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Futebol e política: a representação da culpa única no Brasil.

“Se não estiver bom a gente tira!” Essa frase permeia as discussões futebolísticas sobre os técnicos de futebol. Ela procura um determinismo, esquece-se de olhar toda a estrutura do clube: finanças, jogadores e atribui a “culpa” apenas a uma pessoa. A representação do treinador nas narrativas jornalísticas, em grande medida, é pautada por essa ótica. Segundo o discurso mais encontrado, é preciso criar um fato novo, algo que mexa com o clube e com os atletas para “reencontrar o caminho” das vitórias. Essa posição imediatista pode ser explicada pela paixão presente no esporte, de querer a vitória, custe o que custar e eliminar do clube aquele técnico cuja representação não atende aos anseios da “maioria” dos torcedores. Esse pensamento tornou-se mais hegemônico após a entrada robusta do campo econômico no futebol. Valores do capitalismo foram amplamente difundidos nos modelos de administração e organização dos clubes. Os técnicos passam a assumir uma função de gerentes que administram uma empresa, que precisam desesperadamente fornecer um “superávit de vitórias” para manter-se no cargo e sustentar sua representação de bom treinador. Ser bom, nesta construção sobre o técnico, é ganhar. 

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O Corinthians foi o único clube, dentre os 20 que disputaram a série A do Brasileirão de 2015, que não demitiu seu técnico em 2015. Estudo feito pelo jornal mexicano “El Economista” aponta que, dentre as principais ligas do mundo, o Brasileirão bate o recorde de demissões de treinadores em média.

O capitalismo técnico e cognitivo entranhou-se no esporte e consegue comandar as articulações e interações neste campo. Um conjunto de valores e sentidos como o da acumulação e rápida circulação de capital rege as representações dos treinadores neste século XXI. O capital pode ser entendido aqui mais do que dinheiro e sim como modelo de organização e produção do trabalho desses profissionais. Em um passado não muito distante, um treinador ficava mais do que três meses em seu cargo, o tempo de trabalho era maior. A fluidez e a velocidade do tempo de trabalho dessas pessoas está cada vez menor, com raras exceções. A imprensa assume um papel importante ao mediar esses sentidos ao exaltar o “superávit de vitórias” como modelo de eficácia e promoção social a ser seguido. O tempo e a profundidade de análise do papel do treinador estão cada vez mais ágeis e rasos. A culpa recaí sobre o bode expiatório mais fácil de ser trocado, ou pela existência de um interesse maior em ser trocado. A representação da imprensa seleciona o que estará nos bastidores e o que estará em evidência na atuação deste personagem. Pode-se criar uma gama de estereótipos e associações que, ao longo do tempo, serão facilmente compreendidos pelas pessoas que recebem essa informação. A estrutura e contexto em que o técnico está inserido são frequentemente “esquecidas” na moldura apresentada sobre sua representação nos meios de comunicação. 

Impossível não relacionar tais observações do mundo esportivo, que também está inserido no mundo social, ao contexto político atual de nosso país. Logicamente a importância de uma presidente não é comparável a de um treinador. Mas a falta de debate e análise em determinadas conjunturas em ambos os casos nos permitem sugerir algumas relações. É sabido que um grupo de jogadores sem caráter pode perfeitamente atrapalhar o jogo de propósito, interferindo nas “vitórias” da equipe, se quiserem derrubar o treinador. Seja porque o jogador não foi escolhido capitão e “envenenou” os colegas, seja porque o técnico cobra demais nos treinos, seja porque é intransigente e punitivo com os que se apresentam sem condições de trabalhar ou seja pelo simples fato dos jogadores “não gostarem” dele. Muitos fazem a sabotagem para colocar no lugar alguém que será seu “parça” e  que vá consentir com comportamentos que o outro não permitia. Eles podem fazer de tudo para tirar alguém do seu cargo e, dependendo das escolhas jornalísticas, podem sair como “bonzinhos”. Se o jornalismo não mostra essa articulação, ele interfere na interpretação dos fatos, projetando “realidades” que lhe convém e derrubarão o técnico. Pode-se ao longo do tempo construir uma representação deste treinador enfatizando seus aspectos negativos e escondendo os positivos, influenciando novamente o torcedor mais desavisado e menos crítico que o real problema do clube está centrado em uma pessoa. Esse cenário torna a narrativa de que “se trocarmos ele, tudo melhora” uma associação “lógica e inteligente” do torcedor que crê acriticamente nas escolhas da imprensa.

Ao não se evidenciar as condições externas ao clube e que interferem nas vitórias, ou não demonstrar a mediocridade de alguns jogadores que o técnico tem a sua disposição para jogar, a imprensa contribui para não modificar a estrutura viciada das instituições. Mudando-se apenas uma peça, os mesmos jogadores continuam jogando o jogo, bancados pela força econômica pesada e acintosa. A CBF é um bom exemplo, é mais fácil trocar os treinadores do que retirar os articuladores que agem na sombra e destroçam a cada dia o futebol nacional.

Dilma é muito maior, muito mais representativa, mais forte e com maior caráter do que a representação criada sobre pela “grande mídia”, pautada e comandada pelo mercado financeiro. Ela não se assemelha em nada aos nossos treinadores, já que foi eleita por mais de 54 milhões de brasileiros que confiaram que o voto era algo importante. Porém, ao ter autênticos jogadores, no pior sentido da palavra, desde seu “auxiliar técnico” traíra, Temer, passando pelo jogador mais cínico do grupo, Eduardo Cunha, até a chocante imensidão de deputados-jogadores medíocres, sem pudor e ética, viu-se um complô, um golpe, realizado num circo de dar inveja às demissões de qualquer treinador.

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A sessão na Câmara dos deputados, no ultimo domingo, demonstrou o pragmatismo e o boicote dos deputados favoráveis ao afastamento da Chefe de Estado, cujos votos não se basearam nas questões propostas pelo impeachment, e sim em questões como o desgaste político da presidente Dilma Rousseff com os parlamentares.

Boicotaram nossa presidente, exigindo menos cobrança e menos treinos, mais liberdade para realizarem suas falcatruas que estavam sendo investigadas. Ela pode ter errado em seus métodos de treinamento e não conseguiu as vitórias desejadas, mas o corpo mole do Congresso capitaneado pelos jogadores oposicionistas que nunca quiseram fazer seu governo dar certo foi escondido pela imprensa. A estrutura do país será a mesma, e agora com o agravante do auxiliar técnico, que sempre foi da bandaleira e que sai para a farra com os jogadores, estar no comando. Os planos desse “novo treinador” ficam nos bastidores da narrativa midiática, já que, se expostos, fariam qualquer “torcedor” se revoltar ao ver seus direitos interrompidos e quebrar a representação projetada pela mídia de que tudo vai mudar para melhor. Podemos ter algumas vitórias de início já que agora os jogadores vão jogar o jogo e fazer exatamente o treino que ela pedia meses antes. Os investidores, que não gostavam dela, vão investir o que seguraram todos esses meses e atacar os bens mais preciosos de nosso clube, como o petróleo. O “se não tiver bom a gente tira” não poderia nunca ser aplicado à presidência. A única frase que plausível para o cargo executivo é “Se comprovadamente roubou, cometeu crime, a gente tira”, fato que não ocorreu. A vitória será breve e efêmera, nossa estrutura política continuará intocável e utilizando a imprensa sem ética para projetar as representações de culpados únicos. Nesse “Fla-Flu político”, podem colocar até Guardiola, mas com esses jogadores nossa sina é continuar eternamente levando de 7 a 1.

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