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O preconceito está nos olhos de quem vê? O empoderamento das torcedoras e o machismo no futebol

“O preconceito está nos olhos de quem vê” foi uma frase que ouvi da boca de alguns comentaristas esportivos para fazerem referência às reações negativas geradas pela apresentação do novo uniforme do clube Atlético Mineiro. Ela poderia ser eleita como uma das frases mais infelizes dos últimos tempos. Geralmente quem a profere, o faz com intenção de questionar alguma acusação de preconceito, pressupondo que hoje em dia existiria uma excessiva tendência de se enxergar atitudes ofensivas onde, na verdade, só haveria brincadeira, deboche e outras formas “inocentes” de expressão.

Sim, o preconceito está nos olhos de quem vê. Isso me parece um tanto óbvio. Então, caso digamos essa frase é necessário que nos perguntemos: “Por que eu não estou vendo? ” É muito provável que não vejamos – no sentido de perceber, o que vai além do ato de enxergar – porque certos preconceitos são tão comuns no dia a dia que não o percebemos enquanto tal. As demonstrações de machismo e preconceito contra a mulher são tão frequentes no futebol que foram naturalizadas, inclusive pela própria imprensa esportiva.

Essa questão já foi demonstrada por ótimos pesquisadores como Silvana Goellner, Fabio Franzini, Katia Rubio entre outros que se debruçaram sobre as dificuldades enfrentadas pelas mulheres para conseguirem atuar no futebol – e no esporte – como profissionais. Certamente, hoje em dia, o cenário melhorou muito, afinal temos campeonatos femininos, técnicas de futebol, dirigentes, árbitras e jornalistas. Mesmo assim, há longo caminho a ser conquistado e o caso da apresentação do uniforme do Atlético Mineiro deu mostras de como ainda estamos longe de entendermos que o futebol não é uma exclusividade de machezas exaltadas.

Essa apresentação foi realizada em um evento no qual modelos femininos desfilaram vestidas apenas com a camisa do Galo ou trajadas somente de biquíni. Enquanto isso, os modelos masculinos se exibiam com o traje completo, sendo que alguns deles eram os próprios jogadores do Atlético, como foi o caso do recém-contratado Robinho.

A disparidade de tratamento provocou reação imediata de pessoas que pelas redes sociais manifestaram grande insatisfação ao que consideraram como uma demonstração de sexismo da fornecedora de materiais esportivos, a Dry Word, e do próprio Atlético Mineiro.

Fonte: https://www.facebook.com/Galo-Queer-941232029242434/

Entre as diversas manifestações destaco a “Nota de repúdio: machismo em evento do Galo” escrito por algumas torcedoras do clube mineiro, que se sentiram ofendidas com o tipo de tratamento dado às mulheres e as torcedoras. A Nota não se restringe ao evento em si, mas faz dele uma oportunidade para mostrar os diversos modos de exclusão e preconceito que afetam a muitas mulheres no ambiente futebolístico.

Nesse caso, a ênfase recai sobre a mulher torcedora que segundo a Nota costuma ser desconsiderada, o que reflete uma desigualdade que não é exclusiva do futebol, mas está presente no dia a dia. Dada a sua importância no cotidiano de milhões de pessoas, caberia aos clubes não reproduzirem e, muito menos, reforçarem desigualdades

Não vivemos em um mundo justo. Enquanto homens podem sacar suas camisetas à vontade e rodopiá-las no ar, nós muitas vezes precisamos evitar ir ao estádio com o corpo mais exposto. Sabemos que, se o fizermos, corremos riscos de sofrer agressões morais e físicas, consequências do violento mundo machista que instituições como o Clube Atlético Mineiro, com seu aval e passividade em casos como o do lançamento de seus uniformes, acaba por ajudar a propagar. É por isso que lamentamos profundamente a forma como as modelos, mulheres como nós, e crianças, foram desnecessariamente expostas em uma ação que teve caráter sexual, ainda que com o triste consentimento das mesmas. O fato é que ali elas representavam todas nós. (Fonte: http://espnfc.espn.uol.com.br/atletico-mineiro/camikaze/7843-nota-de-repudio-machismo-em-evento-do-galo)

É importante lembrar que o evento tinha como propósito lançar o novo uniforme de um time de futebol que é basicamente composto por camisa, calção, meias e chuteiras. O jogador Robinho estava devidamente trajado.

Fonte: http://trivela.uol.com.br/com-robinho-atletico-mineiro-gira-novamente-a-roleta/

Mas quando as modelos eram mulheres …. Cadê o calção, as meias e as chuteiras?

Fonte: http://trivela.uol.com.br/sobre-futebol-bundas-machismo-e-pequenas-vitorias/

Essa apresentação me fez lembrar a edição de uma revista Placar que tinha como assunto central o boom do futebol feminino no Brasil, na década de 1990. Mas na capa apareceram meninas, de costas, com trajes mínimos e em pose sensual. Em vez de estampar a figura de alguma jogadora promissora da época ou mesmo expor a imagem de times femininos em campo, optou-se por uma capa pensada para atrair a atenção do público masculino.

Revista Placar. N. 1106. Agosto de 1995.

 

Revista Placar. N. 1106. Agosto de 1995. No interior da matéria.

 

Esse tipo de tratamento mostra como a imprensa esportiva, ao longo do tempo, também contribui para a manutenção e fomentação de preconceitos contra a mulher no futebol. Embora hoje em dia possamos ver jornalistas atuando em campo e apresentadoras na tela, ainda são raras as comentaristas e cronistas que são responsáveis por opinar a respeito desse esporte.

No caso da mulher torcedora, elas costumam ser bastante mencionadas nas Copas do Mundo quando se criam espaços para a opinião feminina tanto nos jornais impressos quanto em programas de TV. Mas geralmente chamam-se atrizes e outras celebridades para darem seus palpites, frequentemente superficiais, quando não voltados para a eleição do jogador mais belo do campeonato. Nada mais que isso. Nas transmissões dos jogos, as câmeras costumam dar closes no rosto de mulheres belas, maquiadas e com crianças no colo. Ou seja, nas arquibancadas, a mulher costuma ser vista como um adereço, porque o ato de torcer parece estar vinculado aos homens. Essa lógica se repete nas propagandas como já demonstrou Edson Gastaldo e vimos se repetir no evento de apresentação do uniforme do Atlético Mineiro.

Não ser reconhecida e legitimada como torcedora implica provocar estranhamento quando uma mulher diz que assiste a jogos e a mesas-redondas. Implica entrar em uma loja do seu time de coração e encontrar poucas opções de roupa que a gente consiga vestir e não fique desajustada em nosso corpo. Camisas comemorativas que fazem alusão a grandes momentos dos nossos clubes, raramente possuem uma versão adequada ao corpo feminino. Eu, por exemplo, tenho camisas em homenagem ao Juninho e ao Dedé (ex-jogadores do Vasco da Gama), as quais não posso usar já que ficam gigantescas em mim.

Quando roupas voltadas para o público feminino são lançadas temos que suportar uniformes rosas, camisas baby look para a barriga ficar de fora ou vestidos colados, ou seja, produtos guiados por estereótipos e, portanto, pouquíssimos criativos, sobretudo, se comparados aos voltados para o público masculino.

Sempre que saio de uma loja tenho a impressão de que as marcas e os clubes acham que existem apenas torcedores homens. E esse não é um problema exclusivo do Brasil. Experimentei isso no Uruguai e, recentemente, ganhei uma camisa do Aston Vila, importada da Inglaterra, mas em versão masculina, pois não havia feminina. Provavelmente é mais um uniforme que guardarei no meu armário sem poder exibi-lo nas ruas.

A luta pela igualdade se evidencia nas redes sociais onde são várias as comunidades que visam demonstrar que mulher gosta – e entende – de futebol. Algumas se pautam em discursos que tentam contrariar determinados estereótipos de feminilidade, assim como buscam afirmar a legitimidade da mulher como torcedora.

Fonte: https://www.facebook.com/SouMulherEAmoFutebolProblema/

 

No exemplo acima, temos o uso de uma linguagem mais ríspida, com o recurso a palavrões, e a negativa ao ato de assistir novelas, produto fortemente associado às mulheres, pois o time de coração está jogando. Na parte dos comentários, o segundo deles é bastante interessante, pois é uma fala de uma menina revoltada com o estranhamento que causa quando sabem que ela assiste a jogos e programas esportivos. Seria difícil imaginarmos esse mesmo tipo de revolta vinda de um homem, já que o futebol é considerado quase que uma essência de seu universo.

Fonte: https://www.facebook.com/Blog-Apaixonadas-Por-Futebol-1106808502677684/?fref=nf

 

Esses discursos seguem uma importante tendência de reivindicação dos direitos das mulheres, notável há anos em diversas instâncias da sociedade e que têm se fortalecido cada vez mais, motivando ações como os protestos que, em outubro de 2016, reuniram dezenas de pessoas na Cinelândia, Rio de Janeiro, contra o projeto de Lei Parlamentar 5069/13 que proibiria o aborto em casos de estupro. No dia 25 novembro, outra manifestação pública foi realizada, também no Rio de Janeiro, contrária ao mesmo projeto.

A luta contra o machismo e diversos modos de preconceito contra as mulheres também tem se ampliado no futebol e o caso da insatisfação gerada pela apresentação do uniforme do Atlético Mineiro dá mostras de que aquela velha máxima “futebol é coisa de homem” está perdendo cada vez mais forças, tornando-se obsoleta por que vivemos em outros tempos e o futebol não está à parte da sociedade.

Dados estatísticos dão mostras disso. Em pesquisa realizada em 2013 pela agência Box 1824, sob encomenda da Rádio Globo, 900 pessoas que residem no Rio de Janeiro e São Paulo foram ouvidas sobre seus hábitos de torcer e o resultado mostrou por exemplo que 38% das mulheres afirmam ir ao estádio mais de uma vez por mês contra 41% dos homens. 59% das torcedoras afirmam assistir a jogos de futebol até duas vezes por semana, enquanto 40% dos homens afirmam fazer o mesmo. (Fonte: http://epoca.globo.com/vida/copa-do-mundo-2014/noticia/2013/12/nao-basta-torcer-belas-querem-ir-ao-estadiob.html)

Por sua vez, de acordo com dados do IBOPE a novela é o programa televiso mais assistido pelo público masculino, o que desmente a ideia de que essa atração é própria das mulheres.

Fonte: http://noticiasdatv.uol.com.br/noticia/televisao/homem-assiste-mais-novela-do-que-futebol-jornalismo-perde-forca-2025

 

É fundamental desnaturalizarmos certas concepções estereotipadas que são fonte de exclusão. E se o preconceito está nos olhos de quem vê, que então passemos a dar voz a essas pessoas porque, provavelmente, são elas as suas maiores vítimas. E se nós não conseguimos ver, cabe entendermos os motivos dessa não percepção.

Mas o fato é que as torcedoras estão dispostas a reivindicar respeito, legitimidade e para fazer uso de uma expressão pertinente ao contexto atual, digo que as torcedoras estão se empoderando e indo em busca do direito de serem representadas como admiradoras do futebol, como alguém que torce e, também, consome o esporte mais popular do país.

Cabe aos clubes, inclusive nossos clubes de coração, atentarem para as demandas desse público. Mas que façam isso sem preconceito, porque as torcedoras estão se empoderando. Esse empoderamento se mostra sobretudo via redes sociais, o que não pode ser desprezado, afinal sabemos da força que os meios digitais de comunicação possuem.

Das redes sociais paras as arquibancadas é só um passo.

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4 comentários em “O preconceito está nos olhos de quem vê? O empoderamento das torcedoras e o machismo no futebol

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