Artigos

O novo lema olímpico e suas implicações

O lema citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte) é amplamente reconhecido e reverenciado no Movimento Olímpico. Foi adotado em 1894 quando o Barão francês Pierre de Coubertin instituiu o Comitê Olímpico Internacional (COI). Ele pegou emprestado esse lema de seu compatriota Henri Didon, um padre dominicano que Coubertin ouviu recitar a frase em 7 de março de 1891 durante a cerimônia de premiação de um evento esportivo na Escola Albert Le Grand, em Arcueil, perto de Paris, na qual ele era o reitor. Impressionado, Coubertin citou o futuro lema olímpico em uma reportagem publicada na revista Les Sports Athlétiques alguns dias depois.

Barão de Coubertin, responsável por introduzir o lema olímpico. Fonte: Olimpíada todo dia

Em seu website, o COI afirma que o lema olímpico “resume uma filosofia de vida ou um código de conduta” que “incentiva os atletas a darem o seu melhor durante as competições”. Além disso, de acordo com a Carta Olímpica, a mesma “expressa às aspirações do Movimento Olímpico”. O COI esclarece em seu site que o lema olímpico compreende não apenas um significado esportivo e técnico, mas também uma perspectiva moral e educacional. Nesse sentido, Coubertin já havia dito em 1929 que “a chamada sonora” dessas três palavras e os enormes esforços para melhorar o rendimento são necessários “para a vida esportiva e as proezas excepcionais indispensáveis ​​à atividade geral”. Assim, o lema olímpico implica uma postura perfeccionista sobre a vida humana com ênfase na excelência individual.

A persistente pandemia de coronavírus gerou uma mudança imprevista e incomum no lema olímpico. Perturbado por seus efeitos sobre o Movimento Olímpico e motivado pelas reformas que vem promovendo desde sua eleição como presidente do COI em 2013, o alemão Thomas Bach propôs em março deste ano “complementar este lema adicionando, após um hífen, a palavra juntos”, para o qual evocou a palavra latina communis.

Sua proposta, realizada durante o discurso de aceitação de sua reeleição como Presidente do COI, reconhece que “aprendemos do jeito mais difícil durante esta crise do coronavírus que podemos estar de acordo com nosso lema olímpico ‘mais rápido, mais alto, mais forte’, no esporte e na vida, somente se trabalharmos juntos em solidariedade”. Encorajando seus colegas do COI a imaginar metas mais ambiciosas para o mundo pós-coronavírus, Bach proclamou: “Precisamos de mais solidariedade dentro das sociedades e entre as sociedades e isso se tornou óbvio no início do coronavírus, quando se pôde ver que o fosso social estava se ampliando”. Prosseguiu explicando que “o mundo é tão interdependente que ninguém consegue mais resolver os grandes desafios sozinho” e insistiu que sua proposta expressa “essa necessidade de solidariedade”. Não surpreende que, quase um século antes, Coubertin disse que, no Olimpismo, a filosofia constituinte do Movimento Olímpico, “tudo gira em torno das ideias obrigatórias de continuidade, interdependência e solidariedade”.

No mês seguinte, em uma reunião virtual, o comitê executivo do COI endossou a proposta de Bach e decidiu submetê-la aos seus membros para consideração durante a assembleia geral a ser realizada antes do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Já é dado como certo que o novo lema olímpico será aprovado com entusiasmo. Por um lado, explicita que o esporte, a prática social estruturante do Movimento Olímpico, é um projeto comunitário que exige reconhecimento, cooperação e cuidado dos adversários. Por outro lado, enfatiza o caráter ecumênico do Movimento Olímpico, assim como sua aspiração, conforme consta na Carta Olímpica, de “favorecer o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana”. Uma preocupação central do Olimpismo é a criação de uma communitas de iguais morais que respeitem suas diferenças. Desta forma, o Olimpismo propõe, tomando emprestado livremente do filósofo francês Emmanuel Levinas, o reconhecimento celebrativo da alteridade e nos convida a cultivá-la no caminho compartilhado em direção à excelência.

A Sessão do Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou a mudança no lema olímpico. Foto: IOC/Greg Martin

O novo slogan olímpico resume melhor, esclarece e torna muito mais coerente a ideologia olímpica. É razoável esperar que o COI, como líder do Movimento Olímpico, se esforce para torná-lo realidade e o utilize para orientar suas políticas e iniciativas. Por isso, também é razoável esperar que o COI indique claramente sua posição sobre os próximos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022 e a repressão violenta por parte das autoridades chinesas contra as pessoas uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas em Xinjiang. Um setor da comunidade internacional argumenta que o genocídio está sendo cometido contra essas minorias e que mais de um milhão de pessoas foram transferidas para prisões e campos de doutrinação. Vale a pena perguntar o lugar dessas minorias no “juntos” do novo lema olímpico. O que deve implicar a solidariedade invocada por Bach para justificar tal acréscimo no caso dessas minorias? Imputando a inação do COI, o antropólogo cultural estadunidense John J. MacAloon declarou recentemente que os verdadeiros movimentos sociais se levantam e se opõem a ele. Ver-se-á se o COI, estimulado pelo novo lema olímpico e pelos demais preceitos, se comporta dessa forma.


Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 21 de julho de 2021

Tradução: Eduardo Ribeiro e Fausto Amaro

Eventos

ATENÇÃO: termina dia 15 de agosto o prazo de envio de trabalhos para o Seminário Internacional “Agora é com elas”

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) recebe, até dia 15 de agosto, resumos expandidos para o seu Seminário Internacional “Agora é com elas”, em referência aos 30 anos da primeira Copa do Mundo de Futebol Feminino. Divididos em dois GTs (GT1: História, memórias e resistências e GT2: Futebol feminino nos rastros da profissionalização), os trabalhos devem ter de 7 a 12 mil caracteres e podem estar escritos em Português ou Espanhol. As apresentações dos textos aprovados irão acontecer via Meet, nos dias 8 e 9 de novembro. O evento contará ainda com palestras, ao vivo, pelo canal do LEME no Youtube, em programação ainda a ser definida.

Grupos de trabalho

GT 1: História, memórias e resistências

A participação das mulheres no futebol é fenômeno derivado de um processo que envolve fatores diversos relacionados tanto aos aspectos esportivos quanto a um conjunto de reivindicações e lutas das mulheres pela equidade de direitos. Este GT pretende discutir as dimensões históricas e sociais da trajetória do futebol de mulheres no Brasil e em outros países, contemplando a prática esportiva e a dimensão torcedora.

Coordenação: Leda Costa

GT2: Futebol feminino nos rastros da profissionalização

A participação profissional das mulheres no futebol para além dos gramados tem sido objeto de importantes investigações. Este GT se propõe a discutir os obstáculos e horizontes futuros para as mulheres no exercício de algumas funções como, por exemplo, a arbitragem, a ocupação de cargos em Federações e clubes, no jornalismo esportivo, assim como sua presença na pauta de políticas públicas voltadas ao esporte.

Coordenação: Carol Fontenelle

Regras e prazo para submissão de trabalhos

Recebimento de resumos expandidos em Português ou Espanhol: de 04 de junho a 15 de agosto de 2021.

Atenção especial a este item: o resumo expandido deve ter no mínimo 7.000 e no máximo 12.000 caracteres, com espaços, incluindo resumo e bibliografia e deve estar no template do evento, seguindo todas as suas regras de formatação.

Envio de resumos expandidos

O template pode ser baixado aqui.

Devem ser enviados para o e-mail: seminariocopadomundodemulheres@gmail.com

No campo assunto deve ser colocado o nome do GT para qual o trabalho se destina.

O arquivo final deve ser salvo em .doc ou .docx e deve ter o nome+sobrenome do autor principal.

Ex.: Joaodasilva.docx

Quem pode enviar os resumos expandidos?

Graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores, que vinculem seus textos aos GTs e às áreas de Ciências Sociais, Ciências Sociais Aplicadas, Ciências Humanas, Educação Física, Linguística, Letras e Artes. Não é permitido o envio de mais de um trabalho de um mesmo autor para um mesmo GT. No caso de um autor desejar enviar um trabalho para cada GT, ele deve ser autor principal em um e coautor no outro.

Divulgação dos resumos expandidos aprovados: 6 de setembro

Pagamento de inscrições de trabalhos aprovados

A taxa de inscrição deverá ser realizada a título de doação para uma instituição (ainda a ser escolhida). Só haverá pagamento da referida taxa para os autores que tiverem seus trabalhos aprovados. Caso um mesmo resumo expandido seja escrito por mais de uma pessoa, todos os autores devem fazer o pagamento da inscrição, caso queiram receber certificado online. No momento da apresentação, é permitida a escolha de somente um autor para explanação, que será de 15 minutos, seguida de discussão entre os presentes na sala de reunião do Meet.

Estudantes de graduação: R$ 10.

Demais: R$20.

Prazo de pagamento: 6 a 30 de setembro (informações detalhadas serão comunicadas posteriormente).

Artigos

Humano, demasiado humano

Há já algum tempo as mesas de bar passaram a abarcar em sua fauna dois novos tipos antagônicos: os críticos e entusiastas do VAR – sigla em inglês para Video Assistant Referee, também conhecido em bom português como árbitro de vídeo –, novidade que alterou a dinâmica do futebol como nenhuma jamais o fizera.

Pênaltis marcados ou não em campo e o silêncio do VAR | Blogs - ESPN
Fonte: ESPN.

Em meio a uma época pautada pelo ethos polarizador das redes sociais, o debate entre tais figuras geralmente gravita ao redor de um par de interpretações dicotômicas sobre a natureza mesma do esporte bretão e sua (des)necessária adequação ao horizonte tecnológico vigente. De um lado, encontramos aqueles apaixonadamente avessos à intervenção externa ante o que acontece no interior das quatro linhas, espaço assumido então como um universo encerrado em si mesmo durante o acontecimento da partida. Segundo essa perspectiva, a beleza do jogo residiria justamente no fato de ele não trazer intrinsecamente consigo um ideal imaculável de justiça, de modo que os eventos que se desenrolam em campo se converteriam em fecunda metáfora de nossa existência, com seus inexoráveis dramas e reviravoltas. Os caprichosos rumos da bola prescindiriam, pois, de quaisquer correções exógenas. Não raro, o raciocínio apela aqui para casos sedutores: afinal, quão menos graciosa seria a história ludopédica sem o terceiro gol inglês na final da Copa do Mundo de 1966, oficialmente convertido por Geoff Hurst (contrariando a presumida possibilidade de a bola não ter cruzado por completo a linha fatal), e, acima de todas, se não houvesse La Mano de Dios, inventiva solução encontrada num átimo por Diego Armando Maradona para dar início à vingança alviceleste contra os britânicos na Copa do Mundo de 1986, após o trauma infligido ao espírito de nossos vizinhos pela derrota militar nas Malvinas – selada logo em seguida com a maior dentre todas as jogadas individuais.

Sintetizando essa primeira posição em uma espécie de provocação rodrigueana, teríamos o seguinte: o futebol deveria mesmo abdicar de sua liberdade poética, ainda que sob o risco de cercear a potencialidade do manancial que permitiu a um mortal como Maradona enfim transmutar-se em mito perene? A indagação formulada pode até soar bonita, mas a muitos não convence: mesmo que composto por fãs do Pibe, um segundo grupo não compreende as razões pelas quais logo o mais popular dos esportes, com suas cifras e investimentos incalculáveis ao dispor, deveria voluntariamente optar pela obsolescência em pleno século XXI, quando diversas modalidades garantem sua credibilidade ao incorporar tecnologias passíveis de corrigir eventuais equívocos em suas competições. Ora, uma falha humana ajudar a decidir uma partida de Copa do Mundo na distante década de 1960, eternizada por filmagens ainda em preto e branco, seria uma coisa até compreensível; outra muito distinta seria episódio similar ocorrer na era das múltiplas câmeras e ângulos à mão, capazes de desmoralizar tomadas de decisão incorretas em tempo real. Exemplos anedóticos em favor da tese também abundam: que o diga Frank Lampard, cuja passagem por sua seleção ficou marcada pelo gol flagrantemente legítimo ignorado nas oitavas de final de uma já moderna edição de Copa do Mundo, em 2010 (ironias do destino: contra a mesma Alemanha vitimada por seus predecessores em Wembley havia quarenta e quatro anos).

Por fim, cumpre lembrar que nesta celeuma cabem observações à margem da bolha algorítmica mais ampla, alertando-nos para problemas, digamos, mais prosaicos: Lucio de Castro, notável jornalista investigativo da Agência Sportlight, lembra-nos que a instituição do VAR, posto que paliativa e apesar dos pesares, tende a servir como um possível sistema de feios e contrapesos (analogamente ao que deveria suceder em regimes democráticos saudáveis – e saudosos) contra as investidas tanto de um mercado de apostas cada vez mais estruturado quanto do submundo da máfia de manipulação de resultados – a propósito, alguém consegue determinar exatamente as fronteiras e zonas de influência entre um e outro…?

Hoje parece consenso que os principais campeonatos deveriam lançar mão da ferramenta desde seus apitos inaugurais até os derradeiros. Recentemente, a Conmebol foi alvo de críticas (não nos diga!) por prever a utilização do VAR apenas a partir das oitavas de final de sua principal copa entre clubes, a Libertadores da América. De todo modo, eis o que ora nos interessa: se errar é humano, o VAR, ao contrário da suposta máquina fria e precisa que muitos pintavam lá atrás, demonstra a cada rodada que também o é. Com efeito, a completa supressão de controvérsias no reino do futebol (tão temida por uns, tão desejada por outros) queda improvável. Recorramos a dois veredictos decretados após consulta ao árbitro de vídeo na última semana, ambos durante as oitavas de final do referido certame latino-americano.

Numa Bombonera reduzida a um estádio qualquer sem a pulsação de sua hinchada devido à pandemia de covid-19, o Boca Juniors recebeu o Atlético-MG e, aos trinta e quatro minutos da etapa inicial, teve um gol de Diego González anulado (não sem muita demora e confusão) graças à revisão levada a termo no visor disponível à linha lateral pelo árbitro de campo, o colombiano Andres Rojas. Após se valer de uma inspeção minuciosa propiciada pelo recurso tecnológico, Rojas assinalou uma falta (anterior ao desfecho da jogada) de Briasco, atacante xeneize, sobre Nathan Silva, configurada por um suposto empurrão nas costas do zagueiro atleticano quando este saltava com o intuito de afastar pelo alto a bola que havia sido alçada na área. Houve acerto? A intensidade do contato sutil teria sido suficiente para deslocar indevidamente o defensor brasileiro? Sucessivas reavaliações talvez não consigam resolver a matéria.

Na Argentina, país em que a cobertura esportiva costuma assumir uma verve passional, o lance foi majoritariamente tratado como um erro patente que prejudicou o clube local; pelas bandas de cá, por seu turno, a cobertura midiática concedeu algum espaço a ressalvas e ponderações. O cenário me parece ambíguo justamente porque aberto à interpretação e, portanto, à boa e velha dimensão humana: creio que não haja VAR apto a encerrar o caso, conquanto possa — e deva — lançar luzes sobre os pormenores da jogada. A Conmebol discorda: Rojas e Derlis Lopes, que assessorava aquele pelo VAR, foram suspensos do quadro da entidade por tempo indeterminado.

Já no confronto de ida entre Cerro Porteño e Fluminense, realizado em Assunção, o que se viu foi negativamente impressionante: não obstante o domínio imposto desde o início pelo time carioca ao adversário, foram os paraguaios quem abriram o placar aos quarenta minutos do primeiro tempo mediante tento do veterano centroavante Boselli. Ou melhor: teriam aberto, não fossem a anulação determinada pelo assistente e sua bizarra chancela por parte dos responsáveis pela análise do vídeo ao indicarem um impedimento que nunca houve. No dia seguinte, a Conmebol divulgou em seu canal no YouTube um vídeo em que podemos acompanhar os diálogos travados entre os profissionais da arbitragem à ocasião: ao traçar linhas imaginárias que levaram em consideração o marcador mais próximo do atacante do Ciclón (em relação ao qual este estaria impedido), a presença de Samuel Xavier, lateral-direito tricolor que habilitava todos os adversários por estar mal posicionado, ainda que distante da disputa no meio da área, foi sumariamente ignorada na parte inferior da imagem. Beneficiada pelo erro – embora nada tenha a ver com isso –, a equipe das Laranjeiras fez jus à sua superioridade no segundo tempo e encaminhou sua provável passagem para as quartas de final, derrotando o oponente fora de casa com uma convincente vitória por 0 x 2. Sem embargo, o Cerro Porteño solicitou, em dura nota à Conmebol, não apenas a expulsão imediata dos árbitros envolvidos na trapalhada, mas a anulação da partida. Enquanto esta medida extrema dificilmente seria adotada, a consequência aos envolvidos na deliberação arbitral foi a mesma imposta à dupla que atuou na Bombonera: o bandeirinha e a equipe de vídeo escalados para o duelo na capital paraguaia foram afastados de suas funções por tempo indeterminado após a confederação assumir publicamente o erro, e passarão por reciclagem enquanto cumprem a penalidade.

Cerro Porteño pede à Conmebol anulação de jogo com Fluminense após erro do  VAR | LANCE!
Fonte: Lance!

Alguém poderia afirmar que imbróglios como os descritos acima só podem ganhar corpo na periferia do capitalismo futebolístico: na Europa, para onde tudo converge, a profissionalização dos árbitros no mais alto nível – e sua consequente capacitação contínua –, além de eliminar as revisões intermináveis (e por vezes indevidas) com as quais infelizmente convivemos na América Latina, acima de tudo impediria que equívocos evidentes prosperassem a ponto de macular confrontos agudos em torneios sediados no Velho Mundo. A estes, a semifinal da última Eurocopa entre Inglaterra e Dinamarca, realizada no mesmo terreno londrino que coroou Hurst por um possível gol fantasma em 1966, pode ter sido um banho de água fria: se é verdade que os anfitriões foram melhores que os nórdicos, também o é que o passaporte para a final, na qual viriam a ser derrotados pela Itália, foi carimbado em virtude de um pênalti para lá de discutível anotado sobre Sterling já na prorrogação – não o vi na hora como não o verei em nenhum replay –, criando ensejo para o gol decisivo de Harry Kane (no rebote da cobrança defendida pelo goleiro Schmeichel). Dito de modo expresso: o VAR veio para ficar – e estou entre aqueles que o saúdam, pois há erros e erros –, mas não será ele a suprimir definitivamente algumas polêmicas que nos animam enquanto torcedores – e estou entre aqueles que, curiosa e simultaneamente, comemoram as limitações inerentes à tecnologia atual. O luxuoso auxílio ainda pode ser aperfeiçoado; os protocolos que o acompanham merecem ser refinados à luz da experiência adquirida; os árbitros devem ser atendidos em suas reivindicações por uma qualificação sistemática (urge que as condições estruturais para tanto sejam fornecidas pelas federações); mas nada disto haverá de implicar a extinção dos debates públicos de botequim por um fator incontornável: a despeito de todo e qualquer cérebro eletrônico, o futebol segue humano, demasiado humano. Que assim permaneça.

Produção audiovisual

Já está no ar o trigésimo sexto episódio do Passes e Impasses

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso trigésimo sexto episódio é “Gilberto Freyre e o futebol”. Com apresentação de Mattheus Reis e Abner Rey, gravamos remotamente com Tiago Maranhão, mestre em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco, mestre e doutor em História pela Vanderbilt University e professor de História da América Latina no Tougaloo Colllege, em Mississippi, e Diano Albernaz Massarani, doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o trigésimo sexto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Jogo de bola”, canção composta por Chico Buarque.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

A invenção do país do futebol – Ronaldo Helal, Antônio Jorge Soares e Hugo Lovisolo [livro]

Pelé: o nascimento de uma lenda (2016) [filme]

Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre [livro]

Foot-ball mulato – Gilberto Freyre [livro]

Sobrados e mucambos – Gilberto Freyre [livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey, Fausto Amaro e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Mattheus Reis e Abner Rey
Convidados: Tiago Maranhão e Diano Massarani

Artigos

“Paraibadas”

Repercutiu enormemente nos últimos dias na Paraíba, de onde escrevo, as declarações de uma subcelebridade brasiliense, dessas com muitos seguidores nas redes sociais, em que ela, ao se revoltar com um grave caso de violência contra a mulher, lembrava a origem do autor do crime e dizia que aquilo era coisa de “paraíba”.

A declaração, óbvio, não pegou bem. Repercutiu pela Paraíba e pelo Nordeste. Causou revolta.

Mas o pior foi a emenda que estava por vir.

Ao responder as críticas iniciais, disse que não fez nada demais. Que “paraíba” era uma mera força de expressão que vinha de “paraibada”, alcunha que segundo ela serviria para se referir a quem faz algum tipo de besteira. “Como por exemplo bater em mulher”, exemplificou.

Vocês entenderam bem, não foi? Para a tal subcelebridade, quem comete um crime faz, no fim das contas, uma “paraibada”. E ela dizia isso jurando que não estava cometendo nenhum tipo de preconceito.

Pois é justo nesse detalhe que eu queria me apegar no presente texto.

A facilidade que as pessoas têm de naturalizar a violência, de minimizar os efeitos do preconceito, de dizer que o alvo dos ataques é que estão exagerando. Ou, em sentido completamente oposto, as dificuldades dessas pessoas em entenderem que algumas expressões cotidianas, aparentemente livres de intencionalidades, tem uma carga terrível. Que, invariavelmente, leva ao preconceito – e à violência – para outros espaços.

Como, por exemplo, ao esporte.

Xenófobos, afinal, nunca se admitem como tal. E, sem se admitir, apenas disseminam o preconceito nas áreas mais distintas possíveis.

E, ao falar dessa questão numa perspectiva esportiva, é impossível não lembrar do famoso caso de Edmundo, à época jogador do Vasco da Gama. Tão longínquo, tão incrivelmente atual.

O ano era 1997. O jogo válido pelo Brasileirão daquele ano, entre o Vasco e o América-RN, era em Natal. O árbitro que acabou expulsando o jogador naquela partida, ainda nos primeiros minutos de jogo, era o cearense Francisco Dacildo Mourão. Mas, para Edmundo, tudo não passava indiscriminadamente de “paraibas”. Fazendo “paraibadas”, oras.

A frase ficou célebre:

– Viemos para a Paraíba e colocam um “paraíba” para apitar – disse ao microfone enquanto deixava o campo de jogo.

Momento em que Edmundo é xenofóbico durante entrevista. Fonte: Bol

Depois, quando a coisa se voltou contra ele, foi mais um a repetir o mantra dos preconceituosos:

– É que no Rio temos o costume de chamar os nordestinos de “paraíba”, só isso.

Só isso, pessoal.

Mas, não é só isso, a gente sabe bem.

Esse preconceito regional regular, naturalizado a ponto de não ser percebido pela maioria da população, gera consequências em todos os cenários possíveis.

Resulta, muitas vezes, numa precarizada cobertura esportiva daquilo que é praticado no Nordeste. Numa mudança de peso daquilo que é notícia para a chamada “grande mídia” – sugiro, a propósito, a leitura de novíssimo artigo de Ana Flávia Araújo (2021) sobre o tema. Numa Série A de Brasileirão pouco nordestina, numa Copa do Brasil cada vez mais anti-democrática e pouco interessada nos clubes fora do “eixo”, e por aí em diante.

Mas o preconceito não para por aí.

Apenas a título de ilustração, queria citar uma experiência que vivi durante minha pesquisa de mestrado, quando certa vez acompanhei torcedores do Botafogo da Paraíba a Ribeirão Preto, para um jogo da Série C do Brasileirão, que valia vaga na Série B do ano seguinte.

Imagine o bonito Estádio Santa Cruz completamente abarrotado.

Torcedores do Botafogo-PB no estádio Santa Cruz.

Milhares de torcedores do time do interior paulista circundando toda a arquibancada e espremendo cerca de 400 paraibanos num pequeno pedaço.

Cânticos, gritos, xingamentos, provocações ao longo de 90 minutos. Em quase todo o tempo, a mensagem era violenta, depreciativa, lembrando o lado supostamente negativo de ser “paraíba”. Falava-se de ignorância, de seca, de cabeças chatas, outros tantos estereótipos. Tudo sob o selo da “brincadeira”, da “simples expressão”, do “hábito”.

Pois não é brincadeira. Não é expressão. Não é modo de falar. É preconceito e violência que reverbera no cotidiano dos paraibanos e nordestinos. Por anos e anos a fio.

Nesta lógica, se me permitem parafrasear Miguel Vale de Almeida (2004) em sua reflexão sobre sinais diacríticos, o ser nordestino não é o outro lado da moeda de ser sudestino, por exemplo. É o lado pior, negativo, inferior, mais desvalorizado, enquadrado de forma genérica sob a pecha de “paraíba”. Numa homogenização, a propósito, que apaga toda riqueza e pluralidade da região.

Isso precisa ser combatido, repelido, ser tratado como de fato é: o mais puro e xenofóbico preconceito regional. Sem mais.


Referências

ALMEIDA, Miguel Vale de. O Manifesto do Corpo. Lisboa, Revista Manifesto, nº 5, pp. 17-35, 2004.

ARAÚJO, Ana Flávia Nóbrega. Até quando precisaremos salvar os times do sudeste e invisibilizar os nordestinos, PVC?. Ludopédio, São Paulo, 2021.

Artigos

O melhor dos piores? O futebol e a falta do espírito esportivo

Quem gosta de perder? Acredito que ninguém. Em competições que valem o título, então, é notório a disputa em campo por cada bola, em cada lance, como se fosse o último. Entretanto, no fim, só um pode sagrar-se campeão. E todos estão cientes disso, jogadores, técnicos, dirigentes, torcida. A taça só é levantada por um time, enquanto o outro fica com o segundo lugar.

Qual é o valor da medalha de prata, então? Seria ela o símbolo do “melhor dos piores”? Ou uma representação de estar no extrato dos melhores, guardando, inclusive, um lugar no pódio? No futebol, parece que ganha a primeira opção. É sintomático ver, em duas finais seguidas, a mesma imagem. Jogadores de Brasil e Inglaterra, logo após receberem as medalhas de prata, retiraram-nas do pescoço.

Neymar com a medalha de prata fora do pescoço. Fonte: O Globo

A dor, a frustração, a tristeza e a raiva, mesmo que presentes, não podem ser justificativas para tal ação. Não faz muito tempo, a imagem de Guardiola beijando a medalha de prata depois de perder a final da Liga dos Campeões para o Chelsea viralizou. Estaria ele menos triste que os demais? Ou Guardiola, com esse gesto, valorizava a campanha de seu time? Existe uma linha muito tênue entre a insatisfação pela derrota e o desprezo pela competição. Retirar a medalha de prata do peito é negar a própria trajetória de seu time, e, pior de tudo, não reconhecer a vitória do seu adversário. É a síntese da falta de espírito esportivo.

Guardiola beija medalha de prata depois de ficar com o vice na Liga dos Campeões. Fonte: ge.globo.com

Quais são os valores do esporte? Disciplina, trabalho em equipe e respeito, são conceitos que, frequentemente, estão presentes nas respostas dessa pergunta. É por isso que há beleza no esporte. Porque ele nos mobiliza ao mesmo tempo que nos ensina. Em muitos aspectos, o esporte é sim formador.

Quando se trata do esporte profissional, porém, entra em caráter o aspecto econômico, e a vitória possui, também, um valor monetário. Os valores do esporte, muitas vezes, ficam de lado, e fica o questionamento sobre o quanto essa profissionalização naturaliza condutas antiéticas, justificadas por “isso é futebol”. No imaginário popular, existe uma ideia de que ética e futebol não andam juntos. E que, portanto, qualquer coisa vale para se alcançar a vitória, que é a única régua para medir uma atuação.

É justamente aí que reside o perigo. Quando medimos qualquer coisa olhando apenas para um aspecto, perdemos uma gama de outras questões que moldam, no caso do futebol, um time, uma partida, uma final, uma medalha de ouro ou de prata. E, então, caímos em reducionismos simplistas: ouro é bom, prata é ruim. Repetidamente falamos que, “nem sempre ganha o melhor”. Então por que parece que sempre perde o pior? Que mensagem é passada para muitos jovens que, um dia, sonham em estar no lugar dos seus ídolos? Que só os que saem vitoriosos devem ser valorizados. E, assim, gira fortificada a roda do culto à vitória no futebol.

Harry Kane com a medalha de prata na mão, logo após recebê-la. Fonte: Congo News

Talvez nesse momento muitos torcedores estejam um pouco irritados, questionando se eu ficaria feliz com meu time ganhando uma medalha de prata. Antes de mais nada, vejam, não estou pedindo para ninguém sorrir e sair serelepe depois de perder um jogo. Até podiam, afinal, a conquista de um vice-campeonato não deixa de ser uma conquista. Mas o texto não é sobre isso. Não é sobre se alegrar com a derrota, mas em reconhecer a vitória do outro. É claro que, quando meu time está em uma final, o que eu mais quero é gritar “é campeão!”. E, portanto, é óbvio que eu vou ficar triste se ele perder. Mas eu ficaria muito mais triste vendo meu time tirando essa medalha do peito, desrespeitando o adversário, o campeonato, a torcida e a instituição.

Aceitar a derrota não é romantizá-la, não é sinônimo de conformismo e muito menos de passividade. Aceitar a derrota é o primeiro passo para vencer o próximo jogo. Caso contrário, corre-se o risco de se cometer os mesmos erros e ter os mesmos resultados. E esse filme já é conhecido por muitos…

Artigos

Tipologia de clubes de futebol no século XXI

Nesse texto comentarei brevemente uma proposta de tipologia de clubes de futebol no século XXI, elaborada ao longo de pesquisa desenvolvida em nível de doutoramento. Para não estender em demasiado as discussões que motivam (ou decorrem) do esquema classificatório aqui apresentado, o texto será referenciado em artigos, capítulos de livros ou obras de minha autoria, listados nas referências ao final do texto. Caso interesse ao leitor aprofundar as discussões aqui propostas, essas produções servem como ponto de partida.

Com o avanço da Lei das Sociedades Anônimas do Futebol (PL 5516/2019), ou Lei das SAF, apresentada e aprovada no Senado Federal, o diagrama pode ser útil para compreender as transformações vindouras. Uma vez que o processo de conversão dos clubes para empresas no Brasil é facultativo, muitos formatos podem se apresentar ao longo dos próximos anos. O projeto de lei, apesar de criar um novo tipo de sociedade anônima – com regras específicas para os clubes de futebol – também não define um único modelo possível, ainda que futuramente seja esse o modelo mais atrativo, dados os benefícios que gerará aos clubes aderentes.

O modelo classificatório aqui elaborado consiste em um diagrama ilustrativo, cuja finalidade é apresentar os tipos de clubes de futebol a partir de três níveis: 1) formato jurídico; 2) estrutura societária; 3) modelo político. Esse esquema está mais detalhado em um artigo que ainda não foi publicado até a publicação desse texto, tendo aqui a sua apresentação antecipada de forma resumida.

Diferente do que se costumar observar em debates sobre o tema, que tendem a resumir os clubes da atualidade entre “associações civis sem fins lucrativos” ou “sociedades empresárias” (os ditos clubes-empresa), o fato é que clubes de futebol constituem um quadro muito diverso no que tange à sua organização, constituição histórica, processo decisório, modelo administrativo, etc. No livro “Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”, os diferentes capítulos vão apresentando essas questões de forma mais apurada.

Como a pesquisa original se dedicava a investigar os movimentos de torcedores em clubes de diferentes países, foi necessária uma compreensão mais profunda das particularidades dos processos de formação dessas agremiações em cada localidade estudada.

Essas experiências coletivas de torcedores mobilizados por pautas referentes à defesa do clube e dos estádios em diversos sentidos, o que demandou à pesquisa a detecção dos espaços concretos ou parciais da participação dos torcedores. Por isso o modelo classificatório surge como produto indireto da investigação, que percebia esses movimentos como formados por sócios, onde ainda existia uma associação civil; ou por “acionistas de base”, onde o clube já não contava com uma associação originária.

De todo modo, o diagrama possui utilidade para estudos que partam de outros objetivos, já que ajuda o pesquisador a visualizar/identificar os clubes existentes na atualidade dentro de um quadro mais amplo.

Ao menos 10 tipos de clubes podem ser visualizados a partir da tipologia proposta, como o diagrama completo demonstra:

Classificação de tipos de clubes de futebol

Como dito, a apresentação mais detalhada do diagrama será publica em breve em artigo, contando com exemplos concretos para cada modelo. Aqui, convém ao menos ressaltar os três níveis de classificação, e como eles apresentam outras subclassificações.

Nível 1: Formato jurídico

São três os tipos possíveis quanto ao “formato jurídico”: A) Associação civil sem fins lucrativos; B) Sociedade empresária; C) Sociedade anônima com associação como acionista.

O mais importante a ser ressaltado aqui é que os formatos jurídicos de clubes não podem ser reduzidos a “empresas” ou “associações”. Em clubes onde a associação civil está presente como mais um dos acionistas de uma sociedade anônima (modelo comum na Alemanha, Portugal e Chile), o funcionamento da agremiação é completamente distinto de uma sociedade anônima formada apenas por acionistas privados. Afinal, ainda existe ali uma associação civil à qual vários indivíduos estão vinculados de forma voluntária e abnegada, sem objetivos de participação financeira nessa entidade.

Nível 2: Estrutura societária

O segundo nível de classificação só se aplica basicamente ao modelo do tipo C (sociedade anônima com associação como acionista), uma vez que essa associação pode ter maior ou menor participação na sociedade anônima que controla os ativos financeiros do clube. Isso quer dizer que há casos onde a associação exerce o controle dessa sociedade, outros casos onde a associação compõe um conselho/órgão de administração ao lado de outros investidores privados, ou onde a associação possui participação minoritária com pouco poder de participação.

Como há muitas possibilidades de configurações quanto ao poder de participação da associação em uma sociedade anônima, esse nível de classificação se resume a dois tipos gerais: 1) associação como maior acionista; 2) associação como acionista minoritário.

Por razões óbvias, esse nível de classificação não se aplica aos casos de tipo A (associações civis) ou tipo B (sociedade empresária), aqui apenas representados como modelos “puros”.

Nível 3: Modelo político

A classificação de “modelos políticos” convém principalmente para os objetivos da pesquisa original que elaborou tal tipologia (o espaço de participação dos torcedores nos clubes). Por isso é importante observar qual tipo de associação civil está sendo observada: se uma associação restrita ou popular. Esses dois tipos sintetizam características que podem variar consideravelmente entre clubes de um mesmo país, como ocorre no Brasil, onde cada clube apresenta critérios próprios de admissão de novos sócios (restrito/aberto), quanto aos custos para o acesso e manutenção dos direitos associativos/políticos (custoso/acessível), ou ao próprio processo eleitoral em si (direto/indireto).

Dessa forma, avaliar se uma associação é popular ou restrita tem aplicabilidade principalmente ao tipo A1 (associação civil pura), e ao tipo C1 (S.A com associação como maior acionista). O mesmo não se aplica aos casos do tipo C2 (S.A com associação acionista minoritária).

Por outro lado, a ideia de observar o “modelo político” também serve para compreender a “dinâmica política” presente em clubes que possuem uma sociedade anônima. Essa pode ser formada por um número grande de acionistas que controlam cotas equilibradas de ações – dentre elas, muitas vezes, está também a própria associação originária do clube. A isso se escolheu definir por “sociedades dispersas”, que contrastam como aquelas “sociedades concentradas”, onde um único acionista tem o controle de maioria ou ampla maioria das ações da sociedade.

A classificação de sociedade dispersa ou concentrada se aplica tanto ao tipo B1 (sociedade empresária pura), quanto aos tipos B2 (sociedade anônima com associação como acionista minoritário). Do tipo B2, caberá observa ainda se a associação civil é de caráter popular ou restrita – o que gera uma quarta classificação exclusiva para esse tipo.

Resumo dos tipos

Dessa forma, assim se apresentam os 10 tipos de clubes:

  1. A1a: associação civil pura de caráter popular
  • A1b: associação civil pura de caráter restrito
  • B1a: sociedade empresária pura e dispersa
  • B1b: sociedade empresária pura e concentrada
  • C1a: associação civil de caráter popular como maior acionista da sociedade anônima
  • C1b: associação civil de caráter restrito como maior acionista da sociedade anônima
  • C2a¹: sociedade anônima dispersa, com associação popular como acionista minoritário
  • C2a²: sociedade anônima dispersa, com associação restrita como acionista minoritário
  • C2b¹: sociedade anônima concentrada, com associação popular como acionista minoritário
  1. C2b²: sociedade anônima concentrada, com associação restrita como acionista minoritário

Como observado anteriormente, o esquema classificatório aqui proposta será detalhado em um artigo ainda não publicado. Para leituras mais detalhadas e aprofundadas sobre o tema em questão, convém apreciar as referências bibliográficas apresentadas abaixo.

Referências

SANTOS, Irlan Simões da Cruz; SANTOS, Anderson David Gomes dos. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico. Rio de Janeiro, v. 9, n. 14, p. 246-261, 2018.

SIMÕES SANTOS, Irlan Simões (Org.). Clube empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol. Rio de Janeiro: Corner, 2020.

SIMÕES SANTOS, Irlan. Associação, pertencimento e participação: sobre ações políticas de torcedores nos clubes de futebol. In. MATIAS, Wagner Barbosa; ATHAYDE, Pedro Fernando Avalone. (Orgs.). Nas entrelinhas do futebol: espetáculo, gênero e formação. Curitiba: CRV Editora, 2021a, pp.33-48.

SIMÕES SANTOS, Irlan. Futebol-negócio e ativismos torcedores: notas para um estudo da política em clubes da Europa e América do Sul. Recorde, v. 14, n. 1, 2021b, pp. 1-14.

SIMÕES SANTOS, Irlan. O novo processo de empresarização dos clubes de futebol no Brasil: elementos para uma análise crítica. Anais do 43º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, 2021c.

SIMÕES SANTOS, Irlan. Futebol-negócio, pertencimento ao clube e afeto pelo estádio: uma análise de movimentos de torcedores de Os Belenenses (POR) e Sevilla (ESP). In. HELAL, R.; COSTA, L.; FONTENELLE, C. Esporte, Mídia, identidades locais e globais: uma produção do Seminário Copa América. 1ed. Rio de Janeiro: Autorale/FAPERJ, 2021d.

Produção bibliográfica

LEME lança ebook gratuito inspirado no Seminário Copa América

Esporte, mídia, identidades locais e globais é o nome da mais nova produção editorial do LEME – Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte. A organização do e-book é do coordenador do laboratório, Ronaldo Helal, e das pesquisadoras do LEME Leda Costa e Carol Fontenelle. Em mais de 300 páginas, o público terá acesso gratuito a 33 artigos.

A proposta do Seminário, que gerou este e-book, foi justamente de refletir sobre o fenômeno futebolístico e esportivo de modo geral, tendo como centro articulador os debates sobre a realização da Copa América de 2019. Tendo a participação de pesquisadores de vários estados do país, os resumos expandidos, discutidos durante o seminário presencial, se transformaram em artigos e agora compõem este material. “Este e-book é o fruto de um dia que poderia ter dado tudo errado. Organizamos o Seminário Copa América e, no dia anterior do seu início, uma forte chuva parou a cidade do Rio de Janeiro, a universidade precisou ser fechada e tivemos que transformar um evento de dois dias em um. Agradecemos a cada palestrante e a cada autor do Rio de Janeiro e dos demais estados que estiveram conosco”, diz Ronaldo Helal.

O livro está disponível em pdf e epub.

Artigos

Show do Esporte

Para aqueles leitores com mais tempo de janela como eu, a associação do título é inevitável, porém é necessária uma explicação aos mais novos. No começo dos anos 1980 do século passado, o locutor esportivo Luciano do Valle comandava, todos os domingos, na TV Bandeirantes, uma maratona esportiva com diversas modalidades, muitas delas sem qualquer tradição na televisão brasileira, era o Show do Esporte. O jornalista, que chegou a ser chamado de Luciano do Vôlei, por sua importância no desenvolvimento da popularidade da modalidade no país, também trouxe para a telinha a Fórmula Indy, o campeonato italiano, o futebol master, o futebol feminino e até o futebol americano. Também ajudou a criar ídolos, um tanto quanto efêmeros, é verdade, como Rui Chapéu (sinuca) ou Maguila (boxe), mas a maior virtude da atração foi acreditar na força do esporte como entretenimento de massa bem além dos tradicionais gramados do velho esporte bretão e, isso, muito antes das TVs por assinatura e seus canais esportivos 24 horas.

Quem se interessa por Comunicação Social já ouviu falar, em algum momento, do termo infotenimento. Surgido também nos anos 1980, ele é uma tentativa de denominação para um tipo de conteúdo informativo menos formal, no qual jornalismo e entretenimento se mesclam. Os talk shows logo surgiram como seu principal exemplo, mas a tentação de aumentar audiências através dessa fusão fez com que os telejornais e outros programas de conteúdo informativo adotassem essa linha, digamos assim, mais leve, pelo menos para os conteúdos que assim o permitiam.

 O jornalismo esportivo embarcou de “mala e cuia” no trem do entretenimento. Não bastava mais informar, era quase que obrigatório descontrair, jogar com as palavras, fazer piadas, criar personagens, caçar emoções. O jornalista alagoano Márcio Canuto, que nessa época era um dos poucos a se aventurar por esse lado histriônico do noticiário de esportes, passou a fazer escola. E seus alunos, mesmo moderando o tom circense do colega, passaram a se tornar verdadeiros entertainers. Não é à toa que um dos maiores representantes dessa nova linha, o ex-repórter paulista Tiago Leifert, acabou se tornando apresentador de reality shows e programas de variedades na TV Globo.

Márcio Canuto, o “pioneiro”. (reprodução TV Globo)

 Impulso digital

Se essa tabelinha entre esporte e entretenimento já dava bons resultados antes da internet, depois da popularização dos PCs e dos smartphones, passou a ser forma de sobrevivência. A concorrência é pesada demais para os antes hegemônicos meios de comunicação tradicionais. Os elevados custos da produção para suprir a exigência de alta qualidade técnica tornaram as emissoras de TV em pesados brontossauros que tentam competir diariamente com os ágeis velociraptors digitais (como estamos falando em infotenimento, nada como uma citação de Jurassic Park). E pra complicar ainda mais a situação, o mercado consumidor da informação também mudou. A velocidade informacional dos meios digitais nos contaminou.  

De acordo com uma pesquisa apresentada pela Kantar/IBOPE, 80% dos brasileiros assistiram vídeos online gratuitos em 2020. Em outros países a média foi de 65%. A mesma desproporção vale para vídeos em redes sociais (72% x 57%) e vídeos em serviços por assinatura (62% x 50%). Um desafio para os grandes grupos de telecomunicação nacionais que, por enquanto, ainda resistem, como mostra o mesmo estudo. Mais de 204 milhões de brasileiros consumiram conteúdo em vídeo na televisão em 2020. E o tempo que cada pessoa passou em frente à TV foi 37 minutos maior do que em 2019, totalizando 7h09 horas diárias – recorde dos últimos cinco anos.

Só que não é preciso ser um profeta para ver que a diluição da oferta de conteúdo em vídeo vai ser cada vez maior e com isso dilui-se também o investimento publicitário que, no fim das contas, é o que faz a roda da comunicação girar.  Vejam essa declaração de Arthur Bernardo Neto, Diretor de Desenvolvimento de Negócios para Media Owners: “Em um mundo onde a interação entre pessoas passa a ser cada vez mais virtual, marcas e anunciantes buscaram novas formas de se aproximar do público. Apesar do distanciamento físico, estamos próximos. A interatividade está em alta. Em agosto, por exemplo, 8% dos brasileiros disseram ter escaneado um QR Code pela primeira vez na pandemia”.

Para continuar faturando é preciso aprender os novos passos dessa dança, porque em nenhum momento a “música” vai parar de tocar.

Transmídia sem limites

Os grandes grupos de comunicação já se deram conta há um bom tempo de que precisavam estar presentes além de suas plataformas originais. Uma emissora de TV que não conversasse com seu público através das mídias sociais, achando que seu histórico de audiência a garantiria, certamente já teria sucumbido. E não basta ter perfis no Instagram e Facebook ou material disponível no YouTube ou TikTok. É preciso que o conteúdo seja atraente, diverso e agregador.

É aí que entra a transmídia, utilizando todas os arranjos midiáticos disponíveis de forma estratégica, na qual conteúdos se completam e oferecem um mar de entretenimento e informação ao consumidor.

Em tempos de grandes conglomerados de mídia, essas possibilidades crescem em progressão geométrica, porque todos os empreendimentos desses gigantes midiáticos podem se cruzar, se complementar.

Como estamos falando mais especificamente de esportes trago dois exemplos. O primeiro deles mostra a ligação entre o grupo ViacomCBS com a NFL, liga de futebol americano dos Estados Unidos.

Além da rede de TV CBS, a Viacom também é proprietária do canal infanto-juvenil americano Nickelodeon e, neste ano de 2021 propôs à NFL a transmissão de uma partida dos playoffs, entre Chicago Bears e New Orleans Saints nos dois canais. Sendo que no canal alternativo, a partida teria características muito mais voltadas ao entretenimento do que ao jornalismo esportivo. A transmissão teve a inclusão de efeitos de desenhos animados da Nickelodeon sobre a imagem e ainda contou com comentários de artistas do canal, como Gabrielle Green e Lex Lumpkin.

A partida ganhou design gráfico próprio. (reprodução Nickelodeon)
Os touchdowns ganharam jatos virtuais de slime. (reprodução Nickelodeon)
E o Bob Esponja foi parar no meio das traves. (reprodução Nickelodeon)

A estratégia foi lucrativa para ambas as partes. A Viacom usou seus direitos de transmissão para atingir um público maior que o normal e aumentou seu faturamento com espaços publicitários, já que muitos anunciantes voltados ao público infanto-juvenil tiveram um novo produto à disposição. Para a NFL também foi proveitoso; além do faturamento extra, ganhou com a exposição de seu produto a um público novo e potenciais consumidores no futuro.

A Disney não ficou atrás e usou a ESPN, seu selo de esportes, para divulgar personagens da Marvel, empresa que também pertence ao grupo, em uma partida da NBA, a liga de basquete profissional norte-americana. E abusou da criatividade para contextualizar a experiência que recebeu o título de Arena de Heróis.

Jogadores transformados em heróis de quadrinhos. (reprodução ESPN)

De acordo com o roteiro, depois de uma vitória apertada sobre um exército alienígena invasor, os Vingadores recebem uma nova ameaça, o inimigo promete retornar com reforços. Reconhecendo as habilidades físicas superiores, agilidade e tenacidade dos atletas da Terra, o Pantera Negra e o Homem de Ferro decidem realizar uma série de competições para selecionar quem vai lutar ao lado deles como Campeões da Marvel.

Na partida entre Warriors e Pelicans, competiram três estrelas de cada equipe. No time da Califórnia, Stephen Curry representou a Capitã Marvel; Draymond Green, o Doutor Estranho e Andrew Wiggins, o Pantera Negra. Já pela equipe de Nova Orleans, a estrela da nova geração Zion Williams, representava o novo Capitão América; Brandon Ingram, a Viúva Negra e Lonzo Ball, o Homem de Ferro. A disputa entre eles se deu através de seus desempenhos em quadra, com uma pontuação paralela à do jogo, na qual acertos e erros somavam e diminuíam a contagem. Os detalhes podem ser conferidos clicando aqui

Pontuação paralela dos jogadores selecionados. (reprodução ESPN)

Como na outra iniciativa citada, a transmissão nos EUA foi feita em dois canais da ESPN, uma normal e outra com diversos efeitos visuais e com o acompanhamento da disputa paralela. No estúdio, vários elementos do universo Marvel estavam presentes, como o martelo de Thor ou a luva de Thanos com as Joias do Infinito. A transmissão também contou com a participação do ator Anthony Mackie, que interpreta o novo Capitão América em série recém-lançada pela plataforma de streaming Disney +. No Brasil apenas a transmissão especial foi exibida.

Cenário temático para os apresentadores. (reprodução ESPN)

Esses são apenas dois exemplos da ampla possibilidade de ações envolvendo mídia, entretenimento e esporte. Em nosso país esse tipo de iniciativa ainda é bastante incipiente. Quando muito, emissoras de TV colocam estrelas de seus elencos participando de reportagens, transmissões ou programas esportivos. Mas isso terá que mudar. Afinal, é como afirma o velho jargão do mundo dos espetáculos: The show must go on (O show não pode parar).

Artigos

Breve panorama sobre Futebol Feminino no Brasil de 2019 a 2021: da obrigação à realidade

Por Camila Augusta e Luiza Gaborginni

“Às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”, a frase é do artigo 54 do Decreto-lei 3199, de abril de 1941, quando Getúlio Vargas governava o país. Os reflexos dessa medida são vistos até os dias atuais e 40 anos depois da permissão, o que se nota é um lento movimento dos clubes do país em prol do desenvolvimento do futebol feminino.

A partir de 2019, na tentativa de incentivar a modalidade, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) obrigaram os clubes a formarem um departamento feminino nos times nacionais. Dessa forma, esse texto reflete um pouco sobre como a regulamentação impactou os clubes no desenvolvimento de suas equipes femininas naquele ano e trazer luz sobre a realidade em 2021.

Ao final do livro “La era del fútbol” (2005), o argentino Juan José Sebreli, um crítico assíduo do esporte, observa que “nenhuma das grandes ideologias universais – o cristianismo, islamismo ou socialismo (…) puderam abarcar unanimemente sociedades, culturas, continentes, raças e sistemas políticos tão diversos como o futebol”. Além da paixão envolvida, o futebol também envolve reflexões sobre os conflitos raciais, religiosos, políticos, de gênero, entre outros.

Não muito distante, seria esse o contexto de debate sobre a busca pelo lugar da mulher dentro do futebol. No Brasil, a história de desigualdades e falta de espaço refletem ainda no parco investimento na modalidade quando praticada por mulheres.

Após essa proibição inicial, o futebol institucionalizado teve início em meados da década de 1980. Salles, Silva e Costa, (1996, p.80), para breve contextualização, afirmam que a primeira liga de futebol feminino foi formada em 1981, no Rio de Janeiro. Os autores afirmam que “havia então uma ordem implícita inibidora da presença da mulher neste espaço, ditando códigos excludentes para o sexo feminino”. Assim, o Esporte Clube Radar (E.C.R.), do Rio de Janeiro, foi o pioneiro na modalidade no país e teve uma trajetória de conquistas.

Time do Esporte Clube Radar (E.C.R) do Rio de Janeiro. Fonte: Kike da bola

À medida que os anos foram passando, as entidades que regem o futebol brasileiro enfrentaram, e enfrentam, dificuldades e desafios para encontrar as formas de investir e divulgar o futebol feminino. A manutenção de um time de futebol feminino adulto e na base está entre as medidas exigidas pelo Licenciamento de Clubes, que serve para estruturar e regularizar a gestão dos clubes no país. A medida foi aprovada no fim de 2016 e deu aos clubes dois anos para se adequar às regras. O estatuto da Fifa também inclui artigos que falam sobre a igualdade de gênero.

A partir de 2016, na tentativa de se engajar nas tendências contemporâneas de maior inclusão e igualdade, além de se adequar às mudanças do mundo, a Conmebol decidiu que era hora de tentar fortalecer o futebol feminino. Não só o cenário nos clubes mostrava a importância da ação, mas o rendimento das seleções repercutia no universo esportivo.

No mesmo ano, a Fifa publicou um documento sobre sua visão do futebol nos próximos dez anos. Nele, o incentivo ao futebol feminino ganhou muita importância. Entre os objetivos estão: estabelecer competições ao redor do mundo, assegurar o desenvolvimento local da modalidade, criar um programa de marketing e aumentar o número de mulheres nas entidades. Por isso, a Conmebol passou a exigir que os clubes que disputariam suas competições masculinas tivessem o investimento no departamento feminino e, consequentemente, em torneios da modalidade. A entidade passou a exigir equipe feminina (ou se associar a um clube que tenha); pelo menos uma categoria juvenil feminina (ou se associar a clube que tenha); suporte técnico, equipamento e infraestrutura com campo para treinamento e jogos; participar de competições nacionais e/ou regionais da CBF ou Federações estaduais.

A Copa Libertadores da América de Futebol Feminino completou 10 edições em 2018. Cada país associado à entidade teria direito a uma vaga, dada às campeãs do campeonato nacional. Antes do início da disputa em 2019, o Brasil era o país com mais títulos na competição, somando sete ao todo (Santos, duas vezes campeão; São José, três vezes; Ferroviária e Audax/Corinthians, uma vez cada).

A CBF também tornou a medida obrigatória para os clubes da Série A, exigindo uma equipe feminina disputando competições nacionais ou estaduais em 2018 ou 2019 (ou se associar a clube que tenha) e estrutura à disposição do time feminino, com equipe técnica e médica dedicadas, instalações para treinamento, campo para jogos, e eventuais contratos de patrocínio. Como prova da resistência que ainda existe, a determinação não refletiu bem alguns clubes.

De acordo com a CBF, os clubes que não cumprissem, em 2019, as regras estabelecidas estariam sujeitos a serem eliminados das competições que exigem a licença. São eles a Série A do Campeonato Brasileiro, Copa Sul-Americana e Libertadores. A entidade previa antes da exclusão da equipe que não se adequasse, uma orientação para que as medidas fossem cumpridas. A previsão de início era que as Séries B, C e D precisariam atender às exigências de forma gradativa, ou seja, em 2020, 2021 e 2022, respectivamente.

Assim, apenas sete clubes participantes do campeonato nacional iniciaram 2019 com o departamento de futebol feminino já estruturado. Eram eles Ceará, Corinthians, Flamengo, Grêmio, Internacional, Santos e Vasco. No dia 26 de fevereiro, após a divulgação da tabela das Séries A1 e A2, apenas CSA, Fortaleza e Goiás, disputariam somente o campeonato estadual feminino naquele ano.

A partir de coleta realizada em 2019 nos portais dos clubes, é possível afirmar que no Rio de Janeiro o Club de Regatas Vasco da Gama tem um projeto próprio, de base e adulto, assim como o Botafogo de Futebol e Regatas, que montou sua equipe às vésperas do início do Brasileiro mesmo ano, com recursos próprios e um investimento de R$ 25 mil. O Clube de Regatas do Flamengo tem, desde 2011 uma parceria com a Marinha do Brasil. O clube compôs com os próprios recursos um time sub-18, pois, assim como os outros cariocas, teria direito a uma vaga no Brasileiro da categoria. O Fluminense Football Club assinou um acordo com o projeto Daminhas da Bola, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Neste caso, a parceria atende também a base, com equipes sub-11, sub-13 e sub-15 no futsal e sub-15 e sub-17 de futebol de campo.

O cenário em São Paulo se desenvolveu como um dos mais promissores do país. Sport Club Corinthians Paulista e Santos Futebol Clube contam com equipes de ponta e de gestão própria. O primeiro criou em 2019 uma equipe sub-17 e tinha uma parceria com o Audax até o início de 2018 e o segundo foi vice-campeão da Libertadores e funciona desde 2015. O sub-17 é feito em parceria com o colégio Santa Cruz e com a Universidade de São Paulo. O São Paulo Futebol Clube tem parceria com o Centro Olímpico, com times sub-17 e adulto. O clube, inclusive, contratou a veterana Cristiane, um dos principais nomes da modalidade. Apesar de ter montado o projeto apenas em 2019, o São Paulo se planeja desde 2017 com alojamento e centro de treinamento. A Sociedade Esportiva Palmeiras montou a equipe às pressas, representando naquele ano time mais caro do país. Sob o comando da experiente treinadora Ana Lúcia Gonçalves, o projeto tem sede na cidade de Vinhedo.

Em Minas Gerais, o Clube Atlético Mineiro tem uma parceria como Prointer Futebol Clube, firmada em 12 de dezembro de 2018. O time é único, até 21 anos. O Cruzeiro Esporte Clube foi um dos últimos a anunciar a equipe. Com um investimento de pouco mais de R$ 1 milhão por ano, o clube formou uma equipe própria e primeiro focou no time adulto para futuramente montar um sub-18. O Goiás Esporte Clube funciona em parceria com a Universidade Salgado Filho, com times adulto e de base.

No Nordeste, o Esporte Clube Bahia firmou parceria com o Lusaca, time feminino da cidade de Dias d’Ávila, e tem times sub-17, sub-20 e adulto. O Ceará Sporting Club tem vínculo com a Associação Menina Olímpica e também time de base e profissional. O Centro Sportivo Alagoano (CSA) montou a equipe adulta com gestão independente e estrutura uma escolinha, com o sub-15, sub-17 e sub-20. Até 2018, o time feminino era gerenciado por voluntários e as atletas jogavam recebendo pouco. O Fortaleza preferiu montar um projeto próprio, mesmo com propostas de parcerias, e jogou apenas o Estadual no primeiro ano de obrigatoriedade.

No Sul, o Club Athletico Paranaense firmou a parceria com o Foz Cataratas, que trabalhava com o Coritiba desde 2016. São equipes adultas e de base e o Foz é um dos times femininos com melhor rendimento dos últimos anos. O Avaí Futebol Clube também assinou um acordo com um projeto de sucesso, o Kindermann, tradicional equipe da categoria, tem 10 títulos do Campeonato Catarinense. O Grêmio tem gestão independente e times adultos, Sub -20, Sub-17 e Sub-15. O clube prometeu profissionalizar todas as jogadoras neste ano. É o mesmo caso do Sport Club Internacional, que também planeja um Centro de Treinamento junto ao alojamento. A Associação Chapecoense de Futebol montou primeiro a equipe de base, para depois estruturar seu time adulto. O clube tem parceria com a escola pública Associação Desportiva de Lourdes Lago desde 2016.

Como os dados acima apresentados refletem o cenário pós obrigatoriedade da Conmebol e CBF de 2019, é necessária breve revisão sobre a realidade das equipes femininas e os campeonatos nacionais hoje. Tal fato expressa relevância quando se observa o contexto de pandemia da COVID-19 em 2021, o vírus Sars-CoV-2 que afeta o sistema respiratório assola o mundo e, particularmente o Brasil, com mais de 510 mil mortes no país em junho do mesmo ano, fruto de um governo que não cumpre com as medidas protocolares indicadas a prevenção da doença, bem como com a falta de políticas públicas para o cuidado com a população. Obviamente, é necessário lembrar ainda a crise econômica que afeta alguns clubes brasileiros e que reflete na estrutura das equipes femininas.

Atletas fazem teste de Covid-19 Fonte: Clube Atlético Juventus

No Rio de Janeiro, o Botafogo mantém a equipe feminina, as Gloriosas, que atualmente disputa o Campeonato Brasileiro A1, na tentativa de permanecer na série da competição. Em 2020 o clube encerrou a categoria de base feminina sub-18. A equipe do Vasco da Gama disputa o Campeonato Brasileiro Série A2 em 2021. No mês de junho, o clube implantou na Vila Olímpica de Duque de Caxias um novo Centro de Treinamento para todas as equipes de futebol feminino do clube. Já a equipe feminina do Flamengo foi campeão da Taça Guanabara de 2021 e segue na disputa do Campeonato Brasileiro A1 e do Brasileiro sub-18 . As jogadoras do Fluminense seguem disputando as oitavas de final do Campeonato Brasileiro Série A2.

Em São Paulo, as equipes dos clubes Corinthians, Santos, Palmeiras e São Paulo estão disputando a Série A1 do Campeonato Brasileiro. Outras equipes do estado que também participam do campeonato são Ferroviária e São José, de Araraquara e São José dos Campos, respectivamente. A equipe feminina da Ponte Preta marca presença no Campeonato Brasileiro Série A2.

Time feminino da Ferroviária, atual campeã da Libertadores Feminina.
Fonte: CBF

Ao todo, a Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino conta, em 2021, com 16 equipes. Além das equipes cariocas e paulistas, disputam a competição Kindermann-Avaí e Napoli, de Santa Catarina; Internacional e grêmio, do Rio Grande do Sul; Minas Brasília e Real Brasília, do Distrito Federal; e Bahia.

O Campeonato Brasileiro Feminino Série A2 já se encontra nas oitavas de final, mas iniciou 2021 com 36 equipes. A relação dos jogos e clubes que ainda estão na disputa do campeonato pode ser encontrada aqui.

Além de contar com Campeonatos Brasileiros de Futebol Feminino Sub-18 e Sub-16, é importante ressaltar que em maio deste ano, foi anunciada a criação da Série A3, a terceira divisão do Campeonato Brasileiro Feminino. Com 32 clubes participantes, a competição terá início em 2022. Tal fato demonstra o crescimento do futebol feminino no Brasil, que precisa cada vez mais de incentivo e apoio no país extremamente conservador, principalmente no universo esportivo.


Este texto contém partes do artigo:

PEREIRA, Camila Augusta; GARBOGGINI, Luíza. A obrigação explica o desenvolvimento: clubes cariocas e o futebol feminino em 2019. Anais do 43º CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Evento virtual – Universidade Federal da Bahia (UFBA) – Salvador-BA – 1º a 10 de setembro de 2020. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2020/lista_area_DT6-CE.htm

Outras fontes:

CAMPEONATO BRASILEIRO FEMININO DE FUTEBOL

SALLES, J. G. C.; SILVA, M.C.P. & COSTA, M.M. (1996). A mulher e o futebol: significados históricos. Em S., Votre (Coord.) A representação social da mulher na educação física e no esporte. Rio de Janeiro: Editora Central da UGF.

SEBRELI, Juan José. La era del fútbol. Buenos Aires: Debolsillo, 2005.