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Melina Guardabascio Vita: uma pioneira esquecida da esgrima argentina

Roberto Larraz foi um notável esgrimista que representou a Argentina em quatro Jogos Olímpicos consecutivos entre 1924 e 1936, fazendo parte da equipe que conquistou a medalha de bronze no Campeonato das Nações de Florete de 1928, em Amsterdã. Em 1941, por ocasião do vigésimo aniversário da fundação da Federação Argentina de Esgrima (FAE), publicou uma “revisão da atividade de esgrima em nosso país” no jornal La Nación. A revisão histórica de Larraz é exclusivamente masculina. Da mesma forma, a história da esgrima argentina no site da FAE apenas menciona a esgrima feminina em sua referência aos Jogos Pan-Americanos de 1951 em Buenos Aires. Lá, Elsa Irigoyen conquistou a medalha de ouro no campeonato individual de florete.

As narrativas de Larraz e da FAE invisibilizam o desenvolvimento da esgrima feminina argentina nas primeiras décadas do século XX e revelam a ordem genérica vigente naquele período, cujas características ainda persistem. Embora Larraz sustentasse que a esgrima “é um esporte que não reconhece idades”, esse esporte legitimava a atual matriz heteronormativa e a pressão que ela exercia para impedir a expansão do esporte feminino. Assim, o jornalista Luis Pozzo Ardizzi afirmou na revista Caras y Caretas em 1935 que vários esgrimistas haviam abandonado o esporte porque seus namorados argumentavam que “a esgrima faz uma mulher se ridicularizar. Que adota posições não femininas”. Para contrariar a situação, este jornalista propôs: “Guerra ao namorado!” para “destruir preconceitos”.

Melina Guardabascio Vita¹ foi uma pioneira que trabalhou arduamente para promover a esgrima feminina e desfazer esses preconceitos. Aparece como professora de esgrima da Academia Nacional de Esgrima da Itália em 1922. Aparentemente ela chegou à Argentina em 1923, causando grande atenção. Em fevereiro do ano seguinte, o Cercle de L’Epée realizou um festival esportivo em Buenos Aires em sua homenagem, no qual ela deu uma palestra sobre esgrima e lutou com dois ilustres esgrimistas. Meses depois, em outra palestra, ela falou sobre “A esgrima e os benefícios que ela traz para as mulheres” no Club Marcelo T. de Alvear, também em Buenos Aires. Nesse mesmo ano, Augusto Bolognini, outro expatriado italiano que fundou, dirigiu e ensinou na Academia Argentina de Bellas Artes Perugino, pintou um retrato de Guardabascio Vita em trajes de esgrima, que enfeitou a capa de uma edição da revista Fray Mocho. A mesma revista publicou fotografias nas quais ela é vista em ação com um estudante e com Oscar Viñas, então presidente da FAE. Sua presença e seu trabalho na Argentina geraram “grandes reportagens [e] profusão de fotografias em jornais e revistas”.

Segundo uma crônica jornalística, Guardabascio Vita havia chegado ao país com a intenção de “realizar exposições públicas, não em espaços de ‘varietés’, como um ‘número artístico’, mas nas arquibancadas de nossos principais clubes”. Em outras palavras, ela queria que a esgrima feminina fosse levada a sério e divulgada. A mesma crônica explicava que Guardabascio Vita “lutou vários meses, um ano, dois, três… mas não conseguiu popularizar a esgrima entre nossas mulheres… havia preconceitos demais na época”. Desta forma, “cansada de lutar”, Guardabascio Vita “acabou por se dedicar a um negócio totalmente alheio à esgrima”. O fato de ter tentado outros caminhos profissionais não significa que tenha se afastado da esgrima. No início da década de 1940, Guardabascio Vita figurava como professora de esgrima, “exclusivamente para senhoras”, no Racing Club, em Avellaneda, onde estava sediada, e do qual fora sócia. No final de 1941, o jornal La Opinion destacava: “a manifestação oferecida ontem no C. Racing à senhora Guardabascio obteve contornos marcantes”, provavelmente referindo-se a um torneio interno.

A carreira de Guardabascio Vita no Racing foi reconhecida em 1974, quando a diretoria decidiu homenagear sua memória batizando a sala de esgrima do clube “com o nome de quem foi nossa ilustre representante”. No entanto, os esforços de Guardabascio Vita tiveram efeitos além de Avellaneda. Como postulava Pozzo Ardizzi, já nas décadas de 1920 e 1930, a mestra da esgrima “plantou sementes” e “conseguiu despertar a curiosidade” por esse esporte entre as mulheres. Coincidentemente, Larraz “colocou seu vasto conhecimento a serviço das primeiros entusiastas”, formando em 1930 a primeira equipe feminina do Clube de Ginástica e Esgrima de Buenos Aires. Três anos depois, segundo o mesmo jornalista, foi organizado o primeiro campeonato feminino promovido pela FAE. Em 1933, também começaram as “partidas” femininas, e Guardabascio Vita atuou como juíza no primeiro júri feminino.

Em 1935, Pozzo Ardizzi enfatizou que já havia mais de 100 mulheres esgrimistas no país, a maioria delas em Buenos Aires, mas também em Córdoba, La Plata, Mendoza, Rosario e Tucumán. Três anos antes, a revista Caras y Caretas havia publicado um artigo intitulado “Esgrima: esporte para mulheres”, que defendia que esse esporte deveria ser “uma das práticas esportivas preferidas das mulheres modernas”, já que suas muitas “vantagens para as mulheres são tantas como são para os homens”. Embora a nota não estivesse assinada, considerando sua natureza e finalidade, poderia muito bem ter sido escrita por Guardabascio Vita, cujos esforços começavam a dar frutos, embora sem alarde.

Refletindo sobre a situação da esgrima feminina na década de 1930, Pozzo Ardizzi escreveu, de forma excessivamente otimista e replicando um vocabulário sexista, que “o feminismo avança e avança… folha na mão… Em guarda, cavalheiros do sexo forte!”, já que “o muro do preconceito [de gênero] começou a ser destruído”. Guardabascio Vita foi uma pioneira que, ao promover a esgrima feminina, contribuiu para distorcer a feminilidade estabelecida na sociedade para a qual emigrou, ampliando os horizontes das mulheres e imaginando uma proxêmica mais inclusiva e justa. Seu nome, assim como sua luta por maior igualdade de gênero e emancipação feminina, são dignos de ocupar um lugar de destaque na história da esgrima e do esporte argentino.

¹ Em algumas das fontes consultadas, o nome também aparece como Melina Vita Guardabascio e como Evelina Guardabascio Vitta.


Texto originalmente publicado pelo site El Furgón no dia 6 de março de 2022.

Tradução: Caroline Rocha Ribeiro e Fausto Amaro

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