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Dos laranjais ao laranjão: futebol na Baixada Fluminense

Neste último final de semana fui assistir a um jogo de futebol na Baixada Fluminense. Foi uma partida realizada entre dois dos mais recentes times e clubes de futebol do Rio de Janeiro: o Nova Iguaçu Futebol Clube, fundado em 1990 e o Duque de Caxias Futebol Clube, fundado em 2005. O jogo foi realizado no Estádio Jânio Moraes, ou simplesmente, Laranjão.

No final dos anos 2000, ambos os clubes despertaram nossa atenção. Em 2007, o Duque de Caxias – dois anos após sua fundação – já disputava a segunda divisão do Campeonato Brasileiro (hoje em dia está na 3ª Divisão). Em 2008, o Nova Iguaçu, fundado em 1990, ocupou as primeiras páginas esportivas ao ser campeão da Taça Rio, garantindo sua presença na final do Campeonato Carioca daquele ano.

O Nova Iguaçu, especificamente, é um clube conhecido não apenas pela cor laranja de seu uniforme, mas por sua forte categoria de base que revela jogadores, posteriormente contratados por outros clubes cariocas ou de fora. Esse aspecto tem destaque no site do Nova Iguaçu Futebol Clube onde podemos ler que o clube é um “dos maiores formadores de jogadores segundo a CBF”. Também em sua página podemos perceber que sua parceria com a Traffic Sports – empresa que participa de modo direto da negociação de jogadores de futebol no Brasil – é bastante exaltada “O NIFC tem orgulho dessa parceria!”.

Foto tirada das arquibancadas do Laranjão, ao fundo o clube e suas instalações. No site há informações sobre o clube e sua estrutura que conta com quadra poliesportiva, piscina, auditório etc, etc

O estádio é novo, mas passa a impressão de inacabado:

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Esses ferros à mostra são perigosos….

O estádio tem lá suas curiosidades:

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Obs.: eu não fui revistada….
A tribuna de imprensa, única área coberta do estádio
A tribuna de imprensa, única área coberta do estádio

Por dentro, o estádio é bem cuidado. Chama atenção a visível preocupação com a ordem e segurança dentro do estádio. Por isso, ao longo das arquibancadas alguns rapazes do apoio – seguranças, digamos assim – tomavam conta do público, não permitindo, por exemplo, que os espectadores ficassem debruçados sobre o ferro que separava as arquibancadas do fosso.

Por isso, quase não consegui tirar a foto que segue, porque assim que me debrucei no alambradinho ouvi “senhora, é proibido se apoiar aí”

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A estranha distribuição de arquibancadas, a falta de refletores – mesmo sabendo que são caros, mas não impossíveis de possuir -, além do aspecto inacabado do estádio, deixaram impressão de que receber partidas de futebol é uma questão meramente formal para o clube.

Arquibancada principal:

Lembram-se dessas cadeiras? Eram do Maracanã.
Lembram-se dessas cadeiras? Eram do Maracanã.
Arquibancada, não. Mini-arquibancada
Arquibancada, não. Mini-arquibancada

Outra pequena arquibancada

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Depois, mais muro

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O estádio Laranjão começou a ser construído em 2005. É uma construção bastante recente, assim como recente é o clube Nova Iguaçu.

Essa pequena casa foi a primeira sede do Brasil Industrial Esporte Clube. Nessa época ele se chamava Paracambi Futebol Clube. Fonte: http://paracambi.blog.br/?p=361Hoje em dia o time está desativado, mas parece que o clube ainda está em atividade.
Essa pequena casa foi a primeira sede do Brasil Industrial Esporte Clube. Nessa época ele se chamava Paracambi Futebol Clube.
Hoje em dia o time está desativado, mas parece que o clube ainda está em atividade.

Mas não se enganem, pois a história do futebol no lugar que hoje denominamos de Baixada Fluminense está longe de ser recente. O clube Queimados, por exemplo, foi fundado em 1922 e dois anos antes já havia o Mesquita Futebol Clube. Mais antigo ainda é o caso do Brasil Industrial Esporte Clube, de Paracambi, fundado em 1912, um clube operário formado por dissidentes do Bangu.   

A existência de clubes de futebol na Baixada Fluminense já na década de 1910 é representativa do processo de popularização das práticas esportivas no Rio de Janeiro. É desnecessário no momento repetir que nos primeiros anos de sua chegada ao Rio de Janeiro, o futebol era um esporte um tanto restrito à elite, especialmente no que diz respeito à sua prática em clubes. Entretanto é importante dizer que já na década de 1910, os esportes e os clubes transcenderam os limites da zona sul e chegaram às áreas consideradas periféricas da cidade.

Vários foram os clubes da cidade do Rio de Janeiro que ficavam próximos às estações ferroviárias como demonstra Hugo Moares: “Outros campos eram localizados próximos às estações ferroviárias, como o do Americano F.C. – perto da Estação Riachuelo; o do River e o Tijuca, no campo da Rua João Pinheiro, próximos à Estação da Piedade; o Bonsucesso, no campo da Rua Uranos, próximo a Estação de Bonsucesso; o Progresso, no campo da Rua João Rodrigues, na Estação de S. Francisco Xavier; o Ipiranga e o Modesto no campo da Rua Goiás, Estação de Quintino Bocaiúva” (2009, p.75).

Alguns desses clubes do subúrbio marcaram presença na história do futebol, como foi o caso do Bonsucesso, onde se formou Leônidas da Silva, do Madureira no qual jogou Jair da Rosa Pinto e finalmente do Bangu, fundado em 1904 por operários e donos da Fábrica de tecidos Bangu.

O futebol se expandiu mais ainda, chegando não apenas ao subúrbio carioca, mas também a área hoje denominada de Baixada Fluminense. Esse fenômeno é indicativo da força de popularização desse esporte e também de transformações que transcendem o território esportivo. Assim como no Rio de Janeiro, a história do futebol na Baixada certamente se insere em um contexto mais amplo, de mudanças pelas quais esse território passava. Uma dessas mudanças se deu graças à construção da estrada de ferro D. Pedro II, inaugurada em 1858, e que durante algum tempo foi a principal via de transporte da Baixada ao Rio de Janeiro e vice-versa.

Os laranjais.
Os laranjais.

Em 1858, inaugurou-se o primeiro trecho dessa estrada de ferro que passava pelas estações de Maxambomba (hoje em dia, estação de Nova Iguaçu) e Queimados, chegando posteriormente a Belém que hoje conhecemos como Japeri (Figueiredo, 2004) A grande região hoje conhecida como Baixada, durante muito tempo foi um lugar de passagem e esvaziado em termos populacionais. Esse cenário somente começa a mudar no final do final do século XIX e início do XX, época em que se dá início o plantio de laranjas e o início do loteamento de áreas para ocupação popular.

Em 1880, foi inaugurada outra ferrovia que cortava as terras da Baixada Fluminense, a Estrada de Ferro Rio D’Ouro, que hoje em dia é o ramal Belford Roxo – Central do Brasil. Ao redor dessas rodovias foram se constituindo núcleos espontâneos em torno das estações ao longo da ferrovia (Figueiredo, 2004). As ferrovias e os meios de transporte foram importantes para a ocupação da cidade assim como seu desenvolvimento.

A mesma lógica pode ser observada na trajetória do futebol na Baixada. A sede de um dos mais importantes clubes dessa localidade, o Mesquita Futebol Clube, fica muito próximo à estação ferroviária, o que se relaciona à facilidade de acesso promovida pelo trem. Também próximo a Estação Ferroviária localiza-se o Queimados Futebol Clube.

Também foram criados clubes que abrigavam outros esportes, bem menos populares como, por exemplo, o tênis. É o caso do Tênis Clube Mesquita, um clube fundado na década de 1940 e que na década seguinte vangloriava-se de contar com a presença de nadadores do Fluminense para a cerimônia de inauguração da piscina do clube. Como consta em seu Memorial: “Houve a visita, com demonstração aquática dos nadadores campeões sul-americanos do Fluminense FC; Piedade Coutinho, Ricardo Capanema e Aran Bogohossian ao MTC” (FONSECA, 2011, 16):

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Inauguração da piscina do Tênis Clube Mesquita.

O clube nos dias de hoje.

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Também na década de 1950, alguns campeonatos amadores da Baixada chegaram a receber alguma atenção da imprensa carioca, especialmente do Jornal dos Sports. Na coluna intitulada “Esportes em Nilópolis”, esse periódico esportivo – o mais importante da época – informava sobre os principais resultados da semana envolvendo os clubes da Baixada. Em uma dessas reportagens o Jornal dos Sports comenta que “dois clubes de grande projeção não disputarão em Nilópolis o certame deste ano. Sendo verídica esta notícia o campeonato local muito sofrerá em sua expressão” (09-05-1951).

O campeonato contava com clubes como Frigorífico Iguaçu, Vasco da Gama Nilopolitano, Central de Nilópolis, Huracan, Flamenguinho. Na edição do dia 09/05/1951, o Jornal dos Sports anuncia a realização do “Fla-Flu Nilopolitano”. A menção feita pelo Jornal dos Sports explica-se em primeiro lugar por se tratar de uma publicação esportiva que tinha como proposta fazer uma cobertura mais ampla possível dos esportes no Rio, não se restringindo aos clubes mais consagrados. Entretanto, também pode indicar algum tipo força da liga da Baixada no cenário esportivo carioca.

Pelos nomes dos clubes e pela realização do “Fla-Flu Nilopolitano” é possível levantarmos a hipótese de que os grandes clubes do Rio e até mesmo da América do Sul (Huracán da Argentina) serviam de modelo e inspiração para os clubes da Baixada. Esse intercâmbio entre Rio (centro) e Baixada (periferia) é interessante de ser analisado. Se pensarmos na história do futebol no Brasil, o intercâmbio entre “centro” e “periferia” também fez parte da dinâmica da introdução desse esporte em nossa terra. Como visto, o futebol chegou como símbolo de um projeto de modernidade cujos países-modelo pertenciam ao Velho Continente, especialmente a Inglaterra no caso dos Esportes.

Mas esses intercâmbios como sabemos nunca pressupõe uma cópia, mas sim adaptações que dialogam com os contextos locais. É o que se pode perceber na própria história do futebol brasileiro que incorpora uma prática vinda da Inglaterra e a “traduz” de acordo com as especificidades nacionais, o que inclui as particularidades regionais de um país com dimensões continentais.

Nesse sentido, é de se destacar a força do amadorismo na Baixada Fluminense, algo diferente do que ocorre no Rio de Janeiro. Um de seus principais clubes, o Mesquita, até a década de 1970 era um clube amador que disputava campeonatos organizados pela Liga de Desportos de Nova Iguaçu até hoje existente e muito atuante:

O calendário da Ldni é amplo e inclui a organização de campeonatos de futebol do pré-mirim, juniores e de uma modalidade que, no Brasil, ainda carece de incentivo e conta com pouquíssimas competições organizadas: o futebol feminino. Cabe lembrar que o CEPE Duque de Caxias foi campeão da Copa do Brasil em 2010. Aliás, o Vasco da Gama, meu time em versão feminina foi campeão em 2012 na categoria sub-17:

Algum motivo para comemorar….

Algum motivo para comemorar….

Há muito a ser explorado na trajetória do futebol na Baixada Fluminense que como dito anteriormente, já na década de 1910 tinha seus clubes. Clubes muitos dos quais que continuam em atividade até os dias de hoje, certamente que transformados em termos estruturais e especialmente no que diz respeito ao papel junto as suas localidades e seus habitantes.

Nova Iguaçu x Duque de Caxias é parte componente de uma longa trajetória futebolística pelas terras da Baixada e que busquei mostrar de modo breve.

FIGUERÊDO, Maria Aparecida de. Gênese e (re)produção do espaço da Baixada Fluminense. Revista geo-paisagem Ano 3, nº 5, Janeiro/Junho de 2004. Disponível em: http://www.feth.ggf.br/Baixada.htm

MORAES, Hugo. Jogadas Insólitas: Amadorismo e Processo de Profissionalização no Futebol Carioca. (1922-1924). Dissertação de Mestrado. Escola de Educação, UERJ, Orientadora: Profª. Drª Helenice Aparecida Bastos Rocha, 2009.

SILVA, Everton José Fonseca da. Do esporte ao lazer: Mesquita Futebol Clube e Tênis Clube de Mesquita. Trabalho de Conclusão de Curso, Educação Física, Uniabeu, 2011.

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