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48 seleções, clientelismo e corrupção: a FIFA continua a desprezar uma paixão mundial

Em 1974, quando assumiu a presidência da FIFA, João Havelange cumpriu a promessa de campanha e expandiu o número de participantes da Copa do Mundo, de 16 até então para 24, a partir do mundial de 1982. Eram tempos de descolonização na África e na Ásia, e os impérios europeus, sobretudo o inglês e o francês, já não eram capazes de deter movimentos de libertação nacional que geraram, entre 1955 e 1970, quarenta novos países. Mais que a autoproclamar a independência, esses novos Estados precisavam de reconhecimento da comunidade internacional, em especial de três instituições e entidades: a Organização das Nações Unidas (ONU), pela influência geopolítica, e a FIFA e o Comitê Olímpico Internacional (COI), organizadores dos maiores eventos esportivos do planeta: a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, respectivamente.

Novas vagas no mundial de futebol foram destinadas para seleções desses dois continentes, o que colaborou para a autoafirmação dessas nações recém-emancipadas. No entanto, a solidariedade política não era o objetivo principal da entidade máxima do futebol mundial, e sim uma estratégia. Havelange e membros do Comitê Executivo deram o passo inicial para a engrenagem de corrupção, clientelismo e perpetuação no poder fortemente abalada em 2015, com a investigação conduzida pelo FBI e pela Justiça da Suíça, mas que continua de pé. Cumprindo também uma promessa de campanha, a decisão oficializada hoje pelo atual presidente, Gianni Infantino, de aumentar para 48 as seleções classificadas para a Copa do Mundo a partir de 2026 é a continuidade do “Padrão FIFA”, que maltrata um patrimônio da humanidade e o seu clímax, a cada 4 anos, em prol de interesses individuais.

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Ampliar a Copa do Mundo era um dos temas mais defendidos por Infantino desde sua candidatura à presidência da FIFA no final de 2015. (Foto: Reuters)

Para as nações que provavelmente verão pela primeira vez, ou depois de muito tempo, suas respectivas seleções no mundial, é inegável a importância cultural e o legado não-material – tão importante quanto o estrutural e concreto – de participar desse momento que transcende as quatro linhas. Essa parece, até agora, a única consequência positiva: teremos mais alegria estampada nos rostos de mais torcedores nas arquibancadas e em mais países apaixonados por futebol.

Com 16 países a mais a partir de 2026 e 80 jogos a serem realizados (no formato atual são 64 partidas), a FIFA lucrará ainda mais com a venda de ingressos e de direitos de transmissão, além da valorização de contratos de patrocínio. O poder de exposição e repercussão da Copa do Mundo aumentará, sobretudo nos países estreantes, apesar de o futebol ser o esporte mais popular e praticado no planeta.

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Não haveria problema algum em relação ao crescimento dos lucros da FIFA se eles fossem investidos no fortalecimento das categorias de base, do futebol feminino e da estrutura de treinamento em diversos países, sobretudo os mais pobres. Mas a realidade envolve o envio de dinheiro para dirigentes de confederações continentais e nacionais que não é revertido para o fortalecimento de clubes, campeonatos e para a inclusão social através do esporte. Vão para os bolsos alheios, sem fiscalização e punição pelos líderes da entidade máxima do futebol, que, em troca, recebem votos para a permanência no poder em eleições presidenciais, como revelou o jornalista Jamil Chade no livro “Política, propina e futebol”. Venda de votos na escolha de sedes dos mundiais de 2018 e 2022 e oligopólio de empresas de marketing esportivo à base de suborno pago a membros do Comitê Executivo também fazem parte da rede de corrupção e tráfico de influência que beneficia muitos atores, menos o principal deles, o esporte.

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“Política, propina e futebol” é um dos trabalhos mais completos sobre a corrupção na FIFA. O jornalista brasileiro Jamil Chade reuniu, neste livro, 15 anos de investigações na Suíça, onde trabalha como correspondente. (Foto: divulgação Editora Objetiva)

Desconsiderado o futebol no novo formato, a queda de nível técnico em algumas partidas é o primeiro e previsível reflexo. “Quem liga para os custos e exigências aos quais os países-sede se submetem, a ponto de desrespeitarem suas próprias constituições? Afinal de contas, eles que paguem por uma maior logística em transportes e acomodações de mais torcedores e delegações”, devem pensar os que deram a canetada. O “Padrão FIFA”, criado por Havelange e expandido por Joseph Blatter na onda da globalização, passa por cima de tudo e distoa da realidade. Em tempos de baixo crescimento econômico mundial,  de iniciativas ambientalmente sustentáveis e de contestação dos custos dos megaeventos esportivos, o COI reformulou, em 2014, suas exigências quanto à organização dos Jogos Olímpicos, as tornou menos rígidas, priorizando candidaturas de cidades onde já existam instalações prontas e infraestrutura sem necessidade de grandes e caros ajustes. Na contramão do mundo, porém, está a FIFA.

Assim como Havelange, Gianni Infantino viu na ampliação do mundial o caminho mais rápido para a presidência da FIFA. Quatro décadas separam a posse dos dois, mas o anúncio de hoje os uniu como mantenedores do sistema que ameaça o futebol em sua essência. A Copa do Mundo, infelizmente, é a moeda de troca, por conta do encantamento que ela possui e transmite. O tempo não foi capaz de mudar a FIFA. O terremoto de 2015, cujos reflexos ainda podem sacudir a entidade novamente no futuro, será?

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