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Velha Roupa Colorida – sobre a decadência de um símbolo nacional

O processo foi longo, não começou ontem. Nem em 2014, depois dos 7 x 1. Há pelo menos 20 anos, pesquisadores/as do esporte afirmam que o vínculo historicamente naturalizado entre a seleção brasileira e a nação estava esvanecendo. A primeira vez que ouvi algo sobre isso foi em 2002, num artigo de Ronaldo Helal, que afirmava que a Pátria usava chuteiras cada vez menores.

A trajetória da seleção brasileira, ao longo do século XX, foi de ascensão. Dos primeiros jogos internacionais na década de 1910 ao tricampeonato mundial em 1970, o futebol brasileiro, representado pela seleção, tornou-se um poderoso núcleo semiótico de identificação, um amálgama que parecia eterno: a seleção é o povo brasileiro em campo, a pátria de chuteiras. Na derrotas e nas vitórias.

Acredito que o apogeu deste processo ocorreu em 1970, na conquista do tricampeonato mundial. O título invicto, com Pelé em campo, a posse definitiva da taça Jules Rimet, a goleada na final contra a bicampeã Itália, a torcida massiva dos mexicanos e o golaço inesquecível de Carlos Alberto. Isso apenas do ponto de vista da Copa: no Brasil, o governo Médici e sua mídia sempre amiga exploraram intensamente aquela conquista, reforçando com todos os meios possíveis o sentido profundo da metonímia: a seleção é o povo dentro de campo.

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Fonte: O Globo

Daí para a frente, começou um longo período de decadência. Pelos 24 anos seguintes, ouvimos muitas desculpas de porque não ganhamos a Copa. A culpa foi da idade avançada dos jogadores, da defasagem técnica, do esquema tático, do suborno de um goleiro, da perda de um pênalti, de um drible no meio de campo, etc. A vitória anêmica na Copa de 1994 trouxe alguma festa, mas com sorrisos amarelos: ganhamos (com uma bola chutada para fora), mas não convencemos.

A Copa de 1998 foi um momento emblemático nesta trajetória: a seleção começou a Copa desacreditada, foi ganhando adesões à medida em que avançava.  Na hora da partida final, sabemos o que aconteceu: Ronaldo, o Neymar dos anos 1990, teve um colapso nervoso, o time inteiro desestabilizou-se emocionalmente, a comissão técnica se desentendeu ao vivo, tirando e recolocando Ronaldo na escalação, sem que qualquer explicação plausível fosse apresentada. Para os jornalistas que diziam que “o grande craque da França se chama Marselhesa”, e que “se o Brasil suportar a correria inicial dos franceses, vamos ganhar de goleada”, deve ter sido uma surpresa ver a tranquilidade com que a França nos aplicou 3 x 0, a maior goleada sofrida na história da seleção brasileira nas Copas do Mundo.

A vitória na Copa de 2002 teria tudo para ser uma volta por cima, contra todas as expectativas negativas. Ronaldo jogou bem, vencemos a Alemanha na final com convincentes 2 x 0, tudo parecia estar em seu lugar. Mas não. A longa trajetória de decadência desde 1970 não foi interrompida, apenas sustada, e cobrou um preço na corrosão do sentido de unidade nacional, a tal Pátria de chuteiras, que de fato foram ficando cada vez menores.

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Fonte: A Redação

A era dos megaeventos no Brasil, iniciada com o Pan-americano de 2007, poderia ser uma chance de retomar o vínculo forte entre esporte e nação, mas paradoxalmente, serviria para dar-lhe fim. Com o mote da crítica à realização da Copa do Mundo de 2014, as manifestações ocorridas durante a Copa das Confederações de 2013 embaralharam definitivamente os sentidos atribuídos ao que seja “povo” ou “popular” na sociedade brasileira. Muitos manifestantes, nas fatídicas “jornadas de junho”, proibiram bandeiras e a presença de partidos políticos. No vácuo de representação criado, surgiu a ressignificação de um velho símbolo: a camiseta amarela da CBF apareceu como símbolo de “motivação política apartidária”, “negação da política”, “meu partido é o Brasil”, etc.

Na Copa de 2014, o futebol da seleção lembrou o que se dizia da França em 1998, com seu “craque-marselhesa”. O melhor jogador do Brasil em 2014 foi o hino nacional à capela, cantado pelos torcedores. O investimento excessivo na patriotada por parte do discurso midiático contaminou os jogadores, que choravam copiosamente a cada partida. Na primeira vez em que o Brasil enfrentou um adversário realmente grande, foi o que se viu: 7 x 1 para a Alemanha, a pá de cal definitiva sobre a arrogância esportiva nacional. Na disputa pelo 3o lugar, mais um olé: 3 x 0 para a Holanda, igualando a segunda pior derrota da história, mas isso já não importava mais.

Passando rapidamente por esses tempos tristes, chegamos a 2016, quando manifestações convocadas abertamente por movimentos de extrema direita e apoiadas veladamente por partidos políticos e empresas de mídia pediam o impeachment da presidenta Dilma. O uniforme dos hoje chamados “manifestoches” era justamente a camisa amarela oficial da seleção, produzida pela Nike e com o logotipo da CBF. A caricatura de manifestação popular calou fundo no imaginário brasileiro, com uma causa muito mais significante que uma Copa do Mundo: o destino da democracia no Brasil estava em jogo, e a camisa amarela jogava contra a presidenta eleita pelo povo! Acredito que a pressão midiática e a reverberação das imagens daquelas manifestações realizou um efeito incrível: ressemantizou a camisa da seleção, de “símbolo da nação” para “uniforme dos coxinhas”. Acredito que por muito tempo.

Com isso, de certa maneira, as coisas se colocaram de modo mais claro. Não é preciso pensar muito para incluir a diretoria da CBF – e a cartolagem dos clubes, de modo geral – como um grupo vinculado com as elites, para quem “o povo” só é bom se for consumidor. Esse grupo, composto majoritariamente de homens brancos, velhos e ricos, tem fortes laços com os protagonistas do golpe de 2016: empresas de mídia, membros do Judiciário e do Legislativo. Ação anti-popular.

O processo mais amplo que este embate envolve inclui a gentrificação dos estádios – as famosas Arenas Padrão FIFA – a eliminação das “gerais” por setores de cadeiras, redução da capacidade de público e o consequente aumento no preço dos ingressos. Nos termos deste projeto, o povo é um empecilho: parece ser melhor um estádio vazio com ingressos caros do que uma “geral” lotada a preços populares.

Como resultante desta situação complexa, o que se vê por parte dos/as torcedores/as é o descaso com a seleção brasileira e a reiteração do pertencimento clubístico. Ouço com muita frequência que “não me importa a seleção, me importa o meu time!” Igualmente, o termo “torcedor de seleção brasileira”, entre torcedores, vem carregado de desprezo, referindo alguém que definitivamente não entende nada de futebol, e só assiste partidas a cada quatro anos. Porém, por aquela seleção brasileira torciam colorados e gremistas, evangélicos e umbandistas, petistas e tucanos. Sem o compromisso com a generosidade que torcer por um time “de todos” implica, se acirram os localismos, se aprofundam as rivalidades da mesma cidade, se odeiam os rivais em tempo integral, sem tréguas, enquanto a ideia de um super time brasileiro, feito com os melhores dentre os nossos já não acontece. A seleção brasileira hoje é um time de atletas que jogam na Europa, muitos desde a adolescência. Questões candentes em outros tempos (como a revolta pela falta de jogadores gaúchos na seleção convocada em 1972) hoje não fazem mais sentido. A seleção brasileira não mais nos representa.

Não é com alegria que percebo o fim de uma era em que todos torcíamos juntos. Em 2018, não somos todos e não estamos juntos. Mas como disse certa vez um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco: o passado é uma roupa que não nos serve mais.

*Texto originalmente publicado no Ludopédio.

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