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E se a estreia do surfe nas Olimpíadas fosse numa piscina de ondas

Jonne Roriz/COB

A jornada até a estreia do surfe nos jogos olímpicos foi longa e durou mais de um século se considerarmos que o havaiano, tricampeão olímpico de natação, Duke Kahanamoku pleiteou a entrada do surfe nos jogos de Estocolmo, em 1912 (STACHEVSKI, 2020). Desde aquela época até 2021 muito se especulou sobre o ingresso do surfe nos jogos, e paralelamente muita coisa mudou dentro do esporte, mas é inegável que mídia teve um papel preponderante ao pavimentar esse caminho até a praia de Tsurigasaki, no Japão, já que cristalizou boa parte dos valores que hoje fazem parte do imaginário em torno do esporte, como a ligação com a natureza e a juventude[1] (FORD e BROWN, 2006), assim como provavelmente tornou o esporte mais atraente para o Comitê Olímpico Internacional (COI) ao torná-lo mais popular e expandir o tamanho da audiência no mundo ao longo do tempo. Estima-se que existam hoje 40 milhões de surfistas ativos e mais de 370 milhões de pessoas em todo o mundo interessadas no esporte[2].

O time brasileiro, composto por Gabriel Medina, Ítalo Ferreira, Silvana Lima e Tati Weston Webb, confirmou o favoritismo com a vitória do atual campeão mundial, Ítalo Ferreira, que conquistou o primeiro ouro do Brasil em Tóquio e fez história ao ser o primeiro medalhista olímpico de ouro na modalidade [3]. No total participaram 40 surfistas, 20 homens e 20 mulheres, de 18 países: Argentina, Austrália, Brasil, Chile, Costa Rica, Equador, França, Alemanha, Indonésia, Israel, Itália, Japão, Marrocos, Nova Zelândia, Peru, Portugal, África do Sul e Estados Unidos. Uma pluralidade que incluiu nações sem tradição no esporte e que não é vista na principal liga de surfe mundial, a World Surf League (WSL), que é historicamente dominada por Australianos, Americanos e Havaianos.

Mas a questão que gostaríamos de levantar neste artigo é sobre o palco onde ocorreram as disputas. Ao longo da trajetória do lobby para que o surfe figurasse entre os esportes olímpicos cogitou-se que seria fundamental ter a estrutura e a tecnologia das piscinas de ondas para que fosse possível a entrada do esporte nos jogos. Em um encontro entre o presidente da International Surfing Association (ISA), Fernando Aguerre, e o então presidente do COI, Jacques Rogge, em 2009, este último chegou a afirmar que sem as piscinas a probabilidade do surfe entrar no evento era muito baixa (STACHEVSKI, 2020, p. 52). A preocupação justificava-se em parte por conta da necessidade de praias com ondas nas cidades sede do evento, como Londres, Tóquio[4] e Paris, e a dependência das condições climáticas para a realização das competições.

Porém, o imbróglio da entrada tardia do surfe nos jogos olímpicos é anterior a este encontro e vem desde meados da década de 1960, como relata o autor Matt Warshaw (2005): “A história do namoro do surfe com COI é de esperança e decepção cíclicas[5] (WARSHAW, 2005, p.431 e 432)”. Em 1964, em um dos primeiros artigos sobre o tema, a revista Surfer publicou: “Não deve demorar muito para o surfe entrar no calendário olímpico[6]”; em 1977, na Surf Magazine, “as olimpíadas finalmente[7]”; e novamente na revista Surfer, em 1995, “o surfe dá o primeiro grande passo em direção às olimpíadas[8] (WARSHAW, 2005, p. 432)”.

Mas a candidatura do surfe só passou a ser considerada de fato após o COI ter reconhecido a ISA como principal instituição responsável pelo surfe mundial, e isso ocorreu em 1994, no primeiro ano de mandato do argentino Fernando Aguerre (STACHEVSKI, 2020, p. 38). Na época, Aguerre tinha a intenção de que o surfe entrasse nos jogos de Sydney, Austrália, em 2000, mas o esporte escolhido na época foi o vôlei de praia (WARSHAW, 2005, p.432), entretanto, o presidente da ISA continuou acreditando que era uma questão de tempo e já planejava a construção de uma piscina de ondas para fosse possível incluir o surfe nos jogos olímpicos de Atenas, Grécia, em 2004 (WARSHAW, 2005, p.432). Porém, a confirmação final só veio em agosto de 2016, no Rio de Janeiro, quando todos os membros do COI aceitaram a proposta das cinco indicações de esportes escolhidas pelo Comitê Olímpico Japonês (JOC – Japanese Olympic Comitee). Segundo Yoshiro Mori, presidente do comitê organizador, a escolha das candidaturas foi baseada em função da “popularidade dos esportes, seu acompanhamento entre jovens e o maior potencial para promover o espírito olímpico”, além da necessidade de construção de instalações esportivas adicionais.

Rafael Fortes (2020) aponta que a inclusão do surfe nos Jogos Olímpicos reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Alguns puristas, contrários à espetacularização do esporte, se mantiveram pessimistas durante a campanha antes da entrada do surfe nos jogos. O editor do Surfer’s Journal, Steve Pezman, escreveu: “o surfe não pode ser embalado e levado ao mercado sem perder seu caráter, espontaneidade e apelo[9] (WARSHAW, 2005, p.432).” Essa disputa simbólica sobre o significado do esporte e sobre uma experiência que seria mais autêntica (Martin Jay, 2009) gira em torno do profano versus o sagrado e da mercantilização de valores ligados à cultura do surfe, como destacam os autores Ford e Brown (2006):

Com a contracultura do final dos anos 1960, a tendência de “soul surf” enfatizou uma reinterpretação dos valores da espiritualidade, estética e a busca pela paz interior e autenticidade. Com o crescimento da popularidade do surfe e as oportunidades de negócios concomitantes, em congruência com o capitalismo tardio, os negócios empacotaram esses mesmos valores de autenticidade e distinção. Além disso, a midiatização do surf ampliou esses valores em uma disseminação cultural mais ampla[10] (FORD e BROWN, 2006, n.p.).

Apesar de uma janela de tempo de oito dias para a realização das provas, todas as baterias da disputa pelas primeiras medalhas olímpicas da história do surfe aconteceram de 25 a 27 de julho de 2021. As finais foram antecipadas por conta da chegada de um tufão que poderia impedir a realização das provas, de acordo com a intensidade que chegasse na costa japonesa. Essa imprevisibilidade da natureza é justamente a característica que alguns sufistas afirmam fazer do surfe o que ele é. A sua essência. Entre dezenas de opiniões, a do escritor sênior da revista Surfer, Sean Doherty, ilustra bem esse posicionamento:

Primeiramente, todos os esportes olímpicos estão ancorados em equidade e igualdade de condições. Entretanto, o oceano não oferece isso. Certamente a única maneira de o surf ser considerado um esporte olímpico é se ele fosse realizado em piscinas de ondas, e se fosse realizado em piscinas de ondas, então eu não consideraria surfar. Ademais, o fato de não haver duas ondas iguais é o que faz surfar, surfar. De tal forma que não foi projetado para ser justo. O oceano não é justo e, a menos que você seja Kelly[11], o oceano não dá a mínima para você.

Por outro lado, esse mesmo aspecto de incerteza da natureza é um agente que dificulta a midiatização do esporte. Pedro Guimarães e Rafael Fortes (2020), em um artigo sobre a transmissão dos campeonatos de surfe, enumeram alguns desses desafios: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões (GUIMARÃES e FORTES, 2020, p. 63). Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se adaptaria perfeitamente às demandas da televisão, assim como aconteceu com o baseball, o tênis e o próprio surfe (LASCH, 1983):  

Quando as redes de televisão descobriram o surfe, insistiram que os eventos fossem realizados de acordo com uma programação pré-estabelecida, independentemente das condições meteorológicas. Um surfista reclamou. “A televisão está destruindo nosso esporte. Os produtores de TV estão transformando um esporte e uma forma de arte em um circo (LASCH, 1983, p.140).

Talvez esse seja um dos principais motivos da WSL ter se tornado sócia da empresa de Kelly Slater em 2016, a Kelly Slater Wave Company, responsável pela piscina de ondas Surf Ranch, além da possibilidade de vender a tecnologia de geração de ondas artificiais para o COI realizar as disputas do surfe em jogos olímpicos futuros e o treinamento de atletas de alta performance. A própria da WSL tem uma etapa do circuito mundial na piscina, e de acordo com os critérios do primeiro evento realizado nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada.

 Apesar das piscinas terem trazido novas perspectivas para o esporte, como novos formatos de disputas, possibilidade de treinamento facilitado pela repetição e testes de novos equipamentos, não há uma unanimidade mesmo entre os surfistas profissionais. O surfista brasileiro, bicampeão mundial, Gabriel Medina, disse em entrevista que é “a onda dos sonhos”. A surfista americana Bethany Hamilton também elogiou: “é um sonho. É incrível ver o que o homem está fazendo com a tecnologia e criando as próprias ondas”. Já o sul-africano Jordy Smith diz que a piscina é previsível e realmente “não é tão emocionante para os telespectadores depois de assistir o décimo surfista voltar para o tubo[12] por mais dez segundos. É o evento mais desinteressante da turnê.”

Durante as disputas das semifinais dos jogos olímpicos de Tóquio, o caráter subjetivo do julgamento do surfe ficou mais explícito. Gabriel Medina foi eliminado pelo japonês Kanoa Igarashi após ambos terem executado manobras semelhantes, porém a nota do adversário foi muito superior a de Medina. Se a competição fosse em uma piscina com ondas idênticas, talvez a avaliação dos juízes sobre a dificuldade que ambos tiveram na execução da manobra fosse menos discrepante. De qualquer forma, o surfe já está confirmado para os próximos jogos olímpicos de verão, que serão realizados em Paris, França. As disputas do surfe acontecerão no Tahiti, na polinésia francesa, nas ondas de Teahupoo, que normalmente apresentam condições mais desafiadoras e melhores para a execução de manobras.

Se depender dos números da audiência, o esporte também deverá ser confirmado para os jogos de 2028, em Los Angeles, já que segundo o COI, entre as modalidades estreantes, o surfe e o skate impulsionaram a audiência dos jogos, principalmente no Brasil. O acesso ao grande público deu uma projeção midiática além dos espectadores de nicho e isso fez com que os atletas do surfe aumentassem em até dezoito vezes o número de seguidores nas redes sociais em comparação ao período pré-olímpico. Em entrevista ao jornal Los Angeles Times, Kelly Slater foi perguntado se a sua piscina poderia ser utilizada para o surfe nos jogos olímpicos de 2028. Ele respondeu: “Eu não pensei nisso[13]”, mas acrescentou em seguida: “É algo que poderia ser feito[14]”. Será que ainda veremos um brasileiro ganhar uma medalha olímpica em uma piscina de ondas?


[1] “Filmes de praia / surfe de Hollywood, como Gidget (1959), trazem uma caricatura dos estilos de vida do surfe para um público mais amplo, enquanto The Endless Summer (1964) cristaliza a sensação e o sonho de surfar da perspectiva de “um insider”. Tradução nossa: “Hollywood beach/surf movies such as Gidget (1959) bring a caricature of surfing lifestyles to a wider audience, while The Endless Summer (1964) crystallizes the feel and dream of surfing from “an insider’s” perspective (FORD e BROWN, 2006, n.p.).”

[2] Tradução nossa: “There are 370 million people across the world interested in surfing and more than 40 million active surfers.” Disponível em: < https://www.worldsurfleague.com/posts/397536/ikea-and-world-surf-league-riding-a-wave-of-sustainability?isearch=true&scategory=article&gt;. Acesso em 22 ago. 2021.

[3] É interessante ressaltar que na WSL há uma subdivisão entre atletas dos Estados Unidos e atletas do Havaí. 

[4] A praia de Tsurigasaki, na cidade de Ichinomiya, costa do Pacífico da Província de Chiba fica a cerca de 100 km do Estádio Olímpico de Tóquio. Disponível em: <https://falauniversidades.com.br/tudo-sobre-a-estreia-do-surfe-nas-olimpiadas-2021/&gt;. Acesso em 22 ago. 2021.

[5] Tradução nossa: “The history of surfing’s courtship of the IOC is one of cyclical hope and disappointment”

[6] Tradução nossa: “it shouldn’t be long before surfing is entered on the Olympic calendar”

[7] Tradução nossa: “the olympics at last”

[8] Tradução nossa: “surfing takes its the first big step toward the Olympics”

[9] Tradução nossa: “surfing can’t be shrink-wrapped and taken to market without losing its character, spontaneity and appeal”

[10] Tradução nossa: “With the late 1960s counter-culture, the ‘soul surfing’ tendency emphasized a reinterpretation of the values of spirituality, aesthetics and the quest for inner peace and authenticity. With the growth of surfing’s popularity and concomitant business opportunity, in congruence with late capitalism, business packaged these very values of authenticity and distinctiveness. Furthermore the mediatization of surfing amplified these values in a wider cultural dissemination.”

[11] Kelly Slater, onze vezes campeão mundial de surfe.

[12] Manobra que consiste em permanecer dentro da onda. “Entubar”.

[13] Tradução nossa: “I didn’t think about that”

[14] Tradução nossa: “It’s something that could be done”.

Referências

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARÃES, Pedro; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões & Debates. Curitiba v. 68, n. 37, p. 55-76 mês jul./dez. 2020

JAY, Martin. Cantos de Experiência: variaciones modernas sobre um tema universal. – 1ª ed. – Buenos Aires: Paidós, 2009.

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A chegada das novas piscinas de ondas. O surfe moderno também está passando por um processo de “arenização”?

A primeira realização de uma etapa do circuito mundial na Surf Ranch, piscina de ondas desenvolvida pelo onze vezes campeão mundial, Kelly Slater, em 2018, movimentou o mercado e as opiniões no mundo do surfe. As ondas artificiais não surgiram agora. Em 1985, os melhores surfistas do mundo participaram de um torneio em um parque aquático de Allentown, na Pensilvânia (EUA) e na década de 1990, piscinas de ondas artificiais receberam alguns campeonatos, um deles vencido justamente por Kelly Slater, na Disney, enquanto outros eventos movimentaram a cidade de Miyazaki, no Japão, onde estava a Ocean Dome, considerada a melhor piscina de ondas da época. Mas naquele tempo as tecnologias ainda não geravam ondas tão interessantes a ponto de competir com as ondas do mar. E foi justamente isso que a Kelly SlaterWave Company conseguiu para convencer a World Surf League (WSL) a realizar um campeonato na piscina: a capacidade de gerar “a primeira onda fabricada pelo homem com a força e a forma de uma onda oceânica.[2]

As tecnologias atuais prometem revolucionar o esporte por conta das novas possibilidades ligadas ao desenvolvimento de atletas, como o treinamento de alta performance, mas principalmente por gerar novas oportunidades comerciais como a criação de condomínios e resorts em locais longe do litoral, venda de direitos de transmissão dos campeonatos que se adequem melhor à programação televisiva, minimizando as dificuldades enfrentadas nos campeonatos realizados no mar (imprevisibilidade da natureza e falta de infraestrutura em determinados locais), aumento da audiência e o alcance de novos públicos. Um novo leque de atividades que provavelmente tornarão o esporte ainda mais midiatizado e passível de gerar mais lucros[1]

Em busca da onda perfeita

A tecnologia idealizada por Kelly Slater e por Adam Fincham, engenheiro mecânico, especializado em mecânica de fluidos na Universidade do Sul da Califórnia (USC), conta com uma piscina de 700 metros de comprimento por 150 metros de largura e um sistema chamado “hydrofoil”. É uma lâmina de metal, instalada em uma das laterais, que vai e volta toda a extensão do lago impulsionada por um sistema de trilhos, gerando a onda. Bancos de areia e recifes artificiais ajudam na hidrodinâmica para a recriação do fenômeno natural.

Surf Ranch – Fonte: revistatrip.uol.com.br

“A formação de uma onda pode durar até 50 segundos, com estabilidade de altura e formação. Em situações naturais, os surfistas muitas vezes não chegam a ficar 10 segundos em cima da prancha”. Outra tecnologia que já está em funcionamento e promete acirrar a corrida de lançamento de novos “surf parks” é a Surf Lakes, que fica na cidade de Yeppoon, em Queensland, Austrália. Ela consiste em um enorme disco de 1.400 toneladas que sobe e depois despenca sobre um lago a cada seis segundos formando ondas perfeitas em toda sua extensão. Segundo o site do parque, “é a maior inovação entre as inovações dos parques de surfe [2]

Surf Lakes – Fonte: stabmag.com

De acordo com Ford e Brown (2006), há uma tensão que permeia a cultura do surfe, principalmente em torno do “soul surf” e as tendências comerciais e de competição: “a primeira associada a uma narrativa declinante e o surfe contra cultural como perspectiva de estilo de vida, e a última, dentro de uma narrativa progressiva a um ethos olímpico de esportivização do surf” (FORD e BROWN, 2006, [s.i]). Essa discussão já existia dentro do esporte, mas parece ter se intensificado ainda mais com a chegada das novas piscinas de ondas artificiais. Para a World Surf League (WSL), que se tornou sócia da Surf Ranch em 2016, a piscina de ondas é uma importante aposta para tornar a primeira liga do surfe mundial lucrativa, como afirmou sua atual CEO, Sophie Goldschmidt em uma entrevista à revista Forbes:

Tivemos o primeiro evento do tipo no ano passado e teremos outro em 2019. É importante entender as possibilidades que isso traz para a mídia e os patrocinadores. O oceano nunca foi tão importante, mas agora usamos a tecnologia de forma complementar.

Essa forma complementar indica alguns interesses da liga, entre eles transformar a piscina no principal palco das Olimpíadas[3], facilitar a transmissão televisiva do esporte, que sempre teve dificuldades de entrar nas grades de programação por conta da imprevisibilidade da natureza, e a venda de ingressos. Rafael Fortes (2011) salienta que a inclusão do surfe nas Olimpíadas reacendeu o debate em torno da profissionalização do surfe e de sua adesão a formatos altamente esportivizados, comerciais e midiatizados. Nesse sentido, o autor enumera os desafios de se televisionar e transmitir o esporte: a escassez de infraestrutura tecnológica em lugares remotos, o caráter impreciso das condições climáticas (qualidade das ondas, que podem impedir a realização da etapa; neblina, que pode dificultar que os juízes enxerguem e julguem os atletas) e a imprevisibilidade de incidentes, como casos envolvendo tubarões[4] (FORTES, 2020, p. 63).

Dessa forma, o formato previsível da disputa nas piscinas se encaixaria perfeitamente às demandas da televisão. De acordo com os critérios da primeira etapa do mundial nesse cenário, cada atleta tinha três chances de surfar uma onda para esquerda e outra para direita, e em vez de um contra um, como na maior parte dos eventos no mar, os atletas caíram na água sozinhos e com hora marcada. Outra novidade explorada pela WSL foi a venda de ingressos, que variaram de 99 dólares (direito a assistir a um dia de evento) a 30 mil dólares (direito a assistir todos os dias do evento em um camarote para dez pessoas, com comida e bebida inclusas).

Todas essas inovações dão indícios de que a “nova era do surfe”, que produz ondas perfeitas para o desenvolvimento da performance dos atletas, também irá inaugurar um processo de arenização no esporte, que talvez possa culminar em manifestações mais contundentes de negação ao “surfe moderno”, assim como o futebol, guardadas as diferenças entre ambos, vem passando. Podemos sugerir que ainda existe uma espécie de “democracia torcedora” (SANTOS, 2018) no surfe, na medida em que as praias onde são realizados os campeonatos são públicas, que não há restrição quanto a entrada nelas, e que atualmente é possível assistir às etapas do tour através das transmissões ao vivo via streaming por aplicativo ou pelo site da WSL com a opção de narração em português (FORTES, 2020, p. 64). Ir à praia, dependendo da distância que o “torcedor” se encontra, pode não ser exatamente barato, assim como ter um smartphone ou um computador com acesso à internet também não é para todos, mas essas opções são mais acessíveis do que pagar 99 dólares (cerca de meio salário mínimo) em um ingresso para assistir a uma etapa do tour na piscina, sem contar os demais possíveis gastos com itens de consumo dentro de um “parque”. Como Helal e Costa destacam (2020), já existem pesquisas que “dão ênfase aos intensos processos de mercadorização que estaria, segundo alguns autores, promovendo uma gradativa exclusão da participação popular” (HELAL e COSTA, 2020, p. 512), no futebol. Em um cenário esportivo cada vez mais midiatizado e espetacularizado, o surfe parece estar indo pelo mesmo caminho.

As piscinas brasileiras

No Brasil, estão sendo construídas duas piscinas de ondas para a prática do surfe. Uma em São Paulo, em Itupeva, o condomínio de luxo Praia da Gama: “o único condomínio do mundo com praia, golf e hípica”, e outra em Santa Catarina, Garopaba, a Surfland Brasil. “O primeiro clube e resort em multipropriedade com piscina de ondas para surf no mundo”. Em uma rápida comparação entre os sites e perfis no Instagram dos dois empreendimentos, supomos que os públicos-alvo almejados são diferentes. Enquanto que o Praia da Gama parece ser um condomínio mais voltado para um público mais abastado e exclusivo, com poucas unidades à venda e lotes a partir de dois milhões de reais, a Surfland parece querer atingir um público maior e que se identifica mais com o estilo de vida do surfe, pois além do modelo de vendas sugerir menos exclusividade, a sua campanha publicitária é feita explorando a imagem de atletas renomados do esporte, como o bicampeão mundial, Gabriel Medina. De acordo com um levantamento feito em agosto de 2020 com um representante de vendas do empreendimento Surfland Brasil, pudemos apurar que o custo de uma “fração[5]” era cerca de noventa mil reais. Cada fração dava direito a quatorze dias de hospedagem no ano em um apartamento térreo (sendo sete dias na alta temporada e sete dias na média), além de acesso ao clube, que conta com a piscina de ondas, uma pista de skate e outros equipamentos esportivos, o ano inteiro.

As propostas da Surfland Brasil e do Praia da Gama estão de acordo com as ideias da WSL para a construção de novas piscinas de ondas pelo mundo. Segundo Sophie Goldschmidt, principal executiva da liga mundial, em entrevista à revista TPM sobre como a piscina de ondas poderia ser usada pela comunidade no Brasil, ela respondeu: “uma parte importante será o treinamento para o surf de alto desempenho. Também vemos a oportunidade de fazer algo parecido com um country club [um clube de associados]”. Essa visão de mercado reforça a hipótese de que o surfe é um esporte majoritariamente de elite. Fortes (2011), em seu livro o Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura, ressalta que:

A caracterização do surfe como algo nato na fala dos surfistas apaga diferenças quanto a fatores de classe, lugar, oportunidades para surfar (tempo livre, acesso ao mar, posse de prancha e acessórios). Embora a representação elimine estes elementos, na prática eles são decisivos e constituem as condições estruturais que determinam se um indivíduo poderá ou não ser surfista (FORTES, 2011, p. 267) .

Ou seja, a condição financeira do praticante pode ser preponderante para que ele evolua no esporte e desfrute do estilo de vida easy going que o estigma de o que é ser um surfista costuma sugerir. Com as piscinas de onda, a tendência é que haja mais um elemento de distanciamento não só do praticante com poucos recursos financeiros, como do público em geral, espectador esporádico e simpatizante do surfe. Ainda não se sabe se esses empreendimentos, que por si só demandam grandes infraestruturas e espaços, estarão ligados a processos de gentrificação nas regiões onde estão sendo instalados, assim como ainda não é possível afirmar se tais investimentos trarão benefícios concretos para o esporte, como o desenvolvimento de novos atletas. Mas a expectativa do crescimento no lançamento e desenvolvimento de novas tecnologias para a produção de ondas artificiais próprias para o surfe nos próximos anos é grande, e será necessário que novas pesquisas lancem luz sobre esse tema que já está impactando o chamado “surfe moderno”.  

Referências bibliográficas

FORD, Nick; BROWM, David. Surfing and social theory. New York: Routledge, 2006.

FORTES, Rafael. O Surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.

GUIMARAES, P. C. D.; FORTES, Rafael. A transmissão ao vivo de campeonatos de surfe pela internet: padrões televisivos, inovação e questões para a história do esporte. História: Questões e Debates, v. 68, p. 55-76, 2020.

HELAL, Ronaldo. O Que é Sociologia do Esporte. 1. ed. São Paulo: Brasiliense, 1990.

HELAL, Ronaldo; Costa, Leda Maria. Sociologia do Esporte: temas, pressupostos e situação do campo. In: Rita de Cássia Fazzi; Jair Araújo de Lima (Orgs.). Campos das Ciências Sociais. Figuras do mosaico das pesquisas no Brasil e em Portugal. 1ed. Petrópolis: Vozes, 2020.

LORCK, Carlos K. Surfe: deslizando sobre as ondas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1980.

SANTOS, I. S. C. Mercantilização do futebol e movimentos de resistência dos torcedores: histórico, abordagens e experiências brasileiras. Esporte e Sociedade, v. 11, p. 1-18, 2016.

SANTOS, IRLAN SIMÕES DA CRUZ; SANTOS, ANDERSON DAVID GOMES DOS. Democracia torcedora versus Vantagens consumistas: uma análise da associação clubística em tempos de futebol-negócio. Mosaico, Rio de Janeiro, v. 9, p. 246-261, 2018.


[1] Segundo estimativas do Instituto Brasileiro de Surfe (Ibrasurfe), no Brasil, o esporte movimenta R$ 7 bilhões ao ano em roupas, pranchas e acessórios, e tem por volta de 3 milhões de praticantes.

[2] Tradução nossa: “The biggest break in surf park innovation”.

[3] Após meses de indefinições, a organização dos próximos Jogos descartou o modo artificial por questões logísticas e confirmou a disputa em Chiba, litoral que fica a 60 quilômetros de Tóquio, mesmo com os riscos climáticos de possíveis atrasos e adiamento de baterias. Porém, a piscina é uma possibilidade real para a Olimpíada de Paris, em 2024.

[4] “Após ataque de tubarão, WSL anuncia que feminino mudará de local no Havaí; Pipe é uma opção”.

[5] Na multipropriedade você se torna dono de uma fração do imóvel, detém escritura pública e paga supostamente apenas pelo tempo que utiliza.


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Pretos fora d’água. Por que ainda temos poucos nadadores negros no Brasil?

Uma reportagem do programa Esporte Espetacular, de Winne Fernandes, Renata Heilborn e Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 27 de setembro de 2020, mostra porque ainda existem poucos negros na natação no Brasil. Além da dificuldade de acesso à piscina, que historicamente restringiu o direito dos negros de entrar nos clubes do país até a década de 1950 e o custo alto de construção e manutenção desse equipamento, que raramente é localizado nas periferias, existem mitos que há muito tempo são reproduzidos, como o de que o biotipo dos negros não é adequado ao esporte.

Como nadador federado nas categorias de base, e atualmente como amador, escutei afirmações e perguntas como: os ossos dos negros são mais pesados, negro não flutua, negro sabe nadar? E sempre me perguntei se elas realmente tinham algum embasamento científico. De acordo com a reportagem, um estudo do Departamento de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP) revela que tais afirmações vêm da desinformação e do preconceito. A pesquisa analisou as características físicas de todos os recordistas mundiais da prova dos 100 metros livres e comparou com os padrões corporais de pessoas negras e brancas: na média, a densidade corporal da população negra é superior à densidade corporal da população branca (1% a mais), mas esse não é um fator determinante de sucesso em uma prova de natação. Entre os sete aspectos mais importantes para um nadador, que são: quantidade de fibras musculares de contração rápida, quantidade de enzimas anaeróbias, comprimentos corporais, capacidade de salto vertical, capacidade de flutuação, percentual de massa magra e centro de massa corpórea, os negros levam vantagem em cinco. Ou seja, se todas as outras variáveis além do aspecto biológico fossem equilibradas, como acesso aos mesmos treinos, equipamentos e piscinas, os nadadores negros teriam mais probabilidade de vencer as provas de natação.

Outro aspecto relevante é a clara falta de representação de negros no esporte, mesmo que a população negra corresponda a 56,1%[1] do total, no país. Segundo a reportagem, desde a primeira Olimpíada que o Brasil participou, em 1920, tivemos apenas 10 nadadores negros. Menos de 6% do total de atletas em 100 anos. O primeiro negro brasileiro a conquistar uma medalha olímpica foi o atleta Edvaldo Valério, na Olímpiada de Sidney, em 2000 (bronze no revezamento 4×100 livre), e a primeira nadadora negra a nos representar em uma Olimpíada foi Etiene Medeiros, no Rio, em 2016. Em relação a questões ligadas à autoafirmação, como o cabelo, o esporte também afasta principalmente as mulheres negras, que gastam até seis vezes mais com tratamentos capilares do que outras mulheres. Segundo Seren Jones, jornalista da BBC, ex-nadadora e uma das fundadoras da Black Swimming Association: “O cloro estraga esse investimento em prol da aparência, que às vezes pode impactar no sucesso profissional”. No meu caso, lembro bem como foi difícil encontrar uma touca ou uma solução para manter meu cabelo preso durante a prática da modalidade, quando tive dreads.

Fonte: Edvaldo Valério – Foto: Satiro Sodré/SSPress

A desigualdade de acesso às piscinas, equipamento e aulas de natação ajuda a manter uma estatística cruel. De acordo com a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (SOBRASA), 67% dos óbitos por afogamentos no país são de pessoas negras. Porém, mesmo com números, fatos históricos e comprovações científicas, esse tipo de reportagem ainda causa desconforto na população brasileira. Comentários no próprio site do GE, onde a matéria foi publicada, acusam os jornalistas de tentarem aumentar o “confronto de raças”, de fazerem uma matéria “lacradora” para chamar atenção, vitimismo dos atletas negros e levantam a questão sobre a supremacia dos negros nos esportes como atletismo e basquete.

Para Bourdieu (1990), há um sentido prático e um sentido social na prática esportiva. No primeiro caso trata-se de examinar quem pode (ou consegue) praticar um determinado esporte. Já no sentido social diz respeito aos valores atribuídos coletivamente a um esporte e, por conseguinte, a seus praticantes (FORTES apud BOURDIEU, 2011).

Portanto, ideias que ainda pairam no esporte, de uma maneira geral, de que existe “esporte para preto ou branco”, para mulher ou para homem, para “jovem ou para velho” não devem ser naturalizadas. Elas estão no imaginário coletivo e foram construídas ao longo do tempo, por isso o papel das mídias nessa desconstrução é essencial. Esse determinismo desencoraja gerações e futuros talentos do esporte e poderia ter nos privado de conhecer as irmãs Williams, no tênis, Tiger Woods, no golfe, ou Lewis Hamilton, na Fórmula 1, só para citar alguns poucos exemplos.

Referências

FERNANDES,Winne; HEILBORN, Renata; COURREGE, Marcelo. Entenda a dura realidade da natação, que historicamente afasta negros das piscinas. Globo Esporte.com. Acesso em: 11 out. 2020

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.


[1] Piauí. Disponível em <https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/&gt; Acesso em: 12 de out. 2020