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Numa tarde de domingo: futebol americano no estádio luso-português

Para compor esta postagem, mais uma vez recorro a uma experiência oriunda das peregrinações que faço por estádios do Rio de Janeiro em busca de jogos alternativos de futebol. É muito comum que antes de ir a jogos como Madureira X CRB – assunto do meu último post neste blog – as pessoas me perguntem com certo tom de indignação: o que você vai fazer nesse jogo?

Acho essa pergunta bastante representativa de um tipo de cultura torcedora que privilegia um futebol específico que é aquele que reúne jogadores famosos, dos chamados clubes grandes, altamente privilegiados pelas transmissões televisivas. Mas no dia 30 de novembro, até eu mesma me fiz aquela pergunta: Leda, o que você vai fazer nesse jogo? Não. Não estou enjoando de futebol e muito menos desistindo das minhas visitações daquilo que chamo de circuito alternativo desse esporte. Fiz-me essa pergunta antes de ir assistir ao amistoso entre a seleção brasileira de futebol americano e a seleção Carioca, realizado no Estádio Luso Brasileiro, na Ilha do Governador.

Eu entendo pouquíssimo desse esporte e até, então, meu interesse se limitava ao Superbowl, interesse alimentado, sobretudo, por causa da expectativa do show do intervalo que são sempre espetaculares e que em 2015, por exemplo, terá Katy Perry como estrela. Entendo qualquer irritação que esse tipo de declaração possa causar aos fãs do futebol americano. Eu também me irritaria bastante caso alguém fizesse esse tipo de comentário no caso do futebol da bola redonda.

Mas não sejamos precipitados, porque minhas pesquisas para fazer o texto deste blog, minha ida ao amistoso da seleção, somado a recente vitória do Vasco Patriotas no torneio Touchdown estão me fazendo olhar com outros olhos esse esporte.

Nas últimas semanas me pego, às vezes, assistindo aos jogos da NFL e até mesmo do campeonato universitário. E a comparação é inevitável. Enquanto os jogos da NFL – e até mesmo os do campeonato universitário – são realizados em estádios cheios e com campos apropriados para a prática desse esporte, aqui no Brasil o futebol americano – mesmo quando envolve a seleção nacional – é marcado pelo improviso.

Estádio da Portuguesa da Ilha: a casa do futebol americano

Os poucos trabalhos acadêmicos que encontrei são unânimes em considerar que o futebol americano, no Brasil, tem origem nas areias da praia de Copacabana, quando por volta de 1986 grupos de amigos se reuniam para praticar esse esporte. Em 1992, fundou-se o Rio Guardians, considerada a primeira equipe de futebol americano de praia. Anos depois, idealizou-se o Carioca Bowl torneio que existe até os dias de hoje.

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FOTO 1: Rio Guardians, em 1994.
Fonte: blog do Rio Guardians.

Essa proximidade com as areias em certa medida se explica devido ao fato de que se trata de um lugar adequado para jogar o futebol americano sem o uso dos equipamentos protetores. Em seu início, uma das principais dificuldades da prática do futebol americano, no Brasil, refere-se à falta de materiais como capacetes e protetores bucais, que eram caros e cuja aquisição era difícil já que não havia lojas que os vendessem (FRONTELMO, 2006). Sendo assim: “Para remediar essa falta de equipamento protetor, a praia se tornou uma solução mais plausível, visto que o impacto de quedas poderia ser diminuído na areia” (FRONTELMO, 2006)

Na grama, o Joinville Blackhawks foi a primeira equipe de futebol americano, no Brasil. Fundada em 1991, a equipe incialmente jogava sem o uso dos equipamentos de proteção (PONS, 81). Devido a essas dificuldades, no Brasil, somente em 2008 realizou-se o primeiro jogo “fullpad”, ou seja com o uso de equipamentos completos (PONS, 83)

Sendo assim de 1985 até o início da década de 1990, eram nas areia que se podia ver e praticar o futebol americano, adaptado às condições locais. E mesmo que muitas delas estejam poluídas, a Ilha do Governador tem diversas praias, e algumas delas costumam receber treinos e jogos de times de futebol americano. O bairro tem alguns times dessa modalidade, destacando-se, o Ilha Avalanche (fundado em 2005) e o Rio de Janeiro Islanders (fundado em 2009) que participam do Carioca Bowl, a principal competição de futebol americano de praia do Rio de Janeiro:

E mesmo que muitas delas estejam poluídas, a Ilha do Governador tem diversas praias, sendo que algumas delas costumam receber treinos e jogos de times de futebol americano. A Ilha do Governador tem uma relação antiga com o futebol americano. O bairro tem alguns times dessa modalidade, destacando-se, o Ilha Avalanche (fundado em 2005) e o Rio de Janeiro Islanders (fundado em 2009) que participam do Carioca Bowl, a principal competição de futebol americano de praia do Rio de Janeiro.

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FOTO 2: Escudo do Ilha Avalanche.
Fonte: blog do Ilha Avalanche.

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FOTO 3: Escudo do Rio de Janeiro Islanders.
Fonte: site da Liga Fluminense de Futebol Americano.

A Ilha do Governador, portanto, possui laços com o futebol americano. Não é de estranhar que o Luso, pelo menos desde 2012 venha recebendo jogos de competições importantes de futebol americano no Brasil, como por exemplo, o torneio Touchdown. Nesse estádio ocorreram os treinos da seleção brasileira de futebol americano, o Brasil Onças, o que incluiu o amistoso contra a seleção carioca, assunto do qual tratarei mais adiante.

A Portuguesa da Ilha do Governador é um clube bastante representativo para o bairro. Basta ir em qualquer tarde de sábado e domingo que podemos ver suas instalações cheias de sócios que fazem festas de aniversário, churrascos comemorativos ou vão nadar na piscina em dias de calor, jogar uma pelada em um campo ao lado do campo principal ou jogar futebol na quadra interna do clube.

Inspirada na Portuguesa Santista, a Associação Atlética Portuguesa foi criada em 1924 e, portanto, completou 90 anos, em 2014. O time da Portuguesa nunca foi campeão da primeira Divisão do Carioca, mas no seu histórico consta uma vitória sobre o Real Madrid, em amistoso realizado em 1969. Essa vitória é celebrada como um dos mais importantes momentos da trajetória do clube.

Em uma época na qual era comum em clubes brasileiros excursionarem pela Europa, a Portuguesa da Ilha fez diversos amistosos na década de 1960, incluindo um jogo contra o Real Madri que havia acabado de ser bicampeão espanhol.

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FOTO 4
Fonte: site da CBN Esportes.

Um dos maiores bens do clube é o Estádio Luso Brasileiro inaugurado em 1965. Parte do que hoje é o estádio, já foi o Jockey Club da Guanabara, inaugurado em 1961 e fechado um ano depois, sendo comprado pela Portuguesa:

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FOTO 5.
Fonte: blog Um Coração Suburbano.

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FOTO 6.
Fonte: Fotolog do Luiz.

Com o Maracanã em obras para o Pan de 2007, em 2005 o estádio da Portuguesa virou “arena” para receber os jogos de Flamengo e Botafogo que em parceria com a Petrobras e com o Governo do Estado, ampliaram o estádio, construindo arquibancadas tubulares, aumentando sua capacidade para cerca de 30 mil pessoas:

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FOTO 7.
Fonte: site da Arena Petrobrás.

Nos últimos tempos o estádio da Portuguesa realiza jogos, muitas vezes, sem a presença de público devido à falta de algum laudo técnico exigido pela FERJ.

Para 2015, o estádio da Portuguesa ainda precisa regularizar seus laudos para poder receber torcedores. Pelo que consta no site da FERJ, o Estádio, até o momento o Estádio Luso Brasileiro, não apresentou o laudo da Polícia Militar. Já o Laudo da Vigilância Sanitária expira no dia 11 de março e no dia 3 de Abril, expira o Laudo de Prevenção e Combate de Incêndio (LPCI). Na tabela da FERJ consta como liberado somente o Laudo de Vistoria e Engenharia.

Mas como o futebol americano não é modalidade filiada a FERJ e, além disso, as partidas que vi foram realizadas em novembro e dezembro de 2014, o estádio da Lusa pode contar com a presença de público.

BRASIL ONÇAS X SELEÇÃO CARIOCA

A seleção brasileira de futebol americano é bastante recente, sendo criada, em 2007, após a convocação de jogadores para disputar um amistoso contra o Uruguai. A convocação foi realizada pela CBFA (Confederação Brasileira de Futebol Americano) mediante a seleção feita a partir de “diversos torneios interestaduais, testes físicos e da disponibilidade dos atletas de participar.” (Disponível no site da CBFA)

O amistoso realizado na Ilha do Governador é parte do planejamento de treinos visando à preparação para o jogo contra o Panamá, no final de Janeiro, e que tem o objetivo de definir qual seleção ocupará a última vaga para a Copa do Mundo, que se realizará provavelmente nos Estados Unidos, já que a Suécia desistiu recentemente da empreitada.

O futebol americano tem se popularizado, no Brasil, sobretudo, nos últimos 10 anos. Segundo Rodrigo Pons, em seu trabalho “Futebol americano no Brasil: Um estudo com inspiração etnográfica sobre as práticas de consumo“ seriam três os fatores que possibilitaram o crescimento do futebol americano no Brasil: “Transmissão televisa do esporte, interesse pessoal e internet” (2013, 78)

No caso do papel da Televisão, destacam-se as transmissões em TV aberta da Rede Bandeirantes e da Manchete, na década de 1980, de partidas de jogos da NFL e, posteriormente, nos anos de 1990, as transmissões da ESPN. O interesse pessoal foi um importante motivador da criação de times por inciativa de indivíduos apaixonados por essa modalidade esportiva. Já a internet “facilitou e massificou a troca de informações entre os praticantes e interessados no futebol americano no país. A internet também disponibilizou acesso a notícias, táticas e treinamentos de maneira rápida e sem custos” (2013, 86).

Creio que há outro fator que pode ser relevante nesse processo de popularização do futebol americano, no Brasil, e que diz respeito às parcerias que os times tradicionais de futebol têm feito com as equipes de futebol americano. É o caso do Vasco da Gama Patriotas que nasceu de uma parceria do Vasco com o Patriotas RJ. Flamengo, Botafogo e Fluminense também possuem seus times e o mesmo se vê em clubes de outros estados como Corinthians e Curitiba.

O maior público de uma competição de futebol americano no Brasil, por exemplo, foi registrado no estádio Couto Pereira na final do Brasil Bowl II, no jogo entre o Coritiba Crododiles x Fluminense Imperadores. Foram mais de sete mil espectadores.

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FOTO 8.
Fonte: site do Globo Esporte.

Creio que essa vinculação a times de futebol com adesão clubística já consolidada pode possibilitar mecanismos de identificação com o público e abrir caminhos para o futebol americano no Brasil.

Digo isso por mim mesma. Parte do interesse e vontade de ir ao amistoso do Brasil Onças X Seleção Carioca nasceu no dia 13/12 quando assisti muito atenta a final do Torneio Touchdown entre Vasco Patriotas e T-Rex. Eu somente assisti a esse jogo porque um dos times representava o Vasco.

O Vasco venceu e provocou em mim um inusitado interesse por futebol americano, como nunca havia sentido, e que me fez pesquisar um pouco sobre o tema e descobrir que na Ilha do Governador se realizaria um amistoso entre a Seleção Brasileira de Futebol Americano contra a Seleção Carioca.

Ambos os times seriam compostos por jogadores que atuam no Vasco. Portanto, quando eu mesma me perguntei: o que você vai fazer nesse jogo? Lembrei do torneio Touchdown e do Vasco Patriotas e rumei para a Ilha do Governador.

Chegando ao estádio, me espantou ver que não havia nenhuma faixa ou cartaz indicativo de que ali haveria um amistoso entre a Seleção brasileira de futebol americano e a seleção Carioca. Mas a presença de pessoas vestidas com camisas de futebol americano de clubes cariocas me fez ter certeza de que estava no lugar certo. O ingresso para a partida custava R$ 10,0 e durante os intervalos seriam realizados sorteios de brindes para o público presente. Público composto basicamente por familiares e amigos dos jogadores que estavam em campo.

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FOTO 9.

Passei parte do tempo tirando fotos e me divertindo com a narração do jogo que podia ser ouvida nas arquibancadas através de duas caixas de som que durante os intervalos também tocavam músicas. Parte dessa narração servia para esclarecer alguns lances do jogo, o que foi importante para pessoas que como eu desconhecem grande parte das regras do futebol americano.

A narração foi bastante descontraída e marcada por comentários engraçados que muitas vezes ironizava algumas dificuldades técnicas encontradas para se narrar a partida. Dificuldades como, por exemplo, enxergar o número da camisa dos atletas e consequentemente seus nomes. Muitos comentários também demonstravam que o narrador possuía um convívio próximo com jogadores ou membros da comissão técnica.

O narrador em questão chama-se Merlin Calazans que também é jogador de futebol americano e que costuma ser convidado para narrar jogos de times de futebol americano do Rio de Janeiro. Trata-se, portanto, de uma figura bastante conhecida no universo do futebol americano no Brasil.

Esse universo, ao que parece tem dimensões reduzidas e que ainda carece de investimento, afinal é válido lembrar que se trata de uma modalidade amadora, no Brasil. Tal condição amadora se reflete em grande medida nas condições de prática do esporte, marcadas por certo nível de improviso:

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FOTO 10.

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FOTO 11: o garoto do placar.

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FOTO 12.

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FOTO 13.

Partidas como essa são marcadas por certa informalidade que pode nos permitir entrar em campo, por exemplo, e assistir de perto o jogo e o entorno:

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FOTO 14.

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FOTO 15.

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FOTO 16: Seleção Onças.

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FOTO 17: Seleção Carioca.

E antes de ir embora consegui uma curiosidade que foi deixada no gramado: o playbook da seleção carioca. O Playbook é um livro que contém  todas as jogadas usadas pelo ataque e defesa durante as partidas de futebol americano. A primeira página do playbook da equipe carioca foi dedicada à apresentação de algumas regras básicas de conduta dos jogadores:

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FOTO 18.

Nesse Playbook há um item especialmente destinado aos cuidados com a Seleção Brasileira:

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FOTO 19.

O futebol americano é um jogo que se mostra muito tático e estratégico. Não sem motivos, o restante das páginas do playbook guardavam o planejamento de jogadas:

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FOTO 20.

E minha saideira foi gloriosa, com uma foto ao lado do técnico da Seleção Carioca e do Vasco Patriotas:

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FOTO 21.

FRONTELMO, Paulo. Futebol Americano no Brasil. Estratégias e Limitações no país do Futebol, Revista Digital – Buenos Aires – Año 11 – N° 102 – Noviembre de 2006.Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd102/futebol.htm

PONS, Rodrigo Vieira de Souza. Futebol americano no Brasil. Um estudo de inspiração etnográfica sobre as práticas de consumo. Dissertação de Mestrado, Instituto de AdministraçãoCOPEAAD, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013.

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2 comentários em “Numa tarde de domingo: futebol americano no estádio luso-português

  1. Excelente postagem! Inclusive me identifiquei. Pois aos poucos venho acompanhando esse esporte além do meu circuito alternativo pelos estádios da vida. Concordo contigo sobre a adesão por meio de identidade clubísticas, eu mesmo, passei a me interessar por causa do Flamengo.

    Recentemente fiz uma matéria sobre o primeiro time de futebol americano criado em São Gonçalo/RJ http://esportegrafia.blogspot.com.br/2014/12/o-1-time-de-futebol-americano-de-sao.html?m=1 depois fiz uma pequena entrevista com o capitão da equipe (também está disponibilizada no blog), e venho mantendo contato com o time a fim de testemunhar seu progresso e também com o intuito de compreender melhor esse esporte. Além da parte prática, os jogadores tentam se unir fora de campo para ter como papo em comum, o FA. No próximo Supr Bowl, o capitão do São Gonçalo Shadows e eu, estamos organizando uma maneira para que (quase) todos possamos assistir o Super Bowl e ele me disse que há muita gente intressada e que nem faz parte do Shadows.

    E assim vai intensoficando o gosto pelo esporte, com a internet testemunho pessoas comprando camisas e outros produtos referente ao Futebol Americano, importando em sites internacionais.

    Pois bem, até a próxima partida!

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