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Brasil, o país do futebol?

Segundo o pensador Heráclito, “nada é permanente, exceto a mudança”. Esta afirmação é de grande valia para se avaliar a questão da formação de imaginários e de representações sociais. Há alguns anos, se afirmava que o melhor futebol do mundo era praticado por jogadores brasileiros, não necessariamente no Brasil, mas por brasileiros. Por essa razão era comum que no panteão de ídolos futebolísticos de um determinado período estivessem presentes jogadores do Brasil.

Como descrevem Mário Filho, em “O Negro no Futebol Brasileiro”, e João Máximo e Marcos de Castro, em “Gigantes do Futebol Brasileiro”, isto também abria portas para que equipes nacionais realizassem turnês internacionais para mostrar sua arte e faturar algum trocado. Contudo, de alguns para cá parece ter iniciado uma mudança na geografia do imaginário do velho esporte bretão, e os jogadores brasileiros perderam protagonismo no universo do futebol profissional.

O brasileiro com maior destaque no futebol atual é o atacante Neymar, admirado por muitos, mas que ainda não tem o mesmo destaque de atletas como o português Cristiano Ronaldo e o argentino Lionel Messi. Assim, se as estrelas que mais cintilam já não estão no Brasil, é natural que o torcedor brasileiro passe a voltar o seu olhar para fora.

Nesta terça tem início a disputa das quartas de final da Liga dos Campeões da Europa. Há alguns anos, a cobertura da competição, considerada por alguns como o principal torneio de clubes do mundo, se limitava a veículos de comunicação especializados, como emissoras fechadas e sites. No entanto, o panorama mudou, e esta e outras competições disputadas em gramados internacionais recebem maior destaque nos meios de comunicação brasileiros. Um exemplo é a Rede Globo, que aumentou o espaço em sua grade de programação para transmitir partidas da Liga. A próxima quarta, por exemplo, é dia de Barcelona e PSG.

O que se deseja evidenciar aqui não é uma simples mudança na grade de programação esportiva de emissoras brasileiras, mas sim a transformação do imaginário do torcedor brasileiro sobre o futebol. Como dito anteriormente, se até alguns anos atrás as atenções se concentravam no futebol nacional, hoje o olhar se volta para fora.

Um exemplo aparece na reportagem “Paixão estrangeira: jovens têm escolhido cada vez mais clubes de fora”, publicada pela revista “Placar” no final de 2014. A matéria mostra a crescente filiação de jovens torcedores brasileiros a times europeus e apresenta um dado interessante: de cada 10 camisas de times de futebol infantis vendidas na maior loja de artigos esportivos do Brasil, 6 são de equipes do Velho Continente.

Crianças do Colégio Santa Maria (SP) optam por camisas do Manchester United e do Real Madrid na hora do futebol.
Crianças do Colégio Santa Maria (SP) optam por camisas do Manchester United e do Real Madrid na hora do futebol.

Entre as razões apresentadas para a ocorrência deste fenômeno se destaca o desejo dos pequenos torcedores brasileiros de se vincularem a grandes equipes do futebol mundial, que, segundo eles, protagonizam os melhores jogos (espetáculos) e que contam com os craques do momento.

Como destacado no início, a possibilidade de mudanças é algo que perdura, o que pode fazer com que em um futuro próximo o Brasil volte a ser visto como o detentor do melhor futebol do mundo. Entretanto, desde já as narrativas em torno do imaginário do futebol brasileiro se apresentam como um interessante objeto de estudo para os pesquisadores que trabalham com a tríade comunicação, esporte e cultura.

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