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As identidades – e os sofrimentos – são contextuais

Ao longo de toda a Copa do Mundo da Rússia, mas principalmente desde o último dia 6 de julho, quando a Bélgica eliminou o Brasil da principal competição mundial de futebol, ganhou força nas redes sociais (ao menos entre o público local) um discurso crítico contra o brasileiro que estava sofrendo com a Seleção e principalmente com o revés dentro de campo.

O discurso era forte e de fácil convencimento à primeira vista: como, afinal, é possível sofrer por um “simples jogo”, praticado por jogadores milionários, estando o Brasil nesta situação calamitosa, com hospitais abandonados, crise política e corrupção desenfreada?

No mais, foi usado o exemplo da jornalista Glenda Kozlowski, que se emocionou ao vivo ao falar do sofrimento da família do volante Fernandinho ao longo do jogo da eliminação. Foi uma enxurrada de críticas. E as críticas eram ferozes, brutais, exageradas. Muitas vezes ecoado por formadores de opinião dos mais diversos tipos.

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Fernandinho voltou a deixar uma Copa do Mundo como vilão da queda brasileira (foto: Saeed Khan/AFP). Fonte: Gazeta Esportiva

De fato! É, como eu disse, um discurso fácil, populista, apelativo. Extremamente atrativo. E que, muito por isso, foi rapidamente disseminado por muitos. Muitos mesmo. Até que, de repente, tínhamos voltado décadas no tempo, quando os amantes do futebol e da Copa do Mundo eram vistos como pessoas alienadas, distantes dos reais problemas do país, que se deixavam enganar por causa de um esporte que era vendido pela mídia como um suposto “pão e circo”.

Mesmo sem ter vivido a época, pois, de repente eu me vira de volta a 1970. Com a sorte de não vivermos (ainda, ao menos) um governo de exceção, mas com o azar de que, desta vez, não vencemos nada, eliminados que fomos pela tal da “Geração Belga”.

Não vou aqui entrar nos méritos do jogo. Acho até que o Brasil jogou melhor, mas a Bélgica foi taticamente mais inteligente e, no fim das contas, mereceu a vitória. Mas quero me ater um pouco mais a esse discurso que usa termos calculadamente pensados para desqualificar o ato de torcer. Num processo perverso que de certa forma criminaliza o futebol e as sociações que surgem a partir dele.

Ora, é claro que o sofrimento de uma mãe na porta de um hospital, a espera de um atendimento que tarda em chegar, e que por isso não sabe se o filho sobreviverá; não é comparável com o sofrimento de uma mãe, sentada numa arquibancada, vendo o filho ser eliminado de uma Copa depois de ter feito um gol contra. Principalmente se, como muitos fizeram questão de lembrar, a primeira é pobre e a segunda, se outrora foi igualmente pobre, já não é mais.

Mas, ninguém que acompanhava a Copa insinuou isso. Nem ao menos cogitou essa possibilidade. O discurso não é dos torcedores, portanto. Ainda assim, ressalto, mesmo que não comparáveis, são sofrimentos igualmente genuínos, sem que um tenha a autoridade, o direito ou o poder de inviabilizar, negar ou anular o outro.

É extremamente preocupante – e perigoso – pegar frases ditas e sentimentos expressados num contexto esportivo e simplesmente usá-los em outros contextos, sem as devidas ponderações, e fazendo isso justamente com a intenção de desqualificar o esporte como fato social, como formador de identidades, como parte inerente das sociabilidades.

Muitos dos grandes antropólogos que discutem o tema das identidades desde muito tempo falam da necessidade de discuti-las dentro de contextos. E isso tem que valer, também, quando se discute o sufocar de um menino, a dor de um marmanjo, o choro de ambos frente a eliminação do time do coração em um campeonato importante.

Isso não faz deles menos humanos, menos preocupados com os problemas do país, menos sensíveis às dores alheias. As identidades podem ser múltiplas. E, dentro do contexto do futebol, aqueles que torceram pela Seleção durante a Copa escancaram apenas uma de suas identidades possíveis: a de torcedor, apaixonado pelos seus clubes e seleções, amante de um esporte que faz parte de suas tradições, de seus rituais, de sua vida desde muito tempo atrás.

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A Melhor na Final

Um futebol equilibrado, competitivo, eficiente e que chega à final como grande favorita ao bicampeonato mundial. Ninguém foi melhor nessa Copa que a França.

Se não mostrou o futebol vistoso que a Bélgica apresentou em alguns momentos, os franceses têm um time e elenco mais completo. Com um padrão de jogo bem definido, cresceu na competição jogo a jogo. Comandado pela genialidade do garoto Mbappé, que, quando não decide com gols, faz grandes jogadas, como o passe que colocou Giroud cara a cara com Courtois. Aliás, o centroavante destoa dos craques franceses, como Griezmann, Pogba, e o importante Kanté, melhor volante do Mundial.

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Foi uma semifinal de Copa do Mundo e nem todos os lugares do estádio estavam cheios — no melhor lugar da arquibancada, no meio, perto do campo, vários assentos vazios – CHRISTOPHE SIMON / AFP. Fonte: O Globo

A Bélgica manteve o seu 3-4-3 com Dembélé no lugar do suspenso Meunier. Começou bem o jogo, chegou a dominar, mas até os franceses encaixarem a marcação. É impressionante como a equipe do técnico Didier Deschamps ocupa bem os espaços com linhas compactas. Neutralizou os belgas, e passou a controlar a partida. Perdeu algumas oportunidades e só encontrou o gol na bola aérea com Umtiti. A Bélgica lançou Mertens e Carrasco. Mas produziu pouco. Não conseguiu fabelgaszer a transição do meio ao ataque. Porque a França não deixou.

Um time talentoso, seguro, que sabe brilhar na hora certa. Pronto pra ser campeão.

Rapidinha: Antes de começar a Copa, escrevi aqui no Blog e falei na TV Brasil, que entre os principais favoritos, achava a França o melhor time e que venceria a Copa. Veremos.

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Crônica pós-derrota

*Esclarecimento: Apesar do título, este texto foi escrito antes da eliminação do Brasil. Se fosse escrito depois, talvez houvesse uma pitada maior de desesperança.

– Começa a Copa do Mundo, o brasileiro esquece de tudo.

– Copa do Mundo acabou para mim.

– Esse ano não vou torcer pelo Brasil.

– Depois do 7 a 1, não tenho mais ânimo para torcer.

– Talvez só uma bandeirinha na janela.

– Agora que ganhou a primeira já posso sair com a minha camisa do Brasil.

Escutei algumas dessas frases vindas de familiares e amigos um pouco antes e no início da Copa do Mundo de 2018. São frases que sinalizam inicialmente certo desencanto do torcedor brasileiro com a sua seleção, o que veio sendo progressivamente superado com os resultados positivos e o desempenho dentro de campo da equipe durante a competição.

O clima antes da Copa não era definitivamente dos mais auspiciosos. Poucas ruas enfeitas, raras bandeiras na janela, pouca empolgação. A publicidade e as chamadas nos canais de televisão tentavam animar os torcedores brasileiros, mas não sei se surtia o mesmo efeito que em Copas passadas. Não restam dúvidas de que a maior goleada sofrida pela seleção brasileira em Copas do Mundo ainda não havia sido superada no imaginário coletivo. A situação político-econômica do país também não colaborava para fomentar o orgulho patriótico. Eram sinais inequívocos de que algo mudara na forma como o brasileiro experimenta a Copa do Mundo. O antigo diagnóstico de Hugo Lovisolo, de que a “pátria calça chuteiras cada vez menores”, vinha fazendo muito sentido nesse período pré-Copa.

Faço aqui um pequeno parêntese. Cresci em um bairro do subúrbio carioca, onde a Copa do Mundo sempre foi um momento de ruas enfeitadas, apetrechos variados em verde e amarelo, comemorações coletivas, churrascos em família, resenha com amigos no colégio. Voltar do colégio passando pelas ruas vestidas de patriotismo era uma espécie de ritual quadrienal para mim. Dito isso, admito que sinto certa tristeza por não ver mais tantas ruas coloridas com bandeiras do Brasil. Apesar de compreender todos os motivos futebolísticos e sociais que justificam essa situação, minha memória afetiva não me permite assimilar friamente a nova realidade.

Retornando ao “fio da meada” deste post, o início da Copa trouxe consigo tanto aquele torcedor típico dessa competição, que não acompanha tanto os campeonatos locais ou internacionais, mas que, a cada quatro anos, vira um boleiro padrão: se envolve com o esporte, assiste a vários jogos pela televisão, comenta nas redes sociais, posta nos grupos do Whatsapp e por aí vai. Acredito que principalmente esse torcedor era quem estava reticente sobre a validade de dispender energia emocional para assistir aos jogos e, principalmente, vibrar com a seleção canarinho. No fundo, eu não tinha dúvidas de que o apelo futebolístico falaria mais alto, ao menos para o espectador habitual de futebol. Afinal, são os melhores jogadores do mundo, reunidos em uma competição de mata-mata de curta duração. Se o atrativo estético do esporte não for suficiente, há o duelo de nações figurado. Como Ronaldo Helal já sinalizou em muitos de seus ensaios, apesar de a seleção não ser a nação, sua capacidade mimética é claramente percebida pelos torcedores, o que se torna mais um encanto da Copa do Mundo.

Na Rússia, torcedores organizados compuseram novas canções para embalar a seleção brasileira em campo e abandonar a monotonia do clássico “Eu sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”. O Canarinho Pistola ganhou a simpatia dos brasileiros. Os memes ao final de cada jogo circularam pelas redes sociais e nos proporcionaram momentos felizes e de descontração. No Brasil, as imagens da televisão mostravam a empolgação crescente da torcida ao final de cada jogo do selecionado nacional. Por fim, ao menos entre o meu círculo de amigos e conhecidos, a desesperança inicial e a desmotivação com a Copa cederam lugar ao ávido interesse pelos jogos, às resenhas entusiasmadas e à confiança de que o Brasil poderia finalmente conquistar o hexa. Houve, dessa forma, uma perceptível alteração no nível de atenção pelo torneio futebolístico.

Assim como a derrota de 1950, o vexaminoso 7 a 1 nunca será totalmente esquecido. Vitórias e atuações contundentes são capazes, no entanto, de reverter a descrença e o desânimo coletivos, levando o torcedor a novamente torcer apaixonadamente pela sua seleção antes, durante e depois da Copa.

Se cotidianamente o futebol não é dos temas que mais influenciam a vida do cidadão brasileiro em suas necessidades básicas, a cada quatro anos esse esporte impacta grandes parcelas da população e com certeza altera alguns aspectos de sua rotina (transporte, lazer, alimentação). E é por isso que devemos olhar atentamente para essa manifestação cultural.

*O sonho do hexa ficou para 2022…

….

Em tempo, acho que ainda tem de ser escrito aqui no blog um post sobre os memes que circularam nessa Copa do Mundo. Se o brasileiro não enfeitou as ruas como outrora, nas redes sociais temos observado uma enxurrada de imagens e vídeos “meméticos” – desde Cristiano “eu sou lindo” Ronaldo até Neymar rolando ao som do pião da casa própria. Aprecio muito as tradições do passado, mas também celebro os memes como uma importante adição ao comentário esportivo.

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Jogadores da seleção brasileira lamentam derrota para a Bélgica – Eduardo Knapp/Folhapress. Fonte: Folha de São Paulo
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Feminismo invade o futebol brasileiro e a mídia esportiva

A representatividade feminina no futebol tem sido uma constante este ano. Além de o Brasil ganhar a Copa América com o time feminino, atletas e repórteres estão engajadas com o propósito de aumentar os patrocínios, diminuir o machismo e exigir, cada vez mais, o respeito.

O Corinthians, atual campeão da Taça Libertadores da América no futebol feminino, criou a campanha #Caleopreconceito, com o objetivo de gerar visibilidade e atrair recursos.  Nela, jogadoras estão utilizando o uniforme do time, sendo que, no lugar do patrocínio máster (que o clube não tem na divisão feminina) estão frases do tipo: “Mulher não pode estar no futebol”, “Futebol feminino só vai ser bom quando acabar”, “Mulher é na cozinha, não jogando futebol”. Desta forma, o Corinthians busca chamar a atenção dos patrocinadores, colocando em pauta a discussão, já que o investimento no futebol feminino é muito pequeno, pois as partidas não são transmitidas pela televisão e não têm cobertura nos programas de TV tal qual o futebol masculino.

CAMPEONATO BRASILEIRO DE FUTEBOL FEMININO A1 2018: CORINTHIANS X SÃO FRANCISCO-BA
Fonte: Gazeta Esportiva

Já em março foi lançado o movimento #DeixaElaTrabalhar, que visa contribuir para o debate sobre machismo, assédio e desrespeito, não apenas nos estádios, mas também nas redações e nas redes sociais. A iniciativa surgiu após dois episódios: no dia 14 de março, a repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, estava em uma cobertura ao vivo quando foi beijada à força por um torcedor, na partida entre Vasco e Universidad do Chile, pela Taça Libertadores da América. Apesar da investida, a jornalista disse que a atitude “não foi legal” e seguiu com a transmissão. Três dias depois, em Porto Alegre, durante a cobertura da partida entre Grêmio e Internacional, Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, sofreu insultos de um “torcedor”.

Estes casos recentes ganharam alguma notoriedade na mídia e contribuíram para que 50 mulheres jornalistas criassem o movimento.  “A ideia é dar uma resposta aos assédios e às situações recentes da Bruna e da Renata, que é também um pouco a história de todas nós, que já fomos assediadas nas redações, nos estádios e sofremos violência nas redes sociais”, disse Bibiana Bolson, jornalista que aderiu a campanha, em entrevista, publicada no dia 25 de março, no site El País.

Atualmente, #DeixaElaTrabalhar já conta com mais de 20 mil apoiadores na página do Facebook, dentre eles, muitos homens que se uniram à causa. Bruna utilizou também da rede social para expor sua opinião sobre o fato dela ter sido beijada a força. “Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada”.

O movimento parece que terá um longo trabalho de desconstrução de estereótipos, já que o machismo está enraizado na cultura. Exemplo disso foi um post do #DeixaElaTrabalhar relatando que foram convidadas para estarem presentes com uma faixa na final do estadual Piauense e tiveram que ouvir gritos vindos da torcida como “Deixa ela trabalhar lá em casa”, “Nossa, como esse futebol tem coisa boa, viu!”.

O desrespeito é uma tônica no futebol também para as atletas não apenas devido ao assédio, mas também pelo fato de alguns homens julgarem as mulheres incapazes de realizar estas atividades. Muito deste conceito vem da própria história do futebol feminino no país.

Participações na mídia

Nacionalismos, paixões clubísticas e estilos na Copa do Mundo*

O futebol e o evento Copa do Mundo movimentam muito dinheiro ao redor do planeta. Mas a crença de que estamos diante de um duelo entre nações persiste.

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Fonte: O Globo

Em tempos de futebol globalizado, com seleções nacionais sendo formada por jogadores de diversos países, é curioso observar como as lealdades, os nacionalismos e as paixões clubísticas se manifestam neste ambiente.

Aqui no Brasil temos observado torcedores do Vasco comemorarem de forma mais entusiástica os gols e passes de Coutinho, formado nas divisões de base do clube. E até rubro-negros torcendo pela Sérvia contra a Suíça, menos preocupados com a tabela do grupo do Brasil, mas mais por conta de Petkovic, talvez o maior ídolo do Flamengo, junto com Adriano, desde a geração do Zico. Lealdade e gratidão relacionadas ao clube deixando em plano secundário as nações.

Na Argentina, a cobrança sobre Messi recae frequentemente em cima de sua suposta falta de “argentinidade”, já que foi para a Espanha com apenas 13 anos e não consegue repetir na seleção de seu país as atuações extraordinárias que exibe no Barcelona. Ao mesmo tempo que o idolatram, os argentinos questionam: seria ele argentino ou espanhol? É uma questão que nos remete ao nacionalismo. O próprio jogador já teve que dar entrevistas tentando mostrar que era “argentino”.

O antropólogo Howard Becker disse, certa vez, que as mudanças que ocorrem na sociedade são evidentes, mas que algumas coisas não se modificam em meio a esta miríade de transformações. O futebol e o evento “Copa do Mundo” se transformaram em um negócio que movimenta muito dinheiro ao redor do planeta. No entanto, a crença de que estamos diante de um duelo entre nações persiste, ainda que venha perdendo ímpeto recentemente.

As seleções “nacionais” não são mais tão “nacionais”, mas a crença de que elas o são cativam e atraem o torcedor. No Brasil, a seleção é formada por maioria de atletas que jogam no exterior, mas Coutinho, por exemplo, tem ligação com o Vasco. Daí o maior entusiasmo dos torcedores deste clube. Sentimentos de nacionalismo e de clubismo se misturam neste contexto, mas pendendo aqui para a lealdade clubística.

Afinal, estariam os torcedores catalães do Barcelona torcendo para a Argentina por causa do Messi e os espanhóis do Real Madri por Portugal por conta de Cristiano Ronaldo?

Um emblemático exemplo de secundarização de nacionalismo pôde ser visto em 2014, quando muitos torcedores do Flamengo meio que “torceram” para a Alemanha por conta do uniforme rubro-negro. E agora em 2018, a eliminação da Alemanha foi atribuída por eles à ausência deste uniforme. Nacionalismos e vínculos identitários clubísticos se misturando no maior evento do futebol.

A questão dos estilos é outra que sempre aparece nesta ocasião. Existiria um estilo de jogo próprio de cada país e isso teria relação com as culturas? É uma questão difícil.  Afinal, a maioria dos jogadores disputam campeonatos europeus. Porém, a crença nos estilos permanece e aí, no caso brasileiro, queremos não somente vencer, mas ver o nosso suposto estilo.

O fato é que todas as culturas costumam celebrar aquilo que as tornam únicas a seus olhos e aos olhos dos outros. No Brasil, a visão de fora foi importante para a “construção” do orgulho nacional. Desde a Copa do Mundo de 1938, a opinião dos europeus, sobretudo dos franceses, de que nossos jogadores seriam “bailarinos da bola”, conforme colocou Gilberto Freyre em artigo de 1938 intitulado “Football Mulato”, tem sido importante para a consolidação da crença de que teríamos um estilo único de jogar futebol.  E que esta maneira de jogar estaria correlacionada a formas de utilização do corpo no samba e na capoeira.

Apesar de não termos evidência empírica da unicidade deste estilo, nem tampouco de sua correlação com samba e capoeira, a crença resiste mesmo com seleções sendo formada por jogadores que não jogam em seus países. As convicções nos estilos e os vínculos identitários com clubes locais são demonstrações de “permanências” e “resistências” em um universo em constante transformação.

*Artigo publicado originalmente no O Globo no dia 01 de julho de 2018.

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Negros e árabes da Copa do Mundo: apontamentos sobre nacionalidade e migrações no futebol

Mais uma vez o debate sobre naturalizações e multiculturalismo atinge seleções participantes da Copa do Mundo.

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Kylian Mbappé: pai camaronês, mãe argelina. Craque francês.

O futebol globalizado e midiatizado já anunciava há mais de duas décadas que as chamadas “escolas do futebol” estavam com os dias contados: grandes ligas europeias seriam tão concentradoras dos melhores pés-de-obra do mundo que a tendência era uma homogeneização dos modos de treinar e de jogar.

O mundo globalizado e conectado, mais importante e decisivo que o futebol, já testemunhava um processo irreversível que transformaria a Europa: há mais de quatro décadas uma série de ondas migratórias das antigas colônias européias na África e na América começavam a remodelar o quadro demográfico do Velho Continente.

São essas duas dimensões que se imbricam para trazer um dos mais manipuláveis e necessários debates em tempos de Copa do Mundo: a multiculturalidade das seleções européias e a “renaturalização” de jogadores europeus para atuar em seleções africanas tem deixado em aberto um campo de infindáveis interpretações e especulações.

Adiante trataremos de diversas vertentes desse fenômeno. Analisaremos as seleções majoritariamente negras e árabes da Europa Ocidental; a escolha de holandeses e franceses pela seleções do Norte Africano; e o repatriamento de europeus negros por seleções do Oeste Africano. Muitas histórias e especificidades que compõem um quadro extremamente significativo sobre a mudança no conceito de nacionalidade, sobre ondas migratórias e sobre o futuro da indústria do futebol.

História colonial e migrações pós-coloniais são o cerne desse debate. Um intrigante episódio da transformação dos tempos atuais, que tem no futebol uma chave, um “microcosmo”  da realidade, passível de análises que auxiliam a compreensão desses fenômenos.

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Oito jogadores nascidos na França vestiram a camisa de Senegal.

ELES NÃO SÃO IMIGRANTES

Durante a primeira fase da Copa do Mundo FIFA 2018, um infográfico girou a internet carregando um universo de equívocos politicamente perigososos. Elaborado pelo jornal “The Times of India”, o material comparava a incidência de jogadores imigrantes em dez seleções européias, em comparação com dados demográficos concretos que apontavam uma concentração muito menor de imigrantes nesses países.

No levantamento feito pelo jornal indiano (disponível mais adiante, com alguns destaques), a França aparecia com 78,3% de seus jogadores identificados como migrantes, em contraste com a real presença de 6,8% desses na população do país. Na sequência, a Suíça é 65,2% de seu time formado por migrantes, ao passo que o país possui 24%; enquanto a Bélgica aparece com migrantes em 47,8% e 12,1%, do time e do país respectivamente.

Em que pese a boa intenção da publicação – buscando provar a “importância” da imigração para essas seleções – o material comete o grave equívoco de negar, de um modo ou de outro, a nacionalidade desses atletas. Tratando individualmente a história desses jogadores considerados migrantes, perceberemos que maioria absoluta desses jovens são nascidos e criados na Europa, sem muito ou qualquer contato com a terra de onde seus pais emigraram.  

Se um importante jornal de uma antiga colônia da Inglaterra (que ainda hoje é o destino de muitos indianos) pode cair no perigoso discurso que envolve a verdadeira naturalidade de filhos de imigrantes, não surpreenderia perceber como a extrema-direita europeia tem se apropriado desse tema. Jogadores de origem árabe ou negra, alguns já de segunda geração de nascidos europeus, são fatalmente estigmatizados como imigrantes por causa da sua cor, religião ou costumes.

Em que pese a vida diferenciada que leva uma estrela do futebol – vida menos difícil do que o jovem europeu negro e árabe “comum” -, o peso do racismo e da instrumentalização política do tema da imigração, também atinge esses sujeitos. Principalmente em um contexto de crescimento dos extremismos nacionalistas europeus.

São homens majoritariamente milionários e prestigiados dentro dessa indústria cultural atingidos pelo peso da intolerância e da ignorância. O caso de maior destaque recente é o de Romelu Lukaku, jogador belga de pais congoleses que se manifestou sobre o assunto: “Quando as coisas iam bem… eles me chamavam de atacante belga. Quando as coisas não iam bem, eles me chamavam de Romelu Lukaku, o atacante belga de ascendência congolesa”.

Na Copa do Mundo passada a polêmica se instaurou na França. Diante do baixo desempenho da equipe nas eliminatórias européias, o debate racial voltou a ser instrumentalizado pelo Front National, partido da extrema-direita nacionalista francesa. Marine Le Pen, líder do partido, tratou de atacar a existência de tantos “estrangeiros” na seleção francesa como motivo da sua decadência. Eram traçados paralelos quanto a uma suposta decadência social e cultural da França “demasiadamente multicultural” com o “ultraliberalismo” do futebol.

Mas Le Pen falou muito e falou cedo demais. Precisando reverter um resultado de 2 a 0 sobre a Ucrânia para garantir a vaga na Copa do Mundo 2014 no Brasil, a França se superou com um 3 a 0 e conquistou a vaga. Os gols foram marcados pelo filho de argelinos Karim Benzema; e pelo filho de senegaleses Mamadou Sakho. Eventos que não provocaram novos exercícios de analogias sociológicas da extrema-direita francesa, obviamente.

Mas Sakho escolheu se pronunciar: “Eu apenas gostaria de dizer que os jogadores desse time representam todas as pessoas na França, a sociedade multicultural da França. Quando nós representamos a França sabemos que estamos jogando pela nação multicultural francesa. Nós amamos a França e tudo que é França (…) França é feita de cultura árabe, cultura negra africana, cultura negra da índias ocidentais (Caribe) e cultura branca”.

Os casos de Lukaku e Sakho foi tratado em artigo recente de Laurent Dubois, historiador e autor do livro “Soccer Empire: The World Cup and the Future of France”, lançado em 2010. Dubois avaliava como a declaração de Sakho ecoava o debate que se mostrava em aberto desde 1998, quando o negro caribenho Lilian Thuram e o árabe Zinedine Zidane (filho de argelinos), lideraram o país ao seu primeiro título mundial.

Se a pretensa “influência” positiva provocada por esses heróis assinalava uma expectativa positiva de diminuição das tensões sociais, raciais e culturais na França, por outro lado reacendeu a pressão sobre possíveis derrotas esportivas. Na época Jean-Marie Le Pen, então líder do Front National (e pai de Marine Le Pen) já havia lançado mão dos discursos xenofóbicos posteriormente aplicados pela filha. Tornou a usá-los em 2006, quando os maus resultados foram tratados por ele como consequência de uma seleção “exagerada no número de jogadores de cor”, e que esses seriam mercenários que não amavam o país.

Para não resumir essa postura a figuras extremistas do campo da política institucional francesa, vale recobrar a polêmica desbaratada em 2011, que expôs gravações de reuniões do quadro diretivo da Federação Francesa de Futebol, incluindo o campeão mundial Laurent Blanc, que discutia formas de limitar a presença de negros e árabes na seleção nacional e nos programas de formação de atletas do país. Com o crescimento recente de ataques de grupos terroristas radicais islâmicos, o corte de jogadores de origem árabe também passou por intensos debates. E, por fim, cabe ressaltar que nunca existiu um único membro de cargo diretivo na federação francesa que não fosse branco. Dos 40 clubes de primeira e segunda divisão francesa, apenas um não tinha um treinador branco.

Abaixo estão disponíveis o material do jornal “The Times of India”, e ao lado um levantamento mais objetivo quanto ao número de jogadores naturalizados por essas dez seleções européias. Os dados do jornal indiano também contém inconsistências quanto ao número de “nascidos estrangeiros” e “estrangeiros”, que são duas categorias distintas nos estudos da OECD (fonte usada pelo jornal).

Quando tratamos de “migração”, estamos falando do recorte “nascidos estrangeiros” apenas. Portanto, dos alegados 18 estrangeiros da França, apenas três de fato nasceram fora do país. Dos alegados 11 estrangeiros da Bélgica, absolutamente nenhum precisou pedir cidadania para vestir a camisa vermelha. O único lugar de onde eles migaram, de fato, foi do ventre da mãe para o mundo.

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À esquerda o gráfico do “The Times of India”. À direita o número exato de naturalizados por país.

De todo modo, até que ponto avaliar quantitativamente o perfil étnico de 23 homens pode dizer algo sobre a realidade de um país? A seleção brasileira de 2018, por exemplo, só tem um único jogador nascido no Nordeste, região que concentra mais de 40% da população do país. O mesmo número de nordestinos nas seleções de Espanha e Portugal. São diversos, amplos e complexos os fatores cabíveis para discussão, todos menores que um: o desempenho recente dos jogadores com qualidade para convocação.

As explicações muitas vezes estão tão concentradas em fatores internos do futebol que breves exercícios nos mostram que esses temas só são realmente elevados ao status de constatação sociológica quando se trata de instrumentalizá-lo para grandes debates políticos. Seja para tratar perigosamente dos “benefícios da imigração”, como foi o caso da publicação indiana; seja para atacar a pluralidade étnica da equipe em momentos ruins, como faz o Front National.

Por outro lado, mostra-se indispensável repensar como o futebol tem cumprido um papel de inserção desses filhos de imigrantes em sociedades onde, via de regra, são considerados cidadãos de menor valor, ou mesmo ilegítimos cidadãos. Parte considerável dos jogadores negros e árabes detectados no levantamento são oriundos de famílias de esportistas ou de pessoas que trabalham com o esporte em alguma medida.

Uma vez que o futebol se mostrou ao longo das últimas décadas como um vetor de integração desses jovens negros e árabes, é natural que a incidência dessas duas matizes étnicas tenha fatalmente ultrapassado a de brancos. Sobretudo porque a indústria do futebol tende a ser menos restritiva a esses perfis étnicos do que outros espaços sociais como universidades, grandes empresas, cargos públicos e outras posições de destaque. No futebol o que importa, até certa medida, é saber jogar futebol.

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Marrocos após 20 anos: oito franceses, cinco holandeses, dois espanhóis e um belga.

UM DEBATE QUE NÃO ADMITE MORALISMO

Fora da Copa do Mundo de 2018, a Holanda é outra forte seleção européia repleta de negros. Apesar da boa presença de filhos de africanos, o destaque maior fica para filhos de negros emigrados das suas colônias ou “territórios ultramar” na América Central e Caribe – em geral, descendentes de escravizados levados à força aos empreendimentos coloniais europeus na região. A baixa representação árabe é curiosa, apesar da grande colônia magrebina no país. Alguns episódios curiosos nos levam ao próximo viés desse tema.

Parte da defesa de Laurent Blanc, quanto ao escândalo dos limites de negros e árabes na seleção francesa, se baseava numa preocupação sobre um problema real: muitos desses jovens passavam pelas categorias de base da FFF e acabavam por optar pelo país de origem de seus pais. Um tipo de caso que teve um episódio especial na Holanda. Quando a jovem promessa Hakim Ziyech recusou o convite da Holanda, optando pela seleção de Marrocos, o eterno ídolo holandês Marco Van Basten classificou o jovem como “estúpido”.  

Independente do destino ter tirado a Holanda da Copa, e garantido a classificação de Marrocos para a sua primeira Copa do Mundo desde 1998, o caso de Zyiech é significativo porque não é único. Sofyan Amrabat, outro jovem holandês almejado para a seleção, também trocou o país de nascença pelo de seus pais. Outros três holandeses defenderam a seleção marroquina na Copa do 2018.

Esse movimento simbólico ocorre num contexto em que Geert Wilders, lider do Partido da Liberdade, de extrema-direita, passou a atacar com frequencia a comunidade marroquina na Holanda. O discurso xenófobo foi a tônica da campanha política do segundo candidato mais votado para primeiro ministro, que chegou a chamar os marroquinhos de “escória”. Ainda que o futebol não esteja tão inserido na agenda da extrema-direita holandesa, como é na França, é de se pensar as razões sentimentais e identitárias que mexem com esses jogadores.

Uma interessante reportagem do New York Times trazia a opinião de um ator econômico extremamente relevante nos tempos atuais: “O agente Charaf Boudhan explicou que jogadores que possuem a opção de jogar por vários países costumam enfrentar uma equação complexa, uma tipicamente guiada pelos laços familiares e a emoçao por um lado, e a um cuidadoso calculo profissional por outro”. Considerando a idade de Zyiech e Amrabat, 24 e 21 anos respectivamente, e o interesse interno em atraí-los para a seleção holandesa, é totalmente possível acreditar numa escolha feita com o coração.

Carl Medjani, jogador de nacionalidade francesa, optou por jogar pela Argélia com 24 anos graças ao desejo de seu pai de vê-lo representando seu país de origem. Jogou a Copa de 2014 pelo país do Norte da África que contou com nada menos que 17 franceses renaturalizados em seu time. Há também o caso dos irmãos Jordan Ayew e Andre Ayew, filhos do maior ídolo de futebol de Gana, Abedi “Pelé” Ayew. Apesar da naturalidade francesa e do grande espaço que tinham no futebol local, optaram por seguir o legado do pai atuando juntos.

No entanto, cabe refletir sobre a legitimidade da escolha desses jogadores independente de sua motivação. Se eles não escolhem a terra dos pais, continuarão taxados de imigrantes, mesmo nascidos na Europa. Se eles optam por uma escolha de retorno, eles se tornam imeditamente “mercenários” em busca de visibilidade.

O caso da estrela francesa Karim Benzema é um desses. Uma vez que se recusou a cantar a “Marselhesa”, hino nacional francês, por esse conter versos que se remetiam ao domínio colonial sobre a Argélia, terra de seu pai, uma onda de ataques se dirigiram ao jogador. O fato é que diversos outros jogadores também não costumam cantar o hino francês antes dos jogos, inclusive o “legítimo” francês Frank Ribery. Mas a posição política contra um símbolo do domínio imperial francês não pode ser vista de forma contraditória porque Benzema usa a camisa da seleção da França.

O jovem Kylian Mbappé, craque da França de apenas 19 anos, é um caso ainda mais interessante. Seu pai é um imigrante camaronês, e sua mãe uma imigrante argelina; ambos dedicaram a vida a trabalhar pelo esporte de alguma forma. Se tivesse a mesma idade em 2014, Mbappé poderia ter optado por uma três seleções que jogaram aquela Copa. Hoje, um craque de nível mundial com idade de jovem promessa, pôde escolher atuar por uma das seleções mais prestigiadas do futebol mundial. É titular absoluto e atual jogador mais valioso do mundo.

O polêmico francês Benoit Assu-Ekotto resistiu algumas vezes aos convites de Camarões, até decidir pela “renaturalização” diante da classificação da equipe para Copa. Assu-Ekotto ficou famoso por suas declarações extremamente sinceras como: “É apenas um trabalho. Ok, é um bom trabalho e eu não digo que odeio futebol, mas não é minha paixão”. O que nos traz a reflexão sobre a real importância em se exigir algum tipo de exigência moral em torno do futebol: trabalhadores comuns almejam maior mobilidade e ascensão, jogadores de futebol também.

Razões profissionais também não deixam de ser legitimas num futebol que torna garotos pobres em homens milionários numa carreira de no máximo 15 anos. A escolha de ficar ou de voltar não é simples: “guardar-se” para uma seleção europeia e não ter a certeza da vaga é uma decisão tão difícil quanto arriscar que uma seleção africana garanta uma vaga na Copa do Mundo.

A CAF tem a eliminatória mais acirradas da Copa. Doze seleções disputam apenas 5 vagas de forma acirrada e com frequência. Em que pese a repetição dos participantes de 2010 e 2014, o cenário geral é de alternância. Desde que a Copa do Mundo passou a ter 32 seleções já aconteceram a participação de quatro seleções do Magreb (Argélia, Egito, Marrocos e Tunísia), seis do Oeste Africano (Camarões, Costa do Marfim, Gana, Nigéria, Senegal e Togo), além de Angola e África do Sul. Não há “cadeira cativa” na África.O quadro que segue exemplifica a variação intensa dos países vitoriosos.

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Variação na posição das seleções africanas ao longo dos anos. (Legenda: CAN = Copa Africana de Nações / WC = Copa do Mundo).

Delas, apenas o Egito não se encaixa na realidade da “renaturalização” que, em termos mais diretos, é a busca de atletas com maior nível de treinamento e experiência a nível internacional. Boa parte deles, inclusive, tem passagens por categorias inferiores do futebol desses países europeus. Como mostraremos adiante, o cenário de renaturalização é generalizado. Esses jogadores são a todo instante acompanhados, procurados e convidados para escolher a seleção africana pela qual tem nacionalidade.

A “renaturalização” não tem pesado apenas em jogos da Copa do Mundo, mas especialmente nas disputadíssima competições locais, seja pela vaga no Mundial, seja nos torneios continentais onde os finalistas também se alternam com frequência. É nessa lógica que o futebol da França –  ainda que seja o menos qualificado entre as cinco grandes ligas – é o ambiente de procura por esses jovens de dupla nacionalidade européia e africana. Na Copa de 2018 nada menos que 25 jogadores nascidos na França estavam vestindo a camisa de Marrocos (8), Tunísia (9) ou Senegal (8). Um número muito maior que os 7 nascidos na Holanda, os 3 nascidos na Espanha e outros casos de nascidos na Inglaterra e Bélgica.

Em termos gerais as grandes forças africanas estão localizadas no Norte da África, de predominância árabe; e no Oeste da África, de população majoritariamente negra, nas antigas colônias francesas e inglesas. As principais ligas foram criadas apenas ao final da década de 1950 e ainda pouco representam no contexto do geral do futebol mundial. Não bastasse o atraso histórico da formação desses torneios e clubes africanos, o abismo financeiro e a proximidade geográfica com relação à Europa causa a saída precoce de jogadores, que em boa medida nem ao menos se formam em clubes locais.

Das cinco seleções africanas na Copa do Mundo de 2018  pouquíssimos são os jogadores que atuam em seus países: 8 no Egito, 5 na Tunísia, 2 no Marrocos, 1 na Nigéria e nenhum em Senegal. No caso dos países do Oeste, ampla maioria desses jogadores sequer tiveram sua formação futebolística no futebol local, o que faz os números que apresentaremos mais adiante poderem ser considerados muito maiores.

ANALISANDO AS RENATURALIZAÇÕES

É importante diferenciar os países do Norte e do Oeste africanos. No caso dos países de maioria árabe do chamado Magreb (inserindo aqui o Egito) o processo de migração se iniciou ainda no pós-guerra, em grandes programas de importação de mão de obra barata para a reconstrução dos países europeus devastados pela guerra. Não à toa, as primeiras ocorrências de jogadores nascidos na Europa atuando por seleções africanas acontece em outras épocas, quando a Argélia teve dois franceses em na Copa de 1982 (Noureddine Kourichi e Ali Fergani), e dois franceses (Kourichi e Halim Benmarbrouk) e um inglês (Rachid Hakourk) na Copa de 1986.

Após essas edições só voltaríamos a ver um europeu vestindo uma camisa africana em 1994, quando a Nigéria renaturalizou Efan Ekoku. Aqui já estaríamos vendo uma leva de jogadores filhos de emigrados das antigas colônias do Oeste africano, processo que se inicia com maior intensidade a partir dos anos 1980. Até então as vagas para africanos para a Copa do Mundo eram extremamente restritas. O que nos permite supor que uma das motivações para o aumento consecutivo de jogadores naturalizados acontece quando a África passa a ter cinco vagas garantidas nas Copas quando a FIFA decide ampliar para 32 o número de participantes.

Participar da Copa passou a ser uma realidade mais palpável para muitas federações africanas. Na esfera política, a participação em uma Copa do Mundo ainda atrai interesses profundos. Seja nos cargos superiores das federações locais, seja na política institucional desses países, grandes eventos esportivos são momentos de alta visibilidade internacional. Na esfera econômica é desnecessário apontar o efeito de estar inserido em uma Copa do Mundo. Como dito antes, as seleções africanas sempre tiveram grande nível de equilíbrio e competitividade interna, em especial para a disputa de vagas da Copa do Mundo e dos títulos da Copa Africana de Nações.

Nos anos 2000 o futebol já alcançava um patamar de internacionalização inédito, e as grandes ligas europeias começavam a reduzir ou eliminar as restrições de estrangeiros em seus clubes. Isso mobilizava interesses dos principais atores econômicos do futebol na atualidade: os grandes grupos que agenciam a carreira de jogadores de futebol. Movimentar-se para encaixar seus “ativos” em alguma seleção que participe da Copa, ainda que sem qualquer grande expectativa de resultados positivos, é uma prática que buscava ampliar a visibilidade desse jogador, inseri-lo no hall de atletas de alto nível.

No quadro abaixo estão separados por cor as seleções que já participaram de Copa do Mundo pela África. As duas primeiras estão em destaque por não serem do Oeste (vermelho) ou Norte (verde) africano. O quadro apresenta o número de jogadores naturalizados ao todo.

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Número de jogadores europeus em seleções africanas em cada Copa do Mundo.

Dos 11 renaturalizados da Copa do Mundo de 2006, apenas o alemão Otto Ado, de Gana, não era francês. Junto à Nigéria e ao Egito, Gana compõe os três únicos países do Norte e do Oeste que não foram colonizados pela França. O que explica em partes a diferença dos números, afinal o fluxo de migração das décadas anteriores não era para o mesmo destino.

Mas ainda falta algo para entender tamanha abundância de jogadores franceses com uma segunda nacionalidade e com qualidade técnica. Segundo o site CIES Football, a França possui hoje a segunda maior “população” de jogadores expatriados do mundo, isto é, nada menos que 821 atletas nascidos na França atuando em outras ligas. O destino principal deles é o riquíssimo futebol da Inglaterra (99), seguido da Bélgica (85), Luxemburgo (77) e Itália (60). A título de comparação, o Brasil, com o triplo de habitantes, tem 1236 jogadores em outras ligas, e a grande maioria joga em times de Portugal (240), uma liga de menor nível, e Itália (62).

Esses números nos permitem observar que o futebol na França, apesar de considerado uma das Big5 Leagues,  tem sido “produzido” para exportar jogadores, e que esses estão sendo formados para atuar em alto nível internacional. Explica também, de foma indireta, o motivo dos países francófonos africanos estarem recrutando tantos filhos de emigrados, seja no Norte ou no Oeste. Uma cadeia que combina uma alta formação de atletas de alto nível, a particular sofisticação do mercado de atletas no futebol francês, com uma alta taxa de habitantes filhos de imigrantes de antigas colônias francesas, além do papel que o futebol tem cumprido na integração desses jovens franceses negros e árabes.

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Convocações de franceses que por países africanos francófonos nas últimas Copas.

Uma hipotética Copa do Mundo de 2022 com a participação de cinco ex-colônias francesas poderá gerar um novo recorde. E, uma vez confirmada a participação de 48 seleções em 2026, com possíveis 9 vagas confirmadas para países da Confederação Africana de Futebol, é muito provável que os principais grupos agenciadores de carreiras de atletas já estejam se reunindo, fazendo projeções ambiciosas sobre a renaturalização desses pés-de-obras.

A progressão do número de convocados nascidos franceses, criados franceses e formados como jogadores franceses em cada país já é notável até então, como a tabela acima informa.

E OS RESULTADOS?

Por fim, vale apontar que tal estratégia das seleções africanas ainda não tem se revertido em resultados concretos. Em que pese o nível técnico estar, de fato, sendo elevado com esse procedimento – afinal, como dito, a preparação técnica e física é inevitavelmente superior nas academias europeias -, também fica a sensação de que o futebol africano há muito deixou de ser aquele estilo de jogo inspirador dos anos 1990.

Desde 1982, quando Alemanha e Áustria protagonizaram “O Jogo da Vergonha”, combinando uma vitória alemã e tirando uma vaga da Argélia, é a primeira vez em nove Copas do Mundo que uma seleção africana não passa da fase de grupos. Um resultado passível de muitas especulações, mas não necessariamente uma imensa derrota. Considerando que Marrocos entrou num grupo com Portugal e Espanha; a Tunísia encarou Inglaterra e Bélgica; que a Nigéria caiu para a Argentina; e Senegal foi eliminado pelo fato do critério de desempate ser “número de cartões amarelos”; o resultado de 2018 não simboliza um desastre.

Inclusive, vale dizer, a única vez que uma seleção africana entrou na Copa como “cabeça-de-chave” – portanto, passível de ter um grupo com adversários tradicionalmente menos fortes – foi quando a África do Sul sediou a Copa do Mundo. Caiu na primeira fase porque de fato ali já se via uma decadência no futebol local, principalmente com relação aos adversários africanos. Entrar em um grupo com um forte cabeça-de-chave é, na maioria das vezes, ter apenas uma vaga a disputar.

Mas o fato de apenas dois treinadores serem negros ou árabes em 2018 (Tunísia e Senegal), igualando o baixo número de 2014 (Gana e Nigéria), vale sempre trazer o já consolidado debate sobre a perda de uma identidade do futebol desses países. Em que pese o prestígio que muitos treinadores europeus tem nesses países, e mesmo o papel que eles tem cumprido nesse processo de renaturalização intensa.

Com a renaturalização e a formação da ampla maioria desses jogadores na “forma” francesa de produção de atletas para  exportação – que domina toda essa história que tratamos nesse texto – talvez estejamos vendo mais um segundo escalão e terceiro da seleção francesa vestindo as camisas africanas do que necessariamente aquele futebol africano que um dia nós encheu de esperança por uma renovação do belo jogo, para torná-lo ainda mais belo.

E se a renaturalização vem servindo como medida paliativa para contornar a fragilidade de formação de e jogadores nas ligas internas, não seria exagero supor se a próxima geração de europeus de origem africana não começaria a ter certa indisposição de embarcar nessas aventuras da renaturalização pelos países de seus avôs.

Ou mesmo até que ponto a FIFA, tão reativa e passiva às pressões exercidas por essas ideias arcaicas de nacionalidade, origem e migração, deixaria de intervir nessas renaturalizações. Gianni Infatinno mal tem se posicionado sobre o tema, mas esse foi um assunto que marcou de forma intensa os últimos anos de gestão de Joseph Blatter.

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