Artigos

Música brasileira e esporte: uma combinação de ouro    

Há mais proximidade entre a música e o esporte do que muita gente pode imaginar. Minha hipótese é de que existe uma relação visceral entre esses dois objetos de estudo. Uma harmonia que foi percebida pelo Barão Pierre de Coubertin, fundador dos Jogos Olímpicos da era moderna. A pedido dele, música, pintura, literatura, escultura e arquitetura foram inseridas nos Jogos como modalidades olímpicas. Isso mesmo. Entre 1912 e 1948, essas modalidades artísticas se misturavam às esportivas e valiam medalhas numa proposta de integração entre corpo, mente e intelecto. Alguns competidores eram também atletas e disputavam medalhas tanto em modalidades artísticas quanto esportivas. As Artes não tiveram longevidade nos Jogos, mas a música, com a sua onipresença e onipotência, permaneceu, ainda que não mais como modalidade competitiva. Os Jogos seguiram brindando os expectadores do maior evento esportivo do mundo com um pot-pourri de estilos musicais.

As Olimpíadas de Tóquio 2020, disputadas em 2021 por causa do coronavírus, trouxeram uma miscelânea de estilos musicais para agradar a gregos e troianos. Nas cerimônias de abertura, de encerramento e, também, durante as disputas esportivas, as múltiplas sonoridades representavam a cultura do país sede e das diversas nações a competir. Já na abertura dos Jogos, a entrada dos atletas e federações teve como pano de fundo hits populares entre os gamers, como Kingdom Hearts, Final Fantasy, Chrono Trigger e outras. Eu, que tenho uma filha fã de animes e mangás, também não poderia deixar de citar a trilha de abertura do anime de Demon Slayer, usada no encerramento dos Jogos.

Foto tirada da internet do anime Demon Slayer

O pop brasileiro, por sua vez, embalou as disputas nas arenas esportivas. O DJ austríaco Stari, admirador confesso da música brasileira, escolheu hits de Anitta, Barões da Pisadinha, Israel & Rodolfo e Pabllo Vittar para animar as disputas. O ponteiro da seleção brasileira de vôlei Douglas Souza, que viralizou nas redes sociais com as postagens olímpicas, tinha até  uma música especial quando pontuava – do album “Batidão Tropical” de Vittar – a “Zap Zum”. Outra música do cantor e drag queen brasileiro teve destaque na apresentação de Laura Zeng, da ginástica rítmica dos Estados Unidos – “Energia” é uma colaboração com o duo americano Sofi Tukker.

A música que mais representou o Brasil nessas olimpíadas, porém, foi “Baile de favela”, do MC João. Não só porque a canção veio acompanhada de duas medalhas inéditas da ginástica feminina, uma de prata e uma de ouro, conquistadas pela ginasta Rebeca Andrade, mas porque representa muito da cultura brasileira, da negritude do nosso país e, acima de tudo, da garra e criatividade verde-amarela. Nesses últimos quesitos, dá para listar pelo menos 15 pessoas que fazem parte da equipe multidisciplinar que ajudou na conquista dessas medalhas, além, é claro, do talento e concentração incríveis de Rebeca.

Gostaria de citar aqui uma pessoa em especial: o coreógrafo Rhony Ferreira. Rhony se valeu de um misto de sensibilidade e astúcia para escolher a música que “vestiu” a coreografia da medalhista. E isso foi lá atrás, durante os Jogos de 2016, no Rio.  Em um dos intervalos da ginástica, quando o DJ coloca música para distrair, “Baile de Favela” levantou a torcida.  Rhony, que na época vivia mais em Curitiba, onde o funk ainda não era moda, ficou extasiado com o ritmo e a reação do público com a música. Na mesma hora, sacou o pen drive pequenininho, que está sempre com ele num cordão, e foi até o DJ perguntar sobre a música e pedir que a colocasse no pen drive. A letra mesmo só foi conhecer há um ano e meio.

Foto do acervo pessoal de Rhony Ferreira

“O cara copiou e eu guardei na manga. Sempre que eu escuto alguma coisa diferente ou que me traz alguma emoção, eu gravo no pen drive, ponho no meu computador e deixo lá até achar alguém com uma personalidade que combine com a música. Eu precisava ter a sorte de entrar uma menina na seleção brasileira com aquelas características. Foi aí que pensei: essa música combina com a Rebeca. Ela só foi saber da música quando já estava pronta”.

A questão da música na ginástica não é tão simples quanto na dança. Ela precisa vestir e acompanhar o movimento e a acrobacia que a ginasta aprende primeiro. Além disso, tem a questão da duração. Precisa ter um minuto e meio. “Baile de Favela” repetia vários trechos, o que obrigou Rhony a escolher apenas uma pequena parte e a achar outra melodia para fazer a junção. Depois de procurar em vão por outros funks que combinassem, decidiu fazer o oposto, buscar um clássico. Ele queria mostrar para as pessoas que tinham visto Rebeca dançando uma música de Beyoncé toda melindrosa em 2016 que ela era capaz também de fazer um clássico.

Depois de muita pesquisa e algumas tentativas frustradas com músicas de orquestra, chegou à conclusão de que teria que optar por uma música de um instrumento só. Foi quando chegou em “Tocata e Fuga”, de Johann Sebastian Bach e, com a ajuda do maestro Misa Jr. e da diretora musical Angela Molteni,  com quem trabalha há muitos anos, foi fazendo os ajustes necessários.

Com Daiane dos Santos e o Brasileirinho, de Waldir Azevedo, o processo não tinha sido diferente. Era preciso cronometrar cada uma das quatro diagonais e fazer muitas idas e vindas ao maestro para os ajustes. Alguns acordes de Brasileirinho entravam nos pequenos intervalos de descanso entre uma diagonal e outra sem dar ao expectador a chance de decifrar a música, que só entrava do meio para o final da coreografia.

A música deve se adaptar à evolução da ginasta. “Baile de Favela”, por exemplo, passou por oito versões até chegar a que Rebeca apresentou nas olimpíadas. O curioso é que a atleta ainda poderia ter feito uso de uma outra versão, que estava na cartola, a depender de qual estratégia seria adotada na competição.  Na ordem do sorteio para apresentação final, Rebeca ficou em penúltimo. O treinador Francisco Porath Neto, o Chico, teve a oportunidade de assistir as apresentações das outras meninas e, a partir dos erros delas, sabia que Rebeca não precisaria arriscar.

“Claro que é o treinador que assiste e fala o que ela tem que fazer e eles entram num consenso. É uma estratégia. A coreografia não é engessada.”

Foto do acervo pessoal de Rhony Ferreira

Rhony mais uma vez sentiu um frio na barriga. Já tinha batido na trave duas vezes em finais olímpicas. De longe, só restava a ele torcer. Por causa da pandemia, apenas o treinador estava em Tóquio.

“Nós latinos temos sangue quente, a gente se emociona muito. A parte psicológica, alias, era uma grande deficiência que tínhamos. Os psicólogos têm ajudado muito, inclusive aos treinadores, que antigamente faziam muitas vezes o papel de pai, amigo, médico e psicólogo das atletas. Hoje, graças ao trabalho multidisciplinar e à ajuda deles, os treinadores também conseguem se blindar, não fraquejar diante da pressão e passar segurança para as atletas”, explica Rhony.

Foto do acervo pessoal de Rhony Ferreira

Rebeca é um exemplo da evolução conquistada no último ciclo olímpico. Na primeira olimpíada, em 2016, estava nervosa. Já em Tóquio, manteve a concentração, mas o semblante demonstrava que estava se divertindo. O resultado? Um baile de favela de raiz com repertório coreográfico para nenhum jurado botar defeito. Com um estilo próprio, a seleção brasileira conquistou um lugar entre as melhores do mundo.

Tudo indica que a música nacional também ditará o ritmo da ginástica nas olimpíadas de 2024, em Paris. A parceria musical de Rhony agora é com o produtor de Anitta e Ludmilla, em busca de mais notas e acordes em tons de bronze, prata e, principalmente, ouro.

Artigos

Dizer não ao assédio também é um ato de resistência

Volta e meia assisto e ainda fico chocada com as cenas de violência que são exibidas nos noticiários locais. Constato com tristeza que de tão frequentes em grandes cidades como o Rio de Janeiro, crimes nas favelas envolvendo populações vulneráveis são banalizados, relegados ao lugar do comum. Em relação ao assédio sexual as coisas não são diferentes. Embora considerado crime pela Lei 10.224/2001, na prática, o tipo penal quase não é usado e os casos de assédio acabam sendo solucionados por outros ramos do ordenamento jurídico.

No ambiente de trabalho as histórias de assédio e impunidade se repetem. Segundo dados publicados pelo G1 de uma pesquisa feita pelo LinkedIn em parceria com a consultoria de inovação social Think Eva que, no fim do ano passado ouviu 414 profissionais de todo Brasil, quase metade das mulheres já sofreu algum assédio sexual no trabalho.

No último dia primeiro de abril, em uma atitude inédita, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) determinou  a perda temporária do mandato do deputado Fernando Cury (Cidadania) que, durante uma sessão extraordinária, vergonhosamente passou a mão no seio da deputada Isa Penna (PSOL). O futebol coleciona atitudes vexaminosas como a desse deputado.

Nos estádios, nos clubes e em ambientes tidos no passado como redutos masculinos, há anos jornalistas esportivas são desrespeitadas. E, por incrível que pareça, isso não surpreende com a frequência que deveria surpreender. Muitos assistem impassíveis às provocações e ouvem os coros nas arquibancadas dos estádios que repetem em alto e bom som xingamentos como “piranha, vagabunda, etc”. Como se o simples fato de trabalharem e, por que não, gostarem de futebol,  pudesse colocá-las num patamar de igualdade com as chamadas Marias-chuteiras, mulheres que se aproximam de jogadores de futebol com interesse em engatar um romance ou algum tipo de relação em troca de visibilidade ou vantagem financeira.

Vale lembrar que o próprio termo Maria-chuteira nasceu lá atrás impregnado de preconceitos machistas em relação à presença feminina nos estádios. Esse personagem carrega estereótipos que associam malícia e astúcia ao feminino.

Driblando o machismo estrutural

Mesmo depois do futebol ter perdido a fidalguia que levava apenas as mulheres das classes mais abastadas às arquibancadas, a presença feminina resistiu às interdições e está cada vez mais atuante nas torcidas dos estádios.  Mas nem mesmo lá, no espaço de quem olha, sente e vibra com o espetáculo do futebol elas estão livres de comportamentos masculinos inadequados. Tampouco as jornalistas esportivas.  Nos seus mais diferentes papéis, seja como repórteres, comentaristas ou narradoras elas também vivenciam no dia-a-dia esses comportamentos sexistas. Mesmo assim, não são todas que associam essas atitudes com preconceito em relação a participação da mulher no jornalismo esportivo.  É o caso, por exemplo, de Marluci Martins, que começou a cobrir futebol no início dos anos 90. Nessa época as entrevistas em vestiário eram comuns, o que não deixava nem a jornalista nem os jogadores à vontade.

Com seis copas do mundo no currículo, Marluci acredita que a estranheza e as dúvidas em relação a competência das mulheres eram motivadas pela quantidade reduzida de mulheres no jornalismo esportivo. Elas sempre tinham que provar alguma coisa.

 “Teve jogador entrando no meu quarto. Mas acho que isso não é nem preconceito, é outra coisa muito mais grave. Um assédio horroroso. Mas sempre compreendi que fui vítima disso tudo por ser uma das pioneiras. Naquela época a gente nem sabia que aquilo era preconceito. Hoje em dia a gente tem uma percepção muito maior desses fatos. Eu era muito nova e não gostava que duvidassem da minha competência. Queria provar que podia fazer como os homens faziam. Era um desafio pra mim.”

Marluci Martins

Marluci provou por diversas vezes que tinha competência para estar ali. Foram mais de 30 anos enfrentando cobranças em jornais populares como O Dia, Extra, O Globo e em programas dos canais por assinatura SporTV e Fox Sports.  Como conseguiu se impor e chegar aonde queria, não acha que foi vítima de preconceito. Ficava muito mais incomodada com fato de ser chamada para dar palestras sempre para falar de preconceito e nunca sobre temas como técnicas de reportagem e táticas de futebol, assuntos sobre os quais tinha pleno domínio.

Por ter trabalhado a maior parte da carreira em jornal, Marluci se livrou da terrível experiência de ouvir xingamentos entoados em coro pelo público no Maracanã e em outros estádios.  Como repórter de televisão, não tive a mesma sorte. Gostaria de pensar que esses foram ecos de um tempo que ficou para trás.  Mas, infelizmente, o que vivi no passado se repetiu muitas vezes com jornalistas que atuaram depois de mim e com as que estão hoje na linha de frente.

Fonte: Imagem enviada pela autora

A diferença é que atualmente a voz das jornalistas ecoam com mais força e rapidez. A consciência por parte das mulheres aumentou e elas hoje se  organizam em coletivos como o Jornalistas Contra o Assédio, criado no Facebook em 2016, e botam a boca no trombone para denunciar abusos em todos os espaços. As redes sociais ajudam a dar peso a essas denúncias.  Em 2015 a repórter do SporTV Gabriela Moreira, então na ESPN, fez um desabafo no Facebook depois de constatar com indignação o que na época ela chamou de licença poética para o machismo no futebol.

Depois de passar cinco anos como repórter policial, Gabriela não imaginou que enfrentaria preconceito de gênero justamente na editoria de esportes. Acostumada a ter chefes mulheres em outras editorias, Gabriela de cara se surpreendeu com a quantidade diminuta de mulheres em cargos de comando na editoria de esportes. Mas a surpresa maior viria depois.

Eu conheço o machismo de perto. Ontem pude sentir o bafo dele. Úmido, quente. Não pisquei o olho. Não me movi. Eu conheço o pior do ser humano e não é de hoje.

Na morte do Gaguinho, miliciano, grávida, vi a perícia levantar a pele que sobrava do rosto dele entre os 20 buracos de bala de fuzil do qual foi alvo. Ouvi de perto também os prantos da mãe de Matheus, que aos 4 anos fora morto no Complexo da Maré. Nas mãos da criança, uma moeda de R$ 1 que usaria para comprar pão. Os prantos da mãe de Matheus ainda não consigo esquecer.

Por ter visto o pior do ser humano de tão perto é que não me abalo quando vejo um machista pela frente. Ao contrário, respiro o mesmo ar que ele. De preferência, bem de perto. O machismo não se instala somente no futebol. É que aqui, ele ganha ares de licença poética.

 O machismo que vi na polícia e na política é o mesmo. Mas aqui, ele sai entre um “olê, olê, olá” e vez em quando, depois de um “Chupa”. Se o ouvinte é um homem, o “chupa” é “verbo” sem complemento. Para nós, mulheres, ele sempre vem acompanhado. E ontem, ele foi acompanhado de muitas coisas mais, durante muito tempo.

 “Você vai ver eu te chupando todinha, sua vagabunda”, foi um dos gritos que ouvi por longos 40 minutos. Gritado por dezenas de torcedores, na frente de pessoas com as quais me relaciono diariamente. Não pisquei, não desviei o olhar. Respirei bem de perto.

Para que entenda o machista que nem o ar que ele respira eu não posso ter. Nada terão eles que nós não possamos ter. Ouvir o que ouvi hoje é para os fortes. Falar o que disseram, não.

 Aos covardes, um aviso: essa luta já está perdida. Pelo filho que eu crio, que nós criamos. Pela força dos que estão porvir. Não tenham dúvida, esse título já é nosso!”

Gabriela Moreira (texto publicado pela jornalista no Facebook)

Segundo a jornalista, diferentemente da cobertura policial onde o machismo existe mas é velado pelo fato dos policiais saberem o que é crime e conduta imprópria, no esporte o assédio ainda é  normal e, o que é pior, existe uma omissão por parte dos próprios colegas jornalistas. Chegou a essa constatação na época da publicação do desabafo acima, depois de ser agredida por torcedores com palavras obscenas na final da Copa do Brasil entre Palmeiras e Santos, em 2015.

O preconceito, não apenas o de gênero, está de tal forma entranhado na nossa sociedade, que muitas vezes o teor sexista de determinadas ações passa despercebido. Para Marluci as mulheres estão dando um show de competência no jornalismo esportivo. Ela não sente que haja mais qualquer diferença nem na forma como o trabalho delas é feito nem recebido. Mas, num ato falho, repetiu: “Tem gente que fala assim: elas estão fazendo jornalismo como homem.” Riu e, depois, emendou:  “Frase preconceituosa, né? Elas fazem como homem fazia antigamente. Hoje em dia é normal.”

Referências bibliográficas

COSTA, Leda M da. Marias-chuteiras x  torcedoras “autênticas”. Identidade feminina e futebol, Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro – APERJ

Artigos

E que venha uma narrativa mais diversa em 2021

Desde os tempos mais remotos, povos de diferentes culturas procuraram dar sentido às experiências utilizando as narrativas orais. E, a partir dessas narrativas, as identidades se constituíram. No campo do esporte e, mais especificamente do futebol, também foi assim. O imaginário do futebol brasileiro foi construído de gol em gol, narrados em épicas batalhas no meio de campo sob a influência de vários gêneros, inclusive textuais.

Em todas as narrativas estavam presentes elementos como espaço, tempo, enredo, personagens e narrador. A partir da necessidade de eternizar lances, dribles e gols, o narrador passou a atuar como uma espécie de mediador, cuja perspectiva e ponto de vista ajudam a construir a história do futebol.

É através da narrativa oral e sincrônica do locutor esportivo, aquela que atribui significado às partidas de futebol através das vozes usadas em diferentes tons, ritmos e pausas que a trama se desenvolve. No entanto, o tempo dessa história é marcado por espaços físicos e psicológicos diferenciados. Mas sempre com a presença observadora e onisciente da figura do narrador. Não como protagonista, mas como entidade responsável por dar ritmo às ondas sonoras que tecem em capítulos a história do futebol.  Entre essas vozes e os milhões de receptores das narrativas estão os meios de comunicação, hoje cada vez mais imbricados. No fim do ano passado, li a notícia da contratação da narradora Renata Silveira pela Globo e fiquei pensando na importância dessa ocupação pelas mulheres ainda que paulatina de espaços ainda marcados pelo machismo estrutural da sociedade. Renata se juntou a uma equipe que já incluía mulheres comentaristas e tem uma oportunidade de ouro de ser porta-voz de uma nova narrativa no futebol que traga um olhar mais diverso e inclusivo.  Na torcida para que esse nicho seja explorado por outras narradoras e para que bons ventos continuem soprando em favor das mulheres em outras áreas,  como a da arbitragem, em 2021.

Fonte: UOL

Ao longo dos anos os locutores foram porta-vozes de muitos discursos, inclusive de um muito presente no futebol que enfatiza o caráter “nacional” do esporte, uma associação que começou lá atrás com o rádio, no período entre guerras.  Na época, a BBC, com seu monopólio de transmissão se tornou um órgão central da cultura britânica aumentando o interesse da classe média e moldando o esporte como espetáculo.

Renata é mais uma voz que veio do rádio a ocupar espaço na televisão, o que leva a uma reflexão inevitável  sobre o quanto a narrativa televisiva de futebol vem sendo influenciada pelo rádio, inclusive no que tange ao aumento da utilização de bordões. De antemão vale ressaltar as diferenças da narrativas dos dois veículos no que tangem à ausência e à presença da imagem. Sem o auxílio da imagem, o narrador de rádio teve que desenvolver um certo jogo de cintura para cobrir todos os espaços da narrativa com a voz. E o ouvinte que não dispõe da imagem outorga, ou outorgava, já que hoje o rádio também está fazendo transmissão de imagens por streaming, ao narrador a condição de dono da verdade, o que explica em parte a relação de confiança e intimidade estabelecida com o veículo ao longo dos anos. Relação essa que sofreu muitas mudanças com o advento da internet.

A relação de intimidade com o ouvinte sempre foi uma característica marcante das locuções radiofônicas. Já na televisão, talvez pelo gigantismo da audiência, esse contato mais individualizado com o telespectador fica mais complicado . É comum no rádio o locutor ler no meio da transmissão uma mensagem de WhatsApp de dez, quinze segundos ou até mais de um ouvinte.

Segundo o locutor Luiz Carlos Junior, do canal por assinatura SporTV, a televisão também está começando a adotar essa estratégia de interlocução com o telespectador. E, fora das transmissões, ele e outros locutores costumam estabelecer essa interação nas redes sociais.

Mas há quem acredite como o locutor Jose Carlos Araújo, o  Garotinho, que durante três décadas foi o locutor número 1 da Rádio Globo e  hoje,  aos 80 anos,  comanda as transmissões de futebol na rádio Tupi, que o narrador de rádio tem mais identificação com o público ouvinte por entrar há mais tempo na residência do torcedor. Há também quem aposte no encantamento do veículo, que tem a capacidade de mexer com imaginário do torcedor e transportá-lo para um espetáculo cercado de magia e de sons.

É o que o narrador Luiz Carlos Junior costuma chamar de espécie de “licença poética do rádio”, que transporta o ouvinte para um mundo mágico em que o jogador chuta e a bola passa perto demais enquanto na televisão a imagem mostra que não foi tão perto assim e ficaria meio esquizofrênico para o narrador televisivo utilizar desse recurso na locução.

Fonte: Instagram

Mas mesmo com essa espécie de “licença poética” os tempos mudaram para todos em relação à tolerância  ao erro. Hoje, a linha editorial das grandes emissoras de rádio aconselha o locutor assumir o erro que, até pelas longas transmissões com pré e pós-jogos estendidos, é praticamente inevitável.

Fonte: Instagram

“Uma partida tem 90 minutos. Normalmente você abre a transmissão uma hora antes e fica até uma hora depois com algumas variações para mais ou para menos. É um tempo muito longo que você fica no ar. É impossível não cometer erros. Você está ao vivo. Tem estudo e planejamento, mas também tem muito improviso. Você dá opiniões no calor da emoção. Então, a gente erra bastante. Antigamente a máxima era: quando errar, bota vírgula e segue em frente.  Mas não dá para enganar o ouvinte assim. Hoje a gente precisa chamar a atenção inclusive de erros cometidos lá atrás”. (Eraldo leite)

De uma certa forma, com as redes sociais, o locutor de televisão também ficou muito mais exposto diante do erro já que o torcedor conhece bem o time de coração e não tolera que narrador não esteja totalmente familiarizado com ele. A crítica chega no mesmo minuto às redes sociais.

Antigamente a distância era uma barreira que protegia. Quando o narrador errava o nome de um jogador, por exemplo, o torcedor podia até perceber, mas a indignação ficava com ele. Ou, no máximo, era externada através de uma carta. As correspondências passavam por um processo de seleção e só eram entregues em lotes semanais. Tudo muito distante. Não havia contestação. Hoje as redes sociais são um canal aberto de comunicação e tudo fica exposto. O erro, a crítica, o acerto, tudo vem a público.

Para o locutor da Fox Sports João Guilherme o uso dessas ferramentas sociais exige um certo filtro já que as opiniões dos torcedores muitas vezes são passionais e mudam de acordo com o desempenho do time. Ele conta que aprendeu com o tempo a levar em consideração apenas as críticas construtivas, aquelas que apontam realmente para uma falha não observada durante a transmissão.

Fonte: Instagram

Com todos as ressalvas em relação a uma maior exposição trazida pelas novas tecnologias, muitos locutores como Luiz Penido acreditam ter aprimorado muito a narração com a utilização dos recursos de pesquisa proporcionados pela internet durante as transmissões. O colega da Rádio Globo Edson Mauro também  se adaptou bem ao uso das novas tecnologias. Trabalha com o celular ao lado tanto para receber mensagens dos ouvintes durante a narração, quanto para tirar dúvidas em relação a algum novo jogador que entra em campo. Assim, consegue complementar a informação ou mesmo fornecer alguma explicação adicional que não tenha sido feito durante a participação do repórter de campo.

Mas independentemente dos recursos que utiliza e das entradas do repórter de campo e do comentarista, que atuam como interventores da narrativa, o narrador é o senhor da transmissão e cabe a ele a missão de estar atento para fazer uma leitura correta do que está vendo. E, assim, vai variando o tom de voz de acordo com o desenrolar da peleja. O clímax da partida é sempre o gol, mas, quando ele não sai, mesmo assim o narrador precisa manter a emoção da transmissão e a temperatura do jogo o menos morna possível.

Referências

GOTZ, Ciro Augusto Francisconi. A narração esportiva no rádio do Brasil: uma proposta de periodização histórica, Revista Latino-americana de Jornalismo, 2020.

GUERRA, Márcio. Você, ouvinte é a nossa meta: a importância do rádio no imaginário do torcedor do futebol. Rio de Janeiro: Etc Editora, 2002, p.92

GUIMARÃES, Carlos Gustavo Soeiro. O comentário esportivo contemporâneo no rádio de Porto Alegre: uma análise das novas práticas profissionais na fase de convergência, Dissertação de mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

HELAL, Ronaldo, AMARO, Fausto. Das ondas do rádio à tela da TV: notas sobre a evolução da narração esportiva, 2012.

KISCHINHEVSKY, Marcelo. Convergência nas redações. Mapeando os impactos do novo cenário midiático sobre o fazer jornalístico. In: LOPEZ, Debora. Radiojornalismo hiper midiático: tendências e perspectivas do jornalismo de rádio all News brasileiro em um contexto de convergência

MADUREIRA, Paulo, KISCHINHEVSKY, Marcelo. Cartografando a narração esportiva radiofônica – Um panorama preliminar da região metropolitana do Rio de Janeiro, Rádio Leituras. Arquivos V.6 N.2, Dossiê rádio e esporte, 2015.

ROCHA FILHO, Zaldo Antônio. A narração de futebol no Brasil: um estudo fonoestilístico, tese apresentada na Universidade Estadual de Campinas, 1989.

SHIRKY, C. Cultura da Participação: criatividade e generosidade no mundo conectado. Rio de Janeiro, Zahar, 2011.

SILVA, Ednelson Florentino. Narração esportiva no rádio: subjetividade e singularidade do narrador, dissertação de mestrado Universidade de Taubaté, 2008.

https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2020/12/07/globo-contrata-renata-silveira-primeira-narradora-de-futebol-da-emissora.htm

Artigos

A era de ouro do rádio é agora

Nunca participei de uma roda de samba. Nunca tive o ouvido musical que gostaria. Nunca trabalhei em rádio. Mas o som, a música, sempre exerceram um poder de sedução sobre mim. Ouvir uma determinada canção pode me fazer chorar ou, como num toque de mágica, arrancar um sorriso do meu rosto e me remeter a um tempo que hoje só existe na memória.

Nesse momento de tantas incertezas e questionamentos sobre o que realmente importa, ganhei um rádio de presente. Não aquele pequeno aparelho transistorizado de comunicação ponto a ponto, mas um vovô-garoto, um rádio reconfigurado que, no auge do seu centenário, se apresenta expandido, capaz de transmitir em diferentes plataformas ondas de emoção jamais imaginadas. Estudar rádio com um time de especialistas  como Marcelo Kischinhevsky, Debora Cristina Lopez e Lena Benzecry fez com que, enfim, o som entrasse pra ficar na minha vida.

andrea1
Fonte: br.pinterest.com

Mas, como sou da área de comunicação e, durante um tempo trilhei um caminho na área esportiva, o estudo do rádio imediatamente me remeteu às noites passadas atrás do gol em que dividia espaço com os colegas de rádio. Eles acompanhavam as partidas sempre ávidos por um furo de reportagem e por levar ao ouvinte aquela notícia de última hora sobre o time do coração que todo apaixonado por futebol está louco pra saber.

Não posso dizer que foram noites fáceis pra mim. Como mãe de filhas na época pequenas e mulher numa seara ainda cultivada por um machismo estrutural, não podia dar bola fora, o que certamente me fazia gramar mais do que muitos dos meus colegas radialistas.

No entanto, agora, com olhar de fora e talvez mais isento, consigo observar que o jornalismo esportivo assim como todo o fazer radiofônico passou por uma metamorfose nos últimos anos. Mudaram os modos de fazer,  de circular e, também, de produzir conteúdos.

Talvez essas mudanças não sejam totalmente perceptíveis para a maior parte da audiência. Principalmente para aqueles que ouvem rádio de forma desatenta, apenas como uma trilha de som do cotidiano. No entanto, alguns ouvintes, entre eles, amantes de futebol, têm uma relação meio ritualística com o rádio. Chegam até mesmo a acompanhar a narração das partidas pelo rádio independentemente de estarem no estádio ou diante da televisão com um delay que torna impossível a sincronia perfeita entre o som do rádio e a imagem da tv. A sonoplastia, muito adotada pelo rádio, principalmente no geladão, quando os narradores transmitem a partida de seus estúdios, reforça o hábito e dá ao torcedor a sensação de não estar perdendo nenhum detalhe.

Arriscaria dizer que é mais do que isso. Trata-se de laços de afeto tecidos durante anos através de relatos e diálogos que misturam o real e a imaginação. E é exatamente aí, nesse terreno dos bens intangíveis, que futebol e rádio se encontram num casamento perfeito. Mas, como qualquer outro casamento,  também está sujeito a crises. E o pivô das últimas crises tem sido a distância.

andrea2
Fonte: Clip Gallery Word

O jornalista Whashington Rodrigues, há 18 anos líder de audiência na Rádio Tupi com o Show do Apolinho, lembra da coletiva comandada pela FLA TV após a conquista do último campeonato carioca pelo Flamengo. Assim como ele, milhões de torcedores de todo Brasil, queriam saber se Jorge Jesus permaneceria, ou não, no comando do Flamengo. O jogador convocado para coletiva foi o meia Arrascaeta e, a pergunta que não queria calar, não foi ouvida.

A exemplo do que já acontecia na Europa, os clubes brasileiros adotaram a onda da privacidade. Os treinamentos sem a presença da imprensa tem sido cada vez mais frequentes, assim como a suspensão do direito dos jornalistas de escolherem o jogador a ser entrevistado nas coletivas. A mudança não é nova mas continua gerando muita polêmica.

andrea3
Fonte: Foto enviada pelo comunicador.

“Repórter hoje é a internet. Você vai a Vargem Grande e fala de fora, não pode ver nada. Então, o repórter acaba ficando na emissora mesmo. Até 1980 repórter entrava no vestiário, ficava perto das suas fontes. Hoje não pode nem entrar em campo porque a televisão exige um produto limpo. Com isso, a cobertura está se deteriorando”, lamenta o radialista.

Mas apesar do saudosismo de alguns radialistas, definitivamente não  dá pra dizer que a era de ouro do rádio ficou lá atrás. Muito pelo contrário. A era de ouro do rádio, segundo Apolinho, é agora. Com uma penetração que em muitos mercados varia entre 75 e 90% da população acima de 12 anos, o rádio se vê diante do desafio de integrar-se rapidamente às novas tecnologias e a cultura da convergência. Isso, é claro, inclui o trabalho dos radialistas de todos os setores. Os radialistas esportivos precisam agora encontrar novas pautas para driblar as proibições dos clubes e dos detentores dos direitos de transmissão. E, mais do que isso, entender que é possível fazer jornalismo de qualidade com fontes confiáveis sem necessariamente estar in loco.

Como bem coloca Débora Cristina Lopez, é preciso repensar o rádio como um todo, compreender sua inserção nesse novo ambiente, assim como as relações estabelecidas com  o ouvinte, as fontes e as ferramentas de construção da informação.

Considerado um dos meios de comunicação mais inclusivos por ser democrático e também portátil, o rádio deve continuar acompanhando a vida dos ouvintes tanto nas cidades como nas zonas rurais, mesmo nas mais distantes. Essa tendência  pode ser potencializada com a adoção do rádio digital no Brasil. A internet, que já foi vista como uma ameaça pelas emissoras de rádio, entra em campo como uma aliada no fazer jornalístico. Ela possibilita, por exemplo, que o comunicador use as ferramentas digitais para interagir com o público e, ao mesmo tempo, fazer pesquisa de informações atualizadas. Em alguns casos, pode recorrer ao próprio banco de dados da emissora. A Rádio BandNews FM, por exemplo,  possui um banco de dados comum, que congrega o conteúdo produzido por todo o grupo Bandeirantes.

Com a disseminação das conexões em banda larga, a rádio online passou a ser uma extensão das emissoras com a vantagem do baixo custo de funcionamento. Ouvintes do Brasil e de outras partes do mundo passaram  a buscar na web rádio conteúdos variados, sonoros, ou não. O que aponta para a necessidade cada vez maior das emissoras fazerem uma escuta ativa do seu ouvinte. Afinal, a própria concorrência exige esse olhar diferenciado para a audiência.

As pesquisas de audiência se tornaram ferramentas importantes para identificar o perfil dos ouvintes e buscar saídas para lidar melhor com os atuais problemas ligados à concorrência  e ao envelhecimento da audiência. Se as emissoras de rádio e seus comunicadores souberem extrair o valor dessas pesquisas, que podem fornecer, entre outras informações relevantes, o perfil do ouvinte, o tempo que passa ouvindo determinada programação, além do lugar em que se encontra, certamente o futuro do rádio continuará promissor por mais um século e, qualquer conjectura sobre uma possível extinção motivada pelo determinismo tecnológico, terá que ser definitivamente descartada.

Referências Bibliográficas

LOPEZ, D. C. Radiojornalismo Hipermidiático: tendências e perspectivas do jornalismo de rádio all news brasileiro em um contexto de convergência tecnológica. Covilhã: Labcom Books, 2010.

KISCHINHEVSKY, M., DE MARCHI, Leonardo. Expanded radio. Rearrangements in Brazilian audio media markets. Radio, Sound & Society Journal, v. 1, n. 1, 75-89.

Artigos

Jogos de resiliência e força

Há pouco li uma entrevista do sociólogo francês Michel Maffesoli, publicada  no boletim criado pela Faculdade de Comunicação da Uerj para pensar a pandemia e parei para refletir sobre a afirmação dele de que o risco zero não existe e que a morte é parte integrante da condição humana. Imediatamente me dei conta de que essa consciência sobre a fragilidade humana, que para alguns veio de forma mais exacerbada durante a pandemia do coronavírus, faz parte da realidade da vida de muitas pessoas desde que nasceram. Viver é um desafio constante com riscos visíveis e invisíveis além de mudanças repentinas na rotina. Esse desafio é ainda maior para a maioria dos atletas paralímpicos.

Com o cancelamento das competições em todo mundo e o adiamento dos Jogos Paralímpicos, terceiro maior evento esportivo do mundo, os atletas tiveram que lidar com novas mudanças que trouxeram obstáculos que precisam ser superados, assim como os outros que enfrentaram para chegar à elite do esporte.

O principal desafio do momento, além, é claro, de evitar o contágio do vírus, é se manterem ativos. Mas como fazer isso sem uma competição-alvo? Hoje, assim como o esporte de uma maneira geral,  o esporte paralímpico está sem um calendário definido. Todas as seletivas e competições nacionais e internacionais foram canceladas. A única data prevista é a dos Jogos de Tóquio, que foram marcados a princípio para o período de  24 de agosto a 05 de setembro de 2021.

Com isso, todo o treinamento que costuma ser feito de acordo com essas datas ficou inconsistente. É preciso lembrar que o planejamento de treinamentos e competições no quadriênio paralímpico é minuciosamente calculado para que os atletas atinjam o máximo desempenho. Afinal, a superação de resultados, seja em recordes ou em número de medalhas é o sonho da vida de todos eles. Sem datas definidas, os preparadores dos atletas não conseguem fazer a periodização necessária para a preparação física. Com isso,  a maioria dos atletas está fazendo apenas um treinamento de manutenção. Com clubes fechados e sem disporem dos equipamentos necessários para um treinamento mais intenso, todo o trabalho de performance, seja de força ou velocidade,  ficou comprometido.

Fonte: wikipedia

Algumas associações paralímpicas mais estruturadas como a Associação Paraolímpica de Campinas (APC) começaram a desenvolver um atendimento on-line com os atletas. Com equipes multidisciplinares, a associação está tentando dar um suporte através do programa de atendimento residencial denominado APC Home Training, cujo plano de trabalho inclui acompanhamento virtual de treinadores, preparador físico, psicólogo e nutricionista. É preciso lembrar que as deficiências dos paraatletas são as mais variadas,  desde de a falta de um ou mais membros à dificuldades visuais, intelectuais  ou mesmo de coordenação motora. O que significa que esse tipo de iniciativa tão importante  nesse momento em que estamos vivendo muitas vezes requer uma forma de comunicação ou suporte especializado para que todos os atletas possam se beneficiar de forma  isonômica  do recurso audiovisual disponibilizado. Trata-se de uma logística muito mais complicada do que, por exemplo, a adaptação de cursos de ensino presenciais para modalidade à distância.

Segundo dados do IBGE relativos ao censo de 2010, 23,9%  da população brasileira (45,6 milhões de pessoas) tem algum tipo deficiência.  Dependendo da gravidade da lesão da pessoa com deficiência (PcD), isso implica necessariamente em ter um cuidador. E, ser cuidado em tempos de Covid-19, representa risco duplicado já que a própria Organização Mundial de Saúde (OMS), classifica pessoas com limitações na locomoção ou outras dificuldades que impeçam de seguir à risca as orientações da organização em relação à proteção individual como as mais expostas à contaminação pelo vírus.

Lembro, agora, de um post de uma colega jornalista que perdeu o pai recentemente e, sem poder ter contato com ele nos últimos tempos por causa do isolamento social, acompanhava  a cuidadora da janela, com um misto de gratidão e inveja pela proximidade. Assim como para muitos idosos, para boa parte das PcDs, a presença do fisioterapeuta e cuidador significa vida. A cartilha do governo com orientações sobre a pandemia,  no entanto,  não considerou todas as pessoas com deficiência como pertencentes ao grupo de risco mais suscetível à contaminação pelo vírus. Mas que essa fragilidade não seja traduzida como fraqueza, já que o próprio movimento paralímpico nasceu de um outro maior, de luta por direitos dos deficientes. De 1988 pra cá, o movimento vem solidificando conquistas para promoção de uma sociedade mais inclusiva, em que todas as pessoas com deficiência tenham direito à igualdade, cidadania e acesso universal à educação, transporte público, reabilitação e emprego.

Sem  dúvidas, os atletas de alto nível são reabilitados e têm um preparo físico infinitamente superior ao dos deficientes que não tem hábito de praticar esportes ou fazer exercícios de maior intensidade. No entanto, assim como as demais pessoas, precisam seguir à risca as orientações de isolamento. O que também os transforma em vítimas de alguns dos efeitos psicológicos negativos da quarentena, como a solidão, o medo e a ansiedade.

Ansiedade que também pode ser justificada pelo impacto que o cancelamento das competições teve no processo de qualificação. O atleta da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), Fábio Borgignon, revelação dos Jogos Paralímpicos de 2016 com duas medalhas de prata no atletismo 100 e 200m T35, é um dos que estavam bem próximos de conseguir o índice para Tóquio.  Apenas três centésimos separavam o atleta da vaga que ele esperava garantir no Open Loterias Caixa de Atletismo e Natação. A competição internacional seria disputada entre 21 e 28 de março no Centro  de Treinamento Paralímpico Brasileiro, em São Paulo, que conta com instalações esportivas de excelência para treinamento e competições de 15 modalidades paralímpicas. O cancelamento não só dessa como de outras competições seguido do adiamento dos jogos, na opinião de Fábio, vai beneficiar atletas que não estavam suficientemente preparados para brigar pela vaga, o que promete tornar a disputa ainda mais acirrada já que agora muitos poderão tirar proveito desse ano de vantagem para preparação. E é exatamente nesse quesito, a preparação, que bate nele e em outros atletas o medo de perder o condicionamento.

“O vírus me fez perceber que a maior parte do consumo que temos em nossas vidas não é necessário para sobrevivência. Sabemos que juntos podemos fazer muito pela humanidade e pelo nosso planeta, que os profissionais de saúde têm que valer mais do que os jogadores de futebol. As prevenções salvam mais vidas do que atitudes de última hora. Que não temos o controle de tudo. Que as redes sociais aproximam a sociedade mas também distanciam  gerando o caos. Que dinheiro não resolve tudo. Que somos um mal para o planeta, pois ele se regenera mais rápido sem a gente. Por fim, a empatia (levada ao pé da letra) é a chave para qualquer nação sair de uma crise. Isso, porque, ao reconhecer o valor do outro, prioriza o bem-estar de todos.” @atletafabioborgignon7

Fonte: foto enviada pelo atleta Fábio Bordignon

 

Atualmente, assim como outras áreas, o esporte está cercado de incertezas. Exatamente por essa razão uma das prioridades da força-tarefa criada pelo Comitê Paralímpico  Internacional foi estabelecer a data para realização dos jogos de Tóquio em 2021. Foi o primeiro resultado concreto de um trabalho de reação rápida e de força que os envolvidos na realização dos jogos terão que fazer. Afinal,  existem muitas coisas em jogo, inclusive a questão econômica que obrigará todos a apertarem o cinto. Milhares de contratos já estavam assinados. A Vila dos Atletas pronta, 41 instalações esportivas disponibilizadas, passagens compradas, 40 mil quartos de hotéis reservados, 2 mil ônibus, direitos de transmissão e verbas de patrocinadores adiantadas. Apenas uma amostragem do que vai ser a reconstrução dos jogos. Um grande quebra-cabeça.

Numa live da qual participou recentemente, o presidente do Comitê Paralímpico Internacional (IPC), Andrew Parsons, falou sobre algumas decisões que tomou em meio à pandemia.  Uma delas foi a de que ele, como dirigente, iria focar apenas no que pode ser feito e não no que não pode. Uma lição aprendida nos anos de contato com os paraatletas e reforçada nesses tempos difíceis. Os atletas com deficiências diariamente maximizam o que podem fazer.  E, mais do que isso, mostram a importância de ter jogo de cintura nos momentos de crise. Haja vista as mensagens de incentivo que atletas de todo o mundo enviaram no Dia Mundial da Saúde.

Exemplos de resiliência não faltam no movimento paralímpico. E eles vem de toda parte. Na Noruega a atleta paralimpica de hóquei no gelo, Lena Schroeder, recentemente formada em medicina, foi para linha de frente ao combate do covid-19 no seu pais. Em Santiago de Compostela, na Espanha, a triatleta Susana Rodriguez Gacio também não teve dúvidas em trocar as roupas de treino para os Jogos de Tóquio pelo jaleco de médica.  Pelo telefone, ela participa do programa de saúde do governo espanhol que seleciona pessoas com indicação para o teste de coronavírus. Mesmo apaixonada pelo esporte paralímpico, quando viu o número de casos aumentar na Espanha, não titubeou ao optar pela saúde, confirmando o que para ela já era uma verdade, que por trás do esporte vem sempre a humanidade. Por isso, tanto Susana quanto outros atletas  e dirigentes acreditam que mesmo com todos os desafios impostos pela pandemia, as Paralímpiadas de 2021 em Tóquio serão, sim, jogos de transformação e, também, de  celebração da vida num ambiente em que a saúde, a liberdade e a paz estarão acima de tudo e de todos.

Fonte: Facebook da atleta