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Maradona – uma reverência além do Bem e do Mal

Maradona morreu. Tristeza no mundo futebolístico, comoção em diversos locais do planeta, pauta midiática em todos jornais e programas televisivos, o eterno retorno de polêmicas insolúveis e por vezes fatigantes como o gol de mão contra a Inglaterra na Copa do Mundo de 1986, a comparação com Pelé, a questão das drogas, a rivalidade entre brasileiros e argentinos, suas relações pessoais com diversas personalidades etc.

Temas importantes da vida desse grande personagem real que foi o craque argentino, um ídolo que transcende o universo esportivo na Argentina e entre apaixonados por futebol. Entretanto nesse post não pretendo continuar reproduzindo mais do mesmo ou estereótipos como fizeram recentemente diversos jornalistas e até mesmo pesquisadores da área. De uma conversa com um aluno sobre Nietzsche em sala de aula virtual na semana da morte do jogador, veio a ideia de escrever algo distinto sobre esse super-homem real, cheio de virtudes, contradições, vícios e paixões.

Paulo César Caju afirmou em interessante artigo que Maradona não está acima do bem e do mal e que a idolatria, inclusive de brasileiros, seria exagerada. Se colocou na contramão da maior parte das reverências feitas com a coragem que lhe é peculiar. Filosoficamente, não necessariamente pode estar acima, mas pode ter ido além, em outra esfera, assim como, na minha opinião, o próprio Garrincha, que ele, Paulo César, menciona como referência de gênio e ídolo nacional.

Para alguns, ele seria um Deus, como julgam os adeptos da Igreja Maradoniana, para outros um símbolo pueril de resistência progressista anti-mercantilização. Apesar de ter sido amigo de Fidel, ter apoiado no Brasil Lula, na Bolívia Evo Morales, também esteve próximo de Carlos Meném, da máfia italiana e se utilizou muito do marketing mercadológico para vender produtos na Argentina e no mundo todo e para alavancar uma carreira de técnico sem nunca ter sido efetivamente reconhecido pela sua qualidade para essa profissão. Eu tenho na minha coleção a camisa abaixo que foi comprada em um bar de esportes “Locos por Fútbol’ que ficava localizado na frente do cemitério Recoleta em 2000. Vejam que belo símbolo de mercantilização progressista.

Camisa de Maradona / Che – Fútbol Revolución – Acervo pessoal do autor

Para mim, Maradona foi um gênio que, a partir da perspectiva filosófica de Nietzsche, se coloca além do bem e do mal, ou seja, uma fusão de Apolo e Dionísio que teria sido quebrada pelo Sócrates filósofo, um homem que não seguiu nenhuma moral de rebanho na sua vida pessoal e que profissionalmente se destaca pela sua arte ao jogar futebol de forma lúdica, improvisada, técnica, mas também pela sua grande força física.

Passou pelas três metamorfoses de Zaratustra: camelo em 1978 suportando o corte da seleção campeã na Copa realizada no seu país, leão ao lutar bastante durante a Copa da Espanha em um momento de luto do país com a traumática derrota na Guerra das Malvinas e o espírito de uma criança para trazer a esperança de uma vida nova e conquistar a épica Copa do Mundo de 1986.

Após ter passado uma infância difícil e uma careira futebolística brilhante transformou-se em um crítico veemente de alguns valores burgueses e de instituições poderosas como a FIFA, associando sua popular imagem a diferentes líderes políticos, mas continuou a viver intensamente suas paixões, seus vícios, as amizades e o futebol.

Podemos considerá-lo um niilista moderno que inspirou até uma seita de adoradores que ainda não acredita que “Deus está morto”, pois não foram os homens que mataram Maradona. Seria o Anticristo por inspirar uma nova seita marginal mas midiática?

A idolatria por esse verdadeiro homem que rompeu os valores impostos pela sociedade, que não se acomodou com a glória das conquistas, que superou sempre a dicotomia maniqueísta agostiniana do Bem e o Mal, é legítima. A maior parte dos indivíduos permanecem carneiros no rebanho em função de uma submissão irrefletida aos valores dominantes da civilização moderna. Maradona não foi carneiro, também não foi Deus, nem diabo, vilão e nem mesmo herói, por mais que venham citar a trajetória de Joseph Campbell em trabalhos acadêmicos sobre ele.

Diego foi um ser humano que viveu intensamente seus sonhos e pesadelos, autêntico e apaixonante não só pela sua habilidade em campo ou pelo número de gols e scouts modernos, mas pela representação simbólica de seus atos fora de campo. Seus gols e declarações eram como aforismas de Nietzsche – “Ouse conquistar a si mesmo” talvez tenha sido sua maior derrota em função das drogas, mas sua vida foi repleta de vitórias brilhantes.

Para muitos, ele não é um exemplo de moralidade, seria um viciado, ex-presidiário, que ao longo da sua vida teve diversos comportamentos anômicos; para outros, ele é um deus, gênio, até um símbolo de resistência revolucionária. Maradona não pode ser visto apenas por um lado da moeda da existência , ele não está acima de tudo, mas está além do bem e do mal como jogador e ser humano.

Não descanse em paz. Parta para algum lugar com serenidade, mas também com a mesma intensidade que viveste.

– Deus está morto. Viva perigosamente! Qual o melhor remédio? Vitória! (Friedrich Nietzsche)

Como a morte de Maradona está repercutindo nas redes sociais | Exame
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Em busca da “viveza criolla”. Uma viagem de brasileiros “locos por fútbol”.

Eu tinha acabado de retornar de um Congresso em Buenos Aires, a CLACSO, onde tive a oportunidade de assistir dois jogos do futebol argentino, All Boys x Atlanta no Estádio Islas Malvinas e Argentino Juniors x Talleres de Córdoba no Estádio Diego Armando Maradona e relatei ,entusiasmado, essas experiências futebolísticas em um chopp natalino de final de ano com amigos da adolescência.

Obviamente conversamos muito sobre futebol e mais uma vez Pancinha idealizava uma viagem épica, vários amigos juntos em Buenos Aires para assistir partidas do futebol argentino celebrando a vida. Muitas vezes tínhamos falado sobre isso em diversos eventos, proposta inspirada em uma reportagem do jornalista PVC (Paulo Vinícius Cordeiro) lida pelo Pança faz muitos anos sobre os estádios argentinos, mas confesso que achei que mais uma vez a epopeia futebolística se desmancharia no ar ou na ressaca do dia seguinte.

Algumas semanas depois veio a convocação com uma mensagem de um novo grupo de whatt´s app, “Buenos Aires somos nozes”. Pancinha já tinha pesquisado a tabela, selecionado a “fecha” ainda no torneio em curso e comprado a sua passagem. Era o pontapé inicial para a formação da equipe. Como não gosto muito de grupos de zap, confirmei minha presença com o capitão e providenciei minha passagem quando apareceu uma promoção, mas fiquei acompanhando com certa distância digital as diversas discussões, pilhas, sugestões, stickers que diariamente eram colocadas no grupo.

Após dois meses de expectativa e milhares de mensagens até a chegada do esperado embarque em um voo matutino, cheguei na capital argentina junto com o amigo de infância Gugu, e encontramos na imensa fila da alfândega Russo, grande amigo dos tempos da faculdade e das peladas na Praia Vermelha e em campos cariocas e seu sobrinho Felipe, representantes gaúchos de Pelotas.

Fomos para a concentração em um hotel bem localizado, próximo do elegante e turístico bairro da Recoleta. Miga, vindo de São Paulo já estava na área desde o dia anterior e nos acompanhou na primeira resenha feita com ótima carne e um bom vinho em uma “Parrila” próxima do hotel.

O Capitão Pança chegou a noite. Três atletas: Dodô, Fred e Pagode tiveram o voo cancelado e quase desfalcam a equipe, mas com muita raça e insistência de pagodeiro que vive de tocar nos bares e passar o chapéu conseguiram vaga em outro avião e chegaram no dia seguinte.

A expectativa era grande e nesta primeira noite fomos jantar na Pizzaria El Cuartito, tradicional local de referência ao futebol. boxe e ao cinema, com muitas camisas, pôsters, flâmulas onde se respira a paixão argentina por esses três fenômenos culturais de massa.

FOTO PIZZARIA EL CUARTITO
Fonte: turismo.buenosaires.gob.ar

O dia seguinte começou com grande expectativa. Gugu acordou cedo e foi a “cancha” do Vélez onde se informou que os ingressos seriam vendidos apenas no dia do jogo, mas que era tranquilo de conseguir. Foi também na loja do Racing “Locádemia” garantir os ingressos que faltavam para a partida mais esperada no mitológico Estádio El Cilindro em Avellaneda. O outrora zagueiro/zagueiro partiu para o ataque e marcou um belo gol para a equipe.

O almoço em um pequeno restaurante tradicional pelas suas empanadas próximo ao famoso Hotel Alvear teve como garçons um lento sósia do Messi e outro que agitado debatia sobre futebol com turistas brasileiros de diferentes mesas. Entre “empanadas”, bifes de chorizo, milanesas, papas e Quilmes estávamos resolvendo se iríamos a uma partida em La Plata do Gimnasia. Cerca de uma estimativa de duas horas de “trancón” até o estádio e uma “suadeira” do capitão nos desanimaram a assistir o primeiro jogo da rodada.

No final da tarde de sexta toda a equipe estava reunida e a primeira confraternização geral foi em uma pizzaria próxima ao hotel as 20:30, com direito a muito vinho e fatias de diversos sabores, inclusive de alho. (Felipe, Barrinho, Pancinha, Gugu e Pagode. Russo, Dodô, Júlio, Fred, Fritsch e Zito). Técnico Miga. Tenho orgulho dessa equipe e também estava junto na jornada com muito entusiasmo, cerveja, vinho e até gim que me derruba.

O dia seguinte seria intenso e apesar de muitas “saideiras” em bares próximos na Recoleta a maior parte retornou cedo para descansar pois uma van passaria “temprano” para nos buscar para o primeiro jogo da histórica jornada de sábado no Estádio José Malfitani do tricolor Velez.

Às 9 da manhã todos estavam no saguão do hotel esperando nossa condução para um estádio clássico que foi utilizado no mundial de 1978 e localiza-se em uma zona de classe média afastada do centro chamada Liniers.

No caminho minha cabeça parecia uma banda de “cumbia”, a ressaca me consumia, decididamente queimei a largada, mas, estava feliz de acompanhar a equipe.  Enquanto a maioria se divertia e cada nova “ruta” merecia um alegre comentário, observava uma curiosa simbiose de pessoas muito diferentes em vários aspectos, que fazem parte da minha vida de alguma forma, e que neste momento estavam unidas em torno uma mesma paixão, o Futebol.

A chegada na porta de “El Fortin” foi apoteótica. Conseguir os ingressos na bilheteria com relativa facilidade ainda mais emocionante, passar nas roletas do tradicional estádio, uma sublime emoção.

A maior parte dos integrantes da equipe já esteve em grandes “arenas”, em modernos estádios nas últimas Copas do Mundo, ou capitais europeias, mas o olhar apaixonado parecia revelar um ‘fato social”  desde a infância. Tanto quanto, a Educação, o idioma pátrio, uma religião familiar ou o próprio heterônomo Direito, a paixão pelo futebol no nosso país parece uma verdade absoluta imposta através de uma memória coletiva e de uma “tradição inventada” e alegremente recepcionada em todas as classes sociais inclusive nas mais altas , a qual esse seleto grupo pertence.

Lembro das muitas bandeiras tricolores do Velez, do calor sufocante no estádio e embaixo delas mais bandeiras, de gritos da “hinchada”, dos abraços entre os integrantes da equipe principalmente no intervalo, de um copo de Pepsi quente mesmo sem beber refrigerantes fazia tempo com Hot-dog frio, de montanhas no horizonte e de uma breve discussão no final da partida com “hermanos”. Sobre o jogo contra o Atlético Tucuman, pouco, um habilidoso meia que acho que fez um dos gols da vitória e muita correria e virilidade.

Reunimo-nos eufóricos na frente do “El Fortin”. Óbvias fotos turísticas, abraços verdadeiros, sorrisos infantis após uma partida que não nos dizia nada, mas, simbolizava tudo. Um sonho realizado pode ser maior que múltiplas realidades. O capitão Pancinha parecia um Monarca Javanês ao juntar a equipe rumo ao seu destino mais importante.

Avellaneda, subúrbio da capital portenha, unitarista Buenos Aires,  inglesa/criolla, belíssima cidade dos Morenos, Rivadavias, Purreydóns, tantos unitaristas que prezavam a cultura europeia, o iluminismo e as alianças com a cultura do colonizador talvez não esperassem que o futebol, fruto posterior da dominação inglesa seria resignificado neste continente pelo pueblo “criollo”.

Pero, antes uma pausa para boa Parrilla. O almoço foi em ótimo restaurante. Entre bifes de “chorizo”, papas, “sonrisas”, entrecotes, cervezas y vinos, Ronaldo ou Cristiano Ronaldo? Não me lembro mais os argumentos, mas sei que não foi batalha colonizado x colonizador, ainda bem. Nesse tema futebolístico, felizmente a questão ainda é relativa aos sentidos. Entender pelo sentimento o que é belo, justo, ou apaixonante depende dos sentidos como já dizia o filósofo Kant. Quem é melhor: Ronaldo, Cristiano Ronaldo, Messi, Zico, Maradona, Pelé, Garrincha. Leônidas, Di Stéfano depende do sentir, do viver e das emoções e não da razão. Ou seja, ninguém estava errado, muito menos certo.

Almoçar um churrasco clássico me fez bem.  O trajeto para o mitológico estádio “El Cilindro” do Racing Club também. A maior parte da equipe estava calada apreciando o visual e fazendo a digestão. Cruzar a bela capital, passar próximo do turístico bairro de San Telmo, e avançar  por pontes e vias secundárias  que dão acesso ao tradicional subúrbio, berço de dois dos maiores campeões argentinos, Independiente e Racing está registrado para sempre na minha nebulosa memória.

Uma rivalidade histórica: Vermelhos x Azuis me remete sem obviamente ter nada a ver a tradicional simbologia desde Juan Manuel Rosas, Federalistas x Unitaristas.  A rivalidade também é muito grande. Aconselharam-nos evitar “remeras” rojas, muitos do grupo adoraram, mas o fato é que a proximidade da “Garganta del Diablo” para “El Cilindro” é incrivelmente impressionante. Eu já conhecia o Estádio do Independiente e tinha sentido esta sensação incrédula de ver dois grandes estádios de equipes rivais do mesmo bairro posicionados a menos de 500 metros. Avellaneda respira futebol, rivalidade e alteridade.

A chegada no Estádio com os devidos passaportes e identidades foi revigorante. Mesmo com as misturas etílicas do dia anterior, a intensidade de assistir uma partida que começou as 11 horas da manhã com sol radiante e uma bela carne argentina na barriga, o sentimento de estar adentrando no mitológico “El Cilindro” lotado é inefável. Novamente parecíamos adolescentes, com muitos sorrisos, abraços e olhos arregalados

FOTO EL CILINDRO
Fonte: Acervo pessoal do autor.

O Racing era o líder do campeonato argentino e disputava com o surpreendente Defensia y Justicia o título após muitos anos na fila. A partida era contra o modesto Belgrano de Córdoba. A expectativa era muito grande, famílias, “barras bravas”, turistas como nós conviviam harmonicamente em uma turba pacífica que esperava assistir uma vitória do Racing independentemente de qualquer espetáculo.

Não conseguimos assistir juntos, os ingressos eram em locais distintos da imponente arquibancada. Me recordo de uma arquitetura rústica com imensos degraus e poucas saídas. O azul e branco majestoso é dominante tanto no concreto, quanto nas camisas. Os cânticos ininterruptos e ensurdecedores, uma energia contagiante. O gol da partida e da esperada vitória veio logo no início da partida pelo veterano Lisandro Lopes e a explosão no estádio foi realmente apoteótica. Eu estava sozinho, na confusão da entrada que ocorreu próximo ao início do jogo curiosamente me perdi de todos meus companheiros de viagem, mas abracei e fui abraçado por muitos “hinchas”. Uma verdadeira catarse no “Cilindro” com um minuto de jogo. O domínio do Racing continuou intenso na primeira etapa, inclusive com bolas na trave, mas meus olhos ficaram vidrados em uma das mais belas cenas que já vi dentre os muitos estádios que conheci.

Na parte de baixo do estádio que recorda a antiga geral do Maracanã, muitas crianças brincavam, jogando com bolas e latas em uma estrutura plana a beira do gramado.  Um grande cachorro preto que participava da brincadeira também chamava a atenção. O jogo rolava, o Racing se aproximava de um esperado título, mas a cena que me marcou e também muitos dos amigos que estiveram presentes nesse espetáculo popular/futebolístico foi a inocente “pelada” dos pequenos “hinchas”.

No intervalo encontrei Pagode na imensa fila do banheiro e consegui assistir com alguns dos meus companheiros que estavam na mesma arquibancada, mas no último degrau. A segunda etapa foi tensa, O Racing recuou, o Belgrano surpreendentemente melhorou bastante e destarte a mitologia atribuída aos “hinchas” argentinos de nunca pararem de gritar, pelo menos na parte que nos cabia naquele latifúndio do futebol raiz, um silêncio avassalador perdurou durante boa parte do segundo tempo.

O Racing conseguiu manter o resultado e a saída do estádio foi muito empolgante. Os cânticos voltaram, os torcedores se abraçavam, o título estava praticamente definido.

Voltei para o ponto de encontro com mais alguns companheiros e fiquei à  contemplar o belo movimento que é a saída de uma torcida vitoriosa de um estádio. Isso me parece que é uma espécie de código universal. A energia e alegria de qualquer comunidade imaginada de torcedores ao sair após importante vitória da sua equipe é sempre um momento mágico.

Em plena Avellaneda ocorreu um desencontro. Alguns membros da equipe saíram por outra saída e não conseguiam chegar ao ponto estabelecido. A própria van estava sem referência. Caminhamos pelos arrabaldes e acabamos esperando tanto os demais companheiros, quanto o motorista da van em frente a um “Quiosco” entreaberto.

Foi um interessante momento de confraternização. “Hablamos”, bebemos e interagimos com moradores locais que  independentemente da opção clubística acharam muito bacana nossa experiência. Quando todos chegaram e o motorista com a van, tudo estava pago, só nos restou dizer “Gracias”.

No retorno ao hotel uma mistura de cansaço com satisfação. Foi uma jornada incrível. Um sábado inesquecível com múltiplas emoções que ainda não tinham acabado. Do saguão as 23:30, vagamos pela Recoleta buscando alimentação. A vida noturna era intensa, mas precisávamos de comida. Lugares cheios, turísticos, paramos em um restaurante que eu conhecia e tinha sido bem agradável em outra ocasião. Porém dessa vez o “hambúrguer do soninho” não agradou a maioria. Eu comi um bom sanduíche de jamón serrano e apreciei novamente o local, mas a dica não foi bem avaliada pela maioria.

É difícil viajar em grupo. Já trabalhei como guia de turismo, inclusive em uma Copa do Mundo na França, mas não gosto de viagens estilo CVC e felizmente não foi o caso. Achei que teríamos muitos outros problemas em função da diversidade do grupo em muitos sentidos. Entretanto o que predominou foi a harmonia e uma interação anímica em função do futebol e da verdadeira amizade entre muitos dos participantes. Foi um sábado futebolístico inesquecível.

Domingo despertou a equipe aos poucos. O sentimento de plenitude estava entre todos, mas faltava um objetivo para alguns dos integrantes. River x Independiente no Monumental de Nuñez era uma importante partida da rodada no palco da final do mundial na Argentina. Ninguém tinha ingresso e muitos retornavam no mesmo dia. Liderados pelo capitão Pança acreditamos que como ambas as equipes não tinham mais chances de título, seria tranquilo conseguir ingressos mesmo que fosse com cambistas.

A maior parte do grupo foi almoçar no bairro de Palermo. Alguns conseguiram reserva na tradicional churrascaria Dom Julio. Eu acabei almoçando junto com Pança, Russo, Barrinho e Felipe no restaurante em frente que tinha muitas camisas, flâmulas e fotografias, etc. Chegou a me recordar o clássico restaurante “São Cristóvão’ em São Paulo,na rua Aspicuelta, mas com acervo de cultura material futebolística muito menor; Também comemos bem. Não deve ter sido o êxtase gastronômico compartilhado por alguns, mas era um bom ambiente para nossas expectativas, pois nós queríamos apenas comer bem e partir para as imediações do Monumental.

Zito juntou-se a nós 5 e fomos em dois táxis até o residencial bairro de Nuñez, próximo do Rio da Prata. Paramos e caminhamos uns 15 minutos até a proximidade do estádio. Como já imaginávamos não tinham ingressos nas bilheterias. Não pagamos ingressos superfaturados nos sites especializados e decidimos nos arriscar nesta jornada. Um torcedor “gallina” local falou que os cambistas se concentravam em uma praça próxima, mas observou que era arriscado.

Apesar da advertência prosseguimos e chegamos na referida praça. Rapidamente fomos identificados como turistas e devidamente abordados. A negociação foi confusa, mas rápida. A troca do dinheiro pelos ingressos também. A aposta estava feita entre garantias, risadas e até o telefone para contato na próxima Copa América em visita a praia de Copacabana. A “viveza” criolla nos foi apresentada não nos gramados do Monumental, mas do lado de fora.

No caminho para as bilheterias nos deparamos com algumas barreiras e constatamos que o ingresso do Pança seria em outra parte do estádio. A palavra “trucho” ecoou quando passamos da primeira fiscalização, mas fomos autorizados a prosseguir.

Após caminharmos uns 200 metros e chegando próximo ao estádio, a confirmação do papelão que fizemos. Ingressos “truchos”, falsos. Ainda tentamos argumentar que gostaríamos muito de assistir, se podíamos ficar com os ingressos “pero” melhor vazar.

Recordo pelo menos um minuto caminhando cabisbaixos em silêncio. Após um sábado épico de intensas emoções, fomos invadidos por um sentimento de estarmos sendo derrotados sem nem ao menos termos entrado em campo. O simples ingresso na “cancha” representaria mais uma conquista, mas retornávamos eternos metros olhando as expressões de torcedores felizes que iriam assistir ao clássico.

Zito pegou um táxi correndo para o hotel, pois ainda retornava no Domingo. Nós quatro ainda esperamos Pancinha cerca de uma meia hora em um café próximo a primeira barreira. Não passava o jogo em nenhum bar, não vendia bebida alcoólica e o gosto do café estava amargo assim como a frustração de não ter assistido uma partida no Monumental.

Lembrei do Centro de Memória da ESMA. Em que direção estava? Para os prisioneiros do “Processo” o sentimento de estar perto, mas bem distante obviamente era muito pior que os simples fato de ter sido enganado. Tentava lembrar com raiva da fisionomia dos cambistas, mas por qual razão? Demos mole. Trouxas! Aprendam com a derrota.

Decidimos partir para próximo do hotel e ainda encontramos outros integrantes da equipe no Pub “Locos por Fútbol” assistindo o jogo no qual deveríamos ter entrado. Pancinha já estava lá. Chegara na roleta, a última etapa mas a máquina identificou que era falso e após breve confusão teve que sair rapidamente também.  Ainda vimos parte do segundo tempo, quando o River atropelou e se não me engano venceu por 3×0 entre alguns pints de boa cerveja artesanal. Para os que ficaram o jantar foi uma boa pizza novamente no bairro de Palermo.

Como eu só voltava no final da tarde de segunda, ainda tive tempo para deixar uma cópia do meu livro sobre o Mundial da Argentina na Biblioteca Mariano Moreno. Fui muito bem recebido por uma funcionária que ,além de me agradecer pela doação, conversou bastante sobre suas distantes lembranças daquele junho de 1978. Fiquei feliz em retornar cinco anos depois em um local onde fui muito bem recebido, onde passei muitas horas por dia durante uma semana para fazer o levantamento do material para a minha tese. Fui preenchido por um sentimento de felicidade, nostalgia e etapa cumprida.

Uma histórica viagem estava chegando ao fim.  Assim como boas peladas que jogamos ao longo da nossa vida, vivemos intensamente vitórias e derrotas em um curto espaço de tempo. Conseguimos reunir 13 apaixonados por futebol e pela vida em uma jornada improvável. Gugu ainda partiu para a cancha do Huracán enquanto eu me dirigi para Ezeiza.

Este ano o destino seria o outro lado do Rio da Prata. Assistir o clássico Penarol e Nacional na quarta rodada do segundo turno, além de mais uma partida do campeonato uruguaio e viver novamente a paixão futebolística com foco na “garra charrua” já estava sendo planejado para o segundo semestre.

Infelizmente um vírus, a pandemia global, a necessidade de isolamento social, a suspensão dos eventos esportivos adiaram a realização da viagem, mas não afetaram a paixão, amizade, memória positiva e a esperança de reunirmos novamente em uma “trip” futebolística um incrível grupo de “locos por fútbol”.

Realizar sonhos improváveis é viver o melhor possível. Em um momento de confinamento e reflexão, estar escrevendo sobre o prazer e a benção de poder viajar nessas condições me faz respirar, e agradecer por estar vivo. Montevidéu qualquer dia estaremos aí!

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