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LEME divulga suas atividades em período de quarentena

Informamos que a equipe do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ) está realizando suas atividades em home office, até que as autoridades estaduais se posicionem quanto à volta segura ao trabalho.

O blog do LEME e nossas redes sociais (@lemeuerj) estão sendo atualizadas regularmente. Acabamos de publicar também um novo episódio do podcast Passes e Impasses, com o tema “Futebol, idolatria e heroísmo”. Os Encontros LEME, por ora, estão adiados.

Em relação ao IV Seminário Internacional do Leme, #maraca70: Mídia, Memória e Patrimônio, previsto para 6 e 7 de outubro, informamos que, por enquanto, a data está mantida.

Para isso, estamos recebendo no e-mail seminariomaraca70@gmail.com os resumos expandidos de trabalhos de graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores até 31 de maio, divididos nos seguintes eixos temáticos:

GT1- Esporte, cidade e identidades

O esporte desempenha um papel fundamental tanto na construção quanto na afirmação de uma pluralidade de identidades que atuam dentro e fora de fronteiras territoriais. Essa relação com a territorialidade confirma a necessidade de compreensão do esporte como prática que se entrecruza com o espaço urbano, estabelecendo com ele, uma trama de relações e significados que põe em movimento o jogo das identidades em um contexto de tensionamentos entre o local e o global.

Coordenação: Carol Fontenelle

GT2- Mídia, esporte e representação

A mídia, gradualmente, se consolidou como um importante veículo mediador entre os esportes e o público, participando não apenas da circulação, mas também da produção de um vasto imaginário construído em diálogo com uma série de representações presentes dentro e fora do território esportivo. As representações produzidas são um material cuja análise pode nos possibilitar o acesso às tensões e às contradições dos valores e discursos que estão em jogo.

Coordenação: Álvaro do Cabo

GT3 – Estádios, arenas e os modos de torcer

A diversidade dos modos de torcer fomenta variadas possibilidades de construção identitária de torcedores e torcedoras nas arquibancadas. Essa pluralidade faz do ato de torcer um fenômeno complexo, muitas vezes, contraditório e que faz dele um locus de análise das reações, adaptações e resistência às mudanças ocorridas no cenário futebolístico, sobretudo, em diálogo com as transformações geradas pelo intenso processo de mercantilização e midiatização dos eventos esportivos.

Coordenação: Irlan Simões

 

Os trabalhos devem ter no mínimo 7.000 e no máximo 12.000 caracteres e necessitam estar no template do evento. Serão aceitos para análise resumos em Português ou Espanhol e que versem sobre um dos GTs Não será possível o envio de um mesmo resumo ou de resumos diferentes para mais de um GT.

Em julho, iremos divulgar a lista de resumos aprovados e, para garantir a apresentação presencial dos trabalhos, será necessário o pagamento da taxa de inscrição:

Graduando – gratuito;

Graduados – R$ 20,00

Mestrandos, mestres e doutorandos – R$ 40,00

Doutores – R$ 50,00

Não será necessário o envio de trabalhos completos.

Apenas após a divulgação da lista de resumos aceitos, será necessário efetuar o pagamento da inscrição.

Obs.: Não haverá ajuda de custo para a participação presencial do evento.

Cronograma

11/03: início da submissão de trabalhos (resumo expandido)

31/05: data-limite para o envio dos resumos expandidos

02/07: resultado das avaliações dos resumos submetidos

04/09: data-limite para o pagamento das inscrições

06 e 07/10: realização do Seminário Internacional #maraca70

Para mais informações sobre a programação e o template, acesse esse post.

Produção audiovisual

Já está no ar o décimo primeiro episódio do Passes e Impasses

Acesse o décimo primeiro episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O tema do nosso décimo episódio é “O Brasil em sua primeira participação olímpica”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Marina Mantuano, que é produtora do podcast, recebemos no nosso estúdio Fausto Amaro, doutor em Comunicação pela UERJ, Ronaldo Helal, professor titular da UERJ, e Leda Costa, professora visitante da UERJ.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o décimo primeiro episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi o “Hero”, do grupo Foo Fighters.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

  • O herói de mil faces, de Joseph Campbell
  • Morfologia do conto maravilhoso, de Vladimir Propp
  • Super-homem e seus amigos do peito, de Ariel Dorfmann e Manuel Jofré
  • Bill Moyers: O Poder do Mito – A Saga do Heroi, por Joseph Campbell
  • Artigos de Tatiane Hilgemberg sobre o atleta paralímpico
  • Artigos de Fausto Amaro sobre o atleta olímpico
  • Artigos de Ronaldo Helal sobre o herói no futebol
  • Mitologia grega, v. 3, de Junito Brandão

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano

Produção: Fausto Amaro

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro e Marina Mantuano

Convidados: Fausto Amaro, Ronaldo Helal e Leda Costa

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Duas partidas especiais: como Bangu e Brasil de Pelotas chegaram à semifinal impensável de 1985

Em julho de 1985, duas partidas de futebol deram aspecto bizarro ao Campeonato Brasileiro daquele ano. A primeira partida foi disputada em 18 de julho, na cidade de Pelotas. A outra ocorreu três dias depois, em 21 de julho, na cidade de Porto Alegre. No dia 18, enfrentaram-se Brasil de Pelotas e Flamengo. No dia 21, foi a vez de Internacional contra Bangu.

Ninguém imaginava que dois clubes pequenos, um de subúrbio e outro do interior, pudessem chegar à fase semifinal. Depois daquelas duas partidas, o inimaginável tornou-se realidade. E isso faz daquele campeonato um dos mais interessantes da história do futebol brasileiro.

A primeira partida (dia 18): Brasil de Pelotas x Flamengo

O Flamengo, naquele mês de julho de 1985, estava em estado de euforia. Zico, o maior ídolo da história do clube, havia voltado ao clube após passar dois anos no Udinese, da Itália.

O clube disputava a terceira fase da Taça de Ouro (nome dado ao Campeonato Brasileiro daquele ano) e, no dia 14 de julho, venceu o Bahia no Maracanã por 3 a 0, com um gol de Zico. Era o seu gol de número 691. A revista Placar registrou:

Na volta do craque, que chega perto do 700º gol, o Fla reencontra o antigo fascínio (Placar, n. 791).

A mesma revista, naquela mesma edição, referiu-se assim ao Brasil de Pelotas: “Uma zebra rubro-negra?” (Placar, n. 791).

A pergunta era pertinente. Apenas o Brasil poderia superar o Flamengo no grupo F da terceira fase. Caso acontecesse, desclassificaria o clube carioca e passaria à semifinal.
Seria, realmente, uma zebra das mais impressionantes.

Depois de vencer o Bahia, o Flamengo viajou para o sul do país onde enfrentaria justamente o Brasil de Pelotas na penúltima rodada do grupo F. O clube do Rio de Janeiro estava um ponto à frente do adversário.

Um dado mostra bem a distância que havia entre o gigante e a zebra naquela disputa. A folha salarial do Brasil de Pelotas totalizava 70 milhões de cruzeiros. Menos do que ganhava apenas Zico (75 milhões).

O Flamengo era o favorito, claro. Mas no jogo do dia 18 esse favoritismo se dissipou no ar. O Brasil se defendeu bem, neutralizou Zico e, quando teve a chance de marcar gols, não desperdiçou. Venceu por 2 a 0.

“Flamengo perde de 2 a 0 e está quase eliminado”, noticiou o Jornal do Brasil no dia seguinte. O jornal também falou da euforia dos torcedores do Brasil: “Toda a cidade de Pelotas vibrou e festejou intensamente a vitória” (Jornal do Brasil, 19.07.1985).

No dia seguinte, os torcedores do Brasil faziam graça pelas ruas de Pelotas:

“Rumo a Tóquio?”, saudava um. “Rumo a Tóquio”, respondia o outro (Placar, n. 792).

Aquela vitória foi decisiva. O Brasil de Pelotas passou a liderar o grupo F e lhe faltava apenas mais uma partida. Bastava preservar a sua posição. O jogo seguinte seria em Salvador contra o Bahia, um time desclassificado e que estava em último lugar no grupo.

Depois do jogo do dia 18, o Flamengo ainda nutria esperanças de se classificar. Zico, logo após a derrota em Pelotas, disse a um jornalista TV RBS: “Eu acho que se hoje tava tudo errado, quem sabe domingo as coisas não podem virar totalmente favoráveis ao Flamengo?”.

O Flamengo precisava vencer o Ceará no Maracanã e torcer por uma derrota ou empate do Brasil no jogo contra o Bahia. Antes da partida no Maracanã, no vestiário do Flamengo havia “a impressão de total confiança” e “esperava-se goleada” (Placar, n. 792).

O Flamengo empatou em 2 a 2 com o Ceará. O Brasil de Pelotas, por sua vez, venceu o Bahia em Salvador. E assim o pequeno clube do interior do Rio Grande do Sul chegou à semifinal do campeonato.

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Brasil de Pelotas X Flamengo (fonte: YouTube).

A segunda partida (dia 21): Internacional x Bangu

No grupo H da terceira fase, Internacional e Bangu chegaram à última rodada invictos. O Bangu era considerado um clube pequeno. Havia sido campeão carioca apenas duas vezes (em 1933 e em 1966). No Campeonato Brasileiro, seu melhor desempenho o levara às quartas-de-final em 1982, sendo desclassificado nessa fase pelo Corinthians. Já o Internacional havia sido campeão nacional em 1975, 1976 e 1979.

Naquela rodada final do grupo, os dois times fariam uma partida decisiva no dia 21 de julho. Havia uma pequena vantagem para o Bangu, que tinha 8 pontos, enquanto o Internacional tinha 7. Quem vencesse a partida, passaria à semifinal. Em caso de empate, o classificado seria o Bangu.

O Bangu estava há 25 jogos sem perder. Era uma das surpresas do campeonato. Seu patrono, Castor de Andrade, era um bicheiro conhecido e poderoso. Estava convicto de que seria campeão brasileiro e dizia isso abertamente.

O clube de Porto Alegre também estava confiante. Seus atletas tinham certeza de que, na partida decisiva, teriam o apoio de uma “imensa torcida” no Estádio Beira-Rio. O centroavante Marcelo disse à imprensa que o ataque do time havia desencantado e que já estava superada a “síndrome dos gols perdidos”. E disse mais: “O toque de bola, que é o forte do Bangu, não vai ser aplicado contra nós” (Jornal do Brasil, 21.07.1985).

Enfrentar o Internacional no Estádio Beira-Rio é dificílimo. Ainda mais para um clube pequeno. Mas o Bangu não se intimidou. Jogou bem, venceu por 2 a 1 e se classificou. Após o jogo, Moisés, o técnico do Bangu, desabafou: “Veja o Inter, posou de favorito e se quebrou, mesmo porque os favoritos éramos nós, que liderávamos a tabela” (Placar, n. 792).

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Time do Bangu com o patrono Castor de Andrade (fonte: site Trivela).

A semifinal impensável

A semifinal dos favoritos seria Flamengo X Internacional. Dois clubes que já haviam sido campeões brasileiros seis vezes.

Mas, naquela segunda-feira, dia 22 de julho de 1985, o país amanheceu com uma semifinal impensável no Campeonato Brasileiro: Brasil de Pelotas X Bangu. Um clube que nunca havia sido campeão estadual e outro que era tratado como o quinto ou o sexto melhor da sua cidade.

Quem imaginou que isso pudesse acontecer? Bangu e Brasil de Pelotas fazem as semifinais da Taça [de Ouro] e um deles já está garantido na próxima Libertadores (Placar, n. 792).

Aquele campeonato já podia ser considerado único. Esdrúxulo.

Alguns chegaram a dizer que aquilo já era resultado da Nova República, o novo regime político do país que iria transformar a nação por inteiro.

O Atlético Mineiro foi o último favorito a cair. Na semifinal, foi desclassificado pelo Coritiba, que tornou-se o primeiro clube paranaense a chegar em uma final do Campeonato Brasileiro.

Na outra semifinal (a impensável), o Bangu venceu o Brasil de Pelotas duas vezes: 1 a 0 em Porto Alegre e 3 a 1 no Rio de Janeiro.

A história da final é mais conhecida. Foi disputada em jogo único, no Maracanã. Uma partida emocionante. Terminou empatada em 1 a 1. Na disputa por pênaltis, o Coritiba venceu por 6 a 5.

Uma parte da imprensa se mostrou insatisfeita com aquela exótica semifinal. A final entre Bangu e Coritiba também não foi muito bem vista. Alguns jornalistas e comentaristas achavam péssimo que os grandes clubes fizessem enormes investimentos e depois fossem desclassificados em razão de apenas uma ou duas derrotas (isoladas e acidentais). Defendiam a adoção de um modelo que dificultasse ao máximo (e até evitasse) esses “acidentes”. Um modelo que desse maior garantia aos grandes investimentos. O interessante é que essa argumentação pró-investimentos (pró-capital) partia de jornalistas e comentaristas que se consideravam de “esquerda”.

Os dirigentes dos grandes clubes, obviamente, concordavam com aquela argumentação. E resolveram agir dois anos depois. Em 1987, houve o grande levante do chamado Clube dos Treze em defesa de um novo formato para o Campeonato Brasileiro e de um novo modelo geral para o futebol brasileiro. Modelo que se consolidou ao longo dos anos seguintes.

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O jornalismo esportivo em tempos de Coronavírus

Como uma jovem jornalista em formação, apaixonada por esporte, esse novo modo de viver que nos foi imposto me fez refletir. Refletir acerca do papel do jornalista, do papel do esporte e do nosso papel enquanto pessoas. Para uma pessoa que gosta de esporte e está cursando jornalismo, essas três variáveis são quase indissociáveis.

Enquanto tentava entender tudo o que estava acontecendo, me senti profundamente tocada pela crônica de Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 20/03/2020, no programa “Faixa especial” do SporTV. Compartilho aqui ela na íntegra:

A rua é a casa do repórter. Quando uma crise mundial bate à porta, a mais humana das reações é não deixar ninguém entrar. Seja em tempos de guerra, seja em tempos de pandemia. No presente, aquele que ninguém jamais pediu, a batalha é contra o coronavírus. De dentro do laboratório elas mandaram avisar o mais rápido possível medidas simples, porém eficientes, para conter o avanço da doença: “evite falar com as pessoas a menos de um metro de distância”; “nada de abraços, mãos ao rosto, aperto de mão”. Basicamente, é isso que milhares de repórteres têm dito durante as últimas semanas. Claro, as paralisações de competições esportivas e países inteiros, andam em pauta. Os trágicos números de vítimas da doença do século, também. É inevitável pensar. Não ir pra rua é não ir pra casa, pois de que vale a mensagem trazida pelo repórter se ele não falou com ninguém, não viu as estações de metrô fecharem, não teve nos restaurantes sem clientes, não sentiu o estrondoso vazio dos cenários mais famosos do planeta, como num filme apocalíptico. Para alguns, em certos países como a Grã-Bretanha, como o Brasil, pisar na rua ainda é permitido. Ainda. Um alento para o repórter e uma preocupação para o ser humano que habita o mesmo corpo. Porque, realizar o ofício que a gente tanto ama, significa por os nossos maiores amores em risco. Pensando assim, estar longe do nosso país, das pessoas mais importantes da nossa vida deveria ser bom, mas não é. Longe, sozinho, a cabeça começa a trair a razão. Melhor estar perto dos nossos, tomando conta um do outro. Melhor se prevenir de um jeito solidário, com responsabilidade, conhecimento, mas um olhar terno ao próximo. Só assim ainda seremos repórteres. Ainda seremos o que um dia já fomos.

Ouvi uma, duas, três… dez vezes… Mudei o texto que originalmente publicaria no blog. Transcrevi e trouxe aqui, pois achei de extrema sensibilidade e sensatez. Fico emocionada de maneiras diferentes cada vez que ouço ou leio. Tenho acompanhado diariamente a programação do SporTV, e como eles estão se reinventando para tentar evitar o inevitável. Tentar não ficar sem assunto quando o seu assunto já não existe mais. Aquilo que talvez a gente nunca imaginasse, aconteceu. O futebol parou. O esporte parou. Já ouvi que o futebol havia parado uma guerra, que parou um país, vários países… mas nunca, nunca tinha ouvido que o futebol havia parado. Em praticamente todo o mundo, a bola já não rola mais. A famosa frase do técnico vice-campeão mundial pela seleção italiana na Copa de 94, Arrigo Sacchi, “o futebol é a coisa mais importante dentre as coisas menos importantes”, faz cada vez mais sentido. Nesse momento não há espaço para as coisas menos importantes.

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O jornalista é um flâneur – do francês: caminhante, errante, observador. Flanar sem rua é quase como a música da Adriana Calcanhoto “Fico Assim Sem Você”. A palavra agora, porém, é outra: navegar. Navegar pelas ondas da internet, trabalhar de home office, ainda que alguns jornalistas ainda sejam vistos em seu habitat natural, a fim de levar as informações para quem não pode – e não deve – sair de casa. Adaptação. Palavra que entrou no dicionário de todo mundo. De uma vez só. Quem é da rua sabe se adaptar. Quem faz reportagem ao vivo, sabe correr riscos. Quem busca informação, sabe se prevenir. Quem gosta de esporte, sabe driblar. E assim se reinventam os jornalistas esportivos. Adaptando-se, correndo riscos, prevenindo-se, e driblando – com responsabilidade (como já diria Felipe Melo) – o Covid-19.

Os noticiários dos canais de esporte e dos canais de informação se misturam. Não há escapatória. Vê-se, porém, luz no fim do túnel, nem tudo está perdido. Há notícia!! Atletas que foram infectados, esportistas que passam recados reforçando a importância de ficar em casa, como os clubes estão lidando com a quarentena e a decisão do COI – ainda que tardia – de  adiar as Olimpíadas de Tóquio 2020. Os repórteres, de casa, trazem as informações necessárias ao que restou dos programas ao vivo, que, nesse momento, se reduzem a apenas três (do que antes eram, no mínimo seis programas da grade regular do SporTV). Decisão sensata a mudança na programação. Pela questão da saúde dos funcionários, respeitando o isolamento social proposto pelo governo, mas não só por isso. A informação, que já é escassa, começa a se repetir. De noite, você ouve o que já ouviu de tarde, e o que já ouviu de dia, mas na voz de pessoas diferentes. Assim, manter a grade normal torna-se insustentável.

No ar, uma mistura de luto e desânimo, intercaladas com piadas e brincadeiras que os jornalistas, repórteres e ex-jogadores fazem entre eles. “Pra descontrair”, eles avisam. O que mais me chamou atenção, entretanto, era a fala de não só um, mas alguns jornalistas esportivos – e não só no SporTV – reafirmando aquele espaço como, praticamente, o que restou aos amantes do esporte, e de como eles se sentiam honrados em poder levar, ainda que apenas um pouco, de entretenimento para a casa das pessoas. E não é mentira. Vídeos divertidos de narrações de afazeres doméstico; análise de como cada clube estava jogando antes dessa – necessária – parada; e vídeos de profissionais de educação física mostrando alguns treinos viáveis de serem feitos em casa, foram algumas das estratégias para que o isolamento social – nome chique para “ficar em casa” – seja colorido pelo esporte, mesmo que em tons pastéis.

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Fui descobrindo, dessa maneira, novas funções que essa profissão pode ter. Nunca tinha parado para pensar em como seria ser uma jornalista esportiva em um mundo em que não há esporte. É claro, antes de ser “jornalistas esportivos”, somos “jornalistas”; se um dia o esporte acabasse para sempre – bate na madeira três vezes!! – migraríamos para outras editorias e cada um seguiria sua vida. Ela, porém, nunca mais seria a mesma. Quando perguntaram à teóloga Dorothee Sölle como ela explicaria a felicidade a uma criança, ela respondeu: “Não explicaria. Daria uma bola para ela brincar”. Seguiríamos nossas vidas sem saber mais o que é felicidade.

Por sorte o cenário não é tão desolador – no sentido de o esporte acabar para sempre. Ele há de voltar. Um dia. Esperaremos o tempo que for necessário, ficando em casa o máximo possível, lavando as mãos e passando álcool gel. Enquanto isso podemos retornar com os jogos de futebol de botão, jogos de videogame, relembrar partidas memoráveis… Se não podemos, por hora, brincar com a bola, pelo menos nós conhecemos a felicidade. E isso já é muito. Que possamos voltar a flanar o mais rápido possível pelas quatro linhas do campo, por entre os dribles dos jogadores, dentro do movimento das torcidas. Não só os jornalistas, mas todos os que amam Futebol.

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Mais uma gelada, por favor

O Diário Oficial do Estado da Paraíba, em sua edição de 19 de fevereiro de 2020, trouxe a publicação da Lei 11.644, de 11 de fevereiro do mesmo ano, que delibera sobre a “liberação do comércio e do consumo de bebida alcoólica em estádios e arenas no Estado da Paraíba”.

Pela lei, pois, que já está em vigor em todo o território paraibano, seguindo, aliás, exemplos de outros estados brasileiros, a velha – e boa – cerveja nas arquibancadas está regulamentada depois de pouco mais de dez anos de “lei seca”.

Isso não significa, contudo, que o processo é pacífico. Ou livre de conflitos.

Tão logo a lei foi promulgada, o Ministério Público da Paraíba anunciou que vai até o Supremo Tribunal Federal pedir a inconstitucionalidade da lei. E o procurador que encabeça as ações que tratam sobre futebol no MP local chegou a chamar de “idiota” todo aquele que defende a liberação do consumo de bebida alcoólica em jogos de futebol realizados na Paraíba.

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Fonte: Lance!

A alegação é sempre a mesma: “álcool gera violência”.

Ponto final. Fim do debate. Quem discorda, é “idiota”.

O pior, é que muitas vezes a mídia local adota o discurso simplista. Compra o argumento oficial. Dissemina a ideia de que as brigas, os conflitos, os problemas eventuais, são motivados – só e somente só – pela bebida alcoólica. Referenda uma versão que é completamente destituída de análise científica, de observação empírica.

É sobre isso que eu quero falar aqui.

Antes, porém, quero iniciar com uma crítica à própria lei.

O Artigo 1º autoriza exclusivamente “o comércio e o consumo de bebida alcoólica fermentada cujo teor alcoólico não seja superior a 15%”.

Mais específico impossível.

Para mim, pois, fica claro um lobby das grandes cervejarias. Que exclui, por exemplo, a cachaça, extremamente popular na Paraíba e preferida dos torcedores mais pobres, sem condições de pagar tanto pelo consumo da cerveja.

A lei, assim, tem dois problemas graves: (1) beneficia apenas as classes média e alta da sociedade, deixando de lado os pobres; e (2), de certa forma, referenda o discurso do MP da Paraíba e da Polícia Militar de que o álcool é sim o gerador de violência. É como quem diz, em claro tom preconceituoso: “estamos liberando, mas apenas as bebidas mais leves”.

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Fonte: Folha de SP.

Mas, falemos sobre o mérito da questão.

Ao longo de dois anos, durante minha pesquisa de mestrado, acompanhei torcedores do Botafogo-PB. Pela cidade, nos dias de jogos, em viagens pelo Brasil.

E, nas minhas análises antropológicas, identifiquei dois motivos principais para classificar como despropositadas o veto à venda e ao consumo de bebidas alcoólicas em estádios de futebol. Trato, claro, do contexto paraibano, mas me parece que essa realidade pode ser aplicada a outras realidades brasileiras.

Primeiro de tudo é que é um equívoco tremendo, um desconhecimento total da pluralidade existente numa arquibancada, colocar na conta da bebida alcoólica todas as formas de violência, de conflito, de indisposição mesmo de um com o outro no contexto futebolístico.

Fazer isso, afinal, é negar as múltiplas identidades, as distintas formas de torcer, as rivalidades e diferenças que estão postas no ambiente do futebol. Não só entre torcedores de clubes diferentes, mas entre as próprias torcidas de um mesmo clube (sempre pensadas no plural). É colocar na conta da bebida algo que é muito mais complexo, muito mais rico do ponto de vista antropológico, inclusive.

A propósito, fazia mais de dez anos que o consumo de bebida alcoólica estava proibido na Paraíba, e ao longo desse tempo não há absolutamente nenhuma evidência que comprove que a violência diminuiu, que os conflitos ou as diferenças cessaram por causa do veto.

Qualquer análise empírica mais séria, qualquer investigação científica mais cuidadosa, qualquer debate que aceite seguir para além do discurso fácil e do preconceito barato provará que praticamente as mesmas questões existentes em 2008, por exemplo, antes do veto, seguiam existindo em 2019, mais de uma década depois do veto ser instituído.

O debate tem que ser mais embasado. O debate não pode se limitar aos lugares comuns, aos achismos, à criminalização prévia do consumo de bebida alcoólica.

Mas tem um segundo ponto: o veto é completamente ineficaz. Porque, ao menos na Paraíba, ninguém que gosta de beber, de se embriagar, que seja, deixou de fazer isso ao longo desses dez anos.

Se a ideia era a de que com menos álcool haveria menos violência, a medida se tornou completamente inócua.

Foi outro ponto extremamente perceptível em minha pesquisa.

Nenhum torcedor, que gosta de beber, deixou de beber por causa do veto. As torcidas, na verdade, não fizeram mais do que mudar suas dinâmicas. A se readequarem aos novos tempos. Começaram a se reunir mais cedo antes dos jogos, a prolongar suas farras e bebedeiras depois da partida, a atrasar ao máximo a hora de entrar no estádio.

Tudo isso para beber onde era possível. Onde era permitido. Onde era legalizado. Ninguém passou a assistir a jogo sóbrio por mero decreto.

Novas estratégias para driblar uma coercibilidade do Estado. Novas formas e novos lugares de encontros em nome da potência que a bebida proporciona nas sociabilidades dos grupos torcedores.

No fim das contas, a medida, que supunha diminuir a violência nos estádios paraibanos, não a diminuiu e ainda trouxe problemas não previstos pelas autoridades públicas.

Cito dois: encontros de torcedores rivais em bares localizados longe do estádio de futebol, onde o policiamento em regra não está presente; e tumulto na entrada do estádio nos cinco minutos que antecedem o início da partida, visto que os bebedores passaram a atrasar ao máximo a entrada no estádio para seguirem bebendo até o limite do possível. No fim de tudo, eram poucos os portões para tanta gente que queria entrar exatamente no mesmo momento e o tumulto tornava-se inevitável.

Enfim, o Ministério Público da Paraíba, a Polícia Militar, parte da mídia, tantos outros, erram feio ao defender uma postura mais conservadora, uma política mais proibitiva, baseado em puro preconceito, ao invés de se debruçar em estudos sérios que analisam as dinâmicas dos torcedores de futebol.

Afinal, tais dinâmicas são muito mais complexas do que o discurso simplista tenta fazer parecer.

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Futebol, ofensas e ofensivas na Alemanha: o que não se entende na revolta dos torcedores

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O observador mais desatento provavelmente passou os primeiros dias de março surpreso com os diversos casos de paralisação de jogos na Bundesliga, a liga alemã de futebol profissional. Atendendo à determinação da federação local, árbitros interrompiam as partidas para reagir a gestos e mensagens vindas das arquibancadas.

Para quem acompanha com maior afinco, os acontecimentos recentes não passaram de mais uma semana normal no futebol alemão, onde protestos de torcedores são corriqueiros, numerosos e variados. De estranho, apenas as consecutivas decisões de interrupção das partidas, algo raro no país germânico até para casos flagrantes e notórios de racismo.

O ponto mais alto dessa tensão – que, frise-se, não se iniciou ali – foi o jogo entre Hoffenheim e Bayern de Munique pela Copa Alemã, em 29 de fevereiro, na Rhein-Neckar-Arena. Faixas desfraldadas pela torcida visitante insultavam Dietmar Hopp, o presidente do Hoffenheim, em uma partida que já contava 6 a 0 para os bávaros.

Então surge outro fato surpreendente e raro, mas visto com bons olhos por parte da cobertura do evento: a ação coordenada dos jogadores de ambas as equipes como “contraprotesto”, negando-se a jogar futebol nos 15 minutos restantes da partida (até porque o placar já estava liquidado), passando a bola de lado e demonstrando apoio ao dono do Hoffenheim.

É aqui que todos os atores se confundem, as narrativas se invertem, e os torcedores saem como figuras desajustadas, vândalos ou como “idiotas e anarquistas”, nas palavras de Karl Heinz Rummenigge, presidente do Bayern de Munique, em declaração contra a própria torcida e em defesa do bilionário Hopp.

Na imprensa brasileira, então, inúmeras posições equivocadas e desinformadas relacionavam o acontecimento a supostos insultos racistaS ou ações de hooligans, violência, baderna ou coisas do tipo. Importante reforçar: nada ali era novo, nada era inédito, senão a interrupção da partida por determinação da arbitragem, seguindo recomendações da Federação Alemã de Futebol (DFB).

O que foi comentado em raras, mas felizes, oportunidades foi o fato de Dietmar Hopp ser criticado há mais de uma década por praticar, com o TSG 1899 Hoffenheim, um descumprimento da regra do 50%+1. Tal norma estabelece que os clubes alemães devem estar obrigatoriamente sob o controle da associação civil [eingetragener Verein] que originou o time de futebol. É dizer, Hopp é odiado pelos torcedores locais por burlar uma norma sagrada dentro da cultura torcedora da Alemanha.

O assunto então desembarca no Brasil de forma distorcida, sobretudo porque a imprensa esportiva brasileira ou ignora ou despreza ou não se interessa pelo tema das culturas torcedoras. O evento daquele jogo simbolizava um assunto pertinente, bastante atual, correlato ao momento que o futebol brasileiro vive, no que se refere à discussão sobre a transformação dos clubes em empresas. As manifestações dos torcedores alemães, que interromperam mais uma série de outras partidas em todo o país nas semanas seguintes, nas palavras de Carles Viñas, “não são mais do que um sintoma do debate existente acerca do modelo societário do futebol alemão”.

A postura dos torcedores foi uma ofensiva

Um exemplo de como estamos muito distantes de compreender o que acontece lá do outro lado do Atlântico: por anos falamos sobre as arenas multiuso e suas normas de convivência com base em uma suposta relação com o “jeito europeu de torcer”. Introjetamos um conjunto de falsidades: que a Europa acabou com a violência no futebol, que o torcedor europeu está satisfeito com seus estádios, que o público se comporta de forma passiva e ordeira, que o “espetáculo” é apreciado por consumidores cientes do seu papel de clientes.

Nada disso é lá muito verdade e a Alemanha talvez seja o país onde isso mais se mostra evidente. Por décadas a fio, o torcedor alemão luta para se posicionar como ator político com presença constante nos debates sobre os rumos do futebol local, com forte presença nos círculos decisórios dos seus clubes.

Mais do que isso: os torcedores locais estabeleceram uma relação de solidariedade inquebrantável pelas rivalidades ou clubismos, onde as pautas são vistas como transversais a todos e motivadoras de protestos simultâneos em todo o território nacional. Essa noção de “solidariedade de classe” torcedora na Alemanha é só o ponto de partida para conhecer o complexo – mas não incompreensível – contexto que vive o futebol no país.

Borussia Mönchengladbach - Borussia Dortmund

O ocorrido no jogo entre Hoffenheim e Bayern foi só um dos episódios de uma série de protestos que começou uma semana antes, em 22 de fevereiro, na partida entre o Borussia Mönchengladbach contra o próprio Hoffenheim. Com os dizeres “filhos da puta insultam um filho da puta e são punidos por filhos da puta”, os torcedores do Gladbach se solidarizavam contra a punição exercida pela DFB aos torcedores do rival Borussia Dortmund, provocando a primeira de uma sequência de interrupções de jogos.

Ainda em 2018, um protesto massivo contra Dietmar Hopp provocou tensa discussão na DFB, gerando uma “suspensão de sanção” planejada aos torcedores do Borussia Dortmund. Ao caírem em “reincidência” por causa de novos cantos contra Hopp, em 20 de dezembro de 2019, a DFB resolveu “remover a suspensão da punição”, proibindo torcedores do Borussia Dortmund – todos eles, sem exceção – de frequentarem como visitantes o estádio do Hoffenheim pelas próximas três temporadas.

Para os setores organizados das torcidas alemãs a punição ligou o sinal de alerta. A DFB não apenas descumpria o acordo de não aplicar punições coletivas, mas também indicava que o poder de Dietmar Hopp estava acima dos direitos dos torcedores. O bilionário alemão e proprietário do Hoffenheim é o dono da SAP, multinacional do ramo de elaboração de softwares, uma das patrocinadoras do futebol local. Foi isso que incitou a ofensiva política mais recente das arquibancadas alemãs.

O jornalista Felix Tamsut também cobrou uma postura mais responsável dos seus colegas de imprensa na Alemanha e Europa: “Lição número um para nós, jornalistas: começar a levar os torcedores a sério. Não apenas nas manifestações, mas todo dia”. Um dos mais atentos observadores das mobilizações dos grupos organizados no país, Tamsut já havia destacado, ainda antes do evento de Hoffenheim x Bayern, o protesto dos torcedores do FC Köln contra Dietmar Hopp: “Quebraram suas promessas por causa de um filho da puta! Contra as punições coletivas”.

Nessa altura os inúmeros grupos de torcedores sequer tratavam mais da regra do 50%+1. Agora estava lançado um desafio à DFB, questionando se ela interromperia ou suspenderia absolutamente todos os jogos do futebol alemão em que Hopp fosse insultado. Avisaram que eles estariam lá todos os jogos, e estiveram: Union Berlin x Wolfsburg; Dortmund x Freiburg; Meppen x Duisburg; Carl Zeiss Jena x 1860 München; Schalke 04 x Hoffenheim; Gladbach x Dortmund; Freiburg x Union Berlin…

Tamanha articulação possui duas fontes de combustível. Por um lado a ProFans, que desde 2001 estabelece uma rede entre os grupos ultras, espécie de torcida organizada tipicamente europeia, com raízes na Itália, mas com forte presença na Alemanha desde nos anos 1990. Qualificados para realizar grandes festas nos estádios, dado o caráter mais ativo de seus membros, tais organizações foram dotadas de forte consciência política e solidariedade. Quando uma organiza uma ação para determinada rodada, a outra é comunicada, gerando um ciclo de “competição” pelo protesto mais criativo e impactante.

Por outro lado, a Unsere Kurve, uma organização fundada em 2005 que articula primariamente os fanprojekts, mas, igualmente dotada de consciência política, acaba por ter inserção na massa dos torcedores, por assim dizer, “não organizados”. Os fanprojekts surgem relacionados aos projetos de assistência social dos clubes, mas ganham hoje um papel importante de defesa dos interesses dos torcedores na Alemanha.

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Portanto, é importante entender que a cultura torcedora alemã não apenas é politicamente ativa e ciente do seu poder, mas também existe basicamente assentada em uma relação de defesa, aliança e ação política. Isso vai desde protestos contra o descumprimento da norma 50%+1, até a luta contra a repressão policial, contra os ingressos caros para visitantes, contra jogos às segundas-feiras ou mesmo na solicitação conjunta para a interrupção dos jogos do futebol alemão frente à pandemia do Covid-19.

Essa discussão foi feita no podcast SDT Na Bancada #03 50+1 com Fred Elesbão, economista e professor que reside na Alemanha há 13 anos onde se tornou sócio do Hannover 96 e viveu de perto as tensões entre torcedores e dirigentes do futebol alemão. O Hannover 96, objeto do podcast, é um dos principais casos de luta travada pelos Mitglieder (membros) contra a apropriação privada de um clube, como foi o caso do derrotado Martin Kind.

Bom para quem?

Um dos pontos mais incômodos e mal colocados sobre esse tema é a abordagem de que tais “investimentos” são positivos para o futebol alemão. À parte de se ignorar como isso é pouco relevante na cadeia produtiva do futebol local em termos de redução das diferenças financeiras frente a outras ligas europeias – dado que é um investimento particular em um clube, não uma injeção financeira substancial em toda a liga –, também se comete uma falha analítica ao se desconsiderar os efeitos reais desse desequilíbrio competitivo.

Afinal, ninguém se dá ao trabalho de avaliar como os clubes que são bons cumpridores das normas locais, com critérios claros de participação e direitos políticos dos seus sócios, perderam seus espaços para esses empreendimentos elaborados com muito dinheiro e pouca base torcedora. Esse é o ponto central do descontentamento dos torcedores alemães com a autorização dada ao Hoffenheim, no final dos anos 2000, e ao famigerado RasenBallsport Leipzig, surgido em 2009 com um forte investimento da Red Bull GmbH, gigante da indústria de energéticos.

Estudioso do tema, Carles Viñas, doutor em História Contemporânea pela Universidade de Barcelona, escreveu o esclarecedor artigo “O modelo societário do futebol na Alemanha: uma referência de êxito questionável” para o livro Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol (Corner, 2020), onde explica esses dois casos em seus detalhes mais sórdidos.

Sobre o Hoffenheim, Viñas destaca a brecha oferecida para a empreitada: “A DFL levou em consideração o apoio significativo e prolongado do empresário, que contribuiu com 300 milhões por 20 anos para a equipe, para incluir o Hoffenheim no grupo de clubes liberados [da regra 50+1] (…) Uma decisão que foi vista como um delito e transformou o Hoffenheim (…) em um clube detestado pela maioria das torcidas no país”. O caso é considerado anda hoje o “estopim” de uma necessidade de organização torcedora mais firme e ativa no país.

Carles Viñas observa que anos depois o RB Leipzig conseguiria assumir o posto de clube mais odiado da Alemanha, quando “a DFL, em uma decisão controversa, interpretou que sem a Red Bull o clube não existiria e, portanto, concedeu a licença federativa”. Ele observa que por trás do iniciativa da Red Bull estavam figuras importantes como Franz Beckenbauer. À época lotado como um dos vice-presidentes da DFB, o ex-jogador e ex-dirigente do Bayern de Munique foi um dos “consultores” do projeto de compra de um modesto clube do leste Alemão – região mais pobre e pouco influente no futebol nacional – com apoio para a quebra da regra que impedia que clubes locais tivessem donos.

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Hoje no ostracismo por causa de envolvimento em escândalos de fraude e lavagem de dinheiro, quando da escolha da Alemanha como país-sede da Copa de 2006, Franz Beckebauer foi um dos defensores da empreitada do RB Leipzig, um clube que é formado por menos de 20 sócios, todos ligados à empresa Red Bull, como manobra para burlar a regra sagrada para os torcedores alemães.

Criada em 1998, a regra que obriga que os clubes pertençam aos seus sócios não teria como estender a lógica do 50+1 ao Wolfsburg e ao Bayer Leverkusen. Esses dois clubes possuíam relação de patronato e propriedade com a Volkswagen e a Bayer AG desde suas fundações, do que se infere que é compreensível que não sofram tanta retaliação dos torcedores e dirigentes rivais.

O mesmo não pode ser dito de Hoffenheim e RB Leipzig, invenções posteriores que, desembarcadas tardiamente, fizeram da Bundesliga – a liga mundial que mais regula a insanidade mercadológica que impera no futebol global, através de princípios claros que definem os clubes como propriedade comum dos seus associados/torcedores – um campeonato formado de empresas em quase um quarto dos seus participantes.

Esse é o nível de contradição que ajuda a compreender os acontecimentos para além do potencial organizativo dos torcedores locais. Pode-se parar os jogos para defender a integridade moral de um bilionário, mas onde ficam os clubes tradicionais que perderam espaço por causa dos burladores? Grandes agremiações, com papel fundamental na construção do futebol alemão, deixaram de frequentar a elite nacional pela inviabilidade de competir contra os dopings financeiros de Hoffenheim e RB Leipzig.

Borussia Moenchengladbach v TSG 1899 Hoffenheim - Bundesliga

Em 2008, quando o Hoffenhein subiu para a Bundesliga, Mainz 05 e Freiburg, clubes com forte base local, foram lesados pela sobrecarga financeira fora da regra efetuada pelo proprietário do clube. E caso seja a questão de ressaltar a escolha por uma cidade na região menos desenvolvida do país, vale também levantar o Union Berlin e Dynamo Dresden, ambos do leste alemão, disputavam a vaga para a elite contra o RB Leipzig em 2016.

Estamos falando portanto de grandes massas associativas que são prejudicadas por esses casos “bons para o futebol alemão”.  Não se tratam de clubes incapazes ou mal geridos, mas de clubes punidos porque carregam os valores e os sentidos que fazem do futebol alemão o mais financeiramente saudável, socialmente pujante e historicamente significativo do mundo.

A postura dos jogadores foi uma ofensa

“Em 23 de novembro de 2013, cerca de 6.000 torcedores do Hansa Rostock viajaram disfarçados para Leipzig para assistir à partida contra a RB. Uma vez localizados nas arquibancadas, exibiam lenços com o lema “Scheiss Bullen” (toro merda) e também exibiam em cartazes, um ao lado do outro, com o slogan “In Leipzig wird’s immer nur Lok und Chemie geben” (Em Leipzig só existem Lok[omotive] e Chemie). No ano seguinte, quando o RB visitou o campo do Union Berlin por conta da sexta rodada do campeonato, os torcedores locais se vestiram de preto e mantiveram 15 minutos de silêncio. Uma greve organizada para tornar visível a raiva da torcida e que se uniu, um ano depois, à destruição de uma réplica em larga escala de uma lata de Red Bull pelos fãs do Karlsruher SC.  Em 2015, foram os torcedores do FC Heidenheim que receberam o ônibus que levava os jogadores do RB com um lançamento maciço de notas falsas de 100 dólares, que incluiu a legenda “Red Bull merda”, além de outros slogans anticapitalistas e a efígie de Dietrich Mateschitz. Um ano depois, os torcedores do Dínamo Dresden tornaram seu protesto visível ao atirar a cabeça de um touro quando seu time enfrentou o RB Leipzig na primeira etapa da Copa da Alemanha, enquanto exibiam faixas com os slogans “Tradition kann man nicht kaufen” (Tradição não pode ser comprada) ou “RB Não” nas arquibancadas. Uma ação pela qual a DFB puniu o clube saxão com uma multa de 60.000 euros. No encontro inaugural da temporada seguinte, os torcedores do Hoffenheim exibiram faixas sarcásticas com o slogan “Queremos nosso trono de volta: o clube mais odiado da Alemanha”. E não apenas as torcidas menosprezaram o clube de Leipzig, os clubes rivais se negam a usar o novo nome e o escudo do clube nos monitores de vídeo de seus estádios quando enfrentaram o RB Leipzig”.

Esse longo trecho do supracitado artigo de Carles Viñas é necessário. Em toda essa história é indispensável separar as ofensas das ofensivas. Retornar ao evento da interrupção do jogo entre Hoffenheim e Bayern de Munique, dentro desse contexto, fará tudo ter mais sentido.

Um dos mais importantes e famosos jogadores em campo era o atacante Thomas Müller, que, não se sabe muito bem como, dado o horário, publicou uma mensagem no seu twitter evocando o sempre controverso lema do #FairPlay e se posicionando sobre o ocorrido na Rhein-Neckar-Arena: “Não dê chances a campanha de ódio, racismo, antissemitismo, homofobia”. Para além de não fazer muito sentido, dado o real conteúdo do protesto, a publicação trazia a foto do “contraprotesto” dos jogadores, ao lado dos dirigentes de Hoffenheim e Bayern.

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A atitude escolhida pelos atletas – ou a obediência a alguma ordem superior, ainda não se sabe – representou uma brutal ofensa moral aos torcedores que estavam no seu legítimo direito de contestar algo que lhes afeta e lhes diz respeito. Algo que não diz respeito aos atletas bem pagos, bem assessorados, bajuladores e nada comprometidos com os anseios dos torcedores. Categorias distintas, jogadores e torcedores precisam ser vistos em suas respectivas competências, responsabilidades e legitimidades. Jogadores são apenas produtores de espetáculo. Torcedores são os produtores dos seus clubes.

Na Alemanha isso já está mais do que explicado e uma reunião informal convocada pela DFB confirma: “Os clubes e a federação concordaram que, como o futebol não pode ser interrompido por causa do mero exercício da liberdade de expressão, eles teriam que aceitar os insultos. Os árbitros não agiriam a menos que as manifestações incorressem em apologia da violência ou supostas ameaças de morte, como a efígie de Hopp colocada no ​​centro de um alvo”, anotou o jornalista Diego Torres para o El País.

Dentre os possíveis dirigentes dispostos a defender medidas punitivas contra os ultras, apenas Karl Heinz Rummenigge, do Bayern, ousou erguer a voz. Publicamente, escolheu atacar os torcedores como “a face feia do futebol”. Tanto provocou que se tornou alvo de protestos da própria torcida: “A face mais feia do Bayern quem mostra são aqueles que recebem dinheiro do Catar”. Os torcedores se referiam aos contratos de patrocínio entre o clube e a Qatar Airways, empresa pertencente ao estado catari, acusado de violações ao direitos humanos e emprego de trabalho escravo na construção dos estádios da Copa do Mundo 2022.

Por outro lado, dirigentes de clubes adotavam a postura de mediadores e representantes de instituições sociais históricas que estavam muito acima dos seus cargos temporários. Alguns deles, como Hubertus Hess Grünewald, do Werder Bremen, e Michael Zorc, do Borussia Dortmund, defenderam o direito à liberdade de expressão e aproveitaram para alfinetar a federação pela permissão às empresas que não respeitam a regra 50%+1.

Os elementos fundamentais para entender esse ecossistema único no futebol global – considerando que meras faixas com dizeres genéricos são proibidas nos estádios brasileiros –, são produzidos historicamente. Nem apenas concessões do poder, nem apenas conquista das arquibancadas, o futebol na Alemanha apresenta uma realidade possível onde o processo de mercantilização do futebol pode ser gerido de forma mais adequada para o interesse dos seus produtores históricos, os torcedores.

A existência de uma estrutura que permite maior participação, além de uma cultura política historicamente produzida por uma série de circunstâncias que vão além do futebol – que, afinal, nunca esteve desgarrado do contexto social-cultural onde se instala – criou as bases necessárias para que a atuação incansável, destemida e resiliente dos torcedores alemães pudesse produzir soluções e contextos onde suas vozes não só podem, como precisam ser ouvidas, dado alto custo político e financeiro que se assume ao negá-las.

E que não se enganem os desavisados: isso tudo também está acontecendo em outros países da Europa e da América do Sul.


Obs: Pesa também sobre a biografia de Dietmar Hopp o seu passado familiar. Torcedores seguem resgatando a história de Emil Hopp, pai do mandátario do Hoffenheim, membro das Sturmabteilung (SA), tropa de choque do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP – o partido nazista). Emil Hopp esteve no comando das ações da Kristallnacht (Noite dos Cristais) em Hoffenheim, quando se incendiou sinagoga da cidade em novembro de 1938.

Eventos

Chamada de trabalhos para o Seminário #maraca70 nos dias 6 e 7 de outubro

Nos dias seis e sete de outubro de 2020, o Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME) irá comemorar o aniversário de 70 anos de inauguração do Estádio Mário Filho, o Maracanã. Para a ocasião, estamos organizando o IV Seminário Internacional do LEME. Na programação, estão previstas: mesas de debates, com a presença de renomados pesquisadores e jornalistas do âmbito esportivo; palestras de atletas que fizeram história neste que já foi o maior estádio do mundo; e ainda a apresentação de trabalhos de pesquisadores de todo o país.

Receberemos resumos expandidos de trabalhos de graduandos, graduados, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores de 11 de março até 31 de maio, divididos nos seguintes eixos temáticos:

GT1- Esporte, cidade e identidades

O esporte desempenha um papel fundamental tanto na construção quanto na afirmação de uma pluralidade de identidades que atuam dentro e fora de fronteiras territoriais. Essa relação com a territorialidade confirma a necessidade de compreensão do esporte como prática que se entrecruza com o espaço urbano, estabelecendo com ele, uma trama de relações e significados que põe em movimento o jogo das identidades em um contexto de tensionamentos entre o local e o global.

Coordenação: Carol Fontenelle

GT2- Mídia, esporte e representação

A mídia, gradualmente, se consolidou como um importante veículo mediador entre os esportes e o público, participando não apenas da circulação, mas também da produção de um vasto imaginário construído em diálogo com uma série de representações presentes dentro e fora do território esportivo. As representações produzidas são um material cuja análise pode nos possibilitar o acesso às tensões e às contradições dos valores e discursos que estão em jogo.

Coordenação: Álvaro do Cabo

GT3 – Estádios, arenas e os modos de torcer

A diversidade dos modos de torcer fomenta variadas possibilidades de construção identitária de torcedores e torcedoras nas arquibancadas. Essa pluralidade faz do ato de torcer um fenômeno complexo, muitas vezes, contraditório e que faz dele um locus de análise das reações, adaptações e resistência às mudanças ocorridas no cenário futebolístico, sobretudo, em diálogo com as transformações geradas pelo intenso processo de mercantilização e midiatização dos eventos esportivos.

Coordenação: Irlan Simões

Os trabalhos devem ter no mínimo 7.000 e no máximo 12.000 caracteres e necessitam estar no template do evento (clique no link para acessar) e devem ser enviados para o e-mail “seminariomaraca70@gmail.com”. Serão aceitos para análise resumos em Português ou Espanhol e que versem sobre um dos GTs. Não será possível o envio de um mesmo resumo ou de resumos diferentes para mais de um GT.

Em julho, iremos divulgar a lista de resumos aprovados e, para garantir a apresentação presencial dos trabalhos, será necessário o pagamento da taxa de inscrição:

Graduando – gratuito;

Graduados – R$ 20,00

Mestrandos, mestres e doutorandos – R$ 40,00

Doutores – R$ 50,00

Não será necessário o envio de trabalhos completos.

Apenas após a divulgação da lista de resumos aceitos, será necessário efetuar o pagamento da inscrição.

Obs.: Não haverá ajuda de custo para a participação presencial do evento.

 

Cronograma

11/03: início da submissão de trabalhos (resumo expandido)

31/05: data-limite para o envio dos resumos expandidos

02/07: resultado das avaliações dos resumos submetidos

04/09: data-limite para o pagamento das inscrições

06 e 07/10: realização do Seminário Internacional #maraca70

 

Programação Preliminar do IV Seminário Internacional #maraca70

1º dia – 06/10

Manhã – 10h às 12h – Visita guiada ao Maracanã (a confirmar)

Tarde – 14 às 17h – Apresentação de trabalhos acadêmicos

Noite – 18h às 20h – Conferência de abertura – “Narradores do Espetáculo”

 

2º dia – 07/10

Manhã – 10h às 12h – Mesa “Os artistas da bola e o Maracanã”

Tarde

14h às 15h30 –Mesa “O Maracanã na literatura e na arte”

16h às 17h30 – Mesa “Maracanã: patrimônio cultural e palco de megaeventos”

Noite – 18h às 20h – Mesa de Encerramento

Em breve, divulgaremos mais informações e a programação completa.

Siga o LEME no Instagram e Facebook (@lemeuerj) para ficar por dentro de tudo que estamos organizando para esse evento e outras informações sobre o laboratório.