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Medo e coragem em tempos de pandemia: lições desportivas de 1987

Por David M. K. Sheinin* e César Torres**

Em 1987, se conhecia o suficiente da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) e sua causa, o vírus da imunodeficiência humana, para saber que se sabia muito pouco. Mundialmente, os casos de AIDS cresciam de forma exponencial. Enquanto se discriminavam os homossexuais, como suposta fonte da doença, novos temores surgiram. Até pouco tempo atrás, muitas pessoas acreditavam estar à margem da pandemia, já que a AIDS era considerada uma doença de homossexuais, confinada a seus círculos em uns poucos centros urbanos. Em 1987, porém, com novidades sobre a transmissão entre mãe e filho/a e entre casais heterossexuais, o perigo mudou. Paulatinamente, a sociedade se deu conta da sua proximidade com o perigo. E o medo aumentou.

Os Estados Unidos estão hoje na “1987” da pandemia da Covid-19. Não é mais uma infecção chinesa, ou de alguns poucos bairros do Queens e Brooklyn em Nova York. Cada notícia de como o vírus assola o corpo promove mais medo em algumas pessoas, fantasias insistentes de isenção em outras e novas buscas por “culpados” – desde políticos a enfermeiras asiáticas – pela crise.

O 1987 da AIDS tem eco na Covid-19 do presente. Naquele ano o mundo desportivo tinha medo e desconfiança. Desde Seul advertia-se sobre as medidas que seriam implementadas para evitar a chegada de esportistas portadores de AIDS durante os Jogos Olímpicos de 1988 (e assim impedir um desastre econômico e desportivo quase equivalente a um potencial cancelamento definitivo dos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio). Na Iugoslávia, a organização dos Jogos Universitários colocou preservativos à disposição dos 4.500 esportitas como parte de uma campanha anti-AIDS. O boxeador japonês Akiro Kameda pediu que Terry Marsh fosse submetido a um exame de AIDS antes da luta no Royal Albert Hall de Londres (proposta esse rechaçada com indignação por Marsh).

Milhares de atletas de todo o continente viajaram à Indianápolis, em pleno meio-oeste estadunidense, para os Jogos Pan-americanos de 1987. Como no caso da Covid-19 atual, muitas pessoas naquela zona sentiram-se imunes à AIDS (uma enfermidade que se pensava estar confinada às duas costas do país), ainda que o medo gerado pelo desconhecimento sobre a doença estivesse aumentando. Assim, em janeiro, um jornal de Indianápolis se referiu à AIDS como “a nova lepra”, que, se não fosse tratada, poderia resultar em centenas de mortes e isolamentos na cidade. O alarme se propagou entre as delegações presentes.

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Jogos Pan-americanos de Indianápolis 1987. Fonte:  Wikipedia

José Soca Montero, técnico da equipe uruguaia de judô, reclamou que a organização dos Jogos Pan-americanos de 1987 não forneceu informações sobre a AIDS e nem sobre como iriam controlar a doença. O técnico argumentou que a maioria dos casos de AIDS no Uruguai tinha vindo dos Estados Unidos e do Brasil. Por esse motivo, ele sustentava que os atletas desses países deveriam ser submetidos a exames obrigatórios. Nesse sentido, uma revista mexicana afirmou que, como a AIDS havia sido vinculada com as relações homossexuais, “não se descarta a possibilidade de submeter os atletas e participantes em geral nesses tipos de eventos internacionais a exames anti-AIDS”. Esses exames, prosseguia a revista, poderiam prevenir muitos problemas “(até que) seja encontrada uma vacina eficaz contra essa síndrome do terror”. Por sua vez, o remador mexicano Juan Carlos Ortiz sentia-se desinformado e confessava o medo de se contaminar no restaurante e nos banheiros da vila pan-americana.

No entanto, no meio do crescente pânico, houve um momento de redenção ainda sem equivalência em 2020, um simples ato de clemência de um grande desportista, que humanizou a crise, demonstrou um pouco de esperança e acalmou a ansiedade social ao redor da AIDS. Esse ato de bondade envolveu o americano Greg Louganis, o saltador mais conhecido da história, e Ryan White, um adolescente de Indiana. White, a vítima de AIDS mais famosa do momento, havia se contagiado através de uma transfusão de sangue no final de 1984. Em 1986, com 14 anos, as autoridades proibiram-lhe de frequentar a escola, já que havia um temor irracional de que ele contaminasse parte dos alunos. Louganis, ganhador de duas medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos de 1984 em Los Angeles, soube de White e sua luta e o convidou para presenciar o Campeonato Nacional de Saltos de 1986 em Indianápolis. Louganis contou, depois da competição, que havia se sentido motivado pelo caso de White. No ano seguinte, de volta a Indianápolis para os Jogos Pan-americanos, Louganis ganhou duas medalhas de ouro e presenteou White com uma delas, colocando-a em seu pescoço como um campeão. A mãe de White declarou que o gesto havia significado muito para seu filho.

Seis meses depois dos Jogos Pan-americanos de Indianápolis, Louganis foi diagnosticado com AIDS. Ele suspeitava de algo quando deu sua medalha a White em agosto de 1987? Não sabemos. O medo, porém, forçou Louganis a manter em segredo sua doença (e sua homossexualidade) por muito tempo. Nos Jogos Olímpicos de 1988, em Seul, ele bateu sua cabeça contra o trampolim. Umas gotas de sangue caíram na piscina e Louganis ficou perplexo. Contaminaria os demais? O incidente não teve consequências.

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pinterest.com

De campeão olímpico e pan-americano que consolou White, Louganis se transformou, em poucos meses, em todos os sentidos, em uma vítima da AIDS, que temia tanto pela sua carreira esportiva quanto por sua vida. White morreu aos 16 anos em 1990. Os dois, entretanto, mudaram a percepção social da AIDS e sua trajetória. A sociedade se deu conta do quão absurdo e discriminatório havia sido negar a White seu direito à educação. Nunca mais nos Estados Unidos proibiram um(a) estudante com AIDS de ir à escola. Louganis e White promoveram um avanço na forma de se relacionar com a doença, não por meio de uma vacina ou uma medicação milagrosa, mas por meio de uma breve amizade que humanizou as vítimas, exemplificando a “simpatia solidária (e respeito) diante do sofrimento dos semelhantes”. Esses amigos entenderam, como diz o filósofo espanhol Fernando Savater, que “ou estou com e para os outros ou sou outra coisa” e que “os outros me permitem ser eu, me resgatam”. Assim, marcaram um caminho otimista possível em meio a uma doença devastadora. Sua história, tão vigente nos tempos atuais, nos recorda que a melhor maneira de enfrentar esse tipo de calamidade é resgatando-nos mutuamente em uma cumplicidade coletiva.

Texto originalmente publicado no site Página 12 no dia 01 de agosto de 2020.

* Doutor em História. Professor na Universidade de Trent.

** Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor na Universidade do Estado de Nova York (Brockport).

Tradução: Leticia Quadros

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A dramática volta do futebol alemão

(Torcidas de papelão na Bundesliga – Fonte: AFP)

No conto “Esse est percipi”, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges indicam que a última partida de futebol foi disputada em 24 de junho de 1937. Desde então, o futebol é um gênero dramático a cargo de locutores, atores e jornalistas que não existem fora dos estúdios de gravação e das redações. Desconhece-se quem o inventou. Sim, sabe-se que foi o filósofo George Berkeley quem argumentou que só existe aquilo que percebemos. Bioy Casares e Borges afirmam, como comentou o jornalista Ariel Scher, que “o que temos em nossa percepção pode ser um nada disfarçado de algo e não há coincidências nas quais o futebol retrate isso”.

Questionado na matéria se ele não temia que a ilusão futebolística fosse descoberta, Tulio Savastano, presidente do clube Abasto Juniors, responde: “A raça humana está em casa, descansando, atenta à tela”. Hoje utilizaríamos o plural para descrever essa atenção intensa. Segundo Bioy Casares e Borges, a televisão constrói acontecimentos para que as pessoas os percebam e lhes deem existência. É notável, como resaltou o sociólogo Pablo Alabarces, que a história foi publicada em uma época (1967) em que “a televisão argentina começou a decolar em direção à massificação” e não ocupava “o espaço incomensurável com o qual atrai a vida cotidiana hoje”.

O fatídico retorno do futebol na Alemanha depois de uma parada de mais de dois meses para impedir a disseminação do coronavírus nos aproximou do cenário absurdo de “Esse est percipi”. Isso se vê claramente na reação da indústria do futebol – e particularmente da televisão – aos protocolos aprovados. O foco da preocupação está na proibição de que o público assista aos jogos nos estádios. As arquibancadas vazias se tornam insuportáveis para quem está na frente da televisão.

Com o objetivo de suprir a ausência do público e reproduzir, ao menos em parte, a atmosfera festiva gerada pelo público, várias equipes alemãs incluíram imagens de papelão de seus torcedores nas arquibancadas. Nesse espírito, um clube sul-coreano utilizou bonecas infláveis. Da mesma forma, uma das emissoras de televisão alemã encarregada de transmitir as partidas ofereceu um canal de áudio com “som da arquibancada” – incluindo os cânticos – que se sobrepõe à transmissão. Esse eco provém de partidas anteriores entre as equipes em questão. “Nosso engenheiro de som”, explicou um vice-presidente da emissora, “mescla o som autêntico, produzido no estádio, com o dito áudio artificial de fundo”. Além disso, a emissora também criou áudios com a reação do público para situações específicas: pênaltis, faltas, etc. A tarefa é realizada por especialistas em produção televisiva, que, inspirados nos videogames, tentam criar ambientes virtuais estimulantes.

O esforço para simular o público nas arquibancadas parece estar baseado, em parte, na questionável premissa de que “o futebol sem público não é futebol”. O treinador César L. Menotti exemplificou isso em uma coluna recente que levava precisamente esse título. Aqui há, ao menos, um debate conceitual: a estrutura e a lógica interna do futebol não mudam se for realizada com ou sem público nas arquibancadas. Não se trata em ambos os casos do mesmo jogo que consiste em colocar a bola no gol adversário? Não defendem e atacam as equipes utilizando as mesmas habilidades que constituem e definem o jogo? O futebol com arquibancadas vazias pode ser menos vistoso, mas não deixa de ser futebol, ainda que vivenciado de modo diferente.

Ao aproximar o futebol do gênero dramático, introduzindo público e reações apócrifas, a indústria do futebol indica que está disposta a produzir percepções disfarçando o nada de algo para incentivar seu consumo através de múltiplas telas. Aqui está mais um motivo para desejar o retorno aos estádios. No final das constas, nem tudo passa na televisão, como afirma Savastano em “Esse est percipi”, nem todos os nadas (futebolísticos) disfarçados de algo existem.

* Texto originalmente publicado em Página 12 no dia 04 de junho de 2020.

*Cesar Torres é doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

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Coronavírus, esportes e videogames esportivos

Por Francisco Javier López Frías* e César R. Torres**, especial para o El País.

A virada recente que as instituições deram a esse tipo de entretenimento tecnológico parece ser contraproducente ou até contraditória.

O coronavírus prejudicou a maioria das atividades que eram consideradas centrais em nossas vidas. Também para o esporte. Entre as poucas atividades que se beneficiaram com o confinamento obrigatório predominante em grande parte do planeta, estão os videogames. Seu download e seu emprego cresceram exponencialmente. Embora os esforços para unir o esporte e videogames esportivos não sejam novidade, as instituições esportivas – proibidas de comercializar seus produtos tradicionais – concentram sua atenção na promoção de jogos de videogames esportivos como FIFA 20 e NBA2K para manter sua visibilidade e atrair o seu público habitual. Nesse sentido, por exemplo, foram desenvolvidas iniciativas como a espanhola La Liga Challenge, um torneio de final de semana, narrado por famosos comentaristas esportivos, em que jogadores profissionais de futebol se enfrentaram através do FIFA 20.

Fonte: elpais

Diante da desaceleração do setor esportivo, os videogames esportivos tornaram-se a única alternativa de consumo de esportes ao vivo. As instituições esportivas se aproveitaram disso e, como expressou o jornalista Marcelo Gantman, “os videogames esportivos assumiram o entretenimento das pessoas nestes dias de isolamento social”. Deixando de lado o debate sobre se o videogame deve ser chamado ou não de esporte, os renovados esforços para associar os esportes e os videogames esportivos convidam a uma reflexão crítica sobre ambas práticas e sua relação.

Apesar de certas semelhanças, os esportes e os videogames esportivos possuem características diferentes, principalmente quanto à natureza da atividade física necessária. Grande parte dos esportes, especialmente os mais populares e comerciais, exige um nível de intensidade de atividade física muito superior às exigidas pelos videogames de esportes. Em parte, isso ocorre porque, como defende o filósofo Bernard Suits, o esporte é um tipo de jogo que requer desenvolvimento e o exercício de habilidades físicas para atingir seu objetivo. Assim, o basquete impõe a posse de habilidades especializadas relacionadas a correr, pular, lançar e manusear a bola, e entrosamento com seus colegas de equipe para alcançar a meta de marcar mais vezes do que a equipe adversária. Ainda que os videogames esportivos também exijam desenvolvimento e o exercício de habilidade física – como coordenar botões pressionando e manipulando alavancas em um controle – para atingir seu objetivo, o nível e a intensidade da atividade física necessária são significativamente menores. A tal ponto que os videogames podem ser considerados atividades sedentárias.

A diferença de nível e da intensidade das atividades físicas exigida pela maioria dos esportes e videogames esportivos tem resultados relevantes para a relação entre saúde e esporte. Um dos objetivos da promoção e uso do esporte na sociedade é manter as pessoas fisicamente ativas para melhorar sua saúde. Assim, especialistas recomendam 150 minutos de atividade física de intensidade moderada por semana para população adulta. Por esse motivo, segundo seu novo diretor de medicina, a FIFA “vê o futebol como uma atividade que traz importantes benefícios à saúde” e que “pode contribuir para melhorar a saúde mundial”. Além disso, a atividade física é uma das principais ferramentas contra a obesidade, que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), “alcançou proporções epidêmicas a nível mundial”, e tem como uma de suas causas o sedentarismo. A OMS enfatiza que “pelo menos, 2.8 milhões de pessoas morrem a cada ano por obesidade ou excesso de peso”.

Se a prática esportiva é crucial para conter a epidemia de obesidade, a recente mudança que as instituições esportivas fizeram em relação aos videogames esportivos parece ser contraproducente ou até contraditória. Videogames promovidos pelas autoridades do futebol – para seguir com esse esporte – parecem ser uma boa ferramenta para manter seu público conectado ao esporte, mas não geram um dos seus benefícios subjacentes: a saúde. Pelo contrário, estimulam comportamentos sedentários. Notasse que, de acordo com a OMS, “pelo menos, 60% da população mundial não realiza a atividade física necessária para obter benefícios à saúde”. O escritor Santiago Roncagliolo relatou que, como milhões de pessoas durante o confinamento obrigatório, “para evitar passar o dia conectado a mundos irreais, em casa incorporamos um programa de exercícios”. No lugar de ajudar a manter uma vida fisicamente ativa, os videogames esportivos nos incentivam a permanecer conectados aos mundos virtuais, em que a atividade física é mínima. É verdade que muitas instituições esportivas, assim como muitos atletas, promoveram atividade física. Por exemplo, a espanhola “La Liga” lançou o programa “QuédateEnCasa” (FicaEmCasa), que inclui treinamento físico com embaixadores do clube e treinadores físicos. No entanto, é necessário ir fundo no site desta instituição para encontrar esse programa. A promoção da atividade física empalidece com a dos videogames de futebol. A promoção da atividade física se enfraquece com a dos videogames futebolísticos

O emparelhamento de instituições esportivas com videogames esportivos é o resultado direto da busca de interesses econômicos pela indústria do esporte. A prioridade dada aos videogames esportivos mostra como a lógica do mercado continua a colonizar a prática futebolística até descartando muitos dos elementos valiosos que ela traz para a sociedade. O problema não está em jogar uma partida de FIFA 20 ou NBA2K, e sim nos efeitos perniciosos da lógica do mercado. No momento em que se especula como as sociedades vão mudar, ou deveriam mudar, depois do coronavírus, é importante nos perguntarmos se queremos seguir permitindo que o efeito colonizador do interesse econômico siga prevalecendo sobre os benefícios valiosos que nos oferecem as atividades que nos ocupam e nos preocupam.

Texto originalmente publicado em El País no dia 17 de abril de 2020.

*Francisco Javier López Frías es Doctor en filosofía. Docente en la Universidad del Estado de Pensilvania (University Park).

**César R. torres es Doctor en filosofía e historia del deporte. Docente en la Universidad del Estado de Nueva York (Brockport).

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Quanto importa o esporte?

Por César R. Torres* e Francisco Javier López Frías**/ El Furgón***

Rory Smith é um correspondente esportivo do The New York Times especializado em futebol. Em sua coluna de domingo 15 de março, quando o coronavírus já havia paralisado todo tipo de competências esportivas ao redor do mundo e confinado grande parte da humanidade em suas casas, expressou que, em relação a uma pandemia que pode custar numerosas vidas, o futebol não importa em um sentido real. Agregou que há coisas mais importantes em que pensar e que o futebol é, no final das contas, um esporte.

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Rory Smith (Fonte: Twitter)

No domingo seguinte, Smith voltou a refletir sobre a importância do esporte. Reconheceu, admitindo ter sido influenciado pela correspondência que recebeu do público leitor durante a semana, que para muitas pessoas o esporte é importante e que isso é bom. Entretanto, insistiu que não importa tanto como outras coisas. Embora não seja a prioridade de ninguém neste tempo funesto, o esporte importa, elaborou, como indústria e economia, mas também como algo para o qual dedicamos muito tempo. Concluiu sua opinião sobre o tema estipulando: “Mais de uma coisa pode ser importante. Nem todas as coisas têm que ter igual importância”.

 

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Coluna de Smith no site do New York Times

As colunas de Smith remetem a uma frase atribuída a várias personalidades futebolísticas: “O futebol é a mais importante das coisas menos importantes da vida”. Este julgamento axiológico se estende ao esporte em geral. Seguindo essa posição, bastante propagada, o esporte ocupa um lugar importante nas atividades que consideramos trivais. Isso seria ainda mais aparente em tempos de coronavírus, em que a satisfação das necessidades básicas para sobrevivência prevalece. Assim, o esporte, no melhor dos casos, teria um valor secundário.

Contudo, a emergência sanitária e suas consequências destacam, ao impedi-los, o valor de um conjunto de atividades, entre as quais figura o esporte. Ao contrário do que afirmou Smith, o esporte não é importante principalmente por seu dinamismo como indústria e economia, mas por sua natureza e pelas possibilidades existenciais que oferece. Aquela e estas, conjuntamente, elucidam seu valor e a fervente adesão de milhões de pessoas.

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Coluna de Smith no New York Times

A partir do trabalho do filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se dizer que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade estabelecida socialmente, coerente, complexa e de caráter cooperativo com ganhos internos (aqueles que só se materializam por meio de sua prática contínua) e padrões de excelência. A peculiaridade do esporte reside no fato de que é um problema artificial estabelecido e regulado por regras que requerem a implementação de habilidades físicas menos eficientes para alcançar o objetivo especificado simplesmente para torná-lo possível. Dito de outra maneira, o esporte é um jogo regido pela “lógica da gratuidade” no qual os participantes tentam resolver um problema desnecessário por meio de habilidades físicas simplesmente com o objetivo de resolver o problema.

Ao testar seus praticantes, o esporte abre a possibilidade de demonstrar aptidão e alcançar algo que é provado com afinco. O filósofo Thomas Hurka argumenta que a realização – assim como a tentativa de alcançar – é intrinsecamente boa porque tem a capacidade de unificar a vida em um todo coerente. De acordo com sua visão, os objetivos abrangentes que se estendem no tempo e são complexos, que demandam cooperação, planejamento e precisão, como os que oferece o esporte, são mais valiosos que os objetivos que sofrem com essas condições. Hurka ressalta o valor de alcançar algo difícil só porque é difícil e não porque é agradável, correto ou esperado. Isso, por sua vez, destaca a “importância trivial” – ou artificialidade – do esporte como plano de vida.

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Site do River Plate

Além disso, envolver-se em uma prática social como o esporte implica tanto em reconhecer seus valores internos e padrões de excelência como em comprometer-se a cultivá-los e a enobrece-los, a aceitar ser julgado de acordo com eles e a respeitar a comunidade de praticantes que também permite sua existência, manutenção e avanço. Nesse sentido, poderia se dizer que o esporte representa um “estilo de vida perfeccionista” marcado pela busca da excelência atlética e, consequentemente, pelo exercício e extensão das capacidades e virtudes necessárias para alcançá-la. Já afirmava o filósofo John Rawls que o perfeccionismo exige que todos os esforços sejam dirigidos para maximizar a realização da excelência humana. O esporte facilita a nobre aspiração de um rendimento excelente.

O tipo de relação com o esporte que exige o perfeccionismo manifesta um compromisso de todo coração. Segundo o filósofo William J. Morgan, este compromisso é apaixonado, consciente, atento e comunitário. A boa vida inclui alguma atividade com que as pessoas se comprometam de todo coração, porque esse compromisso guia e enriquece a vida. Morgan enfatiza que o esporte é uma das poucas atividades na qual esse compromisso é visível e valorizado. E é especialmente adequado o compromisso sincero porque ao focar nos atributos internos e padrões de excelência sua lógica reverte o instrumentalismo vigente na sociedade. Novamente, o potencial emerge de sua artificialidade. Talvez por isso o filósofo José Ortega y Gasset escreveu que o desinteresse instrumental na filosofia e no esporte era um “dom de generosidade que floresce apenas na mais alta altitude vital” e recomendou não levar a vida muito a sério “antes bem, com o temperamento do espírito que leva (ao) exercício de um esporte”. Em suas palavras, o esporte, o jogo enérgico, é “um esforço espontâneo, luxuoso […] que se tira prazer em si mesmo”, praticá-lo é tomar a vida vigorosamente.

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Site do real Madrid

Os diferentes valores do esporte sinalizam sua força humanizadora. Quando as pessoas tomam o caminho do esporte, elas colocam em ação e preservam a capacidade de dar forma e sentido a suas próprias vidas. As pessoas se humanizam elegendo e construindo significados em relação a suas escolhas. Optar por ser um desportista abre a possibilidade de cumprir com o que o poeta Píndaro enigmaticamente prescreveu: “Torne-se o que és”.  Se os seres humanos estão determinados por algo, é para autodeterminar e tentar se tornar quem eles querem ser. Ao eleger desportivamente, moldamos o ser. A vida desportiva, portanto, induz a forjar, nesse enorme esforço de autodeterminação, uma identidade. Esse processo tem uma dimensão comunitária. Como mostrou o antropólogo Clifford Geertz, o esporte forma um conjunto de significados que estruturam uma história que as comunidades humanas contam a si mesmas sobre si mesmas. Em outras palavras, o esporte também gera uma identidade comum. Nós nos entendemos como uma comunidade, exercendo-a.

Suas qualidades e suas potencialidades permitem-nos sustentar que o esporte se encontra entre as coisas mais importantes da vida. Nada do que foi dito aqui deve ser interpretado como justificação para aliviar a proibição do esporte. Por outro lado, tudo deve ser interpretado como uma defesa do valor e da importância do esporte, assim como de seu cultivo apaixonado. Também deve ser interpretado como explicação de porquê sente-se falta dele. Enquanto enfrentamos a pandemia e sentimos sua falta, vamos tentar, dentro dos limites do confinamento atual, mantermo-nos desportivamente ativos e replicar, mesmo que imperfeitamente, sua altitude vital.

*Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova York (Brockport)

** Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park)

**** Texto originalmente publicado em El Fúrgon no dia 29 de março de 2020.

Tradução livre: Leticia Quadros e Fausto Amaro (LEME/UERJ).

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O sonho de Piba

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**, especial para Página 12 Mara Gómez sonha em ingressar oficialmente ao Club Atlético Villa San Carlos da cidade de Berisso, uma das dezessete participantes do Campeonato de futebol feminino da Primeira Divisão A. Seu treinador, Juan Cruz Vitale, pretende colocar a jovem atacante na equipe em… Continuar lendo O sonho de Piba

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Linguagem, ser e futebol

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**/El Furgón Há alguns meses o escritor e jornalista Mempo Giardinelli publicou uma nota no jornal matutino portenho Página 12 na qual lamentava o “empobrecimento e desnaturalização” da nossa língua. Tal deterioração – que inclui a crescente utilização de angliscismos desnecessários –, argumenta Giardinelli, é perigosa porque… Continuar lendo Linguagem, ser e futebol

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A paixão do futebol segundo o “Justo y Nico”

Por César R. Torres** e Alberto Carrio Sampedro***, especial para El Furgón O regime emocional do futebol do Rio da Prata – e presumivelmente também o de muitas outras latitudes – é articulado com base na paixão exclusiva e incondicional pelas cores do próprio clube. Além disso, essa paixão é construída como algo obrigatório para… Continuar lendo A paixão do futebol segundo o “Justo y Nico”

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O público virtuoso do futebol e o erro de arbitragem flagrante

Fonte: El Fúrgon A situação é (relativamente) frequente não só no futebol argentino, mas também para além de suas fronteiras. Um erro de arbitragem flagrante prejudica ostensivamente uma equipe; por exemplo, despojá-lo de uma oportunidade de gol legítimo ou dar ao adversário uma vantagem imerecida após uma falta inexistente. O erro enfurece a torcida da… Continuar lendo O público virtuoso do futebol e o erro de arbitragem flagrante

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Cabecear ou não cabecear, esta é a questão

Fonte: Página 12 Passei as férias de final de ano na Argentina. Em uma reunião de família, Beni e Mai, de sete e nove anos, respectivamente, convidaram-me para jogar bola – atividade informal, segundo o escritor Juan Sasturain[1], focado na posse e controle da bola que eventualmente torna-se futebol.  Eu aceitei de bom grado. Jogamos… Continuar lendo Cabecear ou não cabecear, esta é a questão

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O atual futebol argentino e o cartão verde

Por César R. Torres** e Francisco Javier López Frías*** De luto, esse é o estado em que se encontra o futebol nacional. Os erros que ocorrem continuamente,desde que se soube que Boca Juniors e River Plate jogariam a “final do mundo” revelam, como aponta o jornalista Ariel Scher, “as estruturas de poder e violência que marcam esta… Continuar lendo O atual futebol argentino e o cartão verde

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