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Polo, clonagem e ética

Por César R. Torres** e Francisco Javier López Frías***

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Adolfo Cambiaso, em sua égua clonada Cuarterera 01. Imagen: AFP

De acordo com o antropólogo cultural Eduardo P. Archetti, o polo gradualmente se tornou na Argentina, desde sua introdução no século XIX, “um dos símbolos do país em um contexto de internacionalização”. A validade desta afirmação foi evidenciada recentemente em um segmento de “60 Minutes”, um reconhecido programa de televisão norte-americano transmitido desde 1968. O segmento explora a clonagem de cavalos de polo com foco nos esforços bem-sucedidos de Adolfo Cambiaso, estrela mundial do esporte, para produzir cavalos através dessa biotecnologia e usá-los na competição.

Apesar de sua crescente expansão, como observa Lesley Stahl, a condutora do segmento, a clonagem de cavalos de polo e seu uso na competição levantam questões importantes. Tanto Cambiaso quanto Alan Meeker, seu sócio no negócio da clonagem de cavalos, abordam essas questões de uma maneira que, segundo o segmento, é atípica. Nosso objetivo aqui é refletir sobre os argumentos que ambos propõem no segmento para justificar a clonagem de cavalos e seu uso no polo, que são típicos do grupo que promove tais práticas.

Cambiaso responde à pergunta de Stahl sobre a ética da clonagem animal a partir de uma posição “utilitarista”, uma vez que justifica o uso dessa biotecnologia com base nos objetivos que ela permite alcançar. Ele afirma: “Eu não vejo isso como errado”, aduzindo que “estou apenas fazendo algo para melhorar o meu jogo” e esclarece que os clones de Cuartetera, sua égua favorita, permitiram que ele cumprisse sua missão e “não iria além disso”.

Essa posição é problemática, pois é redutora em pelo menos dois sentidos. Por um lado, limita a ética à avaliação das consequências. Por outro lado, as consequências são circunscritas àquelas relacionadas ao jogo de Cambiaso. Por sua vez, essas reduções geram as seguintes perguntas: o polo deve aceitar tudo o que produz certas consequências vantajosas? Existem outras consequências a considerar que nos obrigam a repensar a ética da clonagem de cavalos de polo e seu uso na competição?

Considere o seguinte exemplo nada relacionado ao polo. Tanto o descascador de batatas quanto a energia nuclear são tecnologias que melhoram as habilidades humanas com consequências benéficas para o bem-estar. O primeiro nos poupa tempo para cozinhar de forma mais eficiente. O segundo fornece energia elétrica barata que podemos consumir para levar uma vida mais confortável. No entanto, a energia nuclear é problemática devido a outras consequências derivadas de seu uso, especialmente aquelas de natureza ambiental. O que é mais parecido com a clonagem de cavalos no polo, um descascador de batata ou energia nuclear? Para examiná-lo, temos que considerar as consequências que Cambiaso não leva em conta em sua resposta. Assim, vamos nos concentrar em alguns aspectos que dizem respeito à ética esportiva, deixando de lado a ética animal, não porque a consideremos pouco relevante, mas por questões de espaço.

A primeira e mais óbvia consequência tem a ver com o equilíbrio competitivo. Para começar, vale ressaltar que no polo não existe uma regra que impeça a clonagem de cavalos ou a utilização deles na competição. Portanto, como Meeker aponta, quem faz isso não está trapaceando porque não contraria nenhuma regra do jogo. No entanto, esse argumento tem dois problemas. Primeiro, ainda que não exista uma regra que proíba a ação, isso não implica que ela seja aceitável. As regras podem estar incorretas ou omitir certas ações, dando lugar a um vácuo legal. Nesse sentido, vale ressaltar que o Código Mundial Antidoping proíbe o doping genético. Em segundo lugar, o conceito de “trapaça” pode assumir um significado mais profundo associado ao espírito esportivo. Como Stahl sugere no segmento, aqueles que clonam cavalos de polo e os usam em competição podem estar perturbando a natureza do jogo ou, pelo menos, desprotegendo aspectos que são considerados valiosos. Entre esses aspectos, incluem-se a justiça competitiva e as habilidades do polo.

No que diz respeito à justiça competitiva, o próprio Cambiaso afirma que não está comprometido, já que “todos podem clonar” e “ele está tentando começar a clonar”. Isso não parece ser inteiramente verdade. Nem todo mundo, como mostrado no segmento, está tentando clonar cavalos para competir. Alguns se opõem à clonagem de cavalos em termos morais ou religiosos e outros o fazem de acordo com a tradição do polo, porque consideram que a criação de cavalos deve ser “natural”. Além disso, ainda que todo mundo estivesse tentando clonar cavalos e no futuro todos o fizessem, poucos possuiriam o capital necessário para clonar mais de 100 cavalos como tem feito Cambiaso, e mesmo muitos menos seriam capazes de clonar Cuartetera, o qual vários especialistas o consideram o melhor cavalo de polo da história. De fato, a empresa Cambiaso admite que nunca vende clones para “manter a chave da genética”. Se, como diz Cambiaso, Cuartetera “nasceu para jogar (e é único) como Messi”, aquele que conta com ela tem tanto a “chave” de sua genética como uma vantagem competitiva perceptível. Ainda mais se você tiver 34 réplicas da famosa égua, tal e qual Cambiaso aspira em 2019.

Deixando de lado a justiça competitiva, e entrando no campo das habilidades do jogo, o uso de cavalos clonados na competição gera muitas incertezas. Por exemplo, se, como afirma Cambiaso, os clones se comportam como o original, têm “a mesma personalidade calma e autossuficiente” e são fáceis de montar, sendo capazes de manobrar em um espaço reduzido com eles, o que acontece com a capacidade do ginete de se adaptar a um cavalo novo ou a cavalos diferentes durante um jogo ou com a capacidade do ginete de decidir estrategicamente o melhor cavalo para as diferentes fases e momentos-chave de uma partida? Se essas habilidades são centrais para o jogo, a clonagem apresentaria riscos para a excelência característica do polo e possivelmente para o seu desenvolvimento.

Por sua vez, ao longo do segmento, repete-se que o cavalo desempenha um papel preponderante no polo, tanto que alguns alegam que tem uma incidência de 80% no jogo. Que a clonagem de cavalos se torne um elemento essencial na competição daria ainda mais peso aos cientistas e técnicos especializados no assunto do que aos próprios jogadores de polo, supostos protagonistas do esporte. A comunidade polo quer que seu esporte seja “decidido” principalmente nos laboratórios? Isto é, deseja que ele se torne uma espécie de Fórmula 1 em que os “clonadores” e os “projetistas genéticos” também serão reconhecidos como concorrentes? Não é desconcertante que a perícia do jogador seja cada vez mais mitigada, ou de fato substituída, por “avanços” tecnocientíficos?

A clonagem de cavalos de polo e seu uso na competição aprofunda a racionalidade instrumental que tem permeado a criação de cavalos neste esporte. Nada do que foi colocado aqui deveria ser construído para respaldar o resto das biotecnologias usadas no pólo. Nem como um ataque aos adeptos do uso da biotecnologia nesse esporte. Ao contrário, ao refletir sobre os argumentos que são propostos no segmento para justificar a clonagem de cavalos e seu uso no pólo, esta nota sugere que a comunidade deste esporte deveria considerar profundamente a dimensão ética de suas práticas, a fim de que nenhum dos aspectos considerados valiosos que transformaram o polo, como disse Archetti, em um dos símbolos do país, não se vejam desprotegidos ou sejam eliminados. Isso também requer uma reflexão e uma justificativa ética focada no tipo de esporte e na sociedade que aspiramos construir. Estamos interessados ​​em um mundo em que a racionalidade técnico-científica ameace ou elimine aquilo que é significativo em nossas práticas sociais simplesmente porque melhora a eficiência?

* Texto orignalmente publicado no site do jornal argentino Página 12 em 23 de abril de 2018.

**Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de New York (Brockport).

***Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park).

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Sobre a arte do engano no futebol

Por Cesar R. Torres**

Os argentinos Mauricio Pochettino e Eduardo Coudet são, respectivamente, os treinadores do Tottenham Hotspur Football Club em Londres e do Racing Club de Avellaneda. Além de colegas, eles compartilham algumas ideias básicas em sua concepção do futebol. Não é por acaso que ambos sejam elogiados por promover um estilo de jogo vistoso e ofensivo. No entanto, ambos também defendem um conceito problemático, embora aparentemente bastante difundido na comunidade de praticantes, do papel que o engano (engaño, no original) deveria ter no futebol.

Rejeitando o uso do sistema de árbitro de vídeo, conhecido como VAR por sua sigla em inglês (vídeo assistant referee), Pochettino declarou, em fevereiro deste ano, que décadas atrás “se felicitava o jogador que tinha trapaceado o árbitro” e confessou melancolicamente que “esse é o futebol pelo qual me apaixonei quando criança”. Reafirmando sua posição, afirmou: “No futebol, devemos tentar enganar o adversário. Sim ou não?”. No mês seguinte, em outra crítica ao VAR, Coudet se manifestou no mesmo sentido. Ele disse que “o futebol é um esporte em que você vive do engano”.

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“Calciatori”, de Giuseppe Montanari.

Sem dúvida, o engano, entendido como o ato de fazer crer que algo falso é verdadeiro, é uma faceta importante do futebol. Já dizia o jornalista argentino Dante Panzeri em 1967 que o futebol “exige dominar a arte de enganar” e que sua lei básica estabelece que “ganha quem melhor engana”. Panzeri não elucidou que forma de engano é aceitável, embora ele tenha dado uma pista sobre isso, esclarecendo que ele se referia ao mesmo “em um sentido positivo, em uma forma prazerosa, engenhosa, mas que não altera o próprio sentido da atitude de enganar”.

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Messi engana os rivais

Escrevendo alguns anos depois de Panzeri, a filósofa americana Kathleen M. Pearson esclareceu a questão. Embora coincidisse em sua importância, sustentava que o engano do rival não é um fenômeno simples e unitário. Pearson distinguiu entre “engano estratégico” e o “engano conclusivo”. Aquele envolve o ato de fazer crer que uma falsa intenção é verdadeira dentro do estipulado pelas regras do esporte. Nesse tipo de engano, se tenta iludir o adversário para obter uma vantagem competitiva lícita através das habilidades do esporte em questão. Como Pearson ilustrou, se insinua ao rival que se irá para a direita quando o objetivo é ir pela esquerda. No futebol, o drible constitui um exemplo claro de engano estratégico ou “intralúdico”. Pode-se argumentar que esse é o tipo de engano que Panzeri tinha em mente quando propôs que “o futebol bem jogado é o imprevisível“. De fato, no futebol, para ser imprevisivelmente bom, deve-se cultivar constantemente as diferentes formas de engano estratégico que o definem.

Pelo contrário, o segundo tipo de engano identificado por Pearson, o conclusivo, envolve o ato de parecer estar em conformidade com o estipulado pelas regras do esporte para se isentar das mesmas quando fazê-lo é considerado conveniente em termos do resultado. Nesse tipo de engano, pretende-se despistar o árbitro principalmente para obter uma vantagem competitiva ilícita através de habilidades que são estranhas ao esporte em questão. Seu caráter é conclusivo precisamente porque encerra ou impede, ainda que temporariamente, a competição de habilidades próprias de tal esporte. No futebol, fingir ter sido vítima de uma infração na área adversária para obter uma penalidade imerecida ou fingir uma lesão para parar o jogo são exemplos claros de engano conclusivo ou “extra-lúdico”. As regras do futebol caracterizam esses atos como comportamento antidesportivo e especificam que são puníveis com uma advertência. O futebol não se propõe a verificar, nem precisa desenvolver a perícia em deixar-se cair simulando infrações, fingindo ferimentos ou em outras formas de fraude conclusiva. Inclusive, se costuma considerar todas essas atitudes como casos de trapaça.

“A mão de Deus”, o gol de Maradona contra os ingleses em 1986

A distinção entre engano estratégico e engano conclusivo, bem como suas implicações para o esporte, é útil para abordar a posição representada por Pochettino e Coudet. Por um lado, confirmam que no futebol tem-se que enganar o adversário, mas eles especificam que só é admissível fazê-lo por meio do engano estratégico. Por outro, eles sugerem que no futebol se deveria viver por e desse tipo de engano. Caso contrário, a tarefa distintiva dos jogadores é prejudicada, ou pelo menos contradita. Da mesma forma, parabenizar o jogador que engana o árbitro denota uma defesa do engano conclusivo, uma faceta imprópria e espúria do jogo. Deve-se evitar esse tipo de engano e apaixonar-se do futebol no qual florescem as habilidades específicas que são a base de seus modelos de excelência e o caracterizam. Nesse futebol, a trapaça é reprovada e a arte do engano estratégico é reforçada. Esse futebol necessita que se gerem espaços, como reivindicava o escritor uruguaio Eduardo Galeano, que facilitem “a improvisação e a espontaneidade criativa”, aspectos intimamente ligados a esse tipo de engano. Empenhar-se nisso seria um caminho esplêndido para renovar o amor pelo futebol.

* Texto originalmente publicado em El Furgón no dia 22 de abril de 2018.

** Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidad del Estado de Nueva York (Brockport)

Foto de capa: http://www.as.com

Eventos

Palestra de pesquisador do LEME na FGV

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Figura – Rostos dos prováveis atletas brasileiros nas Olimpíadas de 1920.
Fonte: O Imparcial (13/11/1919, p. 1).

Laboratório de Estudos do Esporte (LESP) da Escola de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV-CPDOC) convida para a palestra “Os Jogos Olímpicos na capital da República: Narrativas da imprensa e campo esportivo no Rio de Janeiro (1890-1935)” do pesquisador Fausto Amaro – doutor pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fausto apresentará a pesquisa que desenvolveu durante seu Doutorado e que aborda a cobertura da imprensa carioca sobre os jogos olímpicos desde o final do século XIX até meados da década de 1930.

Serviço:

Evento: Palestra
Data: Qui, 17/05/2018 – 14:00
Local: Fundação Getúlio Vargas, auditório 1027. Praia de Botafogo, 190 – Botafogo, Rio de Janeiro.
*Release de divulgação disponível em CPDOC/FGV.

Obs: A FGV não permite a entrada de pessoas com bermudas, regatas ou chinelos.

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Imperialismos futebolísticos

Quando morava em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, eu tinha muita simpatia pelo time local, o Aimoré. Antes de sair de lá, procurei uma camiseta do Aimoré para comprar numa loja de esportes local, mas em vão. A loja apresentava várias versões das camisas oficiais do Barcelona e do Manchester United, do Flamengo, do Corinthians, do Grêmio e do Inter, é claro, mas em pleno centro de São Leopoldo não havia nada do Aimoré!

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Fiquei pensando na dificuldade de ser torcedor de um time do interior. Além de seu time não jogar por metade do ano, por falta de competições, as finanças são invariavelmente deficitárias, e os custos com a manutenção do estádio e instalações crescem sem cessar. Caso um dia o destino permita que se monte uma equipe bem entrosada e razoavelmente competitiva, os grandes clubes da capital comprarão facilmente os melhores jogadores – ou o técnico, se for ele o responsável pelo sucesso. E o pobre clube do interior voltará à estaca zero, sem dinheiro – previamente consumido pelas dívidas – e sem os jogadores. Trata-se de um círculo vicioso de imperialismo futebolístico, que ocorre em vários níveis: os clubes do interior são “colonizados” pelos clubes da capital. Os clubes das capitais de estados periféricos, por sua vez, são colonizados pelos clubes das capitais dos estados centrais. Os principais times do Brasil, por sua vez, são colonizados por equipes das grandes ligas europeias. Não estamos sós: também os clubes da Argentina, da Colômbia, do Uruguai, do México e de muitos países africanos são colonizados pelas ligas europeias. De modo análogo à colonização propriamente dita, dos séculos XVI a XX, os colonizadores vêm e contra qualquer resistência levam para seus países nossos melhores recursos – açúcar, ouro, petróleo ou craques.

É fácil argumentar que os próprios jogadores e clubes desejam isso, que a liga europeia é uma vitrine, a Hollywood do futebol, e que a venda de um atleta a um clube europeu serve para cobrir os custos e as dívidas dos clubes brasileiros. O que esta suposta obviedade oculta é a naturalização de um sistema internacional de produção, circulação e dispensa de jogadores, uma verdadeira máquina de moer gente.

Como em muitos campos de atividade, as trajetórias exemplares de sucesso são raras, praticamente uma exceção. Mas são apresentadas como se fossem a regra, exemplo vivo a animar os sonhos de uma multidão de meninos que jamais serão profissionais do futebol.

Outro ponto a destacar é que, como torcedores, nos sentimos vítimas da colonização pelas ligas europeias, mas nunca algozes ao fazer o mesmo com as pequenas equipes do interior do Brasil. A soberba e o desprezo com que estas equipes – e seus jogadores e torcedores – são tratados pelos adversários “grandes” só não é maior do que o risco que implica perder para um time pequeno. A torcida do Palmeiras deve lembrar da zoeira que sofreu quando o grande time paulista foi eliminado pelo Asa de Arapiraca, do Alagoas, na primeira fase da Copa do Brasil, em 2002. A do Corinthians deve lembrar quando foi eliminada pelo Tolima da Colômbia na pré-Libertadores de 2011. Ou meus companheiros de sofrimento pelo Inter, quando perdeu para o Mazembe, do Congo, no Mundial Interclubes de 2010. Em todos estes casos, o vexame é proveniente de perder para um adversário considerado “inferior”. Nesta atribuição tácita de uma inferioridade a priori ao oponente (financeira, técnica, tática, midiática, nacional, regional, etc.) reside a soberba e a atitude imperial futebolísticas.

Este padrão é repetido dentro e fora de nosso país. As equipes europeias são valorizadas, admiradas e respeitadas, enquanto as equipes sul-americanas e africanas são desprezadas e ironizadas, numa versão viralatas de geopolítica futebolística, que reproduz lógicas, éticas e preconceitos que vão muito além de um campo de futebol.

Vamos pensar um pouco no futebol brasileiro: apesar de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro serem muito importantes e populosas, seria um equívoco dizer que somente elas e seus habitantes fazem parte do Brasil. Lugares como Itaquaquecetuba (SP) ou Tenente Portela (RS) jamais poderiam competir com essas grandes metrópoles em termos de poder, dinheiro ou influência. Entretanto, seria um equívoco ainda maior desconsiderar o fato de que a maioria absoluta de municípios do Brasil são muito mais parecidos com Tenente Portela do que com São Paulo. De modo análogo, dos 662 clubes profissionais em atividade no país, somente 128 participam de alguma das 4 divisões nacionais. Na prestigiada série A, somente competem 20 equipes a cada ano. Ou seja, existe uma absoluta maioria dos clubes de futebol profissional do Brasil que é ignorada pelos próprios torcedores brasileiros.

Isso não significa que, por não disputar grandes títulos, um clube de cidade do interior não possa ter um conjunto de torcedores fiéis, para quem o clube representa sua cidade, seu “pedaço”, seu lugar no mundo. Como exemplo, cito um trecho da entrevista de um torcedor do Aimoré/RS para o Projeto Torcedores:

Torcer para um clube do interior é uma demência. Se o clube ganhar que bom, eu adoraria que o Aimoré fosse campeão mundial e tudo mais, mas do clube existir e o que ele representa, eu acho, vem um sentimento de identidade (…). O Aimoré representa isso, tu te sente representado, tu sente uma coisa que é tua, pertence a ti e sobretudo, pegando o caso de São Leopoldo, a gente tem poucas coisas que são nossas assim, e o Aimoré é uma delas. É amor mesmo, enfim. (Natan, estudante, São Leopoldo/RS)

Outro ponto importante da geografia futebolística no Brasil é a colonização de Estados periféricos pela torcida a clubes dos grandes centros. São notáveis neste sentido os casos de Manaus e Cuiabá. Apesar de serem Estados economicamente importantes e de existirem várias equipes locais, uma série de circunstâncias impede o desenvolvimento dessas equipes, de modo que, em grande número, os habitantes acabam torcendo para equipes do Rio de Janeiro e São Paulo. Alguns fatores são estruturais: o campeão estadual do Amazonas, por exemplo, ganha como parte do “prêmio” uma vaga no Campeonato Brasileiro da Série D. Assim, uma equipe amazonense hipotética teria que, após ser campeã estadual, vencer três campeonatos Brasileiros seguidos (da Série D, da Série C e da Série B) para finalmente conquistar uma vaga na primeira divisão. Nenhuma surpresa que isto jamais tenha acontecido. E não se pode culpar a pouca importância econômica ou a dimensão da população. Manaus tem população 30% maior do que Porto Alegre (2 milhões contra 1,4 milhões), e um PIB equivalente (Porto Alegre é o sexto município com maior PIB do Brasil, com 68 bilhões de reais em 2017 enquanto Manaus é o sétimo, com 67 bilhões).

Outro fator a explicar a presença das grandes equipes do centro do país é o sistema da mídia. Como as grandes emissoras sempre estiveram localizadas no Rio e em São Paulo, seu ponto de vista “local” facilmente se torna “nacional”. A formação dessas massas torcedoras nos sertões está associada aos primórdios do rádio esportivo no Brasil. Os transmissores em ondas curtas já nos anos 1930 tinham potência de antena para cobrir todo o território nacional. A programação esportiva das emissoras apresentava a transmissão de matches entre os times das localidades das emissoras, Rio de Janeiro e São Paulo, para todo o território nacional, fazendo delas equipes de abrangência nacional.

Um terceiro fator a influenciar a formação dessas torcidas poderia ser chamado de “patrilinearidade futebolística”. Existe entre os/as torcedores/as que pesquisamos uma tendência majoritária em adotar o mesmo time do pai. Geração após geração sob esta tendência, e torcer para o mesmo clube se torna uma tradição familiar. Assim, a permanência de massas torcedoras em locais distantes da sede dos clubes se deve a uma circunstância de fatores estruturais, políticos, econômicos e culturais que operam concomitantemente, de modo a conservar a influência cultural imperial de algumas regiões, consideradas “centrais” sobre outras, ditas “periféricas”.

Essas e outras contradições me fazem duvidar da dimensão pretensamente democrática do futebol. Esses obstáculos simbólicos, financeiros, tecnológicos e políticos operam estruturalmente em conjunto para sustentar um sistema de exclusão e diferença, que explora algumas regiões para benefício de outras, e que opera pari passu com estruturas mais amplas de dominação e controle. Por isso eu simpatizo com times como o Aimoré, o Central de Caruaru ou o Independente de Limeira: como todos nós, eles lutam para sobreviver em circunstâncias desfavoráveis, nas periferias do sistema global, à margem do Grand Monde. Não nos iludamos: a extraordinária vitória do Inter sobre o Barcelona na final do Mundial Interclubes em 2006 foi também um vexame. Para o Barcelona.

 

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6º Encontro LEME 2018

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa a partir da leitura de textos e análise de produções fílmicas realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções da Comunicação com o Esporte. Os encontros têm ocorrido semanalmente e pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

Realizaremos o sexto encontro na segunda-feira, dia 14 de maio, com início às 15h30. Nesse dia, contaremos com a presença de Ronaldo Helal para debater o texto Pátria de chuteiras?, escrito por ele. Ronaldo é professor e coordenador do grupo de pesquisa Esporte e Cultura e do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte – LEME.

A programação completa e os conteúdos que serão debatidos podem ser encontrados no blog “Comunicação e Esporte” e na página do LEME no Facebook (@lemeuerj).

 

Data: 14/05/2018

Horário: 15h30 às 17h30

Local: Auditório do PPGCom

Público: Alunos de graduação e pós e demais interessados no tema.

Coordenação: Prof. Ronaldo Helal

Orientação: Leda Costa e Fausto Amaro

 

*A participação nos encontros contará horas-aula para os alunos presentes.

 

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Artigos

“O 7 a 1 é para sempre”

Berlim, 27 de março de 2018, Brasil e Alemanha se enfrentam em partida amistosa que serve como preparação para a Copa da Rússia, que começa em pouco menos de 3 meses.

Mesmo com a proximidade de competição tão importante, parte considerável das narrativas da imprensa esportiva naquele momento não aponta para o futuro, mas para o passado, mais especificamente para o dia 8 de julho de 2014, oportunidade na qual a seleção brasileira foi derrotada pela alemã por 7 a 1 em jogo válido pelas semifinais do Mundial realizado no Brasil.

Por que este fenômeno acontece? Tendo esta questão em mente é que este artigo é escrito. A meta é analisar as narrativas da imprensa sobre o jogo entre Brasil e Alemanha disputado em 27 de março de 2018 tendo como objeto as reportagens de “O Globo” e da “Folha de São Paulo” publicadas nas edições de 26, 27 e 28 de março de 2018.

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Mesmo sendo um amistoso, jogo entre Brasil e Alemanha realizado em 27 de março em Berlim foi cercado de grande expectativa. Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

Antes do jogo

Nos dias anteriores ao reencontro entre Brasil e Alemanha era comum ver em programas televisivos esportivos reportagens sobre o 7 a 1. De certa forma estas matérias reavivavam memórias da torcida sobre o jogo, e aumentavam a expectativa para o confronto que se aproximava. Contudo, o objetivo aqui é observar as narrativas de impressos.

Um dia antes da partida uma pequena manchete de capa de “O Globo” dá o tom de algumas das narrativas da imprensa brasileira antes do jogo: “Seleção evita falar em revanche e se prepara para enfrentar a Alemanha”. Apesar do título, a ideia de que este jogo poderia servir como uma revanche, o que parece ser uma interpretação de parte da imprensa, é prontamente negada por técnico e atletas do selecionado brasileiro.

No caderno de esportes, uma reportagem narra o processo de renovação que Alemanha e Brasil vivem naquele momento. Segundo o jornalista Bernardo Mello, a presença de novas peças nas duas equipes impede que exista o caráter de revanche na partida disputada em Berlim: “Mesmo reconhecendo que o 7 a 1 segue vivo na memória, jogadores e comissão técnica da seleção brasileira têm procurado tirar a palavra ‘revanche’ do vocabulário pré-amistoso contra a Alemanha, amanhã, no Estádio Olímpico de Berlim. Não se trata de mero artifício para aliviar a pressão por vitória: dos 25 jogadores convocados por Tite, apenas seis – pouco mais de 20% – estavam envolvidos na fatídica semifinal da Copa do Mundo de 2014. Os alemães também mudaram de rosto. Oito campeões mundiais no Brasil apareceram na lista atual de Joachim Löw, mas dois deles (Özil e Müller) foram liberados para voltar a seus clubes e Khedira, com dores musculares, é dúvida para a partida”.

A ideia de renovação parece amenizar um pouco a ideia de que o jogo poderia servir como uma espécie de revanche, como sinaliza declaração do zagueiro brasileiro Miranda publicada na mesma reportagem: “Tanto eles têm jogadores que não estavam na Copa como nós também temos jogadores que não foram ao último Mundial. Aquilo lá (7 a 1) ficou no passado”.

No mesmo dia a “Folha de São Paulo” publica uma entrevista com um jornalista alemão que escreve o livro de seguinte título: “7:1 – Das Jahrhundertspiel” (7 a 1 – O Jogo do Século). O repórter Guilherme Magalhães abre a matéria fazendo uma comparação do 7 a 1 com outro evento marcante da história da Alemanha, a queda do Muro de Berlim. Ele afirma que as memórias destes dois episódios estariam tão vivas nas memórias dos alemães que, ao serem questionados sobre elas, eles teriam tanto a capacidade de citar o que estavam fazendo no momento em que a Alemanha goleou o Brasil como em 9 de novembro de 1989.

Nas palavras do autor do livro, o alemão Christian Eichler: “A grande festa foi ter vencido a Copa (…), mas a memória mais profunda, estou convencido de que foi o 7 a 1. Porque este jogo mudou a percepção que a Alemanha tinha da sua seleção. Jogamos o futebol que sempre queríamos ver, mas tínhamos que ver os outros jogarem. Foi como se apaixonar pela sua própria seleção”. O curioso nesta declaração é que o jornalista evidencia a percepção dos alemães sobre o 7 a 1. Para os europeus o 7 a 1 não é encarado como algo negativo, mas sim como um momento de glória, de ápice do futebol da seleção da Alemanha.

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Equipe escalada pelo técnico Tite para o amistoso de 2018 é bem diferente da que enfrentou a Alemanha na Copa de 2014. Créditos: Lucas Figueiredo/CBF

No dia do jogo

No dia em que Brasil e Alemanha se enfrentariam em Berlim tanto “O Globo” como a “Folha de São Paulo” dão destaque à partida com pequenas manchetes de capa. As duas manchetes citam o fantasma do 7 a 1: “Pós-7 a 1. Seleção encara o fantasma” (O Globo). “Contra o fantasma do 7 a 1, Tite escala volante no lugar de Neymar” (Folha de São Paulo).

Em sua seção de esportes o diário carioca publica uma matéria baseada na entrevista coletiva concedida pelo lateral Daniel Alves, ao lado do técnico Tite, um dia antes. A partir da trajetória profissional do jogador, o jornal apresenta uma narrativa na qual aponta Daniel Alves como uma peça importante no jogo contra os alemães: “Pós-7 a 1. Diante do algoz. Com Daniel Alves de capitão e referência, seleção tenta confirmar a sua recuperação contra a Alemanha, no primeiro confronto desde 2014”.

O autor do texto cita então episódios da carreira do jogador após o 7 a 1, como a conturbada saída do Barcelona, a ida para a Juventus e a chegada ao PSG em busca de novos desafios profissionais. No âmbito da seleção brasileira, o lateral consegue retornar à equipe, onde parece ocupar um papel de maior destaque: “Hoje, o desafio de Daniel é ser uma referência em campo diante do fantasma do 7 a 1”.

Já a “Folha de São Paulo” separa duas páginas de sua seção de esportes para falar da partida. Na matéria principal a publicação apresenta um infográfico sobre o desempenho de Brasil e Alemanha após o 7 a 1. O detalhe é que nesta conta aparece o jogo da final dos Jogos Olímpicos de 2016, no qual o Brasil conquistou a medalha de ouro após vencer a Alemanha na disputa de pênaltis, mas nesta oportunidade as equipes em campo não eram as principais, mas as olímpicas.

Esta matéria é elaborada a partir das coletivas concedidas pelo técnico do Brasil, Tite, e da Alemanha, Joachim Löw, um dia antes da partida. O destaque fica por conta da declaração do treinador brasileiro de que a derrota na Copa de 2014 ainda continua a acompanhar o Brasil: “O 7 a 1 é real. A gente carrega esse fantasminha todo o dia, te traz um componente que é inegável. O sentimento de frustração é normal”. Desta forma a publicação afirma que o treinador sente o peso do 7 a 1, o que poderia, inclusive, ser a causa da única mudança da escalação da seleção brasileira em relação ao seu último jogo, a entrada de um volante no lugar de um atacante, o que leva a uma formação mais cautelosa.

Além disso, o jornal paulista destaca uma declaração do treinador alemão que indica que os europeus têm uma percepção do 7 a 1 bem diferente da dos brasileiros: “Foi um bom jogo, mas só um passo rumo à final (contra a Argentina) (…). Claro, para o Brasil é outra coisa, talvez haja um sentimento de revanche, mas também não dá para voltar no tempo”. Além disso, a reportagem da “Folha de São Paulo” afirma que “o tema não pauta a imprensa local ou faz pate de qualquer ação publicitária do amistoso”, o que indica que o fantasma do 7 a 1 visita apenas o lado brasileiro da disputa.

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Derrota de 7 a 1 pela Alemanha é constantemente citada pela imprensa brasileira em suas narrativas sobre a seleção brasileira. Créditos: Rafael Ribeiro / CBF

Após o jogo

No dia seguinte ao jogo há uma disparidade nas narrativas apresentadas pelo jornal carioca e o paulista, enquanto o primeiro diário quase não cita o 7 a 1, menções ao jogo da Copa de 2014 aparecem a todo instante nos textos do segundo.

Em “O Globo” o principal texto sobre a partida foi o de autoria do jornalista Carlos Eduardo Mansur, que em nenhum momento usa a expressão 7 a 1, e que faz um grande esforço para apresentar uma interpretação da partida diferente da versão da revanche ou do exorcismo de um fantasma: “Vencer uma seleção alemã, ainda que cheia de reservas, é tão difícil quanto mostraram os minutos finais de forte pressão na área brasileira. Identificar estas virtudes, e também os equívocos ainda cometidos, é muito mais saudável do que o tolo discurso fora do tom, como se um fantasma tivesse sido exterminado numa pseudorrevanche”.

Já a “Folha de São Paulo” assume outra postura com a manchete da principal matéria sobre a partida: “Brasil vence para tentar esquecer trauma. Seleção consegue vitória contra a Alemanha no 1º confronto entre as equipes principais dos dois países após o 7 a 1”. Segundo os autores do texto a vitória ajudou “a afastar o ‘fantasminha’ que segundo o técnico Tite assombrava o time desde o último encontro entre as seleções”.

Em uma segunda matéria, elaborada a partir da coletiva concedida pelo técnico Tite após o jogo, o discurso sobre o 7 a 1 volta a aparecer: “Depois de falar que o amistoso contra a Alemanha era o teste psicológico e emocional mais importante que o Brasil iria enfrentar antes da Copa, o técnico Tite atenuou o discurso e disse que a vitória não apagará totalmente o 7 a 1 sofrido na semifinal do Mundial de 2014”. E para referendar este comentário, cita uma declaração do treinador: “Era um fantasminha. É da vida, passou. Não é agora que vencemos é que (o 7 a 1) vai deixar de ser falado. Nós tivemos méritos, e há um sentimento de resgate de autoestima, um pouco de orgulho próprio sim”.

Na mesma edição a “Folha de São Paulo” também publica um texto opinativo do jornalista Sérgio Rodrigues que tenta descrever o que o 7 a 1 representa agora para a seleção: “Descartado um embate de times jovens na final olímpica de 2016, vencida pelo Brasil, a era pós-7 a 1 teve início oficial em Berlim. Começou bem para a seleção, mas isso não quer dizer que o fantasma da maior humilhação da história da equipe tenha sido exorcizado. O 7 a 1 é para sempre”.

Considerações finais

Em 2016 completei a minha dissertação de mestrado. O objeto de análise deste trabalho eram as narrativas da imprensa brasileira sobre a seleção brasileira no decorrer da Copa do Mundo de 2014. No decorrer da pesquisa algumas destas narrativas assumiram o papel de protagonistas, as que se referiam à derrota de 7 a 1 do Brasil para a Alemanha.

Naquelas narrativas ficava evidente o desejo de a imprensa tentar compreender as razões e consequências daquela derrota. Muito se escreveu sobre o assunto, mas nada que possa ser considerado conclusivo.

Como pesquisador, fiz uma aposta, a de que o 7 a 1 se tornaria uma memória preferencialmente acionada dentro do repertório de memórias da seleção brasileira no âmbito de Copas do Mundo.

E assim aconteceu, no primeiro jogo do Brasil após a Copa do Mundo esta memória foi revisitada, assim como após o revés na Copa América de 2015, na data em que o 7 a 1 completou um ano de idade, e após a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2016, em final disputada com a Alemanha.

Da mesma forma, o exercício realizado neste texto confirma a suspeita apresentada anteriormente, de que as memórias sobre o 7 a 1 ainda são acionadas pela imprensa no contexto dos jogos da seleção brasileira. Nesta dinâmica há um evidente esforço para tentar qualificar este episódio dentro da história do time do Brasil. Para alguns é um fantasma que continua a assombrar a equipe e que precisa ser exorcizado, para outros é uma vergonha que ainda tem que ser vingada, enquanto outros veem como consequência direta de uma má gestão do futebol brasileiro.

Independente da versão apresentada, o que é claro é que a imprensa não sabe bem como lidar com esta memória, ainda tão incômoda.

Da leitura das narrativas da imprensa brasileira sobre o último Brasil e Alemanha é notória a preocupação de técnico e jogadores do atual time brasileiro de admitirem a importância do 7 a 1, mas de se desvincularem deste jogo. A derrota aconteceu, trouxe consequências, mas não deve ser atribuída a eles, que fazem parte de uma equipe bem diferente da que disputou a Copa de 2014.

Outro destaque que merece ser feito nas narrativas observadas neste trabalho é sobre a forma como os alemães interpretam o 7 a 1. Se para os brasileiros esta é uma memória dolorosa, para equipe, torcedores e jornalistas da Alemanha este é um momento de grande orgulho e alegria, não porque venceram o Brasil de uma forma incontestável (não parece haver qualquer menosprezo a nós e a nosso futebol), mas porque finalmente conseguiram conquistar um Mundial apresentando um futebol do qual sentiram orgulho. Enfim, venceram porque eram realmente os melhores.

Finalizo este texto mantendo a percepção de que o 7 a 1 ainda permanecerá presente nas narrativas da imprensa sobre a seleção. E parece que, mesmo que o Brasil consiga devolver o 7 a 1 sobre a Alemanha, em jogo disputado em uma semifinal de Copa do Mundo realizada em solo alemão, esta lembrança ainda continuará acompanhando a equipe do Brasil, pois, como disse o jornalista Sérgio Rodrigues, “o 7 a 1 é para sempre”.

Referências Bibliográficas

LISBOA, Fábio Aguiar. Após o 7 a 1: A influência da derrota para a Alemanha nas narrativas da imprensa brasileira. 2016. 134 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação Social) – Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de janeiro, 2014.

Jornais

FOLHA DE S. PAULO. São Paulo, 26 de março de 2018.

______. São Paulo, 27 de março de 2018.

______. São Paulo, 28 de março de 2018.

O GLOBO. Rio de Janeiro, 26 de março de 2018.

______. Rio de Janeiro, 27 de março de 2018.

______. Rio de Janeiro, 28 de março de 2018.

Artigos

As torcidas, as faixas, os territórios

Torcida do Botafogo da Paraíba
Torcida do Botafogo da Paraíba durante partida contra o Paraíba (25/02/2017) |Reprodução: Focando a Notícia

Nada é mais importante para uma torcida organizada de futebol do que suas faixas. Grandes, coloridas, com seus nomes estampados e cuidadosamente desenhados. A bandeira, a camisa, o boné, as músicas têm sua importância simbólica, claro. Mas o caráter fixo da faixa, presa sempre no alambrado do estádio, posicionada para ficar o mais visível possível tanto do campo de jogo como pelas câmeras de TV e pelos outros setores do estádio, dá à faixa uma importância maior no imaginário do torcedor.

A faixa é a prova da própria presença da torcida no estádio. É sua marca, seu cartão de visitas, sua assinatura, o atestado de que eles estão de fato ali. Tanto que a faixa é carregada pela torcida para onde quer que ela vá. Afixada, exibida, orgulhosamente apresentada em área amiga ou hostil.

A faixa é a própria delimitação de um território. E território aqui segundo Haesbaert (2011, p. 78), como algo que se define “antes de tudo com referência às relações sociais (ou culturais, em sentido amplo) e ao contexto histórico em que está inserido”.

Ao longo de minha pesquisa de mestrado em Antropologia, ora em curso, em que pesquiso as torcidas do Botafogo-PB, com suas dinâmicas dentro do estádio e com suas relações com a cidade de João Pessoa, venho observando com uma curiosidade crescente essa relação simbólica do torcedor com suas faixas.

Colocá-la num pedaço de arquibancada é como definir sua embaixada, seu próprio mundo, com suas regras de conduta próprias e com circulação controlada.

Torcida organizada do Botafogo-PB
Faixa da torcida organizada do Botafogo-PB | Reprodução: Organizadas Brasil

Souza (2014, p., 77), por exemplo, ao analisar a questão, trata a faixa de uma torcida organizada como “um elemento simbólico crucial” e que está ligada diretamente à “ocupação de territórios” (Ibid., p., 79).

E, claro, num cenário de rivalidades, conflitos – ainda que numa “perspectiva positiva”, como defendido por Simmel (2011) –, diferenças, como é típico do futebol, a faixa se torna o símbolo maior do sobrepujamento de uma torcida frente uma rival.

Roubar uma faixa, exibi-la pela internet em posições desrespeitosas, rasgá-la em público, é o triunfo maior que uma torcida organizada pode conseguir diante de uma adversária.

Mas, o que é mais curioso na questão da rivalidade futebolísitica, é que ela pode também ser interna – e muitas vezes de fato o é –, envolvendo assim duas torcidas organizadas de um mesmo clube.

Nesse último final de semana, por exemplo, eu estive no Estádio Frasqueirão, em Natal, para acompanhar a partida entre ABC e Botafogo-PB pela quarta rodada da Série C do Campeonato Brasileiro de 2018. Eu estava realizando pesquisa etnográfica, e como sempre faço fiquei posicionado em meio aos torcedores botafoguenses.

No intervalo do jogo, iniciou-se um verdadeiro tumulto dentro do setor em que estavam localizados os torcedores do clube pessoense, com direito a xingamentos e a empurrões mútuos envolvendo integrantes de duas torcidas organizadas do Botafogo-PB.

Um clima de hostilidade crescente iniciado justamente porque um integrante de uma das torcidas tinha pego sem autorização a faixa da outra torcida, afixado-a de cabeça para baixo, tirado uma foto e publicado-a nas redes sociais com um claro tom de deboche.

Um ato deliberado que, mesmo sem agressão física, está permeado de uma violência simbólica que fere o outro. E que gera uma reação quase imediata, essa sim física.

É curioso perceber esses códigos, essas regras, esses simbolismos próprios do futebol.

 

Referências

HAESBAERT, Rogério. O Mito da Desterritorialização: do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. 6ª Ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2011.

SIMMEL, Georg. O Conflito como Sociação. Trad. Mauro Guilherme Pinheiro Koury. Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 10, n. 30, pp. 568-573, dez. 2011.

SOUZA, Rommel Jorge Barbosa de. Nervos e Emoção: formas de interação entre torcedores organizados da Facção Jovem (Campinense – Campina Grande-PB). 2014. 93 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Campina Grande, 2014.