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“O meu lugar é onde quero estar”. Reflexões a partir de uma entrevista com a Gerente de futebol do São Cristóvão

Fazia algum tempo que estava à espera da oportunidade de assistir a um jogo do São Cristóvão e, desse modo, incrementar meu currículo futebolístico, o que seria ótimo tanto em nível pessoal quanto para a minha vida de pesquisadora.

A oportunidade surgiu este ano. De posse da tabela do Campeonato Carioca da série B e de uma caneta marca texto, fui assinalando as partidas do São Cristóvão e, entre várias, escolhi uma a ser por mim visitada. Saudades do estádio da Rua Bariri, em Olaria, somada a disponibilidade de tempo, me levaram a escolher o jogo entre São Cristóvão x Gonçalense, realizado, dia 30/05/2015, naquela mesma praça esportiva, já que o estádio da Figueira de Melo está impedido de receber público.

Como preparativo para esse encontro, fui buscar informações sobre o São “Cri Cri”, como carinhosamente costuma-se chamar o clube que foi campeão carioca em 1926 e que está perto de completar 117 anos. Folheando e vagando pelas páginas impressas e virtuais de alguns jornais e sites havia uma constante nos noticiários relativos ao São Cristóvão: a referência a Silvani Maria, gerente de futebol do clube e que foi considerada por algumas reportagens como a primeira mulher a exercer tal cargo no Rio de Janeiro.

O fato de ser mulher parece ter sido elemento importante para despertar a atenção de veículos de comunicação como o jornal Extra, Folha de São Paulo e o portal FutRio, entre outros, que publicaram matérias em que se enfatizavam os desafios de Silvani para desenvolver seu trabalho em um ambiente tão machista como é o futebol. Mulheres atuando no território futebolístico se adéquam aos critérios de noticiabilidade, já que se trata de um acontecimento não muito comum, em especial, no Brasil. Por outro lado, não ser comum aponta para um problema: a pouca presença da mulher no território futebolístico.

Embora a mulher venha, ao longo dos anos, conquistando espaço e reconhecimento no futebol, é de se lamentar que ainda há muito a ser feito para tonar esse esporte menos desigual no que se refere às relações de gênero. E o tradicional São Cristóvão de algum modo tem dado positivas contribuições nesse aspecto. Desde o ano passado, quem gerencia o futebol do clube é a já mencionada Silvani Maria, a quem decidi entrevistar, unindo, desse modo, dois temas que me despertam grande interesse enquanto pesquisadora: 1) A relação entre mulher e futebol 2) A história de clubes que estão fora do circuito principal do futebol brasileiro.

Entrevistar a gerente de futebol do São Cristóvão e dialogar com suas experiências no futebol, me pareceu a oportunidade ideal de conseguir material relevante para tecer reflexões acerca desses temas que, nos últimos meses, se cruzam na Rua Figueira de Melo. Porém, antes de começar a falar sobre a entrevista, é interessante fazer algumas considerações sobre as matérias publicadas, buscando analisar de que modo foi narrado, por parte da imprensa, o fato de uma mulher ser gerente de futebol de um tradicional clube carioca.

A “Capitão Nascimento” do São Cristóvão

No dia 08 de março de 2015 a Folha de São Paulo publicou no Caderno de Esportes a matéria “Poderosas, mas poucas”, na qual são mostrados casos de mulheres que exercem função de comando em clubes de futebol. Segundo o jornal, em São Paulo, dentre os 140 clubes inscritos na Federação, apenas Monte Azul e Tupã FC são presididos por mulheres, sendo que ambas possuem vínculos familiares com seus fundadores ou ex-presidentes (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015).

Saindo de São Paulo, chega-se ao Rio de Janeiro, onde se destaca Silvani Maria que já na chamada da matéria tem seu perfil traçado como alguém de pulso forte: “No Rio, gerente de futebol cria cartilha e intimida boleiros” (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015). Essa figura “durona” é enfatizada ao longo do texto, sobretudo, a partir dos depoimentos colhidos. O primeiro deles é o de um torcedor que a chama de “nosso Capitão Nascimento” (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015) e o segundo é o diretor do clube, Marcos Barcellos, que faz a seguinte afirmação: “Ela é nossa xerife. Escolhemos a Silvani porque acreditamos que uma mulher é capaz de organizar melhor o trabalho e intimida os boleiros”. (Folha de São Paulo, Caderno de Esportes, D4, 08/03/2015).

A mesma referência à figura do Capitão Nascimento – personagem do filme Tropa de Elite – é mencionada pelo jornal Extra na matéria “Gerente de futebol do São Cristóvão, Silvani Maria, é chamada de Capitão Nascimento e Margaret Thatcher pela mão de ferro”. Dessa vez, quem a denomina de Capitão Nascimento é o diretor administrativo, Renato Campos que tece uma série de elogios a Silvani porque “exige disciplina, os coloca nas normas do regime militar. Por isso é nossa Capitão Nascimento (risos). Para eles, ainda é estranho, mas ela chegou bem para comandar, organizar. É uma pessoa muito fácil de trabalhar” (Fonte: http://extra.globo.com/esporte/campeonato-carioca/gerente-de-futebol-do-sao-cristovao-silvani-maria-chamada-de-capitao-nascimento-margatet-thatcher-pela-mao-de-ferro-15396954.html)

Na sequência, a matéria envereda para lugares comuns da representação das mulheres, ao comentar que “A dureza no comando fez a fragilidade passar longe de Silvani. A gerente não se mostra nada mulherzinha. Não usa maquiagem, veste calças e camisas soltas e só demonstra sua feminilidade nas unhas pintadas e na mala rosa, que ela nunca dispensa” (Fonte: http://extra.globo.com/esporte/campeonato-carioca/gerente-de-futebol-do-sao-cristovao-silvani-maria-chamada-de-capitao-nascimento-margatet-thatcher-pela-mao-de-ferro-15396954.html)

O reforço à menção aos índices estereotipados de feminilidade como unhas pintadas, a cor rosa, a maquiagem, a maternidade etc., é recurso comumente utilizado pela imprensa e outros meios para a representação de mulheres que atuam em profissões consideradas masculinas. E nas matérias esportivas isso não é diferente. Recentemente durante a transmissão do jogo Brasil X Austrália, pelo Mundial Feminino de Futebol, podia-se ouvir do locutor da partida frases como “nunca havia visto tanta mulher bonita”. Comentários como esse mostra o quanto é difícil desassociar a mulher da beleza e, desse modo, considerar somente seu desempenho profissional.

No caso do futebol quesitos relativos à boa aparência chegaram mesmo a constar nas regras do campeonato feminino organizado pela Federação Paulista, em 2001, tendo como justificativa a necessidade de se vender uma imagem “feminina” do futebol (COSTA, Leda. Beuty, effort and talent: a brief history of Brazilian women’s soccer in press discourse. In: CURI, Martin. Soccer in Brazil. Soocer & society, Vol. 15, Janeiro de 2014). Além dos quesitos de beleza, persiste a vinculação entre mulher e as tarefas da vida doméstica. Ao vencer a final do Torneio Internacional, em dezembro de 2014, disputada contra os Estados Unidos, algumas jogadoras da Seleção Brasileira foram premiadas com um kit de produtos de limpeza, patrocinado por uma conhecida empresa do ramo no país. Difícil imaginar algo mais constrangedor e difícil imaginar que o mesmo tipo de tratamento fosse dado aos atletas masculinos.

Trata-se de uma abordagem fundada nas tradicionais exigências de ser “bela, feminina e maternal”, expressão que tomo de empréstimo do livro de Silvana Goellner (Bela, maternal e feminina: imagens da mulher na Revista Educação Physica. Ijuí: Unijuí, 2003). Nessa obra, a autora demonstra que grande parte das dificuldades encontradas por mulheres, no início do século XX, para se tornarem praticantes de algumas modalidades esportivas, relacionava-se ao medo socialmente compartilhado de que os esportes – especialmente os considerados mais brutos – as desviassem de sua “natureza”, ao masculinizá-las e afastá-las dos domínios do espaço da casa.

Certamente muita coisa mudou e, embora, as expectativas em torno do feminino persistam, é importante reconhecer que hoje em dia as mulheres possuem maior autonomia e domínio sobre sua composição indenitária. Se beleza e maternidade continuam a ser índices importantes para o imaginário em torno da feminilidade, na cultura contemporânea – pelo menos em alguns países – pode-se dizer que as mulheres têm mais possibilidade de elas mesmas gerenciarem suas identidades do modo que melhor lhes convir.

Silvani Maria decidiu se embrenhar nas trilhas do futebol. E em busca do diálogo com essa experiência fui ao encontro de Silvani Maria, curiosa em saber se ela faz jus à alcunha de “Capitão Nascimento”. Temendo por um sim, rumei até a Rua Figueira de Melo, onde se localiza o simpático clube São Cristóvão.

Chegando à Figueira de Melo

 Tive sorte no dia em que fui fazer a entrevista. Cheguei à Rua Figueira de Melo por volta das 15h, do dia 02 de junho, e no campo do clube ocorria um treino entre equipes mirins do Vasco da Gama.  Aproveitei a chance para visitar o estádio que foi inaugurado em 1916. O estádio Figueira de Melo pouco lembra o que já foi um dia, especialmente quando ostentava uma bela arquibancada de madeira, que na década de 1943 foi derrubada por causa de um incêndio.

Fonte: www.caravanadeboleiros.com.br
Fonte: http://www.caravanadeboleiros.com.br

Hoje, mesmo que ao longe se possa ver o Cristo Redentor, o Figueira de Melo foi um tanto que engolido pela Linha Vermelha e pelas edificações ao entorno. É mais um dos estádios que busca sobreviver em meio às especulações imobiliárias e aos problemas financeiros do futebol carioca.

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

A frase “Aqui nasceu o fenômeno” tornou-se uma espécie de marca do clube pelo qual jogou Ronaldo, nas categorias de base. A lembrança desse momento se faz presente em diversos locais.

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

Após esse breve passeio por parte das dependências do São Cristóvão, fui à procura de Silvani e já pelos murais dos corredores vi indicativos de sua presença.

 

Arquivo pessoal
Arquivo pessoal

 Seguindo as indicações das placas, encontrei a sala onde ela trabalha.

FOTO5
Arquivo pessoal. 

Para mais informações sobre o rosa do escudo do São Cristóvão acesse:  https//:www.caravanadeboleiros.com.br

Bati, pedi licença e entrei na sala da Gerente do São Cristóvão. Após breve apresentação e uma breve conversa começamos a entrevista que foi por diversas vezes interrompida, seja por ligações de celular, pela visita do Presidente do clube ou por outras pessoas que também buscavam Silvani. Essas interrupções deram mostras do quanto deve ser agitado o cotidiano da Gerente, o que pude experimentar um pouco. E, convenhamos, para quem gosta de futebol como eu, não há por que reclamar por ter compartilhado desse burburinho.

O meu lugar é onde quero estar

Após ter ouvido de um treinador adversário a frase “lugar de mulher é na cozinha lavando cueca de marido”, Silvani não hesitou em respondê-lo à altura, fazendo uso dos inevitáveis xingamentos, mas completando-os com a frase “o meu lugar é onde quero estar” (02/06/2015).

Essa frase gritada com raiva pela gerente do São Cristóvão e repetida com calma durante a entrevista que me foi concedida, é uma espécie de síntese do que Gilles Lipovetsky afirmou acerca da condição feminina na cultura contemporânea: “en la actualidad, un nuevo modelo rige el lugar e el destino social de la mujer. Nuevo modelo que se caracteriza por su autonomización en relación com la influencia que tradicionalmente han ejercido los hombres sobre las definiciones y significaciones imaginário-sociales de la mujer” (La tercera mujer. Permanencia y revolución de lo femenino. Barcelona: Anagrama,1999, p.218)

Em outras palavras “o meu lugar é onde quero estar”, o que inclui um campo de futebol. Sabemos que não é tão simples assim. Ainda há uma série de entraves à plena atuação das mulheres especialmente em ambientes considerados como masculinos. Dados obtidos pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) mostram que, em 2012, o rendimento total das mulheres equivale a 73% do rendimento dos homens. E a diferença salarial aumenta na medida em que o grau de escolaridade cresce. (Fonte: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/diferenca-salarial-entre-homens-e-mulheres-aumenta-conforme-grau-de-escolaridade-4679.html)

No futebol não é diferente. A brasileira Marta lidera o ranking das mais bem pagas, de acordo com levantamento feito pela revista The Richest. A jogadora ganha por ano cerca de 800 mil Reais, enquanto o português Cristiano Ronaldo pode chegar a faturar mais de 50 milhões durante o mesmo período. (Fonte: http://www.therichest.com/sports/soccer-sports/top-9-highest-paid-female-soccer-players-of-2014-americas/9/)

É certo que em termos financeiros o futebol é feito para poucos de um modo geral, já que podemos contar nos dedos os detentores das cifras milionárias. No Brasil, por exemplo, temos 30.784 jogadores registrados sendo que 82% recebem até dois salários mínimos. (Fonte: http://extra.globo.com/esporte/triste-realidade-no-brasil-82-dos-jogadores-de-futebol-recebem-ate-dois-salarios-minimos-6168754.html)

Essa desigual distribuição de renda acaba fazendo-se mais aguda, no caso das mulheres, especialmente no Brasil, país que ainda apresenta sérios problemas na organização dessa modalidade esportiva. Poucas competições, equipes formadas às pressas e do mesmo modo desfeitas, tudo isso se resumindo no amadorismo que faz com que muitas meninas tenham que trabalhar em outras profissões que não a de atleta. Logo, estar no “lugar onde quero estar”, quando esse lugar é o futebol, pode significar o enfrentamento de muitos obstáculos, especialmente se decidirem atuar como jogadoras.

Silvani até que chegou a jogar futebol, o que, aliás, fez com bastante disposição chegando mesmo a “sair escoltada de um jogo” (02/06/2015) por revidar agressão sofrida por uma adversária. A carreira durou até o nascimento do filho que hoje tem 18 anos. Após o casamento, Silvani passou a administrar um buffet e um restaurante. Continuou a acompanhar o futebol apenas como torcedora, mas depois de se separar do marido, investiu na formação em Gestão, especializando-se na área esportiva.

Começou a carreira no Santa Cruz, time da terceira divisão do Carioca, ficando nele por 5 anos. Depois foi para o Magaratibense, hoje na série B, voltou ao Santa Cruz, até chegar ao São Pedro, na série C. Em um dos jogos entre São Pedro X São Cristóvão, o presidente do último, após observar a atuação de Silvani, resolveu convidá-la para trabalhar no clube da rua Figueira de Melo que naquele ano subiu para a segunda divisão. De acordo com Silvani o convite veio porque o presidente do São Cristóvão percebeu que ela mostrava “agilidade e facilidade” no trabalho.

Embora as reportagens citadas acima enfatizem o fato de Silvani ser mulher, há um aspecto que precisa ser considerado: o estilo de trabalho por ela adotado, estilo esse marcado pelo modo organizado e enérgico de desenvolver sua função. Desse modo, o que mais costuma lhe causar problemas não é exatamente a sua condição feminina, mas sua postura profissional, por isso ela comenta: “todo clube que eu chego, inicialmente tenho certo tipo de problema” (02/06/2015).

É muito provável que o fato de se estar diante de uma mulher, em ambiente tão masculino, provoque bastante estranhamento e, até mesmo, problemas. Contudo, a esse aspecto se soma um tipo de conduta que à primeira vista não costuma ser bem recebido, não somente no território futebolístico, mas em outras esferas do cotidiano, no Brasil. A cordialidade, como já mostrou Sérgio Buarque de Hollanda, é marca da sociedade brasileira, o que provoca certa resistência às leis e formas de ordenação impessoal. E pelas palavras de Silvani, ela gosta justamente de “de ter regras, de criar dinâmica de trabalho, criar uma prática e que aquilo seja seguido” (02/06/2015).

Ao mesmo tempo em que há uma resistência a esse tipo de procedimento, esse perfil também costuma ser desejado no futebol, sobretudo por tratar-se de um ambiente em que a concepção de profissionalismo esbarra em noções como talento, dom, assim como esbarra no fato de que os empregados, no caso, os jogadores – os empregados – ganharem mais do que muitos daqueles que os comandam – os empregadores.

O São Cristóvão, por exemplo, tem uma folha salarial de 70 mil reais, sendo que 50 são destinados ao pagamento de jogadores. As dificuldades de se gerenciar o São Cristóvão são muitas, desde a obtenção de patrocínio e outros tipos de verbas que possam ser usadas na montagem e manutenção do time. Nesse aspecto chama a atenção o fato de Silvani mostrar-se muito crítica em relação à situação dos chamados “pequenos”. Ao invés de adotar uma perspectiva vitimizada, percebi na fala da Gerente que, se de um lado a Federação de Futebol pouco faça para ajudar, por outro, muitas pessoas envolvidas diretamente com os clubes chamados pequenos, não mostram “comprometimento”.

De acordo com Silvani, os clubes “deveriam se organizar melhor” (02/06/2015) evitando deixar tudo “para cima da hora”, o que pode ser fatal se considerar que estamos tratando de um clube que não possui a mesma facilidade de arrecadação daqueles que frequentam a elite do futebol. Esse perfil não vitimizado, também, se faz notar em sua fala no que se refere ao fato de ser mulher. Segundo Silvani, o futebol é “pra quem ama” porque trabalhar nesse ambiente significa abdicar dos finais de semana, de datas comemorativas e de uma série de outros momentos em família, mas isso ocorre com qualquer pessoa que de fato se dedique à profissão, sendo, portanto, algo que “independe do sexo” (02/06/2015).

Essa entrega ao trabalho é, na perspectiva de Silvani, fator fundamental para ter conseguido o respeito dos seus colegas e dos jogadores. Embora seja metódica, ela não se limita a delegar tarefas, sendo muitas vezes levada a fazer trabalhos que não lhe cabem, mas que os realiza se for necessário. Isso, entretanto, não livra Silvani de passar por momentos de preconceitos como já foi dito acima. Preconceitos contra os quais, costuma rebater perguntando: “Tem algum lugar escrito que o cargo gerente de futebol tem que ser único e exclusivamente exercido, por homem? Não” (02/06/2015).

Embora já tenha havido limitações legais à prática do futebol feminino na década de 1940, nos dias atuais não há nenhuma restrição escrita desse tipo, assim como não há restrições imposta às mulheres, para o exercício da arbitragem e de tantas outras funções no futebol. De fato, não há documentos que estipulem que futebol é domínio exclusivo dos homens, tanto que o filho de Silvani, não gosta desse esporte. Porém, se não há empecilhos legais e escritos, há diversos em nível simbólico que certamente ainda atrapalham uma mais consistente inserção e legitimação da mulher no território futebolístico.

O que me chamou a atenção no caso da Silvani, gerente de futebol do São Cristóvão, foi ver o cruzamento de duas problemáticas do futebol brasileiro: uma mulher exercendo cargo de chefia em um clube tradicional, clube este que há algum tempo enfrenta sérios problemas por estar fora do circuito principal do futebol nacional. Na conversa que tive com Silvani me pareceu clara a tentativa de a gerente guiar-se pela vontade de desenvolver sua função com profissionalismo, o que segundo sua percepção é algo que independente de sua condição feminina. Isso não exclui a consciência de que o futebol é um universo, muitas vezes, interpretado como lugar para homens.

Politicamente é importante a luta pelo reconhecimento de direitos mais igualitários entre homens e mulheres, em diversas instâncias da sociedade, o que inclui a esfera do trabalho, afinal dados – como os acima mostrados – demonstram que a desigualdade entre os gêneros é algo concreto no cotidiano. Por outro, lado faz-se necessário que o fato de ser mulher não seja critério predominantemente usado para desmerecer ou superdimensionar seus trabalhos.

Não tive tempo de saber se concordo em chamar Silvani de “Capitão Nascimento” e confesso que tenho pouca simpatia pelo personagem. Prefiro pensar nela como exemplo de uma “profecia” feita por Virgínia Woolf, que na década de 1920 proferiu duas conferências perante a Sociedade das Artes, no Newnham College e no Girton College, ambas as escolas para mulheres fundadas na Universidade de Cambridge.

Nas palavras de Virgínia Woolf:

Dentro de cem anos, pensei, alcançando minha porta de entrada, as mulheres terão deixado de ser o sexo protegido. Logicamente, participarão de todas as atividades e esforços que no passado lhes foram negados. A babá carregará carvão. A dona da loja dirigirá uma locomotiva (…). Retirem-se-lhes essa proteção, exponham-nas aos mesmos esforços e atividades, façam-nas soldados e marinheiros e maquinistas e estivadores, e as mulheres não morrerão tão mais jovens – e tão mais depressa – que os homens (…) Tudo pode acontecer quando a feminilidade tiver deixado de ser uma ocupação protegida” (Um teto todo seu. São Paulo: Vozes,p.54).

Façam-nas soldados, marinheiros e maquinista e complementando Virgínia, façam-nas jogadoras de futebol, árbitras, etc. e gerentes de futebol.

Eu e Silvani Maria, sob a proteção do São Cristóvão.
Eu e Silvani Maria, sob a proteção do São Cristóvão.

Obrigada Silvani pela entrevista que resultou neste post.

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