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A violência é uma ordem: River, Boca e a cultura de apedrejar*

Por Pablo Alabarces

Fotos: Diego Paruelo e Pepe Mateos

*Texto originalmente publicado na Revista Anfibia da Universidad Nacional de San Martim – Argentina. 

** Tradução livre de Juan Silvera – LEME/UERJ

Não me resta inteligência – já devastada após cinco horas de jornalismo esportivo mainstream e redes sociais ardendo em conspirações – somente para elaborar estas 15 ideias. Se alguém quiser conectá-las, alterar a ordem, estabelecer relações, causas ou consequências, tem total liberdade fazê-lo.

1) Os torcedores de todos os times argentinos agridem os ônibus dos jogadores rivais. Aconteceu com o ônibus do Boca com os torcedores de River. Faz alguns anos também aconteceu com o ônibus de uma equipe boliviana, que disputou uma partida de Libertadores contra Gimnasia y Esgrima de La Plata, no Bosque[1]: ficaram alguns feridos,  a partida não foi suspensa, ninguém deu demasiada importância, afinal, eram apenas bolivianos. Também aconteceu em São Paulo seis anos atrás (mais tarde, a polícia paulista, igual a qualquer polícia violenta argentina, ameaçou os jogadores do Tigre com armas no vestiário)

Ninguém se pergunta por que: simplesmente porque os torcedores “empoderados” (como se costuma dizer agora) estão convencidos de que sua participação é decisiva no espetáculo futebolístico. Com seu apoio, com suas bandeiras, com sua festa na arquibancada, com seu “aguante”, com sua paixão, com seus insultos, com suas ameaças, com suas promessas de violações, com suas afirmações letais, com suas pedras. Afinal, apedrejar um ônibus é a maneira mais eficaz de garantir a eficácia dessa intervenção imaginária no resultado da partida, mesmo deixando de ser imaginária.

Portanto, quem conduz um ônibus com jogadores, quase sem custódia, para o lugar onde são aguardados por milhares de torcedores rivais, só pode ser um “babaca” ou um funcionário público.

2) A única coisa positiva é que desta vez tudo aconteceu sob o olhar atento de Gianni Infantino, o presidente da FIFA. Espera-se, então, que a FIFA desfilie  a AFA (Asociación del Futebol Argentino) e que o futebol argentino possa entrar, assim, na sua definitiva e merecida extinção.

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3) Três anos atrás, apenas três, nesta mesma revista após os eventos infames do gás de pimenta na Bombonera, escrevi o seguinte[2]: “Eu sei que o mínimo admissível é a perda do jogo para o Boca, o encerramento do estádio por cinco anos, o julgamento de todos responsáveis ​​pelo clube por cumplicidade óbvia e televisionada. Mas permitam-me uma última provocação, para que o resto dos torcedores aceitem que desta vez é a vez do Boca, mas que pode ser a vez qualquer um, amanhã ou depois. Minha fé no futebol e na raça humana voltaria se amanhã os líderes do River e do Boca, juntos e ao mesmo tempo, acompanhados daquele que ocupa o cargo de presidente da AFA e cujo nome eu não quero lembrar, pedirem à Conmebol que todos as equipes argentinas fiquem de fora da Copa Libertadores”.

Nada disso aconteceu. O Boca teve seu estádio interditado por duas rodadas, através da mediação direta do então candidato a presidente da República, Mauricio Macri, com o então presidente do Paraguai e amigo próximo do então presidente da Conmebol. Ao candidato Macri a sociedade argentina o promoveu a presidente da nação, para que ele pudesse nos entreter com suas declarações de futebol, como aquela que  descreve Marcelo Gallardo como “cagão” (sortudo), alguns dias antes da final.

Portanto este jogo não deve ser jogado, a Conmebol deveria ter suspendido todas as equipes argentinas em 2015 por cinco anos e o Boca por dez anos. Essa foi a penalidade para o futebol inglês e para o Liverpool, respectivamente, em 1984, após o massacre de Heysel. Desta vez não temos os 39 mortos. Talvez, estejamos apenas esperando que eles apareçam.

4) Há apenas duas semanas, no programa de televisão Código Político, o Secretário de Segurança de Buenos Aires, Martín Ocampo, assumiu  que seu governo não pode garantir segurança para que torcedores locais e visitantes coincidam em um estádio. Eu estava no estúdio, e quando Van der Kooy me entrevistou eu disse, mais ou menos, isso: esse cara (Martín Ocampo) é um inútil que acabou de confessar que o estado democrático não tem competência para combinar no tempo e no espaço duas pessoas com diferentes simpatias futebolísticas. Duas semanas depois, o estado mostrou que não pode sequer garantir a segurança apenas com os torcedores locais. Ocampo foi colocado em sua posição por indicação direta de Daniel Angelici, o presidente do Boca. Foi a pessoa encarregada dessa maravilhosa operação  em que a escolta policial levou o ônibus com os jogadores de Boca para passar no meio de alguns milhares de torcedores do River. Um gênio inexorável.

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5) “A final do mundo”. Há alguns dias, o jornalista e amigo Alejandro Wall interrogou colegas de diferentes partes do mundo: todos responderam que a final da Libertadores entre Boca e River não despertava muito interesse fora da Argentina. Mas foi chamada de “a final do mundo”, “a festa do século”, “não há amanhã”, “ganhar ou morrer”, “vida ou morte”. Depois de todo esse desperdício de metáforas e adjetivos, os jornalistas de hoje se perguntam porque “as pessoas” estão tão loucas a ponto de apedrejar o ônibus  dos jogadores rivais. Falem sério, não conseguem pensar porque? Não era uma final de vida ou morte?

6) Vinte anos dizendo a mesma coisa. Eu posso me citar nos próximos dez mil caracteres. Por exemplo, escrevi também há três anos para a  mesma revista: “O bom é que desta vez foi em um Boca – River assistido por alguns milhões de espectadores. Se tudo isso acontecesse em um jogo entre Newell’s e Central – e eu não digo um Defensores-Excursionistas -, a revista Anfibia não me pediria essa nota. Eu conto mais: há alguns meses, depois do clássico de Rosário, Newell’s Ol Boys – Rosario Central , dois torcedores foram mortos nas ruas. Futebol, torcedores e jornalismo argentino, perdoem minha franqueza, pouco se importaram com o fato.”

Três semanas atrás, Newell’s e Central jogaram um clássico fora da província de Santa Fé e com portões  fechados. Foi manchete nas seções de esporte dos jornais somente por um dia. Os incidentes de All Boys – Atlanta aconteceram há quatro dias; as “explicações” foram novamente as mesmas de sempre, aquelas que falam sobre violentos “barras bravas”, animais, barbárie. Outro intérprete do jornalismo esportivo, o jornalista Gustavo Grabia, veio “explicar”, argumentando a vinculação dos fatos com a extrema violência da barra brava de Albo (All Boys), ligada à De Elía, ao Hezbollah e ao narcotráfico local. Ninguém veio para lembrar o óbvio: que a nossa é uma cultura futebolística, onde vingar a honra manchada por uma perda de instalações, contra um rival clássico, ainda por cima judeus,  é ​​uma obrigação, não é uma opção.

Meus informantes falam sobre duas coisas: cantos anti-semitas durante o jogo, que, no entanto, não levaram à suspensão, conforme exigido pelos regulamentos; e que entre os mais exaltados estavam jornalistas locais, proferindo insultos contra os líderes pobres, jornalistas e parentes do Atlanta.

Grabia explica isso dizendo que os jornalistas partidários do Albo (All Boys) são barras bravas contratados pelo Hamas e a OLP. Sem mencionar o orgulho local, de assistir à polícia (bando de inúteis) correndo pelas ruas do bairro para fugir da torcida local, retirando-se com suas viaturas e esbarrando uns nos outros, para não trazer à tona a velha briga do bairro com a 43° delegacia, depois dos crimes dos três meninos em 2001, quando o bairro quase tomou conta da delegacia.

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Os torcedores de All Boys não vêem, nestes fatos, mais que razões de orgulho. Eles demonstraram um “aguante” superior às suas expectativas: o respeito dos torcedores rivais vai crescer desmesuradamente. Como se percebe, não há vestígios de disputas internas de poder na barra brava ou brigas por fundos clandestinos ou negociações por áreas de tráfico de drogas: há uma honra de futebol pura e vulgar, fundada e alimentada por uma cultura do futebol organizada por esses códigos.   Mas Grabia está dizendo, ao mesmo tempo: “os animais disfarçados de torcedores”. Não, Gustavo, você ainda não entendeu nada. Eles são torcedores e ponto.

7) Carlos Tevez há muito tempo deixou de ser “o jogador do povo” – uma fantasia hiperbólica clássica do péssimo jornalismo esportivo – para ser apenas um tolo, mas com um microfone aberto. O fato de hoje foi definitivamente desqualificante: apoia a hipótese conspiratória, alegando cumplicidade entre a Conmebol e o River. Ele joga para a plateia, não enxerga além disso; não consegue perceber que alimentar a paranoia, numa cultura de futebol organizada pelas paranoias, é apenas jogar gasolina na fogueira. Moral da história: a maioria dos jogadores é tão responsável por tudo o que acontece no futebol como Macri, Tapia, Di Zeo, “Caverna” Godoy e o vendedor ambulante do Estádio Berazategui.[3]

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8) Alimentar paranoias. Durante toda a semana foram tecidas hipóteses desse tenor, com respeito a alguma preferência da Conmebol por Boca,  indicada pela eleição de um juiz de linha com trajetória um tanto sinuosa. Hoje apareceram as paranoias contrárias, a partir da irresponsável doutrina de Tévez e Benedetto: que eles dão a Taça sem jogar, afinal de contas  River sempre faz o que quer. Há algumas horas recebi uma terceira: uma emboscada organizada pela barra brava “Borrachos del Tablón”[4] como vingança pelo encarceramento de Caverna, seu líder, e pelo sequestro dos ingressos gratuitos da barra brava. Agora eu recebo uma quarta: que a polícia levou o ônibus para a emboscada propositadamente, para forçar a suspensão e perda dos pontos.

O problema das performances paranoicas do futebol é que elas são o princípio estruturante da cultura do futebol. O problema das performances paranoicas do futebol é que elas são incríveis. O problema das interpretações paranóicas na Argentina é que elas são todas possíveis.

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9) O futebol reflete a sociedade: um ponto contra a sociologia contemporânea. O futebol reflete somente o futebol com facilidade e precisão. Basicamente, a demolição desse lugar-comum seria dada pela obviedade de que uma cultura que ainda é tão masculina não pode “refletir” uma sociedade em que a maioria das “pessoas” não é masculina. Naturalmente, a metáfora da reflexão é repetida frequentemente por senhores com um apito. “Explicar” com esse argumento permite que você dilua culpas, mas não explica nada, muito menos resolve a questão.  A explicação que empregamos há vinte anos, financiada pelas instituições científicas argentinas, foi ampliada por uma dúzia de colegas em toda a extensão da república. Todo esse trabalho desaparece, torna-se inútil, toda vez que os participantes da TyC Sports ou da Fox abrem a boca.

10) Neste ponto, pode ser necessário lembrar que toda a responsabilidade por tudo o que aconteceu recai sobre autoridades políticas de extrema inutilidade, cujos salários multiplicam os nossos, como pesquisadores do Consejo Nacional de Investigaciones Cientificas e Técnicas – CONICET[5]; e que com seu analfabetismo funcional, arrogância política, ignorância soberba do que o próprio Estado produziu como conhecimento científico e incapacidade de administrar os assuntos públicos causaram 16 mortes em menos de três anos.

Neste ponto, pode ser necessário lembrar que a responsabilidade é compartilhada por funcionários políticos de todas as gestões democráticas, desde 1983 até o momento. Que a gestão passada, caso alguém não se lembre, carrega 96 mortos em doze anos.

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11) Definição de desajustados: sujeitos meticulosamente adaptados ao que se espera deles numa cultura do futebol organizada em torno da violência como ética.

Definição de “babacas” (do grego: alienado): indivíduos que não podem se desprender dessa cultura do futebol, incapazes de entender que uma pedra ou o uso de gás de pimenta pode levar à perda de pontos e de jogos. Indivíduos que, ao mesmo tempo, sabem perfeitamente que essa cultura exige deles a mesma coisa que devem evitar; e eles também sabem que as sanções existem apenas para os times pequenos.                  Definição de paradoxo: reler as duas definições anteriores, juntas.

12) Soluções, versão um: suspender o futebol masculino argentino por um ano, em todas as suas categorias. Intervenção de todos os clubes e inclusive da AFA: nomear mulheres em todas as posições. Começar  a trabalhar.

Soluções , versão dois: suspender por um ano o futebol argentino masculino, ficar olhando para o teto, repetir várias vezes “somos todos responsáveis” como mantra, encurtar a suspensão como um gesto de boa vontade, contar os cadáveres no dia seguinte.

Soluções, versão três, a que vai acontecer na segunda-feira: convidar Florence Arietto, Gustavo Grabia, Mariano Closs, Gustavo Lugones e Martin Ocampo ao canal de televisão TN – Todo Noticias (ao vivo 24 horas por dia) , conduzidos por Marcelo Bonelli, e jurar investigar até as últimas consequências  o que aconteceu,  para punir exemplarmente os responsáveis, mandar embora os líderes das barras bravas  do futebol argentino e da face da terra e, assim, a família voltará  aos estádios. Etapa prévia a esta: encontrar famílias argentinas nos estádios nos últimos cem anos. Continuar contando os cadáveres.

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13) Esse jogo, evidentemente, não poderia ser jogado. A insistência da Conmebol e da FIFA só pode ser entendida na linha de raciocínio que decidiu jogar Juventus – Liverpool em 29 de maio de 1985, em Heysel, após os 39 mortos. Tontos, falamos? Irresponsáveis? Sujeitos capazes de sacrificar a própria mãe por algum direito televisivo?

14) Mas, tudo isso é uma gigantesca cortina de fumaça para esconder a corrupção K (Kirchner)  e o fracasso do governo Macri.

15) A nota escrita para Anfibia há  três anos, terminou assim: “E que os fãs do River, Boca e Racing  (e San Lorenzo e Independiente e Vélez e All Boys e Atlanta e Comunicaciones) ficassem  todos de acordo, se olhasem fraternalmente nos olhos, e dissessem  uns aos outros “bom, assim não dá mais” e,  juntos invadissem  a AFA para que os cartolas  saíssem  até não ficar nenhum.

 

[1] Bosque: como é popularmente conhecido o Estádio Juan Carmelo Zerrillo, propriedade do Club Gimnasia y Esgrima de La Plata, na Província de Buenos Aires, Argentina.

[2] Ver texto completo em: http://revistaanfibia.com/ensayo/gas-pimienta-drone-misiles/

[3] Claudio Tapia: atual presidente da AFA; Rafael Di Zeo, presidente da barra brava “la 12” do Boca Juniors;  “Caverna” Godoy: presidente da barra brava “ los borrachos del tablón” do River Plate.

Berazategui: clube argentino de futebol que disputa a Serie C.

[4] Barra Brava do River Plate, que comanda a animação da torcida.

[5] Conselho Nacional de Investigações e Tecnicas – CONICET

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