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Moneyball: amadorismo, tradição e clichês cinematográficos

Moneyball é mais um filme sobre esporte? Sim e não. Apesar de ter como tema de fundo o beisebol, a película toca em temas mais universais, como a nostalgia, o ideário romântico, o lugar do dinheiro nas atividades sociais e os sucessos e fracassos da vida e como lidamos com eles. Obviamente muitos outros filmes de esporte utilizaram-se dessa fórmula para atrair o público não-aficionado por esporte: falar do esporte, mas, ao mesmo tempo, abordar questões que o perpassam e que permitem reflexões profícuas.

Em Moneyball, Brad Pitt interpreta Billy Beane, o gerente da equipe de beisebol Oklahoma A’s. Logo no início, vemos que o time acabara de perder as finais do campeonato anterior e estava prestes a se desfazer de seus três melhores jogadores. Como tratava-se de um clube de baixo orçamento, repor essas estrelas é o verdadeiro desafio movente nas primeiras cenas. A situação para contratação dos reforços é friamente exposta por Billy em uma de suas falas: “O problema é: tem times ricos, times pobres, aí tem 10m de bosta, e depois é onde estamos. É um jogo injusto. Fomos ferrados. Doamos nossos órgãos para os ricos. Boston fica com nossos rins, os Yankees com coração, e vocês ficam aí sentados, falando sempre a mesma coisa, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Como se quiséssemos o Fabio. Temos que pensar de outra maneira! Somos os últimos colocados. Sabem qual é o resultado? A morte!”

A frase acima contém pistas para vários desdobramentos que ocorrem no filme. Billy fala diretamente aos olheiros da equipe, que trazem inúmeras sugestões de atletas para as posições carentes no elenco. O problema é que a insatisfação de Billy é muito maior do que com essas carências. Ele se incomoda com a forma como o negócio “beisebol” é gerido tanto em seu clube como na liga como um todo. O auge de sua insatisfação atinge o olheiro-chefe, que acaba sendo demitido por discordar e desrespeitar as escolhas de Billy para montagem da equipe. Há em Billy certa dualidade de sentimentos em relação ao esporte em que trabalha. Ainda que demonstre amar o beisebol, foi este mesmo esporte que o impediu de cursar Stanford. Quando jovem, ele teve de escolher entre jogar pelo Mets ou ir para a faculdade. Optou pelo primeiro e, como tantas outras promessas do esporte, viu sua carreira não deslanchar como os olheiros previam.

A segunda pista contida no excerto acima refere-se a mudança que Billy pretende implementar no jogo. Para tanto, ele contrata Peter Brand, após conhecê-lo em uma negociação de jogadores em Cleveland. Peter, assim como Billy, não estava confortável com a situação gerencial do beisebol nos EUA: “O sistema atual do beisebol tem falhas, e ainda não perceberam isso. Ou seja, os grandes times colocam ex-jogadores para gerenciar suas equipes […] Os administradores dos times de beisebol acham que o objetivo é comprar jogadores. Seu objetivo não deveria ser comprar jogadores, mas sim comprar vitórias. Para isso, precisa comprar pontos. Tiveram que substituir o Johnny Damon. O Red Sox de Boston vê Damon como uma estrela que vale US$ 7,5 milhões por ano. Quando vejo Johnny Damon… O que eu vejo é… Um entendimento ruim de onde vem os atletas. O cara está em uma ótima equipe, um batedor decente. Mas vale US$ 7,5 milhões por ano para o Red Sox? Não. A mentalidade do beisebol é medieval. Estão fazendo as perguntas erradas. E se eu falar isso para as pessoas, elas iam zombar de mim, ou me ignorariam. É por isso que eu falei isso com você. Que fique claro, eu lhe respeito, Sr. Beane. E pra ser sincero… Acho que está fazendo o melhor possível.”

Peter é um jovem economista formado em Yale. Um tanto acima do peso, Peter não pode ser confundido com algum ex-jogador de beisebol, o que de fato ele não é. Porém, ele tem uma visão clara sobre como o esporte deveria ser gerido. Baseado em planilhas com dados sobre todos os atletas, ele acredita que pode prever as melhores contratações para cada posição, fazer prognósticos sobre os resultados do campeonato e fornecer dicas aos jogadores para melhorar seus desempenhos – e, ao final, conquistar o troféu do campeonato em disputa. Como veremos no filme, o plano é eficaz e, de certa forma, conquista bastante êxito. No entanto, o fator humano, isto é o relacionamento interpessoal, a motivação, a capacidade de negociar, não pode desaparecer totalmente do esporte, nem mesmo pelo método de Brand.

Não tenho a intenção de contar o final do filme nem dar mais detalhes sobre o seu desenrolar. Entretanto, quero ressaltar alguns pontos para discussão. O primeiro deles diz respeito há uma dicotomia clássica em filmes de esporte, que vou denominar de amadorismo x profissionalismo. Essa dualidade encontra uma série de desdobramentos, mas, no caso de Moneyball, se faz mais presente na questão financeira. Há uma forte ênfase no salário dos atletas, mas, ao mesmo tempo, vemos como o valor que lhes é pago adquire posição secundária diante de outros fatores. Melhor explicando: jogadores recebem salários diferentes de acordo com o seu desempenho no momento em que assina o contrato por determinado clube; no entanto, a estratégia do Oklahoma A’s mostra que o dinheiro não é tudo no esporte: Billy contrata jogadores a baixo custo e consegue extrair o melhor deles. A meu ver, essa é uma das mensagens implícitas no filme. Outro ponto diz respeito à tradição. O esporte contemporâneo vive um constante dilema entre modernizar-se ou manter antigas práticas. No filme, essa questão está representada pelo debate entre os olheiros e Billy com seu plano baseado em estatísticas. Ao final, acredito que a resposta esteja em uma relativização das duas posições: utilizar os dados, mas sem esquecer dos seres humanos. O plano somente decola quando Billy e Peter passam a dispor de seu tempo para conversar com os jogadores e expor-lhes onde poderiam melhorar.

Por último, gostaria de sublinhar que amadorismo x profissionalismo e tradição x modernidade são temas constantes na produção cinematográfica sobre esportes (não estou fazendo julgamento de valor sobre esse uso, até por acreditar que essas são questões essenciais para a compreensão do esporte na atualidade). De cabeça, me lembro dos seguintes filmes que fizeram uso desses “clichês” do gênero: Heleno, Chariots of Fire (Carruagens de Fogo), The Babe (Ânsia de viver), Trouble with the curve (Curvas da Vida), Field of Dreams (Campo dos Sonhos), Jerry Maguire (Jerry Maguire: A grande virada).

Ah, e para quem não conhece a história real na qual o filme é baseado e desejar saber se o “plano” de Billy e Peter realmente “mudou o jogo”, recomendo que assista ao filme. Não darei mais spoilers aqui.

*Trailer Oficial Legendado:

**Mais informações e curiosidade podem ser conferidas no IMDb.

***Encontrei também o livro homônimo, que fala da história real de Billy Beane.

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3 comentários em “Moneyball: amadorismo, tradição e clichês cinematográficos

  1. O filme realmente tem seus clichês, de qualquer forma, o assunto relatado realmente mudou o jogo. Times grandes e pequenos aplicam essa teoria, e foi essa teoria que levou o Boston RedSox a ganhar o titulo da World Series em 2004 depois de uma seca de mais de 80 anos. Esse período sem título era conhecido como “The Curse of the Bambino” ou seja, maldição do Bambino, pois leva o nome de um dos maiores jogadores de todos os tempos que o Boston vendeu para o Yankees depois de conquistar um campeonato em 1918. A seca durou mais de 85 anos.

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