Artigos · Produção audiovisual

Já está no ar o décimo episódio do Passes e Impasses

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O tema do nosso décimo episódio é “O Brasil em sua primeira participação olímpica”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Mattheus Reis, que é pesquisador do LEME e e jornalista da Rádio Globo, recebemos no nosso estúdio Fausto Amaro, doutor em Comunicação pela UERJ, coordenador técnico do LEME e diretor do Passes e Impasses.

 

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o nono episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi o “Hino Olímpico”, que foi composto pelo grego Spyridon Samaras, com letra do poeta romano Kostís Palamás.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal

Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro

Roteiro: Marina Mantuano e Carol Fontenelle

Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano

Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)

Apresentação: Filipe Mostaro

Convidados: Mattheus Reis e Fausto Amaro

Artigos

Novas dinâmicas na circulação de futebolistas brasileiros entre a Europa e o nosso país

Hoje em dia o futebol é o esporte mais popular e mais consumido de todo o planeta. Ele e suas variadas matrizes se apresentam atualmente como uma linguagem uníssona, atravessando segmentações e fronteiras. Conhecidamente marcado pelas paixões e pelas disputas identitárias, o futebol cada vez mais se torna um filão da indústria do entretenimento e ponto central de inúmeros agentes econômicos que utilizam-no como instrumento para vender tudo que for possível. Dessa forma, o funcionamento do futebol encontra-se cada vez mais atrelado as dinâmicas do capitalismo e as configurações da globalização mundial.

Fonte: gabrieldantas-futebol.blogspot.com

O aumento dos fluxos de capitais, da transnacionalização das marcas/empresas, das relações de trabalho e das tecnologias de comunicação também influenciaram a (re)organização dos clubes e das ligas de futebol ao longo da segunda metade do século XX e início do século XXI.

O avanço do campo econômico sobre o campo futebolístico pode ser visto na paulatina migração desse das páginas esportivas para os cadernos de economia. Além da crescente preocupação dos analistas e cronistas em comentar aspectos financeiros e mercadológicos dos clubes, tais como balancetes e arrecadações. Diante disso, muitas vezes achamos que estamos lendo um encarte econômico com notícias sobre compra, venda, balanços de fluxo de caixa, contratos, projeções financeiras e lucros líquidos.

O futebol tornou-se uma mercadoria global interpenetrada cada vez mais pelo capitalismo neoliberal. Os investimentos do capital privado aumentaram significativamente, a partir da década de 1970, com o esforço da FIFA, através de seu presidente João Havelange (1974-1998), para potencializar a capacidade mercantil do futebol (ROCHA, 2013). Nessa nova lógica entre campo esportivo e campo econômico tornou-se cada vez mais comum a entrada de investidores privados nos clubes de futebol, principalmente na Europa e Estados Unidos, e em muito menor número na América do Sul. Os exemplos mais extremos desse processo são aqueles em que tradicionais clubes são comprados por investidores estrangeiros ou por empresas, como é o caso do Chelsea na Inglaterra ou até mesmo o Bragantino no futebol brasileiro.

A aproximação cada vez maior entre economia e futebol, permite com que as estruturas econômicas que funcionam no mercado global, passem a influenciar o funcionamento das relações dentro desse esporte. Isso pode ser visto no aparecimento de “clubes-globais”, que assim como as cidades-globais, são aquelas extrapolam suas fronteiras enquanto cidades, regiões e até mesmo países.

Fonte: gazetaesportiva

Os clubes-globais são nódulos de fluxos econômicos, humanos, midiáticos e simbólicos globais. São clubes que tem torcedores espalhados pelo planeta, jogadores provenientes de diferentes lugares do mundo, que estão presentes na mídia em diferentes países, que concentram capital que circula globalmente, que atingem a imaginação de uma população planetária. Dentro desta lógica que podemos entender a transformação de alguns grandes clubes do mundo em “marcas globais”.

A nova lógica do futebol, marcada pelo aprofundamento da sua mercantilização aumentou enormemente a circulação dos jogadores entre os clubes, e fez com que estruturas do campo econômico fossem apropriadas no campo futebolístico, tais como as relações entre centro e periferia na divisão internacional do trabalho (DIT). Dessa forma, a periferia do mercado capitalista global, localizada principalmente nos países do hemisfério Sul e produtora basicamente de commodities para os países centrais do hemisfério norte, também se vê presente nas relações comerciais do futebol internacional.

Nessa relação centro-periferia do futebol, os países europeus com destaque para Inglaterra, Espanha, França, Alemanha, Itália e Portugal seriam o centro, ou seja, donos das principais ligas do mundo, com maior poder aquisitivo e visibilidade, tendo a necessidade de obter boa matéria-prima para manutenção dos seus campeonatos. Em compensação, à periferia, marcada principalmente pelos países latino-americanos e pelos países africanos caberia o fornecimento de boas matérias-primas de jogadores para abastecer as melhores ligas. Temos, então no Brasil, a formação de um exército de jogadores (“pés-de-obra”) voltados para abastecer as ligas da Europa, fazendo com que os clubes passem a atuar numa lógica próxima a de empresas capitalistas. Como consequência desse processo temos o surgimento de clubes cujo objetivo central é o lucro econômico, auferido com a venda de jogadores, e não as vitórias em campeonatos.

A transferência de jogadores brasileiros para o exterior, no entanto, não surgiu apenas com o aprofundamento da mercantilização do futebol. Durante todo desenvolvimento desse esporte no Brasil, ocorreu a migração de atletas para outros países. Autores como Rial (2009), Agostino (2002), Alvito (2006) e Damo (2007) evidenciam desde 1920 a saída de atletas brasileiros para países como Itália, Espanha, Argentina e Uruguai. Vários motivos são listados para essa saída, entre os quais podemos citar: A possibilidade de auferir ganhos financeiros como o futebol diante de novos mercados nos quais o futebol já era profissionalizado. Além disso, as relações de descendência de alguns jogadores brasileiros com a Itália e a Espanha também facilitavam essa migração.

Os autores também evidenciaram que apesar de casos emblemáticos como a ida de Domingos da Guia, Fausto e Zizinho para outros mercadores do futebol, o período entre 1920 e 1960 não mostrou uma saída massiva de atletas do futebol do país. Esse êxodo de brasileiros começa a ocorrer principalmente a partir da década de 1980, quando as principais ligas nacionais na Europa, iniciam uma reestruturação e profissionalização, a reboque das mudanças produzidas por João Havelange na FIFA a partir década de 1970.

Com campeonatos mais organizados, maiores patrocínios e melhores salários, o que se verifica é a saída em massa de atletas do Brasil para a Europa. Ainda mais se lembrarmos que durante a década de 1980, o futebol brasileiro se encontrava numa grave crise de organização, investimentos e gestão, que culminaria com a ameaça de não realização do campeonato nacional de 1987 (HELAL, 1997).

Fonte: telam.com.ar

Entre as décadas de 1980, 1990 e os anos 2000, o número de jogadores profissionais que saíram do país rumos aos mais diversos mercados internacionais ultrapassou a marca de 15 mil indivíduos, sendo que desde 1998 até o ano de 2018, esse número mantinha-se crescente de um ano para o outro (ALVITO 2006; FIFA; 2018). Entre os principais destinos de brasileiros para o exterior temos a liga portuguesa em primeiro lugar, seguida da liga Ucraniana, e depois as ligas italiana e espanhola.

Cabe ressaltar que a lei Bosman de 1995 ajudou no aumento das transferências de brasileiros para o exterior, especificamente a Europa, pois permitiu a absorção de uma demanda reprimida por atletas de fora da Europa. Através dessa lei, todo jogador de futebol nascido na Europa dentro das fronteiras da União Europeia passou a ser considerados trabalhador comunitário. Isso fez com que esses indivíduos não fossem mais considerados aos olhos das federações nacionais como estrangeiros. Dessa forma, as vagas para extracomunitários puderam ser ocupadas com outros atletas provenientes principalmente da América do Sul e da África.

Dentro desse universo de aumento da saída de jogadores durante as décadas de 1980 e 1990, podemos perceber que aquelas que movimentavam mais dinheiro e chamavam mais atenção da mídia nacional e internacional eram daqueles jogadores considerados consagrados no futebol brasileiro. Nesse esteio temos a saída de Zico para Udinese, Leovegildo Júnior para o Pescara, Falcão para a Roma e tantos outros na década de 1980, assim como as saídas de Edmundo para a Fiorentina, de Romário e Ronaldo Fenômeno para o PSV da Holanda na década de 1990.

As saídas de jogadores brasileiros nessas duas décadas possuem algumas características em comum, como, por exemplo, a idade normalmente entre 20 e 26 anos de idade, a projeção que esses atletas possuíam no cenário nacional e os valores pagos para adquiri-los, normalmente muito mais baixos do que os atuais, mesmo descontando a inflação. Segundo dados da FIFA sobre as transferências de jogadores nas décadas de 1980 e 1990, a média de idade dos atletas que saiam do país era de 25,4 anos de idade (FIFA, 2007).

A dinâmica de transferências de atletas nessas duas décadas parece se basear principalmente na qualidade enxergada pelos clubes, especificamente os europeus sobre a técnica e a habilidade dos jogadores, sendo a idade um elemento secundário. Diante disso, entre a crônica esportiva dos anos 1990 e 2000, verificou-se que o futebol brasileiro perdia substancialmente seus melhores atletas para o futebol europeu e esses jogadores muitas vezes regressavam apenas em idade mais avançada, após os 30 anos para encerrarem suas carreiras no Brasil.

O funcionamento do mercado de pés-de-obra, no entanto, vem demonstrando uma significativa mudança nos padrões de transferências e no desejo dos grandes clubes europeus pelos atletas brasileiros, a saber, a contratação de jogadores cada vez mais jovens e por cifras cada vez maiores. As saídas recentes de Reinier, Vinícius Júnior, Lucas Paquetá, Bruno Guimarães, Paulinho, Arthur refletem uma tendência que a própria FIFA já vem identificando no mercado de transferências entre Brasil e Europa, que é a saída cada vez maior de atletas com menos de 20 anos de idade. Segundo dados da entidade máxima do futebol, entre 2011 e 2017 a média de idade dos jogadores de futebol que saíram do Brasil foi de 22,8 anos de idade. Quando comparamos essa média com aquela existente entre as décadas de 1980 e 1990, podemos verificar uma queda de quase 3 anos de idade.

A diminuição da média de idade dos atletas que saem do país, evidencia também uma outra tendência pontuada pelo aumento do número de atletas com menos de 20 anos que saíram do país. Segundo os dados da FIFA o número de saídas nessa situação teve um aumento de 192%, pulando de 151 em 2011 para 290 em 2017 (FIFA, 2018). Diante desse fato, percebe-se que o monitoramento dos principais clubes europeus passou a ser prioritariamente nas categorias de base e criando um cenário no qual os principais talentos vão direto para o exterior ou, na melhor das hipóteses, jogam poucos jogos nos seus clubes brasileiros antes de se transferirem.

 

Fonte: df.superesportes.com.br

Entre os principais argumentos utilizados pelos clubes europeus para a compra de jogadores cada vez mais jovens, está a preocupação com a finalização da formação desses atletas na Europa e segundo a filosofia de futebol desses clubes nos quais são contratados. Além disso, em alguns casos é citada a formação tática deficiente realizada em geral pelos clubes brasileiros nas suas categorias de base.

A preferência dos clubes europeus por um nicho cada vez mais jovem de atletas e o cenário de antecipação etária da venda de jogadores brasileiros traz à tona uma nova realidade no futebol nacional caracterizada pelos “veteranos de 24 anos”. Esses atletas, apesar de ainda terem de pouca idade, já não são vistos como atraentes para os grandes clubes europeus. Nessa nova dinâmica do mercado de transferências, a despeito de temporadas eloquentes no futebol brasileiro, não lhes resta muitas alternativas que não sejam a permanência no futebol nacional, ou a ida para mercados alternativos como o asiático, o oriente médio ou clubes periféricos da Europa.

Atualmente 4 casos que exemplificam bem esse cenário são aqueles dos jogadores Dudu do Palmeiras, Everton “Cebolinha” do Grêmio e de Gabriel Barbosa e Bruno Henrique do Flamengo. Esses atletas mesmo com temporadas contundentes nos últimos 3 anos, não receberam propostas dos principais clubes do futebol Europeu. Um dado que os une é o fato de todos possuem entre 23 e 29 anos de idade.

A nova configuração do mercado, com a escolha dos grandes clubes europeus pela compra dos jogadores ainda nas categorias de base das equipes brasileiras suscita debates sobre a dificuldades de manter os jovens talentos no Brasil, com um plano de carreira esportiva atraente e a possibilidade de jogar campeonatos de alto nível durante o ano inteiro. Esse cenário também externa uma preocupação com a identificação cada vez menor que esses jogadores mantem com seus clubes formadores e que a torcida mantém com eles. No entanto, o interesse europeu pelos atletas menores de 20 anos e, consequentemente, sua saída mais precoce para o exterior também vem criando um cenário novo no Brasil, pontuado pela permanência de atletas de alto nível, que sem ofertas atrativas do mercado europeu preferiram continuar no país. A esses casos se juntam aqueles, nos quais jovens promessas foram para o velho continente muito cedo, mas sem corresponder as expectativas acabaram voltando ao Brasil com idade inferior aos 25 anos e com performances boas ao longo das temporadas, como é o caso do jogador Gabriel Barbosa, Gerson, entre outros.

A nova realidade no mercado de transferências foi compreendida por alguns clubes brasileiros que passaram a priorizar investimentos nas categorias de base e a vender suas jovens promessas cada vez mais cedo e por valores vultuosos ao mesmo tempo em que procuram repatriar jogadores brasileiros com idades inferiores a 30 anos de idade. Se durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, esses clubes vendiam para a Europa principalmente seus jogadores de destaque ainda na faixa dos 26 anos para contratar brasileiros veteranos que vinham encerrar suas carreiras no Brasil, hoje a dinâmica não é mais primordialmente essa conforme mostram os dados de transferências da FIFA (2018).

A partir dessas observações podemos compreender que as demandas do mercado europeu por jogadores brasileiros mudaram das décadas de 1980, 1990 e 2000, quando comparadas com os números posteriores a 2010. Nesse processo, alguns clubes brasileiros entenderam o novo funcionamento do mercado e procuraram se adaptar a nova realidade, vendendo seus atletas mais jovens e buscando novos jogadores brasileiros na Europa com idades inferiores a 30 anos de idade. Como consequência, podemos verificar a também uma mudança no perfil dos jogadores que regressam do exterior.

Referências:

AGOSTINO, Gilberto. Vencer ou morrer: futebol, geopolítica e identidade nacional. Rio de Janeiro: Mauad, 2002.

ALVITO, M. A parte que te cabe neste latifúndio: o futebol brasileiro e a globalização, IN:Revista do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, v. 41, p.451-474, 2006.

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: a formação de futebolistas no Brasil e na França. São Paulo: Aderaldo&Rithschild Ed./Anpocs, 2007.

FIFA. Market Insights: Brasil protagonista del mercado de fichajesinternacionales. Julio de 2018. Disponível em: http://financefootball.com/2018/08/01/fifa-tms-market-insights-big-5-mid-summer-report/

FIFA. Transfers of athletes in the 1980s and 1990 to Europe. 2007 Disponível em: https://resources.fifa.com/image/upload/global-transfer-market-report-1980-1990 men.pdf.

HELAL, R. Passes e Impasses: futebol e cultura de massa no Brasil. Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

RIAL, C. S. “Por que todos os ‘rebeldes’ falam português?” A circulação de jogadores brasileiros/sul-americanos na Europa, ontem e hoje. Antropologia em Primeira Mão, Florianópolis, n. 110, 2009.

ROCHA, L.G.B.S.P. No coração de Havelange: Memória, biografia e narrativa simbólica de um livro sobre o maior dirigente de futebol do século XX. Esporte e Sociedade. Niterói, n 21, p.1-33,2013.

 

 

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Clubes de futebol e suas (des)identidades corporativas

No atual momento social, em que a coerência entre discursos e práticas torna-se cada vez mais desejada pelas audiências, posicionar-se bem diante de seus públicos de interesse é necessário para qualquer instituição, seja ela uma empresa, uma ONG, uma igreja ou um clube. Na verdade, até mesmo no âmbito pessoal, a vigilância nesse aspecto é crescente. O universo digital, representado prioritariamente pelas redes sociais, é um amplo campo de escrutínio, em que muitos atuam como detetives ávidos por investigar a vida alheia, em busca de provas capazes de mostrar a contradição, a indiferença ou os erros cometidos por qualquer um.

Abraçar causas sociais e posicionar-se em temas e discussões “delicadas” têm se tornado frequente tanto para empresas, quanto para clubes de futebol. A defesa dos direitos das mulheres, a luta contra a homofobia ou o racismo e tantos outros assuntos (urgentes) permeiam a comunicação das instituições e são utilizados como forma de posicionamento social e de aproximação positiva junto aos públicos. Esse tipo de estratégia pode ser bastante interessante e benéfica, desde que tudo seja realmente verdadeiro e esteja alinhado com valores reais e com a identidade da instituição.

A identidade corporativa é a linha mestra de todas as ações que envolvem a rotina das organizações. São as características encontradas nos aspectos administrativos, culturais e gráficos. E vai muito além da simples criação de textos que definem a missão, a visão e os valores! Ela não é formada apenas por conceitos, mas também, e principalmente, pelas ações, práticas, vivências e relacionamentos da corporação. Ao compartilhar objetivos, regras, valores, entre outros, dentro do contexto interativo organizacional, os indivíduos assumem comportamentos moldados pela organização, motivados pela redução da incerteza de como devem sentir, agir, pensar e, ainda, de como serão vistos pelos outros (DIAS, 2012; FREITAS, 2007; CASTELO, 2009).

Esses princípios e ações são a base para a construção da imagem corporativa, que é formada de maneira muito mais subjetiva e pode ganhar variações de acordo com as percepções, interpretações, histórias e relações que cada um dos interlocutores da organização estabelece com ela. Wilson da Costa Bueno (2012, p. 22) explica que “A identidade corporativa se distingue dos conceitos de imagem e de reputação porque se localiza em uma outra instância: ela flui da empresa para o mercado e para a sociedade, enquanto […] a imagem e a reputação são exterioridades, ou seja, representam percepções de pessoas, públicos ou da sociedade (ou mercado) como um todo”.

Em busca de um diagnóstico sobre como clubes de futebol tratam a sua comunicação e gestão (incluindo questões relativas à identidade e à imagem), eu e os pesquisadores Ary José Rocco Júnior e Carlos Henrique de Souza Padeiro, por meio do Gepecom – Grupo de Pesquisa e Estudos em Comunicação e Marketing no Esporte, vinculado à Escola de Educação Física e Esportes da USP, realizamos um mapeamento dos sites de oito clubes brasileiros, oito clubes latino-americanos (sem o Brasil) e oito clubes dos Estados Unidos[1].

Resultado de imagem para imagem corporativa clubes de futebol

No recorte sobre o tema aqui discutido, a intenção foi descobrir se dentro de suas próprias plataformas os clubes alinham discursos e a comunicação às suas essências. Os clubes estudados foram escolhidos por meio do ranking de valor de marca da empresa de consultoria BDO 2017 e da Forbes 2017, e as informações foram coletadas em maio de 2018 e atualizadas em junho de 2019.  Os clubes brasileiros investigados foram: Corinthians, São Paulo, Palmeiras, Atlético Mineiro, Cruzeiro, Flamengo, Internacional e Grêmio[2].

Na análise foi possível perceber que dos oito clubes investigados, cinco sequer possuem os conceitos de missão, visão e valores claramente formulados e divulgados. Entre os três que apresentam esses conceitos no portal institucional (Flamengo, Internacional e Grêmio), a aplicação não se faz de maneira clara, objetiva e, principalmente, estratégica. Vale destacar que o Flamengo é o único clube que aplica claramente a sua missão e visão, por exemplo, ao divulgar (e realmente apoiar) fortemente o futebol, mas também outras modalidades olímpicas. Os valores relacionados à transparência de gestão, mencionados como constituintes da identidade dos três clubes também foram percebidos, apesar de ser compreensível que estes conteúdos atendem à Lei 13.155/2015, que criou o Programa de Modernização da Gestão e de Responsabilidade Fiscal do Futebol Brasileiro.

O estudo também observou a presença de ações junto à comunidade como uma forma de aplicação prática de elementos identitários. Como exemplos é possível citar o Internacional que possui uma fundação que se dedica a projetos nas áreas de educação, cultura e esportes e o Grêmio que desenvolve o Comunidade Tri, projeto diretamente ligado às comunidades que circundam o seu estádio. O exemplo um pouco destoante é o Flamengo, pois as ações sociais estão concentradas em suas Embaixadas, que possuem o apoio do clube, mas que são dirigidas e desenvolvidas pelos próprios torcedores.

De forma geral, a pesquisa realizada[3] concluiu que os clubes analisados não colocam destaque na divulgação de suas missões, visões e valores, elementos estes considerados basilares na constituição da identidade de uma organização. Nem tampouco atuam de forma efetiva e verdadeira na aplicabilidade total desses conceitos. Foi possível inferir que as várias ações sociais e comunicacionais realizadas estão direcionadas para fins mercadológicos que buscam o pertencimento e a aceitação social e não necessariamente a construção de uma imagem alinhada e coerente com a identidade dos clubes.

Esse tipo de conduta percebida neste estudo, pode ser bastante complicada no atual cenário social descrito no começo deste texto. Afinal, certamente as incoerências aparecerão e não serão relevadas, nem facilmente esquecidas. Não adianta um clube levantar bandeiras de apoio a segmentos específicos ou à causas, se em sua cultura organizacional está enraizada a prática de se discursar em uma direção e atuar em outra. Os exemplos de como esse tipo de atuação não é benéfica pululam nos noticiários e em nossas timelines. Resta-nos aguardar (e questionar!) até o dia em que os responsáveis pela gestão e comunicação dos clubes entenderão seus verdadeiros papéis profissionais e sociais.

 

Notas de fim

[1] Essa pesquisa faz parte dos estudos do Gepecom e envolve diferentes recortes de análise, sendo abordada neste texto apenas a investigação referente à identidade dos clubes brasileiros (seus discursos e suas ações).

[2] Para a reflexão deste texto foi escolhido apresentar apenas os dados dos clubes brasileiros. Mas para elucidação geral, os clubes latino-americanos estudados na pesquisa foram Chivas, Monterrey, América-MEX, River Plate, Boca Juniors, Tijuana, Santos Laguna e Atlético Nacional-COL; e os norte-americanos foram New York Red Bull, Orlando City, Los Angeles Galaxy, Atlanta United, New York City, Minnesota United, Real Salt Lake e Seattle Sounders.

[3] A análise detalhada dos 24 clubes está descrita no artigo apresentado no Congresso da Intercom de 2019 que encontra-se disponível neste link.

 

Referências

BUENO, W. Auditoria de imagem das organizações: teoria e prática. São Paulo: Mojoara, 2012.

CASTELO, J. Futebol – organização dinâmica do jogo. Lisboa: Edições Lusófonas, 2009.

DIAS, R. Cultura Organizacional. 3ª ed. Campinas: Alinea, 2012.

FREITAS, M. E. de. Cultura Organizacional – evolução e crítica. São Paulo: Cengage Learning, 2007.

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Renato e os recalcados da imprensa esportiva

Arlei Damo (2006) entende que o futebol de espetáculo se divide em quatro categorias de agentes: os profissionais, os torcedores, os dirigentes e os mediadores especializados. Os profissionais seriam os jogadores, treinadores e preparadores envolvidos com os jogos. Os torcedores se constituem no público com variados graus de interesse e envolvimento durante as partidas. Os dirigentes poderiam ser profissionais ou amadores filiados aos clubes ou às federações. Os mediadores especializados, por sua vez, são os profissionais que trabalham na espetacularização do futebol e produzem narrativas sobre os eventos futebolísticos. Esses mediadores são responsáveis por grande parte dos espaços jornalísticos na televisão, rádios, internet e jornais impressos. Eles podem ser profissionais da comunicação ou ex-atletas e ex-dirigentes que teriam a função de ‘explicar’ os eventos para o público que, de alguma maneira, não seria ‘apto’ a lê-los sozinho, “a imprensa (falada, escrita, televisada) produz, de fato, as leituras autorizadas dos eventos que ocorrem no futebol, muitas vezes, consagrando determinadas versões” (GUEDES, 2011, p. 6). Esses mediadores, apesar de suas diferentes origens, são chamados, costumeiramente, de cronistas esportivos e são os principais atores do que se pode nomear de jornalismo esportivo ou de imprensa esportiva. “A crônica jornalística é, em essência, uma informação interpretativa e valorativa de feitos noticiosos atuais ou atualizados, em que se narra algo ao mesmo tempo que se julga o que é narrado” (MARQUES, 2014, p. 201).

Neste texto, apresentarei algumas considerações a partir de uma disputa entre o treinador e ídolo gremista Renato Portaluppi (ou Gaúcho para o restante do Brasil) e alguns jornalistas a quem o treinador classificou como recalcados.

Fonte: meiahora.ig.com.br

No início de 2020, o Grêmio repatriou Diego Souza, 13 anos após o, então, meia, hoje centroavante, se destacar na campanha do vice-campeonato da Libertadores. Além dele, Thiago Neves apontado como um dos principais responsáveis pelo inédito rebaixamento do Cruzeiro para a série B do Campeonato Brasileiro, também chegou ao tricolor gaúcho beirando os 35 anos. Mais do que a idade, o comportamento de Thiago Neves que perdeu uma penalidade no mesmo dia em que cobrou salários atrasados de um dirigente do Cruzeiro (para os que não lembram, esse dirigente teve um helicóptero suspeito aterrizando em sua propriedade há alguns anos) e foi visto em um festival no estádio Mineirão em seu dia de folga acabou ocupando protagonismo no noticiário esportivo local.

Em um programa televisivo regional, um jornalista comentou que com a chegada desses reforços, as casas noturnas da capital do Rio Grande do Sul precisariam de reforços. Outro jornalista que participava do “debate” “informou” que um amigo mineiro estava pensando em transferir seu empreendimento de entretenimento de Belo Horizonte para Porto Alegre.

Fonte: globoesporte.globo.com

No dia 29 de janeiro, em entrevista coletiva, Renato reclamou da postura de integrantes da imprensa esportiva, 1 ou 2% que seriam recalcados ao não fazerem críticas do trabalho dos profissionais, mas de suas vidas pessoais. Nas palavras do treinador: “Não tenho culpa se os caras têm uma profissão maravilhosa, se o futebol dá tudo pra eles, e esse cara de repente não venceu como jogador ou não venceu na profissão. Mas não fica atirando em quem venceu[1]”. O ídolo tricolor ainda sugeriu que os torcedores gremistas não acompanhassem o programa.

No dia seguinte, no mesmo programa, ao repercutirem a manifestação do treinador, um dos jornalistas o chamou de covarde ao não citar o nome dos prováveis recalcados. No mesmo dia, após partida pelo Campeonato Gaúcho, esse mesmo jornalista questionou o treinador sobre quem seriam os “recalcados”. Sem titubear, Renato afirmou: “um é você”. O treinador argumentou que existia uma série de desrespeitosas manifestações contra os profissionais, especialmente por não respeitarem as famílias de jogadores e do próprio treinador. Renato ainda afirmou que covardia era falar da vida privada dos jogadores na televisão sem que os mesmos estivessem ali para se defender. Ele ainda finalizou que coragem era a discussão que ele fazia com o repórter naquele momento “olho-no-olho”.

Ainda na repercussão, o diretor do programa entendia que discussões como essas seriam normais. O jornalista, nomeado por Renato como um dos recalcados, fez questão de reforçar que o próprio treinador disse que ele não tinha sido covarde por ter feito seu questionamento ao treinador. Ele ainda informou que o treinador não citou o episódio de desrespeito (aquele que citei algumas linhas acima) porque ele não existiu.

Como lembra Miquel Rodrigo Alsina “o discurso da mídia não é somente informativo, não pretende só transmitir o saber, mas também pretende fazer sentir” (2009, p. 49). Eugênio Bucci (2001) acredita que quando o jornalismo passa a emocionar mais do que informar, cria-se um problema ético, uma vez que a função do jornalismo seria justamente o de promover o debate de ideias no espaço público. O jornalismo esportivo pretende fazer sentir. Eventualmente, essa relação pode aparecer antes mesmo da transmissão da informação, de um determinado saber ou do “debate de ideias”, “não existe, no jornalismo factual, informação sobre os esportes, existe propaganda sobre o esporte, publicidade de marcas e logos, propaganda ideológica sobre suas relações de poder. Sensacionalismo e merchandising” (MESSA, 2005, p. 3). Essa característica, inclusive, poderia ser uma das explicações para a série de restrições empregadas aos jornalistas esportivos por jornalistas de outras áreas. Bueno (2005) argumenta que, apesar do espaço privilegiado na mídia, o jornalismo esportivo está afastado de uma experiência madura do “fazer jornalístico” e da excelência profissional.

Mesmo que as manifestações dos investigadores possam ser um tanto genéricas e, provavelmente, injustas com a totalidade dos profissionais e do fazer jornalismo esportivo, inclusive atravessado por certo preconceito a cobertura de temas da cultura popular, me parece que a discussão entre jornalistas e treinadores ou a acusação de que um jogador A ou B frequenta casas noturnas efetivamente pode se enquadrar em um espaço pouco nobre na construção noticiosa sobre um fenômeno esportivo ou não. Quem circula com maior ou menor intensidade no meio do futebol profissional sabe que os atletas participam de atividades noturna constantemente, curiosamente (ou nada curiosamente assim) esse fenômeno somente aparece quando as possibilidades técnicas de um jogador são colocadas em questão ou quando a equipe apresenta uma série de atuações ruins.

Talvez sejam essas práticas que autorizariam a “normalidade” de uma discussão entre um profissional do futebol e os mediadores especializados. Teriam os profissionais do futebol capacidade técnica para definir o que é um trabalho jornalístico adequado ou não? Discutir com o treinador de uma equipe importante do circuito local poderia ajudar a aumentar a audiência em um jornalismo que descreve um de seus contratados como um dos jornalistas que mais repercute. Seria esse jornalismo de “polêmicas”, “embates” e “repercussão” informativo?

Por fim, também me chamou a atenção a necessidade do jornalista chamado de recalcado por Renato de reforçar o entendimento de que não foi covarde. Apesar das diferenças apontadas por Arlei Damo que abre esse texto, me parece que o dispositivo pedagógico dos estádios de futebol e seu currículo de masculinidade (BANDEIRA, 2019) atravessam a todos os atores, mesmo que de modos distintos. A mesma covardia que ofendeu Renato poderia ofender os jornalistas. O treinador precisa armar a equipe, vencer partidas e ser corajoso. O jornalista não pode ser recalcado, ter boas fontes, informar, ganhar cliques e likes e ser corajoso. Ao menos parece fundamental não ser covarde.

 

Notas de Rodapé

[1] Disponível em: https://www.correiodopovo.com.br/esportes/gr%C3%AAmio/renato-portaluppi-critica-coment%C3%A1rios-recalcados-da-imprensa-1.396365. Acesso em 09/02/2020, às 9h48.

 

Referências

ALSINA, Miquel Rodrigo. A construção da notícia. Petrópolis/RJ: Vozes, 2009.

BANDEIRA, Gustavo Andrada. Uma história do torcer no presente: elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol. Curitiba: Appris editora, 2019.

BUCCI, Eugênio. O vício e a virtude. In: BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Companhia das Letras, 2001, p. 129-87.

BUENO, Wilson da Costa. Chutando pra fora: os equívocos do jornalismo esportivo brasileiro. In: MARQUES, José Carlos; CARVALHO, Sérgio; CAMARGO, Vera Regina T. (Orgs.). Comunicação e esporte-tendências. 1 ed. Santa Maria: Editora Pallotti, 2005, v. 1, p. 13-27.

DAMO, ArleiSander. O ethos capitalista e o espírito das copas. In: GASTALDO, Édison Luis; GUEDES, SimoniLahud. (Orgs.). Nações em campo: Copa do Mundo e identidade nacional. Niterói: Intertexto, 2006, p.39-72.

GUEDES, Simoni Lahud. Discursos autorizados e discursos rebeldes no futebol brasileiro. In: Esporte e Sociedade. Ano 6, n. 16, nov. 2010/fev. 2011, p. 1-11.

MARQUES, José Carlos. A crônica de esportes no Brasil: algumas reflexões. In: CAMPOS, Flavio de; ALFONSI, Daniela. (Orgs.). Futebol objeto das ciências humanas. São Paulo: Leya, 2014, p. 185-205.

MESSA, Fábio de Carvalho. Jornalismo Esportivo não é só entretenimento. In: 8Forum Nacional de Professores de Jornalismo, 2005, Maceió/AL. 8 Forum de Professores de Jornalismo: Produção Laboratorial Impressa, 2005, p. 1-8.

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Após um ano sem ministério, esporte enfrenta isolamento no governo Bolsonaro

Antiga pasta era criticada por destinar mais recursos a atletas de elite que a projetos em escolas, mas atual secretaria, com influência e orçamento reduzidos, ainda não encontrou função.

A última medida do governo do presidente Michel Temer envolveu o esporte. No apagar das luzes, uma portaria do então ministro Leandro Cruz determinou o corte em 60% no número de beneficiados pelo Bolsa Atleta [1]. Grande parte dos atletas de elite, que já contavam com patrocínios de empresas e recebiam salários em clubes, foram preservados. Os menores benefícios, de 370 reais mensais nas categorias “estudantil” e “base”, foram os mais afetados pela tesoura.

Essa decisão acabou sendo uma metáfora das políticas esportivas adotadas nas últimas três décadas pelo Governo Federal, quando o esporte ganhou status de ministério. De Fernando Henrique Cardoso à Dilma Rousseff, em média 70% das verbas para o esporte foram destinadas apenas ao segmento de alto rendimento, de acordo com o estudo “O orçamento do esporte: aspectos da atuação estatal de FHC à Dilma” [2]

Visando à preparação dos Jogos Pan-Americanos de 2007, dos Jogos Militares de 2011, da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, o governo brasileiro se tornou um dos maiores investidores do esporte de elite no mundo. Os crescentes investimentos fizeram parte de um projeto que, na política, elevou o protagonismo da diplomacia brasileira entre as nações “emergentes” e, no esporte, proporcionou ao Time Brasil, nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, a melhor participação do país na história, com 19 medalhas conquistadas, duas a mais que em Londres-2012. Dados de 2017 do Tribunal de Contas da União (TCU) mostram que 94% do dinheiro que movimenta o esporte olímpico brasileiro, excluindo o futebol, vêm de Brasília.

Porém, enquanto acontecia a organização dos megaeventos esportivos no país, um relatório do TCU de 2005 [3] já dava um sinal de alerta sobre as políticas sociais do então Ministério do Esporte. Segundo o Tribunal, o programa “Segundo Tempo”, o principal a oferecer prática esportiva para crianças e jovens depois do turno escolar, atendia na época somente 1% do total da população entre 7 e 17 anos. Desde então a situação pouco mudou: 59% das escolas de ensino fundamental do país não tinham em 2017 quadras esportivas, de acordo com o Censo Escolar [4].

Ao vencer a eleição de 2018, Jair Bolsonaro já tinha deixado claro para a comunidade esportiva que eram remotas as chances de um ministério autônomo para o esporte continuar existindo no seu governo. A equipe de transição cogitou submeter o então Ministério do Esporte ao da Educação. Se essa união acontecesse, representaria uma derrota para os dirigentes de confederações esportivas, que apesar de serem entidades privadas, historicamente são os principais beneficiários dos investimentos públicos em esportes no Brasil. No entanto, a escolha a partir de janeiro de 2019, de incorporar a pasta ao Ministério da Cidadania, junto com a Cultura e o Desenvolvimento Social, não agradou aos atletas e tampouco deu esperança para políticas esportivas integradas à educação.

O plano de governo do então candidato Bolsonaro já não incluía nenhum tópico relacionado ao esporte. Após a posse, o governo federal apresentou metas prioritárias para os primeiros 100 dias de mandato, e apenas uma delas tinha a ver com o esporte: “modernizar o programa para o estímulo de jovens atletas”, dizia o texto [5]. Não há interlocução direta entre as secretarias e o presidente, apenas com os ministros. As demandas passam pelo ministro da Cidadania Osmar Terra, que, por sua vez, prioriza a gestão do Bolsa Família, o maior orçamento da pasta.

O resultado é a menor quantidade de recursos federais para o esporte desde 2005: 685 milhões de reais para este ano [6]; 462 milhões de reais a menos em relação à verba de 2019 estabelecida pela Lei Orçamentária Anual.[7]

 Legenda: Secretário Especial do Esporte, o general Décio Brasil fez um apelo a deputados por mais verbas para 2020. Proposta inicial do Planalto para a Secretaria era de 220 milhões de reais e passou para 685 milhões no Congresso (Foto: Abelardo Mendes Jr/ Ministério da Cidadania)

O investimento em logística aos atletas militares, que somou dez milhões de reais em 2019 terá neste ano apenas 600 mil reais, uma redução de 94% [8]. Nos Jogos de 2016, os atletas militares conquistaram 13 das 19 medalhas do Brasil.

O fim do Ministério do Esporte foi defendido pelo atual governo para supostamente reduzir os custos da administração federal. No entanto, a redução de 29 para 22 pastas economizou apenas 0,06% do orçamento segundo o próprio Ministério da Economia, comandado por Paulo Guedes [9]. Se o antigo ministério pecava ao manter privilégios para uma reduzida quantidade de atletas, agora é a própria renovação do esporte brasileiro, tanto na base quanto na elite, que está em xeque.

Notas de Rodapé

[1] “Temer corta Bolsa Atleta pela metade, tira contribuição a jovens e preserva investimento na elite” – Globoesporte.com – 28 de dezembro de 2018 – Disponível em:

https://globoesporte.globo.com/olimpiadas/noticia/temer-corta-bolsa-atleta-pela-metade-tira-contribuicao-a-jovens-e-preserva-investimento-na-elite.ghtml

[2] MASCARENHAS, Fernando. O orçamento do esporte: aspectos da atuação estatal de FHC a Dilma. Rev. bras. educ. fís. esporte [online]. 2016, vol.30, n.4, pp.963-980. ISSN 1807-5509.  http://dx.doi.org/10.1590/1807-55092016000400963

[3] Tribunal de Contas da União. Relatório de Avaliação do Programa Segundo Tempo. Brasília: Tribunal de Contas da União, 2006, p. 20 e 84.

[4] Brasil. Censo Escolar 2017: notas estatísticas. Brasília / Rio de Janeiro: Ministério da Educação / Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2018, p. 6.

[5] “Todas as metas do governo Bolsonaro, explicadas” – Aos fatos – 9 de abril – Disponível em: https://aosfatos.org/noticias/metas-do-governo-bolsonaro/

[6]Lei Orçamentário Anual 2019 – Câmara dos Deputados – Disponível em: https://www.camara.leg.br/internet/comissao/index/mista/orca/orcamento/OR2019/red_final/Volume_IV.pdf

[7]Lei Orçamentária Anual 2020 – Câmara dos Deputados – Disponível em: https://www.camara.leg.br/internet/comissao/index/mista/orca/orcamento/OR2020/red_final/Volume_IV.pdf

[8] “Governo Bolsonaro corta 94% do investimento em atletas militares” – Folha de São Paulo – 03 de fevereiro de 2020 – Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2020/02/governo-bolsonaro-corta-94-do-investimento-em-atletas-militares.shtml

[9] “Governo economizará menos de 0,01% com corte em ministérios” – Terra – 15 de março de 2019 – Disponível em: https://www.terra.com.br/economia/governo-economizara-menos-de-001-com-corte-em-ministerios,ea0250c0f5df41041b67eda8cadbadfe7a8pn8gi.html

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A representação midiática do CSA na Série A do Brasileiro

Tratar da representação midiática do futebol no Brasil possibilita diferentes perspectivas de comentários e análise. Mas há quase que um consenso que os principais veículos de comunicação que se propõem a ser nacionais partem de uma base do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, onde se encontram as sedes das redes nacionais de TV aberta e fechada, rádio e internet. Isso é reproduzido quando o assunto é o futebol.

Enquanto torcedor do CSA, time que teve acessos consecutivos da Série D, em 2016, até jogar a Série A em 2019, os efeitos da falta de difusão e, em alguns casos, da desinformação sobre o clube sempre me chamaram atenção. Este texto se trata mais de um ensaio sobre o que acompanhei enquanto torcedor que pesquisador – se é possível separar as coisas – da volta de um time alagoano à Série A após mais de três décadas.

Foto do autor (CSA 3-2 Jaciobá, 2020)

Campo midiático

Como Vasconcelos (2014) aponta ao estudar a formação dos torcedores mistos no Nordeste, o capital econômico foi fundamental para o desenvolvimento das forças que têm maior destaque na disputa do futebol enquanto campo social, com maior capital político sobre a organização do esporte profissional, maior difusão pela mídia (capital midiático) e maior capital simbólico (com mais títulos visibilizados e maior torcida).

Em artigo escrito com Irlan Simões (2020) para um livro do LEME (Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte) a ser publicado este ano, analisamos a representação do Nordeste no Jornal dos Sports, dos anos 1940 até os anos 1970, com um dos casos estudados sendo as publicações sobre os times nordestinos no período de 1968 a 1970, quando foi realizado o Torneio Norte-Nordeste. Da observação inicial, surgiram 5 categorias: resultados de jogos; notícias sobre a parte burocrática do torneio; dificuldades de participação e comentários de dirigentes; notas curtas sobre jogos; ligação com os “grandes” do país, com ex-jogadores ou amistosos; e matérias que trazem o pitoresco (fait divers, na linguagem jornalística).

Da década de 1970 até agora, o futebol brasileiro e o nordestino, em especial, passaram por diversas fases, com destaque para a organização das divisões a partir dos anos 1990, que se consolida com a criação da Série D em 2009. O torneio regional que nos interessava naquele momento foi criado em 1994, com edições contínuas de 1997 a 2003. A Copa do Nordeste, com 7 estados nordestinos representados – menos Piauí e Maranhão, situados na região Norte na “geografia” da CBF – foi o único sucesso de público, renda e competitividade entre os regionais disputados no período, mas interrompido pela falta de êxito dos demais, especialmente o Rio-São Paulo de 2002.

Nos últimos sete anos, coincidindo com o ressurgimento da Copa do Nordeste e a sequência de boa representação nordestina na Série A (4 equipes nas edições de 2018 a 2020), passou-se a tentar fazer uma melhor cobertura, para além do pitoresco, sobre a região, mas o destaque é para o que é produzido e reverberado nas mídias alternativas, especialmente as mídias sociais e os podcasts. Ainda assim, distante da repercussão da cobertura sobre os times do eixo Rio-São Paulo, com alguns casos que reproduzem elementos do “pitoresco” (gol do Campeonato Piauiense para o “Inacreditável F.C” do Globo Esporte) ou da referência à equipe “maior” (a utilização de “time do Ceni” em muitas manchetes de noticiários esportivos para tratar do Fortaleza em 2018 e 2019).

Importante ao retratar o caso do CSA é que mesmo dentro do Nordeste a repercussão é diferente. Ao contrário do que vemos em novelas e outros produtos, o desenvolvimento social, cultural e econômico de cada local é diferente, incluindo aí as divisões dentro dos Estados, cujo domínio da capital tende a ser maior – considerando o peso de Campina Grande “contra” a capital João Pessoa, na Paraíba. Sotaques e demais representações fenotípicas são diferentes, sem uma “cara de nordestino”; do mesmo jeito que, dentro do desenvolvimento desigual e na lógica da interferência do capital econômico no futebol, na estrutura deste esporte.

Maiores PIB (Produto Interno Bruto) da região, o futebol também se desenvolve inicialmente em Bahia e Pernambuco, e os clubes desses Estados conseguiram furar o eixo do futebol para conquistar títulos nacionais de primeiro escalão, casos da Série A e da Copa do Brasil. Desta forma, mesmo nas formas de representação midiática sobre o Nordeste, as equipes de Bahia e Pernambuco, especialmente, têm maior reverberação midiática da cobertura esportiva nacional para além do pitoresco.

Foto do autor (Corinthians 1-0 CSA, 2019)

Casos jornalísticos sobre o CSA

Com o CSA da 4ª rodada da Série B até a 37ª no grupo de classificados para a Série A, sendo vice-campeão ao final, o clube começou a chamar a atenção de torcedores de outros times e da mídia nacional. Em 8 de setembro de 2018, Alex Sabino e Luiz Cosenzo (2018) publicaram na Folha de S. Paulo a reportagem “Ascensão do CSA e queda do Joinville passam por participação de mecenas”, comparando os seguidos acessos do time alagoano com o que ocorreu com a equipe catarinense que subiu à A em 2015 e caiu para a D, cheio de dívidas, em 2018. A reportagem escuta o presidente azulino Rafael Tenório, que assume que colocou dinheiro do próprio bolso nas Séries D e C, mas que o clube se sustentava a partir de então.

Na véspera do Natal daquele ano, Diogo Magri (2018) publica no El País a reportagem “CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas”. Relação política com presidente que sofreu impeachment, mas que comandou o clube do final dos anos 1970 ao início dos 1980 – o filho no início dos anos 2000 –, com o fato de Rafael Tenório, em sua primeira tentativa eleitoral, ter se tornado suplente do senador Renan Calheiros, conhecido nacionalmente.

Se o Joinville chegou até a ganhar prêmio de consultoria esportiva em 2015 por “eficiência na gestão do futebol”, como inicia a matéria da Folha, o histórico do CSA era justificado pelo “mecenas” e suas relações políticas. Essas duas reportagens destacam muito bem as expectativas de cobertura midiática com o holofote da Série A.

A eliminação na primeira fase da Copa do Brasil para o Mixto e erros de planejamento que fizeram com que o clube contratasse 46 novos jogadores em 2019, tornaram o rebaixamento à Série B como algo certo, com algumas pessoas nas mídias sociais cravando que seria a pior campanha da história dos pontos corridos – do outro time nordestino fora de Bahia, Pernambuco e Ceará a jogar o torneio neste período, o América-RN, em 2007 – e, durante o torneio, que o CSA perdera a chance de se estruturar, dada a quantidade de contratações.

Em julho de 2019, após a derrota contra o Corinthians por 1 a 0, em São Paulo, o ex-jogador Muller comentou no programa Mesa Redonda, da TV Gazeta, que o CSA era “medíocre”, perguntando “o que o CSA veio fazer na Série A?”. Ele se retratou e disse que o problema foi a forma que a equipe alagoana atuou, mas serve como exemplo do que apontamos acima (ROMA; MÉLO, 2019). O CSA venceria o Corinthians na partida de volta por 2 a 1, mas com áudio do Premiere mais alto para a torcida adversária que o que se ouviu na transmissão da TV Globo.

As derrotas para o campeão Flamengo foram em jogos disputados (2 a 0 e 1 a 0). No primeiro, realizado no dia 12 de junho em Brasília, porque o CSA vendeu o mando de campo por R$ 1,5 milhão, gerou repercussão na imprensa nacional. Ainda que eu tenha sido contrário, a reação não foi a mesma que a da venda de mando por Vasco (contra o Corinthians, para Manaus, em 4 de maio) e por Botafogo (contra o Palmeiras, para Brasília, em 25 de maio). Pesava, no caso da TV fechada, a disputa entre times paulistas com o Flamengo pelo título, o que poderia interferir na tabela.

Além da melhora dentro de campo, com possibilidades matemáticas de se manter na Série A até a penúltima rodada do torneio, outro fator do capital simbólico que permeia o futebol no Brasil fez com que a opinião pública mudasse o direcionamento sobre o time: equipes “grandes” na beira do rebaixamento. De um lado, o Fluminense, que caiu em 1996, mas permaneceu na A em 1997; em 2000, graças à Copa João Havelange, não jogou a Série B; e, em 2012, graças aos erros de escalações de Portuguesa e Flamengo não foi rebaixado. Do outro, o Cruzeiro, uma das poucas equipes que não havia jogado a Série B. A torcida “anti” se juntou a uma das equipes que poderia empurrar outras. Cresceu ainda a admiração pela festa da torcida azulina no Trapichão – mesmo que já fosse algo comum até em outras divisões nacionais.

O CSA cairia, com 32 pontos, em 18º lugar, à frente de Chapecoense e Avaí, que em momento algum tiveram comentários tão negativos quanto os nossos. Pese-se o carinho à Chapecoense após o acidente de 2016, mas o clube atrasou pagamentos e o presidente precisou se afastar em agosto 2018 para focar na busca de recursos (DEBONA, 2019). Enquanto isso, em novembro, o “mecenas” do CSA anunciava que as dívidas trabalhistas do clube haviam sido pagas (PRESIDENTE, 2019).

O Centro de Treinamento Gustavo Paiva estava sendo reestruturado até abril de 2019, quando se confirmou que o bairro em que fica, o Mutange, era um dos que estavam afundando devido à extração de sal-gema pela Braskem. A “falta de oportunidade” nada mais era que a impossibilidade de investir no aprimoramento de algo que deve ser abandonado nos primeiros meses de 2020 por questões de segurança (NASCIMENTO, 2019). Isso também não foi tão comentado na mídia nacional, como o que afeta milhares de famílias de 4 bairros de Alagoas desde o primeiro semestre de 2018, talvez pela força financeira da empresa pertencente ao grupo Odebrecht.

Foto do autor (CT Gustavo Paiva, 2019)

Considerações

A desinformação é um fenômeno contemporâneo marcado pela dúvida até mesmo de fatos comprovados cientificamente, com a “verdade” voltada ainda mais aos efeitos gerados pelas mensagens e por quem a fala que à comprovação sobre o que se diz. Problema grave é quando isso vem por quem deveria prezar pelo que é apresentado.

Num ano em que o Twitter, incluindo alguns jornalistas, acusaram perseguição de canais esportivos ao Flamengo, briga dentro do eixo político, econômico e simbólico que demarca o futebol brasileiro, este ensaio mostra que havia quem deveria reclamar mais de diferentes construções narrativas formadas pela cobertura esportiva nacional.

Referências

DEBONA, Darci. NSC Total, Florianópolis, 23 ago. 2019. Disponível em: <https://www.nsctotal.com.br/noticias/presidente-da-chapecoense-pede-afastamento-temporario&gt;. Acesso em: 02 fev. 2020.

MAGRI, Diogo. CSA, o clube já presidido por Collor que escalou quatro divisões em tempo recorde graças a um mecenas. El País Brasil, São Paulo, 24 dez. 2018. Disponível em: < https://brasil.elpais.com/brasil/2018/12/18/deportes/1545165765_862713.html&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

NASCIMENTO, Jean. Direção do CSA anuncia saída do Mutange após 97 anos e transferência para Nelsão. Gazetaweb, Maceió, 21 nov. 2019. Disponível em: <https://gazetaweb.globo.com/portal/noticia/2019/11/rafael-tenorio-confirma-saida-do-centro-de-treinamentos-do-mutange-em-dezembro_91055.php&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

PRESIDENTE do CSA anuncia fim da dívida trabalhista do clube: “Quitamos 100% do passivo”. Globoesporte.com, Maceió, 14 nov. 2019. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/al/futebol/times/csa/noticia/presidente-do-csa-anuncia-fim-da-divida-trabalhista-do-clube-quitamos-100percent-do-passivo-em-quatro-anos.ghtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

ROMA, Denison; MÉLO, Victor. CSA diz que comentário de Müller sobre o clube foi preconceituoso, e ex-jogador pede perdão. Globoesporte.com, Maceió, 16 jul. 2019. Disponível em: <https://globoesporte.globo.com/al/futebol/times/csa/noticia/csa-diz-que-comentario-de-muller-sobre-o-clube-foi-preconceituoso-e-ex-jogador-pede-perdao.ghtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

SABINO, Alex; COSENZO, Luiz. Ascensão do CSA e queda do Joinville passam por participação de mecenas. Folha de S. Paulo, São Paulo, 8 set. 2018. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/esporte/2018/09/ascensao-do-csa-e-queda-do-joinville-passam-por-participacao-de-mecenas.shtml&gt;. Acesso em: 29 jan. 2020.

SANTOS, Irlan Simões; SANTOS, Anderson David Gomes dos. A invenção do “Nordestão” e o futebol-arte: investigações a partir do Jornal dos Sports. In: HELAL, Ronaldo; MOSTARO, Felipe. Narrativas e representações do esporte na mídia: reflexões e pesquisas. Curitiba: Editora Appris, 2020. No prelo.

VASCONCELOS, Arthur Alves de. “Eu Tenho Dois Amores que em Nada São Iguais”: Bifiliação Clubística no Nordeste. Ponto Urbe – Revista do núcleo de antropologia urbana da USP, v. 14, 2014.

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Bahia, Fortaleza e Náutico nas finais da Taça Brasil (1959-1968): o futebol nordestino emerge nacionalmente

Na década de 1950, o predomínio futebolístico do Rio de Janeiro e de São Paulo já era incontestável. Era como se já existisse o que hoje chamamos de eixo Rio-São Paulo. Nesse eixo estavam os melhores clubes e jogadores do país. Ali estava a base da seleção brasileira de futebol. A situação era tal que, na Copa do Mundo de 1954, a seleção brasileira era formada inteiramente por jogadores de clubes paulistas e cariocas, o que se repetiu em 1958.

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Seleção Brasileira na Copa de 1954.

No Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais, disputado 28 vezes de 1922 a 1959, as seleções do Estado de São Paulo e do Distrito Federal (cidade do Rio de Janeiro) foram campeãs 27 vezes. Uma hegemonia incontestável, que foi quebrada apenas pela seleção do Estado da Bahia no campeonato de 1934 organizado pela CBD (houve outro, no mesmo ano, organizado pela FBF, em que a seleção de São Paulo foi a campeã).

Portanto, era de se esperar que na disputa da Taça Brasil, realizada a partir de 1959 e reconhecida como a primeira competição nacional de clubes de futebol, o predomínio fosse das equipes do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O predomínio, de fato, foi paulista e carioca. Nas dez vezes em que a Taça Brasil foi disputada, o Santos foi campeão cinco vezes, o Palmeiras duas vezes e o Botafogo uma vez. Oito campeonatos vencidos pelo eixo Rio-São Paulo.

Mas também houve resultados inesperados. A Taça Brasil teve um campeão baiano, um campeão mineiro e por cinco vezes o vice-campeão foi um clube nordestino.

Essa recorrente presença de clubes do Nordeste na final da competição surpreendeu. Não era frequente a classificação de seleções nordestinas para a final do Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais. Nenhum clube da região havia demonstrado algo de especial até então. Mas de 1959 em diante o futebol do Nordeste pareceu desabrochar nas disputas da Taça Brasil.

Em que condições esses times do Nordeste disputaram essas finais? Estavam confiantes? Ou se sentiram pequenos diante dos gigantes do futebol brasileiro?

Eram respeitados por terem chegado até ali? Tratados como zebras ameaçadoras, mas que podiam ser derrotados sem maior dificuldade? Ou menosprezados como equipes sem a mínima chance de vitória?

Vejamos caso a caso.

1959: BAHIA X SANTOS

O time do Santos, em 1959, era considerado um dos melhores do planeta. Pelé já era chamado de “melhor crack do mundo” (Jornal dos Sports, 10.12.1959), e o time ainda contava com Coutinho, Pepe, Dorval e Jair. Esses cinco jogadores formavam o ataque santista, considerado o melhor da América do Sul.

Ainda assim, o Bahia chegou à final confiante. Em especial, porque havia derrotado o Vasco da Gama em pleno Maracanã na semifinal. O objetivo do clube baiano era fazer o mesmo contra o Santos na Vila Belmiro.

Foram três jogos entre Bahia e Vasco da Gama pela semifinal. Após a vitória baiana no Maracanã, houve dois jogos no estádio da Fonte Nova (Salvador). O Vasco venceu o primeiro desses jogos por 2 a 1 e perdeu o segundo por 1 a 0.

Em 10 de dezembro de 1959, dia da primeira partida da final, o Jornal dos Sports disse que o Santos possuía um “ligeiro favoritismo”. Mas disse também o seguinte: “Mesmo contando com Pelé e Cia. o Santos não amedronta o Bahia, que se baseia nas muitas exibições que o campeão paulista realizou em gramados nordestinos, tendo vencido apenas uma vez por goleada”. No mesmo dia, a Folha de São Paulo, que considerava o Santos “franco favorito”, alertou: “não deve o Santos menosprezar o seu adversário de hoje”. O Bahia, naquela final, certamente não se sentia inferiorizado e não era considerado uma presa fácil.

A confiança do Bahia foi premiada. Na primeira partida da decisão, o time nordestino venceu o Santos por 3 a 2 no estádio da Vila Belmiro. Vinte dias depois, os santistas derrotaram o Bahia por 2 a 0 em Salvador. Na partida-desempate, realizada no Maracanã, o Bahia venceu por 3 a 1 e tornou-se o primeiro campeão da Taça Brasil.

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Equipe do Bahia, campeã da Taça Brasil de 1959.

1960: PALMEIRAS X FORTALEZA

Ao se classificar para a final da Taça Brasil de 1960, após vencer o Santa Cruz por 2 a 1 em um jogo realizado na capital cearense, o time do Fortaleza comemorou como se já tivesse conquistado um título. Os jogadores festejaram no gramado por já serem, no mínimo, vice-campeões nacionais e deram até uma volta olímpica em torno do campo. Volta olímpica inusitada, já que o costume tradicional é dar essa volta após uma final e exibindo o troféu de campeão. O jornal O Povo saudou o êxito do time e declarou que o Fortaleza era o novo vice-campeão nacional de futebol.

Isso significava que a derrota diante do Palmeiras, na final, era tida como inevitável? Não. Embora pudesse parecer isso, havia a esperança de converter aquele título de vice-campeão em um outro ainda mais glorioso: o de campeão nacional. O mesmo jornal O Povo foi claro: “Não está fora de cogitação uma vitória sobre o Palmeiras” (O Povo, 24.11.1960). E disse mais:

E com a sensacional vitória obtida ontem, o tricolor de aço cearense conquistou o título de vice-campeão da II Taça Brasil, podendo ainda ser campeão do referido certame, caso derrote o Palmeiras em São Paulo. (O Povo, 24.11.1960)

Comemorar um “título de vice-campeão” com tanto entusiasmo podia dar, de fato, a impressão de que havia confiança menor dos cearenses em relação aos jogos decisivos. Apesar disso, a Folha de São Paulo lembrou que o Fortaleza tinha “uma longa série de jogos invictos, após enfrentar inclusive clubes como o Santos FC, EC Bahia, etc.” (Folha de São Paulo, 22.12.1960). Portanto, seria um adversário a ser encarado com seriedade pelo Palmeiras.

Na decisão daquela Taça Brasil, o Palmeiras venceu os dois jogos. O primeiro em Fortaleza por 3 a 1. O segundo, na semana seguinte, por 8 a 2 no estádio do Pacaembu.

1961 E 1963: SANTOS X BAHIA

Em 1961, Santos e Bahia voltaram a decidir a Taça Brasil. Ora, se o Bahia havia vencido em 1959, não seria absurdo pensar que poderia vencer novamente dois anos depois. O time baiano, então, tinha um bom motivo para se sentir confiante mais uma vez.

Na primeira partida da final, em Salvador, houve empate em 1 a 1. Pelé jogou, mas não conseguiu marcar gols. A disputa se mostrou equilibrada, e a Folha de São Paulo, após falar do favoritismo do Santos para a segunda partida, advertiu: “Mas não se pode excluir a possibilidade de uma vitória do Bahia, pois como se sabe, quando da I Taça Brasil, ele se impôs ao Santos, no mesmo local da pugna desta noite” (Folha de São Paulo, 27.12.1961).

Na segunda partida, o Santos se impôs como um dos melhores times da história do futebol. Derrotou o Bahia por 5 a 1 e se tornou, pela primeira vez, campeão nacional. Foram três gols de Pelé e dois de Coutinho para o Santos, enquanto Florisvaldo marcou para o Bahia.

Na Taça Brasil de 1963, Santos e Bahia se enfrentaram novamente em uma decisão daquele campeonato. Mais uma vez, havia confiança entre os baianos. O técnico do time, Geninho, declarou ao Jornal dos Sports antes da primeira partida da final que “futebol se ganha no campo e o Bahia não vai se perturbar com a fama de Pelé e seus companheiros, como não se perturbou quando jogou com o Botafogo” (Jornal dos Sports, 25.01.1964). O Bahia havia desclassificado o Botafogo na semifinal com uma vitória por 1 a 0 e um empate em 0 a 0. Geninho disse ainda que esperava vencer o Santos na primeira partida decisiva, que seria realizada no estádio do Pacaembu.

A confiança baiana frustrou-se completamente. O Santos venceu o primeiro jogo por 6 a 0. Depois, em Salvador, venceu novamente (dessa vez, por 2 a 0).

1967: PALMEIRAS X NÁUTICO

Em 1967, Náutico e Palmeiras se encontraram na final da Taça Brasil. O clube pernambucano, além de estar orgulhoso por ser o primeiro do seu Estado a chegar à decisão, estava confiante. No dia do primeiro confronto decisivo, o Diário de Pernambuco informou: “os jogadores alvirrubros (…) confiam numa boa apresentação esta noite diante do Palmeiras, embora respeitem a categoria do adversário” (Diário de Pernambuco, 20.12.1967). O objetivo era vencer em Recife e ir para o segundo jogo, em São Paulo, precisando de um empate para se tornar campeão.

Grande parte da confiança do clube recifense se amparava em sua participação na Taça Brasil do ano anterior. O Náutico havia derrotado o próprio Palmeiras nas quartas-de-final e, ao enfrentar o Santos na semifinal, venceu o time de Pelé, na cidade de São Paulo, por 5 a 3. Depois desses grandes êxitos em 1966, o time se achava em condições de tornar-se campeão nacional em 1967.

Além disso, na própria Taça Brasil de 1967 o Náutico havia desclassificado os dois maiores clubes de Minas Gerais: Atlético (nas quartas-de-final) e Cruzeiro (na semifinal). Os cruzeirenses, aliás, haviam sido os campeões do ano anterior.

Na primeira partida da final, realizada em Recife, o Palmeiras venceu por 3 a 1. Em São Paulo, o Náutico reagiu: venceu por 2 a 1. O jogo-desempate foi realizado em 29 de dezembro de 1967 no Maracanã. Com gols de César Maluco e Ademir da Guia, o Palmeiras venceu por 2 a 0 e se sagrou campeão nacional.

1968: BOTAFOGO X FORTALEZA

A Taça Brasil de 1968 foi disputada em clima de decadência. O Torneio Roberto Gomes Pedrosa (reunindo clubes de cinco Estados em 1967 e de sete em 1968) passou a ser o novo centro das atenções. Santos e Palmeiras desistiram de disputar a Taça Brasil e o campeonato teve tantos problemas que só foi decidido em outubro de 1969.

Foi a última Taça Brasil promovida pela CBD.

Os finalistas foram Botafogo e Fortaleza. Para a imprensa carioca, o representante nordestino não tinha qualquer chance de êxito.

A primeira partida foi realizada na capital cearense e o Fortaleza chegou a estar vencendo por 2 a 0, mas os botafoguenses reagiram e empataram. Antes da segunda partida, quase ninguém duvidava da vitória do Botafogo e o Jornal dos Sports publicou:

Por muito atrevido que seja o time do Fortaleza, ele terá que se curvar esta tarde às maiores categorias e experiência do adversário. O próprio resultado do jogo realizado no Ceará serve como indício de que a equipe é incapaz de enfrentar adversários de maior gabarito, caso contrário, dentro de casa, depois de estar na frente por 2 a 0, não permitiria que o Botafogo empatasse. (Jornal dos Sports, 04.10.1969).

Considerações mordazes. Um tanto arrogantes. Mas que se mostraram acertadas durante o jogo. O Botafogo venceu o Fortaleza por 4 a 0 no Maracanã. Segundo a Gazeta Esportiva, “o Fortaleza jogou completamente na retranca e mostrou que não tinha nenhuma possibilidade de vencer”. (Gazeta Esportiva, 05.10.1969)

Uma situação muito diferente daquela vivida pelo Bahia em 1961 ou pelo Náutico em 1967.

E O FUTEBOL NORDESTINO EMERGIU

Depois dessas seis participações nordestinas em finais da Taça Brasil, o futebol da região passou a ser visto de outro modo. Ganhou maior prestígio. O Nordeste, afinal, parecia ter clubes em franca evolução.

Antigamente, apenas o eixo Rio-São Paulo existia. Quando muito, o Rio Grande do Sul tinha o que mostrar também. E enquanto essa condição existiu, o resto do país (…) lhes rendeu a justa homenagem.

O panorama atual é bem outro. Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia evoluíram. (Diário de Pernambuco, 20.12.1967)

Foi na disputa das dez edições da Taça Brasil que o futebol nordestino saiu das sombras, emergiu nacionalmente e se tornou mais respeitado. Em reconhecimento a essa nova realidade, clubes da Bahia e de Pernambuco foram convidados a participar, em 1968, da Taça de Prata (nome dado pela CBD ao Torneio Roberto Gomes Pedrosa a partir daquele ano). Era o campeonato mais importante do país à época. Os nordestinos participaram em 1968, 1969 e 1970 (última edição). A partir de 1971, a CBD passou a organizar o Campeonato Brasileiro, com a presença de quatro clubes nordestinos entre os vinte participantes da primeira edição.

Fabio Santa Cruz é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG).