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O COI e a nova política de inclusão de atletas transgêneros

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**

Laurel Hubbard, a primeira atleta transgênero a competir nos Jogos Olímpicos

Em meados deste mês [novembro], o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou uma nova política sobre justiça, inclusão e não discriminação em relação à identidade de gênero e as variantes sexuais no esporte. Substitui e atualiza suas antigas políticas a esse respeito, incluída na Declaração de Consenso de 2015. Vale recordar que ela estabelecia que as atletas transgêneros podiam participar de competições femininas somente se seus níveis de testosterona fossem menores que 10nmol/L durante, pelo menos, 12 meses antes de sua primeira competição na categoria feminina e requeria que esse mesmo nível se conservasse durante o período em que desejassem ser admitidas para competir na mesma. Para alcançar esses objetivos, as atletas transgêneros se viam obrigadas a receber tratamentos médicos para sustentar seus níveis de testosterona dentro da classificação exigida. Além disso, essas atletas deviam manter sua identidade de gênero por no mínimo quatro anos. Ao menos, a Declaração de Consenso de 2015 havia eliminado a exigência da política de 2003 que forçava as atletas transgêneros a submeter-se a intervenções cirúrgicas para mudar seu sexo, admitindo que a exigência era desnecessária para proteger a justiça competitiva.

A nova política reconhece que a credibilidade do esporte depende da igualdade de oportunidades e de que nenhuma competidora conte com uma vantagem injusta e desproporcional sobre os demais. De todo modo, a nova política estabelece que é ilegal excluir uma atleta da categoria feminina com base em uma suposta vantagem, percebida ou não verificada, relacionada a sua variante sexual, aparência física ou condição de pessoa transgênero. De agora em diante, as restrições de elegibilidade devem ser justificadas por meio de investigações avaliadas por pares levando em conta as características do esporte e as especificidades do grupo demográfico em questão. Ademais, a nova política determina que argumentar que os atletas transgênero contam com uma vantagem injusta e desproporcional compete às instituições esportivas encarregadas por determinar os critérios de elegibilidade para participar nas competições sob sua jurisdição.

O esforço do COI poderia ser interpretado como uma estratégia para evitar lidar com uma questão problemática e incômoda, delegando-a a outras instituições esportivas. Não obstante, a nova política não evita a questão. O COI enfatiza a importância da inclusão como valor primordial (de fato, “inclusão” é o primeiro dos dez princípios que introduz para orientar o trabalho das diferentes instituições esportivas) e estabelece que os critérios de elegibilidade sejam desenvolvidos, interpretados e implementados respeitando os direitos humanos sancionados internacionalmente, considerando os aspectos éticos, sociais, culturais e legais dos diferentes contextos esportivos, e em consulta com os atletas. A ênfase e a inclusão nos direitos humanos têm como objetivo prevenir os danos físico e psicológico, assim como promover a saúde e o bem-estar dos atletas, abarcando a proteção do direito à privacidade. 

Para muitas pessoas pode parecer supérfluo que o COI ponha tanta ênfase na proteção e promoção de valores como a inclusão e os direitos humanos, que são considerados essenciais na sociedade atual. Porém, há muitas boas razões para tal ênfase. Primeiro, há quem afirme que importar certos valores sociais para o esporte desvirtua sua natureza. Por exemplo, para esse grupo, a ênfase na inclusão põe em perigo o equilíbrio e a justiça competitiva e, portanto, o objetivo central da competição esportiva: determinar quem é melhor na resolução de um determinado desafio físico estabelecido e regulado por regras (por exemplo, correr uma determinada distância ou jogar uma bola em um arco). Segundo, as políticas anteriores geraram consequências devastadoras para muitas atletas transgênero e intersexo. Terceiro, dada a discriminação que as pessoas transgênero ainda sofrem cotidianamente, sublinhar a noção de que o esporte deve alinhar-se com o que se pode entender como dignidade humana é não apenas apropriado, mas imprescindível. Isso é ainda mais decisivo para uma instituição que, com base nos fundamentos olímpicos, sua filosofia fundadora, propõe, por meio do esporte, “criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito por todos os princípios éticos fundamentais universais”.

Parece que a nova política é condizente à promoção de um esporte que executa os ideais do Olimpismo. Apesar disso, as diretrizes deixam muitas questões sem resolução. A já mencionada dificuldade de combinar a promoção e a inclusão com a proteção do equilíbrio e justiça competitiva, cabe adicionar outras questões. Primeiro, embora o COI estabeleça que as instituições esportivas devem demonstrar se uma atleta transgênero possui alguma vantagem injusta e desproporcional, ele não especifica o que significa contar com uma vantagem justa – ou injusta –, tampouco fornece critérios claros para definir a proporcionalidade de uma vantagem. Segundo, as diretrizes fornecidas em relação ao esclarecimento da vantagem que supostamente algumas atletas transgênero teriam são controversas. Por um lado, o COI sugere que pesquisas revisadas por pares devem ser usadas. Embora, não seja claro qual tipo de evidência deve ser considerada. Nesses conflitos, as instituições esportivas têm baseado seu julgamento exclusivamente em variáveis biofisiológicas, como a testosterona, menosprezando a evidência das ciências sociais e das humanidades. Por outro lado, o COI incorpora a urgência de todas as partes envolvidas, especialmente das atletas transgênero, na concepção dos critérios de elegibilidade. Ainda assim, as diretrizes não esclarecem como tais processos deliberativos devem ser conduzidos. 

Com sua nova política, o COI tenta desmantelar a postura reducionista e restritiva que sustenta que as atletas transgêneros têm com uma vantagem injusta e desproporcional inerente “apenas” por causa de sua condição de pessoa transgênero, um motivo que tem sido usado rotineiramente para discriminá-las. Resta saber se a boa intenção do COI resultará em diálogos, práticas e instituições mais inclusivas e justas para que todas as atletas se sintam e sejam bem-vindas; em um novo humus desportivo [solo desportivo] que honre a diversidade da comunidade humana.

*Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova Iorque (Brockport).

** Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 5 de novembro de 2021.

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O regresso da tragédia futebolística

Reprodução: El Furgón

Há alguns dias, meu amigo José me disse que havia finalmente decidido voltar para o campo e presenciar uma partida do time de futebol pelo o qual era apaixonado. A pandemia da COVID-19 o afetou profundamente de diferentes maneiras e, para ele, havia postergado tal retorno por causa da possibilidade de contágio. Porém, vacinado e tomando todas as precauções, no final de outubro ele apareceu em campo com a carteira de sócio em dia. Sua equipe, que ganhava por dois gols, acabou perdendo. José me disse que, apesar de certa aflição por estar no meio de uma multidão, em alguns momentos exaltada, e da desgraça do futebol, durante a partida havia experimentado uma sensação que há tempos não havia sentido. 

Os antigos gregos ganham forças em suas tragédias, as massas contemporâneas tomam, em boa medida, do futebol – a ilusão, ou a tragédia, mais popular do planeta-. 

O comentário me remeteu a postura que Friedrich Nietzsche manteve durante sua vida, não sem altos e baixos, sobre a arte. Em seu primeiro livro, O nascimento da tragédia, o filósofo alemão argumenta que os antigos gregos haviam encontrado na arte trágica uma maneira de lidar com o espanto e horror do mundo, assim como o absurdo da existência. Segundo Nietzsche, a antiga cultura helênica floresceu porque a arte trágica permitia perceber as forças irracionais do mundo, mas, por serem cobertas com um véu de ilusão, sem sentir sua total brutalidade. Ou seja, a dinâmica dionisíaca do mundo, caótica e destrutiva, é temperada pela ilusão apolínea, protetora e energizante. Portanto, Nietzsche propõe que o “propósito artístico de Apólo” inclui a “todas aquelas inumeráveis ilusões da bela aparência que a cada instante são dignas de serem vividas a cada momento e no instante seguinte”.

Talvez a sensação que José experimentou em campo tenha sido a falsificação da verdade do mundo facilitada pela tragédia moderna que é o futebol. 

É possível alegar que o futebol é umas das ilusões apolíneas que nos possibilita vislumbrar o dionsíaco e ao mesmo tempo tolerar sem que nos ocorra de forma inelutável. No mais, como a bela aparência apolínea, o futebol se constitui em um impulso vital. Os antigos gregos ganharam força em suas tragédias, as massas contemporâneas ganham, em boa medida, no futebol – a ilusão, ou a tragédia, mais popular do planeta-. Parafraseando Nietzsche, as gerações que o sucederam têm sabido contemplar e reconhecer os abundantes efeitos da beleza futebolística. Assim, o futebol fornece uma ilusão que nos orienta como indivíduos e faz com que a vida seja (mais) vivível. A sensação apolínea da beleza futebolística é um tipo de falsidade que nos protege da aterrorizante verdade dionisíaca do mundo. 

Talvez a sensação que José experimentou em campo tenha sido a falsificação da verdade do mundo facilitada pela tragédia moderna que é o futebol. Depois de largos e obscuros meses pandêmicos, e ainda compelido por sua letargia, José, através do prazer estético da ilusão futebolística, percebeu uma certeza calmamente surpreendente. Do abismo dionisíaco surgiu o brilho da aparência que, ao menos temporariamente, dá sentido à vida. Este brilho jovial, encarnado no enorme esforço das jogadoras e o pulsar do público, nos engloba em um círculo “de tarefas solúveis, dentro do qual (decidimos) jovialmente a vida: ‘te quero: és digna de ser conhecida’”. José confiou nesse engano e se entregou sem dúvidas à sua harmonia e esclarecimento. 

Há quem considere que as reflexões de Nietzsche, que vão e voltam da arte, não se aplicam ao futebol. Não obstante, é preciso lembrar que em O nascimento da tragédia menciona-se os antigos Jogos Olímpicos como um festival dramático no qual se reunificam as artes gregas. Embora não esteja claro se Nietzsche inclui o esporte nestas artes, o livro celebra “o entretenimento das forças” físicas e seus papéis no trágico. O futebol pode não ser considerado uma arte, mas indiscutivelmente invoca a atitude e o julgamento estético a serem uma prática social com bens internos e padrões de excelência construtivos e definidores. Tanto uns como outros compõem seus atributos estéticos porque são intrínsecos e identificados como dignos de atenção sustentada pela comunidade de praticantes. O estético, central na postura nietzschiana do trágico, foi chave na sensação experimentada por José, para quem a vida e a existência, em seu retorno ao campo do time de que ama, tiveram uma brilhante justificativa. É motivo suficiente para voltar iludido ao campo, com as precauções necessárias que a pandemia impõe. Embora a beleza futebolística não elimine a impiedade dos campos e das outras esferas da vida, a experiência de José sugere que, apesar dele, oferece um horizonte, delicado e parvo, de sossego e equilíbrio. 

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 5 de novembro de 2021.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

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O novo lema olímpico e suas implicações

O lema citius, altius, fortius (mais rápido, mais alto, mais forte) é amplamente reconhecido e reverenciado no Movimento Olímpico. Foi adotado em 1894 quando o Barão francês Pierre de Coubertin instituiu o Comitê Olímpico Internacional (COI). Ele pegou emprestado esse lema de seu compatriota Henri Didon, um padre dominicano que Coubertin ouviu recitar a frase em 7 de março de 1891 durante a cerimônia de premiação de um evento esportivo na Escola Albert Le Grand, em Arcueil, perto de Paris, na qual ele era o reitor. Impressionado, Coubertin citou o futuro lema olímpico em uma reportagem publicada na revista Les Sports Athlétiques alguns dias depois.

Barão de Coubertin, responsável por introduzir o lema olímpico. Fonte: Olimpíada todo dia

Em seu website, o COI afirma que o lema olímpico “resume uma filosofia de vida ou um código de conduta” que “incentiva os atletas a darem o seu melhor durante as competições”. Além disso, de acordo com a Carta Olímpica, a mesma “expressa às aspirações do Movimento Olímpico”. O COI esclarece em seu site que o lema olímpico compreende não apenas um significado esportivo e técnico, mas também uma perspectiva moral e educacional. Nesse sentido, Coubertin já havia dito em 1929 que “a chamada sonora” dessas três palavras e os enormes esforços para melhorar o rendimento são necessários “para a vida esportiva e as proezas excepcionais indispensáveis ​​à atividade geral”. Assim, o lema olímpico implica uma postura perfeccionista sobre a vida humana com ênfase na excelência individual.

A persistente pandemia de coronavírus gerou uma mudança imprevista e incomum no lema olímpico. Perturbado por seus efeitos sobre o Movimento Olímpico e motivado pelas reformas que vem promovendo desde sua eleição como presidente do COI em 2013, o alemão Thomas Bach propôs em março deste ano “complementar este lema adicionando, após um hífen, a palavra juntos”, para o qual evocou a palavra latina communis.

Sua proposta, realizada durante o discurso de aceitação de sua reeleição como Presidente do COI, reconhece que “aprendemos do jeito mais difícil durante esta crise do coronavírus que podemos estar de acordo com nosso lema olímpico ‘mais rápido, mais alto, mais forte’, no esporte e na vida, somente se trabalharmos juntos em solidariedade”. Encorajando seus colegas do COI a imaginar metas mais ambiciosas para o mundo pós-coronavírus, Bach proclamou: “Precisamos de mais solidariedade dentro das sociedades e entre as sociedades e isso se tornou óbvio no início do coronavírus, quando se pôde ver que o fosso social estava se ampliando”. Prosseguiu explicando que “o mundo é tão interdependente que ninguém consegue mais resolver os grandes desafios sozinho” e insistiu que sua proposta expressa “essa necessidade de solidariedade”. Não surpreende que, quase um século antes, Coubertin disse que, no Olimpismo, a filosofia constituinte do Movimento Olímpico, “tudo gira em torno das ideias obrigatórias de continuidade, interdependência e solidariedade”.

No mês seguinte, em uma reunião virtual, o comitê executivo do COI endossou a proposta de Bach e decidiu submetê-la aos seus membros para consideração durante a assembleia geral a ser realizada antes do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Já é dado como certo que o novo lema olímpico será aprovado com entusiasmo. Por um lado, explicita que o esporte, a prática social estruturante do Movimento Olímpico, é um projeto comunitário que exige reconhecimento, cooperação e cuidado dos adversários. Por outro lado, enfatiza o caráter ecumênico do Movimento Olímpico, assim como sua aspiração, conforme consta na Carta Olímpica, de “favorecer o estabelecimento de uma sociedade pacífica e comprometida com a manutenção da dignidade humana”. Uma preocupação central do Olimpismo é a criação de uma communitas de iguais morais que respeitem suas diferenças. Desta forma, o Olimpismo propõe, tomando emprestado livremente do filósofo francês Emmanuel Levinas, o reconhecimento celebrativo da alteridade e nos convida a cultivá-la no caminho compartilhado em direção à excelência.

A Sessão do Comitê Olímpico Internacional (COI) aprovou a mudança no lema olímpico. Foto: IOC/Greg Martin

O novo slogan olímpico resume melhor, esclarece e torna muito mais coerente a ideologia olímpica. É razoável esperar que o COI, como líder do Movimento Olímpico, se esforce para torná-lo realidade e o utilize para orientar suas políticas e iniciativas. Por isso, também é razoável esperar que o COI indique claramente sua posição sobre os próximos Jogos Olímpicos de Inverno de Pequim 2022 e a repressão violenta por parte das autoridades chinesas contra as pessoas uigures e outras minorias predominantemente muçulmanas em Xinjiang. Um setor da comunidade internacional argumenta que o genocídio está sendo cometido contra essas minorias e que mais de um milhão de pessoas foram transferidas para prisões e campos de doutrinação. Vale a pena perguntar o lugar dessas minorias no “juntos” do novo lema olímpico. O que deve implicar a solidariedade invocada por Bach para justificar tal acréscimo no caso dessas minorias? Imputando a inação do COI, o antropólogo cultural estadunidense John J. MacAloon declarou recentemente que os verdadeiros movimentos sociais se levantam e se opõem a ele. Ver-se-á se o COI, estimulado pelo novo lema olímpico e pelos demais preceitos, se comporta dessa forma.


Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 21 de julho de 2021

Tradução: Eduardo Ribeiro e Fausto Amaro

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A História feminina do esporte argentino

Há mais de 100 anos, em seu relatório anual de 1918, P.P Phillips, diretor de educação física da Asociación Cristiana de Jóvenes (ACJ) de Buenos Aires, escreveu: “Ao contrário de sua tendência tradicional, os argentinos agora estão desenvolvendo uma sede insaciável pela educação física e os esportes estrangeiros”. Por outro lado, ressaltou que em um rápido olhar para os estudantes em seu ginásio, podia observar “os tipos de homens e crianças bem educados” que a ACJ atraía, assim como “o clima democrático, gentil” que se mantinha nelas. Para mostrar a aprovação que geravam as iniciativas da instituição, Phillips citou um médico local, para quem seus colegas portenhos poderiam enviar mulheres jovens o suficiente para abrir uma seção feminina se a ACJ estivesse disposta a realizar o mesmo trabalho “para nossas meninas gordas”.

O Relatório de Phillips demonstra a crescente importância do esporte na Argentina no começo do século XX e a ordem genérica que prevalecia. O esporte estava reservado e era controlado por homens, que estavam habilitados para beneficiarem-se de todos os valores atribuídos à sua prática. Entretanto, como indica a prescrição do médico, as mulheres tinham permissão para participar dos esportes se isso resultasse na melhora da saúde (sobretudo reprodutiva), e não alterasse o ideal feminino estabelecido. Vale a pena destacar que a Asociación Cristiana Femenina (ACF) de Buenos Aires teve seu início em 1890, sendo uma das instituições femininas mais antigas do país. O fato do médico citado por Phillips ignorá-la também expõe as enormes dificuldades que enfrentava, e ainda enfrenta, o esporte feminino. 

A história da ACF demonstra que, apesar dos discursos esportivos dominantes que durante muito tempo o silenciaram ou minimizaram, e que ainda o fazem, sempre houve, e há, mulheres e instituições que favoreceram, materializaram e exemplificaram a emancipação e o empoderamento feminino através da prática esportiva. Se pode, e deve, considerá-las como pioneiras no sentido de que eram, e muitas ainda seguem sendo, as primeiras a ingressarem em um espaço novo. Da mesma forma que se pode, e deve, considerá-las lutadoras e militantes no sentido de que nesse corajoso ingresso, criaram novos espaços participativos por meio dos quais se questionaram estereótipos de gênero e se imaginaram visões políticas alternativas. Teria mencionado algo sobre isso Alicia Moreau quando a ACJ a convidou para falar sobre “O feminismo como problema social” em seu ciclo de conferências de 1919?

Sabe-se relativamente pouco da vida dessas mulheres e instituições pioneiras, lutadoras e militantes do campo do esporte, visto que elas estão em grande parte ausentes da narrativa histórica e jornalística tradicional. Felizmente, o trabalho paciente de várias colegas começa a interpretar o complexo processo pelo qual as mulheres e instituições pioneiras, lutadoras e militantes, em suas buscas, suas conquistas, e seus fracassos, contribuíram para resistir, negociar e ressignificar a ordem genérica que operava no esporte ao longo do último século. Ao torná-las visíveis, percebemos sua larga e importante, mas agora latente, presença no esporte nacional. 

O exemplo de Lilian Harrison é norteador. Anos depois de converter-se como a primeira pessoa a cruzar a nado o Río de la Plata em 1923, declarou:

“Nunca posso me esquecer que um dos presentes [em Colonia] não se cansava de dizer que eu estava louca e que não chegaria nem ao penhasco. Veja que estranho, quando toquei a terra, em Punta Colorada, próximo de Punta Lara, a primeira coisa que me aconteceu foi pensar naquela pessoa que havia comentado de minha loucura um dia antes”.

Lilian Harrison

Se nos interessa a produção de discursos e de sentidos genéricos, assim como a igualdade de gênero no esporte, nem a fala e nem a vida de figuras como Harrison, nem o seu significado, deveriam ser esquecidos. Resgatá-las, mantê-las presentes e problematizá-las ajuda a tornar visível o papel vital da mulher no esporte e em outros espaços sociais.


Texto originalmente publicado no site El Equipo no dia 29 de maio de 2021

Tradução: Abner Rey e Fausto Amaro

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As suecas: uma conquista feminina do mundo esportivo masculino

Por David M.K. Sheinin* e César Torres**

Como sempre, no âmbito do Turismo de Autoestrada (Turismo de Carretera – TC), o Grande Prêmio Standard de 1962 produziu triunfos heroicos e decepções profundas. Apesar das famosas marcas estadunidenses Ford e Chevy desaparecerem na rota Pilar-Villa Carlos Paz, o grande condutor Jorge Cupeiro conseguiu um tempo digno em sua Pontiac. Com uma velocidade média de 121 km/hora, Ricardo “O Gordo” Sauze – vestido de bombacha e tênis – liderou um trio de Alfa Romeos Giulietta TI que encabeçaram a categoria “D” do evento. Por sua vez, Gastón Perkin pilotou sua Renault Gordini a 150 km/hora nas partes retas da estrada, ganhando a primeira etapa da competição. Mas a grande surpresa do evento foi a vitória geral de duas mulheres suecas, Ewy Rosqvist e Ursula Wirth.

O TC era, e ainda segue sendo, um mundo de homens, onde se forja e se reproduz a identidade social masculina. Milhares de fanáticos seguiam cada corrida, à beira da estrada ou em suas casas, por meio das famosas transmissões de rádio do jornalista Luis Elías Sojit, nas páginas do El Gráfico e no El Deporte es Así, do Canal 7, com Dante Panzeri, Ernesto Lazzatti, Raúl Goro e Ulises Barrera, e outros programas de televisão. O TC associou a masculinidade argentina com o trabalho mecânico, o perigo da rota e o heroísmo do condutor. Em 1947, quando o carro de Juan Manuel Frangio capotou durante o Grande Prêmio da América do Sul (mais conhecido como “O Buenos Aires-Caracas”), seu acompanhante Daniel Urrutia morreu tragicamente. Pedro Fangio saiu do acidente caminhando ileso e sua coragem confirmava sua lenda quase mítica.

Juan M. Fangio e Daniel Urrutia (Foto: http://www.jmfangio.org)

Mais que qualquer outro piloto, os irmãos Emiliozzi, Dante e Torcuato, definiram o arquétipo do homem do TC. Competidores ferozes, durante a semana trabalhavam em sua oficina de Olavarría, fazendo milagres mecânicos. Aos seus seguidores, lhes fascinava a imagem de uma oficina onde os irmãos mergulhavam sob o capô, despretensiosamente, dando as boas-vindas a qualquer visitante interessado nas reformas mecânicas mais recentes, às vezes comendo um assado com amigos. Todo fanático sabe que, em 1949, os irmãos adaptaram um motor Ford a um novo sistema de válvulas aéreas – cinco anos antes da Ford desenvolver um modelo parecido. Em 1958, durante uma corrida na cidade de Mercedes, entrando em uma curva com uma velocidade muito alta, os pilotos capotaram o carro. Um grupo de fãs tentaram ajudar Dante, mas acabaram prejudicando sua coluna vertebral. Enquanto Torcuato sofreu apenas ferimentos leves, um médico local o vacinou contra tétano, uma doença comum das fazendas de porcos da região. O acidente contribuiu para consagrar os Emiliozzi como pilotos valentes nas memórias dos fãs.

Os irmãos Emililozzi (Foto: Facebook Museo Municipal Hermanos Emiliozzi)

O mundo masculino do TC foi abalado em 1962 pela chegada das pilotas suecas, cujas trajetórias automobilísticas eram praticamente desconhecidas na Argentina. Suas passagens pelo rali europeu haviam sido breves. Em meados dos anos cinquenta, tanto Rosqvist como Wirth trabalharam como ajudantes veterinárias em diferentes zonas rurais da Suécia. Cada uma gostava de dirigir as longas distâncias entre as granjas. As duas começaram a competir em rali e em 1960 formaram uma equipe. Nesse mesmo ano, Rosqyst firmou cum contrato para dirigir carros Volvo e, em 1962, mudou para a equipe Mercedes-Benz, a qual representou com Wirth na Argentina, pilotando um modelo 220-SE. Foram o primeiro binômio feminino que competiu em um Grande Prêmio argentino. Inesperadamente, para os fãs argentinos, elas não apenas ganharam, como dominaram a competição com uma marca de carros quase desconhecida no mundo do TC. Ganharam em cada uma das seis etapas da rota contra condutores como Cupeiro e Perkins e com um novo recorde de velocidade média na estrada (127 km/hora). Anos mais tarde, ambos os corredores [Cupeiro e Perkins] participaram nas 84 horas de Nürburgring, formando parte da famosa “Missão Argentina” dirigida pelo designer de carros Oreste Berta. Com sua vitória, Rosqvist e Wirth romperam a aura masculina do TC, ainda que apenas momentaneamente, chamando atenção da mídia argentina.

Ewy Rosqvist com uma Ferrari, 1957

As duas condutoras suecas não foram as primeiras esportistas celebradas na Argentina. Por exemplo, nos anos vinte, a nadadora Lilian Harrison foi seis vezes capa do El Gráfico por suas proezas aquáticas. Nos anos trinta, Jeannette Campbell (natação) e Lotte Standl (atletismo), entre outras, também foram capa desse jornal. Em 1951, a mídia argentina exaltou o desempenho das tenistas Mary Terán de Weiss (campeã no torneio individual) e Felisa Piédrola de Zppa (ganhadora do torneio de duplas junto com Mary) nos Jogos Panamericanos. No ano seguinte, tomaram nota da morte de Edith Noble, capitã da equipe de hóquei sobre grama do Club Atlético Belgrano. Em 1953, Ana María Festal ganhou três eventos no campeonato nacional de natação e, em 1959, a revista Mundo Deportivo ressaltou os “vários recordes” da nadadora Silvia Hofmeister. Entretanto, nas páginas do Mundo Deportivo, El Gráfico, as revistas de temas gerais e os jornais, as imagens mais comuns de mulheres não foram de atletas, mas sim de modelos, atrizes e cantoras – como Elder Barber ou Olinda Bozán. Quando eram mencionadas, não era raro que as esportistas recebessem comentários sexualizados. Dessa maneira, Terán de Weiss triunfou, mas em uma categoria feminina. Noble era “magra, loira, veloz”. Brillaba, segundo El Gráfico, por sua personalidade “simpática e bondosa” e por “seu rosto suave, com sorriso terno, sua figura ágil e graciosa, seu modo de ser tão cativante”. As quatro linhas sobre Hofmeister no Mundo Deportivo apareceram abaixo de uma foto da nadadora em traje de banho. A imagem ocupou quase uma página inteira.

El Gráfico, 31 de outubro, 1962

A conquista automobilística de Rosqvist e Wirth não teve precedentes no mundo masculino do esporte argentino. Na Suécia e em outros países europeus, a maioria dos meios de comunicação trivializaram a vitória com comentários sobre a beleza. “Anjas da Estrada”, anunciou The Irish Times, por exemplo. Mas na Argentina muitos jornais qualificaram as campeãs sem prestar maior atenção aos termos padrões para escrever sobre as mulheres no esporte. Ou seja, analisaram o desempenho das corredoras nórdicas focalizando em seus méritos esportivos. Assim, o jornalista Federico B. Kirbus escreveu nas páginas do El Gráfico que Rosqvist e Wirth “conduziram com firmeza e decisão” e que “dominam seu esporte à perfeição”, agregando que a vitória das condutoras suecas foi “um triunfo absoluto”.

Apesar do triunfo absoluto de Rosqvist e Wirth no Grande Premio Standard de 1962 do TC e da atenção que gerou, o progresso em termos de igualdade de gênero tem sido lento no automobilismo argentino. Tamara Vital, fundadora e chefa da equipe Vitarti da categoria Top Race Junior, a primeira formada integralmente por mulheres e que estreou faz poucas semanas, explica essa situação. “Na atualidade, são mais de 150 mulheres correndo em todo o país”, mas somente “há dois anos vem se notando cada vez mais forte a presença da mulher no automobilismo”. Aixa Franke, uma dessas pilotas, declarou que ainda existem homens que “se ofendem quando ela ganha”. O triunfo absoluto de Rosqvist e Wirth, de sessenta anos atrás, será ainda mais absoluto quando essa atitude for banida do automobilismo nacional e as mulheres forem incorporadas integralmente na atividade em condições de igualdade e respeito sincero.


Texto originalmente publicado no site El Furgón no dia 22 de abril de 2021

*David M.K. Sheinin. Doutor em História. Docente na Universidade de Trent.

**César Torres. Doutor em Filosofia e História do Esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

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Os cinco lutadores da foto: peronismo, esporte e diplomacia

Por César R. Torres* y David M. K. Sheinin **

No dia 23 de maio de 1954, um ano e quatro meses antes do golpe de estado que derrubaria Juan Domingo Perón, o jornal havanês Diario de la Marina publicou uma foto da equipe argentina de luta em sua chegada a Tóquio para participar do campeonato mundial desse esporte. A foto tinha sido tirada ates, já que o evento aconteceu entre os dias 22 e 25 de maio. Entre os quinze países participantes, a Argentina era o único latino-americano. Talvez esse tenha sido o motivo, junto a seu excelente desempenho nos primeiros Jogos Panamericanos organizados pelo peronismo em Buenos Aires três anos antes, pelo qual o Diario de la Marina incluíra a fotografia da equipe argentina. Essa mostrava os cinco integrantes – elegantemente vestidos – junto ao avião no qual haviam chegado à Tóquio. A imagem foi localizada na parte superior de uma página de esporte e ocupava três das oito colunas. Qualquer que tenha sido o motivo para publicá-la ali, a foto projetava vários eixos da reconfiguração de significados desportivos e cidadãos promovidos por Perón durante a década em que governou e que cimentaram alguns traços da Argentina contemporânea.

Os cinco lutadores da fotografia marcaram a interseção de vários temas chaves no desenvolvimento e na promoção da argentinidade sob o peronismo. Entretanto, dois desses lutadores, Omar Blebel, um argentino de ascendência árabe, e León Genuth, um argentino judeu, o fizeram de forma ainda mais evidente que os destacados Juan Rolón e Alberto Longarela, supostamente de origem espanhola e italiana, respectivamente. A presença de Zdzislaw Pielach no grupo de lutadores que viajou a Tóquio também é significativa. Ainda que dele se saiba muito pouco, pode-se especular que era de origem polaca.

Blebel e Genuth, além de Pielach, simbolizam o reconhecimento e a inclusão de identidades até então marginalizadas da polis nacional. Segundo o historiador Raanan Rein, diferentemente de outros regimes políticos, o peronismo legitimou os cidadãos de comunidades étnicas, raciais e/ou religiosas minoritárias. Pela primeira vez na Argentina, Perón estabeleceu que era compatível para os cidadãos serem leais ao projeto argentino (e peronista) e manterem fortes laços com suas comunidades de ascendência. As comunidades judaica e árabe, entre outras, formaram grupos peronistas no reconhecimento de tamanha mudança sociopolítica e expressaram sua identidade argentina (e peronista) de novas maneiras. Um exemplo é a presença sem precedentes de membros da comunidade árabe nas instituições da sociedade civil do norte do país. Blebel e Genuth, assim como os outros três lutadores, chegaram ao auge de suas carreiras desportivas nesse contexto de crescente inclusão e reconhecimento e no marco da forte associação entre o peronismo e o esporte.

Fonte: Imagem retirada do site El Furgón

No fomento do esporte de todo nível – desde clubes de bairro até os Jogos Panamericanos de 1951 –, assim como no interesse de Perón em atletas de destaque, como o boxeador José María Gatica, e no apoio de Evita ao “obrero” Club Atlético Banfield no campeonato de futebol de 1951, e em muitas outras circunstâncias, o peronismo reconheceu a importância do esporte para promover a ideia de uma Argentina forte, sã e peronista a nível nacional e internacional. Sem militância política aparente, com seus triunfos desportivos, Blebel e Genuth representavam esse novo país. Ambos ganharam medalhas de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, enquanto a equipe argentina terminou a competição com quatro medalhas de ouro e oito no total. Blebel e Genuth se transformaram em visíveis representantes da integração do argentino judeu e do argentino árabe à nação imaginada por Perón.

Genuth nasceu na província de Entre Ríos em 1931 e se formou como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da Cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente e em 1850 competiu na terceira Macabeada em Israel, ganhando duas medalhas de ouro, que dedicou a Perón. De volta à Argentina, Perón lhe entregou um troféu, não por ser um campeão judeu, mas por ser um campeão argentino em Israel. No ano seguinte de seu triunfo nos Jogos Panamericanos de 1951, se classificou em sexto lugar nos Jogos Olímpicos de Helsinque. Os meios de comunicação anunciaram as conquistas internacionais de Genuth “como triunfos argentinos”, solidificando sua integração à nação. Em 1953, ele competiu na quarta Macabeada em Israel, conquistando novamente duas medalhas de ouro. Naquele ano, o semanário Mundo Deportivo ressaltou “a grande qualidade deste lutador argentino e ratifica também o alto nível alcançado por nossa luta”. Segundo esse semanário, Genuth encabeçava o que considerava uma grande recuperação da luta nacional.

Ainda que Blebel, nascido na província de Santa Fe, fosse nove anos mais velho que Genuth, ele também fazia parte dessa recuperação. Participou dos Jogos Olímpicos de Londres, em 1948, e nos de Helsinque, em 1952, classificando-se em décimo terceiro e décimo quarto lugar, respectivamente. Antes de ganhar a medalha de ouro nos Jogos Panamericanos de 1951, Blebel recebeu uma carta, bem como todos os membros da delegação argentina, na qual o presidente da Confederação Argentina de Desportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), Rodolfo Valenzuela, dizia: “todo o país tem depositado sua fé no seu comprovado espírito de desportista nato, como corresponde a um verdadeiro argentino. Creem em ti como desportista. Mas deve crer, convencer-se intimamente, que és um patriota”. Valenzuela acrescentou, depois de mencionar a obra de Evita e de sua fundação em prol da preparação da delegação argentina, que “todos eles [..] merecem que você, amigo desportista, represente um argentino nos Jogos, se sinta identificado com a causa comum”. Depois do evento, o Mundo Deportivo ressaltou que Blebel “era uma das esperanças de nossa equipe” e que “fez honra à confiança”. Assim, esse lutador argentino árabe era plenamente integrado à nação e ao peronismo. O semanário El Gráfico anunciou no mês anterior ao campeonato mundial em Tóquio que “se a luta teve progresso foi precisamente por esse escasso contato internacional que seus praticantes tiveram por não mais que cinco anos”. Era um reconhecimento oblíquo a Blebel, a Genuth e ao resto da equipe de luta, assim como ao peronismo e sua política desportiva.

Perón considerava que o esporte e os atletas podiam disseminar internacionalmente a imagem e as conquistas de sua nova Argentina. Nesse sentido, a revista Olimpia, publicada pela CADCOA, afirmou em 1954: “quando uma delegação desportiva viaja para o exterior, automaticamente se convertem em embaixadores com placet[1] popular” e acrescentou que os atletas “vêm para robustecer o trabalho diplomático que desenvolviam os diplomatas de carreira”.  A união da diplomacia tradicional e do esporte, prosseguia a revista, “conduzem a uma só meta: fazer sobressair o nome da Pátria para além de suas fronteiras físicas”. Dessa maneira, a equipe argentina que viajou à Tóquio naquele ano para o campeonato mundial constituiu uma embaixada desportiva argentina (e peronista). Antes de sua partida, El Gráfico argumentou que se podia estar certo de que “a equipe de lutadores argentinos […] é superior em experiência e qualidade a todos aqueles que até o momento defenderam nossas cores em lonas de outras terras. São de se esperar os acontecimentos”.

Os acontecimentos não foram favoráveis desportivamente. Em Tóquio, os lutadores argentinos foram superados pelos representantes das potências mundiais desse esporte. De todo modo, a viagem serviu como preparação para os Jogos Panamericanos da Cidade do México em 1955, onde Genuth e Blebel ratificariam sua qualidade com medalhas de ouro. Longarela também conquistaria um ouro e Rolón uma prata. Pielach não representou a Argentina nesse evento. Para além do benefício desportivo, a presença argentina em Tóquio, como demonstra a fotografia publicado pelo Diario de la Marina, projetou a imagem, nas palavras de Rein, da legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (raciais e/ou religiosos)” e do esporte como prática integradora privilegiada. Os cinco lutadores argentinos, mas fundamentalmente Blebel e Genuth, corporizavam a ideia de uma Argentina inclusiva e respeitosa da diversidade de sua cidadania. Ou seja, nessa foto podemos perceber a base do que tempos depois seria a Argentina multicultural contemporânea. O fato de ter sido publicado em um jornal de Havana foi uma pequena conquista da diplomacia desportiva peronista.

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de abril de 2021.

* Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

** Doutor em história. Docente na Universidade de Trent.


[1] Termo que designa a aprovação que um Governo concede a uma determinada pessoa para exercer, em seu território, a representação diplomática de outro país.

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Quando Armando imaginou Kissinger como sócio honorário do Boca

Em 1976, o Boca contava com 360 sócio honorários. De acordo com seu estatuto, essa distinção pode ser concedida “em favor de pessoas que, pertencendo ou não ao Clube, tenham lhe prestado serviços excepcionais”. Essa distinção havia sido concedida pela última vez em 1972, quando receberam-na 45 homens pelos seus favoráveis “pronunciamentos administrativos inerentes às obras do Grande Estádio da Cidade Desportiva, com benefícios inestimáveis para o Boca Juniors”. Quatro anos depois, Alberto J. Armando, presidente da entidade entre 1954-1955 e entre 1960-1980, tentou aumentar a lista de sócios honorários com um personagem tão inusitado quanto ardiloso: Henry Kissinger, secretário de Estado dos Estados Unidos entre 1973-1977, durante as presidências de Richard Nixon e Gerald Ford e defensor da Junta Militar que governou o país depois do golpe cívico-militar de 1976 que derrubou Isabel Martínez de Perón.

A motivação de Armando, promotor do que seria o “futebol espetáculo” no final da década de cinquenta e começo da de sessenta, parece ter sido mais propagandística do que política. Kissinger poderia ter impulsionado a visibilidade internacional do Boca. Em 14 de junho de 1976, a menos de dois meses do golpe, Armando enviou uma carta a Kissinger, preservada em seu arquivo pessoal, manifestando o agrado do clube em saber, através da imprensa, de sua simpatia pela instituição que presidia. “O Clube mais popular da Argentina”, prosseguia a carta, “tem a partir de agora entre seus membros uma das figuras mais relevantes do governo dos Estados Unidos da América e campeão da paz mundial”, o que constituía uma “uma honra imensa”.

Junto com a carta, Armando enviou a Kissinger uma flâmula e uma insígnia do Boca, assim como uma credencial para que pudesse presenciar na famosa Bombonera as partidas da equipe principal. Dando-lhe as boas-vindas “à grande família boquense”, Armando antevia que ela [a família boquense] demonstraria seu afeto e sua alegria quando, em sua próxima visita ao país, Kissinger se sentasse no lugar de honra do estádio. Armando se despedia até “tão feliz momento”, anunciando que na próxima Assembleia Geral de Representantes “proporemos a designação do Senhor Secretário de Estado como Sócio Honorário do Clube”.

A carta de Armando foi traduzida no Departamento de Estado e respondida seis semanas depois. A assistente pessoal de Kissinger fez isso em seu nome. Ela disse a Armando que agradecia muito à flâmula, à insígnia e à credencial. Além disso, dizia saber o quanto Kissinger gostaria de presenciar a uma partida de futebol em sua próxima viagem ao país, se sua agenda o permitisse. A assistente pessoal também disse que Kissinger estaria muito honrado de ser proposto como um sócio honorário. O entusiasmo era verdadeiro, já que Kissinger adorava o futebol, esporte que praticou em sua juventude e promoveu nos Estados Unidos. Em outubro de 1978, foi nomeado presidente da Junta Diretiva da Liga da North American Soccer League (NASL) – Liga de Futebol da América do Norte –, que funcionou entre 1968-1984. Ele podia ser visto nas partidas do New York Cosmos, equipe da NASL, e se envolveu nas negociações que permitiram a Pelé jogar nessa equipe entre 1975-1977. Também teria um papel destacado na bem-sucedida candidatura dos Estados Unidos para ser sede da Copa do Mundo de 1994. O jornalista Daryl Grove argumenta que Kissinger tem sido uma das pessoas mais influentes no desenvolvimento do futebol nesse país.

Apesar do entusiasmo de Kissinger pela carta de Armando e suas credenciais futebolísticas, o Boca não lhe concedeu o título de sócio honorário. A Assembleia Geral Ordinária de Representantes, posterior à carta de Armando, foi realizada em 10 de setembro de 1976, mas o Relatório e o Balanço Geral do ano administrativo que terminava no final daquele mês mostrou que o número de sócios seguia sendo o mesmo: 360. Esse documento não especifica se Kissinger não foi proposto como sócio honorário ou se houve resistência à dita proposta. É provável que alguns sócios desejassem considerar os “serviços excepcionais”, como reza o estatuto do clube, prestados por Kissinger para merecer a distinção.

Ainda que não tenha sido aceito como membro honorário do Boca, Kissinger se relacionou sordidamente com o futebol argentino. Foi um convidado de honra da Junta Militar durante a Copa do Mundo de 1978. Ele até apareceu com Jorge Videla, o presidente da Junta Militar, posteriormente condenado por crimes contra a humanidade, no vestiário da equipe peruana antes da controversa partida que disputou, em Rosario, contra a Argentina pelas semifinais do torneio. No ano anterior, Videla havia entregado a Kissinger uma foto sua cuja legenda dizia: “Ao senhor HENRY KISSINGER, com particular estima e respeito”. Dado o apoio que concedeu à ditadura cívico-militar, a estima e o respeito eram mútuos. Videla estava convencido de que, como secretário de Estado, Kissinger havia defendido as ações de seu governo “contra o comunismo”. Sua presença na Copa do Mundo de 1978 foi encarada como legitimadora e, ao mesmo tempo, como contrapartida à posição de Jimmy Carter, que pressionava, desde sua posse na presidência, em fevereiro de 1977, a Junta Militar a respeitar os direitos humanos. De fato, em 1978, Raúl Castro, embaixador dos Estados Unidos na Argentina, escreveu estar preocupado com a visita de Kissinger para a Copa do Mundo, porque seus elogios à luta “contra o terrorismo” podiam ter subido à cabeça dos ditadores e porque existia a possibilidade de que eles se utilizassem disso para justificar um endurecimento das ações repressivas.

Qualquer que tenha sido o motivo para a frustração da ideia inicial de Armando, para o Boca foi benéfico não contar com Kissinger entre seus sócios honorários. Suas temerosas ações políticas estenderam-se a outros países da América Latina e também a outras zonas geográficas. Sua carreira no serviço público foi tão controversa que o cientista político Marcelo Cavarozzi afirmou que Kissinger é “produto de uma mente superior que não necessariamente trabalhava para encontrar o funcionamento e o desenvolvimento de sociedades mais justas, pacíficas e igualitárias”. Por sua vez, o jornalista Jon Lee Anderson se perguntou, à luz de novos documentos que confirmam seu apoio aos ditadores latino-americanos, se Kissinger tem consciência. Boa parte da família boquense, ao falar de Armando, pode ter se perguntando a mesma coisa. Ao menos eles não tiveram que se perguntar o que deveriam ter feito se tivessem concedido a Kissinger a distinção de sócio honorário do clube. Ao contrário da previsão de Armando, a Bombonera nunca demonstrou a Kissinger seu afeto e sua alegria.

Fonte: Página12

Texto originalmente publicado no site Página12 no dia 15 de fevereiro de 2021.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

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Lutador e Peronista


Por Cesar Torres* e David M. K. Sheinin**

Nascido em 1976 no bairro portenho de La Paternal, F relata uma experiência muito comum na comunidade judaica argentina. Seu pai morreu quando tinha oito anos. Entretanto, foi na vida adulta que tomou conhecimento de um segredo profundo do qual seus familiares haviam falado apenas em sussurros: seu pai, um operário industrial, havia sido peronista.

Não foi simplesmente como se seu pai tivesse se “equivocado” como seguidor judeu de Juan Domingo Perón, mas sim que sua identidade peronista envergonhava aos familiares. Este trabalhador industrial representou a antítese à ascensão da classe média judaico-portenha. A história que F contou corresponde com a imagem do jornalista Jacobo Timerman no livro Timerman: el periodista que quiso ser parte del poder. A autora, Graciela Mochkofsky, conecta a identidade judaica de Timerman (e de outros judeus argentinos) à modernidade do século XX, associada com os ideais liberais do século anterior, originados na França napoleônica, e aos princípios de cidadania completa e livre para os judeus na Europa.

Em seu livro Los muchachos judíos peronistas, o historiador Raanan Rein demonstra que a distância entre os judeus e o peronismo era um mito. Enquanto muitas pessoas ainda associam Perón com o antissemitismo, antes de Rein não havia sido apresentado de forma tão contundente que dentro da comunidade judaica houve um apoio notável a Perón. Levando em conta a insistente associação do peronismo com a identidade argentina, o mito do distanciamento entre a comunidade judaica e o peronismo constata o tom preconceituoso quando ela é apresentada como estrangeira. Los muchachos judíos peronistas explica que o peronismo é também parte da história da comunidade judaica argentina no século XX. Perón declarou explicitamente que a etnia judaica – assim como a árabe ou a japonesa – não diminuiria a identidade argentina. Ao contrário, o peronismo representou o primeiro movimento político argentino que afirmou a argentinidade das diferentes comunidades étnicas e religiosas. Para muitos argentinos judeus, o peronismo ofereceu uma entrada livre de dúvidas à nova sociedade argentina – a Nova Argentina de Perón na fórmula partidária – forjada a partir dos anos quarenta.

Fonte: eraseperonia.com

O esporte peronista

Perón praticou todo tipo de esporte, desde boxe à esqui, desde esgrima ao motociclismo. Mais do que reforçar sua própria masculinidade com o cultivo de uma imagem pública de atleta vigoroso, Perón chegou à presidência com uma visão de inclusão social que incorporava o esporte para beneficiar as classes populares. Os dez anos peronistas foram, segundo o antropólogo Eduardo Archetti, “exemplares e não houve, posteriormente, outras intenções sistemáticas de vincular o esporte com a nação através de políticas estatais claras e articuladas”. Além da participação de milhares de jovens nos Jogos Evita e da organização de espetáculos desportivos como os primeiros Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 e da construção de infraestrutura esportiva como o Autódromo Municipal, Perón apoiou a muitos atletas, desde boxeadores de bairros até automobilistas famosos. O boxeador José María Gatica, por exemplo, era o favorito de Perón. Seu laço com o peronismo ia mais além desse apoio, Gatica se autoidentificou com o movimento e a noção de que o público o percebia como peronista marcou um pertencimento social e cultural que excedia a política que o movimento promovia. Como lutador, como trabalhador e como uma pessoa que buscava a vida bem-sucedida, Gatica representava a esperança que a classe trabalhadora associava com a Argentina do futuro sob a tutela do peronismo. Da mesma forma, quando Evita Perón apoiou a equipe do Club Atlético Banfield no campeonato de futebol masculino da primeira divisão de 1951, essas mesmas qualidades foram reconhecidas em jogadores pouco conhecidos do subúrbio de Buenos Aires: lutadores, trabalhadores e batalhadores.

León Genuth um lutador judeu argentino que se destacou a nível nacional e interacional durante o peronismo exemplificou as qualidades citadas. Relembrando seus treinamentos do começo dos anos cinquenta, disse que “convivia com muito entusiasmo e sacrifício”. Manifestou, por exemplo, que “se a eletricidade fosse cortada, sem acovardar-se, as velas eram colocadas ao redor dos tapetes nas cadeiras, para não parar a atividade e continuar o treinamento; também, na maioria das vezes, tínhamos que tomar banho frio em pleno inverno”; Genuth admitiu que “sempre tomei como meu o lema macabeu ‘¡Jazaak Veematz!’ (seja forte e valente), que guiou minha vida e minha atividade desportiva”. Essa dedicação estava em consonância com a ideia que Perón tinha do esporte. Em uma carta enviada aos desportistas argentinos que participariam nos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951, grupo do qual Genuth fazia parte, Perón expressou aos atletas que “defender as cores sagradas da nossa bandeira em um evento esportivo pressupõe a mesma honra e o mesmo sacrifício que fazê-lo em qualquer outra ocasião. A pátria se defende de uma só maneira: com toda a alma, com toda a vida”. E completou: “lembre companheiro que nessa defesa você é a síntese de todo um povo”, para salientar que “nos esportes, como em todas as coisas da vida, se vence com a cabeça, se chega com o coração e se chega ainda mais longe com a vontade tenaz e inflexível de vencer”.

A carreira esportiva de León Genuth

Ainda que tenha nascido na Província de Entre Rios em 1931, Genuth se desenvolveu como lutador na Organização Hebraica Argentina Macabi da cidade de Buenos Aires. Destacou-se rapidamente tanto no estilo livre como no greco-romano. Em 1949, ainda tendo idade da categoria juvenil, foi campeão argentino de peso médio em ambos os estilos, título que manteve por vários anos. Por esse rendimento foi selecionado para competir no ano seguinte na Terceira Macabeada, a primeira celebrada no Estado de Israel, estabelecido em 1948. Era a estreia argentina nesse festival, que promove as tradições, a identidade e a solidariedade judaica através do esporte. Genuth obteve o primeiro lugar em seu peso, em ambos estilos. De acordo com o testemunho do lutador, Pablo Manguel, dirigente da Organização Israelita Argentina, e embaixador argentino em Israel entre 1949 e 1954, dedicou seus triunfos sobre o tatame a Perón, quem o havia designado para o cargo. O historiador Ignacio Klich afirma que Manguel, o primeiro latino-americano com cargo de embaixador naquele país, fazia parte “de um pequeno grupo de judeus peronistas”.

Na volta à Argentina, Genuth conheceu Perón através de Rodolfo Valenzuela, presidente da Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino. Perón entregou-lhe um troféu e perguntou se o lutador estava concentrado em Ezeia, onde havia sido erguido um centro de treinamento descrito como “um laboratório do triunfo”, com o plantel que competiria nos Jogos Desportivos Pan-americanos no começo de 1951. Como não fazia parte desse plantel, Valenzuela disse-lhe que passaria umas férias com a equipe de luta. Genuth respondeu que não lhe interessavam as férias, mas sim ter a possibilidade de participar das provas seletivas que determinariam a confirmação final da equipe. Foi lhe dada a permissão, Genuth foi selecionado e ganhou a medalha de ouro no estilo livre na divisão de 79kg. No ano seguinte, Genuth foi membro da delegação argentina nos Jogos Olímpicos de Helsinki, onde obteve o sexto lugar no mesmo estilo e divisão. Seu último combate foi em 22 de julho, quatro dias antes do falecimento de Evita Perón. El Gráfico anunciou “que a delegação argentina recebeu um duro golpe com a notícia”. Já o Mundo Deportivo informou que “em Helsinki se chorou a porta-bandeira dos humildes” e que aqueles “dias nebulosos e tristes, foram desconcertantes e angustiantes para os jovens integrantes da delegação argentina”.

Em 1953, Genuth competiu na Quarta Macabeada, organizada pela segunda vez em Israel, onde manteve os títulos obtidos em 1950. Da mesma maneira, nos segundos Jogos Desportivos Pan-americanos, organizados em 1955 na Cidade do México, Genuth defendeu com sucesso o título obtido em Buenos Aires quatro anos antes. Tudo indicava que tinha grandes chances de se destacar nos Jogos Olímpicos de 1956 que seriam realizados em Melbourne. O mesmo lutador recordou tempos depois que figurava em primeiro no ranking nacional para representar a Argentina no evento. Entretanto, a destituição de Perón pela ditadura civil-militar autodeterminada Revolução Libertadora, quase seis meses depois de sua volta do México, frustraria suas aspirações. Os líderes da Revolução Libertadora pretendiam expulsar o peronismo da vida nacional, incluindo o esporte. Para isso, formaram uma comissão que investigou supostas irregularidades no funcionamento das federações desportivas nacionais e atos considerados em violação ao código amador durante a década peronista. Desta maneira, foram suspendidos, por um processo irregular, arbitrário e vingativo, um grande número de dirigentes e atletas. Até outubro de 1956, Genuth figurava como membro da delegação que viajaria a Melbourne. Porém, a poucos dias de embarcar na viagem, foi excluído dela. Genuth explicou que “a desculpa foi que ao ter ganhado no ano anterior os Jogos Pan-americanos no México, teriam que investigar se (os melhores representantes de vários esportes) estavam competindo por regalias”. Segundo o jornalista Dante Panzeri, “de León Genuth não existiam provas de ter recebido a quarta parte de um carro dos que foram distribuídos aos campeões pan-americanos no México”. Mas, prosseguia Panzeri, quem apoiava, em suas palavras, a “Revolução que há mais de um ano pôs fim a uma longa noite da vida argentina”, como “(Alberto) Longarella (outro lutador que também havia ganhado uma medalha de ouro no México) declarou que teria repartido com pessoas entre as quais estava Genuth, e ali ele caiu”.

Para o historiador Roberto Baschetti, após a amarga provação, Genuth “foi para o exílio empurrado pelos ‘libertadores’”. Entre 1957 e 1959, Genuth trabalhou no México e nos Estados Unidos ensinando luta e em sua volta à Argentina assumiu o comando na Sociedade Hebraica Argentina. Em pouco tempo, a Federação Argentina de Luta o designou como treinador da seleção nacional, preparando equipes para vários eventos internacionais. Em 1967, Genuth foi contratado para desenvolver a luta livre no Peru, onde morou por dez anos. Ao retornar à Argentina, se encarregou da luta livre na Organização Hebraica Argentina Macabi, e a Federação Argentina de Luta o designou como treinador de todas as seleções nacionais.

Um lutador peronista

A vitoriosa carreira desportiva de Genuth, assim como seu final repentino, coincidiu com a década peronista. Dessa maneira, esteve marcada pelas diretrizes, políticas e dificuldades do governo de Perón. Genuth foi o desportista judeu argentino de maior relevância durante esse período e, talvez, um dos mais transcendentes da história nacional. Não se tem conhecimento de pronunciamentos públicos sobre sua posição a respeito do peronismo. Em relação a sua exclusão, pela Revolução Libertadora, da delegação que competiria nos Jogos Olímpicos de Melbourne em 1956, Genuth declarou criticamente “que se afastou do amadorismo (e não seguiu competindo) por dar-se conta da politização do esporte”. Qualquer que tenha sido sua posição a respeito do peronismo, sua figura representou, nas palavras de Rein, a legitimação peronista do “mosaico de identidades de diferentes grupos étnicos (e religiosos) no seu país” e a semelhança, por exemplo, entre ser um bom argentino e ser um bom judeu. A coincidência de sua visão de esporte com a de Perón não é surpreendente. É nesse sentido que Genuth pode considerar-se como um lutador peronista. Assim, foi símbolo da integração social promovida pelo peronismo sem ter que renunciar ao componente judaico de sua identidade. Com Genuth, e a partir do impulso do peronismo, os esportistas judeus passaram a formar parte da polis desportiva argentina. Uma crônica do Mundo Deportivo sobre o torneio de luta dos Jogos Desportivos Pan-americanos de 1951 mencionava sua medalha de ouro e destacava sua atuação no ano anterior na Terceira Macabeada. A revista também ressaltava que, graças à destreza dos lutadores nacionais e ao estímulo do público, “a vitória geral foi nossa”. Genuth, um lutador argentino judeu peronista, era um deles.

Texto originalmente publicado no site Erase Una Vez En Peronia no dia 27 de janeiro de 2021.

* Cesar Torres Doutor em filosofia e história do deporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** David M. K. Sheinin Duotor em história. Docente ma Universidade de Trent.

Tradução: Leticia Quadros e Fausto Amaro

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Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

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Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

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pinterest.com

De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros

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A dramática volta do futebol alemão

(Torcidas de papelão na Bundesliga – Fonte: AFP)

No conto “Esse est percipi”, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges indicam que a última partida de futebol foi disputada em 24 de junho de 1937. Desde então, o futebol é um gênero dramático a cargo de locutores, atores e jornalistas que não existem fora dos estúdios de gravação e das redações. Desconhece-se quem o inventou. Sim, sabe-se que foi o filósofo George Berkeley quem argumentou que só existe aquilo que percebemos. Bioy Casares e Borges afirmam, como comentou o jornalista Ariel Scher, que “o que temos em nossa percepção pode ser um nada disfarçado de algo e não há coincidências nas quais o futebol retrate isso”.

Questionado na matéria se ele não temia que a ilusão futebolística fosse descoberta, Tulio Savastano, presidente do clube Abasto Juniors, responde: “A raça humana está em casa, descansando, atenta à tela”. Hoje utilizaríamos o plural para descrever essa atenção intensa. Segundo Bioy Casares e Borges, a televisão constrói acontecimentos para que as pessoas os percebam e lhes deem existência. É notável, como resaltou o sociólogo Pablo Alabarces, que a história foi publicada em uma época (1967) em que “a televisão argentina começou a decolar em direção à massificação” e não ocupava “o espaço incomensurável com o qual atrai a vida cotidiana hoje”.

O fatídico retorno do futebol na Alemanha depois de uma parada de mais de dois meses para impedir a disseminação do coronavírus nos aproximou do cenário absurdo de “Esse est percipi”. Isso se vê claramente na reação da indústria do futebol – e particularmente da televisão – aos protocolos aprovados. O foco da preocupação está na proibição de que o público assista aos jogos nos estádios. As arquibancadas vazias se tornam insuportáveis para quem está na frente da televisão.

Com o objetivo de suprir a ausência do público e reproduzir, ao menos em parte, a atmosfera festiva gerada pelo público, várias equipes alemãs incluíram imagens de papelão de seus torcedores nas arquibancadas. Nesse espírito, um clube sul-coreano utilizou bonecas infláveis. Da mesma forma, uma das emissoras de televisão alemã encarregada de transmitir as partidas ofereceu um canal de áudio com “som da arquibancada” – incluindo os cânticos – que se sobrepõe à transmissão. Esse eco provém de partidas anteriores entre as equipes em questão. “Nosso engenheiro de som”, explicou um vice-presidente da emissora, “mescla o som autêntico, produzido no estádio, com o dito áudio artificial de fundo”. Além disso, a emissora também criou áudios com a reação do público para situações específicas: pênaltis, faltas, etc. A tarefa é realizada por especialistas em produção televisiva, que, inspirados nos videogames, tentam criar ambientes virtuais estimulantes.

O esforço para simular o público nas arquibancadas parece estar baseado, em parte, na questionável premissa de que “o futebol sem público não é futebol”. O treinador César L. Menotti exemplificou isso em uma coluna recente que levava precisamente esse título. Aqui há, ao menos, um debate conceitual: a estrutura e a lógica interna do futebol não mudam se for realizada com ou sem público nas arquibancadas. Não se trata em ambos os casos do mesmo jogo que consiste em colocar a bola no gol adversário? Não defendem e atacam as equipes utilizando as mesmas habilidades que constituem e definem o jogo? O futebol com arquibancadas vazias pode ser menos vistoso, mas não deixa de ser futebol, ainda que vivenciado de modo diferente.

Ao aproximar o futebol do gênero dramático, introduzindo público e reações apócrifas, a indústria do futebol indica que está disposta a produzir percepções disfarçando o nada de algo para incentivar seu consumo através de múltiplas telas. Aqui está mais um motivo para desejar o retorno aos estádios. No final das constas, nem tudo passa na televisão, como afirma Savastano em “Esse est percipi”, nem todos os nadas (futebolísticos) disfarçados de algo existem.

* Texto originalmente publicado em Página 12 no dia 04 de junho de 2020.

*Cesar Torres é doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)