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Qual o estágio das transmissões de futebol no Brasil?

Graças especialmente à entrada do DAZN na transmissão de eventos esportivos em 2018, uma pergunta comum que venho recebendo em palestras, apresentações de trabalhos e aulas (enquanto estudante de doutorado ou professor) é sobre a situação da transmissão do futebol no Brasil.

Apresentaremos a situação atual considerando a defrontação de capitais, seguindo adaptação da Economia Política da Comunicação dos estudos heterodoxos de análise de concorrência para análise dos mercados comunicacionais, entendendo, a partir de Possas (1987, p. 173, grifos do autor), que a concorrência é considerada como o “motor básico da dinâmica capitalista”, em que as estruturas de mercado representam a busca por derrubada e manutenção das barreiras à entrada e o alcance da liderança.

Quando comecei a estudar a apropriação midiática do futebol, em 2010, tínhamos um cenário claro. Controle do Grupo Globo (então “Organizações Globo”) na TV aberta, na TV fechada e na oferta do pay-per-view dos direitos dos torneios nacionais e da Seleção brasileira. Na TV fechada, a ESPN Brasil (Disney) transmitia os principais torneios europeus. Enquanto a Rede Record havia adquirido os direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos (Verão e Inverno) por dois ciclos.

De lá para cá, a Record foi perdendo o fôlego na disputa por direitos esportivos, acabando praticamente com qualquer disputa na TV aberta, após a Globo atuar de forma muito forte para assegurar a transmissão exclusiva do Brasileiro a partir de 2012.

Entretanto, na TV paga, entraram os canais Fox Sports, com o bônus dos direitos da Libertadores, e o investimento do grupo Warner Media (então “Time Warner”) nos canais Esporte Interativo, que adquiriram por dois triênios seguidos os direitos da Liga dos Campeões da Europa. Isso acabou com o duopólio de concentração de direitos, gerando batalhas para a entrada nas duas principais distribuidoras do país (Net e Sky).

Assim, viveu-se uma década de grande aumento nos direitos de transmissão, numa tentativa de novos agentes de derrubar as barreiras de mercado presentes e se colocarem como líderes. É nesse âmbito que já em 2012 o Esporte Interativo desenvolve o EI Plus enquanto plataforma que poderia ser adquirida à parte (OTT – Over The Top), com a transmissão de todos os campeonatos que a empresa detinha os direitos, com alguns jogos em exclusividade apenas pela plataforma.

Porém, a tendência de crescimento de assinantes de TV paga mudou a partir de 2014, com crise econômica, aumento do desemprego e diminuição do salário real (descontada a inflação) e a maior oferta de plataformas de internet mais baratas. O efeito mais visível foi ver que a transmissão de eventos de forma exclusiva mudou para uma negociação por divisão e troca de direitos, com alguns deles não sendo adquiridos (casos dos campeonatos italiano e francês na temporada 2018/2019) e caindo no colo de novas plataformas.

Outros efeitos mais estruturais no mercado de TV fechada foram o fim dos canais Esporte Interativo em 2018; e a venda dos canais Fox para a Disney, forçando uma compra dos canais Fox Sports por outra empresa que não seja a própria Disney ou o Grupo Globo, o que pode redundar numa volta ao duopólio na TV fechada.

Enquanto isso, cada grupo produtor de conteúdo audiovisual passou a isolar a sua plataforma de streaming. Focando nos esportes, o Grupo Globo possibilitou a assinatura dos canais Combate e do Premiere FC apenas para mídias móveis, sem a necessidade de ser assinante de operadora de TV fechada; a Fox criou o Fox Premium; o EI Plus é ofertado também para clientes da Tim, da Nextel e da Vivo, dentre outros parceiros; enquanto surgiram diversas novas plataformas: DAZN; Live FC (Copa do Nordeste); My Cujoo (plataforma de transmissão de futebol com poucas câmeras e em acordos com a CBF e outras federações); TVN Sports (sociedade com o Grupo Netshoes) para esportes como futsal, basquete feminino e automobilismo; além das transmissões em Twitter e Facebook – com as quatro últimas sendo gratuitas.

Quando a CBF resolveu transmitir dois amistosos da Seleção (contra Austrália e Argentina) na TV Cultura e pelo Facebook, tentando aumento nos valores recebidos para amistosos e jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo FIFA 2022 da seleção masculina principal, eu já via isso como um problema de limitação de acesso, pois a maior parte da população brasileira tem acesso à internet pelo pacote de dados de telefonia móvel, que não suporta por muito tempo transmissão de vídeo.

Além disso, a evolução tecnológica na transmissão de imagens (da TV digital à internet) trouxe mais demora para que o sinal seja exibido nas nossas casas, o que faz com que jogos na TV aberta ou anúncio de gols em aplicativos possam ser mais rápidos, podendo mudar a lógica de acompanhamento.

Mas o grande problema se vê neste momento, não só para o caso do nicho esportivo. A maior “oferta” de canais para acompanhar futebol faz com que o torcedor tenha que ser assinante de diversas plataformas, o que, na soma, pode dar mais que o pacote básico da TV fechada. Lembrando que não houve uma difusão de conteúdos esportivos relevantes (Brasileiros de Séries A e B, Liga dos Campeões da Europa, jogos de Seleção etc.) em plataformas de empresas diferentes, mas restritos àquelas de determinado conglomerado ou empresa. Num futuro próximo, isso pode se tornar um modelo inviável financeiramente para o mercado brasileiro – como já ocorreu na própria TV paga ao atingir seu ápice de assinantes.

A lógica já utilizada pelo EI Plus (Warner Media) nos parece ser uma solução possível em médio prazo, em que, além da venda direta para o cliente, o acesso a determinados torneios possa ser vendido em bloco por uma intermediária. O DAZN, por sinal, assinou acordo em agosto deste ano com a TIM para o Campeonato Italiano entrar no serviço de audiovisual da gigante de telefonia.

Assim, é importante olhar isso com cuidado, entendendo que estamos vivenciando um processo de mudanças e é difícil ter uma definição sobre o futuro. Basta olhar o que mudou no que se pensava há 5 anos, auge da Netflix na oferta de conteúdo audiovisual – viu-se nos últimos anos uma pluralidade de empresas atuantes no setor. Esses casos confirmam a seguinte afirmação de Possas (1980, p. 108):

Este [processo competitivo] aparece como um processo de ruptura da “estrutura competitiva” estabelecida, via de regra através da introdução de inovações (tecnológicas, de produtos, de novos mercados) ou da centralização de capitais existentes (em termos gerais, modificação na distribuição das parcelas do mercado, o que abrange a entrada ou saída de capitais no ramo considerado). O impacto desta alteração da “estrutura competitiva” tenderá a difundir-se ou a acomodar-se em maior ou menor rapidez, em função da própria origem e intensidade da ruptura inicial e das características estruturais (tecno-produtivas e de concorrência) do ramo em questão.

No caso da produção de bens simbólicos em plataformas midiáticas, as mudanças se dão cada vez num tempo menor e, inclusive, exigem mudanças na legislação – a Ancine esteve até o dia 14/10 com consulta pública sobre o impacto regulatório no VOD (Vídeo Sob Demanda). Resta acompanhá-las até o momento em que a estrutura possa vir a se acomodar.

Nota de fim

¹ Em agosto, eu participei de um episódio do podcast 45 de Acréscimo sobre “Novas formas de transmissão”: https://anchor.fm/45-de-acrescimo/episodes/45-de-Acrscimo-38—Novas-formas-de-transmisso-e4v60n

Referências bibliográficas

POSSAS, Mário Luiz. Dinâmica e concorrência capitalista: uma interpretação a partir de Marx. São Paulo: Hucitec, 1989.

POSSAS, Mário Luiz. Estruturas de mercado em oligopólio. 2.ed. São Paulo: Hucitec, 1987.

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Produção audiovisual

Já está disponível o segundo episódio do podcast Passes e Impasses

Acesse o primeiro episódio do podcast Passes e Impasses no Spotify*, Deezer* e Soundcloud.

Podcast #2.pngO tema do nosso segundo episódio é “A construção do imaginário sobre a Seleção Brasileira de futebol masculino”. Com apresentação de Filipe Mostaro, recebemos no nosso estúdio Ronaldo Helal, coordenador do LEME e professor da UERJ, e Mattheus Reis, pesquisador do LEME e jornalista da Rádio Globo.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, traremos sempre especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa. Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o segundo episódio do podcast Passes e Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, trouxemos a marchinha “Para frente Brasil”, composição de Miguel Gustavo. Ao longo do programa, também trouxemos algumas referências bibliográficas, que listamos abaixo

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Equipe
Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Roteiro e Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Produção: Fausto Amaro e Marina Mantuano
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro
Convidados: Mattheus Reis e Ronaldo Helal

*No Spotify e Deezer não é possível escutar o podcast no seu navegador web. É necessário ter o aplicativo instalado em seu smartphone ou desktop.

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O “lugar” do negro no futebol brasileiro

Não deveria chamar atenção e ter uma repercussão grande dois treinadores negros, que foram destaque como jogadores, estarem se enfrentando na área técnica. Para mim isso é a prova que existe um preconceito, à medida que a gente tem 50% da população negra e a proporcionalidade que se representa não é igual. A gente tem que se questionar: se não há preconceito no Brasil, por que os negros tem um nível de escolaridade menor que os brancos, por que a população carcerária é 70% negra, por que quem mais morre são os jovens negros no Brasil…

Este foi um dos trechos da contundente e lúcida entrevista do atual técnico do Bahia, Roger Machado, após a derrota de seu time por 2 a 0 para o Fluminense. Suas declarações foram um oásis no deserto de reflexões e ideias que se tornaram as coletivas pós-jogo no Brasil. Seja por culpa das perguntas banais que beiram a mediocridade ou do media training dos técnicos, uma resposta que expande as quatro linhas é algo, infelizmente, inesperado.

Fonte: metro1.com.br 

Além de sua precisão nos argumentos, a fala de Roger nos instiga a questionar o motivo de termos apenas dois treinadores negros na primeira divisão do torneio. O jornalista Mario Filho escreveu em 1947 um livro clássico para as pesquisas sobre esporte no Brasil: O Negro no Futebol Brasileiro. Em sua visão, considerada por alguns pesquisadores como “romântica” e influenciada pelas ideias do amigo e sociólogo Gilberto Freyre, Mario Filho acreditava que a destacada presença do negro no esporte mais popular do país era um exemplo de “democracia racial”. Anos mais tarde, após observar os reflexos da derrota em 1950 e das vitórias em 1958 e 1962, relativizou sua argumentação inicial, incluindo dois capítulos a sua obra: a provação do preto (sobre 1950) e a vez do preto (1958 e 1962). Apesar de dentro de campo o mestiço ter auxiliado no bicampeonato, isso não significava que a “democracia racial” tinha chegado ao país. Em outras esferas o negro ainda era (e até hoje é) estigmatizado. O talento dos nossos mestiços era uma arte que precisava ser “domada” e “orientada” por uma “organização” que seguiria o modelo europeu, branco e elitista. Esta organização, tutelada pela elite, estaria a cargo do treinador de futebol.

Para iniciar este debate é fundamental observamos como o conceito de treinador foi construído no Brasil. Em minha pesquisa de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UERJ, foquei neste “perfil exigido” dos treinadores da seleção brasileira de futebol ao longo das Copas do Mundo. Os resultados desta investigação nos dão caminhos para analisar a constatação de Roger Machado.

Parto do princípio de que o futebol, como uma manifestação cultural importante, estimula imaginários e narrativas que podem ser expandidas para outros setores. Tentar manter o controle destas narrativas é algo decisivo para os grupos que disputam esses imaginários. Quando falamos de seleção brasileira, por exemplo, o que podemos notar é que a projeção deste conceito de treinador nos jornais sempre passou pela tutela da elite nacional, que comanda o futebol brasileiro desde a criação da CBD. Do “doutor” Píndaro de Carvalho em 1930 ao “gestor” Tite em 2018, podemos notar uma série de interações entre diferentes campos que vão definir qual será o “perfil” do treinador da seleção a cada competição na narrativa da imprensa.

Fonte: wikipedia

Fonte: wikipedia

A chegada do treinador no Brasil passou pela ideia de um “professor” vindo de outros países, mais frequentemente da Inglaterra, que ensinaria aos jovens oriundos de classes mais abastadas “os segredos do esporte”. Ter um treinador era sinônimo de status social para os clubes que podiam pagar por essas aulas, mesmo seus atletas sendo amadores. A expressão se enraizou no imaginário nacional, e até hoje notamos referências aos treinadores como “professores”.

Entretanto, com a sua rápida popularização, diferentes camadas da sociedade passaram a praticar o futebol, e, aos poucos, jovens de outras classes sociais foram inseridos em “clubes da elite”. O papel do treinador, além de ensinar, passou a ser também o de disciplinar esses atletas para se “adequarem” aos “clubes”. Logicamente, existe uma disputa entre esse “obedecer” e “não obedecer”, que trará ao longo dos anos a fama de “rebeldes” aos jogadores que não cumprem a “adequação” pretendida.

Essa popularização culminou na profissionalização do esporte. Nesse sentido, concordamos com o pesquisador inglês Stephen Wagg ao destacar, em seu livro The football world: a contemporary social history, que o treinador seria, nesse cenário, a ponte entre capital e trabalho. Alguém que estaria na linha de frente dos confrontos entre dirigentes e jogadores. Além de incutir os ensinamentos pretendidos pelos dirigentes, o treinador se tornaria um “gerente” responsável pelos resultados e o foco principal das críticas no caso de derrota, o que culmina, na grande maioria das vezes, na sua troca por outra “peça”, mantendo toda a estrutura acima dela intacta.

Fonte: amazon

Essa tutela dos dirigentes, representantes da elite nacional, definiria quem teria “o perfil” para tal cargo. A interação entre o mundo político, econômico, social e militar com o esportivo é nítida ao observarmos as escolhas desses dirigentes. Alguns deles flutuam entre esses campos, saindo de presidência de clubes diretamente para cadeiras em Assembleias e Câmaras, tanto municipais, estaduais e federais. Durante o Estado Novo, Adhemar Pimenta, treinador da seleção na Copa de 1938 foi o primeiro a usar o termo “convocação” para os jogadores, como se estivessem realmente indo para uma “guerra”, indicando uma relação vicinal com o campo militar. Outro exemplo é Claudio Coutinho, capitão do exército, que foi treinador na Copa de 1978, durante a ditadura militar. Obviamente que outras interações determinam tais escolhas e na pesquisa completa é possível ter uma visão mais ampla do argumento que aqui queremos trazer para analisar a fala de Roger.

Em síntese podemos novamente nos remeter a Stephen Wagg (1984), que, parafraseando Karl Marx, entende que os técnicos fazem suas histórias, mas certamente não as fazem em situações comandadas por eles. Concordamos com tal análise e, neste sentido, cabe aqui um apontamento que julgamos importante e sintetiza a tutela da elite. Se apenas o “sucesso” na esfera esportiva fosse fundamental para assumir o cargo de treinador da seleção, como a compreensão do jogo por quem já esteve lá e “brilhou”, por exemplo; não parece estranho que, com tantos jogadores negros e mestiços que possuem tais atributos, nenhum tenha assumido a seleção? Essa elite tutelaria algum desses jogadores a assumir por conta de seu capital esportivo ou por conta de seu capital social, que grosso modo significaria uma aproximação e/ou uma relação direta com essa elite? Por mais complexa que seja essa questão, sinalizamos que “estar adequado” à elite será o principal fator, excluindo os demais, que podem ser justificativas amenizadoras do conflito caso o primeiro item seja cumprido.

A análise deste processo narrativo sobre o perfil do treinador na seleção traz elementos que podemos usar no caso de Roger. Em uma sociedade racista e preconceituosa, com uma elite que se nega a discutir a questão da escravidão, tutelar negros em qualquer local de destaque, seja ele qual for, é algo extremamente difícil. Ser a ponte entre capital e o trabalho nos clubes de futebol no Brasil é um cargo usado constantemente como escudos para os cartolas. O “lugar” demarcado no futebol para esses agentes parece bem definido. A tal “democracia racial” vista dentro de campos com os negros e mestiços, Pelé e Garrincha, por exemplo, ocupando lugar de destaque, não é vista nos cargos de dirigentes esportivos e de federações. Nessas instituições, uma classe rica, branca e elitizada continua no comando e, salvo exceções, prefere colocar como seu “gerente”, técnicos que cumpram a sua “cartilha”. Indo além, na estrutura racista construída pelos anos de escravidão e que ainda permanece enraizada no Brasil, estar no local da “organização” é um “lugar” negado ao negro. Ah, então como você explica o Roger e Marcão serem técnicos? Bom, para você que ainda não entendeu que isso é algo estrutural de nossa sociedade e que também se reflete no esporte, Roger respondeu de forma brilhante: “Nós precisamos sair da fase da negação! Negar e silenciar é confirmar o racismo!”

Fonte: revistaforum.com.br

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Pode gritar “bicha” no estádio?

Trinta anos atrás, em 1989, o racismo passa a ser considerado crime no Brasil – embora já fosse enquadrado como contravenção desde 1951. Em 2006, começa a vigorar a Lei Maria da Penha, que coíbe atos de violência doméstica contra a mulher. A homofobia, por sua vez, precisou esperar até junho de 2019 para se caracterizar como crime, quando finalmente o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a discriminação por orientação sexual e identidade de gênero fosse tratada como ação criminosa.

Do papel à prática punitiva, o caminho é longo. Nos estádios de futebol, contudo, alguns exemplos positivos felizmente começaram a surgir. Há bem pouco tempo, cheguei a pensar que nunca veríamos uma atitude como a do árbitro Anderson Daronco no gramado. Em medida inédita no Brasil, ele paralisou uma partida por conta dos cantos homofóbicos vindos das arquibancadas. Durante a vitória do Vasco contra o São Paulo pelo Campeonato Brasileiro, no último dia 25 de agosto, a torcida cruz-maltina entoou o canto “viado, time de viado” para o clube adversário.

Daronco não só paralisou a partida, informando ao técnico e ao capitão vascaínos o motivo da paralisação, como também relatou o caso na súmula, o que poderia gerar punição ao clube, com a perda dos três pontos referentes àquela partida. Vale ressaltar que, na segunda-feira seguinte, o Club de Regatas Vasco da Gama emitiu nota repudiando o ocorrido e pedindo desculpas pelos cantos homofóbicos ocorridos em São Januário.

“Em relação ao episódio registrado na partida deste domingo (25/08) contra o São Paulo, o Club de Regatas Vasco da Gama lamenta e repudia qualquer canto ou manifestação de caráter homofóbico por parte de alguns de seus torcedores. Da mesma forma, a Diretoria Administrativa do Clube manifesta seu pedido de desculpas a todos que, corretamente, se sentiram ofendidos por este comportamento.

O combate a este tipo de postura – iniciado ainda em campo, quando o técnico Vanderlei Luxemburgo, os jogadores, parte da torcida e o próprio Vasco da Gama, através do sistema de som do estádio, clamaram para que os gritos cessassem – não deve ser motivado pelo receio de punição desportiva (eventual perda de pontos), mas, sim, por uma questão de cidadania e respeito ao próximo e cumprimento da lei. Preconceito é crime. E se existe um Clube no Brasil historicamente habituado a levantar a voz contra qualquer tipo de discriminação este é o Vasco da Gama, dono da história mais bonita do futebol. Assim foi com a resposta histórica de 1924; assim é com os cantos que o torcedor vascaíno entoa orgulhosamente na arquibancada enaltecendo a luta do Clube a favor de negros e operários.

A plateia de um estádio de futebol e a sociedade de maneira geral passam por um processo de aprendizado e conscientização necessário para que atos de preconceito fiquem no passado – um triste passado, diga-se. A Diretoria Administrativa do Club de Regatas Vasco da Gama compromete-se em promover ações educativas neste sentido junto ao seu torcedor, certa de que encontrará em cada vascaíno um aliado no combate a qualquer tipo de discriminação. O Vasco é a casa de todos.”

A atitude da arbitragem me deixou um pouco mais otimista em relação ao cenário extremamente homofóbico que vemos ao ligar à TV num domingo às quatro da tarde ou que encaramos ao sair de casa para acompanhar de perto nosso time no estádio. Podemos incluir aí o machismo e o racismo como outras práticas discriminatórias que se potencializam nesse lugar onde ainda impera uma masculinidade tóxica. O racismo, no entanto, creio estar um pouco menos evidente pelo fato de as punições serem mais efetivas.

Os gritos de “macaco” ainda não foram totalmente extintos das arquibancadas, porém, nos dias de hoje, talvez não sejam entoados com a mesma frequência com que aparecem o canto “time de viado” e o grito “ôoo bicha” quando o goleiro adversário vai cobrar o tiro de meta. Enquanto escrevo este texto, me lembro de um coro que ecoava nas arquibancadas do Mineirão no final dos anos 90 quando o Flamengo ia jogar contra o Cruzeiro. Nessa época, eu vivenciava minhas primeiras memórias do futebol e ainda não entendia muito bem o que aquele refrão pejorativo queria dizer: “Ô Júlio César, seu viadinho, sua mulher deu o c* pro Ronaldinho”.

O canto em alusão aos relacionamentos da então modelo Susana Werner com o atacante Ronaldo e o goleiro Júlio César – com quem ela é casada atualmente – destilavam preconceito tanto contra os gays quanto contra as mulheres, os quais até hoje me pergunto se são mesmo grupos minoritários nos estádios. Sobre as mulheres, felizmente já conseguimos ver números mais equiparados entre a presença masculina e feminina nas arquibancadas. Os gays, por sua vez, seguem receosos de sequer poder dar as mãos ao parceiro em um cenário tão excludente.

Prova disso é que no último dia 1º de setembro, na partida entre Cruzeiro e Vasco pelo Campeonato Brasileiro no Mineirão, um casal de torcedores cruzeirenses foi ameaçado por estarem abraçados e se beijando no estádio. A troca de carinhos entre Yuri e Warley – troca esta que, vale lembrar, é tão recorrente entre casais héteros e inclusive aplaudida pelos espectadores nas famosas “câmeras do beijo” – foi gravada por alguns torcedores que espalharam o vídeo nas redes como forma de intimidar o casal. Fico imaginando o que essas carícias têm de diferente em relação aos abraços calorosos que um bando de homens suados troca com o desconhecido ao lado quando o time deles faz um gol.

Fonte: https://pressfrom.info

Também vem das arquibancadas mineiras outro (mau) exemplo de preconceito sob o álibi de canto de torcida. “Ô cruzeirense, toma cuidado, Bolsonaro vai matar viado”¹ gritavam os torcedores do Atlético-MG em direção aos torcedores celestes em um clássico válido pelo Campeonato Brasileiro do ano passado. Fato parecido ocorreu no metrô da Estação da Sé, em São Paulo, onde um grupo de palmeirenses aparece entoando o mesmo coro em relação aos são-paulinos, às vésperas das eleições presidenciais brasileiras². Infelizmente, casos assim ainda são recorrentes nos estádios, mas hoje já consigo ter alguma esperança com os nossos primeiros passos.

Mídia, punições e torcidas queer

É inegável o potencial da mídia e, mais especificamente, do jornalismo esportivo, no combate às ações discriminatórias recorrentes nos estádios. De alguns anos para cá, vem crescendo gradativamente o número de matérias, reportagens e documentários que denunciam preconceitos, apontam perspectivas e divulgam campanhas a favor de causas ditas minoritárias, como a causa negra, feminista e LGBT. O caso Richarlyson, por exemplo – que creio ser o mais emblemático da homofobia no futebol brasileiro – imagino que hoje seria pautado de forma diferente, bem mais inclusiva e bem menos sensacionalista como foi em 2007.

Naquele ano, surgiu na mídia a especulação de que um jogador de um grande time brasileiro assumiria publicamente sua homossexualidade. Diante do ineditismo da situação, o programa Debate Bola, exibido pela Rede Record, questionou em mesa redonda se esse jogador estaria atuando pelo Palmeiras. O dirigente do time alviverde José Cyrillo Júnior, convidado do programa, respondeu prontamente que “o jogador Richarlyson quase foi do Palmeiras”, porém havia aceito a proposta para jogar no São Paulo. A então revelação do nome do volante e meia Richarlyson provocou risos dos jornalistas e demais participantes do debate.

Sentindo-se ofendido com a citação de seu nome, o jogador – que sempre se declarou publicamente heterossexual – entrou com uma queixa-crime contra José Cyrillo por injúria. No entanto, o processo foi arquivado pelo juiz Manoel Maximiano Junqueira Filho, que simplesmente julgou o caso improcedente, embasado no argumento de que o futebol era um jogo “viril” e “varonil” e que, portanto, ofensas homofóbicas entre “boleiros” são parte do jogo e deveriam ser resolvidas dentro de campo.

“A presente Queixa-Crime não reúne condições de prosseguir. […] Não vejo nenhum ataque do querelado ao querelante. […] Quem é, ou foi boleiro, sabe muito bem que estas infelizes colocações exigem réplica imediata, instantânea, mas diretamente entre o ofensor e o ofendido, num tête-à-tête. Trazer o episódio à Justiça, outra coisa não é senão dar dimensão exagerada a um fato insignificante, se comparado à grandeza do futebol brasileiro. […] Já que foi colocado, como lastro, este Juízo responde: futebol é jogo viril, varonil, não homossexual. […] Não que um homossexual não possa jogar bola. Pois que jogue, querendo. Mas, forme o seu time e inicie uma Federação. […] É assim que eu penso… e porque penso assim, na condição de Magistrado, digo! Rejeito a presente Queixa-Crime.” (Trechos da sentença proferida pelo juiz Manoel Maximiniano Junqueira Filho em 5 de julho de 2007, arquivando a queixa registrada pelo jogador Richarlyson. O texto completo da sentença está disponível em: folha.uol)

Fonte: http://sportv.globo.com

Os advogados de Richarlyson entraram com recurso contra o arquivamento e, felizmente, o referido juiz foi punido pelo ato. Entretanto, deste fato em diante, a carreira do jogador ficou marcada pela homofobia, apesar das passagens de destaque em vários clubes do país, incluindo aí uma convocação para a Seleção Brasileira. Em sua trajetória de cinco anos defendendo o São Paulo, não raro Richarlyson era alvo de ofensas da torcida que ignorava seu nome no ritual pré-jogo, quando os torcedores cantam a escalação do time.

Me lembro também que, logo após deixar o clube tricolor para assinar contrato com o Atlético-MG, o jogador também foi alvo de homofobia em piadas sem graça que associavam sua contratação à recém-lançada camisa cor-de-rosa do time, que à época seria o segundo uniforme da equipe alvinegra. Nem precisamos entrar aqui na discussão em torno do termo “bambi”, comumente associado à torcida do São Paulo e popularizado no início dos anos 2000 pelo jogador Vampeta, que em 2016 tentou se justificar em entrevista ao Esporte Espetacular, da Rede Globo: “o Corinthians tem o gambá, o Santos tem a baleia, o Palmeiras tem o porco e o São Paulo precisava adotar um animal de estimação. Essa história do bambi já existia e eu só acordei o gigante adormecido.”.

Quase duas décadas depois do ocorrido, o São Paulo Futebol Clube se posicionou pela primeira vez a favor da causa. Em 28 de junho deste ano, no Dia Internacional do Orgulho LGBT, o departamento de Comunicação do clube manifestou seu repúdio ao preconceito com uma mensagem publicada nas redes sociais: “Dentro e fora do esporte, o amor há de prevalecer diante do ódio. Que hoje, e todos os dias, repensemos atitudes. O amor não é o problema. E o São Paulo é de todos.”. Na mesma data, vários clubes brasileiros se manifestaram pelo Orgulho LGBT, como o Sport Club Internacional, que iluminou o estádio Beira-Rio com as cores do arco-íris.

Fonte: twitter.com

Iniciativas como essas seguem ganhando espaço na mídia tanto por intermédio de jornalistas de grandes emissoras quanto pelas assessorias dos próprios clubes de futebol, que há poucos anos atrás sequer pautavam a causa. O advento das torcidas queers nos últimos cinco anos também é outro destaque bastante favorável ao cenário. Galo Queer, Cruzeiro Maria, Bambi Tricolor, Palmeiras Livre, Gaivotas Fiéis, Grêmio Queer, Queerlorado, EC Bahia Livre, Vitória Livre, entre outras, são exemplos resultantes da articulação de torcedores em prol da causa LGBT e contra o padrão normatizador vigente nos estádios brasileiros. Cabe aqui também a referência às pioneiras ColiGay e FlaGay, torcidas organizadas de Grêmio e Flamengo que, no contexto da ditadura militar dos anos 1970, se reuniam nos estádios para apoiar seus respectivos clubes e, mesmo que ainda não fosse este o foco, se legitimar em um lugar de domínio heteronormativo.

Fonte: https://brasil.elpais.com

Para finalizar, respondo à pergunta proposta no título deste post com o exemplo das punições registradas pela FIFA e CONMEBOL à Confederação Brasileira de Futebol: entre 2016 e 2018, a CBF precisou abrir os cofres e pagar multas significativas por cantos homofóbicos em jogos válidos pelas eliminatórias do Mundial e pela Copa América, recentemente sediada no Brasil. Tais punições em âmbito internacional, aliadas ao ineditismo da súmula do árbitro Anderson Daronco, que paralisou uma partida ao ouvir o canto “time de viado” no maior campeonato de futebol do país, deixam claro que NÃO, não se pode gritar bicha no estádio. Nem em lugar algum.

Aproveito e convido os leitores para assistir ao trabalho do pesquisador Gustavo Bandeira, que é referência nesse assunto. Sua palestra “Elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol” será realizada no próximo dia 24 de outubro, no ciclo de palestras organizado pelo LEME.

Notas de fim

¹ Torcida do Atlético-MG cantando música homofóbica.

² Torcida do Palmeiras cantando música homofóbica.

Eventos

LEME recebe os pesquisadores Gustavo Bandeira e Vivian Fonseca

Encontros LEME é uma proposta do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte que visa realizar debates com professores, pesquisadores, graduandos e convidados interessados em estudar as interseções entre Comunicação, Cultura e Esporte. Os encontros pretendem oferecer um espaço de diálogo e formação acadêmica. Neste semestre, já recebemos pesquisadores proeminentes da área de esportes – Aira Bonfim, Nicolas Cabrera e Alexandre Carauta.

No dia 24 de outubro, será a vez de Gustavo Bandeira, doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2017) e técnico em assuntos educacionais na mesma universidade. O tema de sua palestra será “Elitização, racismo e heterossexismo no currículo de masculinidade dos torcedores de futebol”. Gustavo tem experiência nas áreas de Educação, Antropologia do Esporte e Jornalismo, atuando principalmente nos seguintes temas: currículo de masculinidades nos esportes, heterossexismo, machismo, racismo, futebol, emoções, violência e mídia.

Vivian Fonseca participará dos Encontros LEME no dia 04 de novembro, apresentando a palestra intitulada “Práticas corporais como objeto de patrimonialização: um olhar a partir da Capoeira”. Vivian é doutora em História, Política e Bens Culturais pela FGV-RJ, coordenadora do Programa de História Oral e da Licenciatura em História da Escola de Ciências Sociais/CPDOC da FGV, e professora Adjunta do Departamento de História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sua atuação é principalmente na área de História, dialogando com a Antropologia e a Sociologia, com destaque para os seguintes temas: memória, patrimônio, história do esporte, história oral, ensino de história, políticas culturais, identidade, usos políticos do passado e história da capoeira.

Foto
Gustavo Bandeira

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Vivian Fonseca

 

 

 

 

 

 

 

Serviço

Auditório do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UERJ, UERJ Campus Maracanã, 10o andar, bloco F

Horário: 18h (palestra Gustavo); 16h (palestra Vivian)

Entrada Gratuita

Contato: lemeuerj@gmail.com

Artigos

Sobre o molho de couve-flor e o Campeonato carioca feminino

Nem mesmo se fosse o Vasco, o dono de tantos gols, eu me sentiria à vontade para comemorar um placar tão elástico como o aquele que pode ser visto no campeonato carioca feminino. Foi mais que goleada. Na verdade, não sei bem como denominar o resultado do jogo entre Flamengo (56) e Greminho (0). Porém, acredito tratar-se de um fenômeno capaz de nos dizer algo não somente sobre o campeonato em questão, mas sobre alguns aspectos do futebol das mulheres no Rio de Janeiro. 

Certamente que a questão precisa ser analisada em sua complexidade, considerando sobretudo o fato de estarmos em um momento muito importante para o futebol das mulheres. A exitosa Copa da França, com seus recordes de audiência mundial e a boa qualidade técnica apresentada, mostraram que o futebol das mulheres pode mobilizar multidões. E como qualquer outra modalidade esportiva faz-se necessário o comprometimento dos clubes na formação e contratação de atletas entre outros aspectos. 

No caso do Brasil, a Copa de 2019 fomentou os já costumeiros discursos a respeito da necessidade de se incentivar a modalidade de modo a alimentar uma nova geração para o futebol das mulheres. Essa necessidade ficou evidenciada na fala de Marta ao final do jogo contra a França quando ela afirmou “não vai ter uma Marta para sempre, não vai ter uma Formiga para sempre…”¹.

A contratação de Pia Sundhage para técnica da seleção parecia ser um forte indicativo de que, finalmente, a CBF estava disposta a fornecer condições para o desenvolvimento do futebol das mulheres no Brasil. Eu ainda acredito nessa hipótese. Ainda acredito que o futebol das mulheres passa por um momento ímpar em sua história, sobretudo considerando o cenário europeu. No Brasil, há de se comemorar a gradativa atenção dada pela mídia esportiva, o que se evidenciou na transmissão dos jogos da seleção feita pela principal emissora aberta do país.

Houve nessas transmissões muitos erros, gafes e uma evidente necessidade de minimizar alguns vícios de linguagem derivados, por vezes, de um machismo impregnado e por outras da falta do hábito de se lidar com o futebol das mulheres. Porém, também se evidenciou uma preocupação em tornar essas gafes menos frequentes a partir de um maior cuidado no tratamento dado às mulheres do futebol. 

No momento, tenho a tendência a não ser apocalítica. Essa tendência, entretanto, não me isenta da necessidade de estar alerta ao que ocorre no universo das mulheres no futebol brasileiro. E o jogo Flamengo 56 x Greminho 0 foi a gota d’água, porque esse resultado foi celebrado ora como um momento histórico ora visto como uma demonstração de superação das dificuldades encontradas para se participar do campeonato carioca.

Temi também que o episódio fosse retratado a partir de uma perspectiva do pitoresco, o que em narrativas midiáticas costuma ser uma forma de simplificar os fenômenos para provocar o riso de zombaria. Mas felizmente grande parte da mídia esportiva e dos torcedores e torcedoras chamou a atenção para o fato de que aquele jogo era reflexo de um campeonato mal organizado e da disparidade de estrutura entre as equipes participantes. 

São 30 equipes que compõem o Carioca de 2019, um número excessivo em se tratando de uma competição local e curta. Em nota a FERJ justifica essa quantidade do seguinte modo:

A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro teve como princípio, ao organizar o Campeonato Carioca Feminino de Futebol, incentivar a modalidade, abrir portas para a realização de sonhos e oportunidades para inúmeras atletas. A visibilidade está à frente como fonte de geração de talentos. O aspecto técnico vem em segundo estágio, no momento. (Disponível em: FERJ).

Jornal dos Sports, 28/03/1983. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Lendo, à primeira vista, passa-se a impressão de que se trata do primeiro campeonato carioca feminino. Não. Na verdade, essa é mais uma edição de um campeonato que tem papel fundamental na trajetória do futebol de mulheres no Brasil e que se realiza – com interrupções – desde 1983, ano em que esse futebol foi oficialmente reconhecido pela, então, CND (Confederação Nacional de Desportos).

Nessa época, a dificuldade de montagem dos times era grande, pois dependia, muitas vezes, de inciativas individuais de jogadoras ou mesmo dirigentes. É o que conta a matéria do Jornal dos Sports na qual se menciona as despesas geradas pelo campeonato e a pouca colaboração da FERJ: “Os próprios clubes são responsáveis pela confecção dos ingressos e as rendas ficarão no clube que tiver mando de campo em cada partida. A FERJ colabora dando os árbitros e as bolas(Grifos meus, 05/08/1983. p. 4). 

O campeonato de 1983 foi realizado com a participação de 12 equipes, sendo que dos quatro considerados “grandes” apenas o Botafogo montou um time. As outras onze foram São Cristóvão, Bonsucesso, Olaria, Radar, América, Bangu, Portuguesa, Mesquita, Canto do Rio (Niterói), América e Campo Grande.  

Fonte: Jornal dos Sports 05/08/2019. Disponível na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

É notável a presença dos clubes do subúrbio, espaço que historicamente foi muito importante para o futebol das mulheres². O campeão foi o Radar que disputou a final contra o Bangu, com direito a uma invasão de campo protagonizada por Castor de Andrade, no primeiro jogo. 

O campeonato carioca continuou a ser realizado, porém de modo descontinuado chegando a ficar suspenso de 1989 a 1994. Em 1995, a disputa retornou tendo o Vasco da Gama como principal time. De 2002 a 2003 aconteceu mais uma interrupção. A descontinuidade, aliás, é marca da trajetória do futebol das mulheres no Brasil, atravessada por um longo período de proibição e por fôlegos passageiros provocados, sobretudo, pelos resultados da seleção em Jogos Olímpicos passados. 

O fato é que há tempos o campeonato carioca é organizado pela FERJ e, infelizmente, tantos anos depois vemos a insistência e, talvez, o agravamento de alguns problemas. Vemos que o futebol das mulheres, no Rio de Janeiro, ainda apresenta um caráter amador em seu pior sentido. Estamos longe do profissionalismo, o que inclui o fato de que os principais clubes cariocas ainda não dão o devido apoio ao futebol das mulheres. 

O Carioca de 2019 parecia anunciar mudanças movidas por tudo que esse ano representou, especialmente, em termos de visibilidade. Eu mesma acreditei nessa possibilidade. Porém, alguns acontecimentos têm provocado em mim uma sensação de déjà vu. Com auxílio de Talita Judice e Tiago Rodrigues que acompanham os jogos do Carioca e tocam o projeto Futebol é Coisa de Mulher³ compartilho alguns dados interessantes. 

O carioca de 2019 teve seu início adiado por duas vezes devido ao fato de alguns clubes não possuírem o número mínimo de jogadoras inscritas. Em relação aos locais onde as partidas são disputadas chama a atenção o caráter improvisado. O Fluminense, por exemplo, alternou entre Laranjeiras e seu CT de Xerém; Botafogo jogou quase sempre no Caio Martins; a Portuguesa, no Luso Brasileiro; e o Duque de Caxias, no CEPE (Clube de Empregados da Petrobrás). O Vasco mandou seus jogos, até agora, no Estádio do Artsul, na baixada fluminense e o Flamengo, o clube financeiramente mais exitoso do Rio, tem mandado seus jogos em um campo do CEFAN (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes), derivado de sua parceria com a Marinha. 

Muitos jogos, portanto, não ocorrem necessariamente em estádios. Ou seja, enquanto, no mundo do futebol dos homens a discussão é a transformação dos estádios em arenas, no caso das mulheres sequer estádio há. É o futebol raiz em sua mais triste perspectiva. 

Os resultados de algumas partidas, também, despertam atenção. A equipe do Rogi-Mirim na primeira rodada perdeu por W.O para o Piscinão de Ramos, pois não teve condições de arcar com os custos de transporte. 

A presença de ambulância não é obrigatória nos jogos, o que significa que se alguma jogadora – ou qualquer outra pessoa presente no jogo – passar mal é bem provável que tenha que contar com a sorte. Pelo regulamento, faz-se necessário somente a presença de um médico.: 

Disponível em: FERJ.

Algumas súmulas revelam que muitos times jogaram sem médicos em sua comissão técnica, o que é um agravante da situação. Ao contrário disso tudo, o Campeonato Carioca masculino da série A – das outras séries é diferente -, tem um plano de ação que exige a presença de ambulância em qualquer jogo.:

Fonte: FERJ.

Em termos de representatividade, apenas 8 das 30 equipes possuem uma mulher como técnica, entre os quais destaca-se o Fluminense comandado por Thaissan Passos. As jogadoras, por sua vez, podem ser inscritas no campeonato como amadoras, o que explica a farta presença de times. Os placares elásticos são comuns.:  Flamengo 56 x 0 Greminho, Fluminense 23 x 0 Rogi-Mirim, Vasco 19 x 0 Bela Vista, Botafogo 13 x 0 Accel, são alguns exemplos. 

Em nota já mencionada, a FERJ argumenta que seu objetivo foi criar um campeonato inclusivo:

Aos que criticam a quantidade de clubes, qual o critério para se limitar o número de competidores ou ser excludente na primeira edição cujo objetivo principal tem por foco gerar oportunidades, atrair interesses, materializar sonhos e colher subsídios para os devidos ajustes para delinear o futuro? Fica a reflexão lembrando que não se pode enxergar somente a couve num molho de couve-flor. Vale lembrar que a Copa do Brasil começa com mais de 80 clubes e com diferenças técnicas exuberantes. (Disponível em: FERJ).

Primeiramente como foi dito esta não é a primeira edição do Carioca. Quanto à alusão a Copa do Brasil, é válido frisar que, provavelmente, a FERJ esteja fazendo menção a essa competição em sua versão masculina porque a Copa do Brasil feminina foi extinta pela CBF entrando em seu lugar a série A2. Ou seja, a comparação é insustentável. Além disso, no caso dos homens, essa competição contou com 91 participantes este ano, porém não me lembro de ter visto estrondosas goleadas como as que ocorrem no campeonato carioca das mulheres. 

Além de tudo, fiquei intrigada com a frase “Não se pode enxergar somente a couve num molho de couve-flor”. Achei-a razoavelmente estranha e confesso que tentei, mas não consegui decifrá-la até o momento. O uso de uma expressão tão sem sentido em uma nota oficial é mais um exemplo do desinteresse da Federação. 

Finalmente, a FERJ ressalta o caráter inclusivo do Carioca. Confesso que a palavra “inclusão” me deixa aflita porque, muitas vezes, ela é usada, compreendida e aceita em sua face mais perversa. São várias as formas de se promover uma espécie de inclusão de fachada, aquela que provoca pouquíssimas – ou às vezes nenhuma – alteração nos processos de desigualdade que marcam nossa sociedade. 

Esse me parece ser o caso do Campeonato Carioca. Antes de abrir as portas para uma gigantesca quantidade de clubes é necessário contribuir para que esses clubes tenham condições de competir. E isso ocorre com maior investimento e cuidado na formação de base das atletas, em condições de jogo minimamente adequadas e na profissionalização do futebol das mulheres. Placares como 56 a 0 dão mostras do quão o campeonato é pouco competitivo e isso é um dos fatores que pode torná-lo menos atrativo ou até mesmo questionável quanto à necessidade de sua existência. 

Notas de fim

¹ Fonte: Uol

² Para se aprofundar no assunto ver: BONFIM, Aira. Football Feminino entre festas esportivas, circos e campos suburbanos: uma história social do futebol praticado por mulheres da introdução à proibição (1915-1941). Dissertação de Mestrado. Fundação Getúlio Vargas, 2019.

³ Fonte: Futebol é Coisa de Mulher.

Eventos

LEME organiza o Seminário Clube-Empresa

O LEME realiza na próxima segunda-feira, dia sete de outubro, às 18h, no auditório do PPGCom/UERJ, o seminário “Clube-Empresa: histórico, impactos reais e abordagens alternativas”. O evento contará com Irlan Simões, pesquisador do LEME e criador do podcast “Na Bancada”, David Butler, membro do Flamengo da Gente, Fernando Monfardini, autor do livro Compliance no Futebol, e mediação de Leda Costa, também pesquisadora do LEME e professora visitante da UERJ. O seminário acontece no auditório do PPGCom/UERJ, 10o andar, e a entrada é gratuita.

Enquanto o dia do evento não chega, aproveite para ler o texto que Irlan Simões escreveu para o nosso blog sobre o assunto.

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