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Boosting: um caso dramático de doping no esporte paralímpico

Ainda pouco conhecida, técnica inclui até automutilação de atletas cadeirantes.

Com Daniel Batista, Hygor Nunes e Madson Santos, estudantes de jornalismo da UERJ.

Mais do que competição, as Paralimpíadas envolvem diversas histórias de superação, cujo clímax é a conquista de medalhas e recordes. À primeira vista, não há espaço para vilões diante de tantas glórias. Essa impressão, porém, já não é tão clara quando alguns meios irregulares e até inimagináveis utilizados por paratletas são descobertos.

Além das formas já conhecidas e proibidas de se melhorar o desempenho nas competições, como o uso de anabolizantes, outra, específica ao esporte paralímpico, chama a atenção: o boosting.

Através desse método, atletas paraplégicos têm recorrido ao estrangulamento de suas genitálias, à fratura de dedos do pé e à compressão de órgãos do abdômen. Sem sentir dores nessas partes do corpo por conta da insensibilidade, conseguem intensificar a circulação sanguínea, diminuir o cansaço e melhorar em até 10% o desempenho em provas de resistência, como as de longa distância percorrida no atletismo em cadeira de rodas, descreve o estudo “Boosting em atletas com elevado grau de lesão medular”, elaborado por onze especialistas em fisiologia e medicina do esporte, de centros de pesquisa no Canadá, Estados Unidos, Brasil, África do Sul, Austrália e Europa.

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Sob suspeita: classe t53 do atletismo é um dos alvos do controle contra o boosting no paradesporto (Foto: Divulgação Comitê Rio-2016)

Ainda foram analisadas no mesmo estudo a incidência do boosting e suas consequências para a saúde. Mesmo proibido desde 2004 pelo Comitê Paralímpico Internacional (CPI), os pesquisadores chegaram ao dado de que 17% dos paratletas entrevistados, cujas identidades foram preservadas, admitiram ter voluntariamente aderido à prática em treinamentos e competições, o que pode levá-los a sofrerem de hipertensão crônica, ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais. Segundo o CPI, 37 testes específicos para sua detecção foram aplicados em Pequim-2008, outros 41 em Londres-2012, mas nenhuma violação foi registrada.

A aferição da pressão arterial é o principal mecanismo que oficiais anti-doping e integrantes da comissão médica do CPI têm à disposição para flagrar o boosting. Diante da dificuldade para detectar casos, parâmetros mais rígidos foram estabelecidos. Até abril deste ano, nenhum paratleta que apresentasse pressão arterial sistólica acima dos 180 mmHg 1 hora antes e novamente 10 minutos antes das provas era autorizado a competir. Porém, a partir de 3 de maio, a tolerância máxima passou a ser de 160 mmHG. Portanto, um paratleta que apresentar pressão arterial de ’16 por 11′, no jargão popular, por exemplo, ou acima, está impedido de participar da disputa.

Em nota divulgada no site da entidade máxima do paradesporto, Peter Van de Vliet, diretor-geral do comitê médico do CPI e um dos autores do estudo, afirma que a revisão do limite aceitável, de 180mmHg para 160mmHg, é o resultado de um trabalho ao longo dos últimos oito anos e diminuirá o risco de atletas recorrerem ao boosting.

Ser flagrado com a pressão arterial acima do tolerado não significa, no entanto, ter recorrido ao boosting. O caso dos paratletas hipertensos é uma exceção, explica Hesojy Gley, coordenador anti-dopagem do Comitê Paralímpico Brasileiro:

“O paratleta necessita se conhecer, ter uma equipe de saúde que controle seus exames clínicos no período de preparação para as competições. Em caso de hipertensão diagnosticada, o paratleta tem de provar à comissão médica do CPI que é hipertenso, através de documentos médicos, para que não seja denunciado.”

Controle anti-doping é intensificado

As primeiras Paralimpíadas aconteceram em Roma, em 1960, mas somente a partir de Barcelona-1992 que foram detectadas fraudes em resultados devido ao uso de substâncias proibidas pela Agencia Mundial Anti-doping (AMA, ou WADA, na sigla em inglês). O CPI intensificou, na última década, o número de testes de sangue e de urina aplicados. Em 2008, foram 1155 testes quatro anos depois, 1436, um crescimento de 24%, enquanto a quantidade de competidores aumentou 7%, de 3951 em Pequim para 4237 em Londres. Questionado sobre quantos exames anti-doping foram realizados nas Paralimpíadas deste ano, o Comitê Rio-2016 não respondeu à solicitação.

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Para Clodoaldo Silva, dono de 14 medalhas paralímpicas e que encerrou sua carreira após os Jogos de 2016, os procedimentos de controle se aperfeiçoaram durante suas cinco participações, desde Sydney-2000:

“Desde 2000 até 2016, quando participei da minha última Paralimpíada, os procedimentos a cada edição estão mais rígidos e deve continuar assim, com tolerância zero. Quando os incidentes acontecem, deve haver banimento total. No caso recente da Rússia, havia muitos culpados, mas atletas inocentes também. Infelizmente o esquema foi tão grande que não tinha como saber quem estava limpo ou não”, afirma o nadador, relembrando o envolvimento da delegação russa, suspensa das Paralimpíadas de 2016, em um esquema de doping que contou com o suporte de autoridades políticas do país.

Aline Lopes, paratleta da equipe brasileira de canoagem ressalta a necessidade de um controle capaz de assegurar competições limpas:

“Sem isso nas Olimpíadas e Paralimpíadas, tivemos vários casos de atletas campeões durante anos e que tiraram o lugar de quem se dedica tanto para estar 100% puro.”

“Armadilha da era espetacular do esporte

Segundo Anderson Gurgel Campos, professor de comunicação e marketing esportivo da Universidade Mackenzie-SP e que acompanhou de perto as Olimpíadas e Paralimpíadas no Rio de Janeiro, o esporte possui mensagens e valores que vão além da competição, entre eles a interação do corpo do atleta com a prática física e com a torcida, além do congraçamento entre povos e nações. Porém, segundo o pesquisador, as pressões relacionadas à espetacularização, à profissionalização e ao consumo do esporte criam armadilhas nas quais o atleta pode cair, e uma delas é o doping:

“Não significa que todo atleta profissional vai cair nisso, mas é sempre uma pressão sobre ele. E o atleta profissional depende de patrocínio, depende de resultado para continuar sobrevivendo no esporte. Os que têm talento e conseguem levar seu corpo ao limite máximo buscam soluções pelos caminhos do esporte. Mas, infelizmente, alguns, nos mais variados contextos, acabam caindo na armadilha do doping, que é uma solução que trai o fair-play esportivo.”

Os Jogos Paralímpicos Rio-2016 foram marcados pela competitividade sem precedentes. Nos onze dias de competição, 220 novos recordes mundiais (21 a mais que em Londres-2012) foram registrados, segundo o CPI. Vitórias como a do argelino Abdellatif Baka nos 1500 metros, no atletismo, com um tempo que lhe daria o ouro em prova da mesma distância nas Olimpíadas surpreenderam os torcedores. No entanto, essa nova realidade do esporte paralímpico é vista com ressalvas por Anderson Gurgel:

“Existe uma natureza das Paralimpíadas diferente, por exemplo, das Olimpíadas. […] Quando um atleta cadeirante ou sem algum membro do corpo cai na piscina, é completamente diferente de um atleta que tem braços e pernas. A primeira competição é desse paratleta contra suas próprias deficiências, e isso já faz dele um vencedor. Por outro lado, é interessante notar que, quanto mais esse evento vai ganhando espaço em meios de comunicação e no mercado, ele tende a imitar o modelo tradicional de grande competitividade e espetáculo da Copa do Mundo, dos Jogos Olímpicos; e o esporte, em si, é colocado em segundo plano. Por isso, eu não consigo ver as Paralimpíadas fugindo das armadilhas nas quais outros megaeventos acabaram incorrendo.”

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