Artigos

Rei ou Rainha? O xadrez, as jogadoras transexuais e a segregação competitiva por sexo

Por César R. Torres [1] e Francisco Javier López Frías [2]

A Federação Internacional deste esporte proibiu as mulheres transgênero de participarem na categoria feminina. Se em outras modalidades a justificativa foi o contato físico, neste caso o motivo é inviável. A via sociocultural também parece ser a única explicação para a segregação das competições de xadrez por sexo.

No dia 14 de agosto, a Federação Internacional de Xadrez (FIDE) anunciou publicamente as decisões que o seu conselho executivo havia tomado em reuniões realizadas em Baku, no Azerbaijão, duas semanas antes. A que mais se destacou foi a aprovação do regulamento que proíbe mulheres transexuais de participarem da categoria feminina das competições organizadas pela FIDE até que seu conselho analise e emita opinião sobre essas enxadristas/xadrezistas. Segundo a FIDE, cujo lema é Gens una Sumus (Somos uma família), “esta decisão deve basear-se numa análise mais detalhada e será tomada o mais rapidamente possível, num prazo não superior a dois anos”.

Com a sua recente regulação, a FIDE alinha-se com federações internacionais de esportes como atletismo, natação e rúgbi, entre outras, que proíbem atletas transexuais, nadadores e jogadores de rúgbi de participarem em competições femininas. Essas instituições têm justificado os seus regulamentos apelando para as vantagens anatômicas e fisiológicas residuais que as atletas transgênero teriam sobre os seus pares cisgênero. Estas ditas vantagens se traduziriam num desempenho esportivo inacessível para atletas cisgênero e, em esportes de contato físico intenso, como o rúgbi, implicariam um aumento incomum no risco de lesões. Por sua vez, tudo isto reduziria as oportunidades competitivas para as atletas cisgênero.

Ao contrário das instituições mencionadas no parágrafo anterior, e independentemente da razão das suas justificativas para proibir a participação de atletas transexuais na categoria feminina, a FIDE não fundamentou a sua decisão a respeito. Levando em conta as características do xadrez, é inviável apoiá-la nessas justificativas. Afinal, como disse o escritor Abelardo Castillo, o xadrez é um jogo que implica “a abstração total dos corpos” e manifesta “um universo abstrato”. Da mesma forma, as Nações Unidas proclamam que o xadrez tem um “caráter intelectual”.

Fonte da imagem: Significados.com.br

Isto diferencia-o dos esportes, que testam principalmente um conjunto de capacidades físicas e, portanto, invalida os argumentos utilizados no xadrez. Se o físico for indiferente no xadrez, as jogadoras transgênero não se beneficiariam do suposto desempenho superior possibilitado por suas vantagens anatômicas e fisiológicas residuais. Por outro lado, não há risco de lesões porque o xadrez não requer contato físico. Assim, o apelo a critérios anatômicos e fisiológicos para exclusão de mulheres transexuais da categoria feminina não é uma opção viável para a FIDE.  

Esta instituição teria que apontar razões socioculturais não só para justificar a regulamentação que proíbe a participação de enxadristas transexuais na categoria feminina, mas também para demonstrar a conveniência de segregar as competições por sexo. Poderíamos então argumentar que, historicamente, o xadrez tem sido um jogo dominado por homens. Desta forma, deveria indicar que tanto as sociedades como as comunidades de xadrez promoveram, direta e indiretamente, a participação dos homens e minaram a das mulheres. Este descaso teria gerado uma diferença significativa, pelo menos em nível estatístico, entre os sexos. Se, de forma consistente, mais jogadores de xadrez masculinos do que femininos tiverem desempenho ao mais alto nível por razões socioculturais, seria justificado segregar as competições por gênero para garantir que as conquistas das mulheres sejam encorajadas, reconhecidas e celebradas.

Afinal, criar espaços onde as mulheres brilhem demonstrando seus talentos é um dos principais propósitos da segregação por sexo nos esportes e em jogos como o xadrez. Consequentemente, a FIDE poderia argumentar que algumas jogadoras de xadrez transexuais teriam vantagens socioculturais por terem se desenvolvido no jogo como homens e se beneficiado das muitas oportunidades de que os homens desfrutam. Evitar que estas vantagens socioculturais residuais prejudiquem as jogadoras de xadrez cisgênero, que não desfrutam das condições favoráveis ​​de que gozam os homens, justificaria o regulamento recentemente aprovado.

Se seguir o caminho sociocultural, e considerando que tanto a justificativa para proibir xadrezistas transgêneros de participarem da categoria feminina quanto para segregar competições por sexo se basearia em fatores relacionados às práticas sexistas predominantes, a FIDE deveria implementar pelo menos três ações interrelacionadas. Primeiro, demonstrar que existem diferenças estatisticamente relevantes entre o desempenho de homens e mulheres no xadrez. Em segundo lugar, fazer um esforço institucional para identificar os fatores específicos que contribuem para essas diferenças de desempenho. Terceiro, em linha com os esforços políticos e sociais para gerar espaços mais igualitários nos quais todas as pessoas sejam bem-vindas, traçar um plano de médio prazo para neutralizar as forças que geram tais diferenças, a fim de alcançar uma situação futura em que a segregação por sexo seja desnecessária.

Fora da esfera sociocultural, parece não haver razões nem para justificar a regulamentação que proíbe a participação de enxadristas trans na categoria feminina, nem para segregar as competições por sexo. A única maneira seria afirmar que os homens são inerentemente superiores às mulheres nas habilidades que o xadrez testa, que segundo a teoria das inteligências múltiplas do psicólogo Howard Gardner está associada à inteligência espacial e lógico-matemática. Isto não seria muito diferente do que Aristóteles sustentou no livro IX da Investigação sobre animais, há mais de dois mil e trezentos anos.

Segundo o filósofo grego, “[o homem] realmente tem uma natureza mais perfeita” do que a mulher. Nessa altura do jogo, os argumentos naturalistas não são razoáveis. Lembremos do caso de Judit Polgár, a ex-jogadora de xadrez que, a partir de uma estimulação precoce e intensa, tornou-se em 1996 a primeira mulher a figurar entre as dez primeiras posições do ranking da FIDE. Com os incentivos, oportunidades e recursos certos, a geração de espaços de xadrez mais igualitários para todas as pessoas é um horizonte possível.

Também pode acontecer que a maior instituição de xadrez não tenha considerado completamente nenhuma destas questões e simplesmente segregada por gênero, porque é isso que tem sido tradicionalmente feito em esportes e jogos como o xadrez e os videogames. Em qualquer caso, apelar acriticamente à tradição é tão irracional como fazê-lo à natureza. Cabe à FIDE decidir se o seu próximo movimento regulatório será prospectivo e sensato, o que exige trabalhar para criar as condições necessárias que eventualmente tornem desnecessária a segregação por sexo, ou se ela se limitará, por conveniência ou inexperiência, por motivos inválidos ou desatualizados.

Texto originalmente publicado em Tiempo Argentino no dia 24 de agosto de 2023.

Tradução por: Breno França

Revisão por: Carol Fontenelle e Leda Costa.


[1] Doutor em Filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova Iorque (Brockport).

[2] Doutor em Filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park).

Artigos

Allende, Lorde Killanin e os Jogos Pan-Americanos de 1975 em Santiago

Em 2017, a ODEPA[1] elegeu Santiago como sede dos XIX Jogos Pan-Americanos. Espera-se que a abertura dos jogos seja feita por Gabriel Boric, o atual Presidente socialista chileno, no dia 20 de outubro, 50 anos após o golpe de Estado e do cancelamento dos Jogos que iriam ser realizados no Chile em 1975 e que deveriam ter sido abertos pelo então presidente Salvador Allende, também socialista.

“Sóbrio, imponente, no nível dos congressos olímpicos”. Assim qualificou Carlos Guerrero, um experiente jornalista que trabalhou na revista chilena Estadio desde 1941 até 1981, no décimo segundo congresso da Organização Esportiva Pan-Americana (ODEPA), realizado de 29 a 31 de maio de 1973, em Santiago do Chile.

Presidente Salvador Allende e Sabino Aguad, em 1973.

A ocasião era importante para as lideranças esportivas e políticas do Chile, entre outros motivos, porque uma comissão avaliadora da ODEPA examinaria os preparativos dos VII Jogos Pan-Americanos de 1975 que seriam realizados na capital chilena. A presença do irlandês Michael Morris, conhecido como Lorde Killanin pelo seu título de nobreza, realçou o congresso, mas aumentou a exigência sobre os seus responsáveis. Para além do seu desenvolvimento bem-sucedido, Killanin, que havia sido eleito presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) no ano anterior, percebeu em sua passagem pelo Chile a dificuldade mais urgente que enfrentavam os organizadores destes Jogos. Sua previsão sobre o evento, ligado ao futuro do governo do socialista Salvador Allende, seria bem-sucedida.

A ODEPA havia escolhido Santiago como sede dos Jogos em agosto de 1969, mais de um ano antes de Allende assumir a presidência. O democrata-cristão Eduardo Frei, seu antecessor, apoiou a candidatura santiaguina e ratificou seu apoio uma vez que Santiago foi escolhida. No entanto, os preparativos foram parcimoniosos. Por exemplo, somente em novembro de 1970, no mês da assunção de Allende, que o poder legislativo aprovou uma lei que destinava dinheiro “para cumprir os fins dos Jogos Pan-Americanos de 1975”.

No entanto, o trabalho também não foi consideravelmente acelerado no início da sua Presidência. Em abril de 1972, Allende “clamou para que sacudíssemos a inércia […] não só para cumprir o compromisso que devemos cumprir em relação aos Jogos Pan-Americanos de 1975, mas também pelo desenvolvimento das atividades esportivas nacionais”. Neste sentido, o chefe de Estado propôs estimular uma “revolução esportiva nacional” para que o esporte fosse considerado “um direito social” e anunciou a ação coordenada do governo para construir as obras necessárias para os Jogos.

Ao que parece, a paralisia foi ligeiramente abalada durante 1972, já que em sua Mensagem ao Congresso em 21 de maio do ano seguinte, a poucos dias da reunião da ODEPA em Santiago, Allende informou sobre a “iniciação de estudos para um vasto programa de obras que tem relação com os Jogos Pan-Americanos”.

Nesse sentido, Estadio explicou que “existiam dúvidas devido ao atraso nas edificações, a busca pelo dinheiro, o alistamento das equipes de obras e outras necessidades”. Ao mesmo tempo, declarou que, durante o congresso da ODEPA, a Comissão Organizadora dos Jogos (COJ) teria a oportunidade de esclarecer “o que temos feito e explicar como faremos o que falta”. A revista classificou Killanin como espectador privilegiado do processo de avaliação.

O presidente do COI, que aproveitou o convite ao congresso da ODEPA para realizar uma extensa turnê pela América Latina, chegou a Santiago em 28 de maio, depois de visitar o Brasil, o Uruguai e a Argentina. No dia seguinte assistiu à abertura. Allende, impossibilitado de comparecer, lhe enviou uma placa comemorativa por meio de José Tohá, ministro da Defesa e presidente honorário da COJ, que representou o governo. Tohá garantiu aos membros da ODEPA: “O esporte é uma necessidade e um direito na comunidade”. Assegurou também que as obras estariam prontas, prometendo: “O Chile cumprirá em 1975”.

Por sua vez, Sabino Aguad, presidente tanto da COJ quanto do Comitê Olímpico Chileno (COCH), bem como diretor geral de Esportes e Lazer do governo, disse que uma das características que deveria distinguir os Jogos era a de “um esforço coletivo para promover no país um maior desenvolvimento da educação física e do desporto”.

Depois de visitar as instalações esportivas para os Jogos e de receber a relação de Pedro Ramírez Vázquez, presidente do Comitê Olímpico Mexicano e membro do COI, a cargo da comissão avaliadora, a ODEPA confirmou Santiago como sede dos Jogos. “Se teve fé – escreveu Guerrero – em que tudo estará pronto a tempo, mesmo com o atraso que é visível neste momento”.

Este otimismo era parcialmente compartilhado por Killanin. Em um informe de agosto, ele ressaltou a cooperação entre o governo e as instituições esportivas chilenas. Killanin exemplificou com o caso de Aguad. O relatório também ressaltava que havia dúvidas consideráveis sobre a capacidade de Santiago para organizar os Jogos devido à situação política chilena.

Killanin disse ter feito averiguações discretamente que o levaram a crer que não haveria problemas enquanto o governo de Allende “se mantenha unido e estes jogos unam o povo de Santiago”. No entanto, acrescentou: “Claro que existe o risco de um movimento contrário ao governo, caso em que a situação pode mudar”. A respeito disso, comentaram a Killanin  um fato que achou digno de ser incluído no relatório: durante o segundo jogo da final da Copa Libertadores entre Colo-Colo e Independente da Argentina, jogado na noite do primeiro dia do congresso da ODEPA no Estádio Nacional de Santiago, Allende foi assobiado e vaiado quando apareceu na tribuna presidencial.

Ao concluir o congresso da ODEPA, Killanin continuou a turnê latino-americana visitando Panamá, Colômbia e México. Poucas semanas após o seu regresso ao Reino Unido, em 29 de junho, Allende sofreu uma tentativa sangrenta de golpe de Estado chamado Tancazo. Embora sufocado, o levante aprofundou um quadro complexo.

Ainda assim, a COJ continuou o seu trabalho e o governo promoveu um projeto de lei estabelecendo normas relativas aos Jogos. Menos de três meses depois, em 11 de setembro, Allende foi finalmente deposto por outro golpe sangrento de Estado que instalou uma junta militar de governo liderada por Augusto Pinochet, dando início a uma ditadura sangrenta que se prolongaria até 1990.

No dia 1º de outubro, menos de três semanas após a derrubada de Allende, os militares do governo receberam Aguad, que expôs os preparativos para os Jogos, e decidiram cancelá-los devido à “situação econômica crítica que o país vive”. Apesar disso, autorizou o “adiamento” para 1977. Ironicamente, a reunião teve lugar no mesmo edifício (UNCTAD III) no qual tinha sido inaugurado o congresso da ODEPA, que a partir do golpe de Estado passou a ser a sede da Junta de Governo.

No final de outubro, o venezuelano José Beracasa, presidente da ODEPA e membro do COI, visitou membros do poder ditatorial nesse edifício junto a diretores do COCH e da COJ. Ele apresentou a possibilidade de organizar os Jogos em Santiago ainda em 1975 e apontou soluções para reduzir seus custos. A Junta Militar se comprometeu a dar uma resposta definitiva em 48 horas. Beracasa declarou: “Serão jogos mais modestos, mas serão feitos no Chile se o Governo o autorizar”. A Junta não o fez, materializando o risco que tinha mencionado Killanin. Os Jogos foram transferidos para a Cidade do México.

Em 2017, a ODEPA escolheu Santiago como sede dos XIX Jogos Pan-Americanos. Espera-se que sejam abertos por Gabriel Boric, o atual Presidente socialista, em 20 de outubro deste ano, 50 anos após o  golpe de Estado e daquele cancelamento.

Texto originalmente publicado em eldesconcierto.cl no dia 29 de março de 2023.

Tradução por: Júlio Barcellos

Revisão por: Carol Fontenelle e Leda Costa.


[1]Organização Desportiva Pan-Americana.

Artigos

Há cinquenta anos, uma frustrada visita olímpica

Lorde Killanin no décimo segundo congresso da ODEPA (no centro com a cabeça baixa). Estádio (Santiago de Chile), 5 de junho de 1973.

“Conheço pouco do esporte latino-americano e vim mais para ouvir e aprender”, assegurou o irlandês Michael Morris, conhecido como Lorde Killanin por seu título de nobreza, em uma coletiva de imprensa durante o décimo segundo congresso da Organização Desportiva Pan-Americana (ODEPA), organizado de 29 a 31 de maio de 1973 em Santiago do Chile. Killanin havia sido eleito presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) no ano anterior, e aproveitou o convite para realizar uma extensa turnê pela América Latina, que incluía uma breve estadia na Argentina. Essa experiência, frustrada, constituiu a primeira visita de um presidente do COI em exercício ao país.

A turnê de Killanin, bem como sua ascensão à presidência do COI, tinham gerado grande expectativa no esporte regional. Ao contrário do seu antecessor, o americano Avery Brundage, a quem considerava um autocrata, Killanin era visto como um reformista. De fato, formalizou a estrutura tripartida do movimento olímpico, em que o COI, os comitês olímpicos nacionais e as federações desportivas internacionais trabalham em cooperação. Nesse sentido, antes de sua chegada ao Brasil em 21 de maio, o jornal Folha de S. Paulo o descreveu como tendo “ideias revolucionárias”. Além disso, naqueles dias, Killanin era apresentado como inteligente e irônico, e segundo a revista chilena Stadium, era “bonachão, simples, espontâneo [sic] e de bom humor”. A revista cubana Bohemia publicaria tempos depois que com Killanin “o COI experimentou uma saudável injeção de novos ares”.

Killanin permaneceu no Brasil, reunindo-se com autoridades esportivas e políticas no Rio de Janeiro e em Brasília, até 25 de maio. Nesse dia chegou a Montevidéu e visitou vários funcionários, incluindo o vice-presidente do país, já que o presidente Juan María Bordaberry se encontrava em Buenos Aires para a posse de Héctor J. Cámpora, que havia sido eleito em 11 de março com 49,5% dos votos sob o lema “Cámpora ao governo, Perón ao poder”. O venezuelano José Beracasa, presidente da ODEPA e membro do COI, e Fernando Madero, presidente do Comitê Olímpico Argentino (COA), haviam viajado a Montevidéu para acompanhar Killanin. No dia seguinte teve uma agenda intensa, com atividades que começaram às 9:30 e só terminaram depois das 22:30.

O plano original era que Killanin visitasse Buenos Aires em 27 de maio e dormisse lá para viajar até Santiago no dia seguinte. No entanto, Madero, em contato com Buenos Aires, não achou conveniente que o presidente do COI se hospedasse em solo portenho, ainda que brevemente, a dois dias da posse de Cámpora. Os motivos não foram esclarecidos, mas em um relatório escrito em agosto, Killanin explicou: “Minha visita coincidia com a investidura do novo Presidente Peronista. Obviamente, não era muito recomendável de minha parte ir à Argentina, onde minha presença só daria problemas adicionais à polícia”. Segundo seu relato, em Montevidéu foi designada uma guarda com uma dúzia de polícias à paisana. O que teria conjecturado Madero diante da massiva mobilização do peronismo, proibido desde 1955, no dia da assunção presidencial e da posterior libertação dos presos políticos das prisões argentinas, que deram início ao período conhecido como “Primavera Camporista”?

Enfim, Killanin partiu para Santiago no dia 28 de maio pela manhã. Faria uma breve parada em Buenos Aires, onde chegaria às 10:30 para pegar um voo para a capital chilena proveniente do Rio de Janeiro, que sairia às 12:55. No aeroporto de Ezeiza, o esperavam Madero, Mario Negri, membro argentino do COI, com sua esposa e filho, e Otto Schmitt, secretário geral do COA, com sua esposa. No entanto, o que deveria ter sido uma curta espera acabou sendo uma “breve” estada de oito horas. O avião do Rio de Janeiro se atrasou. Killanin admitiu ter recebido um tratamento preferencial: tomaram-lhe o passaporte para evitar filas no controle migratório, mas a gentileza produziria outro atraso. De acordo com Killanin, talvez justificando a mudança no programa original, nesse dia houve “bastantes tiroteios” em Buenos Aires, e pensou que aqueles que o acompanhavam não iriam querer chegar tarde a seus lares. Disse-lhes para não esperarem pela sua partida e recebeu de volta o passaporte. Mais tarde, quando passou pelo controle migratório, lhe informaram que não podia sair do país, porque não havia entrado formalmente. Isso atrasou o voo pelo menos mais uma hora, até que um oficial de maior patente se apresentou para confirmar sua entrada ao país pela manhã e sua saída à tarde. Decolou por volta das 18:30.

Killanin pôs os pés em Santiago tarde da noite e foi imediatamente recepcionado pelo prefeito da cidade. Pela manhã, assistiu à inauguração do congresso da ODEPA. Em seu relatório, ressaltou que Salvador Allende, o presidente chileno, impossibilitado de comparecer ao evento, lhe havia enviado uma placa comemorativa. Allende tinha estado em Buenos Aires para a posse de Cámpora e assistiu a um jogo de futebol entre Racing e Boca Juniors, no dia 27 de maio, junto do novo chefe de Estado argentino e com Osvaldo Dorticós, o presidente cubano. Ou seja, no dia em que Killanin deveria ter visitado Buenos Aires, aqueles três presidentes estavam em um estádio de futebol lotado por uma multidão, que os saudava. Enquanto isso, Beracasa preparava seu discurso no Congresso da ODEPA. Proferiria estas palavras, que certamente teriam sido do agrado de Cámpora, Allende e Dorticós: “A América é livre como quiseram seus pais, e é por isso que dentro do marco esportivo da Organização Pan-Americana não devem existir pressões nascidas de pequenos interesses ou de inconfessáveis atitudes antidesportivas”.

Ao fim do congresso da ODEPA, Killanin continuou a turnê latino-americana visitando Panamá, Colômbia e México. Na capital mexicana declarou: “Conheço os jovens; quando fui, quis revolucionar o mundo” e se promulgou “a favor de modificar os Jogos (Olímpicos)”. Na Argentina, seu espírito renovador só chegou ao aeroporto. Monique Berlioux, diretora-geral do COI, pediu a Negri que lhe enviasse recortes de jornais sobre a estada de Killanin no país, mas, com a mudança de data, a imprensa não havia sequer aparecido. Lamentando a situação, Negri resumiu o ocorrido: “Lorde Killanin não visitou Buenos Aires, por outro lado conheceu muito bem o aeroporto de Ezeiza (sic!)”. Enquanto Killanin permanecia nesse aeroporto, a sociedade mobilizada continuava festejando o fim da ditadura que havia governado a Argentina desde 1966. De qualquer forma, a “Primavera Camporista” ou que a América fosse livre ou subjugada, não teria feito diferença para Killanin. Em 1974, o movimento olímpico acolheu “ditaduras de esquerda e de direita, monarquias e repúblicas”. Para Killanin, ele estava acima dessas diferenças e unia todos os povos. Sua renovação não incluía esse aspecto do ideário olímpico”.

Texto originalmente publicado em relatores.com no dia 6 de março de 2023.

Tradução por: Júlio Barcellos.

Revisão por: Carol Fontenelle e Leda Costa.

Artigos

Continuidades heroicas do nacionalismo esportivo

Em meados de maio de 1924, poucos dias antes de viajar a Paris para participar dos Jogos Olímpicos daquele ano – que constituía a estreia argentina nesse evento – a equipe de esgrima foi homenageada no Jockey Clube.

Após várias lutas de exibição, Román López, o presidente da Federação Argentina de Esgrima, tomou a palavra para se despedir dos esgrimistas. Manifestou-lhes a esperança de que respondessem “como bons, com a vontade e a firmeza que vos caracteriza, à confiança que em vós depositamos”.

Fonte: turismo.buenosaires

Também lhes disse que teriam a missão de demonstrar “a fidalguia e vigor de nossa raça, dessa raça de valentes e abnegados que nos deu a pátria, o grito de liberdade e independência, lançado em 25 de maio de 1810”.

Agregou seu desejo de que “conquista[ssem] louros, para depositá-los ao seu regresso, ao pé do glorioso pavilhão azul e branco, símbolo sagrado da nacionalidade argentina”. Esse, manifestou antes de concluir seu discurso, seria “o melhor presente que podeis oferecer à pátria no 108º aniversário do juramento de sua independência”.

No mês passado, quase cem anos depois, a Associação de Futebol Argentino (AFA) agradeceu, por meio de um vídeo e “em nome de todo o povo argentino”, que Lothar Mattthäus doara a camisa que Diego Armando Maradona vestiu na final da Copa do Mundo de 1986. Matthäus e Maradona, capitães das seleções da Alemanha e da Argentina, respectivamente, haviam trocado suas camisas ao fim da partida.

Em um momento, a voz em off do vídeo diz: “Ouçam amigos o grito sagrado. Porque junto da bandeira que hasteou Belgrano, o sabre curvo com o qual cruzou San Martín, chegou a solo pátrio a armadura com a qual lutou até a morte Diego Armando Maradona”.

Estas frases acompanham imagens de homens jovens com a camisa nacional, dos jogadores argentinos festejando durante a final, de um menino balançando a bandeira argentina em uma aldeia supostamente cordilheirana, do sabre, da camisa de Maradona em uma vitrine e deste se benzendo e celebrando, vestindo-a.

É notório como os dois acontecimentos abertamente enlaçam o esporte com a luta independentista, com suas figuras culminantes e com a bandeira nacional, e como expõem aos esportistas como representantes do húmus autóctone.

Assim, ao início tanto do século XX como do século XXI, a nação argentina é, em boa medida, imaginada através do esporte, que, como postulou o antropólogo Eduardo Archetti, é uma das “zonas livres de uma cultura”, propensa à criatividade nacionalista. Embora na década de vinte do século passado o futebol permitisse uma módica presença de outros esportes na narrativa da identidade nacional; na atualidade, a sobrerrepresentação futebolística obtura essa possibilidade.

A narrativa que enlaça esporte e nação, proposta pela AFA e pelas forças do mercado, converge principalmente no futebol. Por outro lado, essa narrativa resgata e gira em torno de Maradona, mesmo em sua morte, convertido há décadas em um herói nacional – “valente e abnegado” na fórmula de López, e cruzado por alegrias e tristezas, paradas e recomeços, acertos e erros – junto a Belgrano e a San Martín. Depois de tudo, sua camisa é presenteada como uma armadura simbolicamente equivalente à bandeira criada por aquele e ao sabre utilizado por este.

Fonte: Globo Esporte.

Também é notório como os dois acontecimentos reforçam que a narrativa esportiva da nação tem sido eminentemente masculina. Não só não houve mulheres na equipe de esgrima que viajou a Paris para participar dos Jogos Olímpicos de 1924, nem em toda a delegação argentina no evento, pois López em seu discurso de despedida aos esgrimistas apontou que no agasalho “não falta a nota de distinção, elegância e beleza da dama argentina, hoje como ontem e como sempre, entusiasta e palpitante a todas as manifestações da vida nacional”. Entusiasta e palpitante, mas não participante.

Por sua vez, no vídeo da AFA as mulheres estão praticamente ausentes. Apesar de sua crescente, embora marcadamente modesta, visibilidade, o esporte feminino segue negligenciado. Nas palavras do sociólogo Pablo Alabarces, como a maioria das narrativas nacionalistas, a relação esporte e nação tem sido “produzida, reproduzida, protagonizada e administrada por homens”, em um exercício de poder que sustenta uma ordem heteropatriarcal.

Lamentavelmente, as desportistas não se permitem sonhar em converter-se em heroínas da nação.

Em uma estupenda nota publicada recentemente, o jornalista Ariel Scher indaga sobre as diversas posturas que os/as torcedores assumiram no desenlace do último campeonato masculino de futebol. Recorrendo a diversos/as especialistas em ciências sociais, enfatiza que os modos de ser torcedor têm variado durante a história do futebol argentino e que estes, com suas avaliações, têm sido naturalizados.

Além disso, ressalta que o posicionamento frente aos variados modos de ser torcedor envolve concepções sobre questões fundamentais como “a ideologia, as visões sobre a condição humana ou a interpretação de que é o que está em jogo neste jogo”. A nota convida a pensar a construção de sentido através do futebol e, de forma mais ampla, do esporte.

Nesse espírito, o velho discurso de López e a nova encenação da AFA manifestam, em conjunto, a estreita relação que os dirigentes esportivos têm articulado entre esporte e nação. Estes acontecimentos sugerem que a articulação dessa relação tem sido contínua, pelo menos, ao longo dos últimos cem anos. Parafraseando a Scher, a maneira que se desenvolveu o nacionalismo esportivo revela um aspecto proeminente do que tem estado em jogo no jogo.

Se as variações históricas dos modos de ser torcedor aludem a fraturas no ethos futebolístico, os dois acontecimentos demonstram uma continuidade na articulação da relação entre esporte e nação. Essa continuidade, com sua história e com suas peculiaridades, é uma construção de sentido, que, como insistiria Scher, deve ser interrogada e desnaturalizada.

Porque a narrativa do nacionalismo esportivo imperante, que supostamente amalgama, não é a única imaginável. No entanto, para imaginar alternativas, simbólicas e materiais, é preciso compreendê-la ou, como propõem os/as especialistas em ciências sociais, interpretá-la. Caso contrário, o status quo continuará a ser aceito e reproduzido como uma manifestação infalivelmente “natural”. E no âmbito social, o “natural” é uma aceitação acrítica do estabelecido como habitual.

Publicado originalmente publicado em relatores.com no dia 02 de novembro de 2022.

Tradução por: Júlio Barcellos.

Revisão por: Leda Costa.

Artigos

As delegações olímpicas, a carne e a identidade nacional argentina

Depois de quase duas décadas de tentativas fracassadas, as elites argentinas conseguiram enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de 1924 em Paris. Rapidamente, as participações olímpicas argentinas se articularam, citando o antropólogo Eduardo Archetti, como “um espelho de onde se vê e é visto ao mesmo tempo”. Desta maneira, as andanças dos/as desportistas argentinos no estrangeiro construíam, disseminavam e afirmavam uma identidade nacional. Até meados dos anos cinquenta, a tipificação e a diferenciação nacional através das excursões olímpicas incluíram uma crescente relação com outro elemento central do sentimento coletivo de pertencimento argentino: a carne.

Dadas as dificuldades para estabelecer o Comitê Olímpico Argentino (COA) no ano anterior, a inexperiência da incipiente direção olímpica nacional e a estrutura dos Jogos Olímpicos, a conformação da delegação que viajou a Paris em 1924 esteve repleta de inconvenientes. Um destes ressaltaria, obliquamente, o papel da carne na vida nacional. Antes da partida à Europa, houve queixas porque o barco onde viajaram os esgrimistas e os remadores não contava com as acomodações necessárias para que chegassem em condições competitivas adequadas. Tratava-se de um barco frigorífico contratado por empresas do ramo “que deviam carregar seus porões com carnes congeladas”. O barco atrasou sua partida pelo processo de carga, embora o capitão tenha consentido instalar dois estandes de esgrima no convés e embarcar um aparato de treinamento de remo. Criticando o COA por sua falta de planejamento, Román López, presidente da Federação Argentina de Esgrima, manifestou: “Para viajar em um barco como o ‘Vasari’ é necessário ser um verdadeiro patriota”. Esse barco transportou, inesperadamente, duas marcas identitárias da nação argentina: desportistas e carne. 

Publicidade do Vasari (The Review of the River Plate, 10 de outubro de 1919, p. 952).
Vista do Vasari (Bulletin of the International Union of American Republics, junho de 1909, p. 1018).

A Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA), instituição que substituiu o COA em 1927, também teve sérios inconvenientes, principalmente econômicos, para enviar uma delegação aos Jogos Olímpicos de 1928 em Amsterdã. Uma vez ali, a alimentação holandesa foi percebida como um obstáculo para a correta aclimatação dos desportistas. O capitão da equipe de luta declarou que os lutadores deveriam “acostumar seu organismo a mudança de alimentação, que entre parênteses não era grande coisa, em termos de variação e seu sabor, apesar de ser saudável”. Acrescentou: “Só o grande apetite que despertava o treinamento, fazia com que se ingerisse esta comida deficiente e monótona a que não está acostumada a maioria dos nossos atletas”. Ou seja, a delegação sentia saudades da comida “crioula” e possivelmente da carne, aspecto que a CADCOA tentaria corrigir no futuro.

Treinamento no convés de parte da delegação para os Jogos Olímpicos de 1928 em Amsterdã (Federico Dickens, Manual técnico de atletismo, 1946, sp).

Apesar da CADCOA ter lidado com numerosos problemas administrativos, econômicos e de condução relacionados à delegação nos Jogos Olímpicos de 1932 em Los Angeles, a alimentação não foi um deles. De fato, os desportistas parecem ter estado satisfeitos a respeito. Por exemplo, poucos dias antes que Juan Carlos Zabala ganhasse a medalha de ouro na maratona, Alejandro Stirling, seu treinador austríaco radicado na Argentina desde 1922, explicou que seu pupilo “come com grande apetite dois bifes no almoço e dois na janta” e que, além de treinar, lia e escutava discos “que lhe recordam a pátria distante”. O fulgurante triunfo do “nandú crioulo”, o apelido com que a crítica havia batizado Zabala, foi utilizado pela imprensa dominante para gerar imagens identitárias nacionais. Uma semana depois de ter ganhado a maratona, a delegação japonesa ofereceu uma festa em sua honra durante a qual lhe perguntaram por seu regime de treinamento e de alimentação. É de se supor que ressaltou os benefícios dos quatro bifes diários. 

Para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim, a CADCOA, que havia ignorado a intenção argentina de boicotar o evento organizado pela Alemanha nazista, implementou medidas para que toda a delegação tivesse “carne na quantidade e da qualidade a que estavam habituados os atletas”. Por um lado, a CADCOA argumentou que a carne favorecia o rendimento esportivo. Por outro, afirmou que “constitui a base da alimentação de nossos desportistas”. É que a carne, como diria mais de cinco décadas depois o escritor Juan José Saer, “não é unicamente o alimento base dos argentinos, mas o núcleo de sua mitologia e inclusive de sua mística”. Em Berlim, esporte e carne sincretizaram a nação argentina e seu imaginário. Considerando “o sério inconveniente que supunha a insegurança de encontrar durante a viagem e na estadia na Alemanha” o precioso e significativo alimento, a CADCOA conseguiu que a Junta Nacional de Carnes, um órgão criado em 1933 para regular o mercado em questão, doasse quinze toneladas de carne. O regime alimentício da delegação recomendava entre 250 e 350 gramas de carne diários. De todas as maneiras, o maratonista Luis Oliva consumia 500 gramas de carne diários, “preferentemente assada”, aludindo, como assinalou o antropólogo Jeff Tobin, a “comida mais fortemente associada ao nacionalismo argentino”.

A CADCOA inclusive enviou um cozinheiro a Berlim, Arnoldo Damm. Graças a sua “arte culinária crioula”, na Vila Olímpica “qualquer um logo e gostosamente se esquece da cozinha alemã”.  Damm conseguiu que ali “se respirasse um ambiente do país alegre e confiante, sempre menos pesado e rígido que o ambiente germânico”. A dieta da delegação servia para afirmar o nacional e diferenciar-se do outro significante. Em uma “significativa cerimônia” ao terminar os Jogos Olímpicos, Alberto León, presidente da delegação, entregou 300 quintais de carne às autoridades municipais berlinenses para que se distribuíssem em hospitais e sociedades de beneficência. Essa carne, destacou León, “testemunha a amizade germano-argentina e a gratidão da Argentina pela acolhida que teve sua delegação”. Segundo a CADCOA, “o gesto foi elogiosamente comentado pelas autoridades e diários berlinenses”.

Membros da delegação para os Jogos Olímpicos de 1936 em Berlim no refeitório nacional (La Nación, 21 de julho de 1936, p. 12).

Após a interrupção pela Segunda Guerra Mundial, os Jogos Olímpicos voltaram a ser organizados em 1948 em Londres. A CADCOA enviou uma numerosa delegação, bancada pelo governo de Juan Domingo Perón. Ao se despedir do grupo, Perón pronunciou: “É uma imensa satisfação que o Governo teve ao apoiar este tipo de manifestação, e é somente o início desse apoio que temos de levar até limites que muitos não imaginavam ainda”. Também acrescentou: “Para o futuro, procuraremos organizar melhor essas viagens, para que os atletas argentinos cumpram sua missão com o mínimo de sacrifício e o máximo de proveito”. A delegação enviada a Londres contou com uma remessa de carne própria, visibilizada além das fronteiras argentinas. Assim, no Chile se perguntaram se o rendimento nacional teria sido tão destacado “se a equipe não tivesse levado toneladas de carne”. Além de seu efeito no rendimento esportivo, a carne foi utilizada para festejar as conquistas em Londres. De acordo com o Noticias Gráficas, Delfo Cabrera celebrou sua medalha de ouro na maratona com um “assado a la criolla, sobre a grama de um parque jamais pisado pelo mais insignificante piquenique”, que surpreendeu aos “fleumáticos ingleses”.

Quatro anos mais tarde, quando Perón se despediu dos/as desportistas rumo aos Jogos Olímpicos de Helsinki, declarou que para esse tipo de evento era conveniente transportar “um pedaço da República ao lugar onde se realizam [os Jogos]”. Dessa maneira, a delegação teria todo o necessário para render plenamente. Por isso, Perón achou “oportuno mandar um barco, como fazemos, para que essa seja nossa casa, onde haja carne argentina, comida argentina, e água argentina; sabemos que isso não nos faz mal e, se não é a melhor, é boa”. Perón acreditava que um regime alimentício baseado na carne não era “científico”. Entretanto, sua abundância na delegação manifestava a Nova Argentina, na qual o crescente poder aquisitivo fomentava o consumo de carne e o esporte era promovido em todos os seus níveis como nunca antes e nunca depois. 

Juan Domingo Perón subindo no barco que transportou a delegação para os Jogos Olímpicos de 1952 em Helsinki (Mundo Deportivo, 19 de junho de 1952, p. 22).

Em parte devido às mudanças estruturais nos Jogos Olímpicos, que requeriam aos/às participantes residir na Vila Olímpica durante o evento, a partir do golpe de Estado que derrubou Perón em 1955, as delegações deixaram de projetar uma marcada relação com a carne, que sintetizou a identidade nacional. Não obstante, essa relação permanece. Por exemplo, dias antes do começo dos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim, o COA, instituição que substituiu a CADCOA em 1956, ofereceu um churrasco aos/às desportistas “para demonstrar que estão com as forças necessárias para fazer um bom papel na China”. Por uma ou outra via, as delegações e a carne continuam condensadas, com maior ou menor força, naquilo que se imaginava como meio que tipifica e que diferencia a identidade nacional. 

Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 17 de setembro de 2022.

Tradução por: Júlio César Barcellos.

Revisão por: Leda Costa e Carol Fontenelle.

Artigos

A Copa do Mundo masculina e as escolas

A importância de pensar a competição como um fato cultural transcendente que vale a pena abordar a partir das instituições de ensino. Um olhar a partir da antropologia e da filosofia.

O ministro da Educação da Nação, Jaime Perczyc, foi questionado há alguns dias sobre o que as escolas fariam durante a Copa do Mundo masculina que ocorrerá no fim do ano no Catar. Sobre isso, ele afirmou: “Acreditamos que as partidas da Argentina devem ser exibidas nas escolas e repletas de conteúdo”. E acrescentou que o evento “é uma excelente oportunidade para despertar o interesse e para trabalhar vinculando questões de ética, história, ciências sociais, geografia, literatura ou matemática”.

As declarações de Perczyc dão continuidade a uma saudável iniciativa que o ministério apoiou ao menos nas últimas quatro edições do mundial masculino. Desde 2006, publica, como esclareceu a cartilha daquele ano, “material didático (para explorar a Copa do Mundo) para todas as escolas do país”. Quatro anos depois, a publicação destacou que tinha “um objetivo claramente definido e que é transformar a Copa do Mundo de 2010 em uma oportunidade educacional”. Em 2014, Perczyc, então Secretário de Educação do país, indicava: “A escola pode se apropriar dessa enorme oportunidade pedagógica” e é capaz de “incluir nas salas de aula as experiências que nos fazem ser quem somos”. A apresentação da última publicação, em 2018, destaca que o torneio é um evento cultural transcendente que as escolas deveriam abordar.

Nessa iniciativa, subjaz uma concepção de esporte, proposta pelo antropólogo Clifford Geertz, como um texto (uma estrutura simbólica criada e sustentada coletivamente) por meio do qual as pessoas contam histórias sobre si mesmas. Seu colega Eduardo Archetti dizia, de forma diferente, mas com pontos de contato: o esporte é um espelho para se ver e ser visto. Essa atividade, prosseguia, é “um espaço para a produção de imaginários, símbolos e heróis”. Ver-se e ser visto implica, nos termos de Geertz, narrar-se. Dessa forma, o futebol, por sua popularidade, se articula como um texto digno de interpretação, porque nele se manifesta o ethos (ou caráter) de um povo. Por essa razão, Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde se aprende esse ethos. Assim, Perczyc explicou que o futebol nos faz ser quem somos.

“É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina, articulando o futebol como um texto, bem como uma prática social intrinsecamente valiosa.”

A concepção geertziana de esporte é adequada para que os professores forneçam conteúdo à Copa do Mundo masculina. Abordar e investigar o que o futebol, nacional e internacional, nos diz abre ricas oportunidades para vinculá-lo a diferentes áreas do currículo atual. Afinal, entende-se melhor como se manifesta o ethos nacional no mundial masculino de futebol, e como nos familiarizamos com ele e com suas complexidades, analisando sua história, suas dimensões sociais, políticas e econômicas, bem como suas relações com outros textos como a música, o cinema ou a literatura. Geertz propunha que as sociedades contêm, nos esportes e demais textos, suas próprias interpretações. “A única coisa necessária”, afirmou, “é aprender a maneira de ter acesso a elas”. A articulação pedagógica cuidadosa e contínua da Copa do Mundo masculina nas escolas contribui para esse aprendizado.

Fonte: Terra

Apesar de suas vantagens, a concepção geertziana de esporte tende a ser complementada pela ênfase em sua lógica constitutiva e sua moralidade interna, questões que podem ser perdidas de vista ou relegadas ao enfatizar que é um meio de dizer “algo sobre algo”. Seguindo o filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se argumentar que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade coerente e complexa, de caráter cooperativo, com bens internos (aqueles que só se materializam pela prática em questão – no caso do futebol, suas habilidades e táticas), padrões de excelência e virtudes. Os dois primeiros elementos são importantes porque, ao constituí-los e defini-los, conferem às práticas sociais uma identidade própria e única.

O terceiro porque permite sua manutenção e prosperidade. Neste sentido, o esporte é intrinsecamente valioso. Reconhecê-lo como tal abre a possibilidade de levar uma vida significativa marcada pelo seu cultivo e enobrecimento. Essa perspectiva do esporte também deve fazer parte do conteúdo que os professores fornecerão na próxima Copa do Mundo masculina. O evento facilita e convida a explorar o lugar que deveria ocupar o futebol em uma vida satisfatória, o que significa viver o futebol com sucesso ou que tipo de satisfação emerge de uma vida futebolística.

“Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde  se aprende o ethos de um povo.”

É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina articulando o futebol como texto e como prática social intrinsecamente valiosa. Isso, como destacou Alberto Sileoni, então Ministro da Educação do país, em 2014, deve ser feito criticamente e questionando preconceitos, para fazer suas próprias perguntas, evitando estereótipos e “remontando uma realidade mais ampla, mais rica e, sobretudo, enraizada nos valores de liberdade, justiça e democracia”. Somente assim se “aproveita, educativamente, essa genuína paixão nacional”. A chave é quebrar as maneiras pelas quais, muitas vezes, o esporte marginaliza.

As recentes declarações de Perczyc foram feitas durante a Copa América feminina. Infelizmente, esse torneio só é acessível com uma assinatura de um canal de televisão a cabo. Seria acertado que as assimetrias de gênero no futebol, que invisibilizam a categoria feminina, fizessem parte da iniciativa do Ministério da Educação. A cartilha elaborada para o mundial masculino de 2018 explicava que “nos últimos tempos, as mulheres vêm conquistando espaços de participação ao derrubar barreiras que as excluíam e as renegavam”. No entanto, apesar desses avanços, ainda estamos longe da igualdade de gênero. Quando chegará o dia em que as autoridades educacionais permitirão e incentivarão a assistir às partidas mais importantes da seleção feminina de futebol nas escolas? Afinal, o futebol feminino também diz algo sobre a sociedade e forma um horizonte vital para suas praticantes.

* Cesar Torres é doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 23 de julho de 2022

Tradução: Anabella Léccas

Revisão: Fausto Amaro

Artigos

A história do voto que frustrou a candidatura de Buenos Aires 1956

A escolha de Melbourne como sede olímpica é atribuída a um membro chileno do COI. Não foi assim.

Os membros argentinos do COI Ricardo C. Aldao e Horacio Bustos Morón na abertura da reunião em Roma em 1949 (terceiro e quarto da esquerda na primeira fila da direita).

Recentemente me referi neste jornal ao malfadado complexo olímpico idealizado pelo peronismo para os Jogos Olímpicos de 1956. Mencionei que o projeto foi abandonado quando o Comitê Olímpico Internacional (COI) escolheu Melbourne, em vez de Buenos Aires, como cidade organizadora do evento. Da mesma forma, aludi ao fato de que a votação que determinou aquela eleição em abril de 1949 foi, e continua sendo, a mais próxima (21 votos a 20) para uma sede olímpica na história daquela instituição.

Um jornalista e um dirigente desportivo entraram em contato comigo para me dizer que o voto decisivo a favor de Melbourne havia sido do membro chileno do COI. Embora não o mencionassem, referiam-se a Enrique Barbosa Baeza, que ingressara no COI em 1948. A razão para justificar seu voto, prosseguiram, era que Barbosa Baeza preferia viajar para Melbourne, porque Buenos Aires era um destino mais acessível. Em seus livros de 2010, 2012 e 2004, respectivamente, Ezequiel Fernández Moores, Ernesto Rodríguez III e Víctor Lupo fizeram declarações semelhantes, embora com cautela. Assim, Lupo escreveu: o voto “que mudou a história do esporte argentino, segundo especialistas, foi de um representante de um país vizinho, que, ao ser repreendido por sua mudança de decisão, respondeu: ‘Conhecer a Austrália de outra forma seria impossível, ir para Buenos Aires é muito fácil para mim’”.

Essa explicação pitoresca da candidatura fracassada de Buenos Aires por um voto é bastante difundida no imaginário esportivo nacional, mas é apócrifa e merece ser esclarecida. Uma vez que a Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA) informou ao COI em janeiro de 1948 que Buenos Aires estava solicitando a organização dos Jogos Olímpicos de 1956, as autoridades olímpicas nacionais começaram a promover a candidatura. Por exemplo, naquele mesmo mês, Horacio Bustos Morón e Ricardo C. Aldao, os membros argentinos do COI, informaram à instituição que apoiavam a comunicação do CADCOA. Seis meses depois, enviaram uma carta a Sigfrid Edstrøm, presidente do COI, e outra aos demais colegas da instituição detalhando a candidatura de Buenos Aires e solicitando seu consentimento. Na carta diziam: “esperamos sinceramente que os nossos Colegas e Amigos apoiem esta iniciativa e votem a seu favor quando chegar o momento de o fazer”. A oferta provavelmente também foi vigorosamente empurrada durante as Olimpíadas de Londres em julho e agosto de 1948.

Em março de 1949, o CADCOA escreveu novamente ao COI insistindo em seu desejo de organizar os Jogos Olímpicos de 1956. Também produziu um livro suntuoso que serviu como “seu convite formal para celebrar a XVI Olimpíada nele (Buenos Aires) em 1956”. O COI acusou o recebimento do material e lembrou que a votação ocorreria em sua reunião em Roma, marcada para os dias 24 e 29 do mês seguinte. Os esforços das autoridades olímpicas nacionais deram alguns frutos, como mostra o telegrama de apoio à candidatura de Buenos Aires que o Comitê Olímpico Uruguaio enviou ao COI pouco antes de se reunir na capital italiana. Ao contrário, em dois telegramas também enviados naqueles dias, os dois membros brasileiros do COI votaram por Detroit, uma das nove cidades candidatas.

Na sessão de 25 de abril, o COI decidiu que o voto por correspondência não seria admitido na votação que ocorreria três dias depois. Em outras palavras, apenas os 41 membros presentes em Roma podiam votar. Nesse grupo, os únicos sul-americanos eram Bustos Morón e Aldao. Em 28 de abril, os dois membros argentinos do COI, acompanhados por Rafael Ocampo Giménez, embaixador argentino na Itália, e Mario L. Negri, líder argentino de natação, apresentaram a candidatura de Buenos Aires ao COI e tentaram convencer seus membros da conveniência de organizar ali os Jogos Olímpicos de 1956. As demais delegações também tiveram a oportunidade de apresentar as candidaturas de suas cidades.

Em seguida, o COI, que havia decidido “proceder por eliminação” (“que o número de cidades a serem eliminadas será decidido após cada (rodada)” e que na última “era necessária maioria absoluta”), iniciou a votação. Chicago, Minneapolis, Filadélfia e San Francisco foram eliminados na primeira rodada. Na segunda, Cidade do México e, na terceira, Detroit e Los Angeles. Buenos Aires obteve 9, 12 e 13 votos nas três primeiras rodadas de votação; Melbourne 14, 18 e 19. Buenos Aires conquistou 7 dos 9 votos em disputa no quarto turno, mas essa finalização impetuosa foi insuficiente para impedir Melbourne de obter a vaga (21 votos a 20). Nesse processo, Barbosa Baeza não teve influência, pois estava ausente em Roma e, se votou pelo correio a favor de Melbourne, seu voto foi rejeitado.

Aqui estão outras hipóteses da votação enganosa que teria transformado Buenos Aires na sede dos Jogos Olímpicos de 1956. Quatro meses antes da votação, no final de 1948, Aldao escreveu a Edstrøm, confidencialmente, alertando que algumas ações do peronismo em matéria esportiva estavam à beira de transgredir os princípios olímpicos. Embora Aldao não tenha mencionado irregularidades na candidatura de Buenos Aires, é possível que Edstrøm tenha se alarmado com a carta de Aldao –já que o peronismo era seu promotor– e a desvalorizado. Mesmo que ele não revelasse seu alarme aos outros membros do COI, seu voto, involuntariamente influenciado por Aldao, poderia ter sido decisivo. Claro, também é provável que nada disso tenha acontecido e que a maioria dos membros do COI acreditasse que Melbourne era uma candidata melhor do que Buenos Aires. De qualquer forma, apesar de perder por um voto, a capital argentina deixou uma imagem positiva entre os membros do COI. Como afirmou o presidente do CADCOA após a reunião daquela instituição em Viena em 1951, “a maioria dos delegados […] reconheceu a Argentina como o país mais adequado [para substituir Melbourne, se necessário]” ​​. Essa substituição, no entanto, foi desnecessária.

* Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).


Texto originalmente publicado pelo site Página12 no dia 11 de maio de 2022

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro

Revisão: Fausto Amaro

Artigos

Perón, o esporte e os Jogos Olímpicos de 1956

Plano da Vila Olímpica para a candidatura dos Jogos Olímpicos de Buenos Aires 1956. Imagem: Cortesia do Arquivo COI

É sabido que durante a primeira presidência de Juan Domingo Perón (1946-1955) foi implementada uma gestão estatal inédita e incomparável na história argentina que promoveu e desenvolveu o esporte em todos os seus níveis e modalidades. Para Perón, o esporte era uma tecnologia social capaz de moldar e fortalecer sua “Nova Argentina”, baseada no apotegma “justiça social, soberania política e independência econômica”, e de difundi-la no exterior. Um dos meios preferidos para atingir o último objetivo, enquadrado no que mais tarde seria chamado de “diplomacia cultural”, era a participação em eventos esportivos internacionais e a organização deles na Argentina.

Nesse contexto, em 20 de janeiro de 1948, a Confederação Argentina de Esportes-Comitê Olímpico Argentino (CADCOA) informou ao Comitê Olímpico Internacional (COI) que Buenos Aires solicitava a organização dos Jogos Olímpicos de 1956. Nesse mesmo mês, uma carta do CADCOA fundamentava o “justo pedido” explicando que a eleição de Buenos Aires “satisfará as legítimas aspirações do governo do Exmo. Senhor Presidente, General Juan D. Perón, e dos atletas do continente” e que este [o governo de Perón] “comprometeu formalmente (…) toda a cooperação moral e material que a organização requer”. Além disso, o CADCOA assegurou que o governo estava terminando os estudos para a construção de um “grande estádio nacional com uma ‘Vila Olímpica'”, que seria o epicentro do evento.

Concluídos esses estudos, o CADCOA reiterou ao COI no início de 1949 “o propósito do Governo Superior da Nação, de construir um complexo olímpico com a Vila correspondente”. O local escolhido foram os quadrantes noroeste e sudoeste do cruzamento da Avenida Gral. Paz e Autopista Gral. Ricchieri. A eleição, que não está articulada nos documentos consultados relativos a esta candidatura olímpica, pode ser entendida como parte do que Anahí Ballent chama de operação territorial de Ezeiza, um projeto urbano “de notável magnitude no setor sudoeste da Grande Buenos Aires (que incluía) a arborização da área, novas vias de comunicação, conjuntos habitacionais e instalações esportivas, assistenciais, educativas e de saúde”. E, claro, o aeroporto internacional, inaugurado nesse mesmo ano. Dessa forma, articulando modernização técnica e social, Ezeiza constituía, também segundo Ballent, “uma espécie de cenário ideal para a política (peronista) onde a implantação de sonhos e projetos conseguiu configurar um novo espaço urbano-territorial”, que por um breve período incluiu o conjunto olímpico planejado.

Dessa forma, as delegações dos diversos países chegariam ao aeroporto internacional, o que criou “uma nova frente (e entrada) para a cidade”, e se deslocariam rapidamente por uma moderna rodovia até o complexo olímpico, que as abrigaria durante sua estada no país enquanto começava sua familiarização com as conquistas e aspirações da “Nova Argentina” de Perón. Essa possibilidade foi abreviada em abril de 1949 quando o COI escolheu Melbourne, em vez de Buenos Aires, para sediar os Jogos Olímpicos de 1956. O voto que determinou essa escolha foi, e ainda é, o mais próximo (21 votos a 20) para uma sede olímpica da história do COI. O CADCOA transformou a derrota em vitória, afirmando: “essa diferença mínima (…) conforta o espírito e satisfaz plenamente os mais queridos desejos argentinos, por tudo o que significa para nossa Pátria e o esporte argentino”.

Após a fracassada candidatura de Buenos Aires aos Jogos Olímpicos de 1956, o peronismo abandonou o projeto do complexo olímpico no cruzamento da Avenida Gral. Paz e Autopista Gral. Ricchieri. No entanto, inaugurou uma “Vila Olímpica” a poucos quilômetros do aeroporto internacional, no cruzamento da Autopista Gral. Ricchieri e Ruta 205, onde se preparou e concentrou a equipe argentina que participaria dos primeiros Jogos Esportivos Pan-Americanos de 1951, com sede em Buenos Aires, um dos eventos esportivos internacionais organizados durante a década peronista. Comparada ao abortivo plano olímpico original, esta Vila Olímpica, que fazia parte das instalações esportivas da operação territorial de Ezeiza, empalideceu em tamanho e simbolismo.

Atualmente, no local escolhido para a construção do complexo olímpico, existem inúmeros conjuntos habitacionais do tipo que Alicia Novick caracteriza como um habitat precário e irregular e traçados urbanos mais formais e regulares, mas empobrecidos. Todos nos municípios de Villa Madero e Villa Celina, no município de La Matanza. O destino daquele lugar, incluindo o sonho olímpico e o complexo tecido urbano atual, surge como uma topografia histórica e nos convida a reconstruí-lo, bem como a reimaginar seu futuro. Talvez seja isso o que fazem muitas das pessoas que o habitam, tantas vezes discriminadas e estigmatizadas, quando nos fins de semana organizam partidas de futebol e vôlei na terra firme e seca do que teria sido o complexo olímpico concebido para os Jogos Olímpicos de 1956.

* Doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).


Texto originalmente publicado pelo site Página12 no dia 21 de abril de 2022

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro.

Revisão: Fausto Amaro.

Artigos

Melina Guardabascio Vita: uma pioneira esquecida da esgrima argentina

Roberto Larraz foi um notável esgrimista que representou a Argentina em quatro Jogos Olímpicos consecutivos entre 1924 e 1936, fazendo parte da equipe que conquistou a medalha de bronze no Campeonato das Nações de Florete de 1928, em Amsterdã. Em 1941, por ocasião do vigésimo aniversário da fundação da Federação Argentina de Esgrima (FAE), publicou uma “revisão da atividade de esgrima em nosso país” no jornal La Nación. A revisão histórica de Larraz é exclusivamente masculina. Da mesma forma, a história da esgrima argentina no site da FAE apenas menciona a esgrima feminina em sua referência aos Jogos Pan-Americanos de 1951 em Buenos Aires. Lá, Elsa Irigoyen conquistou a medalha de ouro no campeonato individual de florete.

As narrativas de Larraz e da FAE invisibilizam o desenvolvimento da esgrima feminina argentina nas primeiras décadas do século XX e revelam a ordem genérica vigente naquele período, cujas características ainda persistem. Embora Larraz sustentasse que a esgrima “é um esporte que não reconhece idades”, esse esporte legitimava a atual matriz heteronormativa e a pressão que ela exercia para impedir a expansão do esporte feminino. Assim, o jornalista Luis Pozzo Ardizzi afirmou na revista Caras y Caretas em 1935 que vários esgrimistas haviam abandonado o esporte porque seus namorados argumentavam que “a esgrima faz uma mulher se ridicularizar. Que adota posições não femininas”. Para contrariar a situação, este jornalista propôs: “Guerra ao namorado!” para “destruir preconceitos”.

Melina Guardabascio Vita¹ foi uma pioneira que trabalhou arduamente para promover a esgrima feminina e desfazer esses preconceitos. Aparece como professora de esgrima da Academia Nacional de Esgrima da Itália em 1922. Aparentemente ela chegou à Argentina em 1923, causando grande atenção. Em fevereiro do ano seguinte, o Cercle de L’Epée realizou um festival esportivo em Buenos Aires em sua homenagem, no qual ela deu uma palestra sobre esgrima e lutou com dois ilustres esgrimistas. Meses depois, em outra palestra, ela falou sobre “A esgrima e os benefícios que ela traz para as mulheres” no Club Marcelo T. de Alvear, também em Buenos Aires. Nesse mesmo ano, Augusto Bolognini, outro expatriado italiano que fundou, dirigiu e ensinou na Academia Argentina de Bellas Artes Perugino, pintou um retrato de Guardabascio Vita em trajes de esgrima, que enfeitou a capa de uma edição da revista Fray Mocho. A mesma revista publicou fotografias nas quais ela é vista em ação com um estudante e com Oscar Viñas, então presidente da FAE. Sua presença e seu trabalho na Argentina geraram “grandes reportagens [e] profusão de fotografias em jornais e revistas”.

Segundo uma crônica jornalística, Guardabascio Vita havia chegado ao país com a intenção de “realizar exposições públicas, não em espaços de ‘varietés’, como um ‘número artístico’, mas nas arquibancadas de nossos principais clubes”. Em outras palavras, ela queria que a esgrima feminina fosse levada a sério e divulgada. A mesma crônica explicava que Guardabascio Vita “lutou vários meses, um ano, dois, três… mas não conseguiu popularizar a esgrima entre nossas mulheres… havia preconceitos demais na época”. Desta forma, “cansada de lutar”, Guardabascio Vita “acabou por se dedicar a um negócio totalmente alheio à esgrima”. O fato de ter tentado outros caminhos profissionais não significa que tenha se afastado da esgrima. No início da década de 1940, Guardabascio Vita figurava como professora de esgrima, “exclusivamente para senhoras”, no Racing Club, em Avellaneda, onde estava sediada, e do qual fora sócia. No final de 1941, o jornal La Opinion destacava: “a manifestação oferecida ontem no C. Racing à senhora Guardabascio obteve contornos marcantes”, provavelmente referindo-se a um torneio interno.

A carreira de Guardabascio Vita no Racing foi reconhecida em 1974, quando a diretoria decidiu homenagear sua memória batizando a sala de esgrima do clube “com o nome de quem foi nossa ilustre representante”. No entanto, os esforços de Guardabascio Vita tiveram efeitos além de Avellaneda. Como postulava Pozzo Ardizzi, já nas décadas de 1920 e 1930, a mestra da esgrima “plantou sementes” e “conseguiu despertar a curiosidade” por esse esporte entre as mulheres. Coincidentemente, Larraz “colocou seu vasto conhecimento a serviço das primeiros entusiastas”, formando em 1930 a primeira equipe feminina do Clube de Ginástica e Esgrima de Buenos Aires. Três anos depois, segundo o mesmo jornalista, foi organizado o primeiro campeonato feminino promovido pela FAE. Em 1933, também começaram as “partidas” femininas, e Guardabascio Vita atuou como juíza no primeiro júri feminino.

Em 1935, Pozzo Ardizzi enfatizou que já havia mais de 100 mulheres esgrimistas no país, a maioria delas em Buenos Aires, mas também em Córdoba, La Plata, Mendoza, Rosario e Tucumán. Três anos antes, a revista Caras y Caretas havia publicado um artigo intitulado “Esgrima: esporte para mulheres”, que defendia que esse esporte deveria ser “uma das práticas esportivas preferidas das mulheres modernas”, já que suas muitas “vantagens para as mulheres são tantas como são para os homens”. Embora a nota não estivesse assinada, considerando sua natureza e finalidade, poderia muito bem ter sido escrita por Guardabascio Vita, cujos esforços começavam a dar frutos, embora sem alarde.

Refletindo sobre a situação da esgrima feminina na década de 1930, Pozzo Ardizzi escreveu, de forma excessivamente otimista e replicando um vocabulário sexista, que “o feminismo avança e avança… folha na mão… Em guarda, cavalheiros do sexo forte!”, já que “o muro do preconceito [de gênero] começou a ser destruído”. Guardabascio Vita foi uma pioneira que, ao promover a esgrima feminina, contribuiu para distorcer a feminilidade estabelecida na sociedade para a qual emigrou, ampliando os horizontes das mulheres e imaginando uma proxêmica mais inclusiva e justa. Seu nome, assim como sua luta por maior igualdade de gênero e emancipação feminina, são dignos de ocupar um lugar de destaque na história da esgrima e do esporte argentino.

¹ Em algumas das fontes consultadas, o nome também aparece como Melina Vita Guardabascio e como Evelina Guardabascio Vitta.


Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de março de 2022.

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro

Revisão: Fausto Amaro

Artigos

O COI e a nova política de inclusão de atletas transgêneros

Por César R. Torres* y Francisco Javier López Frías**

Laurel Hubbard, a primeira atleta transgênero a competir nos Jogos Olímpicos

Em meados deste mês [novembro], o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou uma nova política sobre justiça, inclusão e não discriminação em relação à identidade de gênero e as variantes sexuais no esporte. Substitui e atualiza suas antigas políticas a esse respeito, incluída na Declaração de Consenso de 2015. Vale recordar que ela estabelecia que as atletas transgêneros podiam participar de competições femininas somente se seus níveis de testosterona fossem menores que 10nmol/L durante, pelo menos, 12 meses antes de sua primeira competição na categoria feminina e requeria que esse mesmo nível se conservasse durante o período em que desejassem ser admitidas para competir na mesma. Para alcançar esses objetivos, as atletas transgêneros se viam obrigadas a receber tratamentos médicos para sustentar seus níveis de testosterona dentro da classificação exigida. Além disso, essas atletas deviam manter sua identidade de gênero por no mínimo quatro anos. Ao menos, a Declaração de Consenso de 2015 havia eliminado a exigência da política de 2003 que forçava as atletas transgêneros a submeter-se a intervenções cirúrgicas para mudar seu sexo, admitindo que a exigência era desnecessária para proteger a justiça competitiva.

A nova política reconhece que a credibilidade do esporte depende da igualdade de oportunidades e de que nenhuma competidora conte com uma vantagem injusta e desproporcional sobre os demais. De todo modo, a nova política estabelece que é ilegal excluir uma atleta da categoria feminina com base em uma suposta vantagem, percebida ou não verificada, relacionada a sua variante sexual, aparência física ou condição de pessoa transgênero. De agora em diante, as restrições de elegibilidade devem ser justificadas por meio de investigações avaliadas por pares levando em conta as características do esporte e as especificidades do grupo demográfico em questão. Ademais, a nova política determina que argumentar que os atletas transgênero contam com uma vantagem injusta e desproporcional compete às instituições esportivas encarregadas por determinar os critérios de elegibilidade para participar nas competições sob sua jurisdição.

O esforço do COI poderia ser interpretado como uma estratégia para evitar lidar com uma questão problemática e incômoda, delegando-a a outras instituições esportivas. Não obstante, a nova política não evita a questão. O COI enfatiza a importância da inclusão como valor primordial (de fato, “inclusão” é o primeiro dos dez princípios que introduz para orientar o trabalho das diferentes instituições esportivas) e estabelece que os critérios de elegibilidade sejam desenvolvidos, interpretados e implementados respeitando os direitos humanos sancionados internacionalmente, considerando os aspectos éticos, sociais, culturais e legais dos diferentes contextos esportivos, e em consulta com os atletas. A ênfase e a inclusão nos direitos humanos têm como objetivo prevenir os danos físico e psicológico, assim como promover a saúde e o bem-estar dos atletas, abarcando a proteção do direito à privacidade. 

Para muitas pessoas pode parecer supérfluo que o COI ponha tanta ênfase na proteção e promoção de valores como a inclusão e os direitos humanos, que são considerados essenciais na sociedade atual. Porém, há muitas boas razões para tal ênfase. Primeiro, há quem afirme que importar certos valores sociais para o esporte desvirtua sua natureza. Por exemplo, para esse grupo, a ênfase na inclusão põe em perigo o equilíbrio e a justiça competitiva e, portanto, o objetivo central da competição esportiva: determinar quem é melhor na resolução de um determinado desafio físico estabelecido e regulado por regras (por exemplo, correr uma determinada distância ou jogar uma bola em um arco). Segundo, as políticas anteriores geraram consequências devastadoras para muitas atletas transgênero e intersexo. Terceiro, dada a discriminação que as pessoas transgênero ainda sofrem cotidianamente, sublinhar a noção de que o esporte deve alinhar-se com o que se pode entender como dignidade humana é não apenas apropriado, mas imprescindível. Isso é ainda mais decisivo para uma instituição que, com base nos fundamentos olímpicos, sua filosofia fundadora, propõe, por meio do esporte, “criar um estilo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educativo do bom exemplo, na responsabilidade social e no respeito por todos os princípios éticos fundamentais universais”.

Parece que a nova política é condizente à promoção de um esporte que executa os ideais do Olimpismo. Apesar disso, as diretrizes deixam muitas questões sem resolução. A já mencionada dificuldade de combinar a promoção e a inclusão com a proteção do equilíbrio e justiça competitiva, cabe adicionar outras questões. Primeiro, embora o COI estabeleça que as instituições esportivas devem demonstrar se uma atleta transgênero possui alguma vantagem injusta e desproporcional, ele não especifica o que significa contar com uma vantagem justa – ou injusta –, tampouco fornece critérios claros para definir a proporcionalidade de uma vantagem. Segundo, as diretrizes fornecidas em relação ao esclarecimento da vantagem que supostamente algumas atletas transgênero teriam são controversas. Por um lado, o COI sugere que pesquisas revisadas por pares devem ser usadas. Embora, não seja claro qual tipo de evidência deve ser considerada. Nesses conflitos, as instituições esportivas têm baseado seu julgamento exclusivamente em variáveis biofisiológicas, como a testosterona, menosprezando a evidência das ciências sociais e das humanidades. Por outro lado, o COI incorpora a urgência de todas as partes envolvidas, especialmente das atletas transgênero, na concepção dos critérios de elegibilidade. Ainda assim, as diretrizes não esclarecem como tais processos deliberativos devem ser conduzidos. 

Com sua nova política, o COI tenta desmantelar a postura reducionista e restritiva que sustenta que as atletas transgêneros têm com uma vantagem injusta e desproporcional inerente “apenas” por causa de sua condição de pessoa transgênero, um motivo que tem sido usado rotineiramente para discriminá-las. Resta saber se a boa intenção do COI resultará em diálogos, práticas e instituições mais inclusivas e justas para que todas as atletas se sintam e sejam bem-vindas; em um novo humus desportivo [solo desportivo] que honre a diversidade da comunidade humana.

*Doutor em filosofia e história do esporte. Docente na Universidade do Estado de Nova Iorque (Brockport).

** Doutor em filosofia. Docente na Universidade do Estado da Pensilvânia (University Park).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 5 de novembro de 2021.