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Derrotas e pessimismo

Para muita gente o futebol é uma dimensão totalmente desconectada da realidade. O que acontece no campo ficaria restrito àquela atmosfera. Não só penso diferente, como vou além. Tudo o que cerca o ambiente esportivo está, obviamente, envolvido no nosso mundo. E esse pequeno universo pode ajudar a compreender a sociedade em que vivemos.

Dessa forma, a crise moral e ética que a sociedade brasileira vive neste momento está totalmente presente no futebol. Um bom exemplo é a discussão sobre a atitude de um zagueiro que procura o árbitro para dizer que ele está enganado ao punir seu adversário e admite a culpa pela infração. O que seria óbvio em qualquer espaço da nossa sociedade, hoje gera discussão. No país da lei de Gérson, será que o atleta que impede que o rival seja punido é mesmo um bobo ou apenas uma pessoa coerente?

Apresentação1
Polarizado: o futebol brasileiro tem dois expoentes de uma disputa de discursos e comportamentos que tentam se impor em meio a um impasse sobre o futuro do país e de sua sociedade. Fotos: Reprodução de TV (à esq.) e Getty images (à dir.).

Por outro lado, faz sucesso o jogador que escolhe o discurso de ódio para se promover. Felipe Melo, meio-campo do Palmeiras, tem se notabilizado por declarações polêmicas. Com isso ganhou o título de autêntico e inimigo do “politicamente correto”. Sua falas incisivas conquistam os torcedores e fazem a alegria dos repórteres. A verborragia se sobrepõe ao conteúdo. Não importa o que ele disser, somente a intensidade do discurso já é suficiente para conquistar milhões de seguidores. Num desses rompantes, o jogador publicou em suas redes sociais um vídeo em que explicitamente apoiava um político de extrema direita que não faz nenhuma questão de minimizar o discurso de ódio.

Ainda querendo enxergar o futebol como uma grande metáfora do nosso momento, um outro tema me parece pertinente. O estádio do Maracanã tornou-se mais uma possível síntese do momento de instabilidade brasileira. Um dos principais símbolos nacionais está entregue à iniciativa privada. Após investir muito dinheiro, o Estado abriu mão de administrar um bem público. A partir do discurso predominante da mídia, uma grande parcela da sociedade têm convicção de que o poder público sempre será corrupto e ineficiente para gerir qualquer coisa. Para isso, a iniciativa privada se apresenta. Mas esquecem que as empresas e empreiteiras brasileiras são uma parte importante de toda essa rede corrupta da qual todos nós acabamos fazendo parte de alguma maneira. O resultado dessa equação é um completo desastre que não deixa absolutamente ninguém satisfeito. O estádio mais importante do país tornou-se inviável para os clubes e distante para uma parcela da população que nunca mais voltará a frequentá-lo. E a prova definitiva de que tudo está errado é que nem a administradora da arena esportiva está satisfeita, afinal nem lucro o Maracanã gera. Trata-se de um enigma até para o mais ferrenho defensor do neoliberalismo.

Com o intuito de finalizar, apresento um vídeo de um torcedor sendo retirado do estádio do Corinthians, em Itaquera, São Paulo. A acusação? Ele estava assistindo ao jogo em pé e atrapalhando outras pessoas. Nem vou tentar discutir qual é o modelo de estádio que eu gostaria que fosse dominante. O direito dele ver o jogo de pé assim como a obrigação de não atrapalhar o outro tornam-se irrelevantes. Acho que essa situação, mais uma vez, ilustra nosso cotidiano pelo fato de que, seja lá quem tenha razão, não se cogita uma negociação. Ninguém está disposto a mediar um conflito. É mais cômodo chamar a Polícia Militar para decidir, com a força desproporcional habitual, o que fazer. Não estamos dispostos a dialogar nem a ceder. Todos só aceitamos ganhar e, por isso, continuamos perdendo.

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