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A “Ginga” em debate

No final do mês passado tive o prazer de comparecer no III Seminário Internacional do NEPESS para apresentar uma análise, que estou desenvolvendo junto com Ronaldo Helal, sobre o filme “Ginga, a alma nacional” em uma das mesas temáticas coordenadas pelo gentil colega André Couto.

O documentário produzido por Fernando Meireles é um clássico exemplo do discurso retórico do futebol-arte e da mítica capacidade dos brasileiros para praticar o esporte. Com um enredo que relata a experiência de dez pessoas habilidosas com a bola, mesclando realidades sociais distintas de jovens desconhecidos, inclusive mulheres, e até mesmo do atleta profissional Robinho, o filme entrecruza diferentes trajetórias de paixão pelo futebol com supostos elementos de nacionalidade.

A idealização de que o brasileiro nasceu para o futebol, bem como a cultura nacional, possibilita a arte de “gingar” e é passada sem questionamento ao longo do documentário como se fosse uma realidade coletiva.

Os dez “malabaristas” da bola não são apresentados apenas como exceções entre os 180 milhões de brasileiros, mas espelham teoricamente o que seria o padrão nacional de habilidade e qualidade do futebol brasileiro.

O historiador Luiz Carlos Ribeiro Santa’na também escreveu uma instigante resenha sobre o filme para a obra Esporte e cinema: novos olhares, organizado por Victor Melo e Maurício Drumond.

Essa questão da capacidade inata do brasileiro em ser craque de bola vem atormentando muitos pesquisadores que tentam estudar seriamente o objeto esporte no âmbito acadêmico. Nos grupos de estudo de esporte, diversas discussões versam sobre os malefícios que essa construção mitológica faz para o campo de estudos e os problemas causados na própria propagação dessas ideias no âmbito acadêmico.

Para o senso comum a visão lúdica de que o brasileiro é um povo diferenciado que possui o dom para jogar futebol, bailar e  jogar capoeira é muito sedutora e cativante, porém a reprodução destes estereótipos entre pesquisadores do esporte pode ser extremamente nociva para a legitimação da temática nas diversas áreas das Ciências Humanas.

Neste sentido o próprio coordenador deste grupo já escreveu um artigo para a revista da ESPM contestando diversos mitos em torno do futebol brasileiro, e participou de um programa televisivo sobre o drible em que praticamente teve de fazer o papel do chato acadêmico que nega a folclórica relação do passo do miudinho com a invenção do drible.

A manutenção desta tradição inventada nos termos cunhados por Hobsbawn e Ranger em sua clássica obra A Invenção das Tradições pelo discurso jornalístico está diretamente relacionada nos seus primórdios ao artigo “Football- mulato” escrito pelo sociólogo Gilberto Freyre em 1938 durante a Copa da França que estabelece um elogio de louvor a uma suposta forma distinta do miscigenado jogar bola encarnado no sucesso do craque Leônidas da Silva durante o torneio.

A construção de uma representação de Futebol-arte a partir desta semente freyreana e com a amplificação surgida através da clássica obra de Mario Filho “O Negro no futebol brasileiro”, além dos cinco títulos mundiais conquistados pode ter ajudado na manutenção desta ideia no imaginário coletivo ao longo do século XX, mas será que ainda se pode reproduzir acriticamente estas fantasias mitológicas a respeito do drible, da ginga, da capoeira, do miudinho ensejando uma naturalização do jeito “brasileiro” de jogar futebol.

Entendo que os elementos culturais de um país podem influenciar no predomínio de determinados esportes e práticas corporais, porém estabelecer relações diretas entre os estilos de jogo de seleções profissionais e a própria essência do povo brasileiro me parece tentar “tapar o sol com uma agulha” em uma discussão muito mais complexa e trabalhosa.

Perceber que os jornalistas continuem a reproduzir esses estereótipos nacionais em suas matérias cotidianas pode ser até mesmo aceitável do ponto de vista comercial, afinal eles estão contando fábulas que os adultos gostam de ouvir, porém a propagação destas ideias na Academia é uma cicuta que continua envenenando o trabalho acadêmico sobre esporte.

Que venha o remédio socrático da humilde discussão especulativa embasado pela cientificidade da empiria aristotélica e a escolha de uma metodologia moderna  cartesiana nos estudos contemporâneos sobre futebol e esporte para efetivamente conseguirmos com muita ginga teórica driblar a banalização da visão romântica de uma cultura nacional própria unicamente caracterizada pelo lúdico, improviso e alegria.

*O documentário completo pode ser visto aqui.

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Um comentário em “A “Ginga” em debate

  1. Olá, Álvaro:

    Parabéns pelo post. Esta discussão está sempre up to date no jornalismo esportivo. Pena que com pouca reflexão. Futebol-arte, legítimo futebol brasileiro, jeito brasileiro de jogar são construções históricas e sócio-culturais que permeiam as mídias e o senso comum.
    Chatos somos nós que contestamos estas representações (rsrsrsrs).

    Um grande abraço,

    André Couto

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