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A Copa do Mundo e a polarização das eleições presidenciais

A camisa da seleção brasileira de futebol não é apenas um símbolo de um país, mas uma marca de um grupo político para algumas pessoas e isto fica mais evidenciado ainda em uma competição como a Copa do Mundo de futebol. A matéria “Camisa da seleção, o símbolo contaminado por rixas ideológicas e negociatas dos cartolas”, com o subtítulo: “Visto como instrumento político em manifestações, uniforme amarelo enfrenta rejeição após escândalos de corrupção que abateram o país e a CBF”, publicada em 17 de junho de 2018, no site El País, mostra entrevistas com pessoas que se recusaram a vestir a camisa da seleção brasileira de futebol, durante a competição, realizada na Rússia, por a associarem aos manifestantes pró-impedimento em 2015 / 2016.

Este forte movimento de ligação da camisa da seleção à política se iniciou na Copa do Mundo anterior. De acordo com De Campos (2015, p. 37), a principal característica da Copa de 2014, que marcou definitivamente a história do futebol, foi a intensa politização. Para o autor, futebol e política entraram em campo com uma disposição tática nunca vista.  Neste mesmo ano, além do megaevento, ocorreram as eleições presidenciais e Aécio Neves, principal adversário de Dilma Rousseff, foi fotografado várias vezes utilizando a camisa da seleção brasileira de futebol e seus eleitores também usaram, por diversas vezes, este vestuário.

As eleições de 2014 estão dentre as mais acirradas do cenário político brasileiro. Durante a campanha, as pesquisas indicavam ora a candidata do PT Dilma Rousseff como a vitoriosa, ora o candidato do PSDB Aécio Neves. Porém, a história foi confirmada: nunca um candidato que ficou em segundo lugar no primeiro turno, ganhou a eleição no segundo turno. Apesar disso, a disputa foi muito grande. Dilma ganhou com uma diferença de 3,4 milhões de votos – a mais apertada vitória desde a redemocratização do país. Em 2010, a própria Dilma bateu o também candidato do PSDB José Serra com uma diferença de 12 milhões de eleitores.

“A derrota apertada contribuiu para que muitos eleitores e seguidores da oposição assumam um comportamento de torcida apaixonada, que estimula a rivalidade e aposta no confronto. Resta saber até quando, em nosso país, saberemos diferenciar os adversários dos inimigos. De qualquer modo, vale insistir, foi através do futebol e de sua importância para a sociedade brasileira, que se tornaram mais explícitos esses conflitos de interesses. Esse é, talvez, o maior legado da Copa. O enfrentamento político com o Brasil diante do espelho.  (DE CAMPOS, 2015, p.38)”

O cenário de rivalidade, muitas vezes, era similar ao futebolístico, uma arena de emoções. Neste caso, gerando até apelidos para designar os “dois lados”, como explicam Chaia e Brugnago (2015:107): “A sociedade foi dividida aos olhos das discussões ideológicas em dois grandes blocos: ‘coxinhas’ e ‘petralhas’. Quem não se encaixa em um desses dois grupos se torna uma anomalia política, um alienado”. (2015, p. 107).

Jessé Souza (2015, p. 250) explica que esta polarização mostra os conflitos reais que racham a sociedade contemporânea brasileira. “A contradição das classes sócias no projeto de construção de uma sociedade para 20% e o projeto inconcluso e incipiente de um Brasil para a maioria da população” (SOUZA, 2015, p. 250).  Desta forma, seguindo esta lógica, o candidato Aécio Neves governaria para uma minoria ligada aos empresários, segmento financeiro e políticos, enquanto Dilma Rousseff tinha uma proposta mais inclusiva, contemplando maior parte da população e, esta diferença de proposta, também contribuiria para a polarização.

Durante a campanha, eleitores de ambos os lados demostraram suas preferências por meio não apenas de comentários, como também de vestimentas, como mostra reportagem do site El País, de 26 de outubro de 2014: “Eleitores vestem azul e amarelo por Aécio, e vermelho por Dilma”. Na reportagem, alusão à camisa da seleção brasileira amarela e à camisa de cor azul em referência ao PSDB, em apoio a Aécio Neves e camisetas vermelhas (cor do PT) em apoio à Dilma, por eleitores que foram confirmar seu voto, neste que foi o dia do segundo turno das eleições presidenciais.

A camisa da Seleção Brasileira passou a ser tão utilizada no âmbito político que a própria Nike, patrocinadora responsável por confeccionar o uniforme, emitiu nota proibindo impressão de nomes que fizessem ligação aos candidatos, já que eleitores tentaram utilizar nomes de Dilma e Aécio e termos como “Fora” em composição de palavras para impressão. Em nota, a empresa explica a medida:

“A Nike não é filiada a nenhum partido político, não só no Brasil como no mundo todo. Além disso, o sistema do website nike.com, como descrito na própria página, não permite customizações com palavras que possam conter qualquer cunho religioso, político, racista ou mesmo palavrões. Este sistema é atualizado periodicamente visando cobrir o maior número de palavras possíveis que se encaixem nesta regra. (Estadão, 11/07/2014) ”

Como o país parecia, de fato, dividido, a ex-presidente Dilma Rousseff teve, durante boa parte do seu mandato, que conviver com manifestações contra sua política de governo. Vale ressaltar que a Copa do Mundo no Brasil ocorreu no final do primeiro mandato e, na cerimônia de abertura na Arena Corinthians, ela foi hostilizada por xingamentos após a execução do hino nacional. A intercorrência iniciou na arena vip e, em pouco tempo, se espalhou por outros espaços do estádio.

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Fonte: Meu Timão

O próprio candidato perdedor, Aécio Neves, também foi visto com a camisa da Seleção Brasileira, da janela de seu apartamento, em Ipanema, enquanto manifestantes estavam nas ruas em protestos, segundo reportagem publicada em 15 de março de 2015, pelo jornal O Estado de Minas. Neste ano, Dilma Rousseff teve que enfrentar diversas manifestações, mas esta foi considerada, pela imprensa como uma das maiores da história. As informações referentes ao número de participantes são conflitantes, mas números da Polícia Militar apontam que cerca de 3,6 milhões de pessoas protestaram em todo o país. As vestimentas mais utilizadas durante os protestos foram as camisas de cores verde e amarela e a camisa da seleção brasileira.

Em agosto de 2016, o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff foi aprovado pelo Senado por 61 votos favoráveis e 20 contrários. Não se pode afirmar ligação direta das manifestações à saída, já que a presidente foi afastada sob a acusação de ter cometido as chamadas “pedaladas fiscais”, mas sim que o uso político da camisa, neste contexto, gerou uma outra visão de alguns integrantes da sociedade para um símbolo que até então estaria no campo do “sagrado”.

Bibliografia

BRUGNAGO, F.; CHAIA; V. A nova polarização política nas eleições de 2014: radicalização ideológica da direita no mundo contemporâneo do Facebook. Aurora: revista de arte, mídia e política, São Paulo, v.7, n.21, p. 99-129, out.2014-jan.2015.

DE CAMPOS, F. A Copa da política em um país do futebol. In MARQUES, J.C. A Copa das Copas? Reflexões sobre o mundial de futebol de 2014 no Brasil. São Paulo: Edições Ludens, 2015.

SOUZA. J. A tolice da inteligência brasileira. São Paulo: Leya, 2015.

Camisa da seleção, o símbolo contaminado por rixas ideológicas e as negociadas dos cartolas. El País, São Paulo, 17 jun. 2018. Disponível em:

<https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/16/deportes/1529108134_704637.html?id_externo_rsoc=whatsapp>. Acesso em 20 de junho de 2018.

Desinteresse de brasileiros pela Copa do Mundo bate recorde, diz Datafolha. O Globo, Rio de Janeiro, 12 jun. 2018. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/desinteresse-de-brasileiros-pela-copa-do-mundo-bate-recorde-diz-datafolha-22769299. Acesso em 28 de junho de 2018.

Paraíso do Tuiuti supera tragédia de 2017, e é vice do Carnaval do Rio. Uol, São Paulo, 14 fev. 2018. Disponível em:

<https://carnaval.uol.com.br/2018/noticias/redacao/2018/02/14/paraiso-do-tuiuti-supera-tragedia-de-2017-e-e-vice-do-carnaval-do-rio.htm>. Acesso em 28 de junho de 2018.

Aécio veste camisa da seleção, mas não se junta a protesto no Rio. Estado de Minas, Minas Gerais, 15 mar. 2015. Disponível em:

https://www.em.com.br/app/noticia/politica/2015/03/15/interna_politica,627766/aecio-veste-camisa-da-selecao-mas-nao-se-junta-a-protesto-no-rio.shtml. Acesso em 28 de junho de 2018.

Dilma é hostilizada durante abertura da Copa do Mundo em São Paulo. G1, São Paulo, 12 jun. 2014. Disponível em:

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2014/06/dilma-e-hostilizada-durante-abertura-da-copa-do-mundo-em-sao-paulo.html. Acesso em 28 de junho de 2018.

Patrocinadora veta nome de políticos em camisetas da seleção. O Estado de São Paulo, São Paulo, 11 jun. 2014. Disponível em

https://economia.estadao.com.br/noticias/negocios,copa-do-mundo,patrocinadora-veta-nome-de-politicos-em-camisetas-da-selecao,1527122. Acesso em 28 de junho de 2018.

BENITES, Afonso; ROSSI, Marina. Eleitores vestem azul e amarelo por Aécio, e vermelho por Dilma. El País, Brasília São Paulo, 26 out. 2014. Disponível em:

https://brasil.elpais.com/brasil/2014/10/26/politica/1414337499_841458.html. Acesso em 28 de junho de 2018.

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Produção bibliográfica

“ARGENTINA/78 – UMA COPA DO MUNDO: POLÍTICA, POPULAR E POLÊMICA”, livro de Álvaro Vicente do Cabo

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A divulgação do livro será no dia 1 de agosto, quarta-feira, às 19h, na Livraria Folha Seca (Rua do Ouvidor, 37 – Centro, RJ).

A programação completa do lançamento do livro encontra-se disponível no blog.

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