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Ode a São Sebastião, ou o embate sagrado: Sebastiao x Paulo

                             saint paul

Tenho saudades do Torneio Rio – São Paulo…

Sempre achei uma competição charmosa. Sim, porque no fim das contas, é disso que se trata o futebol profissional no Brasil… medição de forças entre os estados mais poderosos economicamente: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Com RJ e SP quilômetros à frente dos demais, obviamente.

Estados como Mato Grosso, Amazonas, Acre, Santa Catarina, etc. inexistem nessa relação desigual de forças. Torna-se praticamente impossível para os clubes destes “distantes” lugares, manterem sequer os melhores jogadores que por lá surgem, e que acabam sendo logo vendidos para os “grandes centros” nacionais e internacionais. Quanto mais montar boas equipes, bem entrosadas. Esse círculo vicioso, mantido por gigantescas (e inexplicáveis, diga-se de passagem) somas monetárias, faz a alegria de empresários mundo afora. Mas o assunto aqui não é o mercantilismo futebolístico, e sim a comparação entre as Unidades Federativas, especialmente as duas mais importantes: RJ e SP.

Abre parênteses: Continuo prestigiando congressos, seminários, encontros e debates diversos das ciências humanas, e, a cada palestra a que assisto, mais desapontado fico com o FBAPÁ “festival de besteiras que assola o país” (PONTE PRETA, S. 1966). Tudo o que ouço são aforismos, “achismos”, opiniões, “pavonices”, vaidades, palavras levadas ao vento, com raríssimas exceções.

Então, acredito que seja por minha formação economicista marxista leninista, tenho a estranha mania de tentar sempre fugir do lugar comum das opiniões e tentar trazer dados, números à discussão. Claro que números também são manipuláveis, podem ser desencontrados, métodos estatísticos podem variar. Nesse quesito, lembro-me de uma ocasião específica em que estive assessorando um aluno da Universidade de Harvard em visita científica ao Rio de Janeiro. Fomos procurar iminentes expoentes das ciências sociais, para trazer alguma luz à sua pesquisa sobre as favelas da cidade. Após várias entrevistas, em que cheguei a atuar como intérprete, dada a dificuldade de alguns dotores a sustentar a conversação em ingrêis, o frustrado aluno me confidenciou: “Chega de entrevistas… vamos nos ater aos questionários. Eu achava que os professores tinham dados, mas eles só têm opiniões”. Indeed…

Assim, vejamos, para basear o primeiro parágrafo, sobre as desigualdades regionais, o PIB de alguns Estados Brasileiros :

UNIDADE FEDERATIVA                      PIB EM REAIS                             PARTICIPAÇÃO NO PIB NACIONAL
São Paulo                                             R$1.248 trilhões                                      33,1%
Rio de Janeiro                                     R$ 407 bilhões                                         10,8%
Minas Gerais                                       R$ 351 bilhões                                           9,3 %
Rio Grande do Sul                             R$ 252,5 bilhões                                        6,7%
Paraná                                                  R$ 217 bilhões                                            5,8%
Bahia                                                     R$ 1554 bilhões                                          4,1%
Santa Catarina                                   R$ 152,5 bilhões                                          4%

Percebe-se porque o Estado de SP é tratado diferenciadamente, em comparação com as outras unidades federativas: porque é realmente diferente, e me dói muito reconhecer isto. Porém, o fato deles serem mais ricos não quer necessariamente dizer que sejam “melhores”.

Vejamos o número de títulos nacionais em competições de futebol profissional por estado :

COPA DO BRASIL CAMPEONATO BRASILEIRO
UF Campeões Vices UF Campeões Vices
SP 08 04 SP 18 20

RS 06 04 RJ 14 06

RJ 04 07 RS 05 07

MG 04 01 MG 02 08

PE 01 01 PE 01 00

SC 01 01

PR 00 02 PR 02 01

BA 00 01 BA 01 01

CE 00 01 — — —

DF 00 01 — — —

GO 00 01 — — —

(desisto, não consigo fazer esses números ficarem um embaixo do outro… o sistema aqui não aceita a tabela que fiz… e cansei de tentar.)

Conforme esperado, os dados acima demonstram a supremacia dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro no cenário futebolístico nacional. Ainda que existam raras e notáveis exceções, como os modestos clubes São Caetano e Santo André(SP), Atlético Paranaense (PR), Criciúma (SC), etc. que em certos momentos tiveram dias de glória nacional, a discussão acaba resumida, massivamente, aos 08 “grandes” clubes do “eixo” Rio-São Paulo. Senão, vejamos:

Copa do Brasil (25 edições)…………………….SP: 06/25 + RJ: 04/25 = 10/25 = 40%

Campeonato Brasileiro (43 edições)………. SP: 18/43 + RJ: 14/43 = 32/43 = 74,4%

Poderia recorrer a outros exemplos para demonstrar este meu ponto de vista discriminatório, arcaico, economicista e comedor de criancinhas… Sem desviar do assunto futebol profissional: Os tão exaltados campeonatos europeus, por exemplo: Espanha (Real Madrid e Barcelona); Itália (Milan, Internazionale e Juventus); Inglaterra (Arsenal, Liverpool, Manchester).

Bem, preciso citar mais exemplos? Fazer gráficos? Deu pra entender ou tem que desenhar?

Não estou aqui cometendo a gafe do reducionismo econômico puro e simples, como tanto nos adverte a Santa Inquisição, ops, digo a Academia. Trata-se apenas de observação. Nada impede que jogadores e dirigentes apaixonados por sua cidade natal consigam montar um bom plantel, um esquadrão imbatível, incorruptível e sem olhos para as seduções financeiras do Capetal (pé de pato mangalô três vezes! Bato na madeira!). O que se vê é que tal fato é extremamente improvável. Como as chances de um cometa chocar-se com o planeta Terra, ou de um raio cair duas vezes no mesmo lugar.

Por quanto o cenário a médio prazo associa fortemente a captação de recursos dinheirísticos ao desempenho da equipe. Infelizmente. E estamos sob os auspícios de São Franklin, e de seu bispo local, reverendo Clube dos 13…

1996 Hundred Dollar Bill

É.., ficou faltando falar do torneio RJ X SP. Percebi agora… Fica pra próxima oportunidade.

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