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A carnavalização, o grotesco e o erótico: as capas e manchetes do Meia Hora para os Jogos Olímpicos 2016

Competições como os Jogos Olímpicos são momentos de farta atenção da cobertura midiática. Heróis, dramas de superação, feitos históricos são narrados de modo grandiloquente tanto nas transmissões televisivas quanto nas páginas de jornal. Há bastante material a ser analisado a respeito da cobertura da imprensa dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro. Um dos mais interessantes – e que ainda carece de maiores estudos – diz respeito à cobertura oferecida pelos jornais populares como é o caso do Meia Hora.

Fundado em 2004, o Meia Hora conquistou público e se tornou um sucesso de vendas ao adotar preços baratos e um formato tabloide de fácil acesso e leitura. Situado entre o popular e o sensacionalista[1], o jornal destaca-se por suas capas que costumam noticiar os fatos de modo humorado, muitas vezes, beirando o grotesco. Trata-se de um tipo de publicação que herda das penny press a vocação comercial e a ênfase em dramas familiares, crimes e outras notícias de interesse humano que compunham o cotidiano dos leitores. O objetivo principal das penny press era a captação de público massivo e, consequentemente, do lucro obtido com o sucesso das vendagens. No século XIX, nos EUA, Willian Randolph Hearst e Joseph Pulitzer foram responsáveis pela criação respectiva do New York World e do Morning Journal que disputavam o interesse de leitores apelando aos preços baratos e às notícias de fundo sensacionalista. Como demonstrou Michel Schudson, essas publicações faziam das experiências cotidianas um espetáculo.

No Brasil, alguns jornais se destacaram ao fazer uso do mesmo tipo de política editorial. A Manhã (1925) e Crítica (1928), de propriedade de Mário Rodrigues, fizeram fama por conta de seu teor apelativo explorando escândalos, a violência do cotidiano, as tragédias ou qualquer acontecimento que pudesse provocar sensação nos leitores. Manchetes como “O Bárbaro crime da Rua da Lapa” (15/05/1927) eram publicadas no jornal A Manhã acompanhadas das fotografias do local do crime, o que incluía a imagem de cadáveres das vítimas. A cobertura feita das tragédias cotidianas contava com o envio de jornalistas ao local onde houvesse ocorrido os crimes. Esse aspecto se evidencia em um relato de Nelson Rodrigues, irmão de Mário Filho, e que trabalhou na redação dos dois jornais de seu pai: “No meu primeiro mês de redação, houve um desastre de trem que assombrou a cidade. Morreram cem pessoas. Quando nós, da reportagem, chegamos, muitos ainda agonizavam”[2]. Em 1928, Mário Rodrigues perdeu o controle acionário de A Manhã, mas no mesmo ano fundou Crítica, um novo e mais exitoso periódico.

Crítica, chegou a ser chamado de “foliculário catastrófico” por Gilberto Amado e teve grande circulação no final da década de 1920[3], em parte, por conta de recursos usados para seduzir os leitores. É interessante lembrar que Mário Filho – filho de Mário Rodrigues – trabalhou em ambos os jornais, tanto na editoria literária quanto na esportiva.  Mário Filho é um dos responsáveis pela renovação da linguagem usada na representação dos fatos esportivos, como apontou Marcelino Rodrigues em Mil e uma noites. Em algumas edições da Manhã e Crítica é perceptível nas notícias esportivas a influência do tipo de abordagem usado em jornais populares e de vertente sensacionalista e folhetinesca. A cobertura da Copa de 1930, por exemplo, é marcada pelo investimento em aspectos anedóticos e curiosos, como os que teriam acontecido durante a viagem da Seleção para o Uruguai. Nessa matéria temos o craque Fausto liderando um jogo de pôquer e o enjoo do jogador Oscarino que confundiu um bidê com uma pia para lavar rosto

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Grande parte das estratégias usadas nos jornais populares onde trabalhou foram levadas para a editoria esportiva de O Globo, onde atuou na década de 1930. O uso de estratégias de origem melodramática, em que notícia e entretenimento são mesclados, se faz presente no jornalismo esportivo, de um modo geral, como já tentei demonstrar em algumas oportunidades.[4] Mas, obviamente, que essa mistura pode se fazer mais aguda quando se trata de um veículo popular como é o caso do jornal Meia Hora.

Por jornalismo popular podemos compreender como aquele que não somente é capaz de oferecer notícias que provoquem frisson no leitor, mas que fazem uso de estratégias mais diversificadas para o alcance do público como propõe Marcia Franz Amaral:

As publicações destinadas às classes B, C e D integram um novo mercado a ser analisado, caracterizado por um público que não quer apenas histórias incríveis e inverossímeis, mas compra jornais em busca também de prestação de serviço e entretenimento. São jornais que atendem às regiões metropolitanas, apostam nas editorias de Cidades e não têm a pretensão de se tornarem nacionais. Utilizam como estratégia de sedução do público leitor e a cobertura da inoperância do Poder Público, da vida das celebridades e do cotidiano das pessoas do povo. Os assuntos que interessam são prioritariamente os que mexem imediatamente com a vida da população[5]

No caso do Meia Hora, por exemplo, o futebol é alvo de atenção constante, ocupando muitas vezes espaço relevante nas capas. Os Jogos Olímpicos também tiveram bastante espaço nas edições desse periódico, em especial, em suas primeiras páginas. Certamente, o modo de se noticiar os fatos esportivos relacionados a esse megaevento possuem suas especificidades, as quais tentarei destacar brevemente.

Os Jogos do Rio de Janeiro, segundo o Meia Hora

Os Jogos Olímpicos, especialmente, nas semanas anteriores à sua realização, serviram de mote para análises a respeito da cidade do Rio de Janeiro. Superfaturamento, obras inacabadas, promessas não compridas foram temáticas exploradas por diversos jornais que também investiram em matérias a respeito da crise financeira pela qual o estado passou nos períodos antecedentes à abertura dos Jogos.

No caso do Meia Hora, os Jogos foram, muitas vezes, noticiados em associação aos problemas pelos quais o Rio de Janeiro passava às vésperas de sediar o mais importante evento esportivo do mundo. Porém, ao invés de um tom grandiloquente, ufanista e cerimonioso, o que se pode perceber foi o revestimento dos fatos – alguns deles graves – com o tom de humor irônico e debochado.

“Olimpíadas já tá bombando” foi a manchete usada para retratar o caso de uma suspeita de bomba despertada por uma mochila deixada na Rua General San Martin, Leblon, e que movimentou a polícia na tentativa de desativá-la. O uso da gíria bombando – indicativa de algo que está fazendo sucesso – é usada para fazer um trocadilho com o artefato explosivo que possivelmente estaria na mochila.  Um fato de razoável seriedade se transforma em assunto anedótico, estratégia discursiva que também é possibilitada, pois não nenhuma bomba fora encontrada.

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Em relação aos jogos propriamente ditos, chama atenção a adoção de notícias que poderíamos chamá-las de “carnavalizadas”, no sentido usado por Bakhtin, o que aponta para manchetes com uma certa inversão da hierarquia do cotidiano. É válido destacar o tipo de tratamento dado aos vencedores de medalhas, raramente representados de modo heroicizado, como costumamos ver em jornais considerados tradicionais.

O caso da medalhista de ouro Rafaela Silva é exemplar nesse aspecto. Vista pelo jornal O Globo como uma heroína que se ergue por intermédio da superação das dificuldades advindas de sua difícil trajetória de vida, sua conquista do outro foi assim destacada pelo Meia Hora:

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Dividindo espaço com o medalhista de prata Felipe Wu, do tiro esportivo, e com a notícia da má atuação da seleção masculina de futebol, a capa mais uma vez investe em uma referência humorada aos problemas do Rio de Janeiro com a manchete “Tiro, Porrada e bomba”, que, sem o devido acompanhamento das imagens, poderia ser compreendida como uma típica manchete do violento cotidiano carioca.

Outras medalhistas de ouro, a dupla de atletas da vela, Martine Grael e Kahena Kunze, tiveram seu feito noticiado com ironia em alusão à poluição da baía de Guanabara cuja solução havia sido prometida como legado, mas que não foi cumprido “O que é que a Baía tem: Garrafa Pet, sofá e ouro”

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Chama a atenção, na capa acima mostrada, que a notícia sobre o episódio que envolveu alguns atletas americanos da natação recebeu mais destaque do que a inédita conquista da vela feminina brasileira. Fazendo uso de gírias, a manchete principal diz “Americano faz ‘merdeition’ em posto, inventa maior ‘caozation’. Nadador e seus colegas quebram banheiro do posto, botam o bilau para fora e contam cascata de que foram assaltados”

Já o tradicional jornal O Globo preferiu outro tipo de capa:

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Os critérios de noticiabilidade, do Meia Hora, ao que parece, foram guiados pela possibilidade de chamar a atenção do público leitor por intermédio de um fato inusitado ocorrido nos Jogos Olímpicos. Isso ocorre, porque, em jornais populares, informar é indissociável do divertir e causar sensação nos leitores.  A capa desse tipo de produção por si só contém os elementos principais da notícia, tornando, muitas vezes, desnecessário abrir o jornal para buscar o texto completo a respeito do fato. Não sem motivos, as capas são o forte do Meia Hora, transformando-se elas mesmas em notícia a ser mencionada em outros meios de comunicação e comentada nas redes sociais e conversas informais. Essa questão foi tema do recente documentário Manchetes que viram manchete, onde se aborda o processo de elaboração das primeiras páginas do Meia Hora.

A piada é o mais importante, assim como a incorporação de uma perspectiva em que o mundo é visto sob um ângulo não somente carnavalizado, mas também grotesco e, portanto, marcado pelo excesso. É exemplar nesse aspecto, a edição do dia 20 de agosto:

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O atleta francês da marcha atlética Yohan Diniz, que passou mal durante a maratona teve sua participação retratada a partir do recurso à piada popular “cagando e andando”, que deslocada de seu contexto, foi usada para fazer referência ao fato de Diniz ter tido complicações intestinais durante a corrida. É de modo anedótico que se retratou a participação de um dos principais atletas presentes nos Jogos do Rio. Nenhuma referência a uma possível superação física e emocional que permitiu ao atleta conseguir terminar a prova mesmo com tantas dificuldades. A piada foi mais importante.

Outro tipo de referência comum é o erotismo, sendo frequentes manchetes com duplo sentido e teor sexual apelativo. Esse foi o caso do acontecido com saltadora brasileira Ingrid de Oliveira que teria levado um atleta brasileiro para passar uma noite em seu quarto na Vila Olímpica, despertando a revolta de sua colega de treino Giovana Pedroso que denunciou a atitude de Ingrid ao Comitê Brasileiro.

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Mas foi a modalidade de salto com vara aquela que mais produziu conteúdos desse tipo. Chamo a atenção para a edição do dia 17/08 em que aparece a imagem do atleta japonês Hiroki Ogita, que teria esbarrado suas partes genitais no sarrafado, derrubando-o e perdendo a chance de concorrer a uma medalha.

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Embora exista um investimento em uma visão de mundo carnavalizada, assim como na incorporação de elementos da cultura popular, é importante dizer que publicações como Meia Hora não são necessariamente contra-hegemônicas. Muitas vezes, esses veículos incorporam representações simplistas dos fatos, calcadas em estereótipos e preconceitos, pouco contribuindo para que o leitor tenha possibilidade de investir em uma perspectiva mais crítica acerca dos acontecimentos.

Muitos jornais populares de vertente sensacionalista concebem seu leitor-modelo como indivíduos interessados somente em conteúdos que despertam curiosidade ou o riso debochado. É de se pensar que grande parte do público que compra jornais como Meia Hora fazem parte das camadas sociais menos abastadas, como a C, D e E. Isso implica dizer que esses tipos de periódicos projetam e reproduzem em suas capas a imagem clichê que comumente se faz daqueles extratos sociais no Brasil.

Quanto aos usos de artifícios folhetinescos que visam sobretudo chamar a atenção do leitor, é válido mencionar que esse tipo de estratégia não é exclusivo dos jornais populares. O jornalismo esportivo, de um modo geral, costuma recorrer com frequência a técnicas narrativas que visam dramatizar os fatos, torná-los chamativos e, sobretudo, promover a constante aproximação entre notícia e entretenimento. Sendo assim, não se deseja criar oposições estanques entre tipos de jornalismos que operariam em mundos separados. Ao contrário, ambos se visitam com frequência. Do mesmo modo, é importante dizer que seria difícil postular a existência de uma hierarquia entre os dois tipos de publicação, a partir da suposição de que a imprensa popular representaria algum tipo de descaminho em relação à tradicional.

Pensar dessa forma, muitas vezes, impede estudos mais profundos a respeito de veículos representativos da cultura contemporânea, como é o caso dos jornais populares que são um sucesso de público em diversas partes do Brasil e do mundo. O jornal espanhol Metro também é um desses exemplos. No que se refere aos dos estudos sobre a relação entre imprensa e esporte, ainda há vasto campo a ser explorado no que se refere às representações dos fatos esportivos feitas por periódicos como o Meia Hora.

[1] COSTA, Leda. A trajetória da queda. As narrativas da derrota e os principais vilões da seleção brasileira em Copas do Mundo. Tese de Doutorado. Pós-graduação em Letras. Literatura Comparada. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2008. COSTA, Leda. Futebol folhetinizado. A imprensa esportiva e os recursos narrativos usados na construção da notícia. Logos. 33. Comunicação e Esporte. Vol.17, Nº02, 2º semestre 2010.

[2] AMARAL, Marcia Franz. Imprensa popular: sinônimo de jornalismo popular? (Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2006/resumos/R0786-1.pdf

[3] A respeito dos conceitos popular e sensacionalista ver AMARAL, Márcia Franz. Jornalismo popular. Editora Contexto, 2001. Angrimani, Danilo. Espreme que sai sangue. Summus Editorial, 1994.

[4] Marialva Barbosa. História cultural da imprensa. Brasil – 1900-2000. Rio de Janeiro: Mauad, 2007 (p.201-202)

[5]Ver Marialva Barbosa. História cultural da imprensa. Brasil – 1900-2000. Rio de Janeiro: Mauad, 2007.

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