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As imagens descartáveis de Neymar

As muitas reações negativas, sobretudo por parte da imprensa esportiva, voltadas contra o comercial “Um homem novo todo dia”, protagonizado pelo camisa 10 da seleção brasileira e patrocinado por uma multinacional, mostram o quanto Neymar parece ser composto de camadas e camadas de imagens descartáveis de si mesmo.

ney
Fonte: Youtube

O mundo dos esportes dificilmente deixaria de incorporar uma tendência que não lhe é exclusiva. Digo isso, pois o contexto atual da cultura contemporânea é marcado pela presença de celebridades, deliberadamente, fabricadas para consumo imediato. Por isso, o esporte, como já mostrou diversos pesquisadores, deve ser levado a sério enquanto elemento capaz de dizer muito sobre a sociedade que os cerca e, por que não, dizer sobre nós mesmos.

E o que nos diz esse cara chamado Neymar?

Primeiramente nos fala que os esportes se transformaram em algo próximo ao cinema hollywoodiano e ao mundo da música com suas estrelas orbitando em um universo milionário. O fascínio provocado por atores e atrizes, cantores e cantoras aciona a atenção de milhões de fãs cuja admiração é movida por critérios como beleza, carisma e outros fatores não, necessariamente, vinculados à qualidade artística.

Os esportes também são uma fábrica de celebridades mundializadas. E Neymar é uma delas.

Sendo assim, é possível que Neymar seja querido e até mesmo odiado por questões outras que não as vinculadas ao seu desempenho nos campos de futebol. Isso faz dele uma “celebridade do showbisiness”, categoria que pego de empréstimo de Micael Herschmann e que significa o tipo de celebridade que geralmente se alça à condição da fama devido a estratégias midiáticas eficientes.

De fato, é comum ouvirmos por aí, sobretudo nas redes sociais, que Neymar nada mais é do que um simples produto comercial.

Porém, a figura de Neymar se constrói, também, a partir de sua incrível habilidade e potencialidade para um dia se tornar um dos melhores jogadores da história.

Vestindo a camisa do Santos atuou de modo decisivo em diversas conquistas de títulos. Por isso, imagino que muitos torcedores do clube da Vila Belmiro mantenham uma relação de idolatria com Neymar.

Nesse quesito não podemos questionar a trajetória do jogador no Barcelona, onde foi campeão da Liga dos Campeões, do Mundial de Clubes, de dois Campeonatos Espanhóis, três Copas do Rei, uma Supercopa da Espanha. Isso sem mencionar que em 192 jogos disputados, Neymar marcou 109 gols defendendo o clube catalão. Em 2015, conseguiu o terceiro lugar na Bola de Ouro da Fifa, ficando atrás de Messi.

Pelo Barcelona, jogou de 2013 a 2017, ano em que se mudou de casa atraído pelo dinheiro e pela possibilidade de um reinado solitário. Neymar foi para o PSG e lá teve boas atuações tanto no campeonato francês quanto pela Champion League daquele ano. Em novembro de 2017, por exemplo, Neymar se igualou a Rivaldo entre os brasileiros com mais gols marcados em Liga dos Campeões.

São feitos nada desprezíveis.

Porém, veio a Copa de 2018 carregada de expectativas sobre um atleta jovem, fisicamente apto e sobre quem deposita-se muito das representações vinculadas ao “futebol-arte” brasileiro. No que se refere à seleção nacional, Neymar poderia – e dele se esperava – alçar a condição de protagonista e até mesmo de herói.

É válido lembrar que tanto os ídolos quanto os heróis passaram a ser categorias construídas em diálogo com um repertório de representações típicas das celebridades, o que pressupõe a elaboração de um arsenal publicitário sedutor e bem-sucedido. Novamente recorro a Micael Herschman, desta vez, para propor que Neymar poderia ser, na seleção brasileira, uma “celebridade Heroica” composto por características dos heróis clássicos, porém atualizadas pela cultura do espetáculo.

Entretanto, suas atuações ficaram abaixo do que se esperava. Seu choro ao final da partida contra a Costa Rica soou exagerado e fora de lugar, o que fez Galvão Bueno tentar explicá-lo dizendo que “emoção faz parte do futebol, que o desabafo do nosso camisa 10 traga mais leveza ao time contra a Sérvia” (Fantástico, 22 de junho de 2018).

Após a Copa, vieram as enxurradas de memes debochados que por intermédio do humor colocavam em questão o talento de Neymar.

Então nos chega, via propaganda, um pedido de desculpas e a solicitação de apoio da torcida, afinal Neymar diz que havia, não somente caído, mas desmoronado: Eu demorei para aceitar as suas críticas, eu demorei para me olhar no espelho e me transformar em um novo homem, mas hoje eu estou aqui, de cara limpa e de peito aberto. Eu caí, mas só quem cai pode se levantar”.

Em outro momento, Neymar afirma que Quando eu pareço malcriado, não é porque eu sou um moleque mimado, mas é porque eu ainda não aprendi a me frustrar”. Esse discurso causa estranhamento, afinal a definição de mimado passa justamente pela incapacidade em se lidar com a frustração.

Estaríamos diante, então, de um ato falho? Difícil sabermos. Afinal trata-se de um entre tantos textos publicitários ditos pela boca Neymar, mas cujo conteúdo não necessariamente expressa algo que seja derivado de suas opiniões. Ao invés de ato falho, é bem mais provável que estejamos diante de um texto publicitário mal redigido e que, em sua íntegra, é confuso e contraditório.

É válido lembrar que Neymar não atuou no 7 a 1 de 2014, por causa de uma lesão na coluna em jogo contra a Colômbia. Na época esse episódio havia rendido um comercial patrocinado por uma operadora de telefonia celular.

Essas propagandas são parte daquelas grossas camadas de imagens que tem composto esse cara chamado Neymar. É no meio dessas grossas camadas que se encontra, em algum lugar, aquele grande jogador do Santos, do Barcelona e em alguns momentos da seleção brasileira.

Porém, há tempos, Neymar não se destaca pelo desempenho em campo e, na Copa de 2018, seu nome virou motivo de chacota mundial.

Ocorre que o esporte é bem mais que isso e talvez aí resida sua especificidade no processo de criação de ídolos, heróis e celebridades. Nenhuma narrativa sobre atletas se sustenta sem um desempenho esportivo que sirva de base para os discursos amplificados – publicitários ou não – que gravitam os grandes nomes do esporte contemporâneo. Como já disse, Neymar, ainda possui essa sustentação que, entretanto, tem perdido forças.

Neymar é, no momento, aquela “celebridade do showbisiness”, o que significa que sempre será objeto de atenção e de falação. E que sempre haverá uma plateia disposta a seguir um rapaz milionário cujo corte de cabelo, brincos de diamante e tatuagens pelo corpo chama atenção de milhares de pessoas que, por motivos diversos, tentarão imitá-lo. Do mesmo modo, Neymar poderá seguir sendo tema de memes. Ou seja, é provável que fama e dinheiro não lhe faltem.

Mas a plateia esportiva formada por pessoas que estão na expectativa daquela promessa de jogador brilhante, já está se cansando dessa espera. A própria mídia esportiva brasileira se vê num impasse, afinal o que fazer com Neymar, se as narrativas fundamentais à sua conversão em herói da seleção – mesmo com toques de celebridade – estão cada vez mais difíceis de serem construídas.

Ao contrário do que comumente se pensa, heróis estão longe da perfeição, não são modelos ideais a serem seguidos. Heróis podem ser egoístas, vaidosos e mimados, como o foi Aquiles, até mesmo porque os heróis são “expressão de um espírito soberbo. Associa-se à coragem e ao desdém pelas mesquinhas concessões que permitem à maioria não heroica ir levando a vida – (….) A fúria heroica tem também, e em consequência disso, um enorme potencial para desestabilizar a ordem estabelecida”[1]

Mesmo considerando tratar-se de uma caracterização do herói classicamente concebido, “heróis-celebridade” mantém parte desses importantes atributos.

Sendo assim, Neymar até poderia ser um mimado. Como já dito, essa caraterística em si, não constituiria um problema para a composição de uma figura heroica.

Afinal todo herói é antes de tudo uma imagem. Mas uma imagem que não sucumbe ao tempo tão facilmente.

Tornar-se herói, mesmo em tempos midiáticos, ainda é um dos únicos modos de fingir que vencemos a morte, nos mantendo vivos na memória de diferentes gerações, graças a atos considerados fundamentais para a história de determinada comunidade.

Falta a Neymar ações que em campo contribuam para a conquista de títulos e que legitimem sua narrativa de herói da seleção brasileira de futebol masculino e de uma comunidade que ainda faz das Copas um ritual importante de construção identitária.

Neymar tem se arriscado a seguir acumulando camadas e camadas de imagens de rápido consumo, as quais podemos descartar e esquecer com facilidade.

 

[1] HUGHES-HALLETT, Lucy. Heróis. Salvadores, traidores e super-homens. Rio de Janeiro, Record, 2007, p13

 

 

 

 

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