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O Inesgotável Pelé (contém spoilers)

A imagem de um ídolo pode permanecer eterna? Em tempos onde megacomputadores e nuvens armazenam uma infinidade de dados, a resposta parece ser obviamente positiva, pelo menos quando se trata da preservação de dados ou imagens sobre ele. Mas é possível ir além de ser apenas mais um verbete numa imensa enciclopédia virtual? Nesse caso a situação é mais delicada, pois exigiria que esse ídolo, independentemente de sua área de atuação, estivesse mais presente no dia-a-dia das pessoas. É o caso de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé; primeiro jogador a alcançar o patamar de ídolo mundial e que, por isso mesmo, se notabilizou com a alcunha de Rei do Futebol. Sua grandeza nos gramados foi de tal monta que até hoje tem a majestade eternizada graças a filmes, documentários, livros, histórias em quadrinhos e até videogames. Mesmo quase cinco décadas após “pendurar as chuteiras”, o Atleta do Século XX, mantém seu prestígio.

1981: Pelé recebe o título de atleta do século (fonte: L’Equipe)

O menino e a lenda

O brilho da carreira de Pelé, com suas atuações acima da média, conquistas e gols, muitos gols, gerou, evidentemente, um enorme interesse em torno do garoto talentoso que despontava no Santos Futebol Clube. Após a conquista do sonhado primeiro título mundial pela Seleção, em 1958, na Suécia, o jovem craque, de apenas 17 anos se tornou, então, o centro das atenções.

O franzino herói mal alçava a glória e sua trajetória já começava a ser contada, nem sempre, todavia, se baseando apenas na fidelidade jornalística dos fatos, como no caso do filme dirigido pelo argentino Carlos Hugo Christensen. A abertura do filme “O Rei Pelé”, de 1962 relata a seguinte frase, que teria sido dita pela parteira que trouxe o bebê Edson ao mundo: “O filho de vosmecê vai ser rei. Rei do mundo!”, numa clara alusão a uma suposta predestinação de Pelé. O longa metragem filmado em parceria com o produtor Fábio Cardoso se preocupava em reforçar a questão da superação da pobreza e “derrapava” no ufanismo ao descrever o Brasil como uma terra sem preconceito de cor, de raça ou de religião. Terra onde um menino como Pelé podia se tornar rei.

Cartaz do filme de 1962 (fonte: Internet)

Discursos assim estavam muito em voga nos anos 1960, os chamados “Anos Dourados”. No livro “Viagem em Torno de Pelé”, de 1963, o jornalista Mario Filho também tratou de narrar a vida daquele que classificou como “o primeiro cidadão do mundo que o Brasil já produziu” (esquecendo-se, propositalmente, de nomes como Carmen Miranda ou Santos Dumont, por exemplo). O enredo narra a saga de seu protagonista: um menino pobre e negro, que passa por uma série de dificuldades, mas, no final, conquista o seu reinado. A clássica trajetória do herói.

Não faltaram, em todos esses anos, livros e filmes sobre Pelé. Publicações chegam a quase 20, inclusive escritas por autores estrangeiros. Também há uma autobiografia publicada em 2006. Nas telas, além do filme citado acima, outras três produções foram realizadas sobre o jogador: “Isto é Pelé” (1974), “Pelé Eterno” (2004) e “Once in a lifetime” (“O mundo a seus pés”), sobre a passagem pelo New York Cosmos. Pelé também participou de alguns filmes como ator, interpretando papéis de ficção e até aparecendo como ele próprio, como no caso do filme “Os Trapalhões e o Rei do Futebol” (1986).

Um novo olhar

Independente de tudo o que já se falou e já se mostrou de Pelé, o tema parece nunca se esgotar. É o exemplo do mais recente documentário sobre o Rei, lançado recentemente pelo portal de streaming Netflix. Com o título “Pelé”, o documentário de 108 minutos de duração, dirigido pelos britânicos David Tryhorn e Ben Nicholas proporciona novas experiências, mesmo para aqueles que já conhecem mais profundamente a carreira de Edson Arantes do Nascimento.

 A chegada do ex-jogador para o local onde seria conduzida a entrevista já nos choca. Um frágil Pelé caminha com a ajuda de um andador até a cadeira situada em meio a uma sala vazia. Uma imagem que é o oposto de todas aquelas que nos acostumamos a guardar na memória.

Talvez por ser dirigido por dois estrangeiros e, provavelmente, para agradar um público mais amplo, “Pelé” se atém a analisar o personagem e não apenas por seu impressionante desempenho nos gramados, mas dando espaço ao Edson (como o próprio Rei gosta de se referir a si próprio; na terceira pessoa).

Mesmo em quase duas horas de filme, fica claro que é impossível abordar todos os aspectos necessários para um perfil completo. No entanto, o documentário nos traz questionamentos que muitas vezes relevamos, levados pela crença de sua predestinação para o talento. As cenas de um Pelé bem menino já envergando a camisa do Santos e revolucionando a história de um clube através de suas jogadas e gols, por exemplo, me fizeram refletir sobre como tal carga de responsabilidade poderia ser absorvida por aquele imberbe adolescente. Como lidar com cobranças e idolatria tamanhas? E para nosso espanto e de todos os que tiveram o privilégio de acompanhar o surgimento de um gênio da bola, a tarefa lhe parecia suave, talvez porque acreditasse piamente na frase dita por seu pai e ex-jogador Dondinho: “Não há o que temer. Dentro de campo todos são iguais”. Tanto que em seus primeiros 4 anos de carreira já havia marcado mais de 350 gols.

O menino que já era craque. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

Da glória da conquista de 58 à frustração da contusão na Copa de 1962, no Chile, o documentário trata de mostrar como a vida do jovem de pouco mais de 20 anos havia mudado, com compromissos de carreira sendo mais implacáveis do que zagueiros “botinudos”. Pelé se transformara no mais requisitado garoto-propaganda e figura obrigatória em grandes eventos. A carreira e a vida pessoal sentiram.

Após o fiasco na Inglaterra, em 1966, onde mais uma vez saiu contundido, Pelé dava entrevistas afirmando que não dava sorte em Mundiais e que aquela seria sua última Copa, mesmo tendo apenas 26 anos.

O (a)político Pelé

Um dos motes do documentário era traçar um paralelo entre a carreira do Rei com o período da Ditadura Militar no Brasil. Tanto no depoimento para os diretores quanto em entrevistas ntigas fica claro que Pelé nunca se atreveu a questionar o cenário além das quatro linhas. Afirmava que não tinha como saber o que acontecia ao certo e que o papel dele era jogar futebol.

Após marcar o gol mil, que aliás contou com cenas que nunca tinha visto, inclusive com entrevistas antes e após a partida concedidas à jovem jornalista Cidinha Campos, Pelé foi convidado pelo presidente Emílio Garrastazu Médici para ir a Brasília. Foi levado do aeroporto ao Palácio do Planalto em carro aberto e lá recebeu os cumprimentos do ditador pelo feito.

O Rei e o ditador. (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)

É claro que atitude foi mal vista por quem se opunha ao regime de opressão que, nos finais dos anos 1960, após a promulgação do AI-5, se encontrava mais sanguinário do que nunca. Exigiam do jogador uma postura mais combativa, como a tomada pelo boxeador americano Muhammad Ali, preso por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã. Mas, em uma entrevista para o documentário, o jornalista Juca Kfouri lembra que eram situações bem diferentes. Segundo ele, Ali não seria morto na prisão, porém o mesmo não se podia dizer de Pelé. “Só quem já viveu numa Ditadura Militar sabe onde arde”, lembrou Juca.

O governo queria, a todo custo, que o Brasil vencesse a Copa do México e Pelé fazia parte dessa estratégia. O filme não deixa claro que tenha havido qualquer tipo de pressão para que ele revogasse a promessa de não mais jogar Mundiais, mas fica subentendido que havia uma cobrança sobre o Rei para a conquista da Taça. A comissão técnica era basicamente formada por militares e o treinador João Saldanha (um militante comunista), após classificar suas “Feras” nas eliminatórias, foi devidamente substituído por Zagallo. Mais um ponto para o documentário em relação à narrativa desse período turbulento; são apresentadas entrevistas raras de Saldanha que ajudam a mostrar como era clara sua postura beligerante em relação às normas que o Regime exigia, uma “briga” que respingou até para Pelé, acusado por Saldanha de ter um problema de visão que comprometeria suas atuações.

 Ao desembarcar de volta do México, com a taça em mãos, a primeira parada da Seleção foi na Capital Federal. O roteiro planejado tinha sido cumprido com louvor. E não apenas Pelé, mas todos aqueles jogadores, contrafeitos ou não, tiveram que participar da cerimônia.

Nas ruas, tanto durante o Mundial, quanto na recepção aos campeões, se deu uma espécie de hiato cívico, mesmo quem sabia que a vitória contava pontos para a Ditadura, acabou não resistindo à magia daquela seleção e comemorou.  Ao fim do documentário, numa rara opinião sobre essa questão, Pelé afirmou: “A Copa de 70 foi importante para o País. Se perdêssemos, poderia piorar tudo. O fato de a gente ser campeão fez com que o país todo desse uma respirada. Eu acho que 70 foi mais pro país do que pro futebol”.

A riqueza de um reinado

Um dos maiores méritos do documentário “Pelé” está na bela pesquisa de imagens e áudios que ajudou a resgatar pérolas da tão decantada carreira do Rei do Futebol e que se mantinham praticamente inéditas. Cenas que nos surpreendem, encantam e emocionam.

A fragilidade de Edson se contrapõe à vitalidade de cada lance, cada gol mostrado. Suas falas são curtas e não me parece que essa tenha sido uma opção da edição. Apesar de ainda ter 81 anos, o Rei parece um nobre cansado de tantas batalhas e se atém, quase todo tempo, apegado às mesmas respostas estudadas como fez durante toda a carreira, evitando riscos que julgue desnecessários à sua imagem.

Contudo, surpreendentemente, o documentário de Tryhorn e Nicholas nos traz um presente. Um outro Pelé, sorridente e descontraído, ao participar de um encontro com seus ex-companheiros de Santos. Parecem, mesmo, duas pessoas diferentes. Talvez, porque naquele instante, a máquina do tempo da emoção tenha entrado em ação. Naquela hora, ao lado daqueles que dividiram com ele o prazer do futebol, o Rei deixa cetro, manto e coroa de lado e se permite disfrutar aquele momento, livre de qualquer compromisso ou cobrança. Afinal, como bem disse Dondinho, ali, eram todos iguais.

Os Santos do Rei (Fonte: “Pelé”/NETFLIX)
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