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O traço e os traçados da bola

Quem pensa que futebol é só o que acontece dentro do campo, entre o pontapé inicial e o apito final do juiz, não sabe, da missa, o terço. A bola é demasiado redonda para que seus caprichos sejam compreendidos dessa forma. O futebol transborda dos gramados, passa pelo imaginário das narrações, pelas análises técnicas, pelas crônicas, mas também pelas artes como a fotografia, o cinema, a literatura e as artes plásticas.

Sou um aficionado das charges e quando a tabelinha se dá entre craques da bola e do traço, o resultado é sempre delicioso. Neste texto vou reverenciar alguns deles tendo como gancho o recente lançamento de uma coletânea da trabalhos do chargista Mário de Oliveira Mendes, que usava o pseudônimo de Mendez. Falecido em 1996 aos 88 anos, consagrou-se como um dos grandes nomes na caricatura do Brasil  entre os anos de 1930 e 1980. No livro “Mendez – mestre da caricatura” o historiador cearense Levi Jucá mostra a abrangência do trabalho do desenhista como uma testemunha de seu tempo e, como não poderia deixar de ser, o futebol também está presente em sua obra. “Com o aparecimento do rádio e dos campeonatos de futebol profissional, jogadores como Heleno de Freitas e cantores como Orlando Silva se tornaram verdadeiros ídolos das massas. Pouco antes da Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, da primeira conquista da seleção no Mundial de 1958 e de eventos televisionados, responsáveis pela popularização do esporte como paixão nacional, Mendez já fazia caricaturas dos jogadores nos palcos dos programas de rádio da década de 1940”, lembra Jucá.

São 250 páginas com o melhor do trabalho de Mendez.
O “cabecinha de ouro” na capa de A Noite mostra o prestigio de Mendez.
Nessa charge a paixão do vascaíno Mendez falou mais alto e a chegada de Heleno de Freitas a São Januário rendeu uma charge biográfica.
A longa trajetória de Mendez fez com que ele retratasse craques que brilharam nas décadas de 1970 e 1980 como o “Doutor” Sócrates e Zico, o “Galinho de Quintino”.

Jornais e revistas, esportivas ou não, sempre abusaram das charges e desenhos, primeiro por falta de recursos fotográficos, depois porque os traços caricatos dos chargistas sempre faziam muito sucesso. E, se falarmos em esportes, o futebol sempre foi o carro-chefe, fosse para retratar os craques de cada momento, fosse para fazer analogias com problemas da vida nacional. O craque J.Carlos não foi exceção. Suas clássicas melindrosas passaram a dividir espaço com os marmanjos que corriam através da bola.

Duas capas de O Malho por J.Carlos: uma com o time do Paulistano e outra com o prefeito do Distrito Federal Prado Junior impondo mais um “gol” sobre o Legislativo Municipal.

A política sempre sofreu com a marcação cerrada dos chargistas, que o diga o imperador Pedro II desenhado dormindo sobre o trono por Angelo Agostini. Mas aliar a crítica com o futebol passou a funcionar muito bem, afinal somos um país de quase 220 milhões de técnicos. E não importava se as “tretas” eram nacionais ou internacionais.

O mundo vira “bola dividida” entre americanos e soviéticos no traço do cartunista Belmonte.
Já o chargista Théo mostrava a goleada que o ditador Getúlio Vargas sofria com o final do Estado Novo, em 1945. A torcida comemorava.

Mas, aos poucos, outros aspectos da vida nacional foram ganhando espaço nas charges. O traço desses artistas visava, antes de mais nada, retratar um país cada vez mais urbano. De acordo com o pesquisador Levi Jucá, “ao contrário da charge e da caricatura dos tempos do império e da primeira república, estritamente voltadas para a crítica política e social, os representantes da geração de caricaturistas modernos como Mendez, Álvarus, Augusto Rodrigues e Nássara passariam a estampar na imprensa os seus ‘bonecos’ das estrelas do rádio, cinema e futebol.”

Lamartine Babo, autor dos hinos populares dos principais times do Rio de Janeiro no traço de Antônio Nássara.

Já nos anos 1960 e 1970, com a época de ouro do futebol brasileiro e a sequência de títulos mundiais, Ziraldo vai investir não só nos cartuns de humor inspirados na bola, mas também na poesia que envolve o jogo.

Paixões nacionais, segundo Mestre Zira.
  
Personagens, como Jeremias, o Bom e a Supermãe também não escapavam do tema.

Outro grande trabalho desse mineiro de Caratinga se deu no final dos anos 1980. O Clube dos 13, organização de clubes brasileiros, solicitou ao cartunista que desenhasse os mascotes dos times que participariam da Copa União de 1987, campeonato organizado pela “liga” que surgia em oposição à CBF. Na época, em uma reportagem da revista Placar, o cartunista ressaltou a importância da tarefa: “A garotada de hoje não entende mais por que o marinheiro Popeye foi o símbolo do Flamengo ou como o Pato Donald pode representar o Botafogo. Por isso, uma de minhas maiores preocupações neste trabalho foi rejuvenescer as mascotes.”

Criador e criaturas em nome de um novo futebol brasileiro que acabou não decolando.

Quem também criou mascotes para os times do Rio foi o cartunista Henfil. Com eles atraia a atenção dos torcedores/leitores para o Jornal dos Sports, onde suas tirinhas eram publicadas. Retratando a expectativa para os jogos ou repercutindo os resultados das partidas, os personagens interagiam entre si com humor e com a provocação que as torcidas tanto gostavam. Eram eles: o Urubu (Flamengo, o Bacalhau (Vasco), o Pó-de-Arroz (Fluminense), o Cri-Cri (Botafogo) e o Gato Pingado (América).

Os personagens bem-humorados de Henfil brincavam com os estereótipos dos torcedores cariocas e ajudaram a derrubar preconceitos.

Mas se tivéssemos que escolher um cartunista como o mais importante para o futebol, pelo menos no Rio de Janeiro, onde vive este autor, sem dúvida seria Otelo, o caçador. Jornalista, humorista e flamenguista roxo, começou com suas tirinhas em 1947, no Jornal dos Sports, mas pouco tempo depois se transferiu para o jornal O Globo, onde ganhou de Roberto Marinho uma página inteira, às segundas-feiras. Durante 33 anos a coluna Penalty repercutiu as rodadas, brincou com times e jogadores e fez todo mundo rir.

Digamos que a paixão pelo rubro-negro sempre falava mais ato na coluna.

O artigo escrito pelo jornalista André Felipe de Lima e publicado no site do Museu da Pelada lembra que nem todo mundo encarava bem as brincadeiras de Otelo. E cita uma entrevista do cartunista em que ele dizia que humorismo e futebol era uma combinação perigosa. Mesmo assim, gostava de se “arriscar”, tanto que lançou o Livro Negro do Penalty, em dois volumes, vendendo mais de 25 mil exemplares. Dizia ele: “Já fui ameaçado de morte e reclamação é uma constante. Enfrentar personagens como Yustrich, Moisés, Renê, Brito, Paulo Amaral, não é fácil. Anatole France disse que livros históricos que não contêm mentiras são extremamente tediosos. Meu livro tem muita coisa de história do futebol e muita mentira. Certa época, inventei que o técnico Feola dormia durante os jogos e Havelange contratara um garoto para ficar soltando foguetes perto do ‘gordo’, a fim de mantê-lo acordado. Durante a partida, muitos torcedores olhavam o túnel onde o técnico ficava para ver se o doce Feola estava dormindo mesmo.” Para André, Otelo foi mais do que um chargista, embora seus desenhos fossem tão próprios: “É dele também as célebres frases e termos futebolísticos como: ‘Montinho artilheiro’, ‘Todo campeonato tem um campeão moral’, ‘Pênalti não é coisa que se perca’, ‘A torcida do Botafogo cabe numa Kombi’, ‘Coração de torcedor pobre não bate. Apanha’ e, claro, ‘Zico: joia de família do Flamengo’ e o ‘Manto sagrado’. Mas a frase mais célebre, sem dúvida é a ‘Brasileiro que não entende de futebol já nasceu morto’”.

Não há a menor dúvida que sem as charges, cada vez mais escassas tanto no papel quanto no online (exceções como o talentosíssimo Mario Alberto, do Globo.com, só confirmam a regra), o futebol perde um pouco de sua graça e de sua arte, porque mais do que ferinos críticos e perspicazes humoristas, todos esses cartunistas citados, e muitos outros que estão ou estiveram por aí, são artistas de qualidade e com suas criações só fazem com que nossa paixão pelo futebol seja ainda maior.

Mané e Pelé, dois gênios da bola no genial traço de Otelo.

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