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Pretos fora d’água. Por que ainda temos poucos nadadores negros no Brasil?

Uma reportagem do programa Esporte Espetacular, de Winne Fernandes, Renata Heilborn e Marcelo Courrege, que foi ao ar no dia 27 de setembro de 2020, mostra porque ainda existem poucos negros na natação no Brasil. Além da dificuldade de acesso à piscina, que historicamente restringiu o direito dos negros de entrar nos clubes do país até a década de 1950 e o custo alto de construção e manutenção desse equipamento, que raramente é localizado nas periferias, existem mitos que há muito tempo são reproduzidos, como o de que o biotipo dos negros não é adequado ao esporte.

Como nadador federado nas categorias de base, e atualmente como amador, escutei afirmações e perguntas como: os ossos dos negros são mais pesados, negro não flutua, negro sabe nadar? E sempre me perguntei se elas realmente tinham algum embasamento científico. De acordo com a reportagem, um estudo do Departamento de Educação Física da Universidade de São Paulo (USP) revela que tais afirmações vêm da desinformação e do preconceito. A pesquisa analisou as características físicas de todos os recordistas mundiais da prova dos 100 metros livres e comparou com os padrões corporais de pessoas negras e brancas: na média, a densidade corporal da população negra é superior à densidade corporal da população branca (1% a mais), mas esse não é um fator determinante de sucesso em uma prova de natação. Entre os sete aspectos mais importantes para um nadador, que são: quantidade de fibras musculares de contração rápida, quantidade de enzimas anaeróbias, comprimentos corporais, capacidade de salto vertical, capacidade de flutuação, percentual de massa magra e centro de massa corpórea, os negros levam vantagem em cinco. Ou seja, se todas as outras variáveis além do aspecto biológico fossem equilibradas, como acesso aos mesmos treinos, equipamentos e piscinas, os nadadores negros teriam mais probabilidade de vencer as provas de natação.

Outro aspecto relevante é a clara falta de representação de negros no esporte, mesmo que a população negra corresponda a 56,1%[1] do total, no país. Segundo a reportagem, desde a primeira Olimpíada que o Brasil participou, em 1920, tivemos apenas 10 nadadores negros. Menos de 6% do total de atletas em 100 anos. O primeiro negro brasileiro a conquistar uma medalha olímpica foi o atleta Edvaldo Valério, na Olímpiada de Sidney, em 2000 (bronze no revezamento 4×100 livre), e a primeira nadadora negra a nos representar em uma Olimpíada foi Etiene Medeiros, no Rio, em 2016. Em relação a questões ligadas à autoafirmação, como o cabelo, o esporte também afasta principalmente as mulheres negras, que gastam até seis vezes mais com tratamentos capilares do que outras mulheres. Segundo Seren Jones, jornalista da BBC, ex-nadadora e uma das fundadoras da Black Swimming Association: “O cloro estraga esse investimento em prol da aparência, que às vezes pode impactar no sucesso profissional”. No meu caso, lembro bem como foi difícil encontrar uma touca ou uma solução para manter meu cabelo preso durante a prática da modalidade, quando tive dreads.

Fonte: Edvaldo Valério – Foto: Satiro Sodré/SSPress

A desigualdade de acesso às piscinas, equipamento e aulas de natação ajuda a manter uma estatística cruel. De acordo com a Sociedade Brasileira de Salvamento Aquático (SOBRASA), 67% dos óbitos por afogamentos no país são de pessoas negras. Porém, mesmo com números, fatos históricos e comprovações científicas, esse tipo de reportagem ainda causa desconforto na população brasileira. Comentários no próprio site do GE, onde a matéria foi publicada, acusam os jornalistas de tentarem aumentar o “confronto de raças”, de fazerem uma matéria “lacradora” para chamar atenção, vitimismo dos atletas negros e levantam a questão sobre a supremacia dos negros nos esportes como atletismo e basquete.

Para Bourdieu (1990), há um sentido prático e um sentido social na prática esportiva. No primeiro caso trata-se de examinar quem pode (ou consegue) praticar um determinado esporte. Já no sentido social diz respeito aos valores atribuídos coletivamente a um esporte e, por conseguinte, a seus praticantes (FORTES apud BOURDIEU, 2011).

Portanto, ideias que ainda pairam no esporte, de uma maneira geral, de que existe “esporte para preto ou branco”, para mulher ou para homem, para “jovem ou para velho” não devem ser naturalizadas. Elas estão no imaginário coletivo e foram construídas ao longo do tempo, por isso o papel das mídias nessa desconstrução é essencial. Esse determinismo desencoraja gerações e futuros talentos do esporte e poderia ter nos privado de conhecer as irmãs Williams, no tênis, Tiger Woods, no golfe, ou Lewis Hamilton, na Fórmula 1, só para citar alguns poucos exemplos.

Referências

FERNANDES,Winne; HEILBORN, Renata; COURREGE, Marcelo. Entenda a dura realidade da natação, que historicamente afasta negros das piscinas. Globo Esporte.com. Acesso em: 11 out. 2020

FORTES, Rafael. O surfe nas ondas da mídia: esporte, juventude e cultura. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011.


[1] Piauí. Disponível em <https://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2019/11/20/consciencia-negra-numeros-brasil/&gt; Acesso em: 12 de out. 2020