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“Amarelinha” desbotada

Durante a reprise na TV Globo da conquista do pentacampeonato mundial do Brasil na final da Copa de 2002, as redes sociais ficaram repletas de comentários saudosistas e nostálgicos. Um deles, de Oliver Stuenkel, prestigiado professor de relações internacionais, foi particularmente interessante. Ele postou uma foto sua EM 2002 com uma camisa da seleção e a seguinte legenda: “Que saudades de 2002. Nessa época, dava para vestira a camisa da seleção sem ser confundido com terraplanistas de extrema direita”.

Foto: Presidente Bolsonaro é recebido por crianças com camisa da seleção em ato antidemocrático contra o Congresso Nacional e o STF (Foto Wagner Maciel/Estadão Conteúdo)

Desde março de 2015, de forma mais explícita, o uniforme principal da seleção brasileira de futebol vem sendo usado por grupos conservadores em manifestações. Inicialmente a favor do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff e, posteriormente, em apoio à candidatura do atual presidente Jair Bolsonaro. No momento de mais baixa aprovação do governo Bolsonaro, em meio à falta de comando no combate à pandemia do coronavírus [1], nossos domingos tem sido marcados por xingamentos às instituições, flertes autoritários em manifestações dos mais intransigentes e inflexíveis militantes. O uniforme é a “amarelinha”, vestida por muitos deles.

A seleção brasileira de futebol foi durante o século XX um dos símbolos mais importantes para a construção do que é “ser brasileiro”. Essa construção foi também um projeto político que buscava integrar uma sociedade dividida pela escravidão e pelos regionalismos, e teve nas vitórias da seleção brasileira e nas narrativas da imprensa esportiva, a partir dos anos 1930, a base para a consolidação da ideia de “País do Futebol” [2]. Essa ideia, mesmo enfraquecida nos tempos atuais, tem a ver com a paixão e a esperança com a seleção, sobretudo em tempos de Copa do Mundo.

A camisa amarela daquele que é, até agora, o único time pentacampeão mundial adquiriu uma série de representações e atributos ao longo das conquistas. A grande maioria deles foi positivo tanto sobre o futebol jogado pelos brasileiros como sobre o povo brasileiro. Cartão de visita e passaporte informal do brasileiro pelo mundo, ela passou a significar na imaginação “talento diferenciado”, “irreverência” em campo, “alegria”, e “solidariedade” em quem a veste [3]. Representações da forma que jogamos e que até hoje tentam ser reproduzidas na imprensa esportiva nacional, mas que não é mais dominante

Por ter feito uma monografia sobre o tema, percebi como foi avassaladora a transformação simbólica que a camisa amarela sofreu em seu processo de apropriação pela extrema-direita. Há até pouco tempo, a “amarelinha” possuía conotação e representação que estavam acima das disputas políticas e partidárias. O Brasil foi campeão em 1994, derrotado na final de 1998, mas, independentemente disso, Fernando Henrique Cardoso foi eleito e reeleito presidente. O pentacampeonato em 2002 não ajudou o PSDB a se manter na presidência, e Luís Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), venceu a eleição daquele ano. A seleção brasileira não venceu os mundiais de 2006 e 2010, e o PT continuou no comando do Poder Executivo Federal, com Lula e, posteriormente, Dilma Rousseff, eleita para o primeiro mandato à época.  Em nenhuma dessas eleições, a camisa amarela da seleção foi usada como símbolo de um dos candidatos. Foi uma característica pós-redemocratização, enquanto, durante a Ditadura Militar, a seleção e a camisa amarela tenham se aproximado do Regime em 1970 com a propaganda política que tentou surfar na onda do tricampeonato no México [4].

Desde a instauração e vigência da Nova República, a partir de 1988, o esporte também vive uma nova era, marcada pela inserção de times e marcas, como a Nike, em um mercado agora global do esporte com cifras bilionárias em contratos de patrocínio, pela ida de jogadores brasileiros cada vez mais cedo para atuarem no exterior, e pelos poucos jogos da seleção em solo nacional. A seleção brasileira passa por um processo de desterritorialização, despolitização e desnacionalização para se inserir à lógica transnacional do capital [5]. A Seleção Brasileira teve Londres como sua casa. Menos de 10% dos amistosos do time desde 2003 aconteceram em solo nacional. Tudo isso distancia o torcedor da seleção e seus símbolos, mas nada do que estamos vivendo atualmente teve tanto impacto negativo.

As representações em torno da “amarelinha” passaram a ter as conotações mais negativas possíveis a partir da crise política atual [6]. Não tivemos nem grandes conquistas em campo para contrabalancear seu uso político. Os rituais em torno do futebol, o “clima de copa”, foram transportados para a onda conservadora responsável por retrocessos políticos, econômicos e sociais.

É importante lembrar que uma das forças de mobilização da Copa do Mundo tem a ver com o duelo de nações e identidades em campo, de forma que uma seleção de onze titulares mais os 12 reservas representaria o país como um todo. No caso da polarização política, podemos fazer a comparação entre o duelo das “nações”: a que foi contra a destituição da então presidente Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, e a que apoiou uma conservadora à direita na política nacional.

Foto: Manifestante vestido com camisa da seleção brasileira comemora prosseguimento do Impeachment na Câmara dos Deputados em 2016 (Foto: Nacho Doce/Reuters)

Durante o impeachment, a votação de admissibilidade da deposição de Dilma Rousseff que ocorreu no dia 17 de abril de 2016, um domingo à tarde, na Câmara dos Deputados, escancarou esses novos rituais, por parte dos apoiadores do impeachment. Em comum, a congregação de um grupo que tinha um objetivo comum (no caso, vencer a partida do impeachment); vestir a camisa amarela da seleção; pertencimento e socialização neste grupo; cantar o hino nacional; a vibração típica de gol em cada voto dado a favor do impeachment; a apoteose quando o resultado se definiu a favor do grupo que apoiava o impeachment, com a explosão de fogos, cornetas, “buzinaços” e “apitaços”.

Algumas representações da cobertura da imprensa capturam essas semelhanças. Reportagem no site da revista semanal “Época”, no dia da votação do processo na Câmara dos Deputados (17 de abril de 2016), tem como título: “Pró-Impeachment, Avenida Paulista tem clima de festa da Copa”. No subtítulo, “Camisetas da seleção, vuvuzelas, cerveja holandesa, coreografias e comemoração, na derrota de Dilma na votação da Câmara”[1]. [7]

No campo cultural e das festas populares, a camisa amarela da seleção foi símbolo da ala “Manifestoches”, no desfile da Escola de Samba Paraíso da Tuiuti, vice-campeã do Carnaval do Rio de Janeiro de 2018. A camisa, em uma versão genérica, foi usada para criticar a suposta “alienação” dos manifestantes pró-impeachment vestidos com o uniforme da seleção brasileira e que carregavam o pato amarelo da Federação das Industrias do Estado de São Paulo (FIESP), também apoiadora do impeachment no enredo “Meu Deus, meu deus , está extinta a escravidão?”. [8]

Mostaro e Fontenelle (2018) [9] destacam um mapeamento quantitativo realizado durante a Copa do Mundo sobre as narrativas em torno da camisa da seleção brasileira. A pesquisa começou no primeiro dia de competição (pela fase de pico do engajamento do público com o torneio, a partir do jogo de abertura do mundial) e foi encerrada no dia da eliminação da equipe comandada por Tite diante da Bélgica nas quartas-de-final, para evitar que a derrota em campo influenciasse o levantamento. Duzentas e dezesseis pessoas responderam ao formulário digital. 82,6% afirmaram “já ter comprado uma camisa oficial da seleção brasileira”; 61% “já compraram alguma blusa amarela em alusão à camisa da seleção brasileira e usaram durante a Copa do Mundo”; 43,9 % “acreditam que a camisa virou uma espécie de marca de um movimento político”; 21,4% “deixaram ou deixarão de usar a camisa da seleção brasileira devido à alusão aos protestos” (46,2% “não deixaram ou deixarão de usar a camisa da seleção brasileira”; 21% “continuarão usando a camisa da seleção apesar de não concordarem com os protestos que pediam a saída de Dilma.

Em meio à polarização política nacional, acredito que o uso da camisa amarela da seleção grupos conservadores e até mesmo reacionários em protestos de rua não está dissociado de uma transformação discursiva maior, que afeta outras democracias ocidentais. Um processo de crise do capitalismo e dos princípios políticos e econômicos liberais no qual o recrudescimento conservador e ultranacionalista se impõe como alternativa sedutora para muitos [10].

A interdependência e desregulamentação dos mercados têm deixado as economias nacionais suscetíveis a crises e ao aumento da desigualdade. No caso brasileiro, algumas especificidades, de 2013 para cá, reforçam a “onda conservadora” que chegou ao poder: crise e descrença na representação política; deflagração de escândalos de corrupção no âmbito da Operação Lava-Jato e a crise econômica que tem afetado grande parte da sociedade brasileira com baixo crescimento do Produto Interno Bruto e elevado desemprego. No bojo das transformações e fragmentações que consolidaram a Globalização, é possível constatar a ascensão retórica de representações que remontam a “origens”, “raízes” e “puritanismo” culturais, alicerçadas na radicalização de concepções nacionalistas, étnicas, religiosas, e que seriam responsáveis por resgatar a “ordem” e a “prosperidade”, em uma perspectiva ilusória e saudosista do passado.

Apropriar-se dos símbolos nacionais, por grupos identificados como de “extrema-direita”, é um mecanismo amplamente usado em diversos países e faz parte de uma estratégia elaborada de confundir Estado e Nação com uma ideologia, um político e um partido específicos. Traje nacional, a camiseta da seleção simbolizou no passado que aqueles que a vestem angariam todo o complexo de atributos positivos associados à nação brasileira, uma vestimenta ritual que afirma de modo inequívoco o pertencimento daquele que a veste aos ‘nossos’ valores. Uma das marcas dessas candidaturas consideradas de extrema-direita e de movimentos políticos conservadores globalmente é, discursivamente, se intitular como legítima dona dos símbolos pátrios, como parte de uma estratégia sofisticada, pois permite uma suposta divisão da população entre patriotas de um lado e inimigos da pátria de outro. Não à toa, um dos slogans da campanha vitoriosa de Bolsonaro foi “Meu partido é o Brasil”, que também estava presente em uma faixa vista nas manifestações de junho de 2013.

Portanto a camisa amarela da seleção brasileira, que teve um papel decisivo na formação do que é “ser brasileiro” ao longo do século XX, não ia ficar de fora dessa disputa política, já que possui forte apelo sentimental. Só que pela primeira vez na nossa história recente, a camisa perdeu o seu poder agregador, virou algo restrito a um nicho, que gera cada vez mais repulsa, como indicam as pesquisas de opinião.

E isso diz muito sobre nosso futuro, sobre a ausência de horizontes. Porque a camisa representava a ideia de termos um destino comum. Podia aparentemente se mostrar de forma clara somente a cada 4 anos, mas ela estava lá, sendo a camisa a prova concreta. Um destino comum de vencer, de ser grande e feliz. Injusto, racista e desigual, o Brasil não mudaria da água para o vinho da noite para o dia. Mas, ainda que com contradições e lacunas, atrasos e pessoas deixadas para trás, um projeto de país surgia. Não à toa, em 2010 o Brasil estava na lista dos países mais felizes do mundo [10].

Isso foi comprometido. Em 2019, que projeto em comum nos move harmonicamente? O que temos de consenso? A “Amarelinha” poderia não ter uma unanimidade totalizante, mas era elemento consensual. Se antes gerava identificação, agora pode gerar rejeição caso você não seja “Bolsominion”.

Como a história se repete e ciclos de luzes e obscurantismo se intercalam, a pergunta que fica é: se, no futuro, uma outra onda conservadora, moralista e nacionalista capenga se instaurar no Brasil, a camisa amarela da seleção estará novamente desempenhando o mesmo papel de agora? Esse vai ser o significado dominante da “amarelinha”, já que cada vez mais a seleção não empolga? [11] Alguns não querem pagar para ver tanto é que os jornalistas João Carlos Assumpção e Juca Kfouri sugerem até uma campanha para mudar a camisa principal da seleção [12].

 

Referências

[1] Reprovação ao governo Bolsonaro vai a 50%, aponta XP/Ipespe; 57% veem economia no caminho errado. Info Money , São Paulo. 20 de junho de 2019. Disponível em: https://www.infomoney.com.br

[2] HURT, J. O Brasil: um Estado-nação a ser construído. O papel dos símbolos nacionais, do império à república MANA 18(3): 471-509, 2012

[3] DAMO, A. A Magia Da Seleção. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, vol. 28, núm. 1, setembro, 2006, pp. 73-90

[4] MOSTARO, F. F. R. A Seleção Brasileira como propaganda do Governo. Getúlio em 1938 e os militares em 1970. Trabalho apresentado no DT 1 – Jornalismo do XV Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sudeste realizado de 13 a 15 de maio de 2010

[5] ALVITO, Marcos. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização. Análise Social. Lisboa, n. 179, p. 451-474, 2006.

[6] PINTO, C. A trajetória discursiva das Manifestações de Rua no Brasil (2013-2015). Lua Nova, v. 100, 2017.

[7] “Pró-Impeachment, Avenida Paulista tem clima de festa da Copa”. Revista Epoca, São Paulo, 16 de abril .Disponível em: https://epoca.globo.com> Acesso em 2 de outubro de 2019

[8] “Com desfile político, Tuiuti se torna assunto mais comentado na internet”. Correio Braziliense, Rio de Janeiro, 12 de fevereiro de 2018. Acesso em 14 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br

[9] MOSTARO, F. F. R.; FONTENELLE, C. “Patriota” ou “Manifestoche”: a camisa da seleção brasileira e sua reapropriação nas narrativas políticas”. Trabalho apresentado no GT 4 durante o XV Poscom PUC-Rio, de 6 a 9 de novembro de 2018.

[10] LÖWY, M. Conservatism and far-right forces in Europe and Brazil. Tradução de Deni Alfaro Rubbo e Marcelo Netto Rodrigues. Serv. Soc. Soc.  n. 124. São Paulo out./dez. 2015

[11]HELAL, R; SOARES, A. O Declínio da Pátria de Chuteiras: futebol e identidade nacional na Copa do Mundo de 2002. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br

[12] Campanha para mudar a camisa da seleção. Blog do Juca Kfouri – UOL. São Paulo, 14 de maio de 2020. Disponível em: https://blogdojuca.uol.com.br

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Quem sediará a Copa do Mundo Feminina 2023?

Troféu da Copa do Mundo feminina — Foto: Getty Images

A Copa do Mundo Feminina 2019, sediada na França, foi marcada por uma bela campanha, em termos de seleções niveladas por alto (razão da força das ligas de futebol feminino), de imprensa/transmissão (130 emissoras envolvidas e com alcance de 135 países) e de recordes na venda de ingressos (entrada para finais e semifinais esgotadas em 48 horas). Depois dessa edição, o evento se tornou ainda mais interessante. A FIFA divulgou que irá anunciar no dia 25 de junho quem sediará a próxima edição dentre as quatro candidaturas no páreo. Concorrem com o Brasil para receber o Mundial a Colômbia, o Japão e a candidatura conjunta de Austrália e Nova Zelândia.

A votação ocorreria no início de junho em Addis Ababa, capital da Etiópia. No entanto, em razão da pandemia do coronavírus, a FIFA precisou adiar para 25 de junho a escolha da sede e informou que o encontro será feito de forma online e que os votos de cada delegado serão tornados públicos no site da entidade.

Além disso, a secretária geral da FIFA, Fatma Samoura, comentou que a federação tem por objetivo investir um total de 1 bilhão de dólares na modalidade no ciclo atual.

“A FIFA continua comprometida com a implementação do processo de licitação mais abrangente, objetivo e transparente da história da Copa do Mundo Feminina da FIFA. Isso faz parte do nosso compromisso geral com o futebol feminino que, entre outras coisas, verá a FIFA investir US $ 1 bilhão no futebol feminino durante o ciclo atual”, disse Samoura.

De acordo com o portal Trivela, a candidatura da Austrália é uma das favoritas, uma vez que o país possui estrutura pronta para realização de jogos. Além disso, o país também tem uma liga profissional feminina forte (burocracia esportiva). Já o Japão tem como trunfo o fato de sediar a Olimpíada de 2020 (adiada para 2021), enquanto a Colômbia tenta convencer os votantes por meio da infraestrutura já existente dos eventos de base, como o Mundial Sub-20 realizado em 2011.

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) entregou no dia 12 de dezembro de 2019, na sede da FIFA em Zurique, os documentos que tornaram oficial a candidatura do país para sediar a Copa do Mundo Feminina de 2023. Um fato, porém, chamou a atenção de Tariq Panja, jornalista do New York Times: a ausência de mulheres entre os representantes brasileiros à Uefa.

No Twitter, Panja questionou: “A Confederação Brasileira de Futebol veio à Uefa para tentar o direito de sediar a Copa do Mundo feminina de 2023. Só ficou faltando uma pessoa na delegação: uma mulher”.

A CBF alega que somente as pessoas diretamente envolvidas na parte técnica do projeto poderiam participar desse momento, quando o país ainda está na candidatura e não foi confirmado como sede. Segundo a CBF, estiveram presentes o responsável pelo projeto, Ricardo Trade – antigo CEO da Copa de 2014, que agora comanda o projeto para sediar o Mundial feminino em 2023 – e o diretor de Compliance da entidade, André Megale. Fernando Sarney, vice-presidente da confederação, também esteve na Uefa, mas como membro do Conselho da FIFA. A CBF reforça ainda que há muitas mulheres envolvidas no desenvolvimento do projeto para receber a Copa do Mundo feminina.

Apesar disso, na carta enviada à FIFA, a proposta do Brasil ressalta aspectos como promoção da igualdade de gênero, prevenção de todas as formas de assédio e a importância do futebol feminino para o país. A candidatura prevê jogos em oito cidades distribuídas em todas as regiões do país, que também receberam jogos da Copa do Mundo de 2014. São elas: Manaus, Recife, Salvador, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre.

De acordo com a CBF, por ter sido sede de duas Copas do Mundo nos últimos cinco anos (Copa do Mundo masculina de 2014 e da Copa do Mundo Sub-17 de 2019), o Brasil aposta nessas experiências bem-sucedidas para convencer a entidade mundial a realizar o evento feminino no país. A infraestrutura será a mesma já usada nessas grandes competições recentes.

“A FIFA já demonstrou que confia na nossa capacidade de realizar eventos deste porte. Eu tenho repetido que a partir de agora a CBF será candidata a receber todas as grandes competições do futebol mundial, pois temos experiência e equipamentos comprovadamente de excelência. Sabemos que temos fortes concorrentes, mas acreditamos na possibilidade de termos mais uma Copa do Mundo no Brasil”, ressalta Rogério Caboclo, presidente da CBF, no site oficial da confederação.

A FIFA disponibilizou os cadernos com as candidaturas de cada um dos finalistas. Na carta da candidatura do Brasil, Caboclo ressalta que “a emoção e a excelência da Copa do Mundo Feminina da FIFA 2023 no Brasil irão garantir que uma nova geração no país, na América do Sul e em todo o mundo descubra o futebol feminino. O Brasil pode abrir novos caminhos ajudando a elevar o jogo das mulheres a alturas sem precedentes em todo o mundo. Juntos, vamos fazer história”.

CBF apresentou proposta para sediar Copa do Mundo de 2023 – Fonte: CBF

A Copa do Mundo Feminina da FIFA 2023 terá uma novidade: contará com 32 seleções e não mais 24, como a edição anterior na França. Ela seguirá o modelo atual da Copa do Mundo Masculina. A última edição feminina foi a mais vista da história, com cerca de 1,1 bilhão de espectadores acompanhando a cobertura no mundo inteiro.

Mas, afinal, quem sediará a Copa do Mundo Feminina 2023? Vamos aguardar a votação de junho e torcer por nossas favoritas.

Fontes:

Site oficial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF)

Site oficial da Federation International Football Association (FIFA)

Documentos oficiais das quatro candidaturas finais ( Austrália e Nova Zelândia:  Caderno de Candidatura / Sumário Executivo , Brasil: Caderno de Candidatura / Sumário Executivo , Colômbia: Caderno de Candidatura / Sumário Executivo , Japão: Caderno de Candidatura / Sumário Executivo)

 

 

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A estruturação do futebol mostrada em The English Game

Com a necessária parada do entretenimento ao vivo, o consumo de jogos antigos, mas também de séries e filmes sobre futebol nos ajudam a dirimir um pouco da saudade das partidas. Aqui, tratarei de The English Game, série da Netflix lançada este ano, do ponto de vista de alguns conceitos adaptados dos estudos de Crítica à Economia Política.

Fonte: Netflix

Aviso de antemão que neste texto eu não irei avaliar a série do ponto de vista cinematográfico (roteiro, fotografia etc.), nem verificar os problemas de representação histórica. Para ambos objetivos, sugiro que acompanhe a live do podcast Na Bancada que tratou muito bem dessas questões.

Em 2014, publiquei o artigo “Os três pontos de entrada da Economia Política no futebol” (SANTOS, 2014), em que adapto “os pontos de entrada da Economia Política” apontados por Mosco (2009) – mercantilização/comodificação, espacialização e estruturação –, enquanto categorias conceituais para análise do futebol profissional ao longo do tempo, entendendo aí as transformações histórico-dialéticas, logo, na perspectiva da totalidade social, para estudar esse esporte.

Fonte: Cena da série The English Game.

“Deixamos o jogo civilizado”

Até pelo período histórico recortado na série, final do século XIX, aqui nos interessará especificamente a estruturação – ainda que a mercantilização também começasse a se fazer presente. Sobre ela, Mosco (2009, p. 311) afirma que:

Especificamente, a estruturação equilibra a tendência na análise político-econômica ao apresentar as estruturas, normalmente as instituições empresariais e governamentais, estudando e incorporando as ideias de ação, de relações sociais, do processo social e da prática social. Ao mesmo tempo, […] rechaça como extrema a ideia de que se pode analisar a ação em ausência de estruturas. Isto se explica porque a estrutura proporciona o meio a partir do qual a ação atua.

A partir disso, eu inicio o artigo apontando a importância de estruturas formais para normatizar o futebol da maneira que temos até hoje, com destaque para as escolas no momento da diferenciação entre as práticas, que definem valores liberais básicos, com a competitividade sendo limitada pelo conjunto de regras, o que diminuiria a violência, mas também geraria algum nível de igualdade na disputa.

Mascarenhas (2014, p. 68) indica que em diversas regiões do mundo a prática ruidosa de uma partida deixou de ser vista como distúrbio apenas “adicionando ao jogo um conjunto de sentidos e significados nobres, trabalho cultural realizado por bacharéis, educadores laicos e missionários”.

The English Game trata, de forma romantizada, de 1879 ao início da década seguinte, com a transição da exclusividade da prática do jogo pelas pessoas de elite para trabalhadores, contando já ali com times de operários das fábricas inglesas, com os primeiros jogadores sendo “contratados”, mas apenas para jogar nos clubes, que assim podiam concorrer com os aristocráticos. A cada nova FA Cup aproximam-se do título, o que gera revolta nos controladores e participantes do jogo, que buscam usar o seu poder como barreira de atuação de outros jogadores e clubes.

Ainda que apareça de forma clara nas discussões sobre os problemas referentes à participação de determinados clubes, esse modelo de decisão é o que será aplicado na formação das entidades em caráter internacional. Assim, “por mais que a habilidade e a técnica estejam com os jogadores, o ordenamento da lei e a organização institucional e corporativa convergem numa grande entidade paraestatal” (SANTOS, 2014, p. 564), que no caso do filme é a FA (Football Association).

Fonte: Cena da série The English Game

“Mas também precisam do futebol”

Mesmo com a possibilidade da participação de operários jogando ou, como ocorre com Fergie, enquanto trabalhadores, logo podendo negociar a sua força de trabalho para um patrão, este segue detendo a posse dos meios de produção necessários para que a prática profissional ocorra.

Na série, vemos greves e outras formas de manifestação da classe operária e também o papel do futebol como forma de diversão, mas cuja gestão estrutural era garantida financeiramente pelos patrões.. Mascarenhas (2014, p. 91) afirma sobre isso que os capitalistas estavam preocupados com o movimento sindical do período, assim, “o trabalhador vestindo a camisa da empresa para jogar futebol significaria, muito mais que fazer sua propaganda, assumi-la como ‘sua’ instituição, um grau inequívoco de pertencimento”. Isso faz com que não seja estranho que alguns clubes tenham surgido a partir da gerência industrial, que tornava ainda eficiente certa “‘pedagogia da fábrica’: trabalho em equipe, obediência às regras, especialização nas tarefas, submissão ao cronômetro etc.” (idem, p. 91).

A estrutura de classes se estabelece naquele momento, com a elite político-econômica de dada localidade deixando aos poucos a atuação nos gramados para passar ao comando gerencial do futebol, caminhando já ali para uma prática lucrativa. Enquanto isso, cabia às classes populares o acesso ao jogo enquanto trabalhador ou, quando consegue pagar a entrada, como assistente. Nesse processo é que aparece a construção dos espaços de hegemonia. Como afirma Bolaño (1999, p. 53), “há um processo de edificação de uma ordem esportiva que, partindo do mundo da vida, sobrepõe-se a ele e o coloniza”.

Importante ainda dialogar com Mascarenhas quando ele faz uma relação direta com a organização taylorista do trabalho, que também passa a ocorrer nas fábricas naquele momento histórico. O saudoso pesquisador brasileiro salienta a especialização individual que passa a ser necessária para quem atuará profissionalmente no esporte: “Um jogador de futebol assume determinadas funções relacionadas à sua posição no time e no campo de jogo, e deve nela se especializar, tal qual o operário numa linha de montagem” (MASCARENHAS, 2014, p. 91).

***

Dado o limite da proposta deste espaço, pararemos por aqui. Vejam que não só não me aprofundei nas claras questões sobre a mercantilização, mas também não avancei na espacialização do jogo e como determinados aspectos estruturais hão de se repetir em outros países, como o Brasil. Creio que as referências específicas sobre futebol aqui utilizadas podem jogar luz sobre outras questões, da mesma forma que a série vem instigando outras reflexões para os estudos sobre o futebol.

Referências

BOLAÑO, C. R. S. A capoeira e as artes marciais orientais. Candeeiro, Aracaju, v. 3, p. 51-56, out. 1999.

MASCARENHAS, G. Entradas e bandeiras: a conquista do Brasil pelo futebol. Rio de Janeiro: Eduerj, 2014.

MOSCO, V. La Economía Política de la Comunicación. Barcelona: Bosch, 2009.

SANTOS, A. D. G. dos. Os três pontos de entrada da Economia Política no Futebol. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, v. 36, n. 2, p. 561-575, abr.-jun. 2014.

THE ENGLISH Game. Direção: Birgitte Stærmose e Tim Fywell. Produção: Jorge Ramos de Andrade. Londres: Netflix, 2020. Streaming (série com 6 episódios).

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Jogos de resiliência e força

Há pouco li uma entrevista do sociólogo francês Michel Maffesoli, publicada  no boletim criado pela Faculdade de Comunicação da Uerj para pensar a pandemia e parei para refletir sobre a afirmação dele de que o risco zero não existe e que a morte é parte integrante da condição humana. Imediatamente me dei conta de que essa consciência sobre a fragilidade humana, que para alguns veio de forma mais exacerbada durante a pandemia do coronavírus, faz parte da realidade da vida de muitas pessoas desde que nasceram. Viver é um desafio constante com riscos visíveis e invisíveis além de mudanças repentinas na rotina. Esse desafio é ainda maior para a maioria dos atletas paralímpicos.

Com o cancelamento das competições em todo mundo e o adiamento dos Jogos Paralímpicos, terceiro maior evento esportivo do mundo, os atletas tiveram que lidar com novas mudanças que trouxeram obstáculos que precisam ser superados, assim como os outros que enfrentaram para chegar à elite do esporte.

O principal desafio do momento, além, é claro, de evitar o contágio do vírus, é se manterem ativos. Mas como fazer isso sem uma competição-alvo? Hoje, assim como o esporte de uma maneira geral,  o esporte paralímpico está sem um calendário definido. Todas as seletivas e competições nacionais e internacionais foram canceladas. A única data prevista é a dos Jogos de Tóquio, que foram marcados a princípio para o período de  24 de agosto a 05 de setembro de 2021.

Com isso, todo o treinamento que costuma ser feito de acordo com essas datas ficou inconsistente. É preciso lembrar que o planejamento de treinamentos e competições no quadriênio paralímpico é minuciosamente calculado para que os atletas atinjam o máximo desempenho. Afinal, a superação de resultados, seja em recordes ou em número de medalhas é o sonho da vida de todos eles. Sem datas definidas, os preparadores dos atletas não conseguem fazer a periodização necessária para a preparação física. Com isso,  a maioria dos atletas está fazendo apenas um treinamento de manutenção. Com clubes fechados e sem disporem dos equipamentos necessários para um treinamento mais intenso, todo o trabalho de performance, seja de força ou velocidade,  ficou comprometido.

Fonte: wikipedia

Algumas associações paralímpicas mais estruturadas como a Associação Paraolímpica de Campinas (APC) começaram a desenvolver um atendimento on-line com os atletas. Com equipes multidisciplinares, a associação está tentando dar um suporte através do programa de atendimento residencial denominado APC Home Training, cujo plano de trabalho inclui acompanhamento virtual de treinadores, preparador físico, psicólogo e nutricionista. É preciso lembrar que as deficiências dos paraatletas são as mais variadas,  desde de a falta de um ou mais membros à dificuldades visuais, intelectuais  ou mesmo de coordenação motora. O que significa que esse tipo de iniciativa tão importante  nesse momento em que estamos vivendo muitas vezes requer uma forma de comunicação ou suporte especializado para que todos os atletas possam se beneficiar de forma  isonômica  do recurso audiovisual disponibilizado. Trata-se de uma logística muito mais complicada do que, por exemplo, a adaptação de cursos de ensino presenciais para modalidade à distância.

Segundo dados do IBGE relativos ao censo de 2010, 23,9%  da população brasileira (45,6 milhões de pessoas) tem algum tipo deficiência.  Dependendo da gravidade da lesão da pessoa com deficiência (PcD), isso implica necessariamente em ter um cuidador. E, ser cuidado em tempos de Covid-19, representa risco duplicado já que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), classifica pessoas com limitações na locomoção ou outras dificuldades que impeçam de seguir à risca as orientações da organização em relação à proteção individual como as mais expostas à contaminação pelo vírus.

Lembro, agora, de um post de uma colega jornalista que perdeu o pai recentemente e, sem poder ter contato com ele nos últimos tempos por causa do isolamento social, acompanhava  a cuidadora da janela, com um misto de gratidão e inveja pela proximidade. Assim como para muitos idosos, para boa parte das PcDs, a presença do fisioterapeuta e cuidador significa vida. A cartilha do governo com orientações sobre a pandemia,  no entanto,  não considerou todas as pessoas com deficiência como pertencentes ao grupo de risco mais suscetível à contaminação pelo vírus. Mas que essa fragilidade não seja traduzida como fraqueza, já que o próprio movimento paralímpico nasceu de um outro maior, de luta por direitos dos deficientes. De 1988 pra cá, o movimento vem solidificando conquistas para promoção de uma sociedade mais inclusiva, em que todas as pessoas com deficiência tenham direito à igualdade, cidadania e acesso universal à educação, transporte público, reabilitação e emprego.

Sem  dúvidas, os atletas de alto nível são reabilitados e têm um preparo físico infinitamente superior ao dos deficientes que não tem hábito de praticar esportes ou fazer exercícios de maior intensidade. No entanto, assim como as demais pessoas, precisam seguir à risca as orientações de isolamento. O que também os transforma em vítimas de alguns dos efeitos psicológicos negativos da quarentena, como a solidão, o medo e a ansiedade.

Ansiedade que também pode ser justificada pelo impacto que o cancelamento das competições teve no processo de qualificação. O atleta da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), Fábio Borgignon, revelação dos Jogos Paralímpicos de 2016 com duas medalhas de prata no atletismo 100 e 200m T35, é um dos que estavam bem próximos de conseguir o índice para Tóquio.  Apenas três centésimos separavam o atleta da vaga que ele esperava garantir no Open Loterias Caixa de Atletismo e Natação. A competição internacional seria disputada entre 21 e 28 de março no Centro  de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, que conta com instalações esportivas de excelência para treinamento e competições de 15 modalidades paralímpicas. O cancelamento não só dessa como de outras competições seguido do adiamento dos jogos, na opinião de Fábio, vai beneficiar atletas que não estavam suficientemente preparados para brigar pela vaga, o que promete tornar a disputa ainda mais acirrada já que agora muitos poderão tirar proveito desse ano de vantagem para preparação. E é exatamente nesse quesito, a preparação, que bate nele e em outros atletas o medo de perder o condicionamento.

“O vírus me fez perceber que a maior parte do consumo que temos em nossas vidas não é necessário para sobrevivência. Sabemos que juntos podemos fazer muito pela humanidade e pelo nosso planeta, que os profissionais de saúde têm que valer mais do que os jogadores de futebol. As prevenções salvam mais vidas do que atitudes de última hora. Que não temos o controle de tudo. Que as redes sociais aproximam a sociedade mas também distanciam  gerando o caos. Que dinheiro não resolve tudo. Que somos um mal para o planeta, pois ele se regenera mais rápido sem a gente. Por fim, a empatia (levada ao pé da letra) é a chave para qualquer nação sair de uma crise. Isso, porque, ao reconhecer o valor do outro, prioriza o bem-estar de todos.” @atletafabioborgignon7

Fonte: foto enviada pelo atleta Fábio Bordignon

 

Atualmente, assim como outras áreas, o esporte está cercado de incertezas. Exatamente por essa razão uma das prioridades da força-tarefa criada pelo Comitê Paralímpico  Internacional foi estabelecer a data para realização dos jogos de Tóquio em 2021. Foi o primeiro resultado concreto de um trabalho de reação rápida e de força que os envolvidos na realização dos jogos terão que fazer. Afinal,  existem muitas coisas em jogo, inclusive a questão econômica que obrigará todos a apertarem o cinto. Milhares de contratos já estavam assinados. A Vila dos Atletas pronta, 41 instalações esportivas disponibilizadas, passagens compradas, 40 mil quartos de hotéis reservados, 2 mil ônibus, direitos de transmissão e verbas de patrocinadores adiantadas. Apenas uma amostragem do que vai ser a reconstrução dos jogos. Um grande quebra-cabeça.

Numa live da qual participou recentemente, o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), Andrew Parsons, falou sobre algumas decisões que tomou em meio à pandemia.  Uma delas foi a de que ele, como dirigente, iria focar apenas no que pode ser feito e não no que não pode. Uma lição aprendida nos anos de contato com os paraatletas e reforçada nesses tempos difíceis. Os atletas com deficiências diariamente maximizam o que podem fazer.  E, mais do que isso, mostram a importância de ter jogo de cintura nos momentos de crise. Haja vista as mensagens de incentivo que atletas de todo o mundo enviaram no Dia Mundial da Saúde.

Exemplos de resiliência não faltam no movimento paralímpico. E eles vem de toda parte. Na Noruega a atleta paralimpica de hóquei no gelo, Lena Schroeder, recentemente formada em medicina, foi para linha de frente ao combate do covid-19 no seu pais. Em Santiago de Compostela, na Espanha, a triatleta Susana Rodriguez Gacio também não teve dúvidas em trocar as roupas de treino para os Jogos de Tóquio pelo jaleco de médica.  Pelo telefone, ela participa do programa de saúde do governo espanhol que seleciona pessoas com indicação para o teste de coronavírus. Mesmo apaixonada pelo esporte paralímpico, quando viu o número de casos aumentar na Espanha, não titubeou ao optar pela saúde, confirmando o que para ela já era uma verdade, que por trás do esporte vem sempre a humanidade. Por isso, tanto Susana quanto outros atletas  e dirigentes acreditam que mesmo com todos os desafios impostos pela pandemia, as Paralímpiadas de 2021 em Tóquio serão, sim, jogos de transformação e, também, de  celebração da vida num ambiente em que a saúde, a liberdade e a paz estarão acima de tudo e de todos.

Fonte: Facebook da atleta

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo quarto episódio do Passes & Impasses

Acesse o décimo quarto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo quarto episódio é “E-sports: jogo ou esporte?”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, gravamos remotamente com Rafael Fortes, o Rafifa, ex-aluno da Faculdade de Comunicação Social da UERJ e jogador profissional de FIFA, e Rafael Casé, professor da Faculdade de Comunicação Social da UERJ.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo quarto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “On Top Of The World” da banda Imagine Dragons.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

ARTIGOS, LIVROS E OUTRAS PRODUÇÕES

 

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Letícia Quadros e Fausto Amaro

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Mattheus Reis

Convidados: Rafael Casé e Rafael Fortes

Artigos

Momento delicado

Em tempos de pandemia, sabemos que, em várias áreas , as dificuldades econômicas estão redobradas ao redor do mundo. Por parte dos clubes de futebol e agremiações esportivas, isso não é diferente. No Rio de Janeiro, o próprio Flamengo, mesmo com todo o sucesso de bilheteria e títulos da temporada passada, já demitiu funcionários. Vasco e Botafogo seguiram pelo mesmo caminho, enquanto o Fluminense, apesar de toda a crise, descartou rescisões e demissões, mas permanece na corda bamba financeira.

Se os chamados “times grandes” estão enfrentando sérios problemas, o que falar dos considerados “pequenos”?

No Campeonato Paulista, até a chegada da Covid-19, você se recorda quem liderava a competição? Não era o elenco recheado do Palmeiras, nem o estrelado time do São Paulo. Também não era o Santos, atual vice-campeão brasileiro, e o Corinthians muito menos. Antes da paralisação do certame, o Santo André estava a ocupar a ponta da tabela.

Fonte: globoesporte

Com investimentos muito menores que os feitos pelos clubes da capital, o Santo André voltou a atrair os holofotes da imprensa depois de um longo tempo. O campeão da Copa do Brasil de 2004 fazia uma belíssima campanha no Estadual, que é considerado o mais disputado do país, porém nem tudo são flores.

Com a pausa da competição, o clube passa por um desafio enorme no que diz respeito ao contrato dos jogadores. No fim de abril, o vínculo de 21 dos 26 jogadores inscritos pelo time do ABC Paulista se encerrou. Desta forma, o líder do Paulistão só tem cinco jogadores com contratos ativos até o momento. A diretoria negocia com representantes dos jogadores para extensões, porém a imprevisibilidade quanto ao retorno das partidas atrapalha bastante.

A realidade vivida pelo clube é dura, mas não é exclusiva. Entre os 12 “pequenos” que disputam o Campeonato Paulista, 333 jogadores foram inscritos e 114 possuíam vínculo até o fim de abril. Fica evidente, portanto, que só nos resta esperar todo esse momento delicado passar e torcer por um bom desempenho dos dirigentes, para que a saúde financeira dos clubes não fique mais abalada do que já está.

Com a instabilidade que paira sobre os clubes brasileiros quanto à data de retorno das atividades futebolísticas no país, o planejamento financeiro também se torna algo imprevisível. Os dirigentes em todo o Brasil tentam achar saídas para que os clubes não quebrem em meio à crise. Algumas equipes adotaram o treinamento à distância de seus atletas, outras deram férias adiantadas, e também têm aqueles que tentam respaldo nas instituições que administram o futebol brasileiro.

Tratando-se dos campeonatos internacionais, diversas decisões estão sendo tomadas na tentativa de evitar um prejuízo que pode alcançar R$20 bilhões aos cofres europeus. O Campeonato Francês encerrou a competição e declarou seu líder, o PSG, campeão da temporada. Será que poderíamos adotar algo parecido com os estaduais, para não atrasar ainda mais o calendário?

Fonte: romanews

Segundo o site Marca, entre os clubes espanhóis, ao contrário do que acontece no Brasil, os times considerados pequenos serão os menos afetados e teremos Barcelona e Real Madrid com os principais prejuízos no país. Isso ocorre porque os times de menor expressões tem sua fonte de renda advinda, principalmente, da televisão. Já os maiores, de seus sucessos de bilheteria.

Com medidas especiais sendo tomadas, os clubes alemães se preparam para retomar o principal campeonato do país em meio à pandemia. Os jogos serão transmitidos somente pela TV com os portões fechados, mas as autoridades estão otimistas que em breve estarão com seus estádios cheios novamente.

A situação no Brasil está longe de ter uma solução ideal, mas as entidades futebolísticas deveriam estar buscando alternativas com mais afinco. Uma comunicação entre CBF, as federações estaduais e os clubes poderia ser uma saída que beneficiaria o futebol brasileiro. No país do futebol, hoje, temos de deixar o esporte em segundo plano. }
Esse também é o entendimento da maioria dos torcedores – segundo pesquisa feita pelo site UOL apenas 33% dos torcedores apoiam a volta dos campeonatos.

Em um momento completamente diferente dos países europeus, em que o futebol, assim como o país, respiram por aparelhos, é extremamente necessário que providências sejam tomadas e que a indecisão não seja a regra.

Artigos

Coronavírus, esportes e videogames esportivos

Por Francisco Javier López Frías* e César R. Torres**, especial para o El País.

A virada recente que as instituições deram a esse tipo de entretenimento tecnológico parece ser contraproducente ou até contraditória.

O coronavírus prejudicou a maioria das atividades que eram consideradas centrais em nossas vidas. Também para o esporte. Entre as poucas atividades que se beneficiaram com o confinamento obrigatório predominante em grande parte do planeta, estão os videogames. Seu download e seu emprego cresceram exponencialmente. Embora os esforços para unir o esporte e videogames esportivos não sejam novidade, as instituições esportivas – proibidas de comercializar seus produtos tradicionais – concentram sua atenção na promoção de jogos de videogames esportivos como FIFA 20 e NBA2K para manter sua visibilidade e atrair o seu público habitual. Nesse sentido, por exemplo, foram desenvolvidas iniciativas como a espanhola La Liga Challenge, um torneio de final de semana, narrado por famosos comentaristas esportivos, em que jogadores profissionais de futebol se enfrentaram através do FIFA 20.

Fonte: elpais

Diante da desaceleração do setor esportivo, os videogames esportivos tornaram-se a única alternativa de consumo de esportes ao vivo. As instituições esportivas se aproveitaram disso e, como expressou o jornalista Marcelo Gantman, “os videogames esportivos assumiram o entretenimento das pessoas nestes dias de isolamento social”. Deixando de lado o debate sobre se o videogame deve ser chamado ou não de esporte, os renovados esforços para associar os esportes e os videogames esportivos convidam a uma reflexão crítica sobre ambas práticas e sua relação.

Apesar de certas semelhanças, os esportes e os videogames esportivos possuem características diferentes, principalmente quanto à natureza da atividade física necessária. Grande parte dos esportes, especialmente os mais populares e comerciais, exige um nível de intensidade de atividade física muito superior às exigidas pelos videogames de esportes. Em parte, isso ocorre porque, como defende o filósofo Bernard Suits, o esporte é um tipo de jogo que requer desenvolvimento e o exercício de habilidades físicas para atingir seu objetivo. Assim, o basquete impõe a posse de habilidades especializadas relacionadas a correr, pular, lançar e manusear a bola, e entrosamento com seus colegas de equipe para alcançar a meta de marcar mais vezes do que a equipe adversária. Ainda que os videogames esportivos também exijam desenvolvimento e o exercício de habilidade física – como coordenar botões pressionando e manipulando alavancas em um controle – para atingir seu objetivo, o nível e a intensidade da atividade física necessária são significativamente menores. A tal ponto que os videogames podem ser considerados atividades sedentárias.

A diferença de nível e da intensidade das atividades físicas exigida pela maioria dos esportes e videogames esportivos tem resultados relevantes para a relação entre saúde e esporte. Um dos objetivos da promoção e uso do esporte na sociedade é manter as pessoas fisicamente ativas para melhorar sua saúde. Assim, especialistas recomendam 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana para população adulta. Por esse motivo, segundo seu novo diretor de medicina, a FIFA “vê o futebol como uma atividade que traz importantes benefícios à saúde” e que “pode contribuir para melhorar a saúde mundial”. Além disso, a atividade física é uma das principais ferramentas contra a obesidade, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “alcançou proporções epidêmicas a nível mundial”, e tem como uma de suas causas o sedentarismo. A OMS enfatiza que “pelo menos, 2.8 milhões de pessoas morrem a cada ano por obesidade ou excesso de peso”.

Se a prática esportiva é crucial para conter a epidemia de obesidade, a recente mudança que as instituições esportivas fizeram em relação aos videogames esportivos parece ser contraproducente ou até contraditória. Videogames promovidos pelas autoridades do futebol – para seguir com esse esporte – parecem ser uma boa ferramenta para manter seu público conectado ao esporte, mas não geram um dos seus benefícios subjacentes: a saúde. Pelo contrário, estimulam comportamentos sedentários. Notasse que, de acordo com a OMS, “pelo menos, 60% da população mundial não realiza a atividade física necessária para obter benefícios à saúde”. O escritor Santiago Roncagliolo relatou que, como milhões de pessoas durante o confinamento obrigatório, “para evitar passar o dia conectado a mundos irreais, em casa incorporamos um programa de exercícios”. No lugar de ajudar a manter uma vida fisicamente ativa, os videogames esportivos nos incentivam a permanecer conectados aos mundos virtuais, em que a atividade física é mínima. É verdade que muitas instituições esportivas, assim como muitos atletas, promoveram atividade física. Por exemplo, a espanhola “La Liga” lançou o programa “QuédateEnCasa” (FicaEmCasa), que inclui treinamento físico com embaixadores do clube e treinadores físicos. No entanto, é necessário ir fundo no site desta instituição para encontrar esse programa. A promoção da atividade física empalidece com a dos videogames de futebol. A promoção da atividade física se enfraquece com a dos videogames futebolísticos

O emparelhamento de instituições esportivas com videogames esportivos é o resultado direto da busca de interesses econômicos pela indústria do esporte. A prioridade dada aos videogames esportivos mostra como a lógica do mercado continua a colonizar a prática futebolística até descartando muitos dos elementos valiosos que ela traz para a sociedade. O problema não está em jogar uma partida de FIFA 20 ou NBA2K, e sim nos efeitos perniciosos da lógica do mercado. No momento em que se especula como as sociedades vão mudar, ou deveriam mudar, depois do coronavírus, é importante nos perguntarmos se queremos seguir permitindo que o efeito colonizador do interesse econômico siga prevalecendo sobre os benefícios valiosos que nos oferecem as atividades que nos ocupam e nos preocupam.

Texto originalmente publicado em El País no dia 17 de abril de 2020.

*Francisco Javier López Frías es Doctor en filosofía. Docente en la Universidad del Estado de Pensilvania (University Park).

**César R. torres es Doctor en filosofía e historia del deporte. Docente en la Universidad del Estado de Nueva York (Brockport).