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Continuidades heroicas do nacionalismo esportivo

Em meados de maio de 1924, poucos dias antes de viajar a Paris para participar dos Jogos Olímpicos daquele ano – que constituía a estreia argentina nesse evento – a equipe de esgrima foi homenageada no Jockey Clube.

Após várias lutas de exibição, Román López, o presidente da Federação Argentina de Esgrima, tomou a palavra para se despedir dos esgrimistas. Manifestou-lhes a esperança de que respondessem “como bons, com a vontade e a firmeza que vos caracteriza, à confiança que em vós depositamos”.

Fonte: turismo.buenosaires

Também lhes disse que teriam a missão de demonstrar “a fidalguia e vigor de nossa raça, dessa raça de valentes e abnegados que nos deu a pátria, o grito de liberdade e independência, lançado em 25 de maio de 1810”.

Agregou seu desejo de que “conquista[ssem] louros, para depositá-los ao seu regresso, ao pé do glorioso pavilhão azul e branco, símbolo sagrado da nacionalidade argentina”. Esse, manifestou antes de concluir seu discurso, seria “o melhor presente que podeis oferecer à pátria no 108º aniversário do juramento de sua independência”.

No mês passado, quase cem anos depois, a Associação de Futebol Argentino (AFA) agradeceu, por meio de um vídeo e “em nome de todo o povo argentino”, que Lothar Mattthäus doara a camisa que Diego Armando Maradona vestiu na final da Copa do Mundo de 1986. Matthäus e Maradona, capitães das seleções da Alemanha e da Argentina, respectivamente, haviam trocado suas camisas ao fim da partida.

Em um momento, a voz em off do vídeo diz: “Ouçam amigos o grito sagrado. Porque junto da bandeira que hasteou Belgrano, o sabre curvo com o qual cruzou San Martín, chegou a solo pátrio a armadura com a qual lutou até a morte Diego Armando Maradona”.

Estas frases acompanham imagens de homens jovens com a camisa nacional, dos jogadores argentinos festejando durante a final, de um menino balançando a bandeira argentina em uma aldeia supostamente cordilheirana, do sabre, da camisa de Maradona em uma vitrine e deste se benzendo e celebrando, vestindo-a.

É notório como os dois acontecimentos abertamente enlaçam o esporte com a luta independentista, com suas figuras culminantes e com a bandeira nacional, e como expõem aos esportistas como representantes do húmus autóctone.

Assim, ao início tanto do século XX como do século XXI, a nação argentina é, em boa medida, imaginada através do esporte, que, como postulou o antropólogo Eduardo Archetti, é uma das “zonas livres de uma cultura”, propensa à criatividade nacionalista. Embora na década de vinte do século passado o futebol permitisse uma módica presença de outros esportes na narrativa da identidade nacional; na atualidade, a sobrerrepresentação futebolística obtura essa possibilidade.

A narrativa que enlaça esporte e nação, proposta pela AFA e pelas forças do mercado, converge principalmente no futebol. Por outro lado, essa narrativa resgata e gira em torno de Maradona, mesmo em sua morte, convertido há décadas em um herói nacional – “valente e abnegado” na fórmula de López, e cruzado por alegrias e tristezas, paradas e recomeços, acertos e erros – junto a Belgrano e a San Martín. Depois de tudo, sua camisa é presenteada como uma armadura simbolicamente equivalente à bandeira criada por aquele e ao sabre utilizado por este.

Fonte: Globo Esporte.

Também é notório como os dois acontecimentos reforçam que a narrativa esportiva da nação tem sido eminentemente masculina. Não só não houve mulheres na equipe de esgrima que viajou a Paris para participar dos Jogos Olímpicos de 1924, nem em toda a delegação argentina no evento, pois López em seu discurso de despedida aos esgrimistas apontou que no agasalho “não falta a nota de distinção, elegância e beleza da dama argentina, hoje como ontem e como sempre, entusiasta e palpitante a todas as manifestações da vida nacional”. Entusiasta e palpitante, mas não participante.

Por sua vez, no vídeo da AFA as mulheres estão praticamente ausentes. Apesar de sua crescente, embora marcadamente modesta, visibilidade, o esporte feminino segue negligenciado. Nas palavras do sociólogo Pablo Alabarces, como a maioria das narrativas nacionalistas, a relação esporte e nação tem sido “produzida, reproduzida, protagonizada e administrada por homens”, em um exercício de poder que sustenta uma ordem heteropatriarcal.

Lamentavelmente, as desportistas não se permitem sonhar em converter-se em heroínas da nação.

Em uma estupenda nota publicada recentemente, o jornalista Ariel Scher indaga sobre as diversas posturas que os/as torcedores assumiram no desenlace do último campeonato masculino de futebol. Recorrendo a diversos/as especialistas em ciências sociais, enfatiza que os modos de ser torcedor têm variado durante a história do futebol argentino e que estes, com suas avaliações, têm sido naturalizados.

Além disso, ressalta que o posicionamento frente aos variados modos de ser torcedor envolve concepções sobre questões fundamentais como “a ideologia, as visões sobre a condição humana ou a interpretação de que é o que está em jogo neste jogo”. A nota convida a pensar a construção de sentido através do futebol e, de forma mais ampla, do esporte.

Nesse espírito, o velho discurso de López e a nova encenação da AFA manifestam, em conjunto, a estreita relação que os dirigentes esportivos têm articulado entre esporte e nação. Estes acontecimentos sugerem que a articulação dessa relação tem sido contínua, pelo menos, ao longo dos últimos cem anos. Parafraseando a Scher, a maneira que se desenvolveu o nacionalismo esportivo revela um aspecto proeminente do que tem estado em jogo no jogo.

Se as variações históricas dos modos de ser torcedor aludem a fraturas no ethos futebolístico, os dois acontecimentos demonstram uma continuidade na articulação da relação entre esporte e nação. Essa continuidade, com sua história e com suas peculiaridades, é uma construção de sentido, que, como insistiria Scher, deve ser interrogada e desnaturalizada.

Porque a narrativa do nacionalismo esportivo imperante, que supostamente amalgama, não é a única imaginável. No entanto, para imaginar alternativas, simbólicas e materiais, é preciso compreendê-la ou, como propõem os/as especialistas em ciências sociais, interpretá-la. Caso contrário, o status quo continuará a ser aceito e reproduzido como uma manifestação infalivelmente “natural”. E no âmbito social, o “natural” é uma aceitação acrítica do estabelecido como habitual.

Publicado originalmente publicado em relatores.com no dia 02 de novembro de 2022.

Tradução por: Júlio Barcellos e Leda Costa.

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O verde e amarelo volta à cena

Há alguns dias, pensando sobre qual seria o tema que abordaria nesse artigo, achei que gostaria de falar sobre um que tem me interessado particularmente nos últimos tempos: como os hábitos funcionam e, de que forma eles influenciam positivamente ou negativamente a vida das pessoas.

No entanto, há nove dias do início da Copa do Mundo Catar 2022, me senti compelida a abordar outro tema que tem movimentado bastante as redes nos últimos dias, aconvocação dos jogadores.

Com a internet os consumidores perderam a inibição e a cada dia se sentem mais à vontade para exercerem seu direito à liberdade de expressão nas plataformas digitais, inclusive o “jus sperniandi”, ou melhor, o direito de espernear.  Foi assim no último dia 7, depois do técnico Tite anunciar na sede da CBF a lista com os 26 jogadores que farão parte da seleção brasileira na Copa do Mundo. Como em convocações passadas, a lista sempre é motivo de polêmica. Dessa vez o alvo foi o lateral direito Daniel Alves, ex-jogador do Barcelona e atualmente no Pumas, do México, que ganha mais uma vez a oportunidade perdida em 2018 quando, por causa de uma lesão no joelho, não disputou a Copa do Mundo da Rússia.

No Twitter, a reação à convocação do jogador, que está treinando com o time B do Barcelona desde 12 de outubro pelo fato do Puma estar sem calendário de partidas, não demorou. Não faltaram discussões e memes, principalmente em alusão à idade do lateral-direito, que está com 39 anos. Em uma das imagens transmitidas, que viralizou na internet, um senhor pilotando uma scooter para idosos com a bandeira do Brasil parte pra cima de uma simpatizante petista. No texto que acompanha a imagem, “Daniel Alves dando carrinho no Mbappe em plena final da Copa do Mundo”, em alusão à suposta diferença de qualidade técnica em relação ao atacante Mbappé, um dos destaques da seleção francesa.

Outras imagens retiradas das manifestações políticas que geravam interações ininterruptas relacionadas a Lula e Bolsonaro no Twitter também foram aproveitadas nas postagens, que ultrapassaram a marca de um milhão de respostas. Numa delas, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, é convocado para impedir a ida de Daniel Alves para o Catar. 

Na imagem abaixo, o motivo do protesto do homem no caminhão que já tinha movimentado as redes, passa a ser a convocação de Daniel Alves que, em 2021, ajudou Brasil a conquistar o ouro olímpico participando de todos os jogos e com uma atuação importante como capitão e líder do grupo. Além disso, com 42 conquistas, é o maior campeão da história do futebol. O que remete aos limites tênues existentes entre heróis e vilões no futebol ressaltados pela pesquisadora Leda Maria da Costa.

“Tanto a derrota quanto a vitória podem filtrar nossa opinião acerca de uma determinada jogada e de um determinado jogador. E os vilões nascem em meio ao turbilhão provocado por uma derrota (COSTA, 2008, p.12)”.

A vitória de Lula nas urnas talvez tenha contribuído, em parte, para a revolta da opinião pública em relação à convocação de Daniel Alves, que chegou a declarar publicamente apoio à candidatura derrotada à reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Polêmicas à parte, a convocação e a proximidade da estreia da seleção brasileira tirou momentaneamente o foco na divisão existente na sociedade. O atual  hábito de polarização que era comum entre os nossos antepassados, cuja sobrevivência dependia da lealdade e de tratar adversários como inimigos mortais, numa democracia, pelo menos teoricamente, deveria ter sido substituído  pelo diálogo e pelo convencimento através de propostas claras. No entanto, orientadas por algoritmos, as próprias redes sociais fomentam esse e outros tipos de violência.

A partir de Pariser (2011), recorre-se a terminologia de “filtros-bolha”, que permitem apenas que determinados conteúdos circulem criando uma percepção falsa de Espaço Público e opinião pública onde, teoricamente, “todos” falam e a “maioria concorda”. Nesse sentido, Tite demonstrou em resposta às perguntas feitas durante a coletiva em que anunciou os convocados, um certo desdém em relação a essa maioria que movimenta as redes sociais.

Em conformidade com esse pensamento, Byung-Chul Han defende em entrevista ao jornal El País de Barcelona que a comunicação global contemporânea só tolera os iguais:

 “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!” (HAN, 2018, online).

Como disse o presidente eleito, talvez seja o momento, de diminuir a violência para com quem pensa diferente e substituir o hábito de vestir a camisa verde-amarela para fomentar disputas ou questionamentos em relação ao resultado das eleições, por outro mais saudável, o de torcer pelo hexa, pelo espírito de liderança de Daniel Alves e pela manutenção da democracia no país.

Referências

COSTA, Leda Maria da. A trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo.  Tese (doutorado), Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Letras, 2008.

HAN, B-C. Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”. [Entrevista concedida a] Carles Geli. Jornal El País, Barcelona, 7 de fevereiro de 2018.

PARISER, Eli. The filter bubble: what the internet is hiding from you, 2011. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=-FWO0puw3nYC&oi=fnd&pg=PT3&dq=Parisier+2011&ots=g5MuBmtRW_&sig=te_T1BjCRl9wT4upZonKkyIVF0w#v=onepage&q=Parisier%202011&f=false

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Papai-Noel não deixou o meu presente de Natal.

Pense em uma criança de oito anos, quase nove que, sem querer, acabou descobrindo que o Papai Noel não existe. Os seus parentes contaram uma história extremamente convincente sobre um homem do Polo Norte, que, milagrosamente, com a ajuda de seus elfos mirabolantes e suas majestosas renas, conseguia distribuir presentes para todas as crianças do mundo em apenas uma noite. Era muito bem contado, a criança não teve culpa, mas, mesmo assim, ela se sente culpada, enganada, sua confiança foi traída, Papai Noel era uma fantasia e não uma figura mágica e admirável, aqueles que a criança mais admirava mentiram pra ela. Como ela poderia confiar em alguém de novo? 

Nessa história, Lance Armstrong assumiria o papel dos “pais”, que elaboraram a história falsa, já a sua figura de ídolo do ciclismo assumiria o papel do “Papai Noel”, pois, infelizmente, Lance não era um ídolo de verdade.  Já os “elfos” e as “renas” representavam os anabolizantes e remédios consumidos pelo atleta, que o ajudaram a realizar grandes feitos fraudulentos de carreira e, a “criança”, bom, essa representaria todos os grandes fãs do ciclista, que foram enganados e ludibriados por Lance ao serem convencidos de que ele era um herói, quando, na verdade, esse herói não existia. 

Fonte da imagem: UOL

Essa questão se liga diretamente à idolatria, pois, a partir do momento em que determinados indivíduos passam a ser vistos como atletas brilhantes, incorruptíveis e inigualáveis, eles acabam atingindo uma posição de intocabilidade onde passam a ser tratados como seres perfeitos, que não cometem deslizes técnicos nas competições e que, também, nunca apresentam uma má índole. Contudo, não é bem assim, pois os ídolos ainda são humanos e estes não estão nem um pouco perto desse hiper-idealizada  perfeição. 

Lance Armstrong, o nosso “Papai-Noel”, era uma figura quase religiosa para os fãs do ciclismo. O  atleta ganhou o Tour de France sete vezes seguidas de 1999 até 2005, depois de se recuperar de um câncer muito agressivo, consagrando-se como o atleta mais vitorioso da competição francesa. Anos depois, em 2012, para a infelicidade e decepção dos fãs, foi comprovado que o atleta fazia uso de substâncias ilícitas desde 1995 e, com isso, Lance foi expulso do ciclismo por doping e teve que devolver todos os seus troféus do Tour de France. Contudo, mesmo com a confirmação do uso de substâncias ilícitas, o atleta só admitiu o doping em 2013, durante uma entrevista.

Agora, tente mensurar o espanto dos fãs de Lance Armstrong ao descobrirem que o seu ídolo, um homem que lutou contra uma doença devastadora e que recuperou o seu lugar no ciclismo, era,  na verdade, um indivíduo que ignorava as principais regras do esporte  para ter um melhor rendimento e sucesso? Surge um arrependimento, um sentimento amargo que desmotiva o fã a admirar o esporte, mas que não deveria ser assim. Não é um problema ter ídolos, eles motivam os espectadores, são fontes de inspiração, o problema é quando se confia neles sem precedentes, sem levar em conta que são humanos e que podem vir a cometer erros extremamente decepcionantes como qualquer outro indivíduo. 

Em uma cena do filme de comédia “Com a bola toda”, de 2004, dirigido por Rawson Marshall Thurber, Peter, personagem principal interpretado por Vince Vaughn, decide não jogar a final de um torneio de Dodgeball e abandona o seu time inesperadamente. A escolha acaba deixando Peter muito pensativo e, com o intuito de se distrair e se desestressar, ele decide ir a um bar, porém, para a surpresa do personagem e do espectador, uma visita desinteressante à um bar acaba se tornando em um  encontro inesperado e inspirador, pois, bem ao lado de Peter, surge Lance Armstrong, o “herói” do ciclismo. 

Na cena, Lance afirma ser um grande fã do time de Peter, deixando o personagem muito surpreso e lisonjeado pelo carinho. Contudo, ao descobrir sobre a desistência, Lance se mostra muito decepcionado e faz de sua história de superação e reinserção no esporte um artifício para convencer Peter a não abandonar o torneio, afirmando que a desistência dura para sempre. O argumento acaba deixando o homem muito mexido e, após se despedir do ciclista, Peter sai do bar, vai em direção a partida, volta para o seu time e conquista a final do torneio de Dodgeball. E, tudo isso, devido à ajuda do grande ídolo do esporte Lance Armstrong.

 Ao pesquisar, encontrei essa cena em um canal do Youtube e identifiquei alguns comentários que chamaram a minha atenção. Um deles foi publicado em 2011, – antes da farsa do ciclista ser descoberta – por um usuário chamado “LuisTrivelatto”. Em primeiro lugar, o usuário começa reproduzindo uma frase de Lance: “Dor é temporária. Desistência é para sempre” e, em seguida, ele faz uma afirmação sobre o ciclista: “Que herói, um exemplo de pessoa. Vai Lance!!”.

Fonte da imagem: YouTube

 Já em um outro comentário do vídeo, publicado pelo usuário “Liga DQ”, em 2018 – já após toda a fraude ter sido descoberta – , contém a seguinte afirmação: “Conselho legal da maior fraude da história do esporte americano”.

Fonte da imagem: YouTube

 Esses comentários sintetizam muito bem a frase “envelheceu mal”, pois, devido à descoberta da trapaça, pôde-se notar uma alta quebra de expectativa em torno de Lance Armstrong. A sua imagem foi desconstruída e, a mensagem que ele passava sobre superação e perseverança, passou a ser interpretada como a representação da fraude, da farsa e da desonestidade. 

Dentre os comentários da publicação, uma postagem foi responsável por chamar a minha atenção, fazendo com que a “criança” da história de “Papai-Noel” pudesse ser  enxergada com outros olhos. O comentário em questão foi postado por “DangerNoodle”, em 2012 – ano em que Lance foi acusado de doping – e reproduz a seguinte frase: “Nunca foi provado, ele nunca falhou em um teste. São apenas outros competidores e seus apoiadores lançando acusações contra ele porque são péssimos perdedores. Pelo menos, essa deve ser a razão, já que, como eu disse, ele nunca falhou em nenhum teste de drogas.”

Fonte da imagem: YouTube

Esse comentário fez com que eu calculasse um novo cenário: a da “criança teimosa”. E, se por um acaso, a criança ouvisse que o Papai Noel não existe, mas, mesmo assim, escolhesse se prender à mentira e fechasse os olhos para a verdade? Existem provas, existem explicações que mostram a veracidade dos fatos, mas é como se isso tudo não importasse, para a criança, o herói existe e ponto final. Infelizmente, no mundo dos ídolos, isso é muito recorrente. Muitos pseudo-ídolos não mereciam mais o título que um dia lhes parecia cabível, mas, mesmo assim, para alguns indivíduos, o heroísmo não se dissolve, para eles, o gosto da mentira parece ser mais tentador do que a verdade. Às vezes acaba sendo muito difícil dizer adeus.

Lance não era merecedor dos títulos, mas, para o fã do comentário que o defendeu, as provas de nada bastavam. E a farsa? Bom, para ele, Lance não era um farsante e seus inimigos invejosos e calculistas, apenas criaram toda uma história. Mas então, como resolver esse problema, como abrir os olhos daqueles que não querem olhar para o rosto que está atrás da máscara? Como quebrar idolatrias fajutas? Sobre isso, não há muito o que se fazer além de, SEMPRE, reforçar a verdade. Independente do número de prêmios, independente da fama e da glória injustamente conquistados,  devemos sempre expor os farsantes, tanto do esporte, quanto de outras esferas sociais, temos de educar as crianças teimosas e fazê-las entender o que é real e o que é fantasia.

Pode-se afirmar então que, a partir do momento em que os erros são vistos como uma  possibilidade, será levado em conta o fato de que, sim, é possível ter ídolos, não é necessário estabelecer iconoclastias severas, contudo, é preciso  entender que a idolatria tem um limite e que os grandes heróis de hoje, podem ser os grandes vilões de amanhã. Além disso, é preciso prestar atenção no fato de que podemos ser as próximas crianças a descobrir que o Papai-Noel não existe, ou, infelizmente, podemos ser as crianças teimosas que não querem acreditar. E, justamente por isso, devemos estar sempre prontos, pois não sabemos quando a magia pode acabar.

REFERÊNCIAS:

AGNESLECOACHING. “Quitting” in Dodgeball – Lance Armstrong. YouTube, 25 de fev. de 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jGtfpzT4Lqw&t=1s. Acesso em: 27 out. 2022.

COM A BOLA TODA; Direção: Rawson Marshall Thurber. Produção: Red Hour Films. Estados Unidos: 20th Century Fox, 2004. 1 DVD (92 min.).

ROAN, Dan. Banido do ciclismo por doping, Lance Armstrong diz: ‘Faria tudo de novo. Disponível em:       https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/01/150126_lance_armstrong_entrevista_rm.  Acesso em: 28 out. 2022.

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 58 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo oitavo episódio é a “A profissionalização do futebol no Brasil”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Abner Rey, gravamos com Marcelo Proni, professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas e doutor em Educação Física também pela UNICAMP.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Siri jogando bola”, de Luiz Gonzaga.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Filipe Mostaro
Apresentação: Filipe Mostaro e Abner Rey
Convidado: Marcelo Proni

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Um convite para a leitura do artigo “Esporte, comunicação e sociologia: uma leitura da trajetória acadêmica e da produção intelectual de Ronaldo Helal”

Não são muitos os autores e pesquisadores que têm sua trajetória acadêmica transformada em objeto de análise e homenagem. Pelo menos na tradição acadêmica brasileira, não é comum esse tipo de registro e quando ocorre, sua motivação, além da excelência da pesquisa, se dá por ocasião de aposentadoria ou mesmo falecimento.

Ocorre que Ronaldo Helal está vivíssimo, intelectualmente atuante e atento à pátria que tem calçado chuteiras cada vez menores.[1] Ronaldo segue em sala de aula formando novas gerações pensantes. E segue devotando ao Flamengo, o amor de um torcedor empedernido.

Uma das principais forças de uma obra ou de um conjunto de obras reside na sua originalidade e na sua capacidade de inspirar outros trabalhos construídos a partir do diálogo de ideias, da admiração e da gratidão intelectual.

Não é grande a lista de autores que consegue desempenhar esse papel em determinado campo do conhecimento.

Ronaldo Helal é um deles.

Fonte: Pinterest.

Sua produtividade acadêmica está longe de acabar e sua trajetória, até o momento, é bastante rica significativa. No campo dos estudos sobre esporte e sua relação com os meios de comunicação de massa, algumas de suas obras assumem um papel, eu diria vanguardista.

Suas análises, tendo como centro o papel dos meios de comunicação de massa, deram um novo fôlego aos estudos das relações entre identidade nacional e futebol, em especial, sobre seleção brasileira e as Copas do Mundo. Não somente. O trabalho de Ronaldo também possibilitou que o campo da Comunicação pudesse se renovar ao encontrar nos esportes novas possibilidades de pesquisas centradas em um dos mais importantes fenômenos culturais do Brasil.

São, portanto, sólidos os motivos que levaram o historiador Bernardo Buarque de Hollanda a compor o artigo “Esporte, comunicação e sociologia: uma leitura da trajetória acadêmica e da produção intelectual de Ronaldo Helal” publicado na revista Alceu[2].

Nesse artigo, a vida acadêmica de Ronaldo é compreendida a partir da perspectiva da “viagem como vocação”[3] o que sinaliza para o fato de que sua produção faz do deslocamento geográfico, para além das fronteiras nacionais, um meio de olhar o “país de fora para dentro” como já o fizera importantes intérpretes do Brasil.

É certo que não necessariamente uma viagem para fora do país resulta em uma renovação de perspectiva a respeito daquilo que nos rodeia. É possível ter esse tipo de perspectiva sem sequer sair de nosso próprio quarto ao estilo de Xavier de Maistre, romancista que inspirou fortemente Machado de Assis, autor que literariamente interpretou de modo profundo o Brasil sem nunca dele ter saído.

O olhar de fora para dentro implica não somente o deslocamento físico, mas é fundamental a sua conjugação com um movimento intelectual de tornar estranho aquilo que nos é familiar e de transformar em familiar aquilo que nos era estranho. Esse movimento marca o itinerário da produção de Ronaldo Helal e sua própria visão pessoal de mundo, inquieta, problematizadora, mas fundamentalmente generosa em reconhecer que o conhecimento é feito de processos marcados pela dinâmica da contradição e da necessária renovação do pensamento crítico.

A formação acadêmica de Ronaldo foi construída na frequência a instituições de pesquisa internacionais nas quais teve contato com um importante contexto de produção de estudos acerca do fenômeno esportivo. Somado a esse material, é de se destacar o diálogo permanente com instigantes interlocutores alguns dos quais construiu uma longa história de amizade.   

A produção de Ronaldo é derivada de sua vocação para fazer da viagem uma fonte de formação intelectual e humana. Vocação que pode ser colocada em prática graças ao apoio institucional da UERJ, universidade na qual leciona há 35 anos, e às agências públicas de fomento FAPERJ, CAPES e CNPq.

Termino aqui convidando você a ler o artigo Esporte, comunicação e sociologia: uma leitura da trajetória acadêmica e da produção intelectual de Ronaldo Helal publicado na revista Alceu.


[1] Faço referência a uma a uma frase dita por Hugo Lovisolo em entrevista para o jornal O Globo em 2001.

[2] Link para o artigo: http://revistaalceu.com.puc-rio.br/index.php/alceu/article/download/267/309

[3] Termo criado por pela antropóloga Fernanda Peixoto e utilizada por Bernardo Buarque de Hollanda no artigo em questão

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“Futebol na sala de aula”, de Lívia Gonçalves Magalhães e Rosana da Câmara Teixeira

Dos jogos de várzea ao espetáculo televisivo, é difícil caminharmos pelas ruas do Brasil sem
notar a presença do futebol. É muito importante que essa força comunicativa do futebol seja, também, levada às salas de aula. Essa é a proposta que fundamenta a coletânea de artigos reunidos no livro Futebol na sala de aula, organizado pelas pesquisadoras Lívia Gonçalves Magalhães e Rosana da Câmara Teixeira, duas referências nos estudos sobre futebol no Brasil.

Movidas por paixões clubísticas opostas (quais seriam?), Lívia Magalhães e Rosana da Câmara Teixeira assinam a organização de um livro que eu chamaria de generoso, a começar pela sua proposta inclusiva de democratização de acesso à produção de conhecimento do campo acadêmico.

Fonte: Eduff

A obra é generosa na sua composição, pois reúne autores e autoras de áreas diversas que se
debruçaram sobre a tentativa de fazer do fenômeno futebolístico uma fonte de diálogo e
inspiração para a abordagem, em sala de aula, de assuntos que percorrem o cotidiano de
alunos e alunas do país inteiro.

A sua generosidade é dedicada à memória da antropóloga Simoni Guedes e do geógrafo Gilmar Mascarenhas, de quem fomos alunos nas salas de aula da vida e que nos deixaram valiosos legados no campo acadêmico. Além dessa homenagem, o livro traz textos desses autores que chegaram a acompanhar parte do processo de elaboração da obra.

O prefácio de Futebol na sala de aula é de José Sérgio Leite Lopes e a orelha de Luiz Antônio Simas. Ambos nos dão as boas-vindas a um livro escrito durante a pandemia de Covid-19, e que nos chega em um momento no qual é imperativo construirmos uma sociedade movida pela educação. Educação pensada e praticada como um processo amplo, complexo e cujo sentido nunca será definitivo, pois está em constante construção.

Segue abaixo uma prévia do livro:

PRELIMINAR
Cidadania e legado em debate – Gilmar Mascarenhas

Perseguindo um sonho: a profissionalização de jogadores e jogadoras no futebol – Simoni Lahud Guedes

PRIMEIRO TEMPO

Futebol e Relações Internacionais: o “rude esporte bretão” em tempos de paz e de guerra – Adriano de Freixo

Futebol e literatura no Brasil: um caso crônico – Bernardo Buarque de Hollanda e Marcelino Rodrigues da Silva

Futebol e ensino: ditaduras e autoritarismo no Brasil e na Argentina (1970-1978) – Lívia Gonçalves Magalhães

O futebol no Rio de Janeiro e os projetos de modernização no Brasil Republicano (1902-1945) – Renato Soares Coutinho

História oral e futebol – Sérgio Settani Giglio e Marcel Diego Tonini

SEGUNDO TEMPO

No campo das torcidas organizadas de futebol: interações sociais e aprendizagens – Felipe Tavares Paes Lopes e Rosana da Câmara Teixeira

Violência verbal e a performatividade de gênero no currículo de masculinidade dos torcedores de estádio de futebol em questão – Gustavo Andrada Bandeira e Fernando Seffner

Futebol e gênero: o som do machismo e da homofobia que vem das arquibancadas – Leda Maria da Costa

Ditadura civil-militar e homossexualidades transgressoras: o caso da torcida Coligay – Luiza Aguiar dos Anjos

Do Kanjire ao futebol: dinâmica dos “jogos de guerra” no tempo entre os Kaingang – José Ronaldo Mendonça Fassheber

O futebol como espelho da sociedade brasileira: o que as quatro linhas podem nos ensinar sobre relações raciais no Brasil – Rolf Malungo de Souza

O futebol nas aulas de educação física para além da bola rolando – Silvio Ricardo da Silva, Luiz Gustavo Nicácio e Priscila Augusta Ferreira Campos

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Resenha crítica sobre “The Queen of Basketball”

Por Hugo Lage, Jean Ferreira e Rodrigo de Araújo.

Uma obra necessária. Talvez essa seja a melhor definição para o documentário “The Queen of Basketball” (A rainha do basquete), obra dirigida por Ben Proudfoot e com Stephen Curry e Shaquille O’Neal como produtores executivos, ambos astros da NBA. Além deste documentário, Proudfoot também co-dirigiu o “A Concerto in Conversation”, duas obras com algumas semelhanças, especialmente ao tratar de pessoas negras que conseguiram superar as gigantes barreiras raciais nos EUA dos anos 50 e 60.

Para quem gosta de esportes, especialmente o basquete, o filme “The Queen of Basketball” é fundamental para entender o papel de Lusia Harris, uma das pioneiras do basquete feminino nos EUA. Única mulher convidada para ser jogadora de um time da NBA, Lucy, como era carinhosamente chamada, tem uma história que merece ser exaltada. Esse é um ponto de destaque do filme. Suas glórias esportivas como o tricampeonato nacional na universidade, o chamado da NBA, o fato de ter feito a primeira cesta nos jogos olímpicos em sua modalidade e a prata na mesma edição. Todas são conquistas que merecem celebração.

Na linha do que argumenta Goulart (2018), o documentário se aproveita da nostalgia para criar uma narrativa na qual seleciona momentos de alegria e felicidade. É a seletividade do passado. Não há, necessariamente, um mal nisso, tendo em vista que o passado é contado e reconstruído diversas vezes. Vale ressaltar que, no âmbito esportivo, a escolha da direção em ocultar momentos ruins é nítida. Nas cenas de lances de jogos, Lucy não comete erros, ela sempre pontua e é o destaque das partidas. Entendendo que até uma jogadora do mais alto nível como ela comete erros, é importante destacar essa escolha do filme.

Apontar essa questão não é uma forma de desmerecer a história da protagonista. Lusia, uma mulher negra estadunidense, venceu. Em uma sociedade marcada pelo racismo, na qual os negros só tiveram direito a voto na década de 1960, e também na qual o Ensino Superior não é público, Lusia se graduou. Seus filhos também conseguiram diploma de nível superior. Toda sua família entrou na Universidade.   

Outro ponto relevante na construção narrativa nostálgica é que quando o time perdia, os vídeos mostrados eram apenas das companheiras de Lucy errando. Isso acaba criando uma aura quase divina para a protagonista, como se ela não errasse. Vale destacar um silêncio na parte esportiva do documentário. Nas Olimpíadas de 1976, a seleção americana ficou com a prata, e quem ganhou a final foi a URSS, rival política, econômica e esportiva durante a Guerra Fria. Para não estragar o sentimento nostálgico, o filme opta por não nomear esse fato.

Em outro momento da narrativa que remete ao passado, Lusia mostra fotos antigas, reportagens e vídeos falando sobre o passado dela. A discussão em torno dos grandes momentos da vida de Lucy no basquete é traçada em uma conversa bastante carismática, O resgate da carreira de da protagonista vai além da identificação dela como a primeira mulher negra a entrar no hall da fama dentro do esporte. Mostra, da mesma forma a compreensão de sua atuação nas Olimpíadas e jogos importantes. 

Fonte: JustWatch

Não se atendo apenas as  histórias de Lucy, o filme também conta com imagens de lendas da NBA. Em diversos momentos, são mostrados jogadores como Magic Johnson, Larry Bird, Michael Jordan, Wilt Chamberlain, Kareem Abdul-Jabbar, Oscar Robertson. Mesmo que de forma indireta, só com a presença dessas figuras, a memória coletiva, aqui não sendo algo negativo e repressor (POLLAK, 1989), é reavivada. Para os fãs da modalidade, ao ver essas imagens e perceberem que Lucy tinha nível para estar no mesmo patamar esportivo dessas estrelas, só aumenta a estima e a valorização dela.

Em outra face do documentário, Lucy trata da sua vida pessoal. Ela revela que tem um problema de saúde, a bipolaridade. Contudo, nada parece que pode impedi-la de ter sucesso. Mesmo  não seguindo carreira profissional, pela ausência de uma liga de basquete feminino, não conseguindo um emprego logo de cara, o tom do documentário ainda consegue se manter positivo. Logo em seguida, ela fala que seus maiores sucessos são sua família e a educação. Lucy argumenta que faria tudo de novo, não se arrepende de nada do que fez. Mais uma vez, o elemento nostálgico é reforçado. Aqui, o passado é visto como um caminho que deveria ter acontecido, mesmo com percalços, pois, no final, deu tudo certo.

Apesar de ser um ótimo filme, há questões que causaram incômodo. Uma obra que fala de uma mulher negra nos EUA dos anos 60 quase ignorar o racismo é bastante estranha. Ainda que tenha sido comentado indiretamente, como na cena em que Lucy fala ser a única atleta negra da universidade, pouco se aborda sobre esse tema tão importante. Parece ser uma opção da narrativa para tentar não ter episódios tristes e tirar o clima positivo da nostalgia. O machismo é melhor tratado quando a protagonista comenta sobre não poder continuar sua carreira pela falta de uma liga feminina profissional, ou pelo fato dos atletas homens estarem ricos, e ela não. No entanto, ao final, o filme os coloca no mesmo nível, visto que todos acabaram indo para o Hall da Fama do basquete.

Ao analisar “The Queen Of Basketball”, juntamente com a leitura do artigo “Mercado da nostalgia e narrativas audiovisuais” (GOULART, 2018), a sensação é de que o mercado para se vender memórias é quase inesgotável. Com as ausências do filme, outro poderia ser feito usando uma perspectiva diferente que, ainda assim, fosse nostálgica. Talvez voltada para uma visão mais crítica da sociedade da época que Lucy jogou. As histórias podem ser contadas várias vezes e haverá consumidores. Há sabedoria no passado, que pode ser usada pelo mercado. 

Referências:

GOULART, Ana Paula. Mercado da nostalgia e narrativas audiovisuais. E-compós, Brasília, v. 21, n. 3, set/dez. 2018.

POLLAK, Michael. “Memória, esquecimento, silêncio.” Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989.

Artigos

As delegações olímpicas, a carne e a identidade nacional argentina

Depois de quase duas décadas de tentativas fracassadas, as elites argentinas conseguiram enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de 1924 em Paris. Rapidamente, as participações olímpicas argentinas se articularam, citando o antropólogo Eduardo Archetti, como “um espelho de onde se vê e é visto ao mesmo tempo”. Desta maneira, as andanças dos/as desportistas argentinos no estrangeiro construíam, disseminavam e afirmavam uma identidade nacional. Até meados dos anos cinquenta, a tipificação e a diferenciação nacional através das excursões olímpicas incluíram uma crescente relação com outro elemento central do sentimento coletivo de pertencimento argentino: a carne.

Dadas as dificuldades para estabelecer o Comitê Olímpico Argentino (COA) no ano anterior, a inexperiência da incipiente direção olímpica nacional e a estrutura dos Jogos Olímpicos, a conformação da delegação que viajou a Paris em 1924 esteve repleta de inconvenientes. Um destes ressaltaria, obliquamente, o papel da carne na vida nacional. Antes da partida à Europa, houve queixas porque o barco onde viajaram os esgrimistas e os remadores não contava com as acomodações necessárias para que chegassem em condições competitivas adequadas. Tratava-se de um barco frigorífico contratado por empresas do ramo “que deviam carregar seus porões com carnes congeladas”. O barco atrasou sua partida pelo processo de carga, embora o capitão tenha consentido instalar dois estandes de esgrima no convés e embarcar um aparato de treinamento de remo. Criticando o COA por sua falta de planejamento, Román López, presidente da Federação Argentina de Esgrima, manifestou: “Para viajar em um barco como o ‘Vasari’ é necessário ser um verdadeiro patriota”. Esse barco transportou, inesperadamente, duas marcas identitárias da nação argentina: desportistas e carne. 

Publicidade do Vasari (The Review of the River Plate, 10 de outubro de 1919, p. 952).
Vista do Vasari (Bulletin of the International Union of American Republics, junho de 1909, p. 1018).

A Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), instituição que substituiu o COA em 1927, também teve sérios inconvenientes, principalmente econômicos, para enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de 1928 em Amsterdã. Uma vez ali, a alimentação holandesa foi percebida como um obstáculo para a correta aclimatação dos desportistas. O capitão da equipe de luta declarou que os lutadores deveriam “acostumar seu organismo a mudança de alimentação, que entre parênteses não era grande coisa, em termos de variação e seu sabor, apesar de ser saudável”. Acrescentou: “Só o grande apetite que despertava o treinamento, fazia com que se ingerisse esta comida deficiente e monótona a que não está acostumada a maioria dos nossos atletas”. Ou seja, a delegação sentia saudades da comida “crioula” e possivelmente da carne, aspecto que a CADCOA tentaria corrigir no futuro.

Treinamento no convés de parte da delegação para os Jogos Olímpicos de 1928 em Amsterdã (Federico Dickens, Manual técnico de atletismo, 1946, sp).

Apesar da CADCOA ter lidado com numerosos problemas administrativos, econômicos e de condução relacionados à delegação nos Jogos Olímpicos de 1932 em Los Angeles, a alimentação não foi um deles. De fato, os desportistas parecem ter estado satisfeitos a respeito. Por exemplo, poucos dias antes que Juan Carlos Zabala ganhasse a medalha de ouro na maratona, Alejandro Stirling, seu treinador austríaco radicado na Argentina desde 1922, explicou que seu pupilo “come com grande apetite dois bifes no almoço e dois na janta” e que, além de treinar, lia e escutava discos “que lhe recordam a pátria distante”. O fulgurante triunfo do “nandú crioulo”, o apelido com que a crítica havia batizado Zabala, foi utilizado pela imprensa dominante para gerar imagens identitárias nacionais. Uma semana depois de ter ganhado a maratona, a delegação japonesa ofereceu uma festa em sua honra durante a qual lhe perguntaram por seu regime de treinamento e de alimentação. É de se supor que ressaltou os benefícios dos quatro bifes diários. 

Para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, a CADCOA, que havia ignorado a intenção argentina de boicotar o evento organizado pela Alemanha nazista, implementou medidas para que toda a delegação tivesse “carne na quantidade e da qualidade a que estavam habituados os atletas”. Por um lado, a CADCOA argumentou que a carne favorecia o rendimento esportivo. Por outro, afirmou que “constitui a base da alimentação de nossos desportistas”. É que a carne, como diria mais de cinco décadas depois o escritor Juan José Saer, “não é unicamente o alimento base dos argentinos, mas o núcleo de sua mitologia e inclusive de sua mística”. Em Berlim, esporte e carne sincretizaram a nação argentina e seu imaginário. Considerando “o sério inconveniente que supunha a insegurança de encontrar durante a viagem e na estadia na Alemanha” o precioso e significativo alimento, a CADCOA conseguiu que a Junta Nacional de Carnes, um órgão criado em 1933 para regular o mercado em questão, doasse quinze toneladas de carne. O regime alimentício da delegação recomendava entre 250 e 350 gramas de carne diários. De todas as maneiras, o maratonista Luis Oliva consumia 500 gramas de carne diários, “preferentemente assada”, aludindo, como assinalou o antropólogo Jeff Tobin, a “comida mais fortemente associada ao nacionalismo argentino”.

A CADCOA inclusive enviou um cozinheiro a Berlim, Arnoldo Damm. Graças a sua “arte culinária crioula”, na Vila Olímpica “qualquer um logo e gostosamente se esquece da cozinha alemã”.  Damm conseguiu que ali “se respirasse um ambiente do país alegre e confiante, sempre menos pesado e rígido que o ambiente germânico”. A dieta da delegação servia para afirmar o nacional e diferenciar-se do outro significante. Em uma “significativa cerimônia” ao terminar os Jogos Olímpicos, Alberto León, presidente da delegação, entregou 300 quintais de carne às autoridades municipais berlinenses para que se distribuíssem em hospitais e sociedades de beneficência. Essa carne, destacou León, “testemunha a amizade germano-argentina e a gratidão da Argentina pela acolhida que teve sua delegação”. Segundo a CADCOA, “o gesto foi elogiosamente comentado pelas autoridades e diários berlinenses”.

Membros da delegação para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim no refeitório nacional (La Nación, 21 de julho de 1936, p. 12).

Após a interrupção pela Segunda Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos voltaram a ser organizados em 1948 em Londres. A CADCOA enviou uma numerosa delegação, bancada pelo governo de Juan Domingo Perón. Ao se despedir do grupo, Perón pronunciou: “É uma imensa satisfação que o Governo teve ao apoiar este tipo de manifestação, e é somente o início desse apoio que temos de levar até limites que muitos não imaginavam ainda”. Também acrescentou: “Para o futuro, procuraremos organizar melhor essas viagens, para que os atletas argentinos cumpram sua missão com o mínimo de sacrifício e o máximo de proveito”. A delegação enviada a Londres contou com uma remessa de carne própria, visibilizada além das fronteiras argentinas. Assim, no Chile se perguntaram se o rendimento nacional teria sido tão destacado “se a equipe não tivesse levado toneladas de carne”. Além de seu efeito no rendimento esportivo, a carne foi utilizada para festejar as conquistas em Londres. De acordo com o Noticias Gráficas, Delfo Cabrera celebrou sua medalha de ouro na maratona com um “assado a la criolla, sobre a grama de um parque jamais pisado pelo mais insignificante piquenique”, que surpreendeu aos “fleumáticos ingleses”.

Quatro anos mais tarde, quando Perón se despediu dos/as desportistas rumo aos Jogos Olímpicos de Helsinki, declarou que para esse tipo de evento era conveniente transportar “um pedaço da República ao lugar onde se realizam [os Jogos]”. Dessa maneira, a delegação teria todo o necessário para render plenamente. Por isso, Perón achou “oportuno mandar um barco, como fazemos, para que essa seja nossa casa, onde haja carne argentina, comida argentina, e água argentina; sabemos que isso não nos faz mal e, se não é a melhor, é boa”. Perón acreditava que um regime alimentício baseado na carne não era “científico”. Entretanto, sua abundância na delegação manifestava a Nova Argentina, na qual o crescente poder aquisitivo fomentava o consumo de carne e o esporte era promovido em todos os seus níveis como nunca antes e nunca depois. 

Juan Domingo Perón subindo no barco que transportou a delegação para os Jogos Olímpicos de 1952 em Helsinki (Mundo Deportivo, 19 de junho de 1952, p. 22).

Em parte devido às mudanças estruturais nos Jogos Olímpicos, que requeriam aos/às participantes residir na Vila Olímpica durante o evento, a partir do golpe de Estado que derrubou Perón em 1955, as delegações deixaram de projetar uma marcada relação com a carne, que sintetizou a identidade nacional. Não obstante, essa relação permanece. Por exemplo, dias antes do começo dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, o COA, instituição que substituiu a CADCOA em 1956, ofereceu um churrasco aos/às desportistas “para demonstrar que estão com as forças necessárias para fazer um bom papel na China”. Por uma ou outra via, as delegações e a carne continuam condensadas, com maior ou menor força, naquilo que se imaginava como meio que tipifica e que diferencia a identidade nacional. 

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 17 de setembro de 2022.

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 57 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo sétimo episódio é a “Copa do mundo de 1962: a Copa do Rádio”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Júlio César Barcellos, gravamos com José Carlos Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru).

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Garrincha”, de Antonio Nóbrega.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Júlio César Barcellos e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Filipe Mostaro
Apresentação: Filipe Mostaro e Júlio César Barcellos
Convidado: José Carlos Marques