estádio de Wembley. A final do campeonato chegou à disputa de pênaltis, terminando em 3 a 2 para a Itália, que se consagrou campeã.  Na seleção inglesa, foram escolhidos três jogadores negros para bater os pênaltis; entre eles, estavam Marcus Rashford, Bukayo Saka e Jadon Sancho. Infelizmente, nenhum dos três jogadores converteu a cobrança.

Como esperado, a reação da torcida inglesa foi hostil e extremamente injusta, atribuindo, sem pudor, a culpa aos três jogadores. Marcus Rashford foi responsável por realizar em um projeto contra a fome no Reino Unido em 2020, em meio à pandemia da COVID-19, ajudando inúmeras famílias e suprindo a negligência do governo nessa questão. Entretanto, isso não foi levado em consideração pela torcida na hora de avaliar o caráter do jogador, posto que, a partir do momento em que Rashford errou um pênalti, prejudicando a equipe, ele se tornou uma figura desprezível. Essa situação se assemelha muito ao tratamento desprezível e racista sofrido por Barbosa, Bigode e Juvenal, evidenciando que o racismo após a derrota já se tornou algo corriqueiro no mundo futebolístico.

Ao analisar essa questão, nota-se que, talvez, seja o momento de eliminar “Dionísios” e “Apolos” no futebol para que, no lugar deles, tenhamos times que joguem juntos e percam juntos e não indivíduos que sofram devido à sua origem étnica racial.

Referências:

FREYRE, Gilberto. Foot-ball mulato. Diário de Pernambuco, Recife, 17 jun. 1938, p. 4.

MUYLAERT, Roberto. Barbosa: Um gol silencia o Brasil. Editora SESI-SP; 1ª edição, 12 novembro 2018.


Artigos

O Maracanã como plataforma de marketing para marcas: case Reserva

Roberto Da Matta, na introdução do livro Universo do Futebol (1982), nos leva a refletir acerca da importância de compreendermos o futebol como um sistema, emoldurado pelo capitalismo, capaz de mobilizar dirigentes, jogadores, torcedores, mídia, entidades esportivas e muitos outros agentes. E é isso que buscamos realizar neste ensaio, considerando que, se o futebol foi e é capaz de servir de ferramenta para corroborar um projeto cultural brasileiro, atrelado a ideia de democracia racial, tem-se como palco deste jogo um dos espaços esportivos mais prestigiados em nosso país: o Maracanã.

A partir dos estudos de Mascarenhas (2013), compreendemos que os contextos históricos e culturais moldam a construção e a maneira com que a população brasileira dialoga com os estádios. De espaços com capacidades modestas, privilegiando as trocas sociais da aristocracia, passando por ambientes superdimensionados visando a popularização do esporte, até chegarmos às arenas esportivas do século XXI, onde a busca pela maximização de receitas dita as regras do jogo. Inúmeros desafios, histórias, memórias e momentos foram perpetuados diante destas fases, que se acumularam e construíram a vida simbólica destes espaços na memória de centenas de milhares de pessoas.

E refletir sobre esta rica trajetória nos impulsiona para analisar e compreender o cenário que se desenha no século XXI para o Maracanã. Onde, na vida material, os atores se reconfiguram e as dinâmicas sociais trazem novas camadas e desafios para todos nós. Neste caminho, vamos concentrar aqui nossos esforços para analisar o estádio como plataforma de marketing para marcas que buscam criar vínculos com seus consumidores. Isso será realizado a partir de uma ativação de marca que a Reserva realizou no estádio no ano de 2018.

Para tal, precisamos localizar o conceito de marketing de experiência, amplamente discutido no mercado corporativo como uma das principais estratégias do marketing para atrair os consumidores a partir da montagem de experiências em eventos de entretenimento. Dessa forma, é importante levarmos em consideração que, conforme estamos discutindo, não é um desafio trivial tornar o Maracanã uma plataforma atrativa para as marcas, levando em consideração, principalmente, os casos de corrupção e as polêmicas na administração que orbitam o estádio. Ainda que, por outro lado, haja uma extensa história e simbologia que contribui para que esse trabalho comercial dos executivos seja um pouco menos desafiador, afinal, estamos falando do estádio conhecido como “templo do futebol” e palco da última final de Copa do Mundo no Brasil, em 2014.

O Rock in Rio é um exemplo de evento no Brasil que conseguiu se consolidar como uma plataforma de marketing e comercial de sucesso para as marcas conseguirem captar a atenção de seus espectadores e ampliar suas mensagens-chave. E, para compreendermos o feito deste festival, precisamos levar em consideração um mundo onde os comportamentos dos consumidores são influenciados por diversos fatores, como a política, a economia e conteúdos audiovisuais. E é justamente em virtude desse cenário que as marcas buscam estratégias para se tornarem cada vez mais relevantes a partir das experiências que podem proporcionar para os seus consumidores. Não é mais suficiente ser visto pelo consumidor, seja nas prateleiras dos supermercados ou nas propagandas da televisão. É necessário se fazer presente até mesmo onde o racional não está em jogo, onde suas emoções dão o tom (AZAMBUJA, C. P.; BICHUETI, R. S, 2016). Do ponto de vista da comunicação, esta é uma área que está sendo cada vez mais pesquisada e cujo objetivo é compreender os desafios, as estratégias e as consequências tanto para as marcas e os consumidores quanto para os eventos que pretendem se posicionar neste aspecto como plataformas de marketing e comunicação, como é o caso do Rock in Rio e, em um passado recente, do Maracanã.

Do ponto de vista teórico, podemos classificar esse movimento como marketing de experiência, cujo nome é um desdobramento do conceito de marketing. Segundo a American Marketing Association (AMA) (2013), o marketing pode ser definido como um conjunto de processos que cria, comunica, entrega e troca ofertas de valor para os clientes, os parceiros e a sociedade civil. Nesse sentido, o marketing vai além da propaganda que estamos comumente acostumados a assistir na televisão, por exemplo. O marketing é a busca incessante pela criação de desejo e valor a fim de atrair os consumidores.

E isso ocorre tendo como um guia, o que o meio corporativo denomina como “quatro P’s do marketing” (KOTLER; ARMSTRONG, 1998). São eles: produto, preço, praça e promoção. Este conjunto de iniciativas tradicionais do marketing ganha, portanto, mais uma camada: o marketing de experiência. Dessa forma, conseguimos compreender que o marketing de experiência é mais uma ferramenta para complementar os conceitos de comunicação e marketing visando aproximar a marca e o consumidor, fortalecendo vínculos emocionais (HOLBROOK; HIRSCHMANN, 1982). É o que conseguimos apreender com a foto abaixo da ativação da Reserva, marca de roupa carioca, no Maracanã. O que inicialmente era o tradicional lugar onde a comissão técnica, reservas, dentre outros funcionários do clube ficavam assistindo ao jogo, se tornou neste novo Maracanã uma propriedade comercial para conectar as marcas aos torcedores. Esta foto materializa todo o esforço empreendido neste artigo: o trabalho das marcas na busca de se conectar com o Maracanã e seus atributos simbólicos a fim de captarem reputação, cultura e estilo de vida que o estádio reverbera para a sociedade brasileira, em um aspecto amplo, e carioca, mais especificamente.

Jornal O Globo / 2018

Por fim, apesar de inúmeros processos comerciais que orbitam neste novo estádio, neste breve trabalho olhamos com maior atenção em como as marcas se posicionam a fim de se atrelar às emoções produzidas pelos torcedores dentro das arenas esportivas, cuja atividade fim é fortalecer vínculos emocionais, aumentar a reputação, atingir um maior índice de loving branding[1] do consumidor, dentre outros KPIs (Key Performance Indicator) possíveis de medir dentro desse cenário.

Na vida material, onde as relações se dão, não há esta divisão didática destes processos. Os movimentos convergem e divergem a todo o momento, com comportamentos, narrativas, acontecimentos que se colocam constantemente por meio dos jogos, dos ídolos, das marcas, dos dirigentes, da imprensa, dentre outros atores sociais.


[1] Referimo-nos à love brand quando as marcas conseguem construir um vínculo com os consumidores a ponto de se identificarem com a personalidade, a cultura e o estilo de vida que ela representa. Comumente, recebem apelidos como é o caso dos nubankers, que se refere aos apaixonados pelo banco Nubank.

Referências

AMERICAN MARKETING ASSOCIATION. Definition of Marketing. 2013. Disponível em: <www.ama.org/AboutAMA/Pages/Definitionof-Marketing.aspx>

AZAMBUJA, C. P.; BICHUETI, R. S. Marketing de Experiência: Estratégias para Impulsionar o Market Share e Fortalecer a Marca do Energético Energy. Revista de Administração da UFSM, v. 9, n. Ed. Especial, p. 88-106, 2016.

KOTLER, Philip; ARMSTRONG, Gary. Princípios de marketing. 7. ed. Rio de Janeiro: PrenticeHall, 1998. 527 p.

HOLBROOK, M. B.; HIRSCHMAN, E. C. The experiential aspects of consumption:Consumer fantasies, feelings, and fun. Journal of Consumer Research, v. 9, n. 2, p. 132-140, 1982.

Artigos

LEME e Ronaldo Helal são indicados ao Prêmio Luiz Beltrão

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) e seu coordenador geral, Ronaldo Helal, foram indicados para o prêmio Luiz Beltrão de Ciências de Comunicação.

A Diretoria Cultural da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom) anunciou no dia 18 de maio de 2022 os indicados para o prêmio Luiz Beltrão de Ciências de Comunicação. A intenção do prêmio é homenagear grupos e pesquisadores que se destaquem no mundo acadêmico da comunicação, contribuindo, assim, para a valorização de profissionais e acadêmicos brasileiros dessa área.

Referência no campo dos estudos sociais do esporte, o LEME foi indicado na categoria “Grupo inovador”, responsável por premiar grupos que inovam durante as suas pesquisas nos planos tecnológicos, teóricos e pragmáticos, servindo como um parâmetro de modernização no mundo acadêmico.

Já o coordenador geral do laboratório, Ronaldo Helal, foi indicado para a categoria “Maturidade Acadêmica” do mesmo prêmio. Essa categoria premia a coletânea de obras de um pesquisador sênior que tenha reconhecimento nacional e/ou internacional, com uma carreira notória e influente já consagrada no campo da comunicação social.

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte e seu coordenador geral, Ronaldo Helal, agradecem as indicações e esperam continuar contribuindo para o campo da comunicação social tanto no Brasil, quanto no exterior.

Artigos

Museu do Futebol abre inscrições e submissão de trabalhos para o 4º Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol

Evento terá como tema “Às margens da memória: o futebol nacional entre o regional e o global”. ​Inscrições e submissões de trabalhos vão até o dia 10 de julho

A partir desta segunda-feira (16), estão abertas as inscrições e a submissão de trabalhos para o 4º Simpósio Internacional de Estudos sobre Futebol, organizado pelo Museu do Futebol, instituição do Governo do Estado de São Paulo. Os interessados devem se cadastrar pelo site (link) até o dia 10 de julho.

Este ano, o Simpósio terá como tema “Às margens da memória: o futebol nacional entre o regional e o global”. Diante das efemérides de 2022 (bicentenário da Independência e centenário da Semana de Arte Moderna), e da primeira Copa do Mundo de futebol masculino disputada no Oriente Médio, a edição colocará em perspectiva a questão da identidade nacional, levando em consideração processos históricos tanto regionais quanto globais. 

Para os interessados em apresentar seus artigos nos Grupos de Trabalho ou expor e-Pôsteres, é necessário o pagamento de uma taxa de inscrição, havendo opção de isenção ou meia-entrada (confira os critérios no site). Já para aqueles que desejarem apenas acompanhar o evento, há a opção de inscrição gratuita para ouvintes. Todos receberão certificado digital.

Serão 20 áreas temáticas propostas, incluindo clube-empresa, direitos de transmissão, esportes eletrônicos, expressões artísticas, formas de jogar e de torcer, futebol amador e de várzea, mulheres, negros(as) e pessoas LGBTQIA+ no futebol, gestão e marketing, museologia e processos museológicos, política, regionalidades, dentre outros.

O evento acontecerá entre os dias 6 e 9 de setembro em formato híbrido (presencial e on-line). As mesas-redondas serão realizadas no Auditório do Museu do Futebol e no Sesc Pompeia, com transmissão ao vivo e tradução simultânea​, enquanto as apresentações dos trabalhos (GTs e e-Pôster) serão feitas de forma virtual.

Ao todo, serão seis mesas-redondas divididas entre os quatro dias do evento. Entre os temas em debate estarão gênero e diversidade, memória, regionalidades, futebóis, Islã, racismo e antirracismo, sempre atrelados à temática do futebol. A programação completa, com os convidados, será divulgada em breve.

Sobre o Simpósio Internacional de Estudos Sobre Futebol

O Simpósio organizado pelo Museu do Futebol é um evento quadrienal, que mobiliza a mais expressiva produção de pesquisadores brasileiros e estrangeiros de diversas áreas de conhecimento, voltados para a temática do futebol. Desde a primeira edição, em 2010, o evento proporciona conferências com pessoas renomadas dos mais variados temas neste campo. ​

Para a quarta edição, a proposta é não só oferecer o que de melhor tem sido produzido por pesquisadores no Brasil e no exterior sobre a temática, mas também as experiências daqueles(as) que vivenciaram o esporte, seja como atletas, seja como jornalistas.

SERVIÇO  

IV Simpósio Internacional de Estudos Sobre Futebol  

Inscrições: De 16 de maio a 10 de julho – link

Data: 6 a 9 de setembro

Local: Auditório do Museu do Futebol, Sesc Pompeia e transmissão online

Programação: Em breve

Museu do Futebol   

Praça Charles Miller, s/n – Pacaembu – São Paulo 

De terça a domingo, das 9h às 18h (entrada permitida até as 17h) 

Toda primeira terça-feira do mês, até as 21h (entrada até 20h) 

R$ 20,00 (inteira) e R$ 10,00 (meia) 

Crianças até 7 anos não pagam 

Grátis às terças-feiras 

Garanta o ingresso pela internet: https://bileto.sympla.com.br/event/67330

Estacionamento com Zona Azul Especial – R$ 5,75 por três horas   

SOBRE O MUSEU DO FUTEBOL

Localizado numa área de 6.900 m² no Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho – o Pacaembu, o Museu do Futebol foi inaugurado em 29 de setembro de 2008 e é um dos museus mais visitados do país. Sua exposição principal, distribuída em 15 salas temáticas, narra de forma lúdica e interativa como o futebol chegou ao Brasil e se tornou parte da nossa história e nossa cultura. É um museu da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Governo do Estado de São Paulo, concebido pela Fundação Roberto Marinho e administrado pela Organização Social de Cultura IDBrasil Cultura, Educação e Esporte.

PATROCÍNIOS E PARCERIAS

A Temporada 2022 do Museu do Futebol tem patrocínio máster da Goodyear. Os patrocinadores são: EMS Farmacêutica, Movida Aluguel de Carros e Grupo Eurofarma. Tem como apoiadores: Evonik Brasil, Syngenta, Yamaha e Lojas Torra; e como empresas parceiras: Banco Safra, Eaton, Perfetti Van Melle Brasil e Grupo Zanchetta. A Rádio CBN, UOL, Revista Piauí, Gazeta Esportiva e Guia da Semana, Dinamize e JCDecaux são seus parceiros de mídia. A Temporada é realizada pelo Ministério do Turismo, por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Museu do Futebol – Comunicação

Renata Beltrão | renata.beltrao@idbr.org.br | 11 99267 5447
Fernanda Zalcman | fernanda.zalcman@idbr.org.br | 11 98602 6636

Assessoria de imprensa – Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo
(11) 3339-8116 / (11) 3339-8162   
(11) 98849-5303 (plantão)   
imprensaculturasp@sp.gov.br

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Artigos

A história do voto que frustrou a candidatura de Buenos Aires 1956

A escolha de Melbourne como sede olímpica é atribuída a um membro chileno do COI. Não foi assim.

Os membros argentinos do COI Ricardo C. Aldao e Horacio Bustos Morón na abertura da reunião em Roma em 1949 (terceiro e quarto da esquerda na primeira fila da direita).

Recentemente me referi neste jornal ao malfadado complexo olímpico idealizado pelo peronismo para os Jogos Olímpicos de 1956. Mencionei que o projeto foi abandonado quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) escolheu Melbourne, em vez de Buenos Aires, como cidade organizadora do evento. Da mesma forma, aludi ao fato de que a votação que determinou aquela eleição em abril de 1949 foi, e continua sendo, a mais próxima (21 votos a 20) para uma sede olímpica na história daquela instituição.

Um jornalista e um dirigente desportivo entraram em contato comigo para me dizer que o voto decisivo a favor de Melbourne havia sido do membro chileno do COI. Embora não o mencionassem, referiam-se a Enrique Barbosa Baeza, que ingressara no COI em 1948. A razão para justificar seu voto, prosseguiram, era que Barbosa Baeza preferia viajar para Melbourne, porque Buenos Aires era um destino mais acessível. Em seus livros de 2010, 2012 e 2004, respectivamente, Ezequiel Fernández Moores, Ernesto Rodríguez III e Víctor Lupo fizeram declarações semelhantes, embora com cautela. Assim, Lupo escreveu: o voto “que mudou a história do esporte argentino, segundo especialistas, foi de um representante de um país vizinho, que, ao ser repreendido por sua mudança de decisão, respondeu: ‘Conhecer a Austrália de outra forma seria impossível, ir para Buenos Aires é muito fácil para mim’”.

Essa explicação pitoresca da candidatura fracassada de Buenos Aires por um voto é bastante difundida no imaginário esportivo nacional, mas é apócrifa e merece ser esclarecida. Uma vez que a Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA) informou ao COI em janeiro de 1948 que Buenos Aires estava solicitando a organização dos Jogos Olímpicos de 1956, as autoridades olímpicas nacionais começaram a promover a candidatura. Por exemplo, naquele mesmo mês, Horacio Bustos Morón e Ricardo C. Aldao, os membros argentinos do COI, informaram à instituição que apoiavam a comunicação do CADCOA. Seis meses depois, enviaram uma carta a Sigfrid Edstrøm, presidente do COI, e outra aos demais colegas da instituição detalhando a candidatura de Buenos Aires e solicitando seu consentimento. Na carta diziam: “esperamos sinceramente que os nossos Colegas e Amigos apoiem esta iniciativa e votem a seu favor quando chegar o momento de o fazer”. A oferta provavelmente também foi vigorosamente empurrada durante as Olimpíadas de Londres em julho e agosto de 1948.

Em março de 1949, o CADCOA escreveu novamente ao COI insistindo em seu desejo de organizar os Jogos Olímpicos de 1956. Também produziu um livro suntuoso que serviu como “seu convite formal para celebrar a XVI Olimpíada nele (Buenos Aires) em 1956”. O COI acusou o recebimento do material e lembrou que a votação ocorreria em sua reunião em Roma, marcada para os dias 24 e 29 do mês seguinte. Os esforços das autoridades olímpicas nacionais deram alguns frutos, como mostra o telegrama de apoio à candidatura de Buenos Aires que o Comitê Olímpico Uruguaio enviou ao COI pouco antes de se reunir na capital italiana. Ao contrário, em dois telegramas também enviados naqueles dias, os dois membros brasileiros do COI votaram por Detroit, uma das nove cidades candidatas.

Na sessão de 25 de abril, o COI decidiu que o voto por correspondência não seria admitido na votação que ocorreria três dias depois. Em outras palavras, apenas os 41 membros presentes em Roma podiam votar. Nesse grupo, os únicos sul-americanos eram Bustos Morón e Aldao. Em 28 de abril, os dois membros argentinos do COI, acompanhados por Rafael Ocampo Giménez, embaixador argentino na Itália, e Mario L. Negri, líder argentino de natação, apresentaram a candidatura de Buenos Aires ao COI e tentaram convencer seus membros da conveniência de organizar ali os Jogos Olímpicos de 1956. As demais delegações também tiveram a oportunidade de apresentar as candidaturas de suas cidades.

Em seguida, o COI, que havia decidido “proceder por eliminação” (“que o número de cidades a serem eliminadas será decidido após cada (rodada)” e que na última “era necessária maioria absoluta”), iniciou a votação. Chicago, Minneapolis, Filadélfia e San Francisco foram eliminados na primeira rodada. Na segunda, Cidade do México e, na terceira, Detroit e Los Angeles. Buenos Aires obteve 9, 12 e 13 votos nas três primeiras rodadas de votação; Melbourne 14, 18 e 19. Buenos Aires conquistou 7 dos 9 votos em disputa no quarto turno, mas essa finalização impetuosa foi insuficiente para impedir Melbourne de obter a vaga (21 votos a 20). Nesse processo, Barbosa Baeza não teve influência, pois estava ausente em Roma e, se votou pelo correio a favor de Melbourne, seu voto foi rejeitado.

Aqui estão outras hipóteses da votação enganosa que teria transformado Buenos Aires na sede dos Jogos Olímpicos de 1956. Quatro meses antes da votação, no final de 1948, Aldao escreveu a Edstrøm, confidencialmente, alertando que algumas ações do peronismo em matéria esportiva estavam à beira de transgredir os princípios olímpicos. Embora Aldao não tenha mencionado irregularidades na candidatura de Buenos Aires, é possível que Edstrøm tenha se alarmado com a carta de Aldao –já que o peronismo era seu promotor– e a desvalorizado. Mesmo que ele não revelasse seu alarme aos outros membros do COI, seu voto, involuntariamente influenciado por Aldao, poderia ter sido decisivo. Claro, também é provável que nada disso tenha acontecido e que a maioria dos membros do COI acreditasse que Melbourne era uma candidata melhor do que Buenos Aires. De qualquer forma, apesar de perder por um voto, a capital argentina deixou uma imagem positiva entre os membros do COI. Como afirmou o presidente do CADCOA após a reunião daquela instituição em Viena em 1951, “a maioria dos delegados […] reconheceu a Argentina como o país mais adequado [para substituir Melbourne, se necessário]” ​​. Essa substituição, no entanto, foi desnecessária.

* Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).


Texto originalmente publicado pelo site Página12 no dia 11 de maio de 2022

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro

Notícias

Vaga de estágio no Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte

O LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte – está selecionando um bolsista de extensão para início em junho. O laboratório, fundado em 2014, na Faculdade de Comunicação Social da UERJ, trabalha com atividades de ensino, pesquisa e extensão na área dos estudos sociais do esporte.

O bolsista estará diretamente envolvido nas demandas do LEME, que incluem: 

a) participar das reuniões on-line do grupo de pesquisa “Esporte e Cultura”;

b) revisar textos de artigos e livros quando for preciso;

c) desenvolver, caso tenha interesse, alguma pesquisa própria (com o auxílio dos pesquisadores do grupo);

d) prestar auxílio na organização de eventos (palestras, seminários, lançamentos de livro);

e) elaborar as artes para as redes sociais do laboratório;

f) roteirizar e produzir os episódios do podcast Passes & Impasses;

g) editar vídeos do Preleção (teaser em vídeo do Passes & Impasses);

h) editorar o blog do LEME (comunicacaoeesporte.com);

i) monitorar as redes sociais e produzir o relatório de presença on-line do laboratório.

As atividades são supervisionadas pelo coordenador do laboratório, Ronaldo Helal, e pelos bolsistas Qualitec e Proatec.

O valor da bolsa é de R$ 606,00. É exigido o cumprimento de 20 horas semanais de estágio (flexíveis de acordo com a grade curricular do(a) bolsista). Para se candidatar à vaga, é necessário ser aluno(a) da UERJ em Comunicação Social (Relações Públicas ou Jornalismo). Alunos de todos os períodos podem participar. Buscamos alguém que tenha iniciativa, vontade de desenvolver novas habilidades, goste de esportes e escreva muito bem.

Os interessados devem enviar e-mail com currículo anexado até o dia 18 de maio (quarta-feira) para o endereço: lemeuerj@gmail.com. O processo seletivo será todo on-line e consistirá em triagem curricular, prova escrita (redação) e entrevista em datas a serem definidas.

Artigos

Sanções esportivas: Rússia hoje, outros antes

Contra a invasão russa na Ucrânia, impõem-se sanções. Várias. Inclusive esportivas.

Sanções esportivas não têm tanto impacto quanto sanções econômicas, claro. A escassez de recursos econômicos é muito mais grave do que a impossibilidade de disputar competições esportivas. Mas quando há o objetivo de isolar e desmoralizar um determinado país ou região, sanções esportivas internacionais podem ser decisivas, porque explicitam esse isolamento e desmoralização, ou seja, explicitam que aquele país ou região se tornou um pária para a comunidade de nações (ou está a caminho de se tornar). O caso mais lembrado, evidentemente, é o da África do Sul, que sofreu sanções de quase todas as entidades esportivas globais como reação ao seu regime de apartheid, condenado universalmente.

África Do Sul: o país que foi um pária do esporte mundial

Em 1964, a África do Sul foi impedida de disputar os Jogos Olímpicos de Tóquio. O mesmo aconteceu em 1968, nos Jogos Olímpicos da cidade do México. Em 1970, o país foi definitivamente expulso do COI. Uma expulsão com enorme impacto simbólico, sem dúvida. O COI, afinal, era uma das entidades mais conhecidas e respeitadas do planeta.

Já na FIFA, houve um pouco mais de dificuldade. Em 1961, a FIFA suspendeu a África do Sul pela primeira vez, mas o presidente da entidade, Stanley Rous, discordava dessa suspensão. Achava melhor buscar outra solução e reintegrou os sul-africanos em 1963. No ano seguinte, uma nova suspensão foi aprovada pela Assembleia Geral. O assunto era um foco de divergências entre os membros da FIFA. A expulsão, enfim, foi aprovada apenas em 1976, dois anos depois de João Havelange ser eleito presidente da FIFA (com amplo apoio dos representantes africanos, que exigiam aquela expulsão).

Até o fim da década de 1970, a maioria das entidades esportivas internacionais impôs punições específicas, suspensões ou expulsões à África do Sul. Envolver-se em competições com outros países passou a ser cada vez mais difícil para os sul-africanos. Em 1976, a seleção de rugby da Nova Zelândia disputou partidas na África do Sul. Em reação, vários países africanos exigiram do COI que os neozelandeses fossem expulsos das Olimpíadas daquele ano, com sede na cidade de Montreal. O COI, sustentando-se em argumentos jurídicos, não atendeu à exigência, o que provocou um grande boicote aos Jogos Olímpicos, com a adesão de 25 países africanos, acompanhados por Iraque e Guiana. Logo no ano seguinte, a comunidade britânica de nações chegou a um acordo interno que recomendava com veemência um boicote esportivo de todos os seus membros à África do Sul. Foi o chamado Acordo de Gleneagles. 

Em 1980, já havia sido atingido o objetivo de tornar a África do Sul um país-pária na comunidade esportiva mundial. Os sul-africanos participavam de poucos eventos esportivos internacionais e, quando conseguiam participar, era comum que houvesse protestos, como no ano de 1981, quando a seleção de rugby do país disputou uma série de partidas na Nova Zelândia e nos Estados Unidos. As manifestações contra essas partidas foram tamanhas que a última disputa foi realizada quase em segredo, em uma pequena cidade do Estado de Nova York, com a presença de apenas 30 torcedores. Consolidando ainda mais toda a pressão contra o regime segregacionista sul-africano, a ONU aprovou, em 1985, uma Convenção Internacional contra o Apartheid nos Esportes.

Protesto de neozelandeses contra a excursão da seleção sul-africana de rugby em 1981. Fonte: internet

Com a extinção do regime de apartheid, entre 1990 e 1994, a África do Sul passou a ser aceita em todas as entidades esportivas internacionais. Em 1992, esteve presente nas Olimpíadas de Barcelona, após 32 anos de sua última participação.

Rodésia: expulsa das Olimpíadas em votação apertada

Um caso menos conhecido é o da Rodésia na década de 1970.

Em 1965, um governo rodesiano, amparado pela minoria de origem britânica, proclamou a independência da região. Em 1970, adotou o regime republicano. A comunidade internacional, porém, não reconheceu o novo país, pois estava consolidada a ideia de dar respaldo, no continente africano, apenas a governos formados pela maioria nativa.

Mesmo sem ser reconhecida internacionalmente, a Rodésia foi admitida pelo COI nos Jogos Olímpicos de 1972, com algumas condições (entre elas, a de que participassem como um território colonial britânico e sob a antiga bandeira colonial da Rodésia do Sul). As condições foram aceitas.

Os países africanos protestaram. Alegaram que a Rodésia era um Estado ilegal, não reconhecido internacionalmente e de viés racista. Sua delegação, portanto, deveria ser expulsa dos Jogos Olímpicos. Caso contrário, haveria um boicote das nações africanas. O presidente do COI, Avery Brundage, resistiu à pressão, mas o assunto foi à votação no comitê executivo da entidade faltando apenas quatro dias para a abertura do evento. Em decisão apertada, foi aprovada a expulsão da Rodésia: 36 votos a favor, 31 contra e três abstenções. Avery Brundage se mostrou indignado: “As pressões políticas no esporte estão se tornando intoleráveis”. Para alguns dirigentes do COI, a delegação da Rodésia, formada por atletas brancos e negros, era um exemplo de bom convívio entre etnias e deveria ser protegida, não expulsa.

Avery Brundage, Presidente do COI em 1972. Fonte: internet

A expulsão da Rodésia dos Jogos Olímpicos de 1972 ajudou a isolar o país, que se dissolveu no fim daquela mesma década de 1970. Após diversas negociações diplomáticas, foi oficializada, em 1980, a República do Zimbábue, um novo Estado independente, com governo formado pela maioria nativa africana e reconhecido internacionalmente.

Naquele mesmo ano de 1980, o Zimbábue participou das Olimpíadas de Moscou. Conquistou uma medalha de ouro no hóquei sobre a grama feminino.

Iugoslávia: “geração roubada pela guerra”

Em 1992, o conflito envolvendo as repúblicas que formavam a Iugoslávia deu origem a um caso de sanção esportiva internacional que chamou muita atenção à época.

O Conselho de Segurança da ONU aprovou, no fim de maio, a Resolução 757, que impunha sanções ao governo iugoslavo sediado em Belgrado. Parte da resolução abordava a exclusão dos iugoslavos de competições esportivas. Estava comprometida, então, a participação da Iugoslávia na Eurocopa daquele ano, cuja sede seria a Suécia. O início da competição estava marcado para poucos dias depois de aprovada a sanção.

Os dirigentes da FIFA e da UEFA preferiam manter os iugoslavos na Eurocopa. Discordavam da interferência política em assuntos esportivos e havia uma situação relevante a considerar: apesar do técnico e de alguns atletas terem abandonado a delegação em razão do conflito militar, a seleção iugoslava continuava pluriétnica. O técnico substituto era croata e havia jogadores sérvios, montenegrinos, eslovenos e bósnios. Aquela equipe podia ser considerada um símbolo de tolerância e convívio, ao contrário dos ódios que moviam o conflito na Iugoslávia. 

Seleção da Iugoslávia (1992). Fonte: internet

Apesar das preferências dos dirigentes, a resolução do Conselho de Segurança da ONU não podia ser ignorada. A delegação iugoslava, que já estava hospedada na Suécia, foi excluída da Eurocopa. Os jogadores e a comissão técnica, após receberem a notícia, se prepararam para deixar o país, mas encontraram dificuldades, já que o tráfego aéreo rumo a Belgrado estava proibido, em razão do isolamento político e diplomático da Iugoslávia. Depois de algum esforço de negociação, puderam viajar, sentindo-se injustiçados e um tanto humilhados. A seleção da Dinamarca foi convocada às pressas para substituir o time excluído.

Foi convocada às pressas e surpreendeu. Terminou campeã, vencendo a Alemanha na final por 2 a 0.

A sanção esportiva contra a Iugoslávia permaneceu em vigor até abril de 1996. Foi considerada pela comunidade internacional uma sanção legítima, tendo em vista as atrocidades que chocaram o mundo durante o conflito entre as repúblicas iugoslavas. Mas também sofreu críticas. Os defensores da separação entre política e esporte ficaram extremamente contrariados nesse caso. Os atletas que foram impedidos de jogar pela Iugoslávia em 1992 reclamaram amargamente nos anos seguintes. Considerado um time de grande qualidade, com chance de entrar para a história do futebol mundial, já foram chamados de “geração roubada pela guerra”.

Em 1998, com a seleção da Iugoslávia classificada para a Copa do Mundo da França, novas sanções esportivas foram exigidas por parte da opinião pública europeia. O motivo para essas novas sanções seria o conflito do Kosovo. Dessa vez, porém, os iugoslavos foram mantidos na competição. Chegaram às oitavas-de-final e terminaram em décimo lugar.

Rússia: o novo pária do esporte internacional

A invasão russa à Ucrânia teve início em fevereiro. Rapidamente, foram impostas sanções esportivas. O COI proibiu a participação da Rússia em suas competições. Atletas e equipes russos ainda poderão ser admitidos, mas como participantes individuais, não como representantes do seu país. Diversas outras entidades esportivas internacionais aprovaram suas próprias sanções: ginástica, ciclismo, tênis, atletismo, judô, automobilismo e outras.

A FIFA impôs sanções severas. Nas Eliminatórias da Europa para a Copa do Mundo de 2022 (Catar), a seleção da Rússia estava classificada para a fase de repescagem. Seu adversário seria a Polônia. A partida, porém, foi cancelada e a Rússia foi sumariamente desclassificada. A seleção feminina também foi excluída de todas as competições, assim como todos os clubes de futebol do país.

O esporte russo, em cerca de dois meses, foi reduzido à situação de pária internacional.

As sanções estão em sintonia com o clamor antirrusso que se ergueu poderosamente na comunidade internacional depois de iniciada a invasão. Mas também há críticas e questionamentos. Alguns comentaristas perguntam por que outros países, que também se envolvem em conflitos armados e desrespeitam violentamente os direitos humanos, não sofrem sanções semelhantes. A Arábia Saudita e o Irã, por exemplo, estão envolvidos (inclusive militarmente) na guerra civil do Iêmen, que atormenta a população local há oito anos. Há denúncias graves de crimes de guerra. As seleções saudita e iraniana estão classificadas para a Copa do Mundo do Catar e, evidentemente, participarão sem qualquer objeção por parte da FIFA. Outros questionam a sustentação legal para se impor sanções a entidades esportivas russas que não tiveram absolutamente nenhuma responsabilidade pela decisão de invadir a Ucrânia. Os dirigentes esportivos russos pretendem levar esse questionamento à Corte Arbitral do Esporte.

Separar o esporte da política é uma atitude pluralista, pois se baseia na ideia de que a comunidade esportiva deve acolher atletas de todas as convicções (e também de todos os países, independentemente da ideologia ou do sistema político que os regem). Mas quando a realidade se agita, as tensões se aguçam e surge uma onda de indignação, esse pluralismo pode recuar (e dizem alguns que se trata de um recuo muito justo e sadio). As autoridades esportivas da Rússia continuarão defendendo a louvável separação entre esporte e política, mas já perceberam o tamanho do recuo que os colocou em posição de isolamento quase total. E sabem que enquanto houver invasão, esse recuo não muda. Talvez piore.

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 51 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo primeiro episódio é a Capoeira como patrimônio imaterial do Brasil. Com apresentação de Filipe Mostaro e Anabella Léccas, gravamos remotamente com Vivian Fonseca, coordenadora do programa de História Oral do CPDOC da Faculdade Getúlio Vargas (FGV) e professora adjunta do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo primeiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Malandragem”, de Mestre Capu & Grupo Gingado Capoeira.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

  • Capoeira de Besouro – Paulo Cesar Pinheiro [álbum musical]
  • Roberto Pereira, Luis Renato Vieira, Carlos Eugênio Líbano Soares, Leticia Reis, Simone Vassalo, Mestra Janja [referências no tema]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Anabella Léccas e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Anabella Léccas
Convidada: Vivian Fonseca

Artigos

Perón, o esporte e os Jogos Olímpicos de 1956

Plano da Vila Olímpica para a candidatura dos Jogos Olímpicos de Buenos Aires 1956. Imagem: Cortesia do Arquivo COI

É sabido que durante a primeira presidência de Juan Domingo Perón (1946-1955) foi implementada uma gestão estatal inédita e incomparável na história argentina que promoveu e desenvolveu o esporte em todos os seus níveis e modalidades. Para Perón, o esporte era uma tecnologia social capaz de moldar e fortalecer sua “Nova Argentina”, baseada no apotegma “justiça social, soberania política e independência econômica”, e de difundi-la no exterior. Um dos meios preferidos para atingir o último objetivo, enquadrado no que mais tarde seria chamado de “diplomacia cultural”, era a participação em eventos esportivos internacionais e a organização deles na Argentina.

Nesse contexto, em 20 de janeiro de 1948, a Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA) informou ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que Buenos Aires solicitava a organização dos Jogos Olímpicos de 1956. Nesse mesmo mês, uma carta do CADCOA fundamentava o “justo pedido” explicando que a eleição de Buenos Aires “satisfará as legítimas aspirações do governo do Exmo. Senhor Presidente, General Juan D. Perón, e dos atletas do continente” e que este [o governo de Perón] “comprometeu formalmente (…) toda a cooperação moral e material que a organização requer”. Além disso, o CADCOA assegurou que o governo estava terminando os estudos para a construção de um “grande estádio nacional com uma ‘Vila Olímpica'”, que seria o epicentro do evento.

Concluídos esses estudos, o CADCOA reiterou ao COI no início de 1949 “o propósito do Governo Superior da Nação, de construir um complexo olímpico com a Vila correspondente”. O local escolhido foram os quadrantes noroeste e sudoeste do cruzamento da Avenida Gral. Paz e Autopista Gral. Ricchieri. A eleição, que não está articulada nos documentos consultados relativos a esta candidatura olímpica, pode ser entendida como parte do que Anahí Ballent chama de operação territorial de Ezeiza, um projeto urbano “de notável magnitude no setor sudoeste da Grande Buenos Aires (que incluía) a arborização da área, novas vias de comunicação, conjuntos habitacionais e instalações esportivas, assistenciais, educativas e de saúde”. E, claro, o aeroporto internacional, inaugurado nesse mesmo ano. Dessa forma, articulando modernização técnica e social, Ezeiza constituía, também segundo Ballent, “uma espécie de cenário ideal para a política (peronista) onde a implantação de sonhos e projetos conseguiu configurar um novo espaço urbano-territorial”, que por um breve período incluiu o conjunto olímpico planejado.

Dessa forma, as delegações dos diversos países chegariam ao aeroporto internacional, o que criou “uma nova frente (e entrada) para a cidade”, e se deslocariam rapidamente por uma moderna rodovia até o complexo olímpico, que as abrigaria durante sua estada no país enquanto começava sua familiarização com as conquistas e aspirações da “Nova Argentina” de Perón. Essa possibilidade foi abreviada em abril de 1949 quando o COI escolheu Melbourne, em vez de Buenos Aires, para sediar os Jogos Olímpicos de 1956. O voto que determinou essa escolha foi, e ainda é, o mais próximo (21 votos a 20) para uma sede olímpica da história do COI. O CADCOA transformou a derrota em vitória, afirmando: “essa diferença mínima (…) conforta o espírito e satisfaz plenamente os mais queridos desejos argentinos, por tudo o que significa para nossa Pátria e o esporte argentino”.

Após a fracassada candidatura de Buenos Aires aos Jogos Olímpicos de 1956, o peronismo abandonou o projeto do complexo olímpico no cruzamento da Avenida Gral. Paz e Autopista Gral. Ricchieri. No entanto, inaugurou uma “Vila Olímpica” a poucos quilômetros do aeroporto internacional, no cruzamento da Autopista Gral. Ricchieri e Ruta 205, onde se preparou e concentrou a equipe argentina que participaria dos primeiros Jogos Esportivos Pan-Americanos de 1951, com sede em Buenos Aires, um dos eventos esportivos internacionais organizados durante a década peronista. Comparada ao abortivo plano olímpico original, esta Vila Olímpica, que fazia parte das instalações esportivas da operação territorial de Ezeiza, empalideceu em tamanho e simbolismo.

Atualmente, no local escolhido para a construção do complexo olímpico, existem inúmeros conjuntos habitacionais do tipo que Alicia Novick caracteriza como um habitat precário e irregular e traçados urbanos mais formais e regulares, mas empobrecidos. Todos nos municípios de Villa Madero e Villa Celina, no município de La Matanza. O destino daquele lugar, incluindo o sonho olímpico e o complexo tecido urbano atual, surge como uma topografia histórica e nos convida a reconstruí-lo, bem como a reimaginar seu futuro. Talvez seja isso o que fazem muitas das pessoas que o habitam, tantas vezes discriminadas e estigmatizadas, quando nos fins de semana organizam partidas de futebol e vôlei na terra firme e seca do que teria sido o complexo olímpico concebido para os Jogos Olímpicos de 1956.

* Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).


Texto originalmente publicado pelo site Página12 no dia 21 de abril de 2022

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro