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Todo o Carnaval tem seu fim?

Escrevo este texto ainda envolto em confetes e serpentinas. Assim como vimos na Sapucaí, no Anhembi e em tantos outros sambódromos do país, futebol e Carnaval tem muito em comum. O amigo e pesquisador Álvaro do Cabo, inclusive, já escreveu sobre isso aqui no blog (releia o post aqui).

Mas o que pretendo neste texto de Cinzas é uma reflexão. Não a do cristão católico que a Quaresma pede, mas a do jornalista/torcedor/pesquisador. Um pensamento sobre um outro Carnaval. O que envolve a administração de clubes, confederações, comitês organizadores etc. O que envolve futebol. E com a imprensa envolvida.

Historicamente, o jornalismo esportivo era relegado a um espaço de menos importância dentro das redações. “O assunto mais importante entre os menos importantes”. Com o crescimento do esporte como espetáculo, a editoria passou a ser uma das principais dos meios de comunicação. O que contribuiu para o surgimento de veículos especializados no assunto. Ao longo dos anos, apesar de vermos algumas publicações premiadas por reportagens investigativas na área, mais se preocupou em fomentar o espetáculo, do que questionar os seus bastidores. (Mais recentemente, o jornalismo esportivo passou a fazer parte, em algumas empresas, da área do entretenimento, onde parece que brincadeiras e ironias têm mais “valor notícia” do que o jogo em si). E para ter espaço na mídia, gasta-se desmedidamente. Compra-se com salários astronômicos, luvas e muitas “máscaras”.

Neste início de ano, o bloco do discurso da austeridade tomou dois dos principais clubes brasileiros: Flamengo e Palmeiras. E as manchetes. A nova direção do rubro-negro carioca mudou a forma de se relacionar com a imprensa. Não especulou-se craques. Não fantasiou. Pés no chão. Perdeu espaço nas páginas para as ilusões de outros clubes. Vende-se jornal bem mais do que negociam-se jogadores. O argentino Riquelme, por exemplo, deve ter aparecido em mais capas de periódicos esportivos do que em campo nos últimos tempos. Sem alegorias, os clubes que apresentam como novidades o acerto de salários, as contas em dia, não viram capa, não são manchete. Força de empresários? Interesses ou falta de preparo dos jornalistas?

Há menos de 500 dias para a Copa, muito se mostra na imprensa sobre o atraso nas obras. Mas pouco sobre os motivos. A preocupação é: será que fica pronto? Será que vamos “fazer feio” pro mundo? E não se questiona a tática de deixar para a última hora e o Governo derramar milhões e milhões de reais sem licitações para a conclusão das obras. Recentemente, uma reportagem mais ousada, do jornal O Globo, indicou a folia dos gastos públicos no Maracanã (confira aqui). E o pouco que se acusa, não consegue se defender. Muito se tenta explicar, mas nada convence.

Sem contar o escândalo que vem da Europa de manipulação de resultados. Que mereceu uma matéria, algumas pequenas repercussões nos dias seguintes e mais nada. Será que o esquema é tão profissional que um jornalista não consegue investiga-lo? Ou será o jornalista tão amador e envolto pelos manipuladores?

A rotina dos clubes, confederações que chega à torcida, aos leitores/telespectadores/ouvintes é aquela vista pelas lentes de um meio de comunicação. O que às vezes não mostra o dia a dia dos bastidores, a engrenagem financeira, as relações de interesses. Falta um olhar mais crítico, mais profundo dessa imprensa. De todos nós. E não apenas um eterno porvir de “oba oba” de contratações e festa.

Vamos viver os clubes, a Copa, sim, mas com responsabilidade. Senão, viveremos nessa doce ilusão. E a farra de dirigentes, políticos, oportunistas não vai acabar na quarta-feira. Nem na quinta, nem na sexta…

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