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Zico, 60 anos

É comum escutar que o Brasil não tem memória e esquece seus ídolos. A idolatria a Zico demonstrada pela torcida do Flamengo em imagens do atleta em bandeiras, camisas e nos coros de “Zico é nosso rei”, mesmo após mais de 22 anos de sua última partida oficial no Brasil, e na recente mobilização em torno de seus 60 anos nos mostra que a lembrança de Zico segue firme nos corações e mentes dos torcedores. Seria esta idolatria uma exceção à suposta falta de memória?

Muitos dos que hoje idolatram Zico sequer o viram jogar no auge da carreira. É uma tradição que passa de uma geração a outra. Quando Romário jogou no Flamengo, com a alcunha de herói do tetra da Copa de 1994, mesmo idolatrado pela torcida, teve que conviver diversas vezes com o coro de “Zico é nosso rei”, ainda que este não estivesse presente no estádio. O recado era simples: ser herói de uma conquista de Copa do Mundo era menor do que ser herói de tantas conquistas pelo Flamengo.

A gratidão da torcida do Flamengo a Zico emociona e bate de frente com a crença de que não temos memória e esquecemos nossos ídolos.

No âmbito futebolístico brasileiro, temos comemorado com entusiasmo os aniversários de Pelé e de Zico. Não houve comemoração expressiva, com muitas reportagens na mídia, nos 50 e 60 anos dos outros atletas da celebrada seleção de 1970. Por que tanta badalação pelos 50 e agora 60 anos de Zico?

Uma hipótese é a de que Zico foi, na sua época, a referência para o futebol brasileiro. Líder, ídolo e herói maior de uma equipe de estrelas do time mais popular do país, Zico era reverenciado pelos rubro-negros, temido e, muitas vezes, “odiado” pelos não rubro-negros. Na época em que jogava, tínhamos claramente uma referência nacional: Zico. Para os rubro-negros, ídolo, herói, rei. Para os não rubro-negros, o guerreiro a ser vencido.

Por isso, estes movimentos em torno de Zico agregam também não rubro-negros. Zico conseguiu a proeza, principalmente, após ter se aposentado, de ser admirado por muitos que o temiam e o “odiavam” enquanto era jogador. Amor e ódio são próximos. A psicologia nos ensina isso. A saudade que os rubro-negros sentiram de Zico, tão bem expressa na música “Saudades do Galinho”, de Moraes Moreira, em uma passagem que diz “agora como é que eu fico nas tardes de domingo sem Zico no Maracanã”, foi compartilhada também com os não rubro-negros, principalmente os cariocas.

É a importância da referência. Ela marca a identidade e a diferença entre grupos. Zico era a referência que perdurou em nosso futebol a partir de meados da década de 1970 até o final da década de 1980. Outros ídolos e heróis passaram pelo nosso futebol. Mas Zico marcou uma época em que o Flamengo era a referência. Marcou os rubro-negros e seus adversários. Ambos unidos em torno do ídolo, ainda que com afetos distintos.

Há os que objetam que Zico não ganhou uma Copa do Mundo. O colunista Fernando Calazans certa vez escreveu a respeito: “azar da Copa do Mundo”. O fato é que celebramos os 50 anos de Zico e agora estamos celebrando seus 60 anos. Em ambos os casos são celebrações que se iniciaram espontaneamente na torcida e na mídia, sendo que agora o clube a abraçou oficialmente.

Passar as tardes de domingo sem Zico no Maracanã tem representado certo vazio para os torcedores do Flamengo e os dos outros times com mais de 40 anos, estes últimos com outros sentimentos. Para os rubro-negros, levar bandeiras e camisas com o rosto do ídolo e gritar “Zico é nosso rei” é uma forma que encontraram de preencher este vazio e passar para as gerações o recado de que houve um tempo em que existia um herói singular chamado Zico.

Seria a continuidade desta idolatria uma exceção à regra de que não temos memória e nos esquecemos de nossos ídolos? É uma boa questão de pesquisa. No momento, mais fácil é atestar que Zico é que sempre foi uma exceção: de talento e de profissionalismo.

Matéria originalmente publicada em 16 de fevereiro de 2013 no jornal O Globo

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