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Coordenador do LEME lança livro no Rio

O Clube de Regatas do Flamengo recebe na segunda-feira, dia 18, às 19h, um dos seus mais ilustres rubro-negros para o lançamento do livro Helal, uma paixão rubro-negra. Organizado pelo professor da UERJ e coordenador do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME), Ronaldo Helal, o livro conta a história de George Helal, pai de Ronaldo e ex-presidente do clube.

Helal, uma paixão rubro-negra chega às livrarias após três anos de projeto e traz entrevistas com ex-atletas, dirigentes, amigos e funcionários do clube. Em meio aos depoimentos, a tentativa de explicar como surgiu o amor deste norte-americano, naturalizado brasileiro, pelo Flamengo, desde os 13 anos de idade, quando ouviu o rubro-negro ser tricampeão carioca, em 1944.

Serviço

Lançamento do livro Helal, uma paixão rubro-negra
Dia: 18/11/2019
Horário: 19h
Local: Sede do Flamengo na Gávea (em frente ao museu)
Endereço: Av. Borges de Medeiros, 997, Lagoa, Rio de Janeiro.

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Está no ar o quarto episódio do podcast Passes e Impasses

Acesse o quarto episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer*, Apple PodcastsPocketCasts e Anchor.

O tema do nosso terceiro episódio é “Agora é com elas – chegou a vez das mulheres no futebol ”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Marina Mantuano, recebemos no nosso Leda Costa, professora visitante da UERJ e pesquisadora do LEME, e Talita Giudicce e Tiago Fernandes, criadores do blog Futebol é Coisa de Mulher.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quarto episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a música “Jogadeira”, criada em 2011, pela atacante Cacau, em parceria com Gabi Kivitz, que já foi jogadora e hoje é comunicóloga. Ao longo do programa, também trouxemos algumas referências bibliográficas, que listamos abaixo:

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro: Carol Fontenelle
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Marina Mantuano
Convidados: Leda Costa, Talita Giudicce e Tiago Fernandes

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Mulheres torcedoras: a busca por visibilidade em um ambiente marcante pela masculinidade

Quando o Ibercom (Congresso Iberoamericano de Comunicação) divulgou o tema para a edição deste ano, que acontece no final de novembro, em Bogotá (Colômbia), conversei com meu orientador de mestrado, Ronaldo Helal, sobre a possibilidade de escrevermos um artigo. O tema do congresso este ano é “Comunicação, violências e transições”, e eu, como torcedora e agora pesquisadora, observo o quanto este tema é urgente quando pensamos em futebol e representatividade das mulheres nas arquibancadas.

Fizemos um resumo, no qual abordamos a cobertura midiática referente ao tema e submetemos ao congresso.  Tendo a aprovação, fomos a campo entrevistar integrantes de torcidas organizadas (TOs). Para este pequeno post, apresento a vocês uma prévia das entrevistas com estas mulheres. Vamos denomina-las de acordo com os seus times: torcedora do Flamengo, integrante da Nação 12; do Fluminense, integrante da Garra Tricolor; da Ponte Preta, pertencente à Torcida Jovem Amor Maior; e do Remo, pertencente à torcida Camisa 33. Tentamos contato com integrantes de torcidas de diferentes estados, justamente para termos ideia se realmente a violência existia e se ela era um fenômeno regional. Todas as entrevistadas relataram histórias bem parecidas envolvendo assédio, abuso físico e abuso de poder.

As mulheres ficaram proibidas de jogar futebol pelo decreto lei 3.199, até 1979, quando ele foi revogado. Durante estes anos, restaram a elas jogarem de forma marginal ou irem às arquibancadas. Surgiram, assim, figuras marcantes do universo do futebol como Dulce Rosalina, primeira mulher presidente de uma torcida organizada, a TOV – Torcida Organizada do Vasco, em 1956. Ainda na década de 1950, o Corinthians tinha uma torcedora símbolo, Elisa, que chegou a ganhar ingresso permanente da Federação Paulista de Futebol. Em 1961, Dulce também ganha o concurso de melhor torcedor do país.

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Fonte: Casaca.

Naquela época, as torcedoras símbolo eram vistas quase como mães de jogadores, já que elas tinham participação ativa, frequentando treinos e aconselhando os atletas. De lá para cá, muitas outras mulheres estão presentes no universo do futebol e não com a mesma figura que Rosalina e Elisa. Elas tentam conquistar papel de destaque nas organizadas e participar ativamente do espetáculo realizado nas arquibancadas. “Em março, as meninas da minha torcida quiseram fazer uma ação sobre a semana da mulher. Torcedores de outros times e até do Remo disseram que ali não era lugar para a gente e queríamos era repercussão na internet”, conta a torcedora do clube do Pará.

Desta forma, percebemos que as mulheres não costumam ocupar cargos de liderança em torcidas justamente pelo ambiente ser predominantemente masculino e a maioria das TOs terem sido criadas por homens. A torcedora da Ponte-Preta também apontou o quanto é difícil para uma mulher estar em organizada: “Mulheres geralmente cuidam da responsabilidade social, do setor kids, das redes sociais e geralmente é com um homem na supervisão. Mulher em cargos de direção é muito raro. Só conheci três mulheres presidentes de torcida, vice-presidente não conheci nenhuma e diretora também não. Porque não se tem o entendimento que a mulher é como o cara. Na minha torcida, por exemplo, temos um espaço interessante. Não é perfeito, mas perto do que acontece por aí”. Ela afirma ainda que, em alguns casos, há também disputa entre as mulheres por espaço. “Quando o homem falha na organizada tudo bem, mas quando é mulher, falhou porque é mulher. É quase um mantra. A gente tem que se cuidar mais. Temos que nos policiar, a mulher que quer o progresso das mulheres tem que uma ajudar a outra”.

Além da busca de representatividade nas organizadas, as mulheres também querem respeito quando frequentam os estádios. “Quando a gente fala que é de organizada, acham que somos vagabundas por estarmos no meio de um monte de homem”, conta a torcedora do Flamengo. A torcedora do Fluminense traz ainda mais elementos do universo das arquibancadas. “Já tive cabelo e braços puxados, passada de mão no corpo, policial falando gracinha. Tem gente que acha que jogo é micareta e que as mulheres estão ali só para ‘pegar’ homem e não por gostar de futebol. Às vezes a gente tem que fingir que é namorada de outra menina para ir ao banheiro para ter um pouco de respeito quando estiver passando. Se a gente fala que tem namorado, eles dizem: ‘ué, cadê o namorado?’ Então é a primeira coisa que a gente faz para se proteger. Já cheguei a dar tranco em cara dizendo que minha amiga era minha namorada.  Mas quando os amigos ou namorado estão juntos,  respeitam muito mais”.

A torcedora do Remo apresentou um relato mais grave ainda: “uma conhecida recebeu bebida com algo e ela apagou no estacionamento do estádio depois de um jogo e acordou na vala. Mas ela afirma que não sofreu abuso sexual”, conta.

Podemos observar ainda que nem todas as torcedoras têm noção que sofrem preconceito e contribuem para este ambiente no qual os homens têm mais destaque. É como se elas estivessem gratas aos homens por terem algum espaço nas torcidas.  “Eu acredito que algumas meninas não têm sequer a consciência do tamanho do machismo que enfrentamos em uma organizada. Eu já ouvi frases do tipo: ‘se você fosse homem, poderia ser presidente da torcida’. Eu nunca almejei isto porque eu não tô disponível a suportar certas coisas, como ter que ficar provando as coisas para alguém o tempo todo. Já ouvi também ‘você é uma mulher que afronta um homem’. Quantas e quantas vezes ouvi: ‘E seu marido?’, ‘por que você não vai fazer o jantar para seu marido?’, ‘Ce é loko, se minha mulher fosse assim…’ Como se viajar com minha torcida fosse um adultério conjugal que precisava ser julgado, como nos tempos de Jesus no Oriente Médio,  que a mulher era apedrejada até a morte”, desabafa a torcedora da Ponte Preta.

As mulheres entrevistadas apresentaram ainda outros relatos sobre como são tratadas como consumidoras pelas marcas patrocinadoras dos clubes e deram mais detalhes dos seus papéis como torcedoras. Mas estas histórias vocês poderão ler em nosso artigo, que será publicado nos anais do congresso em breve. Nesta quarta (13/11), vocês podem ouvir o 4º episódio do podcast do LEME, o Passes e Impasses, disponível em todas as plataformas (Spotify, Deezer, iTunes), no qual o tema foi justamente as mulheres no futebol, com enfoque nas coberturas da mídia, na visibilidade das atletas e do quanto é difícil ser atleta, jornalista e torcedora.

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Fonte: Redação Mackenzie.
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Fonte: Justiça de Saia.
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Encontros LEME desta segunda adiado

Em virtude do estágio de alerta pelas fortes chuvas que atingem o Rio de Janeiro nesta segunda dia 11, informamos que a palestra de Vivian Fonseca nos Encontros LEME está adiada.
Em breve, daremos mais informações sobre nova data e horário.

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Linguagem, ser e futebol

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**/El Furgón

Há alguns meses o escritor e jornalista Mempo Giardinelli publicou uma nota no jornal matutino portenho Página 12 na qual lamentava o “empobrecimento e desnaturalização” da nossa língua. Tal deterioração – que inclui a crescente utilização de angliscismos desnecessários –, argumenta Giardinelli, é perigosa porque a língua de um povo é “sua mais poderosa marca de identidade”. Ou seja, a linguagem não somente nos permite pensar, comunicarmos e entendermos, mas, como também indica Giardinelli, é a maneira mais genuína de ser. Portanto, perder a língua – seja consentindo, ou pior ainda, atiçando sua distorção – equivale a perder a identidade (ou perder-se) como povo.

Coincidentemente, poucas semanas depois, o poeta e ensaísta Rodolfo Alonso publicou no mesmo matutino outra nota refletindo sobre a “desoladora prostituição da linguagem”. Alonso lamenta que na sociedade de consumo em que vivemos a linguagem se desvaloriza como eixo civilizacional, como “limiar irrevogável da condição humana”. Alonso ressalta a importância da linguagem afirmando que “não usamos a linguagem, somos a linguagem”. Dessa maneira, a língua cotidiana de uma comunidade constitui e define essa comunidade e seus membros. Tanto para Alonso como para Giardinelli, cultivar a língua implica em cultivar uma identidade, ser o que somos.

A ideia de que a linguagem e o ser estão intimamente entrelaçados tem ilustres defensores dos quais provavelmente se nutrem Giardinelli e Alonso. Um deles é o filósofo Martin Heidegger. Segunda uma famosa formulação da “Carta sobre o Humanismo”, escrita por Heidegger, “A linguagem é a casa do ser. Em sua morada habita o homem. Os pensadores e poetas são os guardiões dessa morada”. Sob essa posição, a linguagem permite a manifestação do ser. Existimos dizendo (fazendo uso da linguagem). Como diria Aristóteles, o ser humano é o ser com razão, com linguagem. Heidegger indicaria que ao utilizar a palavra, o ser acontece, aparece, e, portanto, reside na linguagem. Daí, a preocupação de Giardinelli e Alonso por sua deterioração, pois isto causa deterioração ou ao menos o impedimento, da manifestação plena do ser. Neste sentido, Heidegger adverte que a “devastação da linguagem, que se estende por todas as partes, […] nasce de uma ameaça contra a essência do [ser humano]”, que consiste em perguntar sobre o significado do mundo que habita e seu lugar nele.

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Beckenbauer e Cruyff. Fonte: Wikipedia Commons.

A preocupação de Heidegger com a linguagem e com o questionamento do significado do mundo e de nosso lugar nele próprio enquanto seres humanos (ou, parafraseando-o, para permitir que sejamos livremente dispostos na clareza do ser), é uma das dimensões mais populares do seu pensamento. Não tão conhecido é seu amor pelo futebol. Segundo Rüdiger Safranski, um de seus biógrafos mais importantes, durante sua infância em Messkirch, Heidegger foi um bom ponta esquerda. De volta à sua cidade natal, e entre os anos, Heidegger ia a casa de um vizinho para ver pela televisão partidas da Copa Europa (atualmente conhecida como Liga dos Campões). Sanfranski relata uma anedota que demonstra a importância do futebol para Heidegger. Um dia ele se encontrou em um trem com o diretor de teatro de Friburgo, em cuja universidade Heidegger havia estudado e ensinado. Ele estava determinado a falar sobre literatura e teatro, mas Heidegger, impactado com uma partida internacional recente, preferia falar sobre Franz Beckenbauer. Heidegger, inclusive, tentou demonstrar a delicadeza do jovem defensor diante de seu espantado interlocutor. De fato, para Heidegger, Beckenbauer era um jogador inspirado e invulnerável.

Heidegger não considerou se o ser pode habitar no futebol. No entanto, a partir da análise heideggeriana da relação entre linguagem e ser, assim como de sua paixão pelo futebol, é possível sugerir que esse é o caso. A chave está em conceber o futebol como linguagem, como meio pelo qual tentamos responder à pergunta sobre o significado de nossa existência no mundo. O escritor e cineasta Pier Paolo Pasolini se posiciona entre os que afirmam que o futebol “é um idioma com seus poetas e prosadores”. Se uma língua é um sistema de sinais – assinala Pasolini – o futebol é um sistema de sinais não-verbais. Para ele, a pessoa que desconhece “o código do futebol [seus sinais não-verbais] não entende o ‘significado’ de suas palavras (os passes) nem o sentido de seu discurso (um conjunto de passes)”. Pasolini ressalta que as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque assim são as possibilidades de combinação de passes em um jogo. A sintaxe, continua, “se expressa na ‘partida’, que é um autêntico discurso dramático”. À sintaxe, deve ser acrescentada a pragmática, pois o discurso incorporado no futebol recebe sentido apenas levando em consideração o relacionamento com os demais participantes, os espectadores e suas circunstâncias.

Muitas personalidades proeminentes consideram o futebol não apenas como um idioma, mas como um idioma ecumênico. O jornalista Jean Eskenasi sustenta que “O único denominador comum a todo o mudo, o único esperanto universal, é o futebol. É uma linguagem universal, cuja gramática não muda do Polo Norte ao Equador; que é falado em cada esquina com seu sotaque particular”. Tambén o escritor Fredrik Ekelund denomina o futebol como o “esperanto do pé”, e seu colega Mario Vargas Llosa acredita que é “o esperanto de nosso tempo”. Por sua vez, Eduardo Galeano, amante das letras e do esporte, afirma que “o futebol é um idioma universal”. Ainda que possa ser exagerado afirmar que o futebol é o único idioma universal, considerando a extensão de sua prática e o imenso apego pela mesma, não parece exagerado considerá-lo como uma linguagem ecumênica.

Como linguagem ecumênica, o futebol responde à pergunta sobre o sentido do ser e pode ser entendido como morada do ser. Damos conta de quem somos praticando futebol. Ao fazê-lo, o ser acontece, aparece e, portanto, vive no futebol. Seus poetas e prosistas – na realidade, todos os seus cultivadores e seguidores – são os guardiões dessa morada. Assim, deveríamos nos preocupar com a degradação do futebol tanto como Giardinelli e Alonso se preocupam com a deterioração da linguagem. Um futebol deteriorado e mal jogado ameaça uma maneira fabulosa de entendermos e comunicarmos, de identificarmos e de ser.

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Fonte: Flickr

Essa perspectiva permite compreender completamente uma confissão de Galeano feita há mais de duas décadas em razão do jogo triste, simples e medroso que ele acreditava ter sido incentivado pela tecnocracia do futebol profissional. “Passados os anos, e em longo prazo, acabei assumindo minha identidade: Eu não sou nada mais que um mendigo do bom futebol”. Mendigava pela plena manifestação do ser por meio do futebol; reivindicava o futebol para ser plenamente. Pode-se aduzir, parafraseando Heidegger, que, para Galeano, os jogadores, através de suas (boas) jogadas, levam a manifestação de ser ao futebol e o guardam lá. Por isso, celebramos, e esperamos, o futebol de jogadores excepcionais como Lionel Messi e Marta Vieira, Kylian Mbappé e Megan Rapinoe, entre muitos outros. Eles nos lembram, com seu alto desempenho, que, novamente segundo Heidegger, a verdade de ser também se manifesta no e através do futebol. E isso sugere, ou até indica, que temos uma responsabilidade ética e estética de enriquecer a linguagem que o futebol é.

* Texto originalmente publicado em El Fúrgon no dia 3 de novembro de 2019.

**Doutor em filosofia e história do esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

**Doutor em filosofia. Professor na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park)

Tradução livre: Fausto Amaro e Marina Mantuano (LEME/UERJ)

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O senso comum no jornalismo esportivo

Após a conclusão da nona rodada do Campeonato Brasileiro, com o Palmeiras liderando a competição invicto e com cinco pontos de vantagem sobre o segundo colocado, o Santos, e oito pontos sobre o terceiro, o Flamengo, o comentarista da Fox Esportes Fábio Sormani indagou, durante o programa Fox Sports: “Tem competição neste campeonato?” Para, em seguida, ele mesmo decretar: “Acho que não. Acho que o Palmeiras só perde este campeonato para ele mesmo”.

Apenas três rodadas depois, o Santos, abriu dois pontos de vantagem sobre o então campeão virtual, assumindo a liderança, condição que, quatro rodadas adiante, seria tomada pelo Flamengo. O exemplo, longe de inédito, constitui-se em caso exemplar da subjetividade no jornalismo esportivo, que tem como um dos seus pontos constituintes o senso comum que guia grande parte dos profissionais dessas editorias, como parece confirmar o silêncio e/ou a concordância dos demais integrantes daquela mesa.

Embora subjetividade e senso comum também compareçam em todas as editorias do jornalismo, eles são mais facilmente identificados ou identificáveis nas de esportes. Talvez, por serem consideradas espaços mais livres, nos quais a busca pela objetividade pode se dar ao luxo de certo relaxamento dos seus rigores habituais, as páginas de esporte da mídia são pródigas para estudos de caso. Não sobre uma exceção na engrenagem do jornalismo, mas justamente para fornecer uma visão mais transparente do processo que, em outras editorias, é mais velado.

Tal subjetivismo mais explicitado pode ser atribuído à relação estabelecida com o público, fortemente baseada em discursos mitológicos na representação de ídolos e fãs, o que, de certa forma, desculparia a existência de um texto abertamente mais opinativo e de forte caráter emocional. O senso comum de que “todo brasileiro gosta de futebol” também ajuda o jornalista a expor suas opiniões sobre o tema, sem necessidade de escudar-se na objetividade. É justamente o maior relaxamento na defesa da objetividade que ajuda a jogar luzes no processo de construção do discurso jornalístico nas editorias de esporte.

Fonte: torcedores.com

No entanto, em que se escora tal subjetivismo numa prática social que tem na objetividade sua pedra angular que garantiria sua autorreivindicada neutralidade e seu afastamento dos fatos? E o que teria autorizado o jornalista a proclamar um campeão antes mesmo que um terço do campeonato fosse disputado? Em 2018, na mesma nona rodada, o líder era o Flamengo, com um ponto de vantagem sobre o então vice-líder, São Paulo, e três sobre o então quarto colocado, o Palmeiras, vantagem que não impediu a conquista do título por este último.

A explicação não estaria ancorada, portanto, sequer no histórico recente da competição, embora aquele não seja garantia de acerto de qualquer previsão. Para a teoria construcionista do jornalismo, de  um ponto de vista sociológico, pode-se considerar os procedimentos que servem à busca pela objetividade como rituais, entendido aqui esse conceito como um procedimento de rotina que relativamente tem pouca importância ou importância tangencial para o fim procurado.

Tais procedimentos estratégicos, de acordo com a socióloga Gaye Tuchman – uma das principais representantes da corrente construcionista – seriam agrupados em cinco itens: apresentação de possibilidades conflituosas (ouvir os dois lados); a técnica do lead; provas auxiliares; uso de aspas; e a separação de fatos e opinião, o que reforçaria o caráter objetivo e neutro dos primeiros em contraponto à subjetividade e à editorialização da segunda.

Para tentar minimizar o risco de que a objetividade possa ser apropriada para justificar a produção de dois leads, igualmente objetivos, porém, com abordagens distintas em assuntos delicados para os interesses editoriais e/ou econômicos das empresas, estas recorrem as suas políticas editoriais, para reforçar o controle profissional da mídia sobre os jornalistas (SOLOSKI in Traquina, 1993). Para ser mais eficiente, no entanto, a política editorial deve estar articulada com o profissionalismo exigido de cada jornalista. Soloski considera tal método mais eficiente e econômico como forma de controle do que, por exemplo, a censura explícita. Já que esta é contrária ao profissionalismo, sendo capaz de causar estranhamentos e vazamentos, estes hoje mais prováveis e viáveis com a presença das redes sociais e mídias alternativas.

Entende-se aqui profissionalismo como o estabelecimento de normas e padrões – formato mais flexível do que o de regras gerais – e a institucionalização de sistemas de recompensa profissional, vital numa instituição piramidal como os jornais. Apesar de mitificações difundidas em contrário, jornalistas, em geral, não têm perspectivas ideológicas mais definidas e tendem a buscar fontes na estrutura do sistema político-econômico, o que facilita a naturalização de interlocutores ligados à defesa do status quo, sem que isso seja considerado antiprofissional.

Fonte: cruzeirodosul.edu.br

A construção do profissionalismo sustenta-se fortemente na defesa do senso comum. Independentemente do maior ou menor grau de consciência do jornalista, o processamento de qualquer notícia envolve conjecturas. Dessa forma, a maneira mais eficaz de um profissional defender sua matéria diante de superiores hierárquicos, fontes ou, eventualmente nos tribunais, é recorrer à objetividade. Nessa construção social fundante do jornalismo moderno, a objetividade é a norma profissional mais importante. Ela, no entanto, está fortemente ancorada no senso comum e, como este guarda fortes raízes com a defesa do status quo, a investigação sobre como o jornalismo trata times e jogadores de futebol revela muito da sociedade da qual eles são parte influente.

Por isso, ao analisar-se as razões que levaram o jornalista Fábio Sormani a decretar o Palmeiras campeão com apenas nove rodadas de antecedência, deve-se ter presente alguns dos elementos subjetivos lidos pelos profissionais como objetivos e, portanto, neutros. Com R$ 81 milhões em patrocínio de camisa, R$ 15 milhões em luvas e R$ 6,8 milhões em propriedades de marketing (inclui salários de jogadores), num total de R$ 102,8 milhões (cerca de € 24 milhões de euros, no início de 2019), o Palmeiras, alcançou, graças ao acordo com a Crefisa, a condição de um dos maiores patrocínios do mundo.

O acordo estaria atrás apenas “dos gigantes espanhóis (Barcelona e Real Madrid), da potência alemã (Bayer de Munique), do novo rico francês (Paris Saint-Germain) e do top 6 inglês (Liverpool, Manchester City, Manchester United, Arsenal, Chelsea e Tottenham).

Para reforçar a afirmação de Sormani, outro integrante da mesa redonda, citando números da Footstats – empresa que, com apoio de soluções de inteligência analítica, produz dados e estatísticas sobre esportes – projetou que, ao fim da última rodada do campeonato, a diferença seria ainda mais avassaladora a favor do clube paulista, que atingiria 82 pontos, seguido de Internacional, com 59, e Flamengo, com 52. Além disso, o senso comum, no jornalismo brasileiro, associa, automaticamente, maior capacidade financeira a títulos, e o Palmeiras fora campeão no ano anterior.

Afinal, “lá fora” – leia-se, nos principais campeonatos da Europa – é assim. Não por acaso, outro integrante do mesmo programa vislumbrava a possibilidade de o Palmeiras – clube com origens italianas – tornar-se o “Juventus do seu campeonato”. A referência era ao fato de este time ter sido campeão das últimas oito edições do Campeonato Italiano, distanciando-se, em número de títulos de Milan e Internazionale, seus perseguidores mais próximos.[1] Como nos ensina a sociologia, no entanto, toda tentativa de transplantação cultural para sociedades de realidades diferentes é, no mínimo, problemática, estando sujeita a equívocos metodológicos e de análise, como o mecanicismo.

Na Itália, antes mesmo da atual hegemonia do clube de Turim sobre seus dois adversários, a competição, como regra, limitava-se aos três clubes citados. O último campeão não pertencente ao trio fora o Roma, no distante 2001. Com variações escassas, o número reduzido de reais competidores aos títulos nacionais repete-se, como regra, em Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha e França.

A única exceção é a Inglaterra, onde após uma maior redistribuição das cotas pagas pela televisão, em parcelas mais equânimes, passou a existir uma menor assimetria entre os clubes, permitindo que, nos últimos dez anos, quatro agremiações conquistassem o título da Premier League.[2] Os números ingleses, porém, também, são um tanto borrados pelos grandes investidores que compraram Manchester City e Chelsea, que, antes dessa mudança societária, encontravam-se distantes dos principais competidores do país.

Os dados apresentados reforçam a advertência da necessidade de cautela quando setores do jornalismo esportivo tentam transplantar mecanicamente paradigmas de centros futebolísticos marcados pelo duopólio ou pouco mais do que isso para uma realidade como a do futebol brasileiro, com diferentes e complexas identidades culturais.  Portadora de um caldeirão de possibilidades, esta permitiu que, entre 1959 e 2002 – último ano antes da era dos pontos corridos – 17 clubes fossem, ao menos uma vez, campeões brasileiros.

Mesmo a partir de 2003, quando, com a mudança para pontos corridos, o número de competidores efetivos ao título, foi afunilado, sete equipes venceram, ao menos uma vez, em 16 das edições realizadas até 2018. Tanto os números que contam o conjunto da história da competição, quanto os que se restringem ao período mais curto pós-2003 apontam para  inexistência de uma clara hegemonia, no futebol brasileiro, de um único clube ou da constituição de um duopólio, nos moldes europeus.

Brasil não é Europa

É verdade, porém, que esse maior pluralismo começa a ser desafiado a partir do aporte de recursos que ficam atrás apenas “dos gigantes europeus”, e da ampliação da assimetria na distribuição das cotas de TV, que se concentram em dois clubes.[3] Assim, nas edições entre 2015 e 2018, apenas Corinthians e Palmeiras revezaram-se no pódio. Se a análise estender-se para as primeiras posições, que asseguram classificação direta à Libertadores, se verá que a fatia de clubes de São Paulo pode, de fato, sinalizar uma concentração das equipes mais competitivas no estado mais rico da federação.

Uma exceção seria o Flamengo, um dos dois detentores – ao lado do Corinthians – da maior cota paga pela TV Globo – até 900% superior aos clubes mais tradicionais da última faixa constituída pela emissora. No entanto, pelo menos até 2018, o maior poder econômico desta equipe carioca não foi convertido em títulos no Brasileiro – apenas um na era dos pontos corridos – nem muito menos em conquistas internacionais, que não são, porém, o alvo deste artigo.

Tem-se, então, que buscar outras fontes para justificar a profecia peremptória do jornalista. Talvez, a junção de novos patamares econômicos com o antigo cacoete de comparar o futebol do Brasil com o da Europa, mas sempre, ou quase sempre, a partir do olhar europeu. Tal enviezamento já resultou em outros prognósticos,como o risco da espanholização do futebol brasileiro, que se reduziria a Flamengo e Corinthians; ou a constituição de um hegemon a partir de valores “mercantilistas”, como tamanho da torcida e do poderio econômico.

Fonte: exame.abril.com.r

Todos esses fenômenos, já examinados por mim e outros autores, embora devam ser observados com a devida atenção, no entanto, até o momento, ainda, não passaram por um processo de institucionalização que autorize uma equiparação, imediata e definitiva, com o paradigma hegemônico na Europa. O descompasso entre as profecias do jornalismo baseadas no senso comum e a realidade, no entanto, não servem de impedimento para que essas continuem sendo produzidas em série e alimentem, não raro, como dado de realidade, os debates das mesas esportivas e dos torcedores.

Um dos mais recorrentes é “Não pode deixar o Flamengo chegar, que é campeão”. Tal crença, aparentemente baseada no intervalo entre 1980 e 1983, quando o clube conquistou três dos quatro títulos em disputa, era reforçada, ainda, pela fraca performance do time nos anos em que não foi campeão, entre 1959 e 1980, com classificações que variaram entre o 24º lugar, em 1973 – pior posição no perído – e o 5º lugar, em 1976 – melhor posto no mesmo intervalo. A reivindicação de que o time se tornaria imbatível “quando chegasse” se sustentaria, assim, não apenas entre os títulos entre 1980 e 1983 – era mais vitoriosa da história do clube – como seria reforçada pelo parâmetro do “tudo ou nada”.

Após a década de 1980, porém, tal combinação não se sustentou nos fatos. Tanto o clube alcançou boas colocações quando não foi campeão – terceiro lugar (em 2016) e vice-campeão (2018) – como, em competições eliminatórias, nas quais ficaria mais acentuado o dístico “Não pode deixar chegar…”, tal profecia malogrou.

Para ficarmos apenas em exemplos mais recentes, em 2017, o clube foi derrotado pelo Cruzeiro, na disputa de pênaltis, na final da Copa do Brasil; no mesmo ano, perdeu o título da Sul-Americana para o argentino Independiente, após empate em 1 x 1, no Maracanã, que seguira à derrota, por 2 x 1, no primeiro jogo na Argentina. Em 2018, foi eliminado pelo Cruzeiro, nas quartas de final da Libertadores, após perder a primeira partida por 2 x 0, no Maracanã, e vencer o adversário por 1 x 0, no Mineirão. E, em 2019, foi a vez de o Athetico-PR eliminar o rubro-negro carioca, também, no Maracanã, na disputa de pênaltis.

Sustentar, porém, que tais descompassos entre a realidade e as convicções dos jornalistas em suas conjecturas seriam impeditivos a que o Palmeiras pudesse ser campeão do Brasileiro de 2019 e que o Flamengo possa ir adiante em jogos decisivos constituiria, em ordem inversa, um novo paradigma assentado também no senso comum.

Fonte: pretextouel.com

Uma das dificuldades de origem na crítica de outros ramos das ciências humanas ao texto jornalístico é a tendência a tratá-lo como uma espécie de sociologia mal posta ou mera propaganda ideológica. Tal abordagem peca por ignorar especificidade fundamental do jornalismo. Enquanto o texto sociológico busca dissecar os processos sociais, a notícia intenciona ajudar a familiarizar os leitores com os acontecimentos diários.

O exame dos exemplos que tratamos – e existem inúmeros outros equivalentes –  nos alertam, no entanto, para outro tipo de risco: ao elevar o senso comum à única, ou à principal, categoria de realidade, o jornalismo e os jornalistas aproximam-se, e fundem-se, com o entretenimento. Ao fazerem isso, misturam-se com papel mais talhado à jocosidade das torcidas, território a que também não deveriam filiar-se. Pois ao recusarem-se a manter a devida cautela em relação à excessiva aproximação do entretenimento, atuam, por exemplo, mais como personagens e/ou torcedores. Com isso, jornalismo e jornalistas correm o risco de contribuírem para a descontituição de um campo próprio construído longamente, ao longo dos séculos, desde a autonomização do jornalismo em relação à literatura.

Referências

GAYE, Tuchman. A objectividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objectividade dos jornalistas. In: TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Vega, 1993.

SOLOSKI, John. O jornalismo e o profissionalismo: alguns constrangimentos no trabalho jornalístico In TRAQUINA, Nelson (org.). Jornalismo: questões, teorias e “estórias”. Lisboa: Veja, 1993

SOUTO, Sérgio Montero. E 1987 não acabou – penta ou hexa: diferentes memórias sobre a hegemonia no futebol brasileiros quando o “mercado” entra em campo. . Joinville: 41º Intercom, 2018.

Notas de fim

[1] Com 35 conquistas, o Juventus tem quase o dobro de títulos nacionais sobre Milan e Internazionale, ambos com 18.

[2] Entre 2010 e 2019, Manchester City (quatro vezes), Chelsea (três), Manchester United (duas) e Leicester City (uma) revezaram-se nas conquistas.

[3] Para uma comparação entre a assimetria entre audiência, números de transmissões de partidas e distribuição de cotas de TV veja SOUTO, 2018.

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Existe lugar para o torcedor comum?

Dois fatos recentes e sem aparente conexão me levaram a pensar sobre o custo de ser torcedor no Brasil e o que isso representa para o torcedor comum, o brasileiro assalariado. Adianto que este texto não pretende ser uma análise aprofundada sobre o tema, mas tão somente a exposição de alguns dados entremeados por questionamentos.

O primeiro acontecimento foi a tentativa de invasão de torcedores rubro-negros no jogo da semifinal da Libertadores no Maracanã, que resultou inclusive em uma operação policial um dia antes da partida e em confrontos a poucos momentos do início da disputa, o que, dentre outros significados, demonstra o interesse de muitos pelo evento e a impossibilidade de fazer parte da festa. O segundo episódio foi uma pesquisa da Sports Value sobre o gasto médio anual de torcedores com seus clubes, o que traz latente uma lógica de torcedor enquanto cliente. Os números dessa pesquisa revelaram ainda que os clubes dependem muito de patrocínios, venda de jogadores e direitos de TV para comporem suas receitas. Mas, voltando à questão motivadora desse texto, eu quis entender menos a paixão do torcedor por seu clube, que o leva a tentar invadir um estádio para assistir a sua equipe, do que o impacto financeiro dessa paixão e o quanto a economia do futebol contemporâneo afasta o torcedor comum, mais pobre, dos clubes da Série A do Brasileiro.

Figura: Gráfico da pesquisa desenvolvida pela Sports Value.

Não é barato ser um torcedor dos grandes clubes do futebol nacional. Em meados de maio, O Globo também publicou uma reportagem sobre a estimativa de gasto médio mensal de torcedores dos clubes nacionais, tomando por base um torcedor “ideal”, que tenha um plano associativo de seu clube, assine o pay-per-view e adquira a camisa oficial. Na média, o gasto mínimo mensal desse torcedor de qualquer um dos 20 clubes da série A fica entre R$ 127,31 e R$ 354,24. Esses valores máximos e mínimos tomam por base os maiores e menores valores dos planos de sócio-torcedor desses clubes. Esses valores representam aproximadamente entre 12,75% e 35,49% do salário mínimo nacional. Isso em um país em que, segundo pesquisa mais recente do Pnad/IBGE, a parcela mais pobre da população (cerca de 104 milhões de brasileiros) tem rendimentos totais de meros R$ 413.

É importante quantificarmos esses gastos, principalmente quando os programas de sócio-torcedor se tornam pré-requisitos para os torcedores adentrarem aos estádios. Assim como já acontece em muitos países da Europa, as diferentes categorias de sócio-torcedor oferecem diferentes níveis de prioridade na compra de ingressos. Ao torcedor comum, não-associado, se torna cada vez mais difícil acompanhar os jogos do seu clube, principalmente aqueles decisivos, como foi o jogo de quarta-feira entre Flamengo e Grêmio.

Essa prioridade de compra, bem como outros benefícios que os clubes oferecem aos associados, podem nos ajudar a entender o crescimento dos programas de sócio-torcedor. Apenas nos cinco últimos anos, segundo artigo do jornalista Paulo Vinícius Coelho, houve um aumento de 42% na arrecadação com esses programas, que agora totalizam 390 milhões de reais entre os clubes da Série A, o que em números relativos equivale a 7,7% da receita total dos clubes. PVC ainda defende que os programas de sócio-torcedor não significam apenas maior renda para os clubes, mas também aumentam o público médio nos estádios, que neste Brasileiro se encontra em 20.980, faltando onze rodadas para o fim da competição. Os dez principais clubes em número de sócios totalizam 728 mil e 100 torcedores, segundo dados do Globo Esporte em 30 de outubro. Ainda que muitos desses pacotes incluam descontos ou mesmo a entrada gratuita em jogos, o que esses números positivos mascaram são os torcedores deixados de fora, que não podem dispor de um montante mensal significativo para pagar por esses planos.

O torcedor comum, que não possui acesso aos descontos dos planos de sócio, tem de arcar com um tíquete médio para entrada nos estádios no valor de R$ 34,95[1] (média entre os clubes da série A). Este valor corresponde a 3,5% do salário mínimo. Se um torcedor quiser assistir a seu clube, digamos, três vezes por mês, ele terá de desembolsar pouco mais de 10% do salário mínimo, isso sem contar despesas com transporte e alimentação. A taxa média de ocupação dos estádios no Brasileiro deste ano é, no entanto, de apenas 47%. Ora, para alcançar um percentual maior, quem sabe algo próximo de 100%, não valeria a pena baratear alguns setores do estádio? Dá mais lucro deixar o estádio vazio em alguns setores? Acredito que não. Mas qual seria o motivo então de não o fazê-lo? Não desvalorizar os programas de sócio-torcedor ou a marca do clube? Admito que nunca encontrei uma resposta satisfatória para essa questão, mas gostaria que essa desocupação incomodasse os dirigentes a ponto de fazê-los refletir sobre a política de preços, ao menos em jogos de menor apelo.

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Fonte: Blog 433

Caso queira ficar em casa e assistir aos jogos do seu time pela televisão, o torcedor tem de pagar R$ 59,90 mensais – 6% do salário mínimo. A título de comparação, o NBA League Pass, disponível também para brasileiros, possui diferentes ofertas de planos, que variam entre R$ 7,99 (passe diário) e R$ 18,99 e R$ 41,99 (planos mensais)[2]. Apesar de ver um declínio no número de venda de pacotes do PPV do Brasileirão, a emissora detentora dos direitos de transmissão parece não cogitar uma flexibilização dos pacotes ou preços mais atrativos, para atrair maior número de assinantes. O caminho que aparentemente será adotado é o de restringir ainda mais os jogos transmitidos em TV aberta, o que, espera-se, forçaria o torcedor a adquirir o PPV. Temos aqui mais uma barreira ao torcedor comum.

Não à toa, verifica-se um aumento de jovens que torcem por clubes europeus. A depender do clube brasileiro pelo qual você tenha preferência, pode ser mais difícil assistir a um jogo dessa equipe do que digamos do Barcelona, Chelsea, PSG ou algum outro grande europeu. Em 2017, pesquisa do Ibope Repucom revelou que 72% dos jovens brasileiros torciam por algum clube europeu. Ao mesmo tempo, cresce também o percentual de brasileiros sem interesse por futebol – segundo pesquisa do Datafolha, esse número alcançou 42% em 2018, frente a 20%, em 2010, 10%, 2006, 22%, 2002 e 17%, 1994. Não acredito que esses números reflitam apenas mero desinteresse. O fator custo-benefício do entretenimento possivelmente deve afetar essa equação. Um divertimento caro e com retorno incerto (nada garante que você assistirá um belo jogo) tende a atrair cada vez menos pessoas.

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Fonte: Portal T5

O que os clubes brasileiros podem fazer para se aproximar do torcedor comum, que representa boa parte da população brasileira assalariada, com poucos recursos para investir no entretenimento futebolístico? Esse torcedor investe menos no clube que um sócio-torcedor, mas sua atuação em outros meios (rede social, audiência em TV aberta, exposição da camisa pelas ruas) traz com certeza retorno em visibilidade de marca para o clube. Não deveríamos existir, então, ações pensando também nesse torcedor não-associado? E as transmissões televisivas das partidas, um importante canal para acompanhar seu clube (afinal, não cabe todo mundo no estádio), não deveriam também tentar ser mais democráticas? Penso em planos mais acessíveis ou com valores diferenciados para acompanhar apenas seu clube ou algumas partidas. Torcedores de menor renda não poderiam, por exemplo, ter acesso gratuito ou com condições facilitadas ao PPV? Se há um aumento no desinteresse por futebol e esse é o principal produto dos clubes e da imprensa especializada, não deveria ocorrer um movimento de resgate desse interesse? Nesse caso, por que não pensar em ações que tornem mais viável assistir ao seu clube do coração, e não apenas as finais dos grandes campeonatos europeus e a todos os jogos da Copa do Mundo?

Poderia continuar aqui levantando questões por um tempo e gostaria de ter mais respostas do que dúvidas. Infelizmente, não é esse caso. Os próximos anos provavelmente deixarão mais claros os rumos que o futebol brasileiro está tomando: elitização irreversível ou abertura para o torcedor comum. Veremos.

[1] O maior tíquete médio entre os clubes da série A é o do Palmeiras – 56 reais, seguido por Corinthians (51), Avaí (49), Vasco (47), Inter (45) e Flamengo (45). Os maiores clubes em ocupação média são Flamengo (82%), Corinthians (72), Palmeiras (69), Vasco (65) e Bahia (60). E as maiores médias de pagantes são de Flamengo (53.640), Corinthians (34.625), São Paulo (32.331), Fortaleza (30.898) e Palmeiras (29.773).

[2] Planos anuais ainda oferecem desconto.