Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 59 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo nono episódio é a “Misoginia e racismo no surfe brasileiro”. Com apresentação de Júlio Cesar Barcellos e André Tavares, gravamos com Érica Prado, apresentadora, repórter, produtora de conteúdo, modelo e ex-sufista profissional.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo nono episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Zumbi”, de Jorge Ben.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Negras raízes: A Saga de Uma Família – Alex Harley [Livro]

Eliana Alves [Autora]

Djamila Ribeiro [Autora]

Afrosurf – Mami Wata [Livro]

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Roteiro e produção: André Tavares
Edição de áudio: Abner Rey
Apresentação: Júlio Cesar Barcellos e André Tavares
Convidada: Érica Prado

Artigos

Copa do Mundo e etnocentrismo padrão FIFA


Mesmo promovendo o principal evento do futebol mundial no Catar, um país com leis que legitimam a homofobia, FIFA estende bandeira LGBTQ+ em sua sede. Foto: Divulgação/Twitter oficial da FIFA

Mesmo promovendo o principal evento do futebol mundial no Catar, um país com leis que legitimam a homofobia, FIFA estende bandeira LGBTQ+ em sua sede. Foto: Divulgação/Twitter oficial da FIFA

A Copa do Mundo do Catar trouxe para o futebol mundial muitas discussões importantes sobre o tema desportivo do jogo. Claramente natural a movimentação do assunto, um grande evento, como sempre, movimentou a paixão de torcedores de diversas nações pelo mundo. E a Copa do Catar tem um grande peso de peculiaridade, podemos dar o destaque tanto para o aumento do número de convocados por cada seleção, passando para 26 jogadores, como para a realização da Copa no fim de ano, por conta das altas temperaturas que assolam o país do Oriente Médio no meio do ano (época tradicional para a realização do evento).

Contudo, há questões que vão muito além das 4 linhas, mas que são expressas de forma inconfundível por uma Copa do Mundo. Esporte é política. E, sobretudo, esporte é movimento social. O futebol, nesse caso, é expoente para unir as sociedades, mesmo em meio as diferenças. De modo que, o futebol dentre uma Copa do Mundo possa aproximar nações que não se encontram sequer na ONU – a Fifa tem mais países-membros que a própria Organização das Nações Unidas -, para poder disputar um torneio esportivo movido a paixão.

Entretanto, em 2022, com a Copa sendo realizada no Catar, a FIFA assume a responsabilidade de promover o grande evento desportivo do mundo sem a garantia de seguridade aos cidadãos do mundo. Isto, porque, o Catar é um país onde as diferenças sociais podem ser reprimidas de forma legítima, conforme a legislação disposta no país. Trata-se, portanto, de um exemplo de etnocentrismo imposto ao mundo. Visto que, a FIFA escolhe o país para receber o “mundo”, mesmo que este país não queira receber o mundo em sua forma por acreditar que a diferenciação dentre a cultura imposta pelo governo do Catar seja maligna.

O etnocentrismo é expresso dessa forma. Acreditar que a cultura e os princípios da sociedade pertencente é a ideal ou superior à oposta. 

“Se oferecêssemos aos homens a escolha de todos os costumes do mundo, aqueles que lhes parecessem melhor, eles examinariam a totalidade e acabariam preferindo os seus próprios costumes, tão convencidos estão de que estes são melhores do que todos os outros”, a citação de Heródoto, historiador grego, é mencionada por Roque Laraia em seu livro Cultura: Um Conceito Antropológico e evidencia como a funcionalidade do etnocentrismo pode se tornar ferramenta de preconceito.

Nasser Al Khater, presidente do comitê organizador da Copa do Mundo de 2022, já deu declarações sobre o caso do Catar receber pessoas de todas as partes do mundo: “Somos abertos e acolhedores – hospitaleiros. Compreendemos a diferença nas culturas das pessoas. Entendemos a diferença nas crenças das pessoas e, então, acho que, novamente, todos serão bem-vindos e todos serão tratados com respeito.”.

Porém, a insegurança para as minorias que estarão presente no Catar é inconfundível com a postura que o país adota e prega moralmente. Segundo relatório divulgado pela organização Human Rights Watch (HRW) no final de outubro, uma série de ilegalidades cometidas pelo governo do Qatar contra as pessoas LGBT foram registradas. O governo do Qatar negou as informações do relatório e disse que elas são falsas. Ainda que, no Qatar as relações entre pessoas do mesmo sexo e o casamento igualitário sejam proibidas, além de que judicialmente, as pessoas LGBTQ+ podem ser punidas até 7 anos de prisão.

Ainda tratando das incoerências da FIFA, o presidente do comitê da Copa, Nasser Al Khater, tentando contornar o assunto declarou que o Catar será hospitaleiro e receberá bem quaisquer pessoas, incluindo pessoas com relação homoafetiva, porém, destacou como relações afetuosas devem ser vedadas no país:

“O Catar e a sua região são mais conservadores, então as demonstrações públicas de afeto, que são desaprovadas, devem ser evitadas. É a única indicação a ser respeitada, tirando isso, cada um pode viver sua própria vida. Só pedimos aos torcedores que respeitem”.

É com essas demonstrações de intolerância e homofobia que nos situaremos na copa do mundo de 2022. O futebol, assim como qualquer meio social, sempre foi conhecido por ser um âmbito de “habitação” ao machismo e a homofobia, mudar esse quadro é necessário e a luta para o respeito das diversidades e diferenças é essencial. 

Contudo, a escolha da FIFA pelo Catar como sede da Copa do Mundo passa a sua mensagem: será bem-vindo ao evento quem não for diferente ao que a cultura do país considere aceitável. É em meio a esse abraço ao preconceito, que a FIFA, em junho de 2021, se declarou contra a discriminação, através de sua secretária geral Fatma Samoura: 

“Fifa está orgulhosa em apoiar o Mês do Orgulho e celebrar jogadores, técnicos, dirigentes, funcionários, voluntários, líderes e fãs LGBTQIA+ ao redor do mundo. Futebol é um jogo de equipe. Pertence a cada um de nós. A Fifa tem tolerância zero com qualquer forma de discriminação”.

Referências 

UOL. Fifa estende bandeira LGBT em sua sede: ‘Tolerância zero com discriminação’. 25 jul. 2021. Disponível em < https://www.uol.com.br/esporte/ultimas-noticias/2021/06/25/fifa-bandeira-lgbt-sede.html. Acesso em 07 out. 2022.

TERRA. Catar diz que vai ‘acolher’ gays na Copa, mas proíbe beijos. 01 dez. 2021. Disponível em < https://www.terra.com.br/esportes/futebol/copa-2022/catar-diz-que-vai-acolher-gays-na-copa-mas-proibe-beijos,d2b42b89aab201785285cb10ef5bdc35u9ox2a4h.html.  Acesso em 07 out. 2022.

LARAIA, Roque de barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

Artigos

O maximalismo e os óculos da soberba

O estilo maximalista adotado por grande parte dos 26 “foras de série” que representaram nosso país na Copa do Mundo 2022, promovida pela FIFA, foi usado para “contar a narrativa do hexa”. Título prometido ao “Mito” que, junto a sua vitória nas urnas, dariam, sim, um novo valor simbólico à camisa canarinho (e a Bandeira Nacional). 

Este estilo, construído de fora para dentro, com cabelos criados por “personal hair style”, headphones exclusivos banhados a ouro ou inseridos em óculos de design avançado (por acaso estilo dos anos 1980) junto às coreografias dignas dos musicais da Broadway, fizeram parte deste “mais é mais” promovido por esta casta de privilegiados que esqueceram de fazer o principal (os Gols), com o intuito de maximizar as experiências do consumidor (torcedor em outras épocas), mascarar a realidade do futebol brasileiro atualmente em cartaz  e o clima político vivido no momento.

Todos esses elementos, em conjunto com a soberba dos mitos socialmente construídos, não permitem avaliar com precisão a força à disposição, como também os leva a desconsiderar de forma arrogante a força dos oponentes, sempre sob a tutela da mídia e sua fome de audiência. Nunca perdemos porque os outros demonstraram superioridade e sim porque por algum motivo nós permitimos.

Está na hora de esquecer esses mitos de origem, campeonatos morais e glórias históricas que não entram em campo e revisitar conceitos, ou então mudar o método pedagógico formativo, se é que existe algum método nesse campo. 

Já se vão cinco Copas do Mundo onde os protagonistas em campo, dirigentes, “cartolas” e a imprensa esportiva especializada (em entretenimento) prometem aprender com a derrota e voltar mais fortes na próxima (?). No atual contexto, fica evidente que não se aprende com a derrota, se aprende corrigindo os erros. E a primeira atitude a ser tomada para ter êxito é identificá-los e reconhecê-los. Simplesmente admitir a derrota torna-se ineficaz, ela é óbvia, normalmente testemunhada ao vivo por alguns bilhões de espectadores ao redor do planeta.

Fonte: Esportes R7

O reconhecimento desses erros revela invariavelmente os CPFs da autoria, deixando a descoberto indivíduos ineptos ou incompetentes e exigem principalmente um “minha culpa” público. Nobre atitude que nunca tiveram, têm ou terão, enquanto uma casta desprovida de ética. Que ao invés de buscar o sportswashing, procurem superar as dificuldades, transpor os obstáculos com vistas à construção de um espaço de ordem onde curriculum, tradição, história e peso de uma camisa tenham seu devido lugar: no imaginário da torcida e da imprensa (e não no campo de jogo). 

Num esporte coletivo, a identificação de um “vilão” para o fracasso não exime os “pecados”, pelo contrário, relativiza a análise da derrota, jogando uma máscara na realidade. A falta de críticas construtivas nas vitórias (onde não haveria nada a melhorar) colaboram para permanência da atual conjuntura.  

Partindo de algumas hipóteses vou tentar contestar algumas “verdades” travestidas de tradição que regem este imaginário popular:

  • Somos o país do futebol… Será?

Em primeiro lugar, se fôssemos, estaríamos para o futebol, como os Estados Unidos estão para o basquete – mesmo que eles não se autodenominem o “país do basquete” ou como os africanos estão para as maratonas.

Segundo, deveríamos ter políticas públicas oriundas da CBF, que no lugar de organizar campeonatos regionais e/ou nacionais, limitasse sua atuação às Seleções Nacionais e seus compromissos esportivos. Brindasse apoio material, técnico e de infraestrutura aos Estados e Municípios para normatizar, desenvolver e fiscalizar o futebol infantil, que hoje está na mão de “experts” travestidos de pseudoeducadores nas “Escolinhas de Futebol” com a “marca” de craques do passado que nem conhecem o espaço físico onde estas ficam localizadas.  

Terceiro, sendo o “país do futebol” dono dos jogadores mais habilidosos e técnicos do universo e única seleção pentacampeã Mundial, deveríamos ter mais protagonismo global. Pelo contrário, utilizamos o futebol como mais uma commodity: exportamos “pé de obra” (DAMO) e importamos o espetáculo pronto, repatriamos craques aposentados e retransmitimos ao vivo as Ligas mais poderosas do mundo, pagando royalties para assistir alguns outrora meninos nossos da periferia. 

Não é por acaso ou por abuso infantil que os meninos brasileiros são recrutados cada vez mais cedo. E então levados para centros de excelência para serem formados ética, moral e esportivamente.  

A exportação da maioria de nossos jogadores tem como destino as ligas menores. São poucos aqueles que atuam nas ligas Inglesa, Alemã, Espanhola, Italiana ou Francesa e o mais sintomático: nossos Técnicos não frequentam (nem frequentaram) as ligas da elite mundial.

O acaso não é responsável de que a Licença de Treinador da CBF na Europa, valha o mesmo que minha carteira de motorista… a UEFA não reconhece e não autoriza seu portador a exercer função remunerada no continente. 

A título de curiosidade, podemos olhar para as 10 últimas Copas do Mundo e contar quantos técnicos brasileiros estão ou estiveram a frente de seleções europeias, ou para ir geograficamente mais perto, olhar nas últimas cinco edições da Copa América e fazer o mesmo levantamento[1].

Também caberia fazer essa pesquisa em nível de Clubes nas cinco maiores Ligas do velho continente, sem atribuir isso à barreira idiomática… Portugal não deixa.  

Os argentinos, por exemplo, também teriam essa barreira, e mesmo assim têm simultaneamente quatro ou cinco técnicos nas maiores ligas europeias, sendo também maioria nas Seleções sul-americanas.

O reconhecimento desse fato fica evidenciado quando após a saída do “Mister” Tite, (aquele mesmo, que abandonou os guerreiros caídos no final da batalha após a derrota) a CBF busca um não-nativo para comandar o próximo “ciclo” mundial à frente da Seleção Nacional. Deve ser reflexo de que nos últimos 5 anos no Brasil, os técnicos que brilharam por estas terras eram estrangeiros, entre eles Jorge Jesus e Abel Ferreira.

  • Somos os únicos pentacampeões … E daí? 

O título de pentacampeão, por si só, não confere nenhuma vantagem ou meritocracia ao portador. O histórico não alinha em campo nem converte gols.

Se fizermos uma leve reflexão, perceberíamos que nos últimos 52 anos (meio século) não existe hegemonia de seleção alguma no planeta. Tanto Brasil quanto Argentina e Alemanha, ganharam três edições da Copa do Mundo cada uma.

  • Somos a única seleção a participar de todas as Copas… Mérito próprio? 

Verdade, somos a única a participar de todas as Copas e não temos que nos orgulhar disso. A geopolítica (e não a classificação na bola, via eliminatórias) nunca atuou contra a Seleção Brasileira, nunca barrou a sua participação por motivos burocráticos ou políticos, como fez com algumas nações. Portanto somos os únicos que participamos de todas as edições do evento sim, sem contestação, de novo… qual o mérito, por quais motivos?

Na Copa do Mundo da França, em 1938, a FIFA deixou de fora a Espanha porque em 1937 o país atravessava um conflito armado por conta da guerra civil e não permitiu que disputasse as eliminatórias.

No Brasil, em 1950, a ONU (Organização das Nações Unidas) solicitou à FIFA que excluísse Alemanha e Japão por conta de sanções impostas pela entidade em 1945, após o término da Segunda Guerra Mundial.  

Na Copa de 1954 na Suíça, as representações de Bolívia, Costa Rica, Cuba, Índia, Islândia e Vietnã não cumpriram o prazo de inscrição e perderam as Eliminatórias. 

Em 1958, na Suécia, onde o Brasil se sagrou Campeão pela primeira vez, a FIFA limitou o número de participantes deixando de fora os africanos, que à época tinham acabado de formar sua Confederação e disputavam as eliminatórias junto aos asiáticos, e enviaram por último a documentação (Rígida a FIFA, né?). A África do Sul ficou de fora devido ao regime do Apartheid, e Turquia, Indonésia e Sudão se retiraram das disputas por se recusarem a enfrentar a seleção de Israel.

Em 1966, na Inglaterra, a África do Sul permaneceu de fora pelo Apartheid e os demais países africanos não compareceram por achar injusta a forma de disputa[2]. As Filipinas que não efetuaram o pagamento das taxas de inscrição, além de Congo e Guatemala, que perderam o prazo de inscrição, também foram excluídas.

Em 1970, no México, quatro seleções tiveram os pedidos rejeitados pela FIFA, mas as razões são desconhecidas. Albânia, Cuba, Guiné e Zaire foram as barradas da vez.

Nas edições de 74 e 78 não houve interferência alguma da FIFA. Somente em 1982, na Espanha, a República-Centro-Africana ficou de fora por não efetuar o pagamento das taxas. 

Na Copa do México, em 1986, vencida pela Argentina, mais uma vez um conflito armado decide a participação ou não de uma nação. Irã e Iraque foram os protagonistas do confronto, e somente o primeiro ficou de fora. O Iraque foi autorizado a participar das eliminatórias e se classificou para a disputa.  

Ao tentar fraudar a FIFA, inscrevendo jogadores acima da idade permitida (vulgo gatos) para o Mundial Sub-20 de 1989, o México foi punido, sendo proibido de disputar a Copa do Mundo de 1990, na Itália. As representações de Belize, Ilhas Maurício e Moçambique não disputaram as Eliminatórias por dívidas com a entidade máxima do futebol.

Um fato ocorrido no Maracanã em 1989, na última rodada das Eliminatórias para 1990, protagonizada por um sinalizador e o goleiro chileno Rojas, suspendeu o Chile da Copa dos Estados Unidos de 1994 por simulação e fraude. Rojas foi banido do futebol e vários jogadores foram suspensos. A ONU pediu também a suspensão da Iugoslávia e da Líbia, devido ao conflito dos Balcãs e a atentados terroristas, respectivamente.

Nas Copas de 2014 e 2018, a tentativa de interferência de Governos nas respectivas federações, tirou da Copa o Brunei e a Indonésia, respectivamente.

Por último, na Copa de 2022, no Qatar, a FIFA desfiliou a Rússia pela invasão (em curso) da Ucrânia, deixando-a de fora da disputa da repescagem e por consequência, da Copa do Mundo. Como podemos perceber, o mérito de o Brasil ter participado de todas as edições do maior evento do planeta é exógeno.

Dito isto, acho que está na hora de deixar de pensar o futebol brasileiro como um museu (que vive do passado) ou como um ser acadêmico (que vive de curriculum). Deixar de pensar que as derrotas são fruto de conspirações e, principalmente, que gostamos de futebol, gostamos mesmo é de ganhar. Se gostássemos de futebol, não vibraríamos com a eliminação de uma seleção ou estaríamos torcendo para outra ser eliminada, só pelo fato de serem concorrentes, nem escolheríamos (quando possível) qual time preferíamos enfrentar na seguinte fase. 

Outro sentimento que (convenientemente) não temos muito claro, por exemplo, é referente aos nossos vizinhos de continente: “Com Argentina e com Uruguai temos rivalidade”, por isso torcemos contra. 

Não, contra eles temos alteridade Como gostaríamos de ter ganho a Copa de 1950, já seríamos hexa… Também não ter perdido a Copa América 2021 no Maracanã para esses racistas (nós não, eles…) … “Ganhar é bom, mas ganhar da Argentina é muito melhor”… Como seria bom ter, além do penta, cinco Prêmios Nobel e dois Oscar no cinema.Quiçá os óculos maximalistas da soberba não nos permitam perceber nada do acima exposto. Se despir dela, a soberba, seria no meu humilde entender, o primeiro passo para mudar o estado da arte. O simples fato de ter participado de todas as Copas, ou de ser a única pentacampeã são argumentos paupérrimos como único pilar de orgulho de qualquer Nação e sem relevância fora do eixo histórico.


[1] Os treinadores argentinos estão representados em todos os lugares. Na Copa do Mundo 2018 eles eram maioria, e comandaram cinco das 32 seleções. Na fase de grupos da Copa Libertadores 2020, conduziram 14 dos 32 participantes. Um estudo recente publicado pelo Centro Internacional de Estudos do Futebol, na Suíça, revelou que, de todo o mundo, o país que mais tem técnicos em atividade em outras ligas é justamente a Argentina. São 68 representantes em 22 países diferentes. O Brasil tem só 16.

[2] Em 1964, todos os países africanos boicotaram a FIFA devido à forma como as Eliminatórias de lá eram disputadas. Os africanos não tinham vaga garantida. O vencedor do continente deveria disputar ainda com os vencedores da Ásia e da Oceania o direito de disputar o Mundial. O protesto não funcionou para aquela Copa e as Eliminatórias continuaram a ser disputadas daquela maneira, sofrendo alterações apenas no Mundial seguinte, em 1970. Disponível em https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2022/09/17/quais-paises-ja-foram-barrados-da-copa-do-mundo.htm?

Artigos

O verde e amarelo volta à cena

Há alguns dias, pensando sobre qual seria o tema que abordaria nesse artigo, achei que gostaria de falar sobre um que tem me interessado particularmente nos últimos tempos: como os hábitos funcionam e, de que forma eles influenciam positivamente ou negativamente a vida das pessoas.

No entanto, há nove dias do início da Copa do Mundo Catar 2022, me senti compelida a abordar outro tema que tem movimentado bastante as redes nos últimos dias, aconvocação dos jogadores.

Com a internet os consumidores perderam a inibição e a cada dia se sentem mais à vontade para exercerem seu direito à liberdade de expressão nas plataformas digitais, inclusive o “jus sperniandi”, ou melhor, o direito de espernear.  Foi assim no último dia 7, depois do técnico Tite anunciar na sede da CBF a lista com os 26 jogadores que farão parte da seleção brasileira na Copa do Mundo. Como em convocações passadas, a lista sempre é motivo de polêmica. Dessa vez o alvo foi o lateral direito Daniel Alves, ex-jogador do Barcelona e atualmente no Pumas, do México, que ganha mais uma vez a oportunidade perdida em 2018 quando, por causa de uma lesão no joelho, não disputou a Copa do Mundo da Rússia.

No Twitter, a reação à convocação do jogador, que está treinando com o time B do Barcelona desde 12 de outubro pelo fato do Puma estar sem calendário de partidas, não demorou. Não faltaram discussões e memes, principalmente em alusão à idade do lateral-direito, que está com 39 anos. Em uma das imagens transmitidas, que viralizou na internet, um senhor pilotando uma scooter para idosos com a bandeira do Brasil parte pra cima de uma simpatizante petista. No texto que acompanha a imagem, “Daniel Alves dando carrinho no Mbappe em plena final da Copa do Mundo”, em alusão à suposta diferença de qualidade técnica em relação ao atacante Mbappé, um dos destaques da seleção francesa.

Outras imagens retiradas das manifestações políticas que geravam interações ininterruptas relacionadas a Lula e Bolsonaro no Twitter também foram aproveitadas nas postagens, que ultrapassaram a marca de um milhão de respostas. Numa delas, o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, é convocado para impedir a ida de Daniel Alves para o Catar. 

Na imagem abaixo, o motivo do protesto do homem no caminhão que já tinha movimentado as redes, passa a ser a convocação de Daniel Alves que, em 2021, ajudou Brasil a conquistar o ouro olímpico participando de todos os jogos e com uma atuação importante como capitão e líder do grupo. Além disso, com 42 conquistas, é o maior campeão da história do futebol. O que remete aos limites tênues existentes entre heróis e vilões no futebol ressaltados pela pesquisadora Leda Maria da Costa.

“Tanto a derrota quanto a vitória podem filtrar nossa opinião acerca de uma determinada jogada e de um determinado jogador. E os vilões nascem em meio ao turbilhão provocado por uma derrota (COSTA, 2008, p.12)”.

A vitória de Lula nas urnas talvez tenha contribuído, em parte, para a revolta da opinião pública em relação à convocação de Daniel Alves, que chegou a declarar publicamente apoio à candidatura derrotada à reeleição do presidente Jair Bolsonaro. Polêmicas à parte, a convocação e a proximidade da estreia da seleção brasileira tirou momentaneamente o foco na divisão existente na sociedade. O atual  hábito de polarização que era comum entre os nossos antepassados, cuja sobrevivência dependia da lealdade e de tratar adversários como inimigos mortais, numa democracia, pelo menos teoricamente, deveria ter sido substituído  pelo diálogo e pelo convencimento através de propostas claras. No entanto, orientadas por algoritmos, as próprias redes sociais fomentam esse e outros tipos de violência.

A partir de Pariser (2011), recorre-se a terminologia de “filtros-bolha”, que permitem apenas que determinados conteúdos circulem criando uma percepção falsa de Espaço Público e opinião pública onde, teoricamente, “todos” falam e a “maioria concorda”. Nesse sentido, Tite demonstrou em resposta às perguntas feitas durante a coletiva em que anunciou os convocados, um certo desdém em relação a essa maioria que movimenta as redes sociais.

Em conformidade com esse pensamento, Byung-Chul Han defende em entrevista ao jornal El País de Barcelona que a comunicação global contemporânea só tolera os iguais:

 “Sem a presença do outro, a comunicação degenera em um intercâmbio de informação: as relações são substituídas pelas conexões, e assim só se conecta com o igual; a comunicação digital é somente visual, perdemos todos os sentidos; vivemos uma fase em que a comunicação está debilitada como nunca: a comunicação global e dos likes só tolera os mais iguais; o igual não dói!” (HAN, 2018, online).

Como disse o presidente eleito, talvez seja o momento, de diminuir a violência para com quem pensa diferente e substituir o hábito de vestir a camisa verde-amarela para fomentar disputas ou questionamentos em relação ao resultado das eleições, por outro mais saudável, o de torcer pelo hexa, pelo espírito de liderança de Daniel Alves e pela manutenção da democracia no país.

Referências

COSTA, Leda Maria da. A trajetória da queda: as narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo.  Tese (doutorado), Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Letras, 2008.

HAN, B-C. Byung-Chul Han: “Hoje o indivíduo se explora e acredita que isso é realização”. [Entrevista concedida a] Carles Geli. Jornal El País, Barcelona, 7 de fevereiro de 2018.

PARISER, Eli. The filter bubble: what the internet is hiding from you, 2011. Disponível em: https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=-FWO0puw3nYC&oi=fnd&pg=PT3&dq=Parisier+2011&ots=g5MuBmtRW_&sig=te_T1BjCRl9wT4upZonKkyIVF0w#v=onepage&q=Parisier%202011&f=false

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 58 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo oitavo episódio é a “A profissionalização do futebol no Brasil”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Abner Rey, gravamos com Marcelo Proni, professor de Economia da Universidade Estadual de Campinas e doutor em Educação Física também pela UNICAMP.

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Siri jogando bola”, de Luiz Gonzaga.

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Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Filipe Mostaro e Fausto Amaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Filipe Mostaro
Apresentação: Filipe Mostaro e Abner Rey
Convidado: Marcelo Proni

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 57 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo sétimo episódio é a “Copa do mundo de 1962: a Copa do Rádio”. Com apresentação de Filipe Mostaro e Júlio César Barcellos, gravamos com José Carlos Marques, professor associado da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Bauru).

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O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo sétimo episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Garrincha”, de Antonio Nóbrega.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Júlio César Barcellos e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Filipe Mostaro
Apresentação: Filipe Mostaro e Júlio César Barcellos
Convidado: José Carlos Marques

Artigos

Normal por Normal, Brilhante por Brilhante

Em ano de Copa do Mundo, uma coisa é certa: ÁLBUM DA COPA!!

Esse ano a atividade ficou sob judice para uma grande parte das pessoas, afinal, a inflação de 100% que acometeu os pacotinhos desde a última Copa não promovia uma decisão favorável para essa causa na qual o Juiz, ou a Juíza, era uma mãe, um pai, ou você mesma/o.

Olhar para os números dá vontade de chorar. Em 2006, os pacotinhos custavam R$ 0,50 (!!!). Na Copa de 2010, R$ 0,75. Quatro anos depois, aqui no Brasil, R$ 1,00. Na última Copa, R$ 2,00 e até que chegamos a esse ano, em que o papel parece ser um produto em escassez e a tinta colorida uma espécie em raridade, o que leva o torcedor a pagar suados 4 reais por pacotinho.

Nem tudo, porém, joga contra essa atividade. O suspense ao abrir cada pacotinho, o frisson da troca, a corrida por completar o álbum e a concentração na hora de colar são fortes argumentos a favor dos colecionadores. E ainda sobre o preço, um ponto a favor é que, em determinados lugares, você pode parcelar as figurinhas! Para que pagar hoje, se podemos deixar para o mês que vem?!

E vale destacar, além disso, que o colecionismo é uma atividade democrática. Tem gente, pingo de gente, gente que nem sabe que é gente, tem gente que tá no segundo álbum, no terceiro álbum, no de capa dura, no de capa norma, tem gente que tá colecionando para o filho ou para a filha (aham, sei), tem gente que tá colecionando para o namorado ou para a namorada (aham, sei), tem gente que só quer o time do Brasil, e gente que só quer o time da Islândia, e por aí vai…

Engana-se quem pensa, porém, que a troca de figurinhas é uma atividade simples. Talvez seja o momento mais sensível do processo. Não existem leis escritas, mas há algumas convenções. Em geral, normal por normal, brilhante por brilhante, ou três normais por uma brilhante. Mas é preciso ressaltar uma coisa. A troca de figurinhas pode revelar o lado mau do ser humano. Algumas pessoas usam o momento para passar a perna nos outros, ou fazer negócios nada justos. Tem quem venda por preços não compatíveis com a realidade, e quem faça a famosa chantagem emocional do tipo “eu te dou as que você precisa, se você me der todas as suas figurinhas”. Para alguns, uma máfia. Para outros, um negócio. Para a maioria, uma diversão.

Fonte: Agência Brasil

Ah, e tem uma outra coisa muito importante. Eu peço, imploro, ajoelho, clamo pelos deuses do futebol: botem as figurinhas em ordem!!!! Pode ser crescente, decrescente, organizar por grupo, por país, de cabeça para baixo, de cabeça para cima, mas que seja em ordem! Um bolinho em ordem intimida muitos bolinhos por aí, rende elogios e até simpatia na hora da troca. É daquelas leis não escritas. É uma espécie de dever moral ético do cidadão trocador!

Mas talvez, nessa atividade, a missão mais difícil seja explicar para as pessoas a importância do Álbum da Copa. Tenho uma humilde teoria de que nós, torcedores, formamos uma classe de incompreendidos por aqueles que não compartilham nossa paixão. Como não entender que devemos, a cada nova banca de jornal, comprar ao menos 5 pacotinhos? Como não entender que é necessário sair à noite, no frio do Rio de Janeiro, para tentar completar a seleção do País de Gales? E, por fim, como não entender que colar as figurinhas é uma atividade de altíssima precisão, e não pode ser feita por qualquer um?

Protejam seus álbuns e troquem figurinhas!! Aliás, estou com umas repetidas aqui… quem quiser trocar é só deixar nos comentários. As regras, vocês já sabem, normal por normal, brilhante por brilhante…

Artigos

A Copa do Mundo masculina e as escolas

A importância de pensar a competição como um fato cultural transcendente que vale a pena abordar a partir das instituições de ensino. Um olhar a partir da antropologia e da filosofia.

O ministro da Educação da Nação, Jaime Perczyc, foi questionado há alguns dias sobre o que as escolas fariam durante a Copa do Mundo masculina que ocorrerá no fim do ano no Catar. Sobre isso, ele afirmou: “Acreditamos que as partidas da Argentina devem ser exibidas nas escolas e repletas de conteúdo”. E acrescentou que o evento “é uma excelente oportunidade para despertar o interesse e para trabalhar vinculando questões de ética, história, ciências sociais, geografia, literatura ou matemática”.

As declarações de Perczyc dão continuidade a uma saudável iniciativa que o ministério apoiou ao menos nas últimas quatro edições do mundial masculino. Desde 2006, publica, como esclareceu a cartilha daquele ano, “material didático (para explorar a Copa do Mundo) para todas as escolas do país”. Quatro anos depois, a publicação destacou que tinha “um objetivo claramente definido e que é transformar a Copa do Mundo de 2010 em uma oportunidade educacional”. Em 2014, Perczyc, então Secretário de Educação do país, indicava: “A escola pode se apropriar dessa enorme oportunidade pedagógica” e é capaz de “incluir nas salas de aula as experiências que nos fazem ser quem somos”. A apresentação da última publicação, em 2018, destaca que o torneio é um evento cultural transcendente que as escolas deveriam abordar.

Nessa iniciativa, subjaz uma concepção de esporte, proposta pelo antropólogo Clifford Geertz, como um texto (uma estrutura simbólica criada e sustentada coletivamente) por meio do qual as pessoas contam histórias sobre si mesmas. Seu colega Eduardo Archetti dizia, de forma diferente, mas com pontos de contato: o esporte é um espelho para se ver e ser visto. Essa atividade, prosseguia, é “um espaço para a produção de imaginários, símbolos e heróis”. Ver-se e ser visto implica, nos termos de Geertz, narrar-se. Dessa forma, o futebol, por sua popularidade, se articula como um texto digno de interpretação, porque nele se manifesta o ethos (ou caráter) de um povo. Por essa razão, Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde se aprende esse ethos. Assim, Perczyc explicou que o futebol nos faz ser quem somos.

“É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina, articulando o futebol como um texto, bem como uma prática social intrinsecamente valiosa.”

A concepção geertziana de esporte é adequada para que os professores forneçam conteúdo à Copa do Mundo masculina. Abordar e investigar o que o futebol, nacional e internacional, nos diz abre ricas oportunidades para vinculá-lo a diferentes áreas do currículo atual. Afinal, entende-se melhor como se manifesta o ethos nacional no mundial masculino de futebol, e como nos familiarizamos com ele e com suas complexidades, analisando sua história, suas dimensões sociais, políticas e econômicas, bem como suas relações com outros textos como a música, o cinema ou a literatura. Geertz propunha que as sociedades contêm, nos esportes e demais textos, suas próprias interpretações. “A única coisa necessária”, afirmou, “é aprender a maneira de ter acesso a elas”. A articulação pedagógica cuidadosa e contínua da Copa do Mundo masculina nas escolas contribui para esse aprendizado.

Fonte: Terra

Apesar de suas vantagens, a concepção geertziana de esporte tende a ser complementada pela ênfase em sua lógica constitutiva e sua moralidade interna, questões que podem ser perdidas de vista ou relegadas ao enfatizar que é um meio de dizer “algo sobre algo”. Seguindo o filósofo Alasdair MacIntyre, pode-se argumentar que o esporte é uma prática social. Ou seja, é uma atividade coerente e complexa, de caráter cooperativo, com bens internos (aqueles que só se materializam pela prática em questão – no caso do futebol, suas habilidades e táticas), padrões de excelência e virtudes. Os dois primeiros elementos são importantes porque, ao constituí-los e defini-los, conferem às práticas sociais uma identidade própria e única.

O terceiro porque permite sua manutenção e prosperidade. Neste sentido, o esporte é intrinsecamente valioso. Reconhecê-lo como tal abre a possibilidade de levar uma vida significativa marcada pelo seu cultivo e enobrecimento. Essa perspectiva do esporte também deve fazer parte do conteúdo que os professores fornecerão na próxima Copa do Mundo masculina. O evento facilita e convida a explorar o lugar que deveria ocupar o futebol em uma vida satisfatória, o que significa viver o futebol com sucesso ou que tipo de satisfação emerge de uma vida futebolística.

“Geertz argumentou que o esporte é um tipo de educação sentimental onde  se aprende o ethos de um povo.”

É possível, e muito proveitoso, fornecer conteúdo para a próxima Copa do Mundo masculina articulando o futebol como texto e como prática social intrinsecamente valiosa. Isso, como destacou Alberto Sileoni, então Ministro da Educação do país, em 2014, deve ser feito criticamente e questionando preconceitos, para fazer suas próprias perguntas, evitando estereótipos e “remontando uma realidade mais ampla, mais rica e, sobretudo, enraizada nos valores de liberdade, justiça e democracia”. Somente assim se “aproveita, educativamente, essa genuína paixão nacional”. A chave é quebrar as maneiras pelas quais, muitas vezes, o esporte marginaliza.

As recentes declarações de Perczyc foram feitas durante a Copa América feminina. Infelizmente, esse torneio só é acessível com uma assinatura de um canal de televisão a cabo. Seria acertado que as assimetrias de gênero no futebol, que invisibilizam a categoria feminina, fizessem parte da iniciativa do Ministério da Educação. A cartilha elaborada para o mundial masculino de 2018 explicava que “nos últimos tempos, as mulheres vêm conquistando espaços de participação ao derrubar barreiras que as excluíam e as renegavam”. No entanto, apesar desses avanços, ainda estamos longe da igualdade de gênero. Quando chegará o dia em que as autoridades educacionais permitirão e incentivarão a assistir às partidas mais importantes da seleção feminina de futebol nas escolas? Afinal, o futebol feminino também diz algo sobre a sociedade e forma um horizonte vital para suas praticantes.

* Cesar Torres é doutor em Filosofia e História do Esporte. Professor da State University of New York (Brockport).

Texto originalmente publicado pelo site Página 12 no dia 23 de julho de 2022

Tradução: Anabella Léccas e Fausto Amaro

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 54 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo quarto episódio é a Copa do Mundo de 1958: o primeiro triunfo. Com apresentação de Filipe Mostaro e Abner Rey, gravamos com Diana Mendes, professora da Universidade Federal de São Paulo e doutora em História.

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo quarto episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “A taça do Mundo é nossa”, de Wagner Maugeri, Lauro Müller, Maugeri Sobrinho e Victor Dagô.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Abner Rey e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Filipe Mostaro e Abner Rey
Convidada: Diana Mendes

Produção audiovisual

Já está no ar o episódio 53 do Passes e Impasses

O tema do nosso quinquagésimo terceiro episódio é a Reputação e Imagem em Clubes de Futebol. Com apresentação de Leticia Quadros e Caroline Rocha, gravamos remotamente com Ary Rocco, pós-doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP e vice-coordenador do Laboratório de Gestão, Políticas, Marketing e Comunicação em Esporte e Educação Física (LAGECOM-EEFE/USP).

Acesse o mais novo episódio do podcast Passes e Impasses no SpotifyDeezerApple PodcastsPocketCastsOvercastGoogle PodcastRadioPublic e Anchor.

O podcast Passes e Impasses é uma produção do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte em parceria com o Laboratório de Áudio da UERJ (Audiolab). O objetivo do podcast é trazer uma opinião reflexiva sobre o esporte em todos os episódios, com uma leitura aprofundada sobre diferentes assuntos em voga no cenário esportivo nacional e internacional. Para isso, contamos sempre com especialistas para debater conosco os tópicos de cada programa.

Você ama esporte e quer acessar um conteúdo exclusivo, feito por quem realmente pesquisa o esporte? Então não deixe de ouvir o quinquagésimo terceiro episódio do Passes & Impasses.

No quadro “Toca a Letra”, a música escolhida foi “Saudades do Galinho”, canção de Moraes Moreira.

Passes e Impasses é o podcast que traz para você que nos acompanha o esporte como você nunca ouviu.

Ondas do LEME (recomendações de artigos, livros e outras produções):

Equipe

Coordenação Geral: Ronaldo Helal
Direção: Fausto Amaro e Filipe Mostaro
Roteiro e produção: Caroline Rocha e Carol Fontenelle
Edição de áudio: Leonardo Pereira (Audiolab)
Apresentação: Leticia Quadros e Caroline Rocha
Convidado: Ary Rocco