Produção audiovisual

Já está no ar o nono episódio do Passes e Impasses

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O tema do nosso nono episódio é “Empresarização do Futebol”. Com apresentação de Filipe Mostaro, recebemos no nosso estúdio Irlan Simões, que é doutorando em Comunicação, pesquisador do LEME e idealizador do podcast “Na bancada” e Jonathan Machado, membro do coletivo Flu Antifascista, e, por telefone, Ary Rocco Junior (professor de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo), Fernando Monfardini (advogado formado na Faculdade Brasileira-MULTIVIX e autor do livro Compliance no futebol: um novo caminho a ser trilhado) e Victor Figols (doutorando em História na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e um dos editores do portal Ludopédio).

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o nono episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música é “Aluga-se”, composta por Raul Seixas e Claudio Roberto Andrade de Azevedo e lançada no álbum Abre-te Sésamo, de 1980.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano e Fausto Amaro

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro

Convidados: Irlan Simões, Jonathan Machado, Ary Rocco Junior, Fernando Monfardini e Victor Figols.

Artigos

Clássico é clássico e vice-versa?

Começa a temporada de disputa pelos campeonatos estaduais no Brasil e creio ser este um momento ainda mais oportuno para se falar das rivalidades clubísticas do nosso futebol e dos estereótipos que, entra ano e sai ano, seguem sustentando boa parte dos noticiários e transmissões esportivas de norte a sul do país. O velho embate figurativo entre time do povo x time de elite é um dos conflitos que me parece uma construção em certa medida estereotipada, sobre a qual pretendo me aprofundar em minha tese de doutorado, investigando as origens desse e de outros estereótipos que vigoram no imaginário do torcedor, dos jornalistas e até dos próprios dirigentes.

Para chegar a alguns apontamentos iniciais sobre o tema, me propus um breve exercício de pesquisa visando identificar, nas cinco regiões brasileiras, embates clubísticos em que um dos clubes é tido como “do povo” enquanto o rival, por sua vez, é caracterizado sob a pecha de elitista. Para tanto, me baseei em um ranking dos maiores clássicos estaduais brasileiros feito pelo globoesporte.com para selecionar alguns dos maiores duelos futebolísticos do país e debater sobre quais alcunhas são comumente atreladas aos rivais diretos: time do povo, time de elite, time de pobre, time de rico, time de negro, time de branco, time do centro, time do subúrbio, time do futebol-arte, time do futebol-força, entre outras alcunhas as quais considero construções estereotipadas.

A intenção é identificar, ao final do doutorado, quais aspectos contribuíram para a construção desses estereótipos, com base no histórico dos clubes e nas percepções de torcedores e jornalistas esportivos, compreendendo como e por que tais construções são frequentemente reforçadas tanto pela mídia quanto por torcedores para sustentar e dimensionar as rivalidades clubísticas do futebol brasileiro. Parto de um pressuposto que julgo ambicioso, relacionado à premissa de que todo estereótipo, embora seja uma construção moldada sob diversos aspectos, tem em si um fundo de verdade.

É claro que, para validar essas afirmações, será imprescindível expandir minha revisão bibliográfica a esse respeito e seguir um caminho metodológico específico. Por ora, como dito, restrinjo meus apontamentos a conclusões meramente iniciais, as quais me servem como um dos pontos de partida para uma pesquisa ainda em desenvolvimento. Sendo assim, dedico os próximos tópicos deste texto para debater alguns aspectos característicos de 11 rivalidades do nosso futebol, tendo como referências pesquisadores que já se debruçaram sobre o tema. Cada tópico a seguir contempla uma região do país, abordando rivalidades clubísticas dos seguintes estados: MG, SP, RJ, RS, PR, BA, AL, PE, CE, PA, GO.

Região Sudeste

Os trabalhos do pesquisador Marcelino Silva (2005, 2009) abordam os estereótipos comumente associados aos dois maiores clubes de futebol de Minas Gerais: Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro Esporte Clube. Em sua pesquisa de pós-doutorado, o autor analisa a construção discursiva da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro com base no imaginário do primeiro como time da massa e do segundo como clube-empresa. Segundo Silva (2005, s/p), a transformação do Atlético “em um ‘clube de massa’, alcunha que lhe é consensualmente atribuída pela mídia contemporânea, é ainda um mistério a se resolver”, tendo em vista que sua origem pode ser considerada elitista, já que o clube foi fundado por um grupo de jovens de famílias tradicionais belo-horizontinas.

O Cruzeiro, por sua vez, tem uma origem popular desde sua fundação, tendo sido criado por grupos de imigrantes italianos que haviam se estabelecido na capital mineira. Desse modo, enquanto a mística que cerca o Atlético (e sua torcida “Galoucura”) caracteriza a agremiação como “o clube do ‘povão, o clube da ‘massa’, dos pobres, dos negros e dos mestiços” (SILVA, 2005, s/p), o Cruzeiro se vale da organização e diligência típicas de sua “Máfia Azul”, definindo-se, sobretudo, “por aquilo que possibilitou aos italianos sua inserção na sociedade brasileira: o trabalho árduo e incansável, por meio do qual se pode construir lentamente um futuro bem sucedido” (SILVA, 2005, s/p).

Já para abordar aspectos da rivalidade entre o Sport Club Corinthians Paulista e a Sociedade Esportiva Palmeiras interessa o trabalho do pesquisador Roberto Louzada (2011), que analisa, do ponto de vista administrativo, as condições sociais que permitiram compreender como se constituíram as identidades dos três principais clubes da cidade de São Paulo, definidos sob os seguintes estereótipos: Corinthians, o clube do “povão”, fundado por operários; Palmeiras, o time da colônia italiana, fundado por operários imigrantes; e o São Paulo Futebol Clube, considerado representante da elite econômica da cidade.

Importante salientar que, nas conclusões apontadas por Louzada, os dois clubes fundados por operários são os que concentram os maiores percentuais de torcedores das classes A e B, enquanto o time identificado como da elite é o que possui os menores percentuais de públicos dessas duas classes – perspectiva esta que contribui para reforçar o viés mítico dos estereótipos que compõem o objeto de estudo da minha pesquisa. Também interessam à discussão os trabalhos científicos de Florenzano (2009), sobre a democracia corinthiana e as práticas de liberdade no futebol brasileiro; de Araújo (1996), que analisa as relações entre imigração e futebol a partir da fundação do Palmeiras; e de Malaia & Júnior (2017), que investigam as maneiras pelas quais o imaginário de “time do povo” contribui para a manutenção de uma identidade organizacional que, segundo os autores, confere certa vantagem competitiva ao Corinthians.

Quanto a alguns aspectos definidores da rivalidade entre o Clube de Regatas do Flamengo e o Club de Regatas Vasco da Gama interessam à discussão, principalmente, os trabalhos de Coutinho (2013), Ferreira (2013), Kowalski (2002) e Helal & Teixeira (2001). Em sua tese Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular, Coutinho (2013) investiga os fatores que contribuíram para a popularidade e para a abrangência nacional do clube rubro-negro a partir do período marcado pela implantação do regime profissional na agremiação, entre os anos de 1933 e 1955, demonstrando que o estereótipo de clube do povo somente se consolidou após a profissionalização da equipe, elitista à época de sua fundação: “O Flamengo, clube do povo, da paixão ensandecida, o mais querido do Brasil, era, até meados dos anos 1930, o clube da ‘fina flor’ carioca, o clube da força de vontade.” (COUTINHO, 2013, p. 31).

A popularização do Clube de Regatas do Flamengo não ocorreu antes de 1933. A popularização ocorreu somente a partir da profissionalização do clube. Sendo assim, o clube esquecido dos tempos do amadorismo em nada se diferenciava dos outros clubes elitistas da cidade. Dirigentes e associados eram tratados pela imprensa esportiva como símbolos de um sport promotor do espírito civilizado europeu. O Flamengo não carrega o gene da popularidade, como costumeiramente afirmam os estudiosos do clube. (COUTINHO, 2013, p. 36)

A dissertação de Ferreira (2013), “Flamengo, time de favelado!”: Representações sociais do Flamengo na mídia impressa dos anos 1930 aos 1960, analisa período semelhante ao abordado por Coutinho, investigando a construção das representações sociais sobre o clube por seus torcedores e de outros times a partir da instalação física de sua sede na década de 30, junto à comunidade da Praia do Pinto, o que, segundo o autor, contribuiu para a constituição do estereótipo de popularidade que o time carrega até os dias de hoje. A tese de Kowalski (2002), Por que Flamengo?, caminha no mesmo sentido, atribuindo o imaginário de popularidade do Flamengo a uma “construção mitológica”. A autora ainda caracteriza tal popularidade como um dos fatores potenciais para estimular a rivalidade com as demais equipes, tanto do Rio de Janeiro – a exemplo da disputa direta entre o status de popular do Flamengo e o rótulo “pó de arroz” do Fluminense – quanto de outros estados, tendo em vista que o rubro-negro é o clube de maior torcida do país.

FOTO: Alexandre Cassiano/Agência O Globo

Ainda quanto aos estereótipos atrelados à rivalidade entre Flamengo e Vasco, também interessa o artigo O racismo no futebol carioca na década de 1920: Imprensa e invenção das tradições, de Helal e Teixeira (2011), no qual os autores mostram como foi narrada a inserção do negro no esporte mais popular do país, contestando versões que são recontadas como verdades até os dias atuais, a exemplo do pioneirismo do Vasco da Gama em tal inserção.

Região Sul

O foco da discussão sobre a rivalidade clubística no Rio Grande do Sul é o modo como o jornalismo esportivo representa a sociedade e o futebol gaúchos, apropriando-se do discurso da marginalidade para pautar os dois maiores clubes de futebol do estado: Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense e Sport Club Internacional. Nessa perspectiva da representação midiática, nota-se a demarcação de uma linha tênue que, de um lado, se guia pelo culto às tradições, mas, do outro, acaba reforçando estereótipos muitas vezes não condizentes com a realidade da federação, das agremiações e até do próprio jogo em si, inclusive sob o risco de fomentar aspectos não sadios da rivalidade clubística. A definição de um estilo gaúcho de jogar futebol é um exemplo clássico dessa estereotipação frequentemente encontrada no noticiário esportivo, muito embora ao longo da história centenária de Grêmio e Inter tenham surgido evidências contrárias a tal estereótipo, como pondera o jornalista Léo Gerchmann (2016):

Em uma comparação simples, o Flamengo tem aquele jogo cadenciado, lindo, tipicamente brasileiro. Parece que todo jogador, ao vestir a camisa rubro-negra do Flamengo, passa a dar toques macios e fazer gols de efeito. No Grêmio, sem abrir mão da técnica de um Valdo, temos a gana de um Dinho, algo não menos lindo. […] Vários ídolos eternos aliam a técnica à garra, mesclam os dois. E assim é o nosso Tricolor. A impressão é de que, assim como ocorre no antípoda carioca, todo jogador que veste o manto azul, preto e branco torna-se um guerreiro, o que não implica violência, mas sim muitíssima emoção. (GERCHMANN, 2016, p. 96)

O modelo dito característico de se jogar futebol também encontra raízes na geografia física do território, servindo como mais um elemento para cultuar as tradições de um estado considerado pelos sul-rio-grandenses como marginalizado e periférico, contornos estes que, nessa ótica regionalista, seriam responsáveis pela falta de representatividade do Rio Grande do Sul diante das decisões político-econômicas tomadas no centro do país. Exemplo disso é que, no futebol, as manifestações contra possíveis prejuízos diante dos clubes do eixo Rio-São Paulo – como erros de arbitragem e não convocações para a Seleção Brasileira – seguem contundentes desde a época do primeiro Torneio Roberto Gomes Pedrosa e da polêmica partida da Seleção Gaúcha x Seleção Brasileira na década de 1970, sempre no ideário da afirmação do futebol do estado. Contudo, é interessante ponderar que, de 2006 em diante, a Seleção Brasileira teve cinco treinadores gaúchos consecutivamente no comando: Dunga, Mano Menezes, Felipão, Dunga (em nova passagem) e Tite, atualmente.

Além dos estereótipos que caracterizam um estilo de jogo tipicamente gaúcho, também é fundamental à minha pesquisa a discussão envolvendo os imaginários de time do povo e time de elite atrelados a Inter e Grêmio, respectivamente. A questão racial, por exemplo, alicerçou a fundação Internacional, em contraposição à fundação do Grêmio que, nos primórdios de sua história, só aceitava membros de descendência alemã em seu grupo. O Inter, fundado pelos irmãos Poppe, que eram descendentes de italianos, teria nascido, então, para englobar aqueles que não eram aceitos no Grêmio, daí deriva-se inclusive o nome “Internacional”, versão esta que se encontra na obra A História dos Grenais (2009), organizada pelo jornalista David Coimbra.

No intuito de refutar essa versão, a obra Somos azuis, pretos e brancos (2015), escrita por Léo Gerchmann, reúne alguns documentos históricos que estariam por trás da fundação dos dois clubes e que desmontariam o mito da segregação racial atribuída ao Grêmio, apontando o racismo no futebol como um reflexo de toda a sociedade brasileira, atrelado às sequelas da escravidão: “Havia, sim, um processo de exclusão dos negros, mas ele nunca foi proposto pelo Grêmio, mas pela sociedade brasileira, profundamente hierárquica e preconceituosa” (GERCHMANN, 2015, p. 9-10).

FOTO: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Ainda no tocante ao futebol da região Sul do país, interessam à minha pesquisa trabalhos que abordam o futebol paranaense, considerando-se o rótulo de elitista que recai sobre os dois maiores clubes locais: o Club Athletico Paranaense e o Coritiba Foot Ball Club. Para abordar essa temática, serão úteis os trabalhos científicos de Campos (2006) e Capraro (2004). Segundo Campos, à época da fundação os dois clubes possuíam uma forte identidade com determinados setores da sociedade curitibana. O Coritiba, por exemplo, é conhecido pela alcunha de “coxa branca” por ter sido fundado por imigrantes alemães e descendentes. Inclusive, “a identificação com a comunidade alemã gerou diversas representações sociais de que o Coritiba não admitia negros entre seus atletas, que era um clube racista” (CAMPOS, 2006, p. 94). Já as representações sobre o Athetico recaem, segundo Capraro (2004), no paradigma da modernidade, tendo em vista o pioneirismo do clube na construção de um estádio considerado a grande referência no Brasil e que é tido como “espaço social da fina-flor curitibana”.

Região Nordeste

Embora a bibliografia sobre clubes e rivalidades do futebol nordestino não seja tão ampla, foi possível selecionar alguns trabalhos relevantes a esse respeito, a exemplo da obra Pugnas Renhidas: futebol, cultura e sociedade em Salvador (1901-1924), do pesquisador Henrique Santos (2014), que discute as relações desse esporte com diversas camadas da sociedade soteropolitana, sobretudo quanto à inserção dos negros na modalidade e a caracterização de um “futebol tipicamente baiano”. Também interessa ao debate a tese do pesquisador Paulo Leandro (2011), Ba-Vi: da assistência à torcida. A metamorfose nas páginas esportivas, na qual o autor discute a instituição da torcida de futebol nos jornais de Salvador entre o longo período de 1932 a 2011, evidenciando, inclusive, dois perfis antagônicos: o Esporte Clube Vitória como um clube de origem “amadora” e o Esporte Clube Bahia como um clube de origem “profissional”.

FOTO: Felipe Oliveira/EC Bahia

Para abordar a rivalidade entre os clubes alagoanos Clube de Regatas Brasil (CRB) e Centro Sportivo Alagoano (CSA) serão úteis, sobretudo, os trabalhos preliminares dos pesquisadores Alexandrino et al. (2016), os quais discutem a violência em Maceió decorrente do clássico local e a influência midiática na rivalização das duas equipes. Segundo os autores, a imprensa esportiva alagoana é responsável por potencializar as manifestações de violência entre os torcedores, inclusive se utilizando de estereótipos para fomentar um clima de “guerra de classes” entre as torcidas.

Ao tratar o CSA como “o clube do Mutange” ou “do mangue”, e o CRB como o “galo da praia”, “da Pajuçara”, a mídia reforça dois estereótipos: o de que todos os torcedores azulinos são periféricos – a imagem dos catadores de sururu da lagoa Mundaú – e o de que todos os regatianos são da elite e moradores dos bairros litorâneos – o aristocrata branco que assiste ao jogo da tribuna de honra. Ocorre, portanto, a construção de um caráter de “guerra de classes”, ao se generalizar, erroneamente, duas torcidas que dividem em cores um estado de mais de 3 milhões de habitantes, das mais variadas esferas econômicas e sociais. Há patrões e proletários, trabalhadores informais e aristocratas, nas torcidas dos dois times, logo, a ideia de “povo versus elite”, na disputa entre CRB e CSA, é uma mitificação proposta pela mídia. (ALEXANDRINO ET AL., 2016, p. 6)

No tocante ao futebol pernambucano, interessam principalmente as pesquisas de Carvalho et al. (2017) e Ferreira et al. (2014). No artigo Símbolos e rituais do futebol espetáculo: uma análise das emoções no campo de jogo, Carvalho et al. (2017)  identificam e analisam os símbolos e rituais de torcedores das três principais equipes do estado: Sport Club do Recife, Santa Cruz Futebol Clube e Clube Náutico Capibaribe, evidenciando mascotes, cores, orações, superstições e consumo de álcool como alguns dos símbolos mais significativos no modo de torcer dos rivais. Já o estudo de Ferreira et al. (2014) investiga como os mecanismos de identificação e da diferença são utilizados para reforçar midiaticamente as supostas identidades dos torcedores dos clubes pernambucanos. Já sobre a rivalidade entre o Ceará Sporting Club e o Fortaleza Esporte Clube, um dos trabalhos mais significativos é do pesquisador Rodrigo Pinto (2007), que analisa a construção da história do futebol cearense e os conflitos sociais em torno da bola, considerando-se a origem elitista da prática e a formação operária de Ceará e Fortaleza.

Região Norte

A despeito do enfoque que as pautas do jornalismo esportivo dão ao futebol do eixo Rio-São Paulo, o clássico Remo x Paysandu (RePa ou Clássico Rei da Amazônia) vigora entre os duelos mais disputados e equilibrados do mundo, com mais de 700 partidas em 105 anos de confrontos. De 1914 a 2017 foram 737 clássicos disputados entre as equipes, sendo 256 vitórias do Clube do Remo contra 231 do Paysandu Sport Club, além de 250 empates. Os números contabilizados na dissertação da pesquisadora Aline Freitas (2017) demonstram que o Clássico Rei da Amazônia é o mais disputado do Brasil, ainda que não tenha essa mesma expressão em termos de cobertura midiática. Importante salientar que o fato de ser o clássico mais disputado do país, não significa dizer que Remo e Paysandu representam a maior rivalidade clubística brasileira, visto que essa afirmação pode variar conforme os critérios de análise e demandaria novas pesquisas para ser validada cientificamente.

Ainda assim, pode-se dizer que o equilíbrio entre os dois clubes, que é outra marca expressiva do duelo Re-Pa, também contribui para reforçar o teor desta rivalidade: das 103 edições do Campeonato Paraense, são 47 taças do Paysandu e 46 do Remo. Interessante ressaltar que, entre os campeões estaduais brasileiros, somente as equipes Avaí e Figueirense têm o mesmo equilíbrio de troféus – 17 e 18 taças respectivamente, nas 47 edições do Campeonato Catarinense. Nem mesmo os maiores vencedores dos campeonatos Carioca e Paulista contam com disputas tão acirradas, sendo 35 taças do Flamengo contra 31 do Fluminense e 30 taças do Corinthians contra 22 do Palmeiras – embora não se possa desconsiderar que nesses estados existem outros clubes de ponta no torneio. Porém, até na comparação com outros estados com apenas dois times em disputa, como Minas Gerais (44 títulos do Atlético e 38 do Cruzeiro) e Rio Grande do Sul (46 títulos do Internacional e 38 do Grêmio), o clássico Re-Pa se mantém como o confronto mais equilibrado do Brasil.

Quanto ao sentimento clubístico, o assunto é objeto de estudo na citada dissertação de Freitas (2017), intitulada Não É Só Futebol: uma análise dos laços de afetos que envolvem os torcedores do Clube do Remo, a partir de processos socioculturais comunicativos. A autora faz um estudo etnográfico para compreender como se dá a produção de sentido dos torcedores do Remo em uma dimensão afetiva e coletiva. Em seu estudo etnográfico, Freitas (2017, p. 78), ao perguntar a torcedores remistas o que é o amor pelo time do Remo, ressalta que diversas vezes eles “fizeram questão de lembrar que o sentimento dos torcedores rivais é payxão e isso é passageiro”, remetendo ao slogan utilizado pelo Paysandu para explicarem que, ao contrário do rival, eles sim lotam o estádio porque têm amor ao clube, e não somente paixão. Em perspectiva contrária, uma matéria no site oficial do Paysandu, escrita por Ronaldo Santos (2014) traz informações interessantes ao objeto de estudo da minha tese. Ao fazer um perfil de Seu Raimundo, “o torcedor mais antigo do Paysandu”, Santos destaca a fala final do entrevistado, suscitando o estereótipo de que este seria o “verdadeiro clube do povo”, ao contrário do rival Remo.

Seu Raimundo disse que o Paysandu é verdadeiramente o time do povo, e que por isso, tem a maior torcida do Estado e da Região Norte do País. “Para torcer pro Paysandu não precisava de nada, somente do amor pelo clube. No Remo era diferente, só entrava quem estivesse devidamente trajado com terno e gravata, quando no Paysandu não existia estes requisitos. O Paysandu é verdadeiramente o time do povo, e o time que deu as maiores glórias para o futebol paraense”. (SANTOS, 2014, s/p)

 

Como abordado no início do tópico, Paysandu e Remo representam o duelo mais disputado e equilibrado do Brasil. Uma única taça do Campeonato Paraense separam os dois rivais. Vale lembrar ainda que o Paysandu é o segundo clube brasileiro com mais taças estaduais: 47 contra 55 do ABC Futebol Clube, de Natal. O Remo aparece logo em terceiro lugar, com 46 troféus de campeão do Pará. Os títulos estaduais são, inclusive, o grande trunfo dos remistas na comparação com o rival. Além disso, em sua campanha como Campeão Brasileiro da Série C em 2005, o Remo bateu recordes de público entre todas as séries do campeonato, com uma média de 30 mil torcedores por jogo. O Paysandu, por sua vez, está melhor posicionado no ranking de clubes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com conquistas nacionais mais expressivas, como a extinta Copa dos Campeões que lhe rendeu o feito inédito de ser o único clube do norte do país a disputar uma edição da Copa Libertadores da América.

Fonte: bacana.news

Região Centro-Oeste

Em meio à restrita bibliografia sobre o futebol na região centro-oeste do país, interessam-me as pesquisas de Leão (2016), Nascimento (2007) e Gonçalves & Silva (2011). Em Futebol em Goiânia: sociabilidades e espaços, Leão faz um trabalho etnográfico para restituir a configuração social da memória coletiva que conecta a

cidade de Goiânia e o futebol. Em Futebol, sociabilidade e psicologia de massas: ritos, símbolos e violências nas ruas de Goiânia, Nascimento propõe uma análise etnográfica das práticas sociais de uma torcida organizada do Vila Nova Futebol Clube em dias de jogos contra o rival Goiás Esporte Clube. Já o trabalho de Gonçalves & Silva, O futebol na geografia: a difusão socioespacial do futebol em Goiânia, analisa o papel dos clubes de futebol profissional na configuração da cidade.

Segundo Gonçalves & Silva (2011, p. 166), “a construção da nova capital foi fundamental para a consolidação de um futebol ainda incipiente. Goiânia e o futebol nascem praticamente juntos, em um fenômeno diferenciado do restante do Brasil.”, considerando-se a Revolução de 1930 e o ideário nacionalista da “Marcha para o Oeste”. Os autores apontam a construção da Ferrovia Mogiana, ao sul do estado, como uma das primeiras políticas de integração de Goiás ao principal eixo econômico nacional, a cidade de São Paulo. Daí surgiram as primeiras agremiações esportivas do estado, os clubes ditos “ferroviários”, tendo a ferrovia como elemento simbólico. Goiás e Vila surgiram depois, no contexto de desenvolvimento de Goiânia, que passa então a ser a nova capital do estado, “engendrada e planejada para ser uma cidade moderna, que representaria um novo Estado de Goiás e que se integraria de fato no bojo da economia brasileira” (GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 168).

Em 6 de abril, um grupo de amigos se reuniu no centro da cidade e desse encontro resultou a criação do Goiás Esporte Clube. Todos os presentes eram paulistas descendentes de italianos e torciam para o extinto Palestra Itália (atualmente Sociedade Esportiva Palmeiras), da cidade de São Paulo. Desta forma, foram escolhidos o verde e o branco como as cores do uniforme, as mesmas que utiliza o clube paulista. Como a torcida paulista tinha o periquito como mascote, logo os fundadores do Goiás o incorporaram como mascote do novo clube que surgia. Tal adoção foi facilitada também pelo fato de o periquito ser uma ave bastante conhecida na região Centro-Oeste do Brasil. A ideia original era dar ao clube o nome de Palestra Itália; todavia, o contexto político brasileiro da época não permitiu que tal vontade fosse realizada.

Com esse trecho, os autores chamam atenção para a influência socioespacial exercida pelo eixo Rio-São Paulo na formação de diversos clubes do interior brasileiro, apontando a migração paulista dos descendentes de italianos como uma das principais vertentes do surgimento do futebol no Centro-Oeste. No mesmo ano em que é fundado o Goiás, surge o Vila Nova, embora este já desenhasse sua existência há alguns anos. “Desportistas entusiastas do então clube amador Associação Mariana aceitaram o desafio de fundar um clube para representar o bairro conhecido como a ‘vila mais famosa’, a Vila Nova” (GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 169). Desse modo, o clube surge como uma agremiação totalmente identificada com determinado lugar, no caso um bairro de classes sociais menos favorecidas, o que fornece pistas para abordar alguns dos estereótipos que dimensionam a rivalidade entre Goiás e Vila.

O Vila surgiu de gente humilde. O bairro da Vila Nova não passava de uma área invadida. A construção de Goiânia se deu graças à mão de obra de cidadãos de outros estados. Veio gente do Ceará, do Maranhão, de Minas Gerais, da Bahia, do Piauí, de Pernambuco e de Alagoas. Essas pessoas moravam em minúsculas casinhas de três cômodos, plantavam suas hortas no quintal e a comida era feita no fogão de lenha. Como não planejaram um espaço para os homens que ajudaram na edificação da nova cidade e a maioria não tinha dinheiro para comprar um lote em Campinas ou no Bairro Popular, o jeito foi invadir um pedacinho de chão lá pros lados do Córrego Botafogo. Local distante, sem asfalto e sem transporte. Lugar de gente simples: pedreiros, serventes, carpinteiros e operários. (SILVA apud GONÇALVES & SILVA, 2011, p. 170)

FOTO: Divulgação/Jornal O Popular

Considerações finais

Considerando-se a abrangência geográfica dos apontamentos aqui propostos, não posso deixar de mencionar ainda a importância dos trabalhos que relacionam o futebol às hierarquias urbanas, a exemplo das pesquisas do geógrafo Gilmar Mascarenhas, que traça paralelos sobre o processo histórico de desenvolvimento desse esporte no Brasil com os efeitos da concentração de poder e de capital que hoje pairam sobre a modalidade. No artigo Futebol, globalização e identidades locais no Brasil (2008), o autor aponta, por exemplo, para a contradição existente entre as forças mercadológicas da globalização – que tendem a transformar o torcedor em consumidor do espetáculo futebolístico – e a manutenção de tradições locais, considerando-se, inclusive, a força das rivalidades estaduais do futebol brasileiro.

Deve-se notar que, quando clubes da mesma cidade participam de competições nacionais ou internacionais, ao nível do cidadão comum, vemos uma disputa paralela contínua, porque o que realmente interessa ao torcedor é saber qual das equipes está melhor posicionada. E ele não apenas aplaude as vitórias do seu clube, mas também as derrotas do seu rival local. (MASCARENHAS, 2008, p. 12)

Quanto ao ato de aplaudir a derrocada do rival, atribuo esse sentimento à natureza sociológica do conflito, evidenciada pelo sociólogo alemão Georg Simmel (1983). Ele defende que toda relação conflituosa, por si só, é uma forma de sociação, de modo que o conflito estaria destinado “a resolver dualismos divergentes; é um modo de conseguir algum tipo de unidade, ainda que através da aniquilação de uma das partes conflitantes” (p. 22). Nesse sentido, para o adversário é como se pouco importasse a condição social do outro – se povo ou elite, se pobre ou rico, se negro ou branco – mas sim se ele torce ou não para o mesmo time.

Tanto é que, em dia de clássico, é nítida a separação entre os alambrados rivais. Até mesmo no entorno dos estádios o policiamento é reforçado para que os adversários tomem cada qual seu espaço e não se cruzem pelo caminho. Nesse cenário, percebemos que a prática do schadenfreude – palavra de origem alemã que, em bom português, significa ficar feliz pela desgraça do outro, vigora independentemente do alcance da partida ou da dimensão dos clubes em disputa. Porém, qual a garantia de que realçar os problemas e estigmas do rival resolverá as pendências do seu time do coração, fazendo com que ele suba na tabela? Nenhuma. Mas talvez resida justamente nessa perspectiva um dos maiores clichês do nosso futebol: clássico é clássico. E vice-versa.

 

Referências

ALEXANDRINO, Beatriz; ÁVILA, Janaína; MAGALHÃES, Mateus; PADILHA, Estéfane. Futebol e Violência em Maceió: a influência midiática na rivalidade entre CRB e CSA. Anais do 18º Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste, Caruaru, 2016.

ARAÚJO, José Renato de Campos. Imigração e futebol: o caso Palestra Itália. 1996. 179 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1996.

CAMPOS, Fernando. A construção do espaço de representação do futebol, em Curitiba-PR. 2006. 228 f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Setor de Ciências da Terra, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2006.

CAPRARO, André. O Estádio Joaquim Américo – a “Arena da Baixada” – e a identidade clubística do torcedor do Clube Atlético Paranaense. Campos – Revista de Antropologia, v. 5, n. 1, UFPR, Curitiba, 2004.

CARVALHO, Talita; FREITAS, Clara; SANTOS, Ana; SILVA, Marilza; SILVA, Priscilla. Símbolos e rituais do futebol espetáculo: uma análise das emoções no campo de jogo. Revista Motrivivência, v. 29, p. 163-180, 2017.

COIMBRA, David; MOREIRA, André; NORONHA, Nico; SOUZA, Mário. A História dos Grenais. Porto Alegre: L&pm, 2009.

COUTINHO, Renato. Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular (1930-1955). 2013. 196 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.

FERREIRA, Bruno; JÚNIOR, Fernando; LEÃO, André; Identificação e diferença na construção de identidades culturais de torcedores rivais dos três grandes clubes da cidade do Recife. Revista PODIUM, v. 3, nº. 2, 2014.

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SILVA, Marcelino. O povo contra o povo no imaginário esportivo mineiro. Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Lingüísticos, Rio de Janeiro, 2005. Disponível em <https://bit.ly/2Nn8TmM>. Acesso em 17 jan. 2020.

SILVA, Marcelino. A construção discursiva da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro. Pós-doutorado (Programa Avançado de Cultura Contemporânea), Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2009.

Produção audiovisual

Palestra de Aira Bonfim disponível no Youtube

Está disponível no canal do LEME no Youtube o vídeo da palestra de Aira Bonfim nos Encontros LEME 2019. Aira esteve conosco no dia nove de setembro, no auditório do PPGCom/UERJ, para falar de sua pesquisa no Mestrado em História, Política e Bens Culturais da FGV: “Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941)”.

Aira Bonfim teve como intuito na sua pesquisa apresentar um panorama do envolvimento de diferentes grupos sociais de mulheres que aderiram à prática do futebol, em diversos momentos históricos, desempenhando distintos papéis. Locais como os das festas esportivas, dos picadeiros circenses e dos campos suburbanos do Rio de Janeiro mostraram-se ricos na manifestação do fenômeno “football feminino”. Em seu trabalho, a pesquisadora utiliza como fontes jornais e revistas do período, bem como acervos iconográficos institucionais e pessoais.

A palestra fez parte dos Encontros LEME, uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções entre Comunicação, Esporte e Cultura. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica.

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Artigos

O caso Bruno e o espetáculo para o tio do pavê

Machismo, hipocrisia e os limites do mercado

Em 2019, a população prisional no Brasil atingiu a marca de 812.564 pessoas, de acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça. Desse total, incríveis 41,5% (337.126) são presos provisórios, ou seja, são aqueles que não foram julgados e não receberam decisão condenatória. Dos principais crimes cometidos destacam-se o tráfico de drogas (30%), roubo (21%) e homicídios (16%).

Eduardo Vitorino faz parte dessa população carcerária. Quando passou para o regime semiaberto no Rio de Janeiro, Eduardo se deparou com uma imensa dificuldade de encontrar um emprego, já que o fato de ser presidiário levava seu currículo para o final da fila ou mesmo o tornava inapto a concorrer a qualquer vaga. É com certo nervosismo e vergonha que Eduardo conta parte de sua história no documentário Ressocialização: Uma vida após o cárcere[1]. Graças a um projeto social, ele conseguiu trabalho remunerado e hoje atua no Replantando Vidas, programa desenvolvido pela Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) e que visa à reinserção social de presos e presas, que durante o dia trabalham em tarefas como a confecção de uniformes ou o replantio da vegetação de mananciais. Projetos sociais como esse representam uma das poucas oportunidades de ressocialização de presos como Eduardo.

Já Bruno Fernandes condenado por participação no sequestro, assassinato e ocultação de corpo de Elisa Samudio, em 2010, não teve tanta dificuldade em encontrar interessados em sua mão de obra. Em 2014, ainda cumprindo pena em regime fechado, Bruno assinou contrato com o Montes Claros F.C de Minas Gerais. Porém, em novembro daquele ano, a permissão de atuar pelo clube foi negada pela Justiça.

Em 2017, após conseguir liberdade provisória em decisão do STF, o ex-goleiro foi contratado pelo Boa Esporte, clube de Varginha, Minas Gerais. Na ocasião, ele disputou cinco partidas (duas vitórias, dois empates e uma derrota) antes de ser preso novamente naquele mesmo ano. Em 2019, após conseguir passar para o regime semiaberto, Bruno foi apresentado ao Poços de Caldas, clube pelo qual jogou 45 minutos de uma partida contra um time amador de Juruaia (MG). Em 2020, o goleiro iniciou o ano avaliando as propostas de três clubes: o Tupi, de Juiz de Fora (MG), o Cuiabá (MT) e o Fluminense de Feira de Santana (BA). O clube baiano chegou próximo de fechar a contratação, mas muitos torcedores e pessoas públicas como a jornalista Jéssica Senra manifestaram revolta pela possibilidade de ver o atleta atuando pelo Feira.

O presidente Everton Carneiro – o Pastor Tom – anunciou a desistência da contratação e o clube emitiu uma nota sobre o caso:

Fonte: varelanoticias.com.br

É de se lamentar os erros gramaticais. Mais ainda, o tom condenatório da nota, que passa a impressão de que a contestação da torcida – principalmente as mulheres, como frisa o texto -, foi um ato que mais atrapalhou do que ajudou o clube.

Então, me pergunto: Por que a contratação de Bruno Fernandes que cumpre pena por homicídio, representaria algum tipo de benefício ao Feira? Ou melhor, o que leva um clube de futebol a se mover para contratar alguém condenado por um crime hediondo?

Fundamentar-se no aspecto legal e social foi o que fez Rone Morais, então presidente do Boa Esporte Clube, em 2007, ao afirmar que:

Quem nunca ouviu: o trabalho dignifica o homem? Então o argumento (de que) seria asqueroso, nojento ou imoral (a contratação do atleta Bruno), antes de mais nada, legalmente, faz parte da obrigação social da empresa, da sociedade em cooperar com a recuperação de um ser humano. Aqui não se condena à morte ou prisão perpétua (grifos meus)[2]

Segundo dados recentes coletados pelo G1, menos de um em cada cinco presos (18,9%) trabalha no país, em alguns estados como o Rio de Janeiro o percentual é de 1,7%[3]. Empregar presos costuma movimentar empresas que ora pagam muito pouco pelo serviço prestado, ora não pagam. Dos 95.919 detentos que são empregados dentro do sistema penitenciário, 33% (ou 31.653 pessoas) não ganham remuneração alguma. Isso representa um descumprimento da Lei de Execuções Penais, que prevê uma remuneração de ao menos três quartos do salário mínimo.

Fonte: g1

Mas, por algum motivo, Bruno foi colocado acima dessa realidade. O contrato com o Boa Esporte previa um salário em torno de 30 mil reais, muito mais do que ganhava o restante dos jogadores do clube na época. No Poços de Calda, seu salário seria de R$10.000, o que pode ser considerada uma quantia astronômica em se tratando de um clube que estava na terceira divisão do campeonato mineiro.

Quanto ao argumento da obrigação social em contribuir para a “recuperação do ser humano”, há de se perguntar se de fato os clubes de futebol costumam promover programas de ressocialização para quem cumpre pena. Uma reportagem do El Pais mostra que o Boa Esporte Clube em 2013 – bem antes da contratação de Bruno – chegou a manter uma parceria com o presídio de Varginha que destinou 50 presos para trabalhar na reforma do estádio do clube[4]. Essa parceria não mais existia em 2019.

A mesma falta de comprometimento social podemos ver no caso do Poços de Caldas, clube cujo nome não consta no cadastro de programas de ressocialização penal. Mesmo assim, seu então presidente, Paulo César da Silva, declarou que o objetivo da contratação era “contribuir para a reinserção do atleta na sociedade”[5]. Ainda naquele ano, o referido dirigente foi destituído da presidência pela Assembleia do clube. Paulo saiu, não por causa de Bruno, mas porque em sua administração o Poços de Caldas, acumulou dívidas e sequer conseguiu o licenciamento para disputar partidas em 2019. Aliás, a falta de pagamento foi a justificativa usada pela advogada de Bruno para explicar sua rescisão de contrato com o Poços.

Se os clubes alegam que agiram sob justificativa legal e social e, por isso, não haveria nada a se criticar a respeito da contratação de Bruno, por que em um país com uma população carcerária gigantesca, os clubes em questão resolveram ajudar um único preso? E depois dele não seguiram em frente sem projetos sociais dessa natureza.

O uso daquelas justificativas, portanto, não se sustenta.

Machismo e o espetáculo da infâmia

O universo do futebol não é guiado somente por aspectos legais. Existe um conjunto de valores – muitos deles questionáveis – que norteiam diversas tomadas de decisões. Há alguns dias, o diretor de futebol do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, foi flagrado dando explicações ao jogador Cantillo sobre os motivos que o impediriam de continuar jogando com a camisa 24, número que costumeiramente usava em seu clube colombiano.

No Brasil, o número 24, no jogo do bicho, representa o veado e, no senso comum, existe uma associação entre homossexualidade e esse animal.  No Corinthians, Cantillo atuará com a camisa 8, afinal como disse Duílio “Vinte e quatro aqui não”.  A camisa 24 é criminalizada no futebol brasileiro e pouquíssimos clubes a adotam. Afinal, qualquer ameaça aos ideais de masculinidade que cercam o futebol é imediatamente rechaçada.

Sendo assim, será, então, que se Bruno se declarasse gay, esse fato se tornaria um impeditivo para que os clubes buscassem contratá-lo? É de se supor que sim. Se lembrarmos que não há jogadores em atividade no futebol brasileiro que são assumidamente gays, podemos supor que o homossexualidade é considerado um crime dentro no universo futebolístico. Basta lembrarmos das palavras do juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho a respeito do caso Richarlyson, em 2007.

Já que foi colocado como lastro, este juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual (…)

Quem presenciou grandes orquestras futebolísticas (…) não poderia sonhar em vivenciar um homossexual jogando futebol[6]

Fonte: foxsports.com.br

Mas, estamos melhorando. Hoje em dia é notável o fortalecimento de debates e ações afirmativas de raça, gênero, direitos LGBTQ e outras tantas questões vinculadas às minorias. Uma das consequências desse fenômeno são as rápidas reações de descontentamento toda vez que falas e comportamentos preconceituosos são manifestados. Foi o que ocorreu com os clubes aqui citados. Todos foram alvo de enxurradas de protestos, sobretudo via redes sociais, que consideraram a possibilidade de contratação de Bruno uma ofensa, sobretudo ao direito das mulheres. Não podemos deixar de valorizar esses posicionamentos.

Por outro lado, hoje em dia, “causar” virou uma estratégia de propaganda fartamente usada. Criar polêmicas com discursos ou atos de apoio ao ódio e a preconceitos diversos se transformou em sinônimo de autenticidade e é capaz de gerar imensa repercussão e apoio. É o espetáculo para o tio do pavê que Rosana Pinheiro Machado descreve tão bem como sendo uma das estratégias usadas atualmente na política e que consegue ecoar “no ressentimento daqueles que mantiveram seu preconceito no armário”[7] e que viram a oportunidade de colocá-los à mostra e de legitimá-los. Uma breve olhada nos comentários das matérias a respeito da chegada de Bruno aos clubes provoca dor de estômago ao lermos opiniões favoráveis ancoradas em opiniões plenas de raiva e machismo.

No caso do futebol, o espetáculo para o tio do pavê tem terreno fértil, até mesmo porque muitos preconceitos já vivem fora do armário há muito tempo. Cerca de 300 pessoas pagaram R$ 10,00 de entrada para assistirem a estreia de Bruno no Poços de Caldas, em 2019, no amistoso contra o Independente Juruaia. Houve aplausos e muitos pedidos de selfies. Em 2017, a estreia pelo Boa Esporte atraiu um público de 1.772 pagantes, ao estádio Dilzon Melo, número bem acima da média dos jogos do mesmo clube, que naquele ano, foi de 600 torcedores[8]. Em 2019, em partida contra o Tombense, pelas quartas de final do campeonato mineiro da primeira divisão, o Boa levou 800 pagantes[9]. Nem mesmo uma partida decisiva conseguiu superar aquele público de dois anos antes.

Fonte: http://fmf.esumula.com.br/

O machismo é elemento fundamental que leva um clube a contratar um condenado por participar diretamente do assassinato de uma mulher de modo premeditado. Admiti-lo novamente para ocupar uma função de tamanha visibilidade – mesmo em se tratando de clubes de pouco investimento – representa um posicionamento que entende o feminicídio como um crime menos grave. Esse tipo de percepção é comum em ambientes onde o machismo é predominante, como é o caso do futebol, como é o caso do nosso país.  No Brasil, segundo os dados divulgados pelo G1 relativos ao ano de 2018, registrou-se o número de 4 mulheres mortas para cada grupo de 100 mil mulheres, ou seja, 74% superior à média mundial.[10]

O “país do futebol” é um dos cinco onde mais se mata mulheres no mundo.

É nesse país do futebol que vemos clubes pouquíssimos engajados em causas sociais, mas que repentinamente levantam a voz a “favor da recuperação do ser humano”, um ser humano, aliás, muito específico chamado Bruno Fernandes e que consegue movimentar os holofotes do espetáculo da infâmia para o qual convenhamos … não falta público.

Apostar nesse tipo de visibilidade faz parte de uma lógica mercadológica, não podemos esquecer desse detalhe.

Quando o Boa Esporte anunciou sua aquisição, alguns patrocinadores avisaram que rescindiriam seus contratos com o clube. A empresa responsável pelos cuidados com a nutrição dos jogadores foi a primeira a tomar tal atitude. O patrocinador principal, o grupo Góis & Silva chegou a anunciar o fim da parceria com o Boa, porém essa promessa não foi cumprida. No dia da estreia do goleiro, a marca da empresa estava estampada nos materiais de divulgação do jogo, na camisa do clube e nas placas de publicidade que cercam o campo. Além disso, uma nova empresa de nutrição havia assumido o serviço no lugar daquela que rescindira o contrato.

O futebol é bom para pensar

O poder do futebol de despertar afetos, influenciar nas construções identitárias, enfim, sua capacidade de mobilizar coletividades não deve ser desprezado. Ao contrário, é justamente por conta desse poder que os clubes precisam assumir sua responsabilidade acerca do papel que desempenham ou devem desempenhar na vida das pessoas. Uma discussão desse porte requer um esforço e um comprometimento que ultrapasse as hipocrisias e os meros interesses do mercado.

Numa sociedade em que tudo parece estar à venda, o fato de haver consumidores dispostos a pagar pelo que é oferecido transforma-se em índice de legitimidade de muitas ações. O futebol não foge a essa lógica. Por isso, o aumento de público nos jogos do Boa, por exemplo, não deve ser tomado como um sinal de que a presença de Bruno em campo é algo a ser considerado como positivo.

É possível e bem provável que diversos outros clubes de menor investimento ainda tentem contratá-lo na intenção de lucrarem. O Clube Esportivo Operário Várzea-Grandense já anunciou interesse em Bruno. Coincidentemente essa negociação tem participação direta de Roberto Morais, um dos proprietários do Boa Esporte e irmão de Rone Moraes responsável pela contratação do goleiro por esse clube. A conta desses empresários deve ser a seguinte.: se Bruno pode atrair público e mídia, então, existe possibilidade de lucro, algo pouco comum para clubes de pouco investimento. A nota do Fluminense de Feira expressa um pouco a frustração de se ter de abrir mão de uma oportunidade considerada imperdível de ter “Bruno Fernandes, um ex-Flamengo” como disse a nota mencionada.

A lógica do mercado tem invadido esferas da vida com as quais não possui – e não deve possuir – relação. O mercado tem uma incrível capacidade de banalizar aquilo que lhe rodeia e, justamente, por isso devemos repetir a pergunta.: “É desse modo que queremos viver?” Michel Sandel faz esse questionamento em seu livro O que o dinheiro não compra. Os limites morais do mercado.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/

A resposta não deve ser derivada de uma simples demonização da sociedade de consumo, mas sim de uma problematização das fronteiras do que pode e não pode ser medido a partir de parâmetros estipulados pelo mercado.

Ser assassinada de modo planejado pelo pai do seu filho foi um ato banalizado quando quem cometeu esse crime retornou para a sociedade ocupando um lugar de visibilidade e status no esporte mais popular do país. Retorno que se dá recorrendo-se a argumentos hipócritas, misturados com um machismo mal disfarçado, tudo isso combinado com o espetáculo da infâmia que infelizmente atrai o interesse de muita gente.

Não. Não é desse modo que eu quero viver. E creio que o futebol pode ser uma arena fundamental para discussões e propostas a respeito de formas mais promissoras de nos construirmos enquanto sujeitos em uma sociedade complexa como nossa.

Notas de rodapé:

[1] Documentário feito como trabalho de conclusão de curso de Daniel Augusto de Freitas; Denilde Gomes Costa Inglat e Jackeline Dos Santos Oliveira Disponível em.: https://www.youtube.com/watch?v=ZKs_pdKHFxI

[2] Fonte: https://www.terra.com.br/esportes/lance/presidente-defende-contratacao-de-bruno-boa-esporte-nao-esta-cometendo-nenhum-crime,49f333b46d7e6739875cd73f272a246ekcuxgxeq.html

[3] Monitor da violência. https://g1.globo.com/monitor-da-violencia

[4] Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/29/deportes/1567100612_158091.html

[5] Fonte:https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/29/deportes/1567100612_158091.html

[6] Sobre o caso ver (http://www.conjur.com.br/2007-ago-03/juiz_nega_acao_jogador_futebol_macho)

[7] Rosana Pinheiro Machado. Amanhã vai ser maior. O que aconteceu com o Brasil e possíveis rotas de fuga para a crise atual.

[8] Fonte:http://globoesporte.globo.com/mg/sul-de-minas/futebol/noticia/2017/04/apoio-penalti-e-empate-o-retorno-de-bruno-aos-campos-sete-anos-depois.html

[9] Fonte:http://sge.esumula.com.br/arquivos/Bordero/Bordero_Jogo_32733.pdf

[10] Fonte: https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2019/03/08/dados-de-violencia-contra-a-mulher-sao-a-evidencia-da-desigualdade-de-genero-no-brasil.ghtml

Artigos

Já está no ar o oitavo episódio do Passes e Impasses

Acesse o oitavo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso oitavo episódio é “Futebol e movimento LGBT”. Com apresentação de Filipe Mostaro, recebemos no nosso estúdio Carlos Guilherme Vogel, que é mestre em comunicação pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ, também é roterista, diretor e produtor cinematográfico e Flávio Amaral que é jornalista formado pela FACHA e assessor de comunicação do governo do Estado do Rio de Janeiro, por telefone, nós também conversamos com o Maurício Rodrigues, organizador do livro Histórias de Todas as Cores: Memórias Ilustradas LGBT e o pesquisador Gustavo Bandeira que é doutor em Educação pela UFRGS.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o oitavo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “We are the Champions” é da banda de rock britânica Queen e foi lançada em outubro de 1977.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Marina Mantuano e Fausto Amaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro
Convidados: Carlos Guilherme Vogel, Flávio Amaral, Maurício Rodrigues e Gustavo Bandeira
Artigos

Esporte e vinculação

A questão migratória é de ordem transnacional, própria de uma sociedade globalizada. Como fenômeno pós-estado-nação, e por isso mesmo, marcada pela ruptura entre questões nacionais e identitárias, é preciso que sejam levados em consideração aspectos culturais, territoriais e linguísticos, indo além da questão das fronteiras formais.

O Brasil compõe o mapa das migrações internacionais. De acordo com o Comitê Nacional para Refugiados – CONARE, órgão ligado ao Ministério da Justiça, em 2017, havia no país um total de 10.145 refugiados, de 82 nacionalidades[1]. No mesmo ano, foram registradas 33.866 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado.

São vários os motivos que levam pessoas ou grupo de pessoas a migrarem. No caso dos imigrantes-refugiados, vítimas de diásporas forçadas, esses motivos estão intrinsecamente relacionados à reivindicação pela cidadania, que de alguma maneira lhes foi negada no país de origem e que igualmente é difícil de conquistar no local de destino. Essas pessoas deixam para trás famílias, histórias, identidades e afetos, apresentando-se como sujeitos híbridos por excelência, símbolos do sujeito contemporâneo, ao mesmo tempo nativo e estrangeiro, cosmopolita e de lugar nenhum.

Ao chegarem ao Brasil, os imigrantes-refugiados precisam se vincular socioeconomicamente no país. Para que isso aconteça é necessário que sejam interpretados os códigos tangíveis e simbólicos, como regras, leis e práticas culturais. Esta vinculação faz parte do processo Territorialização, Desterritorialização, Reterritorialização ou simplesmente TDR. Em seus aspectos físicos esse processo corresponde à saída das pessoas de seus locais de origem e a chegada/acolhimento a outro lugar. Na desterritorialização as identidades territoriais são desenraizadas e enfraquecidas fazendo com que o território perca o sentido e se transforme em um “não lugar”.

Ao chegarem, no continuum desterriorialização-reterritorialização, essas pessoas se vêem envolvidas num fenômeno de exclusão sócio-espacial que envolve o desmantelamento das relações e o esfacelamento da territorialidade original e familiar. Apesar da distância da terra natal, os elos com os locais de origem permanecem fortes, porém é natural que com o passar do tempo ocorra a identificação com o novo lugar, como consequência do processo de vinculação, presente na reterritorialização.

Dentre as várias possibilidades existentes, o esporte, cada vez mais, vem se apresentando como um eficiente instrumento capaz de promover a vinculação sócio-econômica-cultural desse grupo de pessoas. Sob uma perspectiva cultural, o esporte pode ser entendido como uma prática lúdica e social executada por pessoas que compartilham o entendimento das regras e demais modus operandi, mas que necessariamente não precisam compartilhar da mesma língua ou práticas culturais. Em realidade, na atualidade há diversas modalidades que possuem num mesmo time participantes de diferentes etnias e, ainda assim, partilham, enquanto equipe, os mesmos significados e sentidos. O esporte é capaz de propiciar a essas pessoas o sentimento de pertencimento e a capacidade de experimentar a sensação de possuir um lugar só seu no seio do vínculo social.

Um dos casos de sucesso na vinculação de imigrantes-refugiados pelo esporte é a Copa de Futebol dos Refugiados e Imigrantes. O evento é considerado o maior projeto de integração esportiva envolvendo refugiados e migrantes no Brasil[2]. As várias etapas do campeonato ocorrem em várias cidades brasileiras e envolvem, aproximadamente, 1.100 atletas de 39 nacionalidades, reunindo migrantes e refugiados, vítimas de diásporas forçadas.

O evento teve origem no ano de 2014, na cidade de São Paulo. A iniciativa partiu da ONG África do Coração e conta com o apoio da ACNUR (Agência das Nações Unidas para Refugiados). A etapa final da edição de 2019 contou com os seguintes finalistas: Líbano (Rio Grande do Sul), Angola (Rio de Janeiro), Guine Conacri (Distrito Federal), Cabo Verde (Pernambuco), Colômbia (Paraná) e República do Congo (São Paulo).

Fonte: atribuna.com.br

Por meio da força agregadora do esporte e das interações e sociabilidades presentes na rotina cotidiana, estes atletas têm maiores possibilidades se se inserirem de maneira mais orgânica na sociedade brasileira. Além do mais, ao proporcionar e naturalizar a coexistência das diferenças ensina a todos nós sobre solidariedade, respeito e alteridade.

Referências

AUGÈ, Marc. Não lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. Campinas: Papirus, 2012.

HAESBERT, Rogério. Viver no Limite: território e multiterritorialidade/transterritorialidade em tempos de in-segurança e contenção. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2014.

HAJII, ElHajii. Rio de Janeiro-Montreal: conexões transnacionais/ruídos interculturais. In: Revista Fronteiras – estudos midiáticos 12(3): 177-184, setembro/dezembro 2010.

LE BRETON, David. Desaparecer de si: uma tentação contemporânea. Petrópolis: Vozes, 2018.

 

Notas de Rodapé

[1]MINISTÉRIO DA JUSTIÇA. Refúgio em números – 3ª edição. Disponível em: <http://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-em-numeros_1104.pdf/>. Acesso em: 10/09/2019.

[2] http://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2019-10/atletas-de-16-nacionalidades-disputam-copa-dos-refugiados-em-sao-paulo

Produção audiovisual

Já está no ar o sétimo episódio do Passes e Impasses

Acesse o sétimo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCasts, Overcast, Google PodcastRadioPublicAnchor.

O tema do nosso sétimo episódio é “Psicologia no esporte”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Letícia Quadros, recebemos no nosso programa Alberto Filgueiras, professor e pesquisador da UERJ e por telefone Maíra Ruas, psicóloga do Vasco da Gama.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o sétimo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “Deixa a vida me levar”, a música escolhida foi escrita Serginho Meriti e Eri do Caos, considerada um marco na carreira de Zeca Pagodinho.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Letícia Quadros e Fausto Amaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro
Convidados: Alberto Filgueiras e Maíra Ruas