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Onde está o torcedor?

Antes de começar, alerto que o texto a seguir contém altas doses de pessimismo.
Tornou-se rotina ver grandes clubes brasileiros jogando para uma plateia inferior a dez mil pessoas. Salvo poucas exceções, a realidade do futebol nacional é conviver com estádios vazios. Mesmo tendo grandes torcidas, a maioria dos gigantes brasileiros só consegue vender todos os ingressos em jogos decisivos. Essa constatação não é novidade, mas evidencia um problema muito grave e talvez irreparável. O pequeno público nos estádios é uma evidência importante de que o futebol brasileiro caminha ladeira abaixo.
As justificativas para a evasão do público são amplas. No entanto, destaco a péssima qualidade do futebol que hoje é praticado aqui. Difícil atrair os fãs para jogos ruins. Mas essa não é a única razão. O fanatismo de uma boa parcela dos torcedores seria suficiente para fazer com que eles acompanhassem seus times independente de vitórias, derrotas ou da técnica dos jogadores. Eles iriam ao estádio apenas por paixão. Mas esbarramos em outro obstáculo: o preço dos ingressos. Na última década, o valor das entradas aumentou muito acima de qualquer índice inflacionário. Com os novos valores praticados, a natureza do espetáculo mudou completamente. A atividade que era rotineira passou ser algo que exige planejamento. Lembro, ainda, que a violência não pode ser justificativa para as arquibancadas vazias. Infelizmente, as brigas sempre fizeram parte do cotidiano dos estádios do mundo todo. Sem contar que, apesar de ainda causar vítimas, os injustificáveis confrontos acontecem cada vez mais longe dos estádios.
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Em estudo feito pela BDO Brazil consultoria, foram considerados as rendas totais das partidas e os públicos totais registrados nos borderôs de jogos do Brasileirão entre 2004 e 2013. “Público total” significa o torcedor que pagou ingresso pelo preço cheio, o estudante, a massa “estudantil”, o sócio-torcedor, o “amigo do rei” (a torcida organizada que recebe ingresso grátis ou com preço simbólico), os privilegiados com ingressos gratuitos. A BDO, então, dividiu a renda do jogo pelo público presente, obtendo assim o valor médio pago pelos torcedores para cada ingresso do Campeonato Brasileiro. Nas 10 edições do Brasileirão analisadas, o crescimento do valor do ticket foi de 241%, enquanto a inflação acumulada do mesmo período foi de 55,12% (IPCA-IBGE)
As reformas dos históricos estádios e a construção de novas arenas para a Copa do Mundo 2014 pareciam ser um alento. Para muitos, a promessa de conforto seria suficiente para fidelizar o torcedor. Engano. O que poderia ter sido o único real legado da Copa do Mundo está sendo jogado fora por péssimas administrações, principalmente depois que as arenas foram entregues à iniciativa privada. Não defendo que o poder público deva participar da gestão do esporte, mas para quem clama por um Estado cada vez menor, a administração das arenas é uma prova de que nem tudo pode ser solucionado pela iniciativa privada. A ganância pelo lucro e o desconhecimento do negócio institucionalizaram uma oferta de assentos maior do que a procura.
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Desde quando foi reinaugurado em 2013, o Maracanã passou a ser administrado por um consórcio privado que em muitas ocasiões ficou em litígio com os clubes cariocas por conta de impasses financeiros. Resultado:  algumas partidas foram remanejadas para outros locais, afastando a torcida carioca do seu principal palco para o futebol.
Pensar no futebol europeu como um modelo, parece fazer sentido. Mas vamos com calma e um pouco de inteligência. Ao invés de importar o que dá certo, ajustando à realidade brasileira, querem copiar tudo. Sem restrições. Se a proposta é ter um ingresso caro e uma torcida transformada em plateia estamos no caminho certo. Mas se o objetivo for fidelizar o torcedor, facilitar a compra do ingresso e melhorar os acessos às arquibancadas, estamos indo para o lado errado.
A recuperação do futebol brasileiro só começará depois da reconciliação entre clubes e torcidas. Se não for por aí, o 7×1 terá sido apenas o começo.
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