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A Superliga de 48 horas e uma nova posição sobre a polêmica de 1987

Imagine que um grupo de clubes europeus (uns 12 ou 16) encaminham, em conjunto, a seguinte mensagem para a UEFA:

“Não temos mais interesse em fazer parte do sistema sob a sua gestão. Vamos fundar uma liga à parte e passaremos o ano disputando um campeonato nosso. Podem excluir os nomes de nossos clubes de suas competições: Champions League, Europa League, FA Cup, Copa do Rei, etc”.

Evidentemente, é um direito deles.

Mas se esses clubes, ao fazerem isso, provocam uma onda de revolta em seus próprios torcedores, podemos concordar que trata-se de uma decisão pouco inteligente.

Foi mais ou menos o que aconteceu com o anúncio da superliga europeia, no último dia 18 de abril. 

Formar uma liga à parte, do modo como foi ensaiado, significa pôr-se fora de competições tradicionais, que despertam sentimentos poderosos nos torcedores. Foi essa perspectiva que fez eclodir até manifestações de rua (em especial, dos britânicos).

Tabela 1
Fonte: Imagem enviada pelo autor

Escrevi um artigo sobre a ideia de uma superliga global, que estava sendo cogitada. Foi publicado neste blog no dia 5 de abril. Nesse artigo, está dito que “a tendência na governança esportiva global é a da unidade” e, seguindo essa tendência, a superliga global “provavelmente não será afrontosa à FIFA”. De modo surpreendente, optaram por serem afrontosos. Muito afrontosos. Liderados pelo presidente do Real Madri, os doze clubes decidiram apressar a marcha e pisar duro. Repentinamente, anunciaram a criação de uma superliga europeia não negociada com a UEFA ou FIFA. A superliga global viria depois de algum tempo, talvez. 

Importante repetir: repentinamente e não negociada. Isto é, foram à guerra. Mas sem apoiadores poderosos que estivessem dispostos a se manifestar abertamente e, pior, sem contar sequer com a adesão de suas próprias torcidas. Parece que algum estrategista não calculou bem. O vídeo em que o proprietário do Liverpool se desculpa com torcida foi o momento mais constrangedor da derrocada dessa superliga, que existiu por 48 horas ou menos.

Tabela 2
Fonte: Imagem enviada pelo autor

Entre os atletas também houve preocupação. Perceberam que poderiam ser alijados de competições importantes, o que diminuiria a sua visibilidade e seus ganhos econômicos. Sentiram-se inseguros.O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, também se manifestou contra a superliga. Tudo desabou em torno de Florentino Perez, que permanece, insistente, acreditando no projeto que acalentou. 

As desistências dos clubes da superliga vieram rapidamente, uma após a outra. E essas desistências fizeram o projeto recuar, é claro. Mas recuar não é se extinguir. Não é impossível criar uma superliga europeia que consagre a superioridade quase permanente (vide tabelas 1, 2 e 3) dos maiores clubes do continente europeus. E quando se fala em maiores clubes do continente europeu é preciso incluir os alemães, que não estavam presentes nesse primeira tentativa de superliga. Mas criar essa superliga sem antes consolidar o apoio de seus torcedores, sem dar segurança aos atletas, sem garantir o apoio de empresas poderosas (grandes empresas internacionais de comunicação, principalmente) e sem uma boa negociação com a UEFA e a FIFA, será extremamente difícil. Florentino Perez escolheu justamente esse caminho mais difícil.

Tabela 3
Fonte: Imagem enviada pelo autor

* * *

No Brasil, uma repercussão interessante da confusão europeia: surgiu (mais uma vez) um debate sobre o polêmico ano de 1987.

Um número restrito de clubes decide criar uma liga com campeonato próprio e faz isso em afronta a uma entidade reconhecida pela FIFA. Eis o que se passou nesse caso da superliga europeia de 2021 e assim aconteceu também no caso da Copa União de 1987 no Brasil. Uma semelhança visível. Ou não?

Na internet, essa semelhança foi abordada em vários sites. O assunto ganhou visibilidade. E até a Rede Globo decidiu tocar no assunto.

No programa Esporte Espetacular do dia 25 de abril, após uma reportagem sobre o fracasso da superliga europeia, o apresentador Lucas Gutierrez anunciou uma “top 5 de ideias furadas de competições no futebol brasileiro e mundial”. O top 4 foi a Copa União.

A Globo, que por vários anos tratou o Flamengo como o campeão brasileiro oficial de 1987, assumiu outra postura no programa do dia 25. Lucas Gutierrez perguntou: “Diz aí: quem é o campeão brasileiro de 87?”. Logo depois, o mesmo Lucas Gutierrez completou: “Eu não vou meter o meu bedelho nessa história”.

E disse mais: “A verdade é que a Copa União de 1987 foi uma bagunça”. Isso foi dito em um programa da empresa televisiva que mais apoiou a Copa União. Seria uma autocrítica velada?

Foi citada até a esdrúxula situação do Guarani em 1987: o clube, que foi vice-campeão brasileiro de 1986, foi jogado pelo Clube dos Treze no módulo amarelo, que era tratado pelo próprio Clube dos Treze como uma segunda divisão. O apresentador Lucas Gutierrez também fez graça com esse absurdo: “Entendeu? Eu também não”.

E assim o Flamengo perdeu mais uma batalha nessa disputa que pode ser chamada de “Guerra de 87”. O clube de maior torcida do Brasil dizia-se campeão brasileiro daquele ano, mas não disputou a Taça Libertadores da América de 1988 (disputá-la era um direito do campeão brasileiro) e viu a Justiça confirmar, em diversas instâncias, o título de campeão dado pela CBF ao Sport Recife. O que ainda restava aos flamenguistas era o apoio da Rede Globo. Um apoio importantíssimo, por razões óbvias. O Esporte Espetacular nos mostrou que até isso se esvaiu.

Mas há algo que Florentino Perez pode aprender com Márcio Braga e Carlos Miguel Aidar, os dois dirigentes com maior destaque no Clube dos Treze em 1987. Antes de afrontarem a CBF, garantiram o apoio convicto de patrocinadores poderosos e da maior emissora de TV do país (enquanto a Confederação, por outro lado, estava em crise). Foi assim que a Copa União, mesmo em atrito com um órgão reconhecido pela FIFA, se mostrou tão relevante e por tanto tempo. Bem mais tempo que a superliga europeia de 48 horas.

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