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Competições olímpicas de arte e a história das mulheres no esporte

A trajetória das mulheres no esporte durante algum tempo foi contada a partir da ênfase naquilo que não foi ou naquilo que poderia ter sido. Trata-se de uma perspectiva importante e justa que chamou a atenção para o longo silêncio sobre uma parte importante da história do esporte. Essa parte cabe às mulheres e ela é composta de inúmeros eventos e ações que precisam ser trazidos à cena, montando assim um quadro não de lacunas somente, mas de atos e gestos movidos por esforços solitários e coletivos. Esforços que possuem laços com diferentes esferas da cultura e da sociedade, entre as quais a arte.

Diversas foram as vezes em que o esporte foi artisticamente representado. As vanguardas europeias são um exemplo dessa aproximação. A ânsia por tematizar o frenesi da modernidade e seus ícones – entre os quais o esporte – moveu a tinta de artistas futuristas como Giacomo Balla, Umberto Boccioni e Carlo Carrà[1].

Porém, uma das mais fortes demonstrações da relação entre arte e esporte está nas Olympic Art Competitions (Competições Olímpicas de Arte) quase esquecidas hoje em dia, mas que já fizeram parte do programa dos Jogos Olímpicos. Essas competições começaram oficialmente, em 1912, nos Jogos de Estocolmo e terminaram em 1948, em Londres. Elas surgiram da vontade de Pierre Coubertin de relacionar esporte, arte e literatura, pois essa união representaria o que Coubertin considerava como a verdadeira essência dos Jogos Olímpicos, do modo como acreditava terem sido concebidos na Antiguidade.

Essas disputas artísticas foram um momento importante para as mulheres no esporte. Em 1928, o mexicano Ángel Zárraga levou para as competições seus quadros La Futebolista Rubia e La Futebolista Morena nos quais são retratadas jogadoras de futebol parisienses que atuavam nos gramados franceses em uma época considerada como a “idade de ouro” do futebol feminino[2].

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La futebolista morena, obra pintada, em 1926, por Ángel Zárraga e inscrita nas Competições Olímpicas de arte de 1928

Porém, as mulheres, também, se destacaram como artistas. E várias delas conseguiram medalhas.

Competições Olímpicas de arte e as mulheres

Pelo menos desde a metade dos anos de 1910, Pierre Coubertin não mediu esforços para a organização de uma conferência consultiva que visava convencer o Comitê Olímpico Internacional sobre a necessidade de se integrar ao Jogos, manifestações que fossem além dos esportes e abarcassem as artes. Richard Stanton, em seu livro The forgotten Olympic Art Competitions, nos mostra o empenho de Coubertin em convidar importantes artistas da época para comporem a conferência, enviando-lhes cartas individuais.

Em 1906, na abertura desse evento, Coubertin fez a leitura intitulada “A Grand Merriage” na qual enfatiza a necessidade de unir músculo e mente[3]. Seu esforço gerou resultado:

A conferência aprovou por unanimidade a ideia de instituir cinco concursos, arquitetura, escultura, pintura, literatura e música, que se juntarão a seguir as Olimpíadas e farão parte delas com o mesmo status das provas atléticas. Os trabalhos apresentados devem ser inspirados na ideia do esporte ou referir-se diretamente ao esporte. Eles seriam examinados por um júri internacional. As obras vencedoras seriam, na medida do possível, exibidas, publicadas ou executadas (como se fossem pictóricas, arquitetônicas, escultóricas ou literárias, ou finalmente, musicais ou dramáticas) ao longo dos Jogos. (tradução minha) [4]

Após alguns percalços, finalmente nos Jogos Olímpicos de Estocolmo, em 1912, as competições artísticas foram oficializadas. As principais categorias incluíam Arquitetura, Escultura, Pintura, Música e Literatura[5] tendo sua organização orientada pela nacionalidade. Assim como nos jogos esportivos, as premiações se dividiam em medalhas de ouro, prata e bronze. Em 36 anos foram concedidas 147 medalhas, sendo no total 24 para a Alemanha, 14 para Itália e 13 para a França.

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Competições Olímpicas de arte, 1932, Los Angeles. Júri observando as obras. Fonte: Olympic Museum

O único representante de destaque da América do Sul foi o Uruguai que obteve uma menção honrosa, em 1948, na categoria literatura, prêmio obtido por Clotilde Luisi, uma advogada, escritora e militante do direito das mulheres[6].

Várias foram as mulheres que participaram das Competições Olímpicas de Arte e que ganharam medalha como é o caso da escultora alemã Renée Sintenis que, em 1928, recebeu prata pela obra Footballeur. René era uma mulher que chamava atenção em sua época por seu estilo andrógino e por uma vida pública agitada, sendo com frequência vista em eventos esportivos ou dirigindo carros pelas ruas de Berlim.

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Footballeur, 1928, Renée Sintenis, medalha de bronze. Fonte: Playing Pasts

Outro destaque pode ser dado a Laura Knight que, em 1913, impactou a crítica e o público com seu Self-portrait with nude (Autorretrato com nu). Essa composição mostra uma cena ambientada em um estúdio no qual aparece Knight – vestida – em frente a uma tela em que pinta a modelo nua, Ella Naper.  Ao lado de Laura podemos ver um espelho refletindo o corpo real dessa modelo que posava para a artista. É uma pintura complexa que ao duplicar a imagem, atinge três planos de representação feminina: pintora, modelo e figuração.

Vale lembrar que no período de formação artística de Laura Knight, nas escolas de arte, era desaconselhado e até mesmo vedado que mulheres pintassem diretamente modelos nus, tendo que se limitar a trabalhar a partir de moldes ou copiar desenhos preexistentes. O quadro Autorretrato com nu, em grande medida, pode ser interpretado como uma provocação a essa sanção sofrida pela própria artista.

Knight foi alvo de críticas negativas de quem a considerou imoral e com uma postura considerada como incompatível com uma mulher. Entretanto com o passar do tempo, sua técnica que conjugava realismo e traços de impressionismo, a tornaram um dos principais nomes das artes plásticas da Inglaterra em sua época.  Uma artista muito popular, também, devido às suas pinturas sobre o cotidiano do circo. Laura Knight, em 1936, tornou-se a primeira mulher eleita para membro efetivo da Royal Academy desde sua fundação.

Antes disso, em 1928, Laura Knight foi medalhista das Competições Olímpicas de Arte ganhando a prata com a pintura Bouxeurs. Essa modalidade esportiva, aliás, já havia recebido atenção da artista em obras anteriores como é o caso de Physical Training at Witley Camp (1918), inspirada em cenas presenciadas pela própria artista no campo de treinamento militar Witley, onde soldados canadenses, francês e Belgas se preparavam para a primeira guerra mundial. Desde, então, a pintora costumava representar o boxe em suas produções como é o caso de Youngsters at the ring, Blackfriars (1937). Ainda em relação à temática esportiva, a artista fez o famoso cartaz Rugby at Twickenham by Tram, em 1921.

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Boxeurs, Medalha de prata, Competições Olímpicas de Arte 1932. Fonte: Olympic Museum
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Physical Training at Witley Camp (1918), Laura Knight. Fonte: Allpainter
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Youngsters at the ring, Blackfriars (1937), Laura Knight. Fonte: Artnet
FOTO 7
Rugby at Twickenham by Tram, cartaz feito por Laura Knight
Fonte: London Transport Museum

Agora é a vez de falar de Ruth Miller, nascida em Chicago, em 1904, filha de uma família abastada e conservadora da qual tentou desvencilhar-se e ir em busca de mais liberdade. Ruth chegou a fingir um colapso nervoso para não ser matriculada no tradicional Vassar College. Viajou para a Europa, casou-se sem autorização dos pais e estudou artes plásticas durante a efervescência das vanguardas europeias. Provavelmente desse contato surgiram os traços surrealistas que acompanham muitas de suas obras.

Já de volta aos Estados Unidos, em 1932, nos Jogos de Los Angeles, Ruth ganhou a medalha de prata nas competições artísticas com a interessantíssima pintura The Struggle, em que é possível observarmos dois homens, um negro e um branco, cuja luta corpórea pode ser interpretada como uma alusão ao embate racial comum à sociedade americana da época.

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Ruth Miller Kempster, The Struggle, Medalha de prata. Competições Olímpicas de Arte de 1932.
Fonte.: http://lacmaonfire.blogspot.com/

A pintora não deixou de lançar um olhar crítico também sobre os padrões femininos de sua época, como ocorre na bela e provocativa obra Housewife, de 1935. Nela, a partir da técnica de enquadramento usada, nos é passada uma forte impressão do enclausuramento do cotidiano doméstico das mulheres.

FOTO 9
Housewife, 1935, Ruth Miller Kempster. Fonte: Los Angeles Times.

As pintoras aqui mencionadas, de algum modo, deram mostras tanto na arte quanto em suas vidas de que havia espaços mais amplos a serem ocupados pelas mulheres na sociedade. E esse é um dos motivos que norteou a escolha delas para compor este texto. Além desse aspecto, o destaque dessas artistas, nesta postagem, também se justifica pela maior quantidade de informações acessíveis sobre suas carreiras e as obras que as levaram a ser premiadas nas Competições Olímpicas de Arte.

Foram 148 mulheres artistas que concorreram nessa disputa, sendo que 10 ganharam medalhas e cinco conseguiram menção honrosa. São números que dão mostras de uma participação exitosa. Desde a primeira edição oficial, em 1912, foi permitida a presença de mulheres, o que dá mostras de que pelo menos nas competições artísticas dos Jogos, essa questão não foi um problema. Nas regras das Competições Olímpicas de Arte não há passagens que façam alusão a regulações específicas em relação a artistas mulheres, assim como não se encontrava menção à sua exclusão das competições[7].

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Quadro de medalhistas mulheres nas Competições Olímpicas de Arte nas Fonte.: Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016

Tudo bem diferente do que ocorria com os Jogos Olímpicos esportivos cuja presença feminina foi algo contra o qual o próprio Barão de Coubertin manifestou-se explicitamente diversas vezes. Essa e outras oposições dificultaram sobremaneira a participação de mulheres atletas, mas como já disse, no início desta postagem, a trajetória das mulheres no esporte é fascinante devido ao seu caráter alternativo e em certa medida desobediente.

Afinal enquanto Barão de Coubertin dizia não, a francesa Alice Milliat, criou, e depois dirigiu, a Fédération Sportive Féminine Internationale (F.S.F.I.). Essa instituição durou 15 anos – (1921-1936) – e no decorrer desse esse tempo foi responsável pela organização de quatro edições dos Jogos Olímpicos Femininos.

Mas esse é tema para a próxima postagem.

[1] Sobre a relação arte e esporte há livros e artigos de Victor Andrade de Melo que podem ser consultados

[2] Uso a expressão de Xavier BREUIL no seu Histoire du football féminin en Europe. Paris.: Nouveau Monde Editions, 2011

[3] “to reunite a long-divorced couple – Muscle and Mind”, assim consta no discurso original que pode ser lido no livro de Richard Stanton The forgotten Olympic Art Competitions

[4] Pérez-Aragón, P. y Gallardo-Pérez, J. (2017). Coubertin and the Artistic Competitions in the Modern Olympic Games. Revista Internacional de Medicina y Ciencias de la Actividad Física y el Deporte vol. 17 (68) p.633-649.

[5] Com o tempo outras subdivisões foram acrescentadas

[6] Clotildi Luisi foi uma artista atuante no cenário político da América Latina saindo em defesa de ideias anti-imperialistas. Ela foi amiga de Alfonso Reys, poeta e diplomata Mexicano, com quem manteve intercâmbio intelectual frequente. Sobre a atuação de Luisi ver Mariana Moraes Medina. Crónica de una efusión: Alfonso Reyes, Luisa Luisi y el Comité Uruguay-México. Revista de Historia de América núm. 156, 2019.

[7] Ver  Natalia Camps Y Wilant. A Female Medallist at the 1928 Olympic Art Competitions: The Sculptress Renée Sintenis. The International Journal of the History of Sport. Volume 33, 2016 – Issue 13: Special Issue: Women and Sport

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História mínima do futebol argentino: Montagem 2020

Nemesia Hijós[1], Nicolás Cabrera[2] e Franco Reyna[3]

Todos os recortes históricos são arbitrários. Sempre, porém, há momentos mais propícios que outros para exercer o direito à injustiça histórica. Os aniversários ou as efemérides talvez sejam as datas mais comuns para propor montagens diacrônicas e sincrônicas. Dizemos montagens porque falamos de fazer acoplamentos e desacoplamentos – entre o que está escrito e o que é visual – para propor novos ensaios do aparentemente desconexo. Passaram-se 100 anos desde a década de 20 do século XX. Uma década que, para o futebol argentino, foi determinante em sua estruturação como espetáculo massivo, popular, mercantilizado e masculino.

Nós escolhemos três eixos que não tem uma origem ou um final marcado na década de 20, nem apresentam linhas similares no país todo, mas, se tentarmos reconstruir uma “história social do futebol argentino”, sem dúvida falamos de dimensões fundamentais de uma época inevitável. Uma década em que se acelera o processo de popularização do futebol e da sua transformação em espetáculo massivo; onde as mulheres são excluídas embora elas resistam com gestos de resistência; e onde a profissionalização do futebol começa a tomar forma na mão do amadorismo “marrom”.

Na continuação, apresentamos uma “superposição interativa” (Geertz, 2006: 53) de processos que hoje trazemos como modo de ensaio, como uma primeira tentativa, a fim de caminhar para trás, mirando no futuro. Um acoplamento de textos e imagens para discutir o futebol argentino que tínhamos, para assim poder imaginar o futebol argentino que desejamos.

O processo de popularização do futebol e sua transformação em um espetáculo de massa

O futebol foi introduzido na Argentina na segunda metade do século XIX pelos agentes do capitalismo industrial e mercantil britânico. Jogado inicialmente dentro de seus clubes e escolas públicas, logo se tornou um passatempo da elite local. Desde os últimos anos do século XIX, sua prática começou a interessar aos jovens dos setores médios e populares, em sua maioria estudantes, pequenos comerciantes, profissionais e trabalhadores urbanos, os quais progressivamente começaram a formar suas próprias instituições e competições para o desenvolvimento do jogo. Desde as zonas portuárias do país, o esporte se estendeu pelo resto da Argentina seguindo majoritariamente a expansão da rede ferroviária.

Os anos vinte implicaram na consolidação do futebol como um dos principais entretenimentos da população e consolidaram as bases para sua conformação como um espetáculo de massas. Nessa época, caracterizada por uma grande bonança econômica, crescimento demográfico e expansão urbana das principais cidades do país, a população dispunha de maior tempo livre e recursos para acessar cada vez mais massivamente ao consumo de atividades de ócio – entre as quais se destacava o futebol. Nesse sentido, desde então, o número de jogadores que começaram a participar das ligas oficiais locais e os diferentes circuitos independentes do “futebol amador” aumentaram substancialmente. Para citar um exemplo, se em 1920 eram aproximadamente 6 mil jogadores inscritos nos registros da liga oficial de Buenos Aires (Associação Amadora Argentina de Futebol – AAAF), em 1930 esse número superava os 25 mil.

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Foto 1. A seleção argentina recebendo o Barcelona FC no Estádio do Sportivo Barracas em 1928. Fonte: Arquivo Geral da Nação (AGN, Argentina), Dpto. Doc. Fotográficos. Consulta_INV: 329.102. Ano 1928

Esse fenômeno foi acompanhado por uma expansão associativa dos clubes, que começaram a incorporar novas atividades esportivas, sociais e recreativas para captar sócios e sócias. Ao mesmo tempo, houve uma maior padronização, institucionalização e sistematização das estruturas e dos aparatos competitivos, o que levou a formação de novos mercados de consumo desportivo. Por exemplo, nesses anos se generalizaram os intercâmbios esportivos contra equipes e seleções do continente e da Europa. Nesse contexto, o hábito de assistir aos jogos se espalhou, o que levou a um aumento significativo das arrecadações. No caso de Buenos Aires, as partidas mais importantes da época chegaram a ter 50 mil pessoas. A fim de abrigar a assistência massiva, os clubes tiveram de melhorar sua infraestrutura, o que levou à construção dos primeiros estádios de cimento do país. A imprensa acompanhou e imprimiu novos alcances a esse processo ao ampliar e renovar sua capacidade de cobertura e difusão das práticas esportivas. Desta maneira, o futebol se converteu em um produto cultural de massas que afetou o repertório identitário da população e contribuiu com a modernização da sociedade.

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Foto2. 55 mil pessoas presenciam o clássico entre San Lorenzo e Boca Juniors no Estádio de Avenida La Plata. Fonte: El Gráfico, 8 de setembro de 1929.

A profissionalização (ilegal) dos jogadores homens

Por mais que a profissionalização do futebol masculino tenha se oficializado na década de 30 (Buenos Aires foi a pioneira em 1931), foi ao longo dos anos 1920 que a prática do “amadorismo marrom” se difundiu, isto é, uma espécie de profissionalismo ilegal que consistia na cobrança por parte dos jogadores de uma quantia monetária ou algum outro benefício material previamente acordado com os dirigentes esportivos, apesar de sua proibição regulamentar (Reyna, 2015). A retribuição podia ser um pagamento periódico ou por partida, um prêmio posterior a cada encontro, uma comissão para viagens, roupas ou a comida diária. Outra forma de remuneração era colocar algum jogador em uma instituição pública. Finalmente, a última artimanha comum da época era “contratar” os jogadores ou seus familiares como empregados de empresas privadas para justificar os pagamentos registrados. Muitas dessas empresas pertenciam a simpatizantes ou dirigentes dos clubes.

Mais de uma denúncia circulava nos arredores revelando que alguns jogadores de renome pediam aos dirigentes um grande subsídio financeiro como condição para seguir vestindo as cores do clube; caso contrário, iam para outros instituições que lhes ofereciam acordos melhores. O recurso ao profissionalismo ilegal entrava em jogo quando era necessário competir pela conquista desses serviços, fosse para manter um jogador nas fileiras do clube em que atuava ou para convencê-lo a partir para um novo. Este era um comportamento que foi combatido nas páginas dos jornais, que mantiveram uma campanha moralizadora contras os jogadores denominados “desonestos” e contra os clubes que os incentivavam.

No entanto, o surgimento do “marronismo” possibilitou que muitos jovens dos setores populares pudessem dedicar-se com maior exclusividade à prática esportiva de alto rendimento e associaram-na, pela primeira vez, a um meio de vida alternativo e à possibilidade de uma mobilidade social ascendente. Embora essa aspiração só tenha se materializado em poucos casos, dado que, em sua grande maioria, as somas em jogo eram pequenas, os jogadores que mais se destacavam emergiram nesta época como figuras de consumo cultural por conta de seus méritos desportivos.

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Foto 3. Diárias aos jogadores de futebol. Fonte: El Gráfico, 4 de dezembro de 1926.

A partir de 1926, a FIFA reconheceu oficialmente a existência do amadorismo marrom e vários países começaram a legalizar o profissionalismo. Na Argentina, esse fenômeno se entrelaçou poucos anos depois com a crescente insatisfação dos jogadores com os dirigentes pelas restrições contratuais a sua livre mobilidade e capacidade escolher onde queriam jogar. Nesse período, no princípio de abril de 1931 um grupo de jogadores que faziam parte da Associação Mutualista de Jogadores de Futebol – a primeira entidade no país criada por futebolistas para defender seus interesses corporativos – levaram uma petição à AAAF exigindo o passe livre, ou seja, a possibilidade de mudar de clube com a aprovação apenas da entidade que o desejava. Diante da falta de resposta dos diretores, os jogadores se declararam em greve, organizaram uma marcha e pediriam a mediação das autoridades governamentais, que viram na legalização da prática remunerada uma solução para o assunto.

Tal como comenta Julio Frydenberg (2011), ao final desse mês, a grande maioria dos 36 clubes pertencentes à AAAF se disseram a favor do profissionalismo. Os futebolistas tiveram a possibilidade de obter remunerações por suas atividades em troca de uma maior especialização e dedicação à prática. Essa nova disposição não conseguiu o aval da associação e 18 dos clubes mais poderosos de Buenos Aires constituíram sua própria federação, a Liga Argentina de Futebol (LAF). Os clubes excluídos da nova entidade se agruparam em torno da Associação Argentina de Futebol (AAF). A LAF conseguiu impor-se a pela hierarquia de seus clubes e firmou pactos de concordância com as federações das cidades de Rosario, Córdoba e Santa Fé para reger os destinos nacionais. A necessidade de evitar a migração dos jogadores mais talentosos dessas ligas às equipes profissionais “porteñas” abriu o caminho para a posterior profissionalização do futebol naqueles lugares, o que implicou em uma nova fase na transformação do espetáculo desportivo.

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Foto 4. Fernando Paternoster, craque do Racing Club de Avellaneda e da seleção argentina. Fonte: El Gráfico, 7 de setembro de 1929.

Invisibilidade, exclusão, disputas e resistência. O lugar das mulheres na história centenária do futebol

Ainda que a história nos mostre que espaços como o futebol tenham sido de e para homens, as mulheres sempre estiveram presentes (Cabrera e Hijós, 2020). Antes de serem encaradas como acompanhantes, torcedoras e fanáticas, as mulheres argentinas jogavam em clubes, inspiradas pela popularidade das “footballers” inglesas e francesas. Os primeiros registros revelam a existência de uma equipe feminina em 1922 em Buenos Aires, chamada Río de la Plata. Entretanto, quando que o futebol se tornou um esporte nacional e passou a ser parte da identidade argentina, trouxe uma única condição de gênero: um espaço quase exclusivamente jogado e contado por homens, onde se constroem e reforçam masculinidades hegemônicas (Archetti, 1994), do qual as mulheres foram isoladas e invisibilizadas.

Os meios de comunicação de massa são em grande parte responsáveis pelo lugar de privilégio concedido ao futebol masculino, com coberturas sexistas que enunciam esportes que estão em concordância com o gênero e que – até hoje – têm ignorado quase que por completo os jogos femininos. Assim, nas publicações da época foi se configurando o tênis, o atletismo, o golfe, a natação e – particularmente desde a década de 1920 – o vôlei e o basquete como esportes para as mulheres, além de outras práticas “adequadas” como a “pelota vasca” e o pushball, que hoje não tem protagonismo. Os argumentos biológicos promovidos pela perspectiva científica da época, as premissas vinculadas à saúde e a fisionomia das mulheres (“um corpo despreparado para este esforço muscular”) junto com as presunções de falta de atratividade como espetáculo (“não teriam a força que entusiasma o público)[4] eram os fatores determinantes para separar as mulheres do futebol, instaurando modos de ser legítimos.

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Foto 5. Argumentos pelos quais as mulheres não deveriam jogar futebol. Fonte: El Gráfico, 15 de janeiro de 1921.

As representações da época condenaram a participação feminina, associando a ação de jogo com o lesbianismo e à sexualidade descontrolada (“os choques tratavam os jogadores em um abraço lésbico inaceitável”)[5], levando razões supostamente objetivas (ligadas à ciência e à saúde) para tirar as mulheres e respaldar ideias de que esta era uma prática que não era para elas. Mesmo que na Argentina o futebol não tenha sido proibido legalmente para as mulheres[6], a eliminação se materializou em termos de representação[7]. Na imprensa escrita, as mulheres são relacionadas com imagens ligadas à vida familiar, ao cuidado e ao acompanhamento, referências que contribuíram na configuração de identidades femininas e que moldaram os corpos, nos quais os benefícios da atividade física se apresentavam associados ao cultivo da beleza e da boa saúde. Gradualmente, em revistas e jornais dos anos vinte, as mulheres começaram a ser representadas de modo passivo. A “mulher moderna” era caracterizada pela debilidade física, intelectual e moral, assim como de excesso de sentimentalismo, enquanto suas funções fundamentais eram a maternidade e o cuidado da família, que acreditavam ser constitutivas de sua essência (Barrancos, 2010).

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Foto 6. Encontro entre Feminina Sport Club de Paris e Dick Kerr de Preston da Inglaterra. Fonte: El Gráfico, 13 de junho de 1925.

A presença das mulheres nos campos de futebol e seu papel como torcedoras também se potencializou, sem deixar de ser um estigma de um ambiente de “machos”, que as invisibilizou e diluiu como ocorreu depois. As coberturas periódicas dos finais dos anos vinte destacavam sua paixão fervorosa, o conhecimento sobre jogadas e performances, sem omitir os trabalhos esperados que implica o ser mulher (como o bordado das bandeiras nos intervalos das partidas) e o aporte de “elegância” e “civilidade” que sua presença supunha. Esse estado de excepcionalidade e as concessões de permissão para as mulheres (torcedoras) se interrompia com o fim da partida dos homens. Como relata uma nota do El Gráfico de 1929 sobre o perfil da torcedora de futebol: “quando terminar a partida, recobrará seu sexo e adotará novamente seu passo curto, discreto”, retornando ao âmbito privado para novamente naturalizar a divisão de papéis na confirmação histórica de modelos femininos e masculinos.

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Foto 7. O perfil da torcedora de futebol argentina. Fonte: El Gráfico, 14 de dezembro de 1929;

Considerações Finais

O futebol argentino, nascido na segunda metade do século XIX com as marcas do elitismo, amadorismo e fair play, mostrava ao final dos anos vinte do século seguinte, um rosto popular, masculino, massivo e mercantilizado. Foi nessa década que confluíram uma série de fenômenos que marcaram o futuro do esporte até a atualidade. Não falamos de etapas sequencialmente estruturadas, mas sim de processos de sobreposição relacional. Tendências que sofrerão com as marchas e contramarchas nos períodos subsequentes, pois “a história” nunca está livre de rupturas, deslocamentos, pausas, intermitências ou recuos.

A título de encerramento, continuamos com algumas perguntas. Sabendo que não há temporalidades sem espacialidades, nos perguntamos: quanto desta “história mínima” traçada peca de “porteñocentrismo”? Que outros processos e tendências se desenvolveram em outras geografias do país? Também sabemos que o futebol sempre deve pensar-se relacionalmente com outros campos, então: que outras democratizações do lazer operaram durante aquela década para que a popularização e massificação do futebol pudesse ocorrer? Quanto a modernização urbana da época tem relação com a institucionalização e expansão do futebol?

Um tema vital que foi deixado de lado por questões de espaço foi o da violência nos estádios da época. Não é por acaso que nos primeiros anos do século XX, quando surgiram os primeiros grandes tumultos e mortos, a imprensa escrita começou a cunhar a noção de “barras” para coletivizar – sob uma forte vocação moralista – os “torcedores fanáticos” que protagonizam episódios “antidesportivos”, “incultos” ou “de vandalismo”. Então quanto tem a ver o pânico moral criado desde a imprensa com a popularização do futebol? Em outras palavras, o dito pânico moral não supõe um pânico de classe?

Também expusemos como a história do futebol na Argentina tem sido protagonizada e configurada por uma perspectiva masculina. Havia – e há – um desejo de neutralizar a presença feminina em um espaço “de e para homens”. Hoje, quase cem anos depois das primeiras referências de mulheres no futebol, como elas são representadas? Até que ponto nos afastamos destas representações que põem em circulação visões sexistas e reproduzem estereótipos? Quanto mudaram os papéis historicamente designados às mulheres no esporte? Quanto falta para alcançar um horizonte emancipatório e libertador em termos de gênero? Estão sendo construídas opções alternativas no futebol?

Por fim, pensando neste artigo, o que, do que foi dito da Argentina, pode ser comparado com o caso brasileiro? Parafraseando a grande fundadora dos cruzamentos entre ciências sociais e futebol, Simoni Lahud Guedes, o que une e o que separa no futebol Argentina e Brasil? Duas nações condenadas a um jogo de espelhos entre si.

Todas são perguntas inevitáveis que abrem um caminho a ser seguido pelas pesquisas sociais destinadas a compreender o desenvolvimento alcançado pelo esporte ao longo de sua história.

[1] Doutoranda em Ciências Sociais (FSOC, UBA, Argentina). Mestre em Antropologia Social (IDES-IDAES/UNSAM). Graduada em Ciências Antropológicas (FFyL, UBA). Bolsista de Doutorado do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas (CONICET). Email: nemesiahijos@gmail.com

[2] Doutor em Antropologia (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina). Bolsista de Pós-doutorado IDACOR-UNC-CONICET. Email: nico_cab@hotmail.com

[3] Doutor em História (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina). Investigador Assistente CONICET. Email: franco2reyna@hotmail.com

[4] Uma das primeiras representações foi a nota do jogador inglês Andy Ducat no El Gráfico (15 de janeiro de 1921) no artigo “Por que a mulher não deve praticar o futebol?”, ele explica que, por natureza, “a mulher” é frágil demais para participar de um esporte tão “rude” e que, ao jogar este esporte de “machos”, corre risco de ganhar musculatura, transformando- se em um “marimacho”, deixando de “ser mulher”.

[5] Referência do poema de Bernardo Canal Feijoó, “Futebol de mulheres”, de sua coleção Penúltimo poema de fútbol de 1924.

[6] Por ser considerado perigoso para o sexo “mais frágil”, ao colocar em risco o sistema reprodutivo feminino, esteve proibido em países como Inglaterra (1921-1971), Brasil (1941-1979) y Alemanha (1955-1970).

[7] Durante os primeiros 50 anos da revista El Gráfico somente 10% das capas foram destinadas a mulheres e não mais que 6% a mulheres atletas.

Referências bibliográficas

Archetti, E. (1994). Masculinity and football: The formation of national identity in Argentina. En R. Giulianotti y J. Williams (Eds.), Game without Frontiers: Football, Identity and Modernity (pp. 225-243). Aldershot: Arena.

Barrancos, D. (2010). Mujeres en la sociedad argentina: una historia de cinco siglos.
Buenos Aires: Sudamericana.

Cabrera, N. e Hijós, N. (2020). Juegos de espejos: una historia mínima del fútbol femenino en Argentina y Brasil. En Hijós, N.; Moreira, V. y Soto-Lagos, R. (Eds.), Los días del Mundial: miradas críticas y globales sobre Francia 2019 (pp. 42-46). Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO.

Frydenberg, J. (2011). Historia social del fútbol. Del amateurismo a la profesionalización. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores.

Geertz, C. (2006). La interpretación de las culturas. Barcelona: Gedisa.

Reyna, F. (2015). “La difusión y apropiación del fútbol en el proceso de modernización en Córdoba (1900-1943). Actores, prácticas, representaciones e identidades sociales”, Tesis Doctoral en Historia. Córdoba: Universidad Nacional de Córdoba.

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Eventos

LEME divulga Resenha Rubro-Negra: Mulheres no mundo esportivo

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ) convida todos e todas para o evento “Resenha Rubro-Negra: Mulheres no mundo esportivo”, uma resenha que contará com mulheres que têm história no clube. O evento acontecerá na próxima terça, dia 09/07, às 19h na Loja do Flamengo (Av. Borges de Medeiros, 997 – Rio de… Continuar lendo LEME divulga Resenha Rubro-Negra: Mulheres no mundo esportivo

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Artigos · Participações na mídia

Revista “Super Interessante” entrevista pesquisadora do LEME

A edição do dia 20 da revista brasileira “Super Interessante” trouxe uma entrevista com Leda Costa, pesquisadora do Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ). Leda falou sobre a vez do futebol feminino, em especial sobre as interdições ao corpo da mulher e sobre a proibição dessa modalidade. “Práticas consideradas ‘brutas’ eram vistas como nocivas… Continuar lendo Revista “Super Interessante” entrevista pesquisadora do LEME

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Artigos

22 mulheres em campo

22 mulheres em campo jogando bola em um estádio lotado que cantou a Marselhesa antes, durante a após a partida entre Brasil e França. Um belo cenário para as oitavas de final da Copa do mundo de 2019. Uma Copa que pode ser um divisor de águas para o futebol das mulheres, tamanho o bom… Continuar lendo 22 mulheres em campo

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Eventos

LEME divulga “Mesa Redonda Futsal Feminino no Brasil: Cenário Atual e novas perspectivas”

O Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ) convida para “Mesa Redonda Futsal Feminino no Brasil: Cenário Atual e novas perspectivas”. Esse evento irá promover um debate em busca de aumentar a visibilidade da bola pesada, modalidade pouco promovida em nosso país, em específico o feminino. Contará com a participação de Neide Oliveira (via… Continuar lendo LEME divulga “Mesa Redonda Futsal Feminino no Brasil: Cenário Atual e novas perspectivas”

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