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Ainda sobre machismo, futebol e jornalismo esportivo

No post passado, Clara Quintaneira falou – e muito bem – sobre o machismo presente no jornalismo esportivo, explicitado no caso da repórter Bruna Dealtry do Esporte Interativo que durante uma entrevista foi beijada – contra sua vontade – por um torcedor do Vasco.

Corro o risco de parecer pouco criativa ou repetitiva. Mas acontece que casos relacionados ao machismo nos esportes, infelizmente, não cessam de se repetir.

Sem dúvida, o jornalismo esportivo tem se aberto cada vez mais para a participação das mulheres, o que em grande medida se relaciona aos movimentos de conquistas femininas ao longo dos anos, especialmente, no que diz respeito ao mercado de trabalho.

Mas alguns fatos acontecidos, recentemente, dão mostras de que muitos problemas continuam. No Grenal do dia 11 de março, a repórter da Rádio Gaúcha, Renata de Medeiros foi fisicamente agredida depois de reagir a um “sai daqui puta”, frase dita por um torcedor do Internacional.  Renata fez um boletim de ocorrência, logo após o jogo, e registrou sua indignação nas redes sociais.

No Dia Internacional da Mulher, Renata havia escrito uma matéria sobre o machismo sofrido por torcedoras nas arquibancadas do Rio Grande do Sul e as recentes reações como, por exemplo, a campanha “Torce que nem mulher” lançada pelas meninas da Força Feminina Colorada.

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Fonte: GAÚCHAZH.
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Fonte: Instagram Força Feminina Colorado.

Bastam poucos minutos em um estádio para notar que são espaços de exaltação de uma masculinidade que para ofender faz uso de cânticos permeados de manifestações de machismo e homofobia.

Eu mesma já fui forçada a chamar por seguranças nas sociais de São Januário por causa de um senhor que tentou passar a mão na minha perna enquanto comemorava um gol. Por isso, como já disse certa vez, estádios são lugares que amo, mas também odeio. E o mesmo posso dizer em relação ao próprio futebol e ao jornalismo esportivo.

E por falar nele, para completarmos esse breve percurso pelas trilhas do machismo no esporte é válido mencionar os constrangimentos sofridos por Karol Barbosa, candidata à musa do time do Goiás, que durante participação do programa “Os donos da Bola” ouviu perguntas tais como: “se o seu nutricionista mandar você chupar uma laranja porque faz muito bem para a saúde, você chuparia um saco por dia?”, “em um clássico contra o Vila, se o juiz põe pra fora, você mete a boca?”. “para uma musa não sofrer dores localizadas, é importante o médico colocar compressa?”. (Fonte: Observatório da Televisão)

É válido lembrar que Goiás é um dos três estados onde mais ocorrem casos de violência contra a mulher, segundo dados do Atlas da Violência. Aliás, de acordo com esse mesmo documento. “Em 2015, 4.621 mulheres foram assassinadas no Brasil, o que corresponde a uma taxa de 4,5 mortes para cada 100 mil mulheres”.

Esses números são importantes para que evitemos falar que os exemplos aqui mostrados “são coisas do futebol”, “são brincadeiras” ou mesmo alegarmos que muitos homens também passam pelos mesmos problemas.

É difícil de sustentar ideias como a de “assédio reverso” – e suas variantes como racismo reverso etc etc.  É importante compreender que fenômenos como machismo estão diretamente vinculados a relações de poder. Estamos falando, portanto, de grupos que possuem privilégios em detrimento de outros.

Estamos falando de minorias que foram ao longo dos tempos oprimidas, tiveram direitos cerceados e hoje lutam para que a abalança dos poderes seja menos desigual. Que o esporte e o jornalismo esportivo se tornem mais democráticos e menos resistentes a importantes transformações que têm sido gestadas nos últimos tempos. E para que isso seja possível, é importante que continuemos a falar e contestar todas as formas de preconceito que ainda são notáveis no campo esportivo.

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