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“Perdeu-se em um táxi”

“Perdeu-se em um táxi” era o título de uma pequena nota que aparecia no Correio da Manhã, em outubro de 1920. Restava ao leitor perguntar: o que foi perdido? A informação no anúncio era esclarecedora, apesar de sucinta, e parecia realmente querer responder aqueles que fizeram essa pergunta: “Na noite de 14 do corrente, um pacote contendo fotografias dos jogos aquáticos nas olympiadas de Antuérpia” (Correio, 22/10/1920, p. 8). Nas entrelinhas, o minúsculo texto informava sobre alguém (possivelmente, um carioca) que não apenas fora aos Jogos Olímpicos, como também registrara essa viagem por meio de imagens.

A fotografia era uma mídia em ampla difusão no campo jornalístico desde a década de 1910. No meio esportivo, isso não era diferente. Para os Jogos de 1920, os primeiros com participação de uma representação brasileira, os jornais cariocas prepararam uma ampla cobertura. Para isso, enviaram até mesmo correspondentes para colher informações in loco sobre o evento. Assim, desde o embarque da delegação brasileira, as folhas do Rio de Janeiro estiveram repletas de artigos, reportagens e entrevistas que amiúde faziam uso de fotografias para complementar a construção narrativa.

 

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Além de produto jornalístico, as fotografias possuíam valor simbólico para os seus portadores. Deviam possuir especial relevância para os atletas brasileiros que competiram nos Jogos e tinham nas fotografias um registro desses feitos para seus amigos e familiares. Os brasileiros regressos dos Jogos de 1920 trouxeram na mala não apenas roupas e demais souvenires, mas também as imagens que capturam durante a competição. Um desses atletas foi Victorino Fernandes, jogador da equipe de polo-aquático e funcionário da Secretaria da Associação Cristã de Moços. Fernandes produziu uma série de fotografias durantes as Olimpíadas e, em seu retorno ao Brasil, organizou uma exposição fotográfica com essas imagens no saguão da Associação dos Empregados do Comércio (Jornal do Brasil, 01/10/1920, p. 9).

É possível supor que as fotografias perdidas no táxi pertenciam a algum atleta, ainda que não seja possível descartar a hipótese de ser fruto do trabalho de algum correspondente. Aliás, as hipóteses se complementam, uma vez que alguns atletas eram também correspondentes. No caso do próprio Correio da Manhã, o correspondente era Edgar Leite Ribeiro, capitão da equipe olímpica de polo-aquático.

Não informei logo no início, mas o anúncio possuía uma segunda parte, que vem a evidenciar mais ainda a importância do material perdido para o sujeito que teve a infelicidade de esquecê-lo no táxi: “Roga-se a quem o tiver encontrado o favor de entregar no escritório deste jornal, que será gratificado”. Infelizmente, não sei se desenrolar dessa história virou notícia. Creio que não. No entanto, acredito que seja possível enumerar ao menos gostaria de enumerar três pontos que, a meu ver, perpassam esse pequeno evento: a) as fotografias eram uma mídia em franca expansão e linha auxiliar do texto jornalístico; b) as fotos, enquanto objetos de memória, possuíam valor afetivo para seus donos; c) forjando um curioso ciclo, o mesmo jornal que publicava fotografias impressas atuava como uma espécie de serviço de utilidade pública na recuperação das imagens perdidas.

texto fausto
Anúncio da perda de fotografias (Fonte: Correio da Manhã, 22/10/1920, p.8)

 

 

 

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