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Para pensar o corpo Paralímpico

O corpo do século XXI não se contenta com os resultados da atividade física e nutrição adequada, o sem número de procedimentos estéticos inventam imperfeições novas à espera da restauração da norma e o apagamento das deformidades (COURTINE, 2011). O novo século vê nascer as patologias da hipernormalidade. Fontes (2006) afirma que sinônimo desse modelo corporal marcado pelo culto à boa forma física, onipresente nos meios de comunicação, é o corpo canônico que emerge a partir do momento que o indivíduo aceita um conjunto de práticas que visa a sua reestruturação/reconstrução corporal, mas que tem suas origens no corpo medicalizado e higienizado do início do século XX.

Na visão medicalizada, a imperfeição está associada à doença, e por isso o corpo doente é alvo de intervenções médicas a fim de voltar a ser saudável. O envelhecimento é outra face da imperfeição, e juntamente com a doença revela a fragilidade e temporalidade do corpo; a medicina, pode então aprimorar o corpo, retardar os sinais do tempo e eliminar os aspectos considerados negativos. A atividade física entra nesse contexto associada à saúde corporal, e como forma de incutir em seus praticantes benefícios físicos e psicológicos. Além da preocupação com a aquisição de um corpo forte e saudável, o esporte também objetiva o desenvolvimento de hábitos de disciplina.

Assim, na sociedade contemporânea o esporte tem importância fundamental não só na manutenção da saúde, mas também na busca por uma forma corporal que respeite os padrões vigentes. Tanto esporte quanto todas as outras indústrias dessa sociedade do consumo têm o objetivo comum de rejeitar o corpo velho, fraco, doente, incapaz, ou deficiente.

Essa sociedade espera que o atleta de alto rendimento cumpra o mote olímpico Citius, Altius, Fortius, ou seja, que ele, ou ela, seja o mais rápido, o mais alto e o mais forte. Portanto, pode-se dizer que o esporte paralímpico é, muitas vezes, visto como menos importante, pois o atleta com deficiência não consegue atingir os mesmos resultados de atletas olímpicos. Apesar dessa ideia prevalecer temos alguns exemplos de atletas com deficiência com desempenho melhor do que o de atletas sem deficiência. Na prova dos 1500 metros da classe T13 (para atletas com baixa visão), da Paralimpíada do Rio de Janeiro, o argelino Abdellati Baka conquistou o ouro com o tempo de 3m48s29, marca que também lhe daria o ouro nas Olimpíadas do Rio; não só ele, mas os quatro primeiros colocados dessa prova fizeram marcas melhores do que o primeiro colocado olímpico. No Mundial de Atletismo Paralímpico de 2015, em Doha, no Catar, o alemão Markus Rehm venceu a prova de salto em distância classe T44 (atletas com amputação dos membros inferiores) com uma marca que lhe teria garantido o ouro nas Olimpíadas de Londres/2012. Cada vez mais os atletas com deficiência superam tempos, marcas, recordes, contudo a associação histórica entre deficiência e inabilidade, passividade e incompetência ainda fortes na sociedade também é estendida para o campo esportivo.

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O argelino Abdellatif Baka, ao centro da imagem, possui baixa visibilidade. Mesmo assim, seu desempenho em sua categoria no paratletismo nos Jogos de 2016 chamou a atenção do mundo. (Foto: REUTERS/Jason Cairnduff)

O esporte mudou ao longo do tempo. Uma mudança lenta e gradual que não aconteceu, nem acontece, de forma linear, mas sim flutuante e em confluência com outras forças. Como parte dessas mudanças vemos o esporte tanto como lugar de conformidade com valores sociais dominantes, reproduzindo desigualdades, quanto local de resistência e mudanças desses mesmos valores (DEPAUW, 1997).

Inicialmente o corpo da pessoa com deficiência só foi aceito no esporte na vertente de reabilitação. A pessoa com deficiência colocada na arena esportiva é inesperada uma vez que o esporte se apresenta como local onde a eficiência e habilidade são valorizadas. O corpo deficiente ativo e eficiente em comparação com a ideia de corpo passivo e inativo, pode, assim, reinventar o conceito de corpo deficiente.

Como é no corpo que está inscrita a diferença, muitos pesquisadores acreditam que a materialidade oprime as pessoas com deficiência. Dessa forma, sendo o corpo de fundamental importância para a prática esportiva, concordamos com Howe (2012) que afirma ser esse um dos motivos pelo qual o esporte é um campo pouco explorado por aqueles que se dedicam à pesquisa das questões que envolvem a deficiência.

Referências:

COURTINE, J. J. O Corpo Anormal: História e antropologia culturais da deformidade. In: CORBIN, A.; COURTINE, J.J.; VIGARELLO, G. (Eds.). História do Corpo: As mutações do Olhar: O Século XX. Tradução de João Batista Kreuch e Jaime Clasen. 4 ed. Petrópolis: Vozes, 2011. p. 253-340.

DEPAUW, K. P. The (In)Visibility of Disability: Cultural contexts and “sporting bodies. Quest, v. 49, n. 4, 1997. p. 416-430.

FONTES, M. Uma Leitura do Culto Contemporâneo ao Corpo. Contemporânea, v. 4, n. 1, 2006. p. 117-136.

HOWE, D. The Imperfect Body. Routledge Online Studies on the Olympic and Paralympic Games: Book Chapters, v. 1, n. 4, 2012. p. 100-152.

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