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As Neymarzetes e os usos da diversidade no futebol*

Domingo estive no estádio de São Januário. Mais uma vez me defrontei com uma senhora, cujo nome preservarei, que há muito tempo vinha despertando minha curiosidade. Em todos os jogos que o Vasco disputou no Rio, lá estava ela com sua bolsa a tira colo, sentada quietinha no meio da torcida.

Ontem finalmente tomei coragem e fui conversar com ela. Fiz algumas perguntas básicas que somente objetivavam matar minha curiosidade de saber um pouco de sua história. Ela me disse que frequenta os estádios desde a década de 1950. E frequenta para ver o Vasco. Chegou a fazer parte da torcida Organizada Força Jovem e viajou muito para acompanhar os jogos do Vasco. Hoje em dia com 78 anos se sente cansada e sem fôlego para tanta aventura. Mas faz questão de ir aos estádios do Rio quando há jogo do time cruzmaltino.

Como torcedora e pesquisadora de futebol fiquei fascinada.

Voltei para casa. À noite, um dos assuntos abordados no programa Fantástico da Rede Globo foi referente às “Neymarzetes”. Ou seja, meninas, mulheres que se dizem fãs de Neymar e o seguem nos estádios segurando faixas e cartazes cantando o amor pelo craque do Santos. Uma das mais empolgadas das Neymarzetes tinha em suas costas uma grande tatuagem de Neymar. Perguntada se gostava de futebol, ela respondeu: “Não. Comecei por causa do Neymar. Não torço para nenhum time. Agora sou santista por causa do Neymar. Olhei para o Neymar na internet e foi amor à primeira vista. Todo o jogo, em qualquer estádio do Brasil, tem um monte de menina gritando ‘Neymar’. São as ‘neymarzetes’”,”

Trata-se de uma relação com o futebol absolutamente oposta à da senhora torcedora que encontrei em São Januário. É certo que faltou, na minha breve conversa, buscar saber os caminhos que fizeram o Vasco cruzar e permanecer na vida dessa senhora de cabelos brancos, que muitas vezes depois de um gol esboça apenas um leve sorriso. O que há de certeza no pouco que pude ouvir – e ver – é que para esta senhora de 78 anos, sua relação com o futebol é claramente mediado pelo clube Vasco da Gama. Sendo assim é muito provável que nesses anos de vida, ela tenha assistido a muitos jogadores que atuaram no Vasco da Gama. Alguns bons, outros nem tantos. Muitos passaram, o que permaneceu foi o Vasco.

No caso das Neymarzetes é tudo bem diferente. Nesse fenômeno, não é perceptível a presença do que Arlei Sander Damo denomina de “pertencimento clubistico” entendido como um “espectro do torcer, um segmento público militante, não necessariamente pela frequência aos estádios, nem mesmo pelo vínculo a grupos organizados, mas pelo engajamento emocional. À diferença dos simpatizantes, que escolhem o time para o qual irão torcer conforme as circunstâncias, e por vezes conveniências (…) os aficionados seguem uma mesma agremiação durante a vida” (Do dom à profissão. 2007, p. 52).

“Não torço para nenhum time. Agora sou santista por causa do Neymar”. Assim disse uma das Neymarzetes.

Isso me faz lembrar o hino do Grêmio: “Até a pé nós iremos, para o que der e vier/Mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”

O hino das Neymarzetes poderia ser uma adaptação (ou deturpação?): “Até a pé nós iremos, para o que der e vier/Mas o certo é que nós estaremos com Neymar, onde o Neymar estiver”.

Para muito torcedor e especialmente para muitas mulheres que querem se livrar do estigma de não entenderem de futebol e de se interessarem mais pelos jogadores do que pelo clube, as Neymarzetes podem ser compreendidas como uma espécie de deturpação do ato de torcer.

Qual versão escolher?

Este texto não tem como objetivo emitir uma opinião ao estilo: isto é certo ou isto é errado.

A pretensão é pensar os vários modos de se relacionar com o futebol. E hoje em dia a diversificação dos modos de fruir esse esporte se relaciona a uma gratadiva espetacularização que produz tanto Neymarzetes quanto fomenta a criação de um fórum brasileiro denominado Torcida Feminina do Chelsea. Ou mesmo a  comunidade brasileira “Torcida Femina do Chelsea” que conta com cerca de 4.300 membros e que tem como perfil:

We’ll keep the Blue Flag Flying High!

Se você olha as comunidades do Chelsea e diz: Aff, só tem macho!

Se você estraga seu esmalte de nervoso nos jogos dos Blues.

Se ao invés daquele vestido que é o máximo, sua roupa favorita é a camisa do Chelsea.

Se para todas as suas amigas JT é Justin Timberlake, e pra você é John Terry.

Se quando você nasceu sua mamãe te vestiu de rosa, mas agora Blue is the Colour.

Esse é o seu lugar! Torcida Feminina do Chelsea.”

Com diferenças de graus, nas diversas manifestações, o futebol se faz presente. Afinal Neymar é um astro cuja fama poderíamos comparar a alguns astros do cinema e da novela.  Mas Neymar é um astro do futebol. E para entrar nessa constelação ainda é necessária uma certa habilidade para se jogar a pelota. Portanto de algum modo o futebol se faz presente.

*O título do post foi inspirado no texto de Clifford Geertz, “Os usos da diversidade”.

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