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Os plebeus chegam ao trono

Schmeichel, Simpson, Morgan, Huth e Fuchs; Drinkwater, Kanté, Albrighton e Okazaki; Mahrez e Vardy. Desconfio até da capacidade dos videntes em prever que esses 11 jogadores comandariam nesta temporada um modesto clube rumo ao título mais importante de sua história centenária: o do campeonato inglês, o mais rico do mundo. O responsável por essa façanha tem o nome de uma pequena, mas orgulhosa cidade do interior: Leicester. A conquista inédita, confirmada antecipadamente hoje, é épica não apenas pela surpresa causada ao mundo do futebol, mas porque quebra um modelo de gestão do futebol que cada vez menos possibilita “pequenos” virarem “grandes”.

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Vardy e tantos outros jogadores do Leicester desconhecidos até então se tornaram heróis improváveis de um título que quebra a lógica econômica existente no futebol contemporâneo.

A partir da segunda metade do século XX, a intensificação do processo de Globalização conduziu as relações políticas, econômicas e culturais a uma amplitude e complexidade nunca antes vistas. O futebol não ficou a par dessas rápidas e muitas vezes danosas transformações na forma como os mercados, as instituições políticas e povos interagem entre si. No mundo esportivo, mais precisamente, a expansão proporcionada pelos avanços tecnológicos na transmissão e na cobertura de jogos dos mais variados torneios para os quatro cantos do mundo aumentou o espaço de exposição e também a concorrência entre os clubes por investimentos de empresas em estrutura, patrocínios e repercussão midiática.

Antes da Globalização impor o modelo neoliberal de negócios no mundo, as disparidades financeiras e técnicas entre as equipes já existiam, assim como as denominações “time grande” e “time pequeno” estavam presentes na imprensa esportiva. Na Europa, no entanto, as disparidades no futebol não eram, 50 anos atrás, tão abissais como atualmente, quando apenas 2 ou no máximo 3 supertimes concentram as disputas pelos títulos de cada campeonato nacional todos os anos.

Obviamente, é preciso destacar a exemplar administração dessas potências do futebol mundial, que alcançaram um patamar de organização invejável aos clubes brasileiros. A profissionalização da gestão do futebol parece ser um caminho sem volta e que começa a ser trilhado gradativamente no Brasil. Por outro lado, a realidade atual do futebol não pode impedir quem é pequeno, hoje, de sonhar e trabalhar para ser grande a médio prazo.

Já consolidados economicamente antes mesmo da noção de “clube-empresa” ser introduzida aos negócios do futebol, Manchester United, Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique, Juventus e outros ampliaram ainda mais nas últimas décadas as diferenças de arrecadação em relação aos clubes de pequeno e médio porte do futebol europeu, em uma corrida na qual o pelotão de elite largou com vantagem quase irreversível. A qualidade do espetáculo e o estilo “bonito” de se jogar são os responsáveis por renovar a paixão pelo esporte e deveriam ser direito universal em uma imaginária “Constituição do futebol”.

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De acordo com o estudo elaborado pela consultoria esportiva Delloite e divulgado pelo site  “Trivela” o Leicester é o 24º em uma lista de 30 times analisados em termos de arrecadação na temporada 2014/2015. A diferença do Leicester para o líder Real Madrid é de aproximadamente 1,56 bilhão de reais

Por conta desse cenário, que podemos classificar de “injusto” e reduz as surpresas, o título do Leicester merece ser aplaudido de pé. Da mesma forma que alguns conseguem quebrar a banca dos jogos de azar em grandes cassinos de Las Vegas, Macau e Monte Carlo e fazer fortunas repentinamente, o antes improvável campeão driblou o status quo do futebol contemporâneo, marcado pela exclusão e elitização. Um clube quase rebaixado para a 2° divisão no ano passado e cujo elenco no início desta temporada era 6,5 vezes menos valioso do que o elenco mais rico do campeonato inglês em 2016, o do Chelsea, que ocupa apenas a 9° posição na tabela. Os dados são do site “Transfer Market”.

Não há muito mais o que explicar por trás da sensação do futebol neste ano. Tanto se comenta sobre a excepcional gestão dos grandes clubes europeus, mas esquecemos da lição ensinada  pelo Leicester: é possível encontrar bons jogadores a preços acessíveis, ao contrário de muitos dirigentes que formam elencos “galácticos” visando à repercussão midiática e à quantidade de novas camisas a serem vendidas ao invés das vitórias, que também geram dinheiro, não se esqueça!

Sob o comando do técnico Claudio Ranieri, o time ‘encaixou’ a ponto  de estar na parte de cima da tabela durante todo o campeonato e derrubar os gigantes de Londres, Liverpool e Manchester. Contra Arsenal, Chelsea, Tottenham, Manchester City, Manchester United e Liverpool, foram 12 jogos, 5 vitórias, 4 empates e 3 derrotas, além de ter obtido o melhor desempenho como visitante (11 vitórias em 18 jogos realizados até agora). O resto é mágica, é sorte, é o destino, são as restantes e agradáveis surpresas do esporte mais popular da Terra.

A história do título inédito do Leicester possui todos os requisitos para se transformar em um roteiro de cinema digno de um Oscar. O renascimento em meio às cinzas e a luz no fim do túnel são narrativas com as quais nos identificamos já que todos nós passamos por altos e baixos. Apesar de já termos assistido a inúmeros filmes cujos enredo e personagens são marcados pela superação, não cansamos de rever e de nos emocionar com alguns deles. Ainda mais se o ‘filme’ for real e passar diante dos nossos olhos. O filme “Leicester” merece replay.

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